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Alves dos Reis

O ex-Reitor da Universidade Aberta diz nesta entrevista, por entre muitas outras imaginativas mentiras, que “foi insultado” por gente decente mas que ele “nunca insultou ninguém”. Uma verdadeira avis rara, este ex-Magnífico, capaz de afirmar uma coisa com denodo e empenho e logo a seguir jurar o contrário, o exacto oposto da tese inicial, proferindo ambas, a tese e o seu contrário, com a mesmíssima cara-de-pau. Mesmo a pedi-las, portanto, este outro Alves dos Reis.

Evidentemente, será mera coincidência que ambos os “amigos do alheio”, ora mencionados pela comum esperteza saloia, batam na aldraba os mesmos apelidos; porém, caso para tal sejamos servidos dos favores de Themis (ou Justitia, para os romanos e os amigos), há-de ser algo interessante interpretar certos sinais comuns, por assim dizer. De resto, se nos restringirmos ao essencial, podemos estabelecer um paralelo entre um roubo do século (XX) e outro roubo do século (XXI).

Alves dos Reis emitiu em nome do Banco de Portugal um camião cheio de notas de 500 escudos com a efígie de Vasco da Gama. Este outro Alves dos Reis, o ora entrevistado, participou activa e selvaticamente na eliminação administrativa do Português-padrão e sua substituição por uma espécie de cacografia fonética, a da língua brasileira.

Não resulta claro a qual dos dois será mais justo atribuir o “troféu” de Maior Roubo de Sempre, mas estou em crer que o assalto à Ortografia portuguesa tem uma preponderância que nem carece de comparação com a performance do outro vigarista profissional, o que forjou para si mesmo um diploma de “engenheiro” e que deixou para a História o inegável legado de ter lesado o próprio Banco de Portugal, num quantitativo obsceno representado por notas mais falsas do que o “leão” de Rio Maior ou as camisolas Lacoste das feiras.

Liquidar a Língua Portuguesa a golpes de garganta e com requintes de malvadez é, de facto, uma coisa para constar dos anais (salvo seja) que ameaça transformar-se na mais miserável traição à pátria de todos os tempos, na mais malévola manobra de demolição do património identitário nacional, na perversão radical do próprio conceito de Cultura e da consciência daquilo que o saber envolve.

Ou seja, porque o AO90 contende com tudo e é parte integrante da nossa memória colectiva, isto é, da nossa própria identidade enquanto povo, com uma História a preservar e verdadeiros tesouros ancestrais a defender, quem participou nas secretas negociatas do “acordo” deveria ao menos — caso tivesse um pingo de honestidade intelectual e mais do que dois neurónios — cobrir-se de vergonha.

Nesta matéria, nem a pusilanimidade característica dos auto-intitulados “anti-acordistas” explica tudo. Aliás, essa tibieza ilustrada não explica absolutamente nada mas a verdade é que toda a gente baixa as orelhinhas e segue cantando e rindo, lambuzando-se de vez em quando com uma ou outra pilhéria sobre o gang de meliantes que pretende acabar com o Português e “adotar” os sinais gráficos do falar brasileiro. Nem uma só palavra agora, ou as que há são escassas e tipicamente fraquinhas, nem mesmo um simples soerguer de sobrancelha quando, como sucede nesta entrevista, um dos patronos do AO90 mente com imensa lata e não menor cagança.

Mente quando diz que nunca insultou fosse quem fosse, à boleia do AO90, mas acusa todos os anti-acordistas de serem “autistas”.

Mente quando usa a cartilha da propaganda oficial, esse rol de pseudo-argumentos, todos eles inventados e todos eles ridículos por igual.

Mente quando garante ser um purista da língua, um “conservador” empedernido das enciclopédias “puras”, sempre equipado com uma faca nos dentes para estripar anglófonos, estrangeiristas e bárbaros, quando afinal pára em todos os sinais de “STOP” e se calhar tem já em casa um nada desprezível STOCK de livros em puro brasileiro.

Mente quando estabelece um paralelo, como se houvesse nisso algum nexo causal, entre um simples erro — uma das inúmeras bacoradas com que nos presenteiam intelectuais da corda e até ministros sem pasta nem tino — com a abominável caterva de aleijões sortidos que inventaram os malacas e os Reis deste vale de lágrimas.

Mente ao garantir que o “acordo” é um facto consumado, qual maldição divina, qual “decisão irrevogável” do Mafarrico, como se o embuste colossal  fosse um simples bilhete caducado, uma franquia carimbada, um pacote de bolachas já bolorentas.

Mente quando fala em “reajustar” o que sabe perfeitamente ser imutável, segundo os ditames dos brasileiros. O AO90 é uma golpada estritamente política, sem ponta de ortografia por onde se lhe pegue, portanto não é “reajustável” — é somente rasgável.

Enfim. Basta! Até espiolhar patranhas na cabecinha do ilustre cromo, como quem cata piolhos, acaba por transformar-se num exercício danado, cruel, excruciante, porque de facto na referida cabecinha vai um festival de piolheira, mentiras a rodos, aquilo morde, aquilo dá uma coceira danada, aquilo é às centenas de bichinhos. O homem é o cúmulo da bajulação ao “país-continente” e ao patronato das famílias paulistas e cariocas.

Que fique a penosa leitura da longuíssima (e chatérrima) entrevista — ou então só do pequeníssimo excerto aqui citado —  pelas alminhas de quem teve a sorte de ir arejar para mais razoáveis paragens, ou que por simples curiosidade antropológica, exercício de subtil masoquismo, caso a alguém porventura apeteça conferir as tangas deste Alves “dos” Reis que, ao invés do outro, não tem nada que saber, é só ler e constatar o óbvio: mas que aldrabão, Deus me perdoe.

Ou Belzebu, que bem mais é entendido na matéria, nos nada misteriosos descaminhos das palavras.

[…]

sA — Como é que a literatura, que é essa arte da paciência, vai resistir às sociedades impacientes, apressadas, fragmentadas que já substituem as palavras por abreviaturas?

CRHá indicadores que nos dizem que continuam a publicar-se muitos livros. O caso Harry Potter é um fenómeno interessante. Milhões de livros vendidos e fanaticamente lidos por jovens fazem-nos pensar em duas coisas: uma é que há esperança, afinal não há falta de leitores; a outra é que a leitura não será para toda a gente. E temos de saber viver com isso.

sA — E o que pensa dessas hipóteses que coloca?

CR — Quando digo que o acto de ler não será para toda a gente, faço a afirmação não no sentido elitista, mas na perspectiva da predisposição cognitiva individual. Encaro isso do ponto de vista técnico, não sócio-económico. Haverá pessoas com predisposição para os vídeos jogos, por exemplo, outras para outro tipo de interesses. É nesse sentido.

sA — Referia-me também ao uso crescente de abreviaturas, à perda de hábito da escrita completa. Considera que esta tendência conduz a um empobrecimento da linguagem e, com ela, do próprio pensamento?

CR — Existe, claro, esse risco. Devo dizer que eu não sou capaz, escrevo tudo direitinho, as palavras todas e completas, com pontuação, etc. Agora, o que é preciso é dizer às pessoas que há contextos em que essa forma mais simples de escrita não é correcta. Porque o que a linguagem tem, ao mesmo tempo, de complexo e de muito rico é a sua maleabilidade para se adaptar a diferentes contextos de comunicação.
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Pangeia

O que se segue é um daqueles textos em que se arrisca passar tudo a “bold” e sublinhados, de uma ponta à outra, muito pouco ou nada restando intocado do original, sem qualquer forma de destaque e não implicando anotações mentais. Este Ray Cunha, do qual, confesso, nunca ouvi falar, dá-lhe com força, vejamos, distribui sem parcimónia alguma pontapés e caneladas a eito, mais uns murros para desenfastiar, em plenas canetas e fuças dos neo-colonialistas brasileiros, seus compatriotas mas pelos quais não parece nutrir grandes simpatias, que impuseram o AO90 a um portugalzinho imaginário.

O “estilo” uma no cravo, outra na ferradura desponta porém no arrazoado de Ray, o que é pena, mas não sejamos mesquinhos, no essencial Ray di-las das boas. Como, aliás, tantos outros brasileiros de tino. Nisso. nada de especial; lá como cá apenas uns clubezitos de maluquinhos decidiram aproveitar o espírito negocial  (ou seja, o “jeito para o negócio”) de Lula, Sócrates e Cavaco, a ver se lhes toca alguma coisinha na babugem.

Os laivos de grandiloquência as ressonâncias neo-imperialistas, de que o autor não consegue livrar-se, podem perfeitamente tolerar-se na leitura (o Brasil que fique lá com o seu saudoso II Império, é com eles, amanhem-se) se atendermos à mera, sólida e consequente — além de básica e elementar — constatação: uma coisa é a Língua Portuguesa e outra completamente diferente é a língua brasileira.

O AO90 é algo como espetar no chão duas estacas, uma do lado de cá e a outra do lado de lá do Atlântico, esticar entre elas uma corda e assim tentar bloquear a natural deriva dos continentes, algo que ocorre desde os primordiais tempos da Pangeia. Os continentes afastam-se uns dos outros como as Línguas se distanciam entre si. Tentar perverter (ou deter) o curso natural das coisas não é só tremenda estupidez — é impossível.

E ainda bem.

O português falado e escrito no Brasil tem alegria, sons, cheiros, sol, mar e democracia que nenhum decreto ortográfico de Lula poderá mudar

diariocarioca.com, 25.01.21

RAY CUNHA, DE BRASÍLIA

 

O ex-presidente e ex-presidiário Luiz Inácio Lula da Silva, presidente de honra do PT (Partido dos Trabalhadores), assinou, em 29 de setembro de 2008, na Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio de Janeiro, quatro decretos de promulgação do novo Acordo Ortográfico no âmbito da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), em homenagem ao escritor Machado de Assis, que completava cem anos de morto (1839-1908).

“Com esses atos, Machado de Assis será duplamente exaltado: de um lado, a Academia lhe rende a mais expressiva homenagem neste ano em que celebramos o centenário de sua morte. E, de outro, a assinatura pelo presidente Lula dos decretos que promulgam o Acordo Ortográfico dos sete países lusófonos” – declarou, então, o presidente da ABL, Cícero Sandroni.

Segundo Cícero Sandroni, a promulgação do Acordo Ortográfico concretizava uma antiga aspiração de Machado de Assis, manifestada em um de seus discursos, em 1897. “A Academia buscará ser a guardiã de nosso idioma, fundado em suas legítimas fontes – o povo e os escritores, todos os falantes de língua portuguesa” – disse, na altura, o autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas.

O argumento para mudanças ortográficas na língua portuguesa é que a alegada unificação da escrita no Brasil e em Portugal tornaria o português língua oficial da Organização das Nações Unidas (ONU). Supondo-se que fosse possível unificar a escrita das duas variações linguísticas, mesmo frases burocráticas, de documentos, são marcadas pela sintaxe, pelo estilo oriundo da cultura de cada um dos dois países.

O fato é que o novo Acordo Ortográfico não unifica o português de Portugal e o português do Brasil, mesmo que se trate de escrita burocrática. Qualquer tradutor na ONU terá que ser bom de ouvido, tanto para o falar lusitano, típico dos países de clima frio, como para o falar brasileiro, tropical, aberto. Isso, sem mencionar a linguagem crioula.

A pergunta que lateja é: A “unificação” da língua portuguesa escrita no Brasil com o português grafado em Portugal tem alguma utilidade? No caso do Brasil, não seria melhor investir maciçamente no ensino básico? E, depois, o Brasil tem mais com que se preocupar.

Enquanto Lula levava seu palanque para a Academia Brasileira de Letras, o Correio Braziliense, maior jornal da capital do país, publicava uma série de reportagens sobre crianças, meninas e meninos, que embarcavam em carros de luxo, no coração de Brasília, para serem estuprados a troco de comida.

A propósito, exploração sexual de crianças e escravidão sexual são comuns na província potencialmente mais rica do planeta, mas onde a miséria humana, a escravidão, o assassinato, campeiam. Enquanto Lula decretava uma escrita comum entre Brasil e Portugal, a tragédia se abatia na escola pública, por meio da qual universitários semialfabetizados, como Lula, se diplomam.

Não demorou, porém, para que se percebesse a que viera o novo Acordo Ortográfico. Foi para beneficiar editoras, principalmente as que integravam a panelinha do Ministério da Educação. A perspectiva era de faturar bilhões.

Creio que seria mais produtivo criar o Instituto Machado de Assis e, por meio dele, difundir mundialmente a língua portuguesa escrita e falada no Brasil. Os grandes escritores deste continente chamado Brasil são tradutores da nossa mestiçagem mulata, cafuza e mameluca, das nossas cores, cheiros e alegria. Quanto à CPLP, pode e deve influenciar a democracia, que vem sendo defendida com unhas e dentes pelo presidente Jair Bolsonaro, e se aperfeiçoar como bloco econômico.

Considerando-se o Brasil isoladamente, passamos à frente de Portugal, como os Estados Unidos superaram a Inglaterra. No nosso caso linguístico, enquanto o português lusitano se esgotou, o português brasileiro é uma língua jovem, enriquecida por idiomas africanos, pelo tupi-guarani, por estrangeirismos e pelo calor, cores, aromas, sabores e contexturas dos trópicos e da Amazônia.

Cada vez mais o Acordo Ortográfico se assemelha mais a uma peça de marketing do governo lulapetista, em um país de esmagadora maioria de alfabetizados funcionais – que leem mas não entendem o que leem –, com pelo menos 20 milhões de pessoas que vivem na Idade da Pedra – não sabem ler e, muitíssimos deles, não têm sequer certidão de nascimento; outros, são escravos mesmo, principalmente nos medievais estados da Amazônia.

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Ao menos coerência!

Não há-de ser difícil e muito menos será de alguma forma arriscado, seja qual for a perspectiva: os escritores estão legalmente protegidos por Direitos de Autor, o que significa que a integridade das obras literárias está de facto preservada e consignada. A nenhuma editora assiste o poder de alterar*** — seja de que forma for, a começar pela ortografia utilizada pelo autor — qualquer obra, livro, artigo, notas, comentários ou quaisquer outra formas de expressão escrita.

Por algum motivo que escapa à compreensão dos simples mortais, isto é, do público ao qual a Literatura se dirige e da qual é consumidor, porque adquirente, ou de outra forma leitor, porque destinatário, alguns escritores portugueses (e jornalistas e tradutores) admitem que as suas obras sejam estropiadas pelas editoras; estas, por seu turno, não apenas destroem alegremente a ortografia dos originais como, por requinte de malvadez, obrigam os autores a permitir que os seus escritos sejam previamente triturados pelo AO90. São imensas (e muito mal esgalhadas, como não podia deixar de ser) as desculpas que tais autores balbuciam para justificar a sua cobardia (ou pura estupidez); mesmo dando de barato as tretas e mentiras do costume (ah, e tal, o AO90 agora é lei, as editoras são obrigadas a empregar o “acordo”, o que posso eu fazer, a vida está difícil, e tal e tal), para esses esponjosos autores não há qualquer desculpa e sequer podem alegar coisa alguma em sua defesa. Admitem a cacografia brasileira nas suas publicações porque são feitos de borracha — sejamos polidos na terminologia — e portanto fingem que o problema lhes é indiferente, mera “questão de hábito” e patacoadas assim.

Não é de todo este o caso da escritora Teolinda Gersão, que desde sempre recusa liminarmente, como é seu direito, quaisquer vigarices na ortografia. Militante desde a primeira hora da luta contra o AO90, Teolinda Gersão declara expressamente em todos os seus originais que a edição e impressão de qualquer original seu terá de respeitar a versão integral do original, o que inclui, natural e inerentemente, a respectiva ortografia.

Não há cá “funfum nem gaitinhas”: ou a editora segue as instruções da autora quanto à ortografia ou então a autora mudará de editora (que as há, e bastantes, a recusar também o AO90), e adeus, passem bem.

[Nota: por respeito para com Teolinda Gersão, que além do mais é uma pessoa simpaticíssima, e para o muito improvável caso de tão honorável senhora alguma vez ler isto, devo dizer que — de boa vontade — tentei quase desesperadamente não desatar a insultar os brasileirófilos em geral e os escritores portugueses desse género em particular.]

*** Entretanto, os vigaristas ao serviço do Centrão acordista já alteraram o CDADC

 

Escritora Teolinda Gersão celebra 40 anos de carreira literária com novo livro

“Diário de Notícias” (Madeira), 14.01.21

 

A escritora Teolinda Gersão, a celebrar 40 anos de actividade literária, publica hoje um novo título, “O Regresso de Júlia Mann a Paraty”, e reedita “A Mulher que prendeu a Chuva”, de 2007, um dos mais premiados da autora.

“O Regresso de Júlia Mann a Paraty” reúne três novelas que se entrecruzam, e a que a escritora admite chamar romance, como afirmou, em declarações à agência Lusa.

“Prefiro considerá-lo um conjunto de três novelas entrelaçadas, sobre personagens históricas, que na vida real coexistiram e tiveram algum tipo de relacionamento”, afirmou Teolinda Gersão, numa entrevista por escrito, à Lusa, na qual sublinha a sua determinação em não seguir o Acordo Ortográfico vigente.

“Poderia chamar romance a este livro”, assegurou. “Obviamente há aspectos ficcionados, imediatamente reconhecíveis, mas todos os factos que refiro no livro são rigorosamente verdadeiros e estão documentados”, sublinhou.

Segundo Teolinda Gersão, “os títulos fornecem as coordenadas ao leitor”, são eles: “Freud pensando em Thomas Mann em Dezembro de 1938”, “Thomas Mann em Freud em Dezembro de 1930” e “O regresso de Júlia Mann a Paraty”, que dá titulo ao livro.

Quanto a “A Mulher que Prendeu a Chuva e outras histórias”, foi editado em 2007, venceu os prémios Máxima Literatura e Fundação Inês de Castro e vai na 7.ª edição.

A obra [de] 14 contos, que, partindo do quotidiano, se desenvolvem “insensivelmente, a outros mundos – oníricos, fantásticos, terríveis ou absurdos -, que nem por isso deixam de nos pertencer e de ser o lugar onde habitamos”, lê-se na apresentação da obra.

Sobre os 40 anos de vida literária, Teolinda Gersão faz um “balanço positivo e gratificante”.

“Sou agora muito mais lida do que há décadas atrás, os leitores estão familiarizados com a minha escrita. E os primeiros livros que publiquei tornaram-se ainda mais actuais do que na altura em que surgiram”, argumentou.

“Suponho que sou intuitiva, e me arrisco muitas vezes a ter razão antes do tempo”, acrescentou.

Sobre a actual situação pandémica, Teolinda Gersão afirmou que “é, certamente, inspiradora de novas histórias”.

“Todas as situações e épocas precisam de ser contadas, é o que distingue os humanos das outras espécies do planeta. Mas as narrativas necessitam em absoluto de ser verdadeiras. Para isso, a ficção pode ser, paradoxalmente, o melhor dos caminhos. Daí a responsabilidade enorme, e cada vez maior, dos escritores”.

“O mundo está cheio de narrativas falsas, e elas são uma das grandes perversões do mundo doente em que nos encontramos”, acrescentou.

O novo título de Teolinda Gersão, “O Regresso de Júlia Mann a Paraty”, é apresentado em ‘live streaming’ no dia 09 de Fevereiro, às 21:30, nas páginas da Porto Editora nas redes sociais Facebook e Youtube, com a participação da autora e da psicanalista Deolinda Santos Costa, numa sessão moderada pelo editor Vasco David.

Teolinda Gersão completa 81 anos no próximo dia 30. Nasceu em Coimbra, estudou Germanística, Romanística e Anglística nas universidades de Coimbra, Tübingen e Berlim, na Alemanha.

Foi Leitora de Português na Universidade Técnica de Berlim, assistente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e professora catedrática da Universidade Nova de Lisboa, tendo lecionado Literatura Alemã e Literatura Comparada.

Teolinda Gersão recebeu mais de uma dezena dos principais prémios literários, alguns dos quais bisou, como o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, da Associação Portuguesa de Escritores, que recebeu em 2002, com “Histórias de Ver e Andar” e, em 2017, com “Prantos, Amores e Outros Desvarios”.

Também por duas vezes foi distinguida com o Prémio Fernando Namora, atribuído pela Estoril-Sol, em 2001 pela obra “Os Teclados” e, em 2015, com “Passagens”.

O Prémio P.E.N. Clube de Narrativa foi-lhe igualmente atribuído pelas obras “O silêncio”, a sua estreia literária em 1981, e por “O Cavalo de Sol”, em 1990, ambos atribuídos ex-aequo, respectivamente com Eduarda Dionísio, “Histórias, Memórias, Imagens e Mitos duma Geração Curiosa” e Paulo Castilho, “Fora de Horas”.

“O Regresso de Júlia Mann a Paraty” sucede ao livro de contos “Atrás da Porta”, publicado em 2019.

 

[Os textos que eventualmente sejam publicados na imprensa usando a cacografia brasileira no original (por exemplo,da Agência brasileirusa) e aqui reproduzidos são automaticamente corrigidos com a solução Firefox contra o AO90 através da extensão FoxReplace do browser.]

 

 

Do “inconseguimento” e outros neologismos estranhos

publico.pt, 17.12.20

Louvor e explicação da “língua desportuguesa” de Ondjaki

Nuno Pacheco

Numa entrevista a propósito do seu mais recente livro, o escritor angolano Ondjaki disse a Isabel Coutinho (Ípsilon, 11/12) que o facto de o livro não trazer glossário se devia a estar escrito em “língua desportuguesa”, “a língua de liberdade estética”, explicando-se depois assim: “Não creio que deva haver uma língua desportuguesa nos dicionários para ensinar às crianças, não é disso que falo, não é aí que eu opero. Eu não opero com língua de dicionário, eu opero com língua de barro.” E dava como exemplos de “línguas desportuguesas” os brasileiros Manoel de Barros e Guimarães Rosa, os moçambicanos Mia Couto e Luís Bernardo Honwana, os angolanos Luandino Vieira e Manuel Rui e o guineense Abdulai Silla.

Logo no título, Ondjaki parece dizer ao que vem: O Livro do Deslembramento, como que cruzando a sonoridade de “deslumbramento” com o acto de esquecer. Mas para quem julgue que se trata de neologismo, convém dizer que deslembrado, deslembrança, deslembrar ou até mesmo deslembrativo já constam dos dicionários, justificando plenamente deslembramento. Tal como consta o desnascer usado por José Mário Branco no FMI ou há-de constar um dia o desconseguir que Mia Couto popularizou na escrita, mas foi buscar à oralidade quotidiana.

A “língua desportuguesa”, na acepção que lhe é dada por Ondjaki, é praticada há décadas, senão mesmo há séculos. Porque tem sido a liberdade estética, aliada às tradições e também às inovações culturais, a alimentar os dicionários e não o contrário; é o barro da escrita, moldado a partir do barro (esse ainda mais indomável) da fala, que vai aos poucos enriquecendo os volumes que registam a evolução da língua na sua forma oral (pela fonética) e escrita. Que isso se deva sobretudo à literatura e à poesia também não é surpresa. Mas os regionalismos, igualmente caldeados num saber antigo, contribuem para tal enriquecimento.

Por exemplo, só para recorrer a palavras começadas por “des”: Desgargoleirado (por desgargolado, com decote ou colarinho largo), no Dicionário do Falar Algarvio, de Eduardo Brazão Gonçalves, 1996; Desencodear (tirar a côdea), no Dicionário de Palavras Soltas do Povo Transmontano, de Cidália Martins, José Pires e Mário Sacramento, 2017; Desbussolado (por desnorteado), no Dicionário de Língua Baianaêsa, de Luciano Jatobá, 2004; ou até, numa língua que é filha directa da língua portuguesa, Desmagâ (por esmagar, esmigalhar), no crioulo cabo-verdiano, segundo o Léxico do Dialecto Crioulo, de Armando Napoleão Fernandes, 1889-1969.

Mas deslavrar, deslaiar, desleigar, deslimar, desmaginar, desnevoar, desnocar, desnoutar, despoer, despolir, desrefolhar, desrisonhar, desvizinhar, quem as inventou? Os dicionários não dizem, mas estão todas lá. Algumas há anos, outras há décadas. E todas elas poderiam caber numa qualquer “língua desportuguesa”, porque esta, nascendo do barro da palavra e da fala, será portuguesíssima. Por curiosidade, diga-se que o volumoso dicionário da Sociedade de Língua Portuguesa dedica 154 páginas só às palavras começadas por “des” (Grande Dicionário da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado, 1981, Tomo IV, págs, 62 a 216) e lá, além das já citadas, estão centenas de palavras que nos parecerão… “desportuguesas”.

É claro que ficcionistas e poetas têm inventado palavras, que os dicionários acolhem ou não, como o inutensílio de Manoel de Barros (“O poema é antes de tudo um inutensílio”, Poesia Completa, 2010, pág. 182) ou as bem-pensânsias de Alexandre O’Neill (Poesias Completas, 2000, pág. 195). Mas é bom lembrar que, antes deles, muito antes deles, são sobretudo as crianças que mais palavras inventam sem as registarem, pelo simples gozo da descoberta, trocando-lhes letras e sentidos, virando palavras do avesso como quem revira brinquedos.

Ao conjunto de tudo isto, juntando as novidades que nos traz a liberdade estética às heranças ancestrais da etimologia, pode bem chamar-se língua portuguesa, com as suas variantes culturais, lexicais e até ortográficas, porque os “desportuguesamentos” que dela derivam a enriquecem. Ao contrário da propalada e nunca conseguida (porque impossível e inútil) unificação ortográfica, teimosamente imposta por um acordo que nunca o foi nem será.

Ondjaki: “Eu não opero com língua de dicionário, eu opero com língua de barro”

“Público” (Ípsilon),
Isa­bel Cou­ti­nho

Ondjaki regressa à infância e juventude da personagem Ndalu, dos seus tios, avós e amigos da Luanda dos anos 1980/90

 

Andou às voltas com um cubo mágico para chegar aqui, onde tudo se encaixa. No ano em que comemora 20 anos de vida literária, lançou O Livro do Deslembramento, auto-ficção onde regressa às personagens da sua até agora tetralogia dedicada à Luanda dos anos 80. Para o angolano, é o seu livro mais psicológico e aquele em que os escudos literários estão mais em baixo.

Ondjaki, de seu verdadeiro nome Ndalu de Almeida, regressa em O Livro do Deslembramento (ed. Caminho) à infância e juventude da personagem Ndalu, dos seus tios, avós e amigos da Luanda dos anos 1980/90. Essa Luanda em que “uma pessoa não sabe passar um dia só sem inventar uma estória” vista pelos olhos de uma criança. Obra de auto-ficção, livro “composto a partir de memórias que derreteram ao sol”, é seguramente uma das mais belas e conseguidas em língua “desportuguesa”. Dá a sensação de que todos estes anos Ondjaki andou às voltas com um cubo mágico para chegar aqui, onde tudo se encaixa.

O romance faz parte da sua, até agora, tetralogia inaugurada com o romance Bom Dia Camaradas, que será discutido com o escritor a 15 de Dezembro, às 22h em Lisboa (19h em Brasília), na primeira sessão do Encontro de Leituras que reunirá online, através da plataforma Zoom, leitores lusófonos. É uma parceria entre o PÚBLICO e o jornal brasileiro Folha de S. Paulo. Dessa tetralogia fazem também parte Os da Minha Rua, AvóDezanove e o Segredo do Soviético.

O Prémio José Saramago 2013, com a obra Os Transparentes, tem 43 anos, regressou há três à cidade onde nasceu e inaugurou em Luanda a editora Kacimbo e a livraria Kiela. Continua a trabalhar sobre a memória que ficcionaliza. Não se lembra do que aconteceu há dias, mas daqueles tempos lembra-se com “uma nitidez absurda”.

“Lembrar, todos nós crescemos aqui e ali, agora o que é que vamos contar… É preciso um bocadinho de discernimento também”, diz durante uma conversa telefónica quase à hora do recolher obrigatório em Luanda por causa da covid- 19.

Começou a escrever O Livro do Deslembramento quando estava a terminar Os Transparentes, que lançou em 2012. Foi necessário o regresso a Angola para o finalizar?

Necessário não. Já escrevi muito sobre Angola estando fora. Realmente foi uma coincidência. Quando comecei a pensar e a falar com o meu editor, Zeferino Coelho, sobre o que íamos fazer quando chegasse a data dos 20 anos de vida literária, e como ele gosta de perguntar muitas vezes se tenho livro novo, disse-lhe que tinha e brinquei: mas não é novo; é um livro inédito, mas não é novo.
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«As raízes passeiam na escuridão» [por Diogo Vaz Pinto, jornal “Sol”]

É raro poder ler alguma coisa de jeito. De mais a mais quando essa coisa e esse jeito denotam uma total ausência de caganças, ou seja, sendo um texto escorreito que não arma aos cucos, simplesmente, ou, mais complicadamente, se demostra à saciedade que certa sociedade (“tipo” académica) não passa de balofa, inconsequente passagem-de-modelos fatela.

Feira de vaidades, montra de vacuidades, parada de militantes sem causa — para além do chequezinho mensal e da parábola mal parida que apenas aos próprios interessa.

De todas estas incompreendidas belezas, enfim, está a presente diatribe cheia, apenas lhe faltando por remate, palpito eu, o inerente, sonoro, retumbante, terminante arroto.

O Cânone. Intrigas e travessuras conventuais

Diogo Vaz Pinto
“Sol”, 24.10.20

Num gesto enfático de quem puxa o pano de uma coluna que não estava propriamente oculta, gesto a que se chama descerrar o monumento, surgiu entre nós um livro de ensaios de crítica literária com a pretensão de firmar a lista das listas. Mas “O Cânone” não traz grande novidade no que toca à eleição dos grandes autores da literatura portuguesa, e esconde, na verdade, um cânone secundário, ao mobilizar um conjunto de leitores da academia, formando um batalhão arregimentado para realizar uma marcha intimidatória entre os tantos percursos possíveis na memória que esta língua alcança.

Hoje, nem os esforços mais inoportunos ou aberrantes dispensam uma certa pompa, particularmente no que toca à vida cultural, essa que, no mesmo compasso em que vai perdendo relevância, e capacidade até de reflectir ou representar as experiências que vamos vivendo, parece enaltecer-se com a sua incapacidade de reagir. Mas, ao invés de assumir esta desistência, assume orgulhosamente a sua incapacidade de colar os cacos do tempo, de retomar uma qualquer razão ordenada, agarrando-se à boneca de pano de um passado morto, e apertando-a contra o peito nos momentos em que uma crise de ansiedade toma conta dela. Vemos assim um certo discurso fluir desde as regiões que se tomam por elevadas e que pouco difere do discurso dominante, esse que exibe, como notava Derrida, frequentemente aquele tom algo maníaco, jubilatório e encantatório que Freud reconhecia na chamada fase triunfante do processo de luto. Esse regime cadenciado, quando não ritualizado de certos encantamentos, é sinal tantas vezes de uma desistência ou até de rejeição profunda do futuro, e produz uma cultura de ecos cada vez mais fracos, de bocados, restos de frases, linhas em que o sublinhado sinaliza o que foi apropriado como um mantra, para manter o mais longe possível o mau-olhado do futuro.

Apareceu por estes dias uma colecta de textos de crítica literária investida, na forma como foi apresentada, desse delírio triunfal das patéticas ficções cheias do convencimento da sua preponderância. Assim, foram os próprios envolvidos a assumir que “O Cânone”, obra editada pela Tinta-da-China e financiada pela Fundação Cupertino de Miranda, deveria provocar algum celeuma, gerar uma torrente de reacções indignadas, e os editores adoptaram aquela pose desafiadora, como quem passa a mão pelo coldre, dizendo-se ansiosos por eventuais polémicas ou convites para duelos.

Por agora, depois de umas vagas notas na imprensa, instalou-se aquele concerto dos grilos, que apenas nos diz que a noite não tropeçou em nada. Não se ouviu gritos, e Vivien Leigh continuou com a cantoria no chuveiro. Houve duas sessões de apresentação, uma delas no Jardim Botânico de Lisboa, com Ricardo Araújo Pereira a assumir a moderação, e a cansar o velho número do pára-quedista que jura não entender porque raio insistem em chamá-lo para estas coisas. Essa sessão andou pela centena de pessoas seguindo a coisa em directo. Se alguém estava em pulgas para saber a lista dos escritores ou dos ensaístas o mais certo é que se tenha entretido a esmagar entre as unhas até à última das pulgas, pois a sessão foi tudo menos empolgante. A do dia seguinte, com apresentação a cargo de Pedro Sobrado, e as intervenções bem mais desenvoltas dos organizadores, especialmente de António M. Feijó e de Miguel Tamen, essa acabou por se mostrar bem mais compensadora para o pequeno auditório virtual que seguia a apresentação. Não estariam mais de 40 pessoas num mesmo momento a acompanhar esta segunda sessão. “O cânone é uma lista é uma lista é uma lista” começou por notar Sobrado, mas disse que sendo este um título anódino é, ao mesmo tempo, assombroso por tudo o que esta palavra consegue evocar – “desde o índice de textos sagrados até controvérsias sísmicas de especial magnitude”. Depois, e assumindo que existe hoje um meio literário, atendido e açulado por um público, deixando-se exaltar ainda por campanhas de promoção ou liquidação total, diz que este livro “possui um carácter incendiário”, isto por causa dos debates virulentos acerca do cânone, os quais por cá tão poucos acompanham como uma partida de futebol, e só por um rádio a pilhas, em diferido e com má recepção, tratando-se de pleitos travados noutras geografias. Sobrado punha essas querelas a par de outras motivadas pelas “sensibilidades pessoais e íntimas, confrarias académicas, tribos literárias. Mas é difícil perceber quem são esses a quem esta edição poderá causar mais do que um certo incómodo, algo mais que um beliscão ou um passageiro episódio de urticária. O mais natural é que, até por cálculo, diante de um esquadrão destes, os hipotéticos ofendidos deixem a coisa passar, e não se oiça ou leia mais que um resmoneio inconsequente à margem destas margens.

No entanto, é a presunção de que uma iniciativa editorial como esta possa assumir um carácter incendiário que chega a ser enternecedora, uma ficção ao mesmo tempo ingénua, como se, além da pauta fixada nos corredores, a tal listinha, fosse haver alguma revisão na bolsa dos valores literários, como se esta obra sinalizasse outra coisa que não um organigrama com a actual composição da comissão que dirige as festas e que tem o dedo na balança no que toca à promoção e despromoção dos autores a quem se vão dedicando teses, currículos e o raio. Sendo esta, em grande medida, uma recolha de actas, de circulares internas, de resumos de aulas, é disparatado quando Pedro Sobrado afirma que há o risco “de ninguém se rever n’O Cânone”. O verdadeiro risco que esta obra corre é de outra natureza: o de se estar tudo a marimbar e ser este gesto apenas mais outro exemplo da histeria algo nostálgica de uma “casta sacerdotal” que prega aos peixes e pouco mais. Um conciliábulo que, em face da ruína, não abre mão da postura teatral, com aquela atitude de soberba envolvida numa boa dose de anacronismo. Mas finjamos, por um momento que seja, aceitar o desafio, e discutamos essa ultrapassada questão. Não nos peçam é que levemos a coisa ao ponto de nos comovermos ou escandalizarmos com a intriga ou os personagens desta chatíssima peça de um só acto interminável, desfiando o delírio de um século ausente, a tossir o pó e as aranhas nos sótãos ou nas caves, entre a desilusão e o reacionarismo. Um século no qual um bando de académicos se convencem de que ainda são capazes de armar uma bulha dos diabos seja por, desta vez, Sophia não merecer senão uns piropos, seja por Eugénio ter sido deixado sozinho no Jardim de S. Lázaro a medir o tesão das flores ou Graça Moura em brasa e perdido no gozo com as suas musas em trajes menores, seja por terem recambiado Vergílio Ferreira para as évoras do Além ou Cardoso Pires para repórter de crime nalgum pasquim de pouco prestígio ainda que com mais proveito, até literário, do que o de tantas publicações académicas duplamente subsidiadas: quando são pagas e, depois, quando fazemos o favor de as ignorar.

O tom que caracteriza as intervenções mais contundentes neste volume é o da empáfia, o de uma injustificada sobranceria, um registo que se aproxima mais da crónica que do ensaio de crítica literária. E é Miguel Tamen quem se destaca nessa potestade que, nas voltas que dá, vai desenhando o seu próprio ralo, o vazio onde tudo acaba, entre banalidades denotativas, arremedos dando nó ao saco das obviedades ululantes, deduções vulgares, infusões e vapores achacantes, tudo como quem se baixa para acariciar um papagaio imaginário ou numa cadência de quem marcha e leva atrás de si uma pequena tropa. Sirva de exemplo a entrada que dedica a Portugal: “Quando se fala de Portugal, como aliás de literatura portuguesa, há uma grande diferença entre o que os portugueses fazem e o que os outros dizem. No caso da literatura portuguesa pode pensar-se que tal se deva a terem os portugueses lido mais livros de literatura portuguesa que os não-portugueses. Acontece que poucos portugueses leram literatura portuguesa, e a maior parte não se lembra de nada”. Aqui e ali, deparamo-nos mesmo com apatetadas tentativas de comédia: “Bem entendido, os portugueses não são uma pessoa ou sequer um animal. A palavra ‘portugueses’ designa uma soma de pessoas muito variadas, e não um ser vivo independente, por exemplo uma pessoa muito grande, ou muito gorda, ou com muitos braços.”

Mas o que mais denuncia esta atitude de quem, a coberto da liberdade da crítica para expor opiniões, usa de um tom jocoso, e faz desse exercício uma forma de tagarelice, em que as provocações degradantes assumem um tom de snobeira insuportável, lê-se numa passagem como esta: “Os portugueses, tantas vezes impiedosos com os erros de ortografia e as imprecisões em guias turísticos compostos no estrangeiro, tendem a encarar com mais benevolência o Holocausto só porque muitos refugiados, e mesmo alguns refugiados ilustres, passaram brevemente por Lisboa, como num grande congresso internacional. Tudo no mundo, acreditam, existe essencialmente para chegar a Portugal.

Pió qui tá num fica

Por respeito para com Maria Velho da Costa, transcrevo de seguida sem considerandos um artigo panfletário da autoria de certo tartufo acordista que teve, durante uns anos, o empedernido hábito de acompanhar Vasco Graça Moura em todos os eventos em que este marcava presença perorando sobre o “acordo ortográfico”. Nunca entendi lá muito bem, devo confessar, o que fazia aquele par de orelhas em semelhantes tertúlias, o que não obsta a que alguma luzinha se faça com artiguinhos como este, do mesmo songa-monga. O qual é incapaz de se coibir, em circunstância alguma, aproveitando para tal a mais indecente oportunidade, até um inocente cadáver usa como prancheta, de propagandear as suas alucinações de pretensa grandiloquência, uma doentia mania das grandezas, o putativo império “lusófono”, isto é, brasileiro. Neste textículo, lá está, ali, ali, ali e acolá, as tóxicas sementinhas do costume, as que usa espalhar, impassível, aferrolhando a sua característica, plástica máscara de palhaço rico.  

Pela razões aduzidas, por conseguinte, vai assim mesmo a transcrição, sem realces, sem ligações, sem notas e sem comentários. A condizer com aquilo que é, de facto, por definição, uma coisa esponjosa, invertebrada, gelatinosa, escorregadia, falsa como Judas, desprovida de passado e de memória; sem História. E como este há mais.

O DOMÍNIO MÁGICO DA PALAVRA…

Guilherme D’Oliveira Martins

 

“Se eu escrevesse de escrever não escreveria para ser entendida. Há para isso correios, telégrafos, até falar” – é Maria Velho da Costa quem o afirma no início de Cravo (1976)… De facto, se há escritora contemporânea que pretende escrever mais do que simplesmente escrever é a autora de Missa in Albis (1988). E escrever de falar é, no fundo, cuidar da palavra no sentido de ser entendida. Por isso, Maria Velho da Costa era apaixonada pelo falar comum, como o daquele homem em Santa Apolónia que explicou de onde e como chegava o próximo comboio.
A língua é essencial para a afirmação das identidades, mas também para enriquecer, pelo diálogo, as culturas e civilizações. É verdade que os povos primitivos criaram diferentes línguas para poderem preservar os seus segredos, mas sem novos vocábulos e novas experiências as línguas esmorecem. Germano Almeida diz-nos que tem duas línguas, sendo a primeira o crioulo. “Nós em Cabo Verde devemos estar preocupados com o uso da língua portuguesa. É isto que tento transmitir. Temos de dominá-la bem, porque nos põe em contacto com o mundo. A língua cria proximidades. Eu quero transmitir a cultura cabo-verdiana, a vivência cabo-verdiana em português. Posso dizer que é uma língua estranha. Utilizo-a como uma ponte entre culturas”. Segundo Ivo de Castro, “a história da língua portuguesa pode ser resumida numa frase: falamos uma língua que nasceu fora do nosso território e cujo futuro será em larga medida decidido fora das nossas mãos. A língua portuguesa, numa visão temporal ampla, acha-se de passagem por Portugal”. Quando falamos da língua portuguesa, consideramos uma longa história a partir do galaico-português, referimos uma língua antiga, que cedo alcançou uma assinalável maturidade, certamente em virtude do rei D. Dinis, na linha de seu avô Afonso X, o Sábio, tê-la tornado cedo língua dos tabeliães em lugar do latim, o que favoreceu a afirmação do idioma como modo de comunicar do povo e dos letrados. E é importante deixar claro que, de facto, o português ou o espanhol nunca foi dialeto um do outro, sem prejuízo de um encontro entre ambos por volta de 1400, no momento do ofuscante esplendor da cultura vizinha. A partir da matriz galega, temos uma diversidade de influências, como dos moçárabes, principal veículo transmissor de um grande número de vocábulos árabes para o nosso léxico pela parte bilingue da população, além dos caracteres próprios adquiridos com a cultura quinhentista. Quando hoje relemos os “Cantares Gallegos” de Rosalia de Castro (1863) depressa nos apercebemos de onde vimos como língua. “Minha terra, minha terra / Terra donde m’eu criei, / Hortinha que quero tanto, / Figueirinhas que prantei. // Prados, rios, arvoredos, / Pinares que move ó vento, / Passarinhos piadores, / Casinha do meu contento…”.

Como disse Rui Knopfli, a língua tenderá a ser um denominador comum de vários espaços africanos, asiáticos, brasileiros, europeus numa espécie de “pátria coincidente”. E para compreender, basta lermos a literatura da língua portuguesa contemporânea. Cultura de várias línguas. Língua antiga, língua moderna sempre em movimento. Lemos Camões na lírica e é nosso contemporâneo: “Descalça vai para a fonte, Leonor pela verdura / vai formosa e não segura…”. Ouvimos Vieira, e está ao nosso lado: “Arranca o Estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta, dura, informe…”. Encontramos Manuel Bandeira: «A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros / Vinha da boca do povo na língua errada do povo / Língua certa do povo / Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil»… O Dia Mundial da Língua Portuguesa, este ano comemorado pela primeira vez a 5 de maio, é uma responsabilidade de todos. O Embaixador António Sampaio da Nóvoa salientou-o melhor que ninguém no seio da UNESCO. E se falamos de uma língua viajante com presença em todos os continentes, temos de lembrar Eduardo Lourenço a dizer: “mais importante que o destino é a viagem”…

Maria Velho da Costa deixou-nos. É uma das grandes escritoras contemporâneas. Trouxe-nos na sua obra algo que nos permite compreender o mundo à nossa volta com gente de carne e osso, demonstrando, como fez em Myra (2008) “que há sempre uma ponta de paraíso, um véu de clemência que estende uma ponta, fugaz que seja”… Se falamos da língua portuguesa, temos de afirmar que para a autora de Maina Mendes (1969) e de Casas Pardas (1977) antes da literatura está a força da palavra. Quando a lemos, entendemos bem como uma língua viva se centra na força e na vitalidade da expressão. Por isso, em sua homenagem, citamos o testemunho da sua amizade com Sophia de Mello Breyner. “Falávamos de noite, no alpendre quase morno, sem tom nem som. Nenhuma das duas era desesperadamente musical. Não havia música nem nos fazia preciso. Falávamos mais de todos do que de tudo; de tudo eram a arte e a poesia – nem política, nem mundos a mudar. Não era a prudência de pertencermos a fações políticas diferentes. Era a força da indiferenciação da noite, quando as mulheres falam. Falávamos de amores, de filhos. De amigos e desamigados. Desse mundo ginecêntrico e caótico, onde tínhamos ambas de manter aparências. Brilhávamos na meia obscuridade como as estrelas que se viam no céu limpo, mortais e imortais, pese a solenidade. Porque não eramos solenes (…) As estrelas reuniam-nos e aplacavam-nos debaixo do alpendre de heras, onde ressuscitavam as osgas do torpor do inverno”…

Maria Velho da Costa representa uma relação única com a criação literária, preocupada com o modo de comunicar a vida, mais do que cuidar do tratamento formal. O seu inconformismo e as aproximações a Agustina e Nuno Bragança estão bem presentes na obra romanesca e ensaística. E assim procura ligar pessoas e acontecimentos a uma reflexão emancipadora. Estamos perante uma escritora que desde cedo se foi revelando como uma extraordinária cultora da renovação da língua – desde logo na tradução, sendo exemplar o modo como tratou a riqueza espiritual de Simone Weil… Tem, pois, razão Luísa Costa Gomes quando insiste no facto de estar bem viva a escritora, sendo a melhor homenagem a fazer-lhe a sua leitura.

Guilherme D’Oliveira Martins

 

[Transcrição integral. “Gazeta do Interior”  n.º 1645, 01.07.20]

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palhaço (agora deputado) brasileiro Tiririca. Autoria da foto: desconhecida