Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: linguística

ετυμολογία: προέλευση, τρόπος σχηματισμού και η εξέλιξη μιας λέξης

De onde vêm as palavras dos dicionários? Trá-las a cegonha, como aos bebés

Nuno Pacheco
publico.pt, 17.01.19

 

Não tencionava voltar esta semana ao tema, mas três razões vieram impor-se: os argumentos invocados por alguns comentários à minha crónica anterior; uma notícia da Rádio Agência, de Brasília, sobre o acordo ortográfico; e a edição, recente, de mais um dicionário da Texto.

Comecemos pelos comentários. Num, diz-se que “o AO não é um instrumento perfeito. (…) Que tem bastantes incongruências, é verdade. Que muitas delas podem ser corrigidas, também o é.” Mas alguém as corrigirá? Outro: “Graças a si e aos demais como o sr. pensam e (pior) agem, a língua portuguesa daqui a menos de duas décadas estará num museu.” Engana-se, já está. Em São Paulo. E ainda ninguém se queixou.

Outro ainda: “É pena não ver algo muito mais importante (e preocupante!), que é a (cada vez menos) subreptícia [sic] instalação de anglo-americanismos no discurso diário [PÚBLICO incluído].” Uma coisa não exclui a outra: as aberrações da “nova ortografia” são, aliás, mais recentes do que as modas dos anglicismos (antes foram os galicismos), porque o papaguear “estrangeiro” sempre foi, desde há décadas ou até séculos, forma ridícula de nos imaginarmos “maiores”; enchemos a boca dos valores do Português, mas à mínima oportunidade ignoramo-lo. Isso enquanto permitimos que o Português se deforme até ficar irreconhecível à vista e à fala.

Por fim: “Qualquer entidade pública e até as empresas devia [sic] estar obrigadas por lei a aplicar somente o AO que esteja em vigor!” Pois se assim fosse, aplicariam o AO de 1945, único ainda em vigor por lei. O AO90 foi imposto por resoluções, do governo e da assembleia, e essas, como devia ser claro para todos, não têm valor para revogar tal lei. Fica claro?

Há, no meio de tudo isto, um justo alerta: o “quase desaparecimento do ensino do Latim e do Grego do ensino secundário português, e das consequências desta situação na qualidade do ensino do Português.” É verdade, mas até isso anda associado aos efeitos nefastos do dito acordo de 1990, com a deslegitimação da etimologia em prol da fonética.

Basta ver a mais recente edição do Dicionário da Língua Portuguesa da Texto (já com o AO), das mesmas autoras do Dicionário Verbo de 2006 (ainda sem AO). Num e noutro, não há indicações etimológicas (ao contrário do que sucedia no Universal da Texto de 1995, ou no da Porto Editora de 2009). De onde vêm as palavras? Não dizem. Nem grego, nem latim, nem árabe, nem qualquer língua que haja influenciado a nossa. Podemos talvez arriscar esta explicação patética: Palavras? Trá-las a cegonha, como aos bebés. Tentem agora dizer isso às crianças.

Mas já que falamos deste dicionário, que só por si há-de merecer um texto (não por ele, em particular, mas pelas aberrações que o acordês lhe impõe), registe-se a reabilitação de óptico (relativo à luz, aos olhos, à visão), deixando o ótico aos ouvidos. E sem dupla grafia! Isto contradiz o AO, claro, mas alguém se importa?

Já a secção das “espetadas” ganhou curioso alinhamento. Assim: espetacular, espetáculo, espetada, espetador, espetar, espeto. No Brasil escreve-se espectador, cá não, e o Dicionário deixa isso claro, com um pêzinho ao lado de espetador, indicando que tem “uso privilegiado” [sic] em Portugal. Para quê isto, no entanto, se, como se afirma na Introdução, o AO “prevê o uso facultativo das variantes lexicais europeia e brasileira em todo o espaço lusófono”? Prevê mesmo? Olhe que não.

No site brasileiro Português à Letra (que aplica e pretende “explicar” o AO) diz-se claramente: “Quando duas formas são indicadas como válidas, embora sejam ambas corretas [sic], não são necessariamente recomendadas em todos os países.” E mais adiante: “Por seguirem até agora a mesma norma que Portugal, considera-se que os PALOP e Timor apresentarão formas idênticas [no pós-acordo]. ”

E aqui vem, em todo o esplendor, a monumental farsa que é o AO90. Continuamos a ter duas normas, a portuguesa e a brasileira, e jamais uma ortografia “unificada”. Se tivéssemos mantido as normas portuguesa de 1945 e a brasileira de 1943 podíamos fazer o mesmo exercício, com a vantagem de não termos de ler notícias como a que publicou no dia 10 de Janeiro a Rádio Agência, de Brasília (que transmite as sessões da Câmara dos Deputados): “Não há acordo sobre Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.”

Na reportagem radiofónica (e também escrita), diz-se que o AO “só se tornou obrigatório no Brasil em 2016. Em Portugal e Cabo Verde o acordo também já é obrigatório. Mas isso ainda não ocorreu nos outros países que falam português.” Mais: “Apesar de todos os esforços, não há acordo sobre o AO, nem mesmo no Brasil.” Uma professora de Letras afirma que, “na verdade, não precisaríamos de um acordo ortográfico. (…) É alguma coisa na contramão do desenvolvimento da escrita”; um professor universitário diz, a favor do AO, que este quis “eliminar a duplicidade de ortografias que havia em português” [só que não as eliminou, pelo contrário, mudou-as para pior]; e a presidente da Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados, Raquel Muniz (do PSD) afirma que é este o “momento para revisão da norma.”

Querem parar de brincar com a nossa paciência, de uma vez por todas?

Nuno Pacheco

[Transcrição integral de crónica do jornal “Público”, da autoria de Nuno Pacheco, publicada em 17.01.19. Os “links” a verde são meus. Título do “post” em Grego moderno) composto em: Greek Language Portal. ]

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Más notas em que setor, setor?

Como mais uma vez se constata, a julgar pelo teor “derrotista” do estudo, pelo tom “reaccionário” do artigo e pela chatice que é a chamada “realidade”, o Ensino da Língua Portuguesa, em Portugal e arredores, vai de vento em popa… para o desastre.

A tal aborrecidíssima “realidade” persiste em contrariar as eufóricas afirmações de acordistas militantes, que ele isto agora com o “acordo ortográfico”, dizem, é só facilidades, que a degola de consoantes “mudas”, dizem, torna para qualquer mentecapto muitíssimo mais fácil a aprendizagem do Português, que o AO90 facilita bué, dizem, os estudos das criancinhas, coitadinhas.

E dizem “criancinhas” com quem diz criancinhas ligeiramente crescidas, médicos ou até professores, porque não, ao fim e ao cabo um professor — mesmo ou especialmente um professor de Português — foi também, em tempos, uma criancinha, roçou seus fundilhos nos bancos da escola e ali andou uns anos a levar com as “técnicas pedagógicas” malaquenhas, as “facilidades” acordistas, pois está claro, há que torcer o pepino enquanto é pequenino, mais tarde ele receberá com uma média fantástica seu canudo de professor de skate ou de surf (com especialização em tubos), mestre em estupidificação maciça e doutor e tudo.

Bom, bom, bom, tenhamos tento na bola, já sabemos que os malacaristas abrasileirados, dizem umas alarvidades porque não sabem o que dizem mas sabemos nós que o que eles dizem não se escreve.

 

Futuros professores têm pior desempenho a Português do que aqueles que serão médicos

Clara Viana
publico.pt, 10.01.19

Os alunos que escolhem cursos do ensino superior da área da Educação e esperam, portanto, vir a ser professores, estão entre os que têm pior desempenho a Português, indica um estudo da Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC), agora divulgado.

 

Mais concretamente, os alunos que em 2016/2017 ingressaram em cursos de Educação tiveram uma classificação média de 10,2 valores no exame nacional de Português, ficando em penúltimo lugar numa lista que identifica as dez áreas de formação oferecidas pelo ensino superior. Em último, com uma nota média de 10 valores numa escala de 0 a 20, encontram-se os estudantes que optaram por cursos da área de Serviços (Turismo, Serviço Social, Restauração).

No extremo oposto estão os estudantes que ingressaram nos cursos da área da Saúde, como Medicina, que têm o melhor desempenho a Português: 12,4. Os que ingressaram em cursos de ciências sociais, jornalismo e informação ficam em quarto lugar, com uma média de 11,8.

“Não constitui surpresa. Esta era já uma leitura intuitiva que se fazia a partir das notas mínimas exigidas para determinados cursos e universidades”, comenta a presidente da Associação de Professores de Português (APP), Filomena Viegas, frisando que os alunos para entrarem, por exemplo, num curso de Medicina, “têm de ter resultados superiores em todas as disciplinas para conseguirem chegar à média de acesso que é pedida”. A média de acesso a Medicina tem rondado os 18 valores, enquanto a dos cursos de Educação anda à volta dos 12 valores.

Para chegar aos dados agora apresentados a DGEEC foi analisar quais as classificações obtidas em 2016 no exame nacional de Português do 12.º ano pelos alunos que, nesse ano, ingressaram no ensino superior através do regime geral de acesso. O exame de Português é o único obrigatório para todos os alunos.

O universo abrangido por este estudo foi de cerca de 40 mil estudantes, o que segundo a DGEEC, “representa aproximadamente, 77% do total de ingressos no 1.º ano de cursos de licenciatura e de mestrado integrado, através do regime geral de acesso de 2016/2017”.

Como os dados já referidos deixam antever, os alunos com melhores desempenhos são aqueles que se candidatam a cursos do ensino superior em que o Português não é exigido como prova de ingresso, o que sucede por exemplo na área da Saúde ou das Engenharias. A média no exame de Português para os cursos que não têm esta disciplina como prova de ingresso ronda os 11,9 valores, descendo para 11,3 quando estão em causa os cursos que têm este requisito.

Também na mesma linha pode-se constatar que as melhores classificações médias a Português não se encontram no curso de Línguas e Humanidades do ensino secundário (11,1), mas sim nos cursos de Ciências e Tecnologias (12,2) e de Ciências Socioeconómicas (11,8).

Filomena Viegas adianta que esta é uma situação que costuma ser comentada nas escolas e que a sua origem é também a da pressão que as opções para o ensino superior exerce sobre o percurso dos alunos no secundário: “É um sistema de vasos comunicantes. Os alunos dos cursos de Ciências acabam por ter notas melhores a Português para conseguirem chegar à média exigida para entrarem nos cursos que escolheram”.

O estudo da DGEEC confirma também a tendência de serem as raparigas a obter melhores notas. Em média elas têm 11,7 e eles 11,1. Mas há uma excepção. Entre os estudantes que ingressaram nos cursos da área da Saúde, os rapazes tiveram uma classificação média (12,5) no exame nacional de Português superior à das raparigas (12,4).

Os alunos com melhores médias no exame de Português vêm de escolas secundárias situadas nos distritos de Viseu, Viana do Castelo e Santarém. Na situação oposta estão os estudantes que concluíram o secundário nos distritos de Castelo Branco e Faro e nos Açores.

Fica-se ainda a saber que houve um aluno que entrou no curso de Engenharia da Universidade Lusófona do Porto com nota de 2,6 valores no exame de Português. No conjunto dos 1388 cursos disponibilizados pelas instituições do ensino superior, em 41,6% a média do exame de Português não foi além dos 9,9 valores. As médias mais altas nesta prova foram registadas pelos alunos que ingressaram nos cursos de Medicina das universidades do Porto (16,3) e do Minho (16,2).

[Transcrição integral (incluindo “links” e destaques) de artigo, da autoria de Clara Viana, publicado no jornal “Público” de 10.01.19. Imagem de topo de: “Bartoon” (jornal “Público”)]

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‘Improba vita, mors optabilior’

Irreversível, o acordo ortográfico? Só uma coisa é irreversível: a morte

Nuno Pacheco
publico.pt, 10 de Janeiro de 2019, 7:30
(actualizada às 11:25)

 

Chegado a 2019, o grupo Cofina decidiu estender a aplicação do acordo ortográfico de 1990 (AO90) às restantes publicações do grupo. Já aplicado no Correio da Manhã, no Destak, no Record e na CMTV, ei-lo agora no Jornal de Negócios e nas revistas Sábado, Máxima e TV Guia.

Razões? Porque “é inegável que a sua aceitação está estabilizada e é irreversível”, disse o director do Jornal de Negócios. Já a Sábado, na pequena nota que escreveu sobre o assunto, quis deixar bem claro que “o novo acordo não é perfeito, foi mais político do que técnico, mas é hoje uma realidade incontornável e definitivamente assimilada na sociedade portuguesa”. Mais: “Quando várias gerações de jovens estudantes já estudam por manuais adaptados à nova grafia e toda a administração pública está vinculada a ele, não faz sentido persistir numa atitude de resistência anacrónica.”

Recuando seis anos, há alguma similitude com o argumento invocado pelo Correio da Manhã para “adotar” (sic) o AO90 a partir de 2 de Janeiro de 2013. “Já é seguido nos manuais escolares, nos livros, na legendagem”, diziam. Para concluir: “Nunca seremos um obstáculo à mudança.” Portanto, toca a “tornar a comunicação mais fácil”. Como? Escolhendo o que mais lhes convinha, claro! “Nas palavras que admitem dupla grafia optámos por manter tal como na ‘escrita antiga’.”

Sim? Fizeram-no em pára e “para”. Mas é bom recordar o resto: se entre espectador e “espetador” e ceptro e “cetro” escolheram as primeiras, no mais fizeram o contrário do que prometiam, optando por “aspeto” em lugar de aspecto, “carateres” em vez de caracteres, “receção” em vez de recepção, “perentório” em vez de peremptório, “setor” em vez de sector, sendo os restantes exemplos falsas escolhas, porque apresentavam como “dupla grafia” palavras que nunca existiram em Portugal, sendo usadas apenas na fala e na escrita brasileira: anistia (amnistia), indenizar (indemnizar), suntuoso (sumptuoso), fato (como facto) ou até gênio (génio)!

É isto optar pela “escrita antiga”? Não leram sequer o que escreveram? Não devem ter lido, senão não deixavam passar esta “dupla grafia” extraordinária: “​fémea” [sic] e fêmea. Escolheram a segunda, claro. Aliás, era fácil, porque a primeira não existe em lado nenhum. Ia assim a brincadeira, nos idos de 2013. Agora, por decisão cofineira, alastrou. Teme-se o pior.

Mas, para lá desta mudança, que só irá contribuir para ampliar o caos ortográfico reinante a que alguns chamam “nova ortografia” (embora não passe de uma ridícula mistura de grafias a esmo, sem freio nem norte), pesemos os argumentos. O AO90 é mesmo uma “realidade incontornável e definitivamente assimilada na sociedade portuguesa”? E é verdade que “a sua aceitação está estabilizada e é irreversível”?

Para palavras, antes tivessem escolhido “enfermeiros”, como fez a Porto Editora. Era mais aplicável neste contexto, até porque a ortografia da língua portuguesa, na forma que lhe foi imposta em Portugal (não por lei, mas já lá iremos), precisa mais de cuidados médicos do que de palavras como “incontornável”, “assimilada”, “estabilizada” e “irreversível”. Todas falsas, como a realidade demonstra.

Mas recuemos a 2011, quando o XIX Governo (PSD-CDS) dizia no seu programa que “acompanhará a adopção do Acordo Ortográfico” (assim mesmo, sem AO90, senão teriam escrito “adoção”) com vista à “crescente universalização” da língua portuguesa. Na mesma altura, o então secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, declarava ao Diário Digital: “O acordo ortográfico é uma nova norma do acordo a que se chegou e é para ser implementado. Vamos prosseguir o trabalho de implementação porque é um caminho sem retorno.”

Dois anos depois, já ex-governante, o mesmo Francisco José Viegas afirmava ao jornal Record (25/3/2013): “Já não suporto falar do acordo ortográfico, acho que já ninguém o suporta. Portugal e o Brasil já não suportam o acordo ortográfico. E o que acontece é que para fechar o acordo é preciso fechar o vocabulário. Agora isso ainda não aconteceu. E o Governo anterior quis correr mais depressa, ser pioneiro nessa matéria, e impôs a entrada em vigor para 2012. Sem Angola ter dito que sim e sem o vocabulário estar concluído.”

Chegados a 2019, eis o panorama: o dito “vocabulário” está “concluído”, não um mas vários e contraditórios entre si; Angola, tal como Moçambique, Guiné-Bissau e Timor-Leste não entregaram os instrumentos de ratificação do AO90, logo não lhe disseram “sim”; e o AO90, que inventou para Portugal um grande número de palavras que ninguém aplica noutro país (mudando até muitas que aqui e no Brasil se escreviam da mesma maneira), está “em vigor” por resoluções do Conselho de Ministros e da Assembleia da República, enquanto o acordo de 1945 se mantém em vigor por lei – que não foi revogada, nem podia ser, por resoluções ministeriais ou parlamentares.

A finalizar, e parafraseando Francisco José Viegas, se já ninguém suportava o acordo ortográfico em 2013, o que devemos dizer agora, em 2019? Talvez isto: como várias asneiras outrora cometidas e felizmente corrigidas, esta só espera por um momento de clarividência. Porque irreversível, neste mundo, só mesmo a morte.

Errata: Por lapso (já corrigido), escrevi inicialmente, no segundo parágrafo, Visão onde deveria estar, como é óbvio, Sábado. As minhas desculpas aos leitores e às revistas visadas.

Nuno Pacheco

[Os “links” a verde são meus.]

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Iguais e diferentes ou diferentes mas iguais?

Ossos do ofício, talvez maldição, talvez assombração, que atire a primeira pedra quem nunca errou mas, com mil demónios, assim esgota-se-me asinha o arsenal de impropérios, fica-me o paiol de munições insultuosas às moscas, gasto mais manguitos do que Almada Negreiros e, em suma, acabarei decerto a fazer tijolo com um braço de fora da urna, o dedo médio esticado à laia de dedicatória aos nabos e às nabiças deste cu de Judas à beira-mar plantado.

Repito e reforço: o “Vocabulário de Mudança” é uma coisinha hiper-amadora produzida por meros curiosos que assim, com estas e outras brincadeiras do género, preenchem as suas longas horas de ociosa burocracia levando a monotonia da tarefa a um impensável extremo de inutilidade.

Os funcionários do ILTEC ou do PLP ou lá quem foi que esgalhou aquela porcaria apenas teriam de digitar em  texto uns quantos dados, consistindo estes numa simples lista de palavras a discriminar em três colunas (com uma quarta para eventuais anotações). A avaliar pelo desastre que foi apresentado no “portal” como sendo o produto final e acabado do tal “Vocabulário de Mudança“, nota-se perfeitamente que os dados foram introduzidos por mais do que uma pessoa, cada qual (dados, colunas e pessoas) com seus próprios critérios ou a total ausência deles. Torna-se assim praticamente impossível  — porque são incoerentes os campos preenchidos (ou não) e existem erros na digitação de várias entradas, por vezes em mais do que um campo — proceder a qualquer tipo de tratamento estatístico, 100% exacto, ainda que elementar.

Existe sempre, aqui e ali, ao acaso, uma ou outra palavra que de forma alguma bate certo, seja qual for o ângulo de análise, o tipo de ordenação ou o algoritmo utilizado. Verificada a total ausência de critério(s) e a infinita anarquia na recolha de dados — a cargo do ILTEC — restam apenas duas hipóteses para que de tal amontoado caótico de registos seja possível extrair resultados e, destes, as respectivas conclusões: ou se aceitam os dados como estão, dando-se-lhes um tratamento estatístico homogéneo e “cego”, aceitando os resultados com a inerente (e implícita) margem de erro, ou então ir-se-á corrigindo, a pouco e pouco, os erros de todos os tipos que se forem detectando naqueles mesmos dados. A alternativa a isto seria… preencher de raiz uma base-de-dados, copiando-os da origem um por um.

Evidentemente, a ter de escolher entre um método difícil e falível, mas viável, e um outro que implicaria fazer milagres (como seja esticar a duração dos dias de 24 para 32 horas, por exemplo), pois é claro que optei pela solução possível e menos penosa, em detrimento da impossível e (ainda mais) estúpida. Isto porque, ao fim e ao cabo, é uma absoluta estupidez tentar entender o AO90, ainda que de um ponto de vista meramente estatístico. Aliás, não é por acaso que o tal “Vocabulário de Mudança” está assim mesmo, uma incrível trapalhada: aquilo foi feito “ao abrigo do” AO90 e pretende ser um repositório “técnico” do dito “acordo ortográfico” (que de ortográfico nada tem), portanto dali apenas poderia resultar uma contradição insanável nos termos (literalmente), a verdadeira epítome de oximoro enquanto conceito.

Mas aquelas certamente excelentes pessoas do ILTEC lá continuam a “trabalhar” na coisa, corta daqui, enxerta dali, enchumaça acolá, abate-me ali aquele “C”, que horror, e olha, chiça, esgana-me aquele “P” de “porco”, ah, maldito porco, escapasteS à primeira mas agora já não me fugisteS.

Nem de propósito, acabo de visitar a pocilga e constatei, com esgares de nojo que não vou agora negar, haver por lá uma série de “novidades”: em comparação com a versão de 2017 temos agora menos umas quantas palavrinhas no chiqueiro central (devem ter sido tangidas, roncando, para uma das novas baias, aposto, ou então seguiram para abate, adeus, a esta hora já devem estar feitas em almôndegas) e no próprio recinto foi montada mais uma bancada, por assim dizer, agora já não há só uma, há duas linhas para “notas”, mas que nice. Isto, bem entendido, inutiliza qualquer tentativa de importação directa para folha Excel, mas não tem importância, dá-se a volta à maçada, o que é isso para a gente, fossem as patacoadas todas assim, cousa pouca.

Bom, deixemos — pelo menos para já — em seu amável remanso o Zé dos Anzóis*** do ILTEC, distanciemo-nos de seu merecidíssimo sossego “por defeito“, e vamos nós outros voltar a assuntos sérios, salvo seja, retomando a questão colocada por Maria Regina Rocha: «havia 2691 palavras que se escreviam de forma diferente e que se mantêm diferentes (por exemplo, ‘facto’ – ‘fato’), havia 569 palavras diferentes que se tornam iguais (por exemplo, ‘abstracto’ e ‘abstrato’ resultam em ‘abstrato’), e havia 1235 palavras iguais que se tornam diferentes.»

Recapitulando, já sabemos que

1- O AO90 é um “acordo” em que Portugal cede 100% e o Brasil cede 0% (ZERO): check.
2 – Com o AO90 são INVENTADAS 215 palavras (lemas) aplicáveis apenas a Portugal: check.
3 – Ainda sem check, portanto, vejamos e “checkemos

a) eram diferentes antes do AO90 // mantêm-se diferentes depois do AO90: 21
b) eram diferentes antes do AO90 // ficam iguais depois do AO90: 2884
c) eram iguais antes do AO90 // ficam diferentes depois do AO90: 221
d) eram iguais antes do AO90 // mantêm-se iguais depois do AO90: 2735


Como se pode facilmente constatar, são enormes as discrepâncias entre os números que apurei e os indicados por MRR. Exceptuando os 221 da alínea c), correspondentes a 215 lemas inventados pelo AO90 mais 6 casos específicos (acatalecto, cataléctico, coactar, hidroextractor, hiperdialéctico, obducto), os outros totais são diferentes, em especial o primeiro, que é… muitíssimo diferente: das 2691 entradas indicadas por MRR, eu cá encontrei apenas 21!

Usámos critérios diferentes, só pode ter sido, mas não me ocorre que critérios ou métodos terá a senhora utilizado para contar «2691 palavras que se escreviam de forma diferente e que se mantêm diferentes (por exemplo, ‘facto’ – ‘fato’)».

Terá incluído os casos de acentuação (1945) e os de hifenização (1087), mesmo havendo 58 entradas com hífen e acento? Não, não pode ter sido isto; na esmagadora maioria dos casos a acentuação e a hifenização levaram com o camartelo acordista, os que ficam iguais ao que eram são, como tudo o mais, os que ditam brasileiros.

Terá assumido que as 2683 entradas assinaladas com “Na prática, a situação anterior não muda” eram mesmo casos reais de ortografias diferentes antes e depois do AO90? Mas… a questão nem se coloca, que diabo, aquilo é tudo mais do mesmo, são principalmente casos de acentos que eram diferentes (é/ê, etc.) ou que foram abolidos pelo AO de 1945 (o trema, por exemplo) mas dos quais o Brasil mantém o poder exclusivo de manter ou retirar.

Terá considerado os (780) casos em que no Brasil havia (em teoria) dupla grafia? Mas, precisamente, esta é mais uma das gigantescas aldrabices do AO90 e não corresponde de todo à verdade!

Aliás, nem de propósito, será este quadro de resultados — 780 teóricas duplas grafias brasileiras que Bechara y sus muchachos apenas permitem em Portugal se forem iguais às deles, na prática — o  que analisaremos em detalhe proximamente. Esses resultados e os seguintes já incluirão as alterações que o ILTEC tem andado a esgalhar nos últimos dois anos.

Infeliznente, este livro não pode ser vendido no Brasil. Porquê? Por causa do #AO90! Justamente. Exactamente. Efectivamente.https://aventar.eu/2014/10/24/chomsky-e-houaiss/amp/

Publicado por Francisco Miguel Valada em Quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

A coisa promete, por conseguinte, mais um fartote de rir. Tudo, absolutamente tudo neste “acordo” da treta não passa da imposição selvática — apesar das promessas de políticos aldrabões, passe a redundância, e das mentiras descabeladas de mercenários vendidos ao Brasil — da cacografia brasileira em Portugal e nos demais países da CPLP.

*** É “curioso” que exista (um caso de entre vários) a entrada “zé dos anzois” (agora sem acento, para que o Zé não tenha pinta) mas que, “misteriosamente”, não exista coisa alguma sobre “anzóis”.

[A imagem de topo é uma composição produzida a partir de um original da autoria de Lauri Donovick publicado na página “Portugato” (Facebook).]

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Seu Marcelo no brásiu falando dji porrtugau, viu, qui légau

https://www.facebook.com/moraremportugal/videos/564709383941219/

As queixas de Pepetela e a boa opção da Forbes

Sendo ano de eleições, 2019 é também boa oportunidade para decidir de vez o destino da aberração que é o acordo ortográfico.

Nuno Pacheco

“Público”, 3 de Janeiro de 2019

Como de costume, o Pai Natal estava bem-disposto. E ocupadíssimo. “Feliz Natal!”, disse ele à criança pelo telefone. “Como te chamas?” A criança disse. E quando se preparava para pedir o presente, ouviu do outro lado da linha: “Criança, ainda acreditas em Donald Trump? É que aos sete anos já é raro acreditar nele, não achas?” A criança não achava nada, queria passar ao tema seguinte. Mas o Pai Natal, com a pressa, nem lhe falou do muro do México.

A história passou-se mais ou menos assim, em finais de 2018, embora com os protagonistas trocados. Mas o que é aqui mais relevante é a importância das crianças de 7 anos – idade da menina Collman Loyd, da Carolina do Sul, a quem Trump perguntou se ainda acreditava no Pai Natal, “raro nessa idade”, ao que a criança respondeu que sim, tanto que lhe ia deixar biscoitos e leite com chocolate para quando passasse lá por casa; o Pai Natal, não Trump.

Mas voltando às crianças de 7 anos, também por cá elas serviram de mote a uma “prenda” que caiu como pedra afiada nos nossos sapatinhos há uns anos. Não sei se se lembram, mas o texto dizia assim: “De facto, como é que uma criança de 6-7 anos pode compreender que em palavras como concepção, excepção, recepção, a consoante não articulada é um p, ao passo que em vocábulos como correcção, direcção, objecção, tal consoante é um c? Só à custa de um enorme esforço de memorização que poderá ser vantajosamente canalizado para outras áreas da aprendizagem da língua.” Isto foi o que se escreveu, e pode ler-se, na Nota Explicativa que acompanhava o “Acordo Ortográfico” de 1990 (AO90), no seu ponto 4.2, alínea c (Diário da República, I Série-A, n.º 193, 23-8-1991). Portanto, antes de Trump, Pais Natais à parte, já o português Malaca Casteleiro tinha dedicado a sua atenção às pobres criancinhas daquela vulnerável faixa etária, salvando-as do horror das consoantes mudas e outros males da complicada grafia portuguesa. O problema é que estes anos de “salvação” redundaram em desastre. Nunca se escreveu tão mal e misturando tantos maus critérios, fingindo seguir uma norma que é em si mesma uma não-norma, pois tem tantas grafias duplas e facultatividades que o erro se tornou banal e integrado na escrita comum. Esse foi, aliás, o móbil inconfessado da lógica acordista: afastar o peso da ortografia padrão e sujeitá-la ao livre-arbítrio. Isto a coberto de uma “simplificação” que na verdade apenas complicou, porque barrou o passo ao caminho natural das variantes da língua falada e escrita: a admissão das diversidades nacionais sob uma mesma designação, a de Língua Portuguesa.

Tudo o que, entretanto, se pôs em marcha para aferir os resultados do dito AO90 continua a marcar passo. Falta o relatório da comissão parlamentar, faltam decisões de outros órgãos institucionais com o dossier entre mãos, faltam posições claras por parte das organizações partidárias. O regresso a uma ortografia estável é o mínimo que pode exigir-se, hoje, diante do incomensurável disparate desta aventura. Que raros políticos dêem a cara pelo “acordo”, com argumentos, diz bem do valor que lhe é atribuído, uma coisa que se tolera (sem se saber bem porquê) e que só se mantém pela inércia. Sendo um ano de eleições, 2019 é também boa oportunidade para decidir de vez o destino da aberração que é o acordo ortográfico.

Recentemente, o escritor angolano Pepetela afirmou ao Jornal de Angola não se sentir confortável com o facto de as suas últimas obras terem sido editadas em Portugal com o AO90, até porque, sendo membro Academia Angolana de Letras (que se manifestou contra este acordo pedindo ao governo angolano que não o aplique), será “uma incongruência”. A sua posição é, aliás, idêntica: “As línguas evoluem, mas eu não apoio essa nova versão.”

Seria útil um pequeno inquérito para saber quantos editores pressionam os autores que publicam a sujeitar-se ao AO90, mesmo contra a vontade inicial destes. Serão muitos, com certeza. Enquanto isso, há que saudar publicações como a Forbes que, surgindo agora em edição portuguesa, ignora o AO90 e é escrita em bom e claro português europeu. Que pode, e deve, subsistir a par do português brasileiro e os das variantes africanas ou orientais que estão a impor-se na fala e na escrita: é essa a riqueza da Língua Portuguesa, não outra.

Voltando ao início: se fosse no Brasil, seria Papai Noel. Lá, “Pai Natal” não existe mesmo.

nuno.pacheco@publico.pt

[Artigo de Nuno Pacheco, “Público”, 3 de Janeiro de 2019. “Links” meus.]

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Dicionários em acordês? Servem nos “dabliúcês”!

Aviso higiénico

O artigo seguidamente transcrito contém falas, ditos e piadas (foleiras) que podem irritar gravemente as meninges das pessoas normais. A mais do que óbvia manobra publicitária para vender papel higiénico acordista (passe a redundância) pode, pela sua toxicidade, originar situações de agressividade nos mais susceptíveis. Não me responsabilizo por quaisquer danos que os leitores possam provocar, como consequência da leitura e em reacção (natural, compreensível) às insanidades ali regurgitadas, nos seus teclados, ecrãs de computador, cadeiras ou mesas de trabalho e demais utensílios de trabalho (ou lazer). Desta vez, em suma, o Governo não adverte coisa nenhuma, sou eu mesmo quem adverte o pessoal: pessoal, tenham lá calma, ok? Não se enervem. Como podem ver ali em cima, naquele anúncio, o papel higiénico de marca branca está caro, caríssimo, pela hora da morte. Haja poupança, com mil raios, salvemos umas árvores, ou assim, vamos lá dar alguma serventia ao papel acordista.

 

Dicionários em papel para quê? (e para quem?)

Dão-nos informação completa e de confiança e são instrumentos imprescindíveis para qualquer falante de uma língua, sobretudo em ambiente pedagógico. A Texto Editora lançou há pouco tempo o Dicionário da Língua Portuguesa — Léxico, Gramática, Prontuário. Para alunos, professores e para quem não se contenta com a superficialidade dos dicionários online.

Rita Pimenta (texto) e Miguel Feraso Cabral (ilustração)
“Público”, 30 de Dezembro de 2018

 

“Um bom dicionário em papel é o poema primitivo da língua”, diz a escritora Lídia Jorge. “Uma alegria”, segundo a editora e escritora Maria do Rosário Pedreira. “Um companheiro”, afirma o tradutor Francisco Agarez. Afirmações retiradas da divulgação pela Texto Editora do novo Dicionário da Língua Portuguesa.

“Verbetes”, “lexicografia” e “contexto frásico” fazem parte da linguagem específica dos dicionaristas. Há palavras “difíceis” no depoimento conjunto que Aldina Vaza e Emília Amor, autoras do recentemente lançado Dicionário da Língua Portuguesa — Léxico, Gramática, Prontuário (Texto Editora), nos fizeram chegar por correio electrónico. Caso escape ao leitor o significado de algum vocábulo ou expressão, sabe o que tem a fazer: consultar um dicionário. Em papel.

Porque é de linguistas que se trata, respeitámos[nota] a grafia escolhida por estas profissionais que há mais de 20 anos se dedicam a coligir e descodificar as palavras que nos ajudam a comunicar. Assim sendo, a prosa que surgir nas respostas segue o Acordo Ortográfico de 1990, a outra, não. Um espelho actual das letras portuguesas.

Mas comecemos pela resposta de Carmo Correia, directora de Edições Escolares da Leya (que integra a Texto), quando se lhe pergunta se ainda vale a pena publicar dicionários em papel. “Obviamente que sim. Os dicionários online disponibilizam habitualmente uma informação mais curta do que os dicionários em papel. E, sobretudo, são utilizados para uma consulta mais rápida, mais imediata. A existência deste dicionário em papel justifica-se por se tratar de uma obra que apresenta uma informação mais completa, para uma consulta menos superficial.”

Esta responsável informa que a tiragem inicial do dicionário foi de 2 mil exemplares e diz que quem compra dicionários em papel são “os professores, os alunos, os encarregados de educação, os profissionais da língua — jornalistas, escritores, tradutores, editores, … — e as pessoas que, de um modo geral, pretendem conhecer e usar correctamente a língua portuguesa”.

Carmo Correia diz ainda que “este dicionário tem uma vocação escolar assumida”. Pelo que “os programas e metas curriculares do ensino básico e do ensino secundário e o Dicionário Terminológico de Língua Portuguesa foram tidos em linha de conta na selecção de entradas do dicionário, para que esta obra corresponda às necessidades lexicais e de aprendizagem dos alunos”.

Damos agora voz às autoras Aldina Vaza e Emília Amor.

Este dicionário é para quem? 
A delimitação do público-alvo e a identificação das suas necessidades e interesses estão entre as preocupações dominantes de quem se propõe fazer um dicionário. O perfil desse público tem o papel de guia na produção de toda a obra, desde a definição da nomenclatura até aspectos como qualidade e tipologia das definições, exemplos, marcas de uso, etc.

Este dicionário, que se assume como de aprendizagem, tem como público-alvo privilegiado os alunos dos ensinos básico e secundário, mas, pelas suas características, serve também um público muito mais vasto, em que cabem todos os que usem a língua portuguesa como instrumento de estudo ou de trabalho e os que desejem aumentar os seus conhecimentos sobre a língua e esclarecer dúvidas sobre o seu bom uso.

Como é que se escolhe o que se “põe” num dicionário?
O que incluir num dicionário e como fazê-lo são outras das preocupações dominantes da actividade dicionarística. Para produzir um dicionário original, não basta socorrer-se de alguma da informação fornecida por outro(s) dicionário(s) já existente(s), acrescida de mais dados e efectuados os necessários ajustamentos. É preciso muito mais.

Um dicionário feito de raiz, original, impõe outro percurso: elaborar um corpus, ou recorrer a um já existente, mas reconstruindo-o e explorando-o de uma forma inovadora, com critérios e instrumentos adequados ao perfil do dicionário pretendido. Seleccionar uma lista de palavras (nomenclatura) que constitua a base de um dicionário de aprendizagem, como o nosso pretende ser, é um trabalho complexo e moroso. A nossa experiência testemunha-o.

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