Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: literatura

Feira do Livro do Porto 2018

Jornal da Feira do Livro do Porto 2018

Published on Aug 30, 2018

A inquietação é o tema dominante do grande festival literário deste ano, que homenageia o cantautor José Mário Branco nos 50 anos de carreira. Os assuntos ligados à sua obra – liberdade, amor e sublevação – são percorridos pelos debates, sessões de spoken word e lições comissariados por José Eduardo Agualusa e Anabela Mota Ribeiro. Entre 7 e 23 de Setembro, nos Jardins do Palácio de Cristal, há também um ciclo de cinema, três exposições, várias sessões especiais e ainda numerosas oficinas, acções de programa educativo e de animação.

[Imagem de topo de: CMP]

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“Os Maias”, bro? Yow, cena fatela!

Aparentemente, isto seria uma boa notícia: afinal os facínoras politicamente correctos (passe a redundância) que enxameiam o Ministério da “Educação” ganharam juízo e recuaram, ao menos por uma vez, se calhar sem exemplo, numa das suas desastrosas decisões.

Pois bem, não me parece. De todo. Não há nisto mais do que uma manobra táctica, aliás a do costume, consistindo esta em fingir que existe recuo quando se trata de simples adiamento: a seu tempo, quando àquela espécie de lagartixas extra-terrestres mais convier, o “recuo” de agora será mais tarde cobrado com juros exorbitantes. A real finalidade mantém-se intacta e entretanto os papalvos do costume rejubilam com o que julgam ser uma “grande vitória” a curto prazo.

Pois sim. A curto prazo o engodo da “reposição” de “Os Maias“, por exemplo, mas depois, a médio prazo, o abate sistemático de tudo aquilo que vagamente cheire a Literatura no ensino, e por fim, a longo prazo, a institucionalização da “ideia” subjacente: ler não passa de um ridículo anacronismo, às crianças e aos jovens a leitura “não serve para nada”, há que dar vazão à sua própria “criatividade” (jogando futebol, por exemplo) e promover a “inclusão” erradicando por via administrativa a “exclusão”. Sempre a mesma dicotomia simplista, a mesma premissa binária de incompatibilidade mútua,

Ou seja, patacoada pseudo-progressista atrás de patacoada pseudo-pedagógica, mais tarde ou mais cedo um “radioso” futuro de “igualdade” universal acabará de uma vez por todas com os últimos laivos de esperança em que as gerações vindouras não sejam exclusivamente compostas de perfeitos ignorantes, completos trogloditas, absolutos idiotas.

Os Maias voltaram à lista de leitura para o ensino secundário

Ministério da Educação recuou na proposta de conteúdos que devem ser leccionados no secundário. Versão definitiva das aprendizagens essenciais volta a incluir quais as obras que devem ser lidas em vez de deixar esta escolha a cada professor.

Clara Viana
“Público”, 02.09.18

 

A obra de Eça de Queirós Os Maias não vai, afinal, desaparecer da lista de leitura para o ensino secundário, como o Ministério da Educação (ME) chegou a propor. É o que se pode comprovar ao ler a versão definitiva das aprendizagens essenciais para o secundário, que foi homologada nesta sexta-feira por despacho do Secretário de Estado da Educação João Costa.

As chamadas aprendizagens essenciais vão ser aplicadas a partir do próximo ano lectivo, num processo que começará, no caso do secundário, pelo 10.º ano. Para o ME, a definição destas aprendizagens, que esteve sobretudo a cargo das associações de professores, é necessária para resolver o problema da “extensão” dos actuais programas e permitir que seja fixado um “conjunto essencial de conteúdos” que todos os alunos devem saber, em cada disciplina, no final de cada ano de escolaridade.

Na versão que esteve em consulta pública em Julho, os documentos propostos para a disciplina de Português omitiam quais as obras de Eça de Queirós que deveriam ser lidas no secundário, referindo apenas que os alunos teriam de ler um livro deste autor.

O programa da disciplina, que ainda se encontra em vigor, determina que a abordagem a Eça de Queirós, que faz parte da matéria do 11.º ano, passa pela leitura de um de dois livros: Os Maias ou a Ilustre Casa de Ramires. E é essa a prática que tem sido seguida nos últimos anos.

A supressão da obra Os Maias na versão inicial apresentada pelo ME, noticiada pelo PÚBLICO, deu origem a um coro de protestos de académicos, professores e especialistas queirosianos. Mas como o ME não tem por hábito elaborar relatórios das consultas pública que promove, não se sabe quantas propostas de alteração foram apresentadas, nem qual o seu teor.

Não foi só em relação a Eça de Queirós que o ministério recuou. Em todas as listas de leitura apresentadas agora para o 10.º, 11.º e 12.º anos, voltam a ser inscritas as obras de Almeida Garrett, Alexandre Herculano e Camilo Castelo que constam do programa, mas que tinham desaparecido da versão inicial das aprendizagens essenciais, onde foram substituídas pela referência “escolher um romance” de um destes três autores. Foi o que passou também com Cesário Verde, onde se apontava apenas que seria preciso “escolher três poemas”, o que agora foi substituído pela leitura obrigatória, como tem sido a norma, do Sentimento dum Ocidental.

Na altura, a presidente da Associação de Professores de Português, Filomena Viegas, justificou esta opção, por um lado com a necessidade de diminuir o número de obras propostas para leitura e, por outro para se permitir “o alargamento das opções que podem ser tomadas pelos docentes”, a quem ficaria entregue a escolha dos livros que os alunos deveriam ler.

Também no 12.º ano o ME desistiu de retirar a abordagem ao conto, enquanto género literário. Na lista de leitura para este ano de escolaridade voltam a estar incluídos contos de Manuel da Fonseca, Maria Judite de Carvalho e Mário de Carvalho.

Num artigo de opinião escrito para o PÚBLICO, a professora da Universidade do Porto e ex-ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, chamou a atenção para o facto de a supressão do conto do programa de Português não ser “uma opção desejável, até por se tratar de um género breve que os jovens nas sociedades de hoje (…) nitidamente privilegiam como é possível constatar na blogosfera onde narrativas breves e micronarrativas ocupam lugar de relevo”.

Por fim, no que respeita ao 10.º ano, a versão definitiva das aprendizagens essenciais volta a incluir a Crónica de D. João I, de Fernão Lopes, que na proposta inicial tinha sido erradicada.

cviana@publico.pt

Source: “Os Maias” voltaram à lista de leitura para o ensino secundário | Escolas | PÚBLICO

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O AO90 na encruzilhada das escolhas

Carlos Reis, o mais seráfico dos sinistros acordistas, ou vice-versa, revela neste seu textículo — que o jornal “Público” por algum estranho motivo aceitou publicar em acordês  — até que inimaginável ponto pode chegar a desonestidade intelectual de um vendido aos interesses (dos) neo-imperialistas brasileiros. A verborreia que agora debita é não apenas uma espectacular demonstração de como pode ser despudorada e completamente desprovida de sentido a propaganda malaquenha, como também demonstra, em regra e formato, a sistemática, obsessiva, estuporada contradição em que chafurdam estes tipos.

Exercício elementar: contrastar, simplesmente eliminando ou trocando o tema em referência, o que ele debita (e bem) sobre “Os Maias” com o que ele não credita (e mal) sobre o AO90.

«Sob os véus da autonomia das escolas e da flexibilização curricular, o ME desce mais alguns furos na exigência formativa dos alunos; fazendo-o, abdica da responsabilidade de garantir que todos eles, não apenas os que frequentam escolas privadas de elite, têm acesso àquilo que de mais significativo existe na nossa história literária

«Uma pergunta que alguns modulam assim: o que fazer com esse incómodo elefante sentado na sala, para maçada de quantos preferem modos de vida amenos?»

«O assunto parece risível, mas é sério e terá consequências gravíssimas, como efeito de um atávico comportamento político em Portugal: o Governo quer marcar presença educativa; para tal, muda. Programas, metas, aprendizagens, critérios, seja o que for. Muda-se e não se pensa na estabilidade curricular, um factor relevante para ajudar a garantir uma formação harmoniosamente desenvolvida, mesmo sabendo-se que os currículos não são dogmas inamovíveis.»

«Primeiro tema: o cânone. Mesmo sendo esta uma matéria impopular, afirmo convictamente o seguinte: o Estado tem o dever de, como se faz noutros países, pensar um cânone de autores e de textos que estruture a Educação Literária no Ensino Secundário (é deste que estou a falar). Pensar um cânone não significa ditá-lo ex abrupto ou torná-lo coisa rígida; significa propô-lo, criar condições para que ele seja debatido e configurado, com base na tradição literária ortográfica, no seu diálogo com a nossa identidade e com os valores que presidem a uma sociedade tolerante, multicultural e descomplexada relativamente ao que herdou. E significa também conhecer o lastro de saber acumulado em torno da nossa literatura ortografia, com a certeza de que não está aqui em causa um corpus mastodôntico.»

Os Maias na encruzilhada das escolhas

Muitos alunos, por causa do “negócio” das Aprendizagens Essenciais, não terão a oportunidade de estudar o mais admirável romance da nossa literatura.

Carlos Reis
24 de Julho de 2018, 6:19

1. Quando entraram em vigor os actuais programas de Português do Ensino Secundário (ES), apoiei o que neles havia de reabilitação de um domínio curricular fundamental: o da Educação Literária. Havia razão para reparos, no tocante a escolhas de obras em alternativa, escolhas que, nalguns casos, me pareciam injustificadas; mas preferi (e sempre prefiro) valorizar o que se ganhava, em vez de criticar aquilo que me parecia discutível.

Com as Aprendizagens Essenciais postas à discussão pública pelo Ministério da Educação (ME), o caso muda de figura. Sob os véus da autonomia das escolas e da flexibilização curricular, o ME desce mais alguns furos na exigência formativa dos alunos; fazendo-o, abdica da responsabilidade de garantir que todos eles, não apenas os que frequentam escolas privadas de elite, têm acesso àquilo que de mais significativo existe na nossa história literária.

Veja-se o que está nas Aprendizagens Essenciais: “Estas aprendizagens repercutir-se-ão no projecto individual de leitura de cada aluno que desenvolverá o seu perfil de leitor a partir de uma selecção de leituras que negociará com o professor, tendo por referência não só o conjunto das obras que constitui referência para as actividades de educação literária (…) em aula mas também o Plano Nacional de Leitura.” Deixo de lado a duplicação da referência e observo isto: nos casos de Garrett, Herculano, Camilo, Eça, Antero e Cesário, o “negócio” faz-se com três autores, uma obra narrativa, um romance, seis poemas – e chega.

2. O assunto parece risível, mas é sério e terá consequências gravíssimas, como efeito de um atávico comportamento político em Portugal: o Governo quer marcar presença educativa; para tal, muda. Programas, metas, aprendizagens, critérios, seja o que for. Muda-se e não se pensa na estabilidade curricular, um factor relevante para ajudar a garantir uma formação harmoniosamente desenvolvida, mesmo sabendo-se que os currículos não são dogmas inamovíveis.

Mas não é disso que trato agora. Prefiro centrar-me em dois temas decisivos, para pôr a nu aquilo que considero crucial: a lógica das escolhas “negociadas” é perversa, estimula a facilidade e gera efeitos antidemocráticos.

3. Primeiro tema: o cânone. Mesmo sendo esta uma matéria impopular, afirmo convictamente o seguinte: o Estado tem o dever de, como se faz noutros países, pensar um cânone de autores e de textos que estruture a Educação Literária no Ensino Secundário (é deste que estou a falar). Pensar um cânone não significa ditá-lo ex abrupto ou torná-lo coisa rígida; significa propô-lo, criar condições para que ele seja debatido e configurado, com base na tradição literária, no seu diálogo com a nossa identidade e com os valores que presidem a uma sociedade tolerante, multicultural e descomplexada relativamente ao que herdou. E significa também conhecer o lastro de saber acumulado em torno da nossa literatura, com a certeza de que não está aqui em causa um corpus mastodôntico; numa literatura que infelizmente não tem a amplidão de outras, um cânone mínimo e consensual talvez não vá além de uma vintena de títulos e de autores. Esse cânone não consente negócios, exige reflexão e aquele “honesto estudo” que contraponho à simplificação do ensino.

(mais…)

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«Os livros e os papéis que vão para o lixo» [JPP, “Público”, 28.07.18]

Os livros e os papéis que vão para o lixo

Agora que ando com um grupo de amigos e voluntários “aos papéis”, estou numa posição privilegiada para saber onde milhares de livros e arquivos vão parar.

José Pacheco Pereira
“Público”, 28.07.18

Livros são uma das coisas que nos nossos dias têm mais probabilidade de ir parar ao lixo. Não exagero, é mesmo assim. As razões são cada vez mais habituais: despejos ou mudanças de casa sob a pressão das novas rendas e leis do inquilinato, e as novas casas por sua vez não têm espaço para os livros, divórcios, falecimentos, e “os meus filhos não se interessam por isto”. Não me cabe julgar, até porque estou consciente do drama que muitas vezes é esta separação de alguém dos livros de uma vida.

Mesmo quando são oferecidos a bibliotecas ou instituições, a resposta habitual é que não os querem. Conheço muitas destas histórias e podem-se compreender algumas das razões da recusa, e saber que, nalguns casos, não existem mesmo condições para os receber — nem pessoal para os tratar, nem espaço para os acolher, nem recursos para os conservar. Tudo isto é verdade. Mas estes “nãos” são também favorecidos por uma concepção “moderna” do que é uma biblioteca pública, com muita animação, Internet, jogos, música e DVD, e com uma enorme dificuldade em pôr as pessoas a ler livros. É um problema que transcende as bibliotecas, e que se relaciona com a dificuldade de manter, no mundo contemporâneo de distracções e rapidez, actividades “lentas” e silenciosas como a leitura.

Não é uma questão de ter qualquer fetichismo com os livros, mas a de registar uma clara desvalorização do valor patrimonial das bibliotecas que explica a demasiada pressa, desleixo e pouco cuidado em responder que não às ofertas, ou em encontrar alternativas que encaminhem os livros, em função da sua natureza, para outros destinos e outras necessidades. E por isso ou vão de imediato para o lixo, ou ficam uns anos em caixas para depois irem também para o lixo, para o bolor e para os bichos que os comem com mais vontade do que os humanos.

Esta desvalorização do carácter patrimonial das bibliotecas leva muitas vezes a considerá-los um “peso morto” que ninguém consulta. Também não tem de ser assim, porque há maneiras de dar vida ao “morto” com vontade e imaginação. Na verdade, as listas dos livros que nunca foram consultados, que alguns investigadores e bibliotecários fizeram, principalmente fora de Portugal, e que jazem nas estantes há décadas, sem nunca terem visto um olhar humano, são particularmente interessantes. Também não me custa perceber que a mesma falta de imaginação nas bibliotecas é o espelho do conservadorismo e apatia nos temas de investigação nas universidades. Por exemplo, eu gostava de ler alguma investigação sobre a “má” poesia (em edições de autor, mas não só), que enche estantes sobre estantes, por que é que é “má”, por que é que é escrita, é escrita por quem e quem é que acha que deve gastar dinheiro a publicá-la. Suspeito que algumas respostas não são as que pensamos ser óbvias.

Agora que ando com um grupo de amigos e voluntários “aos papéis”, estou numa posição privilegiada para saber onde milhares de livros e arquivos vão parar. Já se salvaram muitos e continuamos a fazê-lo, mas também já fomos buscar bibliotecas e arquivos literalmente ao lixo. E não estamos a falar de pequenas bibliotecas, ou de livros de refugo, se é que há disso. Estamos a falar de verdadeiras bibliotecas que não são ajuntamentos, e que contêm critérios de selecção e sinais da identidade de quem as fez, dedicatórias, notas nos livros, coerência entre si. E, ainda mais grave, estamos a falar de arquivos e papéis únicos, correspondência, manuscritos, etc., que, desaparecendo, fazem desaparecer com eles parte da nossa história. A micro, mas também a macro. Por exemplo, o lixo diz-nos que estão a desaparecer arquivos e livros que pertenciam a antigos altos funcionários coloniais, que estão a morrer e, com eles, parte da nossa história “ultramarina”. Voltaremos noutra altura aqui.

Tudo isto vem a pretexto de um acontecimento desta semana. Avisados por um amigo de que estava ao ar livre num sucateiro informal, muito informal, num improvável local, uma grande pilha de livros, fomos lá ver e conseguimos falar com o homem que os recebeu, para fazer um favor a uma junta de freguesia que os despejou de uma camioneta como lixo. O seu valor para o nosso homem é o do papel, neste caso cerca de tonelada e meia.

A fotografia acima mostra parte da pilha e engana. Havia à superfície manuais escolares (aliás, novos) e números do National Geographic, até porque é provável que haja mais do que uma origem para a pilha, mas por baixo estava uma muito boa biblioteca de História, com edições raras, dedicatórias, obras completas de vários volumes, uma muito boa secção de monografias locais, com relevo para Lisboa e a sua região, livros de ficção portuguesa e estrangeira, com destaque para edições dos anos 1940 e 1950, e o mais que adiante se verá, visto que apenas cerca de 10% do total foi visto e às pressas.

Tivemos sorte, pois não choveu e chegámos uma semana antes de os livros regressarem ao seu estado original de polpa de papel. Não tenho dúvidas de que, um pouco por todo o lado, é o que está a acontecer.

José Pacheco Pereira

[Transcrição integral de Os livros e os papéis que vão para o lixo” | Opinião | PÚBLICO, 28.07.18. A imagem no corpo do artigo é do autor, alojada no “site” do jornal. Destaques meus. Imagem de topo de: “Ephemera“.]

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«O saneamento de Os Maias» [Manuel Alegre, “Público”, 26.07.18]

http://bibliografia.bnportugal.pt/bnp/bnp.exe/registo?1819606https://leituracom.blogs.sapo.pt/2470.html?thread=351654Eu li o livro ” Anedotas de morrer a rir do Versinho e da Kapinha ” e aconselho-o a todos que gostem de anedotas.
As escritoras são: Maria João Mergulhão, e Maria da Graça Dimas;
A editora é: Verso de Kapa;
A 1ª edição foi em fevereiro de 2011;
Este livro tem vários tipos de anedotas como: Anedotas de alentejanos, Anedotas de médicos e doenças, Anedotas sobre a escola, Anedotas de loiras, Anedotas de desporto, entre outras. E por isso divirtam-se a ler.
Daniel nº4 7ºA
[https://leituracom.blogs.sapo.pt/2470.html?thread=351654]

O saneamento de Os Maias

Desiste-se da Escola Pública. Mas também do SNS, cada vez mais descaracterizado e reduzido a um serviço caritativo para pobres enquanto florescem as mil flores dos hospitais privados para quem pode pagar.

Manuel Alegre
“Público”, 26.07.18

 

Depois de ler o artigo de Carlos Reis sobre o “saneamento” de Os Maias, pergunto-me se Portugal não estará a desistir de si mesmo, da sua literatura, da sua língua, da sua Escola Pública?

Os mais pobres, aqueles cujos pais não têm biblioteca em casa, não vão ler Eça de Queiroz, nem Garrett, nem Camilo, nem, pelos vistos, Cesário Verde. Fica para os colégios privados, a quem parece estar a deixar-se a preparação das futuras elites. À Escola Pública restará a leitura rápida de textos fáceis e curtos, ao contrário de uma cultura de exigência sem a qual jamais poderá cumprir o seu papel de ser um factor de igualdade de oportunidade para todos. Mas, enfim, Os Maias, como as Viagens na Minha Terra e o Amor de Perdição colidem com o facilitismo, não há espaço nem tempo, não cabem num SMS.

Desiste-se da Escola Pública. Mas também do SNS, cada vez mais descaracterizado e reduzido a um serviço caritativo para pobres enquanto florescem as mil flores dos hospitais privados para quem pode pagar. Como é que não se consegue travar a drenagem do SNS para o privado? Como é que se deixa degradar a TAP e os CTT a um ponto nunca visto? E como é que sectores estratégicos da economia continuam em mãos de empresas chinesas que são, como se sabe, instrumentos de um Estado que não é o nosso?

Vão com certeza chamar-me soberanista e um dia destes ainda vou ter de pedir desculpa por ser português, gostar do meu país, da sua língua (apesar do acordo ortográfico), dos seus Os Lusíadas e daqueles navegadores que segundo disse Amílcar Cabral, numa entrevista que lhe fiz para a Voz da Liberdade, “deram de facto novos mundos ao mundo e aproximaram povos e continentes”? Sim, eu sei que há limites para o voluntarismo e para uma “intervenção consciente num processo histórico inconsciente”. Mas também sei que foram a abdicação, o conformismo e o politicamente correcto que abriram caminho à vitória de Trump e de todos os populismos que estão a pôr em causa o que parecia definitivamente adquirido. Vejo a pavonearem-se por aí, em várias alas direitas, ex-esquerdistas que, no Verão Quente de 75, queriam substituir Camões pelos textos de dirigentes dos movimentos de libertação africanos.

Alguns de nós, que tínhamos estado presos e exilados por nos opormos à guerra e ao colonialismo, não nos calámos nem deixámos sanear Camões. Também hoje não sou capaz de me resignar perante esse atentado à cultura e à Escola Pública resultante da abdicação do Ministério da Educação que remete para as escolas a decisão de eventualmente passar Eça de Queiroz à clandestinidade.

Ao primeiro-ministro e ao Presidente da República cabe o cumprimento da Constituição no que respeita à defesa da língua e da Escola Pública. Gostava de saber o que pensam da retirada de Os Maias da “lista de obras e textos para a Educação Literária” no 11.º ano. Sei que há muitos números e contas a fazer até à aprovação do Orçamento de Estado. Mas gostem ou não, nada é tão prioritário como Eça de Queiroz e Os Maias.

[Transcrição integral de: O saneamento de “Os Maias” | Opinião | PÚBLICO.]

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A treta que nos separa


Volta a atacar, salvo seja, um tal Sérgio Rodrigues, autor do panfleto com o significativo título “Viva a Língua Brasileira”.  Reemerge agora esse escriba, portanto, do charco infecto em que chafurdam os flautistas acordistas, para de novo perorar sobre aquilo que, em sua não muito douta opinião, é o “antibrasileirismo linguístico, marca bandeirosa da cultura lusitana“.

Ou seja, traduzindo para Português tão duvidoso paleio, acha o dito que nós, os tugas, somos “contra eles”, os zucas, e que essa espécie de “contrismo” é uma marca identitária da “cultura lusitana”.

Não há paciência.

Pois está claro, antes do AO90 não existia qualquer “antipatia” pelos diversos crioulos brasileiros, mas isso não tem rigorosamente nada a ver com a Literatura brasileira. E essa “antipatia” nunca foi mútua, aliás: nós por cá não traduzimos para a língua indígena os livros nem legendamos os filmes provenientes do “país-continente”.

Escora-se o escriba neste seu textículo, o que de todo não surpreende, em supostos aliados que, do lado oriental do Atlântico, circunstancial ou ocasionalmente paridos algures no meridiano de Greenwich, parece apoiarem tão bizarra (quanto estúpida) teoria da conspiração “contra” a “cultura brasileira” em geral e a respectiva Literatura em particular. No caso, para “ilustrar” a tese, cita umas quantas indignadíssimas bojardas publicadas no Fakebook por um tal Venâncio, gajo se calhar porreiríssimo, suponho, mas que tem no entanto essa estranha — e tuga — mania de armar aos cucos denegrindo os seus compatriotas para dar graxa aos brasileiros.

Coisa que me irrita solenemente, confesso. Para isso, bajulação travestida de erudição, ainda tenho menos pachorra do que para levar com as tretas neo-colonialistas dos acordistas de serviço.

 

A língua que nos separa

Forte em Portugal, desprezo ao português brasileiro também viceja aqui

Sérgio Rodrigues

Jornal “Folha de S. Paulo” (Brasil), 19.07.18

 

Dia desses, no Facebook, o linguista português Fernando Venâncio desabafou: “Poucas coisas me irritam tanto como o antibrasileirismo primário e militante que encontro por estas paragens”. Referia-se ao antibrasileirismo linguístico, marca bandeirosa da cultura lusitana.

Qualquer escritor brasileiro que tenha lançado livros em Portugal nas últimas décadas (sou um desses) sabe o que Venâncio quer dizer. As portas que Jorge Amado escancarou de par em par no século passado se fecharam em algum momento sobre corredores cada vez mais estreitos e labirínticos.

Sim, é claro que muitos editores, críticos, jornalistas e outros portugueses esclarecidos insistem em furar com brio essas defesas. Infiltrando-se nas brechas, porém, os brasileiros que se expressam por escrito logo se veem escalados pelos leitores comuns d’além-mar como representantes de uma versão menor, tosca e corrompida da língua “deles”. Se soubessem cantar, dançar, contar piadas, temperando o verbo com aquele jeito de corpo que é sua maior —ou quem sabe a única— vocação, talvez pudessem ser levados a sério. Mas isso de escrever, francamente…

Nas palavras de Venâncio, há em Portugal uma “desavergonhada altanaria perante os pretensos ‘erros’ de que o português brasileiro estaria inçado”. O linguista vê esse sentimento integrado ao senso comum, cultivado por “gente visivelmente de poucas letras, e poucas luzes”. Refere-se a ele como “assustador”.

Eu prefiro o adjetivo “triste”. Assustador é constatar que um antibrasileirismo tão pimpão e ignorante quanto o luso viceja aqui também. Como reclamar do insulto de nos negarem em terra estrangeira o direito de gozar livremente de algo tão pessoal e profundo quanto a língua materna, sem ouvir sermões abestalhados sobre algum ideal platônico de gramática? Negamos a mesma coisa por conta própria, o que é bem pior.

Parte dessa dissonância é comum às línguas imperiais. A relação de amor e ódio entre o inglês britânico e o americano é tema do recém-lançado “The Prodigal Tongue” (A língua pródiga), de Lynne Murphy, linguista americana que mora e leciona na Inglaterra. Ela identifica em seus compatriotas um “complexo de inferioridade verbal” e, nos britânicos, o que chama de “amerilexofobia”, aversão esnobe a americanismos.

Nada tão diferente assim do que se vê no universo da língua portuguesa ou da espanhola. Ex-colônias crescidinhas e ex-impérios em queda vão sempre se emaranhar em teias complicadas de amor e ódio, admiração e desprezo. Contudo, vale atentar para a diferença que Venâncio, repetindo no post-desabafo o que já defendeu em livros, aponta entre os projetos linguístico-coloniais de Lisboa e de Madri.

“No Brasil, Portugal abandonou a língua portuguesa à sua sorte. E ainda bem! Pense-se na uniformidade lexical, gramatical e ortográfica que a Espanha impõe como ideal à América de fala espanhola”, escreve o linguista, concluindo que “o Português Brasileiro pôde desenvolver em invejável liberdade a sua norma, e vive bem nela”.

O texto termina exigindo, ainda que de forma jocosa, gratidão: “E venha daí um ‘obrigadinho’ a este Portugal que, oh felicidade, nunca teve um projecto linguístico, nem cultural, para o seu Império”.

Muito bem, mas não estou tão certo de que o deus-dará cultural seja algo que devemos agradecer. Seria necessário investigar primeiro até que ponto se funda nele a ridícula autoestima linguística que leva o brasileiro médio a situar nosso português três degraus abaixo do português europeu, e este, pelo menos sete palmos abaixo do inglês.

Sérgio Rodrigues

Escritor e jornalista, autor de “O Drible” e “Viva a Língua Brasileira”.

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Sérgio Rodrigues, publicado no jornal brasileiro “Folha de S. Paulo” em 19.07.18.]

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