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“Não é a mesma língua!” [Paulo Franchetti, “Facebook”, 10.06.20]

“Não é a mesma língua!”

 

Paulo Franchetti, “Facebook, 10.06.20

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Num 10 de junho da década de 1980, fui convidado para discursar junto à estátua de Camões que fica em frente à Biblioteca Mário de Andrade. O autor do convite foi Rodrigo Leal Rodrigues, então e sempre presidente da Academia Lusíada de Ciências, Letras e Artes – que parece ter morrido com ele.

Rodrigo era quase uma personagem de lenda. Poeta, pertenceu ao grupo da Távola Redonda, onde assinava como Marcos Leal. Depois de andar por África e boa parte do mundo, estabeleceu-se no Brasil. Aqui, foi um entusiasta da pintura naïf, que promoveu, idealizador de um Liceu Português, que nunca conseguiu erguer, alma da Academia, que funcionava na Casa de Portugal, e diretor de uma revista chamada Voz Lusíada, dedicada à promoção da cultura portuguesa e luso-brasileira. Era um homem de enorme energia e mais enorme interesse em promover a cultura. Graças a ele e à sua influência junto à comunidade portuguesa, fizeram-se no Brasil muitos eventos literários – e todos os que se dedicavam à cultura do seu país tinham nele amparo certo e providências rápidas. No fim da vida, escreveu uma autobiografia intitulada, já à brasileira, “Colcha de retalhos”, cuja leitura permite perceber por que era difícil não se deixar contaminar pelo seu entusiasmo e por era ainda mais difícil negar um pedido seu.

E sou prova (ainda viva) disso, pois não só escrevi vários artigos em cima da hora, só para que ele pudesse completar a revista, mas ainda aceitei integrar a sua Academia (depois de negar vários convites, disse-lhe que só iria no dia em que vagasse a cadeira de Oliveira Martins – o que, de alguma forma, aconteceu pouco depois, o que me deixou, entre o medo e o remorso, disposto a aceitar finalmente), e, por fim, concordei em fazer o tal discurso.

É fácil imaginar o que foi aquilo: num dia de semana, naquele lugar, o hino nacional brasileiro, o hino português, uma exibição de danças folclóricas em trajes típicos, discurso de um representante do governo do Estado, de um representante da Prefeitura, de alguém do consulado português e, por fim, um representante não da Academia ou da universidade, mas do próprio Rodrigo. Ou seja, eu.

Fiz o que pude, sob o olhar dos que moravam na praça, dos que trabalhavam nos prédios, dos passantes, dos motoristas irritados e da comitiva. Não me lembro do que disse, mas disse certamente que éramos unidos pela língua. Afinal, era o dia de Camões e o tema se impunha. E sei que disse isso porque depois do discurso, estava numa rodinha com o Rodrigo e os vários representantes oficiais, quando se aproximou um sujeito que, pelas roupas e pelo jeito, parecia um dos moradores da rua, que teria acordado com o barulho.

Aproximou-se e veio reto na minha direção. “Desculpe, mas não concordo!”, disse ele. Perguntei com o que não concordava e ele então declamou duas ou três estrofes de “Os Lusíadas”. E declamou bem. Muito bem. Depois de uma pausa bem pensada, declamou um poema, que não identifiquei. Também declamou muito bem, olhando o tempo todo na minha direção, como quem demonstra uma tese ou dá uma aula. Quanto terminou, ficou em silêncio, aguardando. Eu não sabia o que dizer da demonstração, então agradeci e lhe perguntei de quem era o segundo poema. Ele respondeu que era dele. E completou: “Não é a mesma língua! Por isso, discordo”. E fez menção de ir embora. Eu então lhe perguntei com quem tinha tido o prazer de falar e ele me estendeu a mão, dizendo: “Ah, desculpe. Muito prazer, Geraldo Vandré.” E foi embora.

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Paulo Franchetti, publicado na rede anti-social Fakebook em 10.06.20. Evidentemente, nesta transcrição foi conservada a ortografia brasileira do original. Imagem inserida na transcrição de: http://www.jornal3idade.com.br/?p=9877. Imagem de topo de autoria desconhecida, copiada do site “Comunidade Cultura e Arte”.]

Marcos Leal – Poema sem Título

Com grafia levemente adaptada para o português falado no Brasil, trazemos neste momento um sublime poema de um poeta brasileiro de origem portuguesa, nomeadamente Marcos Leal, pseudônimo de Rodrigo Leal Rodrigues (1928-2004).

O poema faz alusão aos limites da palavra falada ou escrita, para expressar tudo o que vai no interno dos seres humanos. Por conseguinte, o poeta preconiza outras tantas possibilidades de linguagem, de exteriorização de sentimentos, de anseios, frustrações. Pelos gestos, pelas expressões faciais, pelo corpo em geral, pois há “urgência no amor”!

J.A.R. – H.C.

I

É preciso com urgência inventar novas palavras
porque as conhecidas estão gastas e já não dizem tudo.
Como iremos explicar nossos silêncios prolongados
e as emoções úmidas que sentimos no ar
quando estamos juntos?

Como iremos descrever a música que sentimos
e que enche todo o Universo quando nos olhamos?

E quando a minha pele toca a tua pele,
(às vezes só as mãos se reconhecem…)
toda a aritmética da vida cessa de ter sentido

E como iremos explicar a solidão do mundo,
se quando estamos juntos não descobrimos ninguém
e nos bastamos, como se basta à mãe a criança por nascer?

II

É urgente que falemos
É urgente que nossas mãos nos descubram
E urgente que a nossa pele encontre a paz que faltava
E urgente que os corpos se conheçam
e que a ternura os invada por não serem mais sós
É urgente colocar risos em nossas bocas
e sonho nos nossos olhos tantas vezes cansados
É urgente que nos demos
E urgente o amor amor

III

Povoas-me de insônia as noites
acenando com madrugadas que não chegam
Sou como pássaro cortando o espaço a quem o raio derrubasse
Morro a cada instante um pouco mais
enquanto espero

Povoam-me todos os seres que algum dia
Foram dentro de mim paz ou angústia
O peso de tudo que carrego tarda-me os voos
E falece-me a intimidade
– Vou com a manhã

Referência: LEAL, Marcos. (Poema sem título). CONGÍLIO, Mariazinha (Selecção e Coordenação)
Antologia de poetas brasileiros. 1. ed. Lisboa, PT: Universitária Editora, 2000. p. 134-136.

Transcrição/adaptação do autor do “blog” brasileiro “Blog do Castorp”

Mal parido

caixa do engraxador

Para variar, por excepção, um artigo da imprensa regional. E este, em particular, com a evidente vantagem de o seu autor já ter armado em acordista (devia ser na altura um rapazote, estava a crescer, são as ilusões da juventude) e de ter por fim acordado para a vida.

Além dessa transitória e felizmente já terminada ebulição juvenil, este regional autor apresenta uma consistência argumentativa absolutamente telegráfica, atendo-se apenas às mais elementares ilustrações daquilo que no essencial é e em que consiste o aleijão ortográfico — ou seja, em suma, a escrita brasileira que Portugal “adotou” por bovinidade intrínseca e por puro “puxa-saquismo”, engraxar brasileiros.

Parar ou parir

Eu paro, tu paras, ele para.

04-06-2020 – FRANCISCO MARTINS DA SILVA
“Jornal  Oeste online”

Que português é este? “Eu paro”, ainda vá, quer dizer que estou neste momento a parir (com esforço, este texto). Mas, e “paras”, que palavra é esta? De onde vem? E o que quer dizer “tu paras”? E “ele para”? Para onde, para quê? Como pode ser “ele para” uma forma verbal? Se formos ao presente do conjuntivo, que eu pare, que tu pares, que ele pare, continuamos a falar de parir e não de parar. Eliminando o acento agudo, diferencial para estas palavras homógrafas, amputou-se o verbo ‘parar’ de algumas das suas mais comuns conjugações.

O inadjectivável Acordo Ortográfico de 1990 está cheio de absurdos caricatos e risíveis como este, transformando a nossa amada língua num anedotário de confusão. Ao substituir o primado da etimologia por indeterminada tradição de pronúncia culta, eliminou-se a esmo hífens, acentos, consoantes mudas, maiúsculas, et cetera.

Mas que tradição oral culta vem a ser esta? Onde é tradicional dizer que estou a parir quando quero dizer que estou a parar?

Inicialmente, pareceu-me uma boa ideia, harmonizar o português de toda a Lusofonia, para facilitar o entendimento entre os povos e agilizar o vasto mercado editorial em português, havendo o compromisso de se ir aperfeiçoando e corrigindo o Acordo. Passados tantos anos, é evidente que estes objectivos não serão atingidos. Nem se percebe, hoje, a óptica dos acordistasótica, segundo eles, passando-se a confundir visão e audição. Quanto à harmonização da língua, só piorou: com o primado da pronúncia e as duplas grafias criou-se um labirinto babélico.

Reina o caos ortográfico e grande número de publicações rejeitam o Acordo. À excepção de Portugal e do Brasil, e cada um à sua maneira, os outros países de língua portuguesa ignoram-no. E em Portugal, nem nos documentos oficiais o conseguem cumprir correctamente. Quanto ao aperfeiçoamento, a lógica linguística, nas suas várias especialidades (fonética, morfologia, sintaxe, semântica, lexicologia, pragmática, entre outras), foi de tal modo estilhaçada que não há emenda possível.

Como exemplifica o autor e revisor linguístico Manuel Monteiro, no seu imprescindível livro Por Amor à Língua (Objectiva, 2018), com inúmeras estranhas novas palavras como “corréu”, em vez de co-réu, ou “cocomandante”, em vez de co-comandante, ou “arquiteta” (a maior teta?, a teta mais importante?, será homenagem à arquiteta do Estado na qual também mamaram os acordistas?), havia, nos vários países lusófonos, 2691 palavras que se escreviam de forma diferente e que se mantêm diferentes; havia 569 palavras diferentes que se tornam iguais; e havia 1235 palavras iguais que se tornaram diferentes. Portanto, o desacordo é mais do dobro do Acordo.

Resta ultrapassar a casmurrice e voltar à norma etimológica que ainda norteou o Acordo de 1945, com as alterações introduzidas em 1971 relativas a alguns acentos que marcavam a sílaba subtónica nas palavras derivadas com o sufixo mente ou iniciado por z (ex.: sòmente, terrívelmente, sózinho, cafézinho).

Como diz Nuno Pacheco, intrépido anti-acordista do jornal Público, o único acordo admissível é reconhecer as variantes nacionais e fixá-las como partes de um corpo comum, o da língua portuguesa.

[Transcrição integral. Artigo da autoria de FRANCISCO MARTINS DA SILVA publicado no “Jornal  Oeste online”. Destaques, sublinhados e “links” meus. Imagem de topo (caixa de engraxador) de: Sofia Mendes. Imagem de rodapé (escovas de crina para escovar sapatos) de: “Como Limpar“.]

Chique chiqueiro

Chique, chicana, chiqueiro, ou os ecos de uma saraivada ortográfica

Nuno Pacheco, 28 de Maio de 2020

 

Já o Dia Mundial da Língua Portuguesa ia longe, entendeu o arquitecto Saraiva preencher a sua “Política a Sério” e ao Sol com esta extraordinária tese: “É chique dizer mal do Acordo”. O que o animou a pegar no assunto? Coisas que ele não percebe e outras que lhe dão vontade de rir. Não percebe, afirma, “o encarniçamento de algumas pessoas contra o Acordo” (o Ortográfico, convém esclarecer), pessoas que ainda por cima falam dele “como se fossem especialistas da Língua”; e dá-lhe “vontade de rir quando certas pessoas que não conseguem escrever duas frases seguidas se põem a criticar o Acordo com ar superior”. Ainda se ri mais quando lê no fim de certos textos de alguns colunistas esta nota “profundamente ridícula”: “Este artigo não respeita as regras do Acordo Ortográfico”. “Devem achar que é chique. Que os faz entrar no grupo dos bem-pensantes, dos intelectuais que percebem do assunto”, conclui Saraiva.Num curto parêntese, convém dizer que esse problema não afecta jornais como o Sol, onde colunistas que, sendo publicamente contra o Acordo Ortográfico e recusando-o na sua escrita corrente (como António Bagão Félix ou Guilherme Valente), são “traduzidos” para “acordês” sem qualquer nota. Talvez por ser ridícula uma nota a dizer: “Este artigo foi ortograficamente alterado contra a prática dos seus autores.” Do mesmo mal padecem o Jornal de Letras (onde os opositores ao Acordo aparecem sempre “traduzidos”) ou o Expresso, que, no entanto, abre escassas excepções a seguidores da “antiga ortografia” — Saraiva há-de achar que cronistas como Miguel Sousa Tavares ou Pedro Mexia são dois “chiques” que anseiam, com tal aviso, “entrar no grupo dos bem-pensantes, dos intelectuais que percebem do assunto.”

O problema é que Saraiva, que manifestamente não percebe mesmo nada deste assunto, não se fica por curtas graças solares. Também adora retirar delas alguma moral. E conta uma história que, garante, se terá passado com o seu pai, o historiador António José Saraiva (1917-1993). Diz Saraiva filho, o arquitecto, que quando “começaram a ser conhecidos os termos do Acordo Ortográfico, com muita gente a ridicularizá-lo”, decidiu visitar Saraiva pai. “Fui a sua casa e perguntei-lhe o que achava do assunto — certo de que arrasaria o Acordo.” Ou seja, certo de que o pai seria um dos “chiques”. Mas a resposta espantou-o — e aqui é o filho a falar pelo pai, valendo o que vale: “Oh Zé, o mais importante é que os portugueses e os brasileiros façam um esforço de entendimento para que as duas escritas não divirjam muito. Agora, escrever uma palavra assim ou assado não tem importância nenhuma.” Espanto do filho: “Foi para mim uma lição.”

Pois se foi, ficou por aí. Recuando uns aninhos, quando se discutia a insana proposta de Acordo de 1986, que antecedeu o actual, escreveu o arquitecto num editorial do Expresso, de que era então director, em 24 de Maio desse ano: “Se as modificações acordadas no Rio de Janeiro há quinze dias forem ratificadas, o português escrito será quase uma nova língua.” Crítica? De modo algum. Mas resignação: “Portugal terá pois de se sujeitar, substancialmente, à ortografia do português tal como se escreve hoje no Brasil e à evolução que ele for tendo neste país.” E em Junho concluía: “Para que o português escrito aqui e no Brasil seja igual é necessário que Portugal passe a fazer regularmente também modificações… que, muito provavelmente, afastarão cada vez mais a nossa ortografia do modo como pronunciamos a língua”. Acertou. Porque a fala tem vindo a alterar-se devido aos artificialismos impostos à ortografia.

Agora, no texto do Sol, afiança que não se pode dizer que este é um “acordo falhado”, porque “os dois maiores países da CPLP, Portugal e Brasil, assinaram-no, e este era o objetivo [sic] principal: que os outros o adotem [sic] ou não, é um problema deles.” Os dois maiores países da CPLP, foi o que disse? Em influência? Em área geográfica? Em número de habitantes? Em rendimentos? Más contas, para um arquitecto. Mas certas, no raciocínio dos autores da coisa, e aqui ele também acertou: o Acordo é, na verdade, uma manigância luso-brasileira mascarada de multinacional. Na matrioska ortográfica imaginada (e aceite) por Saraiva há um bojudo Brasil que encaixa um menos anafado Portugal, dentro do qual se enfiariam, sempre por submissão ao primeiro, os “irrelevantes” países africanos (Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe) e o longínquo Timor-Leste. “Adotem [sic] ou não, é um problema deles.”

Mas não era problema nosso? Não era para unificar a ortografia toda? Era. E é por isso que está mais dividida; que no Brasil se escreve “aspecto”, “infecção” e “recepção”, como dantes, e que em Portugal passou a escrever-se “aspeto”, “infeção” e “receção”; que nos correctores do Word continua a haver duas variantes ortográficas, a de Portugal e a do Brasil, sem espaço para mais. Não é como estávamos? Só na aparência. Porque é pior, muito pior. Agora lemos títulos inimagináveis como este (dia 26, online no Expresso, jornal que Saraiva já dirigiu): “Covid-19: BCE faz teste de stress a maiores bancos para quantificar impatos [sic] da economia.” Passando o chique, o Acordo já foi chicana e agora é um chiqueiro. Só que nada nos obriga a viver nele.

Nuno Pacheco

[Os destaques, sublinhados e “links” (a verde) são meus.]

Iniciativa: Cidadãos contra o Acordo Ortográfico

Lei de cidadãos contra Acordo Ortográfico começa a ser discutida um ano depois

 

Agência Lusa/”Observador”, 25.05.20

Um projecto de lei de iniciativa de cidadãos contra o Acordo Ortográfico (AO), com 20.669 assinaturas, começa esta quarta-feira a ser discutido no parlamento, mais de um ano depois de ter sido entregue.

Na agenda de quarta-feira da comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias está prevista “apreciação e votação do parecer sobre a constitucionalidade do projecto de lei n.º 1.195″, entrado na anterior legislatura, em 10 de Abril do ano passado, mas que não caducou com a entrada em funções do parlamento eleito nas eleições de 2019.

O direito de iniciativa legislativa dos cidadãos, previsto no artigo 176.º da Constituição, foi regulamentado em lei em 2017 e permite que grupos de cidadãos eleitores possam apresentar projectos de lei e participar no procedimento legislativo a que derem origem.

Este projecto de apenas três artigos propõe que a Assembleia da República revogue a resolução, também do parlamento, que aprovou o acordo.

No artigo 1.º do texto pode ler-se que “a entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990 fica suspensa por prazo indeterminado, para que sejam elaborados estudos complementares que atestem a sua viabilidade económica, o seu impacto social e a sua adequação ao contexto histórico, nacional e patrimonial em que se insere”.

O segundo artigo propõe que a “ortografia constante de actos, normas, orientações ou documentos provenientes de entidades públicas, de bens culturais, bem como de manuais escolares e outros recursos didáctico-pedagógicos, com valor oficial ou legalmente sujeitos a reconhecimento, validação ou certificação, será a que vigorou até 31 de Dezembro de 2009 e que nunca foi revogada”.

O terceiro e último artigo estabelece que “este diploma revoga todas as disposições da Resolução da Assembleia da República n.º 35/2008, de 29 de Julho, que com ele sejam incompatíveis”.

A comissão representativa desta iniciativa legislativa de cidadãos é composta por Hermínia Castro, Luís de Matos, Isabel Coutinho Monteiro, Nuno Pacheco, Olga Rodrigues, Henrique Lopes Valente, Rui Valente e Maria do Carmo Vieira.

Em 2019, um grupo de trabalho parlamentar criado para avaliar o impacto da aplicação do Acordo Ortográfico terminou funções em 19 de Julho, sem ter reunido consenso para uma possível alteração a esta convenção.

O grupo de trabalho foi criado em 2017 para avaliar o impacto da aplicação do AO de 1990 e, nos dois anos seguintes, estes dois anos, foram ouvidas várias entidades e personalidades, mas manteve-se a divergência entre os deputados sobre a matéria.

Entre os países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), o Acordo Ortográfico de 1990 está em vigor em Portugal, no Brasil, em São Tomé e Príncipe e em Cabo Verde, enquanto Timor-Leste e Guiné-Bissau apenas o ratificaram, sem implementar. Falta ainda a ratificação do acordo por parte de Angola e de Moçambique.

Twitter Lusa




«Fora-da-lei» [“Público” 20.05.20]

O Acordo Ortográfico e o fora-da-lei

João Esperança Barroca –“Público” 20.05.20

“Sou assumidamente um fora-da-lei, passei a ser um autor clandestino. Sou também um analfabeto porque me recuso terminantemente a cumprir um acordo ortográfico imbecil que assassinou o meu português. Sinto-me chocado e de luto pela língua portuguesa, mas comigo sei que tenho milhões que também não compreendem aquilo que aconteceu. Nenhuma língua pode ser alterada e imposta por decreto, cerceando a nossa liberdade e inteligência.”
Pedro Barroso, músico, compositor e professor

Em época de pandemia, em estado de calamidade, para combater as agruras do isolamento, e durante o pouco tempo livre que o ensino a distância permite, a literatura tem sido uma opção imperiosa. E como professor de Português mantenho, sem tréguas, a inquietação que este Acordo Ortográfico trouxe para o meu quotidiano escolar. Um Acordo Ortográfico que levianamente decidiu pela desvalorização da etimologia, fomentando sucessivos equívocos, e que se fez acompanhar de uma Nota Explicativa, incompreensível nas suas justificações e opções, irracionais e incongruentes.

Enquanto professor experiente o que mais me choca na referida Nota é a justificação, porventura a mais risível de todo o texto, em que os mentores da nova ortografia demonstram a sua enorme preocupação e infinito desvelo para com as pobres crianças que têm o português como língua materna. Ressalte-se ainda a circunstância de esta aberração ser desconhecida de grande número de acordistas, pensando muitos deles tratar-se de uma anedota:

De facto como é que uma criança de 6-7 anos pode compreender que em palavras como concepção, excepção, recepção, a consoante não articulada é um p, ao passo que em vocábulos como correcção, direcção, objecção, tal consoante é um c?

Só à custa de um enorme esforço de memorização que poderá ser vantajosamente canalizado para outras áreas da aprendizagem da língua.

Perante isto, só podemos concluir que os redactores do AO90 têm em muita pouca conta as capacidades das “crianças” lusófonas, apetecendo-nos perguntar como é que as outras crianças que usam outras línguas conseguem memorizar todos os grafemas não articulados e as diferentes representações gráficas para o mesmo som? Por exemplo, no francês, com a palavra brouillé [bʀuje] que apresenta oito grafemas e cinco fonemas ou no inglês, com knowledge [ˈnɒlɪdʒ] que apresenta também uma diferença substancial entre grafemas e fonemas. Como é que essas crianças conseguem?

Na perspectiva dos autores do AO 90, a memória já será bem utilizada num conjunto de adivinhas com que os alunos se deparam actualmente, seja por exemplo com a omissão das consoantes ditas mudas (c e p) ou com o hífen. É a língua, sem lógica, na base da incoerência do critério acientífico da pronúncia privilegiado pelos catequistas da nova ortografia:

— epiléptico e epilepsia, só uma destas palavras tem p. Qual será?

— ortóptico e óptico, só uma delas tem p. Qual será?

— bissectriz e trissectriz, só uma delas tem c. Qual será?

— Egipto e egípcio, só uma das duas tem p. Qual será?

— lácteo e lacticínio, só uma delas tem c. Qual será?

— infecção e infeccioso, só uma delas tem c. Qual será?

— cor-de-rosa e cor-de-laranja, só uma das duas tem hífen. Qual será?

— manda-chuva e guarda-chuva, só uma delas tem hífen. Qual será?

— pé-de-cabra e pé-de-meia, só uma delas tem hífen. Qual será?

A todas estas questões, poderá sempre acrescentar outra: porquê? Pode ainda adicionar mais uma: que ferramenta posso consultar para me assegurar que estou a cumprir escrupulosamente o acordo? Não faça perguntas difíceis, caro leitor.

Cada fonte consultada pode usar a sua versão do AO90. Se reparar, o jornal Correio da Manhã, o Expresso ou o jornal Record utilizam o acento na forma verbal pára, ao contrário do que estipula o texto do AO90. Há um ou dois dias, a propósito de manifestações pró-Bolsonaro, li num cartaz, num noticiário televisivo: “Ninguém para a juventude do Brasil!” O que significa isto? Como se lê isto?

Outro embuste recorrente é o de que as alterações ortográficas não teriam interferência na pronúncia. Nada mais falso! Temos, com regularidade, apresentado palavras acordizadas e solicitado a grupos de alunos que as pronunciem. Por exemplo, na palavra conceção (concepção em português vernáculo), 92,4% pronunciaram o e como se fosse uma vogal fechada [kõsəˈsɐ̃w̃] e apenas 7,6% pronunciaram [kõsɛˈsɐ̃w̃], com a dita vogal aberta. Números semelhantes ocorreram com as palavras invetiva e recetação.

Para quem duvida do caos que este AO trouxe, refira-se a utilização do hífen na locução substantiva “mão-de-obra”. Tem ou não hífen, agora com o AO90? Se consultar o Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC) não verá quaisquer vestígios dos dois hífenes, mas se, por exemplo, preferir pesquisar noutra ferramenta, na página da Imprensa Nacional-Casa da Moeda, encontrará os ditos hífenes. E na imprensa? No Jornal de Notícias predominam as ocorrências sem hífen; no Diário de Notícias, no Jornal de Negócios e no I predominam as formas com os dois hífenes; no Observador e no Sol coexistem em número aproximado as duas formas. Caso idêntico se passa com “fora-da-lei”, evidenciando a salgalhada que por aí campeia. Consulte-se regularmente os órgãos de imprensa e ver-se-á repetidamente a oscilação entre as formas com ou sem hífen.

Mais uma dupla grafia em perspectiva?

Para quem continua a duvidar do caos ortográfico que se instalou no último decénio, contabilize-se, calmamente sentado, a profusão de fatos, contatos, artefatos e impatos que aparecem quotidianamente na comunicação social, nas legendas televisivas, no Diário da República e em documentação variada (dos privados às instituições). É também crucial indicar qual a fonte acordizada que utilizamos na nossa pesquisa porque cada uma dessas fontes segue uma diferente versão do AO90, uma espécie de marxismo com cinco tendências (Groucho, Harpo, Chico, Gummo ou Zeppo).

Como cidadão, lutando contra a inércia, continuarei a ser obstinadamente um “fora-da-lei”; como professor darei conta aos meus alunos do sem sentido de um “fora da lei”, ainda que a sabedoria oficial os force a escrever assim.

João Esperança Barroca –“Público” 20.05.20

[Destaques, sublinhados e “links” meus. João Esperança Barroca –“Público” 20.05.20. Tudo o que aqui escrevo é de minha exclusiva responsabilidade e tudo o que aqui reproduzo — com a finalidade de constituição de acervo documental respeitante ao “acordo ortográfico”, em especial — é da responsabilidade dos respectivos autores, que são, sempre que possível, citados com indicação das fontes/autoria. Logótipo: Facebook.]

«Aperfeiçoar o idioma» [por Luiza Padovam Vieira]

Up

Dia da Língua Nacional: saiba tudo sobre a história da língua portuguesa e veja livros para aperfeiçoar o idioma

 

querobolsa.com.br Luiza Padovam Vieira em 20/05/20

 

Nesta quinta-feira (21), comemora-se o Dia da Língua Nacional. Mais de nove países e 260 milhões de pessoas possuem a língua portuguesa como oficial, incluindo nós, brasileiros. Trata-se do quinto idioma mais usado no mundo, o terceiro no ocidente e o primeiro no Hemisfério Sul.

Dia da Língua Nacional: saiba tudo sobre a história da língua portuguesa e veja livros para aperfeiçoar o idioma

Língua e nações

Linguisticamente falando, a língua é um sistema de representação formado por palavras e regras que, juntas, constituem frases. Seja através da fala ou da escrita, ela é o principal meio de expressão e comunicação utilizado por um grupo específico de pessoas.

Dessa forma, pode-se dizer que a construção da identidade de uma nação está diretamente ligada a língua falada pela mesma. Esta relação é tão profunda que pode influenciar até o comportamento e hábitos de uma nação. A língua, por sua vez, é uma das principais manifestações culturais de um povo e traduz, de maneira única, o modo como as pessoas se mostram perante ao mundo. Um bom exemplo disso é a palavra “saudade”. Por mais que tentemos traduzir, não há nenhuma palavra em nenhum outro idioma que represente o sentimento que estas letras combinadas carregam.

A história da língua portuguesa no Brasil

A língua portuguesa originou-se do latim, idioma disseminado na Europa inteira pelo Império Romano em meados do século III a.C., mas foi decretada como idioma oficial do reino de Portugal em 1290, pelo rei D. Dinis I. Quando chegou ao Brasil, através da colonização portuguesa em 1532, o idioma passou por diversas mudanças originadas de outras línguas como o tupi-guarani.

Além da influência dos nativos indígenas, a língua portuguesa brasileira é um reflexo da interação entre diferentes culturas e momentos históricos, como os povos africanos que foram trazidos para o país durante o período da escravidão e os imigrantes, que por aqui passaram.

Toda essa mistura faz com que a língua portuguesa, apesar de estar presente em diversos países, tenha particularidades e regras específicas em cada nação. Um exemplo disso é que, nem sempre os portugueses entendem o que os brasileiros querem dizer, e vice-versa.

Certas particularidades podem ser observadas até mesmo dentro do nosso país. Se viajarmos pelo imenso território brasileiro, poderemos ouvir diferentes sotaques e palavras que não conhecemos, caracterizando os dialetos de cada região. Entretanto, a língua nacional utilizada é a mesma.

Acordo ortográfico

O primeiro Acordo Ortográfico visando a padronização e unificação da língua portuguesa nos diferentes países em que é falado foi assinado em 1911, em Portugal, porém, a medida não foi extensiva ao Brasil na época.

Em 2008, foi implementada então uma nova reforma que alterou algumas regras da língua portuguesa, com intuito de simplificar e unir a língua escrita e falada, além de facilitar a integração comercial. As novas regras gramaticais estão em vigência no Brasil desde 2016.

+ Novo Acordo Ortográfico: teste seus conhecimentos

A importância da leitura para manutenção do idioma

A data, comemorada todo dia 21 de maio, tem como objetivo homenagear a principal ferramenta de comunicação e de expressão das nações, cada qual com a sua língua, e também busca reforçar a importância do estudo e da atualização do idioma nativo a fim de manter a cultura do país viva . Mais do que ler e escrever, um dos principais motivos da necessidade de estudar é interpretação e compreensão de textos.

Um levantamento feito pelo Melhor Escola, plataforma especializada em educação básica, com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) de 2018, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revela que aproximadamente 15 milhões de brasileiros não possuem grau algum de instrução escolar. Este número corresponde a quase 10% da população do país.

Na última edição do PISA – Programa Internacional de Avaliação de Estudante – avaliação realizada pela OCDE para medir o conhecimento de estudantes de 15 anos e 16 anos de 80 países nas áreas de leitura, matemática e ciência, o Brasil também teve desempenho insatisfatório.
Fonte: OCDE

Aproximadamente 50% dos alunos atingiram pelo menos o nível 2 de proficiência em leitura, na média da OCDE essa taxa foi de 77%. Neste nível, considerado o básico segundo o relatório, os estudantes devem, no mínimo, ser capazes de identificar a ideia central de um texto médio, encontrar informações explícitas e refletir sobre a finalidade e a forma dos textos quando explicitamente instruídos a fazê-lo.

Dicas de livros de português para crianças

Apesar de ser o idioma nacional, o português é uma língua complexa e de difícil assimilação. Existem diversos livros voltados especialmente para crianças em idade escolar, de 5 a 17 anos, para ajudar no estudo do idioma. O Bookplay, plataforma de streaming 100% brasileira de educação, listou alguns dos livros disponíveis sobre o tema:

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