Etiqueta: literatura

Pedro Tamen [1934 – 2021]


Um Fado: Palavras Minhas

Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido…

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
— que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.

in “Tábua das Matérias” – Poesia 1956-1991

 

«Pedro Tamen nasceu em Lisboa, em 1934 e estudou Direito na Universidade de Lisboa.»

«Entre 1958 e 1975 foi director da Editora Moraes e depois, até 2000 (data em que se retirou da actividade profissional), administrador da Fundação Calouste Gulbenkian.»

«Foi também dirigente cine-clubista, professor do ensino secundário e director-adjunto de uma revista de actualidades.»

«Fez crítica literária no semanário Expresso.»

«Foi presidente do P.E.N. Clube Português (1987-90).»

«Foi membro da Direcção e presidente da Assembleia Geral da Associação Portuguesa de Escritores.»

«Tem poemas traduzidos e publicados em francês, inglês, espanhol, italiano, alemão, neerlandês, sueco, húngaro, romeno, checo, eslovaco, búlgaro e letão.»

«Foi duas vezes finalista do Prémio Europeu de Tradução.»

«Traduziu recentemente À la Recherche du temps perdu, de Marcel Proust.»

«A sua obra poética, iniciada em 1956 com Poema para Todos os Dias (Ed. do Autor, Lisboa) encontra-se reunida em Retábulo das Matérias (Gótica, Lisboa, 2001). Posteriormente,publicou os livros Analogia e Dedos (2006) O Livro do Sapateiro (2010) e Um Teatro às Escuras (2011). Em 1999 foi publicado um disco-antologia intitulado Escrita Redita (poemas ditos por Luís Lucas; Ed. Presença / Casa Fernando Pessoa).»

«À sua poesia foram atribuídos o Prémio D. Dinis (1981), o Prémio da Crítica (1991), o Grande Prémio Inapa de Poesia (1991), o Prémio Nicola (1997), o Prémio Bordalo da Imprensa (2000), o Prémio do PEN Clube (2000), o Prémio Luís Miguel Nava (2007) e o Prémio Inês de Castro (2007).»

 


Priberam: em Português

Daquela que é, na minha opinião, a melhor ferramenta do género, absolutamente indispensável para quem trabalha com a Língua Portuguesa, ou seja, toda a gente que sabe ler e escrever em Português, apenas há a esperar que a equipa da Priberam não tenha estragado nada com esta nova versão, nem no corrector ortográfico e sintáctico FLIP (programa e utilitário) nem no dicionário online.

Parece que não. Corrector e dicionário continuam intactos e, portanto, imunes à brasileirização compulsiva que já vai infectando os programas e as plataformas da concorrência, nesta incluindo um “serviço” financiado pelo Governo que está convictamente assimilado, ao serviço da terraplanagem brasileira: refiro-me ao tremendo barrete que dá pelo nome de “ciberdúvidas”. Ora, a Priberam também disponibiliza, além do corrector, do dicionário e de diversos outros auxiliares da escrita, um verdadeiro serviço de “Dúvidas Linguísticas”.

Enfim. Por uma vez sem exemplo, aqui fica a sugestão — inteiramente grátis, é claro, que ninguém me encomendou frete algum — já não apenas de uma ferramenta única mas de uma caixa de ferramentas inteira, daquelas à moda antiga, sólida, em chapa e com pegas de ferro, pronta para resistir sem amolgadelas ou sequer riscos a quaisquer pancadas, marteladas e pontapés na gramática. Estamos todos fartos de porcarias tipo “loja do chinês” e de plástico moldável em tretas infantis enjorcadas por cabecinhas cheias de… enfim, digamos, borracha.

Este é todo um trabalho sério, escorreito, limpo e transparente, obra de portugueses competentes, e por isso não será exagero algum saudar ambos, os trabalhadores do cérebro e a empresa que os seleccionou e emprega: parabéns, mas que luxo!

 

Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa (DPLP) é um dicionário online de português. Compreende o vocabulário geral e os termos das principais áreas científicas e técnicas. O DPLP contém informação sobre as diferenças ortográficas e de uso entre o português europeu e o português do Brasil. O dicionário online apresenta funções avançadas de consulta e pesquisa assentes na plataforma lexicográfica da Priberam. Inclui ainda ligação para os auxiliares de tradução do FLiP (espanhol, francês e inglês).

O DPLP é um dicionário online de consulta gratuita. O seu conteúdo é assegurado por uma equipa de linguistas, estando em constante actualização e melhoramento.

A Priberam agradece desde já todos os comentários e sugestões dos utilizadores do dicionário online. A informação será tida em conta pela equipa de linguistas. Todos os comentários devem ser enviados para dicionario@priberam.pt.

O DPLP e o novo Acordo Ortográfico

O DPLP apresenta-se em duas versões. Por um lado, uma redigida na norma europeia do português, sem e com as alterações gráficas previstas pelo Acordo Ortográfico de 1990. Por outro, uma versão redigida na norma brasileira do português, com e sem as alterações previstas pelo novo Acordo Ortográfico.

Na secção Como consultar, cada uma destas opções de pesquisa no dicionário online é descrita pormenorizadamente.

Para mais informações sobre o Acordo Ortográfico, consulte a secção Acordo Ortográfico no site do FLiP.

[…]

[“site” da Priberam]

Flip 11: nova versão do corrector ortográfico da Priberam para quem leva o Português a sério

TekGenius
Marco Trigo

Depois de alguns anos de espera, a Priberam lançou o FLiP 11, a nova versão do seu conceituado corrector ortográfico, e que chega com algumas novidades. Acima de tudo, chega com um foco muito forte na exactidão e nos glossários científicos, para se distinguir dos dicionários generalistas.

A questão que se coloca à Priberam é que, nos últimos anos, generalizaram-se os dicionários generalistas que encontramos nos telemóveis, nos browsers e, principalmente no Microsoft Office, que continua a ser uma ferramenta fundamental em muitas empresas. Mas, como a Priberam destaca, embora estes dicionários generalistas sejam suficientes para o cidadão comum, a Microsoft optou por um caminho peculiar com revisão pré ou pós acordo ortográfico, e também uma mista. O resultado é que muitas grafias erradas acabam por ficar nos nossos textos.

Não foi sempre assim. A partir de 2001 e até ao Office 2016, a Priberam e as diversas versões do FLiP foram os parceiros da correcção ortográfica do Microsoft Word.

A apresentação à imprensa, que contou com Carlos Amaral, CEO da Priberam, e com a linguista Helena Figueira, focou este ponto, mostrando amplos exemplos de grafias incorrectas aceites pela Microsoft e não pelo FLiP.

Um ponto forte do FLiP 11 é também a integração de dicionários temáticos, com uma grande riqueza de termos específicos das áreas científicas, uma lacuna ainda gritante no Office. Graças a estes dicionários temáticos, o FLiP é um facilitador da escrita científica, reconhecendo termos que para o Office (e outros) serão apenas erros ortográficos. O exemplo citado é bastante claro: para o FLiP, “cometário” refere-se a um cometa, mas para o Office é apenas um erro ortográfico em “comentário”.

Para o académico, o FLiP 11 tem então uma dupla vantagem: não só não lhe enche o ecrã de palavras sublinhadas, como também não o induz em erro, corrigindo falsos positivos.

O FLiP 11 tem também uma melhor compartimentalização das ortografias pré e pós Acordo Ortográfico e uma capacidade melhorada de correcção contextual da ortografia. Conta, além do mais, com dicionários para todos os países Lusófonos e é compatível não só com o Microsoft Office, mas ferramentas da Adobe ou Open Office e ainda é possível utilizá-lo como plugin para o WordPress. Estas aplicações tiram todas proveito não só das ferramentas correctivas (tanto ortográficas, quanto sintácticas e estilísticas), mas também dos dicionários Priberam e do conjugador de verbos.

[…]

Priberam anuncia o FLiP 11 com foco na universalidade

noticiasetecnologia.com

A Priberam anunciou o novo FLiP 11, a décima primeira versão do pacote de ferramentas de revisão e auxílio à escrita da empresa portuguesa, conhecida pelo seu Dicionário. Disponível apenas para Windows, é totalmente compatível com o Microsoft Office 2019 e, a partir desta versão, e deixa de haver um produto diferente para o mercado brasileiro – ou seja, este é um FLiP universal.
(mais…)

Os Cinco

Mais um artigo sobre “o uso e abuso” de anglicismos. A coisa já cansa, sejamos francos, mas não deixa de ser uma curiosa espécie de fenómeno… anti-linguístico, digamos assim. De facto, e nisso reside a sua “curiosidade”, a questão, sendo radicalmente contra-producente, é por regra apresentada agora (porquê agora?) como a única maleita que afecta a Língua Portuguesa; ou seja, igorando olimpicamente (quando não ostensivamente) o AO90 — este sim, o verdadeiro cancro que vai minando a nossa Língua nacional.

A sanha extrema com que os agentes ao serviço das negociatas brasileiras vão destruindo a Língua Portuguesa é uma excepção no âmbito do movimento mundial pela instauração obrigatória da Novilíngua, se bem que os princípos basilares e as técnicas de demolição sejam as mesmas, num caso e no outro: adulterar a Língua, seja ela qual for, implica a alteração radical do raciocínio e, por consequência, do próprio indivíduo, o que incluiu a revisão da História e a liquidação sumária da consciência. Disto mesmo é exemplificativo o mais recente banimento das obras de Enyd Blyton; sem necessidade de quaisquer juízos de valor, a verdade é que a rotulagem desta autora como “racista e xenófoba”, incluindo-a numa extensa lista de autores “inadmissíveis”, implica o apagamento de boa parte da nossa memória, especialmente de períodos da puberdade e da adolescência de milhões de leitores em todo o mundo.

A imposição selvática da linguagem “politicamente correcta” implica igualmente a proibição, a erradicação, o abate de palavras — mesmo ou principalmente no quotidiano, por fluidez discursiva, sem qualquer carga ideológica ou política — pressupõe um tipo de empobrecimento que, por indelével, equivale a um ditame tão binário quanto imbecil: isto podes dizer, aquilo não podes. 

E não podes escrever e não podes sequer pensar.

Banir o pensamento é afinal possível. Basta adulterar as palavras, tornar obrigatória a obsolescência de conceitos e a caducidade da memória, extinguir por decreto o passado de um  indivíduo, de um povo, de uma nação.

Evidentemente, a neo-colonização de Portugal (e PALOP) pela língua brasileira (AO90) é em tudo semelhante, a começar pelos métodos e processos, à selvática imposição do pensamento único através da “destruição das palavras”, para usar uma expressão do próprio Orwell, o visionário que previu o horror agora tornado realidadePorém, mesmo provindo ambas as formas de ditadura mental da mesma “escola” de estupidificação em massa, e embora sejam similares os métodos e as respectivas finalidades, entre a obrigatoriedade da Novilíngua e a imposição da língua brasileira existem algumas diferenças de pormenor.

Como, por exemplo, retomando o fio à meada, alvos errados e tiros falhados: atirar sobre “o uso e abuso” da língua “cámone” é um exercício de puro (e vesgo) laxismo, ou coisa ainda pior, dependendo da figura que vocifera a sua espécie de nacionalismo oral e a sua estranha concepção de purismo linguístico, visto que tais pruridos puristas são tão ineficazes como eliminar a estupidez por decreto e tão inúteis como engessar as pernas a alguém que está com uma valente gripe.

Em suma, o “tiro ao anglicismo” está, ao contrário do que sucede no “tiro ao boneco”, nos arraiais, infalivelmente condenado a acertar sempre ao lado.

Acresce que alguns destes (aparentemente) azelhas do tirinho nem mesmo tentam disfarçar que usam uma espingarda torta: o seu verdadeiro alvo é fazer passar o AO90 por “facto consumado”, algo com que as pessoas normais já nem devem ralar-se, está feito, está feito, agora (porquê agora?) aguentem-se à bronca. Esta táctica de desvio de enfoque, truque manhoso e aldrabice velha e relha que os vendidos aprendem no seu 1.º ano de formação intensiva, socorre-se primordialmente do falso pretexto “anglófono” mas apresenta outras variantes, diversas manobras de diversão para os mesmos fins: por exemplo, listas e mais listas de “aberrações” (como se o AO90 não fosse, todo ele, de cabo a rabo, uma aberração), “discussões” amenas, tertúlias e “mesas-redondas” em vários órgãos de comunicação social, textículos sobre assuntos “linguísticos” sortidos, qual deles o mais irrelevante e frívolo. 

Nesta acepção, quem, ainda que movido de boa-fé e de todo inocente, colabora em tais manobras acordistas, ou quem às ditas confere sequer um mínimo de credibilidade, então estará — lamentavelmente, tristemente — a ser conivente de alguma forma com tais expedientes, com tais vendidos, com tal traição.

Bem, as papas e os bolos não enganam todos.

Pode bem ser que estejamos nós outros utilizando uma simples espada mental, pode até essa espada estar já romba, ou até quebrada de tanto golpear armaduras de coriáceos acordistas, mas não será por isso que deixaremos de a empunhar e contra eles investir, agora como sempre.

—————–

Perdão? Final demasiadamente lírico?

Ah, OK, não vi o sinal de STOP. Oops, “STOP” é Inglês, não posso. Oops, “oops” também.

Como diz “em português” a nossa juventude nas redes anti-sociais, LOL.

 

O vírus do anglicismo

Joaquim Miguel de Morgado Patrício
Centro Nacional de Cultura, 18.06.21

 

Saber inglês é hoje uma ferramenta necessária para quem estuda, investiga, trabalha, viaja e tem de ter acesso ao mundo globalizado. Em todas as épocas há uma língua franca, sendo a de hoje o inglês. Os avanços técnico-científicos permitiram uma globalização que possibilitou uma maior proximidade, em que o inglês foi promovido a língua dominante nas empresas que controlam a produção, beneficiando-o nos impressos e folhas de instruções, nas etiquetas, caixas, distribuição, transportes, publicidade, ou seja, em todas as apresentações e disponibilização do produto desde a origem ao consumidor.

Esta permissividade tem condições especialmente favoráveis em países que têm falta de autoestima ou uma fraca imagem de si em termos económicos, onde o estrangeiro associado aos mais ricos é que é bom, sinónimo de culto, moderno, desenvolvimento e prestígio. Por vezes há ausência de legislação obrigatória quanto ao uso da língua materna ou oficial nas instruções e nos rótulos dos produtos importados. E quando há legislação, nem sempre os entes competentes a fazem cumprir, sendo injustificável que se invoquem dificuldades na sua implementação ou fiscalização. Não fazer cumprir uma lei também é uma opção e estratégia, tida como uma mera exigência do politicamente correcto, sem conteúdo prático.

Por questões de imagem e de redução de custos, a língua da empresa é a da casa-mãe, que não se compadece com traduções, com perda de tempo e de dinheiro, o que é agudizado pelo facto de, no actual momento económico, a sua sede ter a maior probabilidade de ser num país anglófono, ou que tenha tão só o inglês como língua de comunicação global.

Opta-se quase sempre pelo idioma tido internacionalmente como mais conveniente, o das empresas multinacionais, em que a língua da empresa é a do país onde está a inovação criativa e o dinheiro, sendo a língua do poder.

Esta imposição do inglês como língua económica, cultural e política, é tida, por vários autores, como imperialismo linguístico e um vírus do anglicismo.
(mais…)

Portsoc

Pretendia-se que quando a Novilíngua fosse adoptada de uma vez por todas e a Velhalíngua esquecida, um pensamento herético  fosse literalmente impensável, pelo menos na medida em que o pensamento depende das palavras. [George Orwell, “1984”]


Como anteriormente aqui disse, e repito, e que me perdoe pelo calão algum mais comichoso dos três leitores deste manual de diatribes contra o AO90 (e outros detritos), estou-me altamente nas tintas para a cagança dos idiotas profissionais que abusam da Língua Inglesa. Por regra e definição, essa pandilha é constituída por tecnocratas que pouco ou nada sabem dizer (e muito menos escrever) em Inglês (e muito menos em Português), além de jargão técnico, tipinhos com uma pronúncia desgraçada (sotaque das Amoreiras, digamos), yuppies do século XXI cuja “pinta” de lorpas se topa a léguas. Enfim, que se danem os inguelishes e que se inglixe a jactância.

Esse estranhíssimo fenómeno (tipos que tentam impressionar a pategada com “buéda” tecnicismos no original) poderia interessar alguma coisinha caso tivesse a ver com assuntos sérios em geral, como a Ortografia, a Gramática portuguesa, a História de Portugal, o nosso património cultural, a independência nacional ou a soberania que estrangeiros nos sonegaram; ou seja, com o “acordo ortográfico”.

O AO90 contém igualmente algo de soluços de vaidosos e muito de tiques de autoritaristas, além de outro tanto de radical imbecilidade, porém é caso único, uma hecatombe que ameaça não deixar pedra sobre pedra dos nossos castelos no ar e apagar para todo o sempre o mais ínfimo vestígio de tudo o que prezamos, valorizamos e, em suma, somos; aquele horrendo crime de lesa-inteligência pretende derrubar todos os que, durante novecentos anos, construíram o que a última geração de estrangeirados ameaça abrasileirar.

No processo de aniquilação em curso, pretendem eles substituir a Língua portuguesa pelo brasileiro utilizando a táctica da novilíngua, isto é, a invenção literal de uma nova língua para eliminar a existente; isto não implica apenas chamar os bois por outros nomes, trata-se de reescrever a História e de “reformar” o próprio pensamento: conceitos, idiossincrasias, ideias simples ou raciocínios complexos, anseios individuais ou colectivos, devaneios ou desejos e mesmo os erros, as falhas, as faltas, os equívocos, as coisas hilariantes e as tristes, até a língua em que sonhamos; tudo, rigorosamente tudo será alterado, adulterado, “corrigido” segundo os sacros mandamentos dos oficiais do Partido, os donos da língua e, portanto, da vontade dos proletas — cujas funções consistirão exclusivamente em gerar outros escravos do Grande “país-Irmão”.

Proibir a língua “velha” (a velhice é já um demónio ao serviço da Nova Igreja) faz parte, obviamente, deste hediondo plano de terraplanagem linguística e cultural através da massificação da catatonia e contando já com o geral estado comatoso que caracteriza a indígena chusma de “pensadores”. As patranhas colossais, as mentiras descabeladas propaladas por alguns traidores e vendidos portugueses, contando com a nacional apatia (uma patologia ancestral), tentam impingir a todo um povo de descendentes de colonizadores a cacografia e, em última análise, a língua dos ex-colonizados. Caso único no mundo, evidentemente, “fundamentado” nesta coisa extraordinária: eles são 210 milhões e nós somos 10 milhões. Ou seja, a língua é só uma questão de contar cabeças; mesmo que os novos colonos provenham de um país a 7.500 km de distância, com o oceano Atlântico de permeio, mesmo que o Brasil seja uma ex-colónia portuguesa independente desde 1822 (e Portugal desde 1143), mesmo que do lado “dji” lá a pronúncia (não confundir com “sotaque”) seja para nós alienígena, a sintaxe abstrusa e a cacografia completamente anárquica, pois ainda assim uma mão-cheia de alucinados — isto é, de gulosos vigaristas — insiste na “adoção” por Portugal do brasileiro como Língua nacional, extinguindo em simultâneo o Português.

George Orwell era um inglês que escrevia, evidentemente, em Língua Inglesa. A sua obra mais genial é, sem dúvida, Nineteen Eighty-Four (1984). Isto sim, é Inglês que se pode (e deve) citar até à exaustão.

Nem sempre utilizar expressões inglesas serve só para impressionar (pategos). Há coisas que fazem parte da Língua em que foram criadas mas que acabam por se tornar património do universo inteiro.

Como a austera, apagada e vil tristeza de Camões, Hamlet (Shakespeare) reflectindo sobre to be or not to be ou, pela inversa, contrariando a sentença lapidar de “1984”,

Victory is possible

Os malefícios de um provincianismo mental acrítico e fascinado pelo novo

Nem a TLEBS, com as suas fastidiosas e aberrantes descrições, nem o AO 90, com os “seus erros, imprecisões e incoerências”, propiciam uma reflexão sobre a Língua.

Maria do Carmo Vieira
“Público”, 11 de Junho de 2021

 

O síndroma provinciano compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade de ironia.
Fernando Pessoa

 

Regresso a um tema que me é caro e sobre o qual me tenho repetido porquanto, a meu ver, permanece o absurdo que o caracteriza, bem como a doença de que padece e à qual se refere a epígrafe escolhida. Refiro-me à Reforma curricular de 2003, cujo espírito e metodologias se mantêm porquanto “o princípio da cura está na consciência da doença, o da verdade no conhecimento do erro”, o que ainda não aconteceu.

Não posso deixar de confessar que o presente texto nasceu do livro do Professor Jorge Calado (IST),Limites da Ciência (2.ª edição, 2021), da Fundação Francisco Manuel dos Santos, “redigido com o Acordo Ortográfico de 1945”, conforme se lê em nota. Será imprescindível transcrever as palavras do autor, a propósito de “A Língua e a linguagem”, para evidenciar a relação com a Reforma de 2003 acima referida e entusiasticamente anunciada. Eis a transcrição, longa, mas imperiosa: “Alguns cientistas, isolados nas suas torres de marfim, pensam que, se ninguém os entende, fazem figura de seres supremamente inteligentes. A verdade é que a construção de uma linguagem hermética, entendida por poucos e benéfica para nenhum, não passa, muitas vezes, de mais um sintoma de impreparação. A nudez da ignorância disfarçada com o manto espesso do artifício. […] A snobeira do falar difícil e pseudocientífico encontrou terreno fértil nas humanidades. […] que dizer da relativamente recente (2004) substituição da velha Nomenclatura Gramatical Portuguesa dos artigos, substantivos, adjectivos, verbos, pronomes, advérbios, preposições, etc., pela pretensiosamente científica Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (TLEBS), entretanto suspensa? Uma salgalhada de variáveis, determinantes, auxiliares aspectuais e modais e preciosidades como ‘Um Nome tem um funcionamento não contável quando necessita de um suporte (discretizador ou enumerador) que o discretize ou enumere.’ Ciência, isto?”

Haverá que esclarecer o Professor Jorge Calado que a TLEBS não foi suspensa, apenas “corrigida” (imagine-se o desconforto do vocábulo para os “cientistas” que a trabalharam) continuando activa nos seus “disparates”, em programas e exames de Português. Na tentativa de apagar a polémica e o desastre intelectual que representou, a TLEBS transfigurou-se em Dicionário Terminológico, sendo seu obstinado mentor o Professor João Costa, de há longa data Secretário de Estado da Educação, e obviamente um fervoroso impulsionador da Reforma de 2003 da qual se salienta, no que à disciplina de Português diz respeito, a apologia de textos funcionais, o menosprezo pela Literatura, mormente pela Poesia, o amaldiçoamento de aulas expositivas, bem como do uso da memória e a pseudo-novidade da “Reflexão sobre a Língua” que a TLEBS proporcionaria, segundo “explicaram”, em acções de formação. E acções de formação porquê? Pela constatação da impossibilidade de os professores compreenderem as “inovadoras” descrições terminológicas. Eu própria assisti apenas a uma sessão, não estando inscrita, e foi o suficiente. Perante uma dúvida, a formadora repetiu vezes sem conta a mesma explicação, com o mesmo vocabulário, aberrante e impenetrável, apontando no final, e ostensivamente, a minha “impreparação”.
(mais…)

As gordas

Neste admirável mundo novo em que vamos chafurdando alegremente é cada vez mais evidente que de facto não há almoços grátis. Ou seja, ao contrário do que parece significar a tradução do célebre título de Aldous Huxley, tantas vezes citado por — como de costume — gente que dele não leu uma única linha, rigorosamente nada de admirável existe nesse mundo premonitório a cuja materialização implacável vamos assistindo.

No qual mundo, aliás, além da lapidar máxima sobre gratuitidade, temos também de ir contando com os diversos corpos de polícia política (virtual, até mais ver, se bem que já brutal na acção) e respectivas organizações de bufos, denunciantes e colaboracionistas da “situação” que em conluio buscam o Nirvana da Verdade Oficial ou, em tradução para linguagem Orwelliana, o Grande Irmão — omnisciente, omnipresente e infalível — determina em nome dos cidadãos tudo aquilo que mais e melhor convém a estes, encarregando-se aquele da repressão “adequada” dos “desvios” e pecadilhos dos “renitentes”… alvos a abater.

«A República Portuguesa participa no processo mundial de transformação da Internet num instrumento de conquista de liberdade, igualdade e justiça social e num espaço de promoção, protecção e livre exercício dos direitos humanos, com vista a uma inclusão social em ambiente digital.» [Lei 27/2021]

Fazendo passar por intenções altruístas um chorrilho de lugares-comuns sem qualquer significado, apenas para “abrilhantar” com pétalas de palavreado os sinistros ditames do “Partido”, os “eleitos” da dita “situação” impõem com a força-bruta da sua condição de ungidos o que pode e não pode ser dito, o que deve ou não escrever-se, que reflexões ou ideias são banidas, o que é ou não é correcto, que significados podem ou não podem ser atribuídos aos significantes. E assim os insignificantes, ou seja, aquela entidade abstracta constituída por perfeitos idiotas incapazes de pensar ou de decidir por si mesmos seja o que for, passam a gozar de uma espécie de abençoada paz de espírito — o conforto digestivo do pão barato e o sossego divertido do circo histérico.

Nada de mais “normal”, por conseguinte, neste alucinante, alucinado e “moderníssimo” statu quo, a legalização do roubo puro e simples, do saque indiscriminado

Por exemplo, depois de nos Passos Perdidos — essa máquina de fabricar pechinchas — ter ficado selado um pacto de cegueira para que os Bancos possam cobrar aos depositantes sobre os seus próprios depósitos, o que é ilegal mas faz de conta que não, ou que os operadores de telecomunicações continuem a vigarizar os seus papalvos, digo, clientes, com todo o tipo de “taxas e taxinhas”, nos últimos tempos vamos assistindo também a uma nova “revolução” nos OCS (órgãos de comunicação social): à medida em que os títulos em suporte físico (papel) vão desaparecendo, os “media” em meios virtuais cobram assinaturas até por artigos de opinião (que os “gestores” 5G não pagam, é claro) informações e alertas de entidades sobre serviços públicos (que eles também não pagam, evidentemente), cópias em parcerias, etc., “assinaturas” essas que são cobradas aos clientes, digo, papalvos, porque além das receitas de publicidade online — intrusiva e amiúde abusiva — há que realizar receita, aumentar receita, sacar receita porque os aparelhos geram  novos ambientes de trabalho mas está fora de causa mexer nos ambientes porque isso dá imenso trabalho.

E assim, sob a cobertura de invenções nada virtuais como o copyright sobre conteúdos públicos ou sem encargos e as assinaturas parcelares à rédea-curta, à época ou ao ano, como as barraquinhas de praia,  já nos vamos habituando a “ler as gordas”, isto é, o título das notícias e os respectivos leads, quedando-se por aí mesmo (sob a ameaça do poder judicial, que isto ele os tribunais não brincam e nestas ingentes questões andam a jacto, o que é que julgam, estes assuntos não versam sobre minudências como os assassinatos, ou assim) a finalidade informativa dos órgãos de… informação. Em nome de “uma inclusão social”, a comunicação social exclui (evidentemente) os tesos em geral e os mais “renitentes” em particular, o que vem conferir todo um novo significado ao conceito de “social” que sistemática, nominativa e genericamente os diversos órgãos esvaziam de sentido.

Aqui estão, à laia de primeira dose, salvo seja, umas quantas “gordas” relativamente frescas: a primeira delas para arquivar na secção “Outros Detritos” e três sobre o A90, o contentor de “lixos indiferenciados” propriamente dito.

 

Povo pronto para todo o serviço

Clara Ferreira Alves – Escritora e Jornalista
“Expresso”, 21.05.21

Portugal regressou ao seu destino primordial, ser o oásis da Europa quando os outros estão fechados. Ser o país amável e vassalo que recebe os estrangeiros de avental e com um sorriso

 

Portugueses com vinte e poucos anos que não saibam explicar a razão do desembarque num aeroporto do Reino Unido e o que tencionam fazer no país, e não saibam responder que tencionam dar uma espreitada nas jóias da Coroa e ouvir as badaladas do Big Ben, têm à espera a deportação imediata ou a espera da deportação num centro de alojamento de migrantes ilegais. Será, na melhor hipótese, um daqueles edifícios de tijolo vitoriano, com arame farpado e vidros baços e sujos. Como outros jovens europeus na mesma situação, gregos, espanhóis, italianos, os latinos e sulistas do costume, para não mencionar os de Leste que são logo detectados e manuseados, não terão acesso a um advogado, direitos ou quaisquer serviços jurídicos até o país decidir o voo da devolução, e muito menos poderão pernoitar na casa de um familiar se o tiverem. Falar num familiar é má ideia, aí o interrogatório aperta e o jovem metendo os pés pelas mãos admitirá que teria ou gostaria de ter uma hipotética entrevista de trabalho ou um quimérico trabalho como ama ou criado de mesa. Uma cidadã espanhola com o namorado no Reino Unido passou três dias detida e foi devolvida a Espanha, tão traumatizada com a experiência que não tenciona voltar a Londres nunca mais. Aconteça o que acontecer, convém não mencionar a palavra trabalho, que implica um visto inacessível, e convém não ser jovem. Jovem cheira a migrante ilegal depois do ‘Brexit’.
(mais…)

Fatal como o destino

  • «o idioma continua vivo e a evoluir»
  • «património intangível»
  • «ecologias endógenas e diaspóricas»
  • «registos e padrões de linguagem que denunciam uma sub-língua»
  • «“Através desta língua é possível descobrir aspectos inerentes à comunidade […] como, por exemplo, o seu próprio humor, a forma como se olha para as coisas da vida e o olhar crítico sobre as questões do seu dia a dia”»
  • «[…] muitas pessoas esquecem-se que […] evoluiu em muitos sentidos, por exemplo em termos lexicais. Não se pode pensar que o […] que se utiliza agora […] é a mesma língua que se falava há 200 anos. Há outros elementos lexicais que foram importados […]”»

Como? Se isto é sobre a língua brasileira? Bom, não exactamente mas na verdade estes tópicos e as respectivas formulações poderiam perfeitamente referir-se a essa outra língua de raiz portuguesa. Aquilo de que aqui se fala é do Patuá macaense; no entanto, os conceitos linguísticos, históricos, sociológicos e culturais, atendidas as inerentes idiossincrasias e as devidas distâncias, são rigorosamente os mesmos. Como aliás não poderia deixar de ser, até porque os processos e pressupostos atinentes à criação e desenvolvimento de uma Língua, qualquer que seja, são (na família linguística do tronco indo-europeu) regulares e genericamente uniformes.

Condicionantes de toda a ordem, com a natural primazia das geográficas e das — consequentemente — sociológicas (variantes de  isolamento e de coesão do grupo de indivíduos), determinam o maior ou menor  afastamento de uma nova Língua em relação à matriz que lhe deu origem.

Enfim, tudo princípios basilares, coisinhas facilmente acessíveis para o mais coriáceo dos sapateiros, pelo que (com a agravante de me irritar solenemente o polvilhado de referências biográficas, além de não ter aqui à mão quem trate de me semear a “bibliografia” nos rascunhos) parece dispensável, porque redundante, continuar a bater no ceguinho.

Percebe-se a ideia muito mais claramente do que os planos para fabricar um avião em papel A4. 

Além do Patuá (Papiamento), em Macau, existem inúmeros crioulos de base portuguesa, os nove de Cabo Verde (sendo um deles Língua nacional) e os da Guiné Bissau, de São Tomé (dois) e (do) Príncipe, de Casamansa (Senegal), de Ano-Bom (Guiné Equatorial), na ex-Índia Portuguesa (Goa, Damão e Diu), e ainda um pouco por toda a Ásia.

Como sabe o sapateiro anteriormente mencionado, bem como grande parte dos demais mal-vestidos que a intelligentia tuga evita prudentemente, com mal disfarçado horror, o Crioulo é uma Língua de base (lexical) portuguesa; nos casos deste caso, passe a redundância, resultam da fusão do Português enquanto língua-franca com o falar autóctone local; de forma abrangente, os crioulos integram as diversas variantes da ou das línguas das colónias e países que resultaram da Conferência de Berlim (1885) e de convulsões históricas subsequentes; autonomizando-se progressivamente, os diversos crioulos acabam fatalmente por reivindicar — pela sua própria natureza de património nacional intangível – o estatuto de Língua independente. Ao fim e ao cabo, um processo em tudo paralelo, similar e concomitante da própria independência política.

Malaca – Malásia

Nesta acepção, que muito pouco ou nada tem de objectável, o processo de autonomização linguística do Brasil, com 200 anos de atraso em relação à sua independência política, está já para além da simples crioulização. De Português, ao brasileiro pouco mais resta do que as raízes. Já é uma língua independente.

Ainda que dando trinta de anos de avanço à premissa, a língua do “gigante” brasileiro — que bem poderá servir como língua-franca nos 26 Estados daquela espécie de sub-continente – existe já hoje e que lhes faça muito bom proveito. Pódji fala i isscrêvê como quisé, cara, viu? Viva a língua Brasileira, morô?

Porém, contudo, no entanto, não obstante, cada um brinca c’a sua, salvo seja, valeu? Não tentem vossemecês passar o filme histórico de trás para a frente.

Portugal colonizou o Brasil e levou consigo o Português; não impôs a Língua, a Língua impôs-se por si mesma, naturalmente.

Não tentem agora vir pelo caminho das caravelas tentar colonizar Portugal ao contrário, trazendo sobranceria a tiracolo e fazendo estalar o chicote neo-colonialista, com a fraqueza do número que apenas impressiona distraídos, com a xenofobia que usam como arma de arremesso, com esse estranho ódio histórico de um passado mal resolvido, com a insuportável arrogância da soberba que vegeta na ignorância.

E não se esqueçam, se fizerem a fineza, de que mais tarde ou mais cedo a verdade faz como o azeite em água. É fatal como o destino.

Saúde.

Miguel de Senna Fernandes quer passar peças dos Dóci Papiaçam di Macau para livro

“Hoje Macau”, 29.04.21 – hojemacau.com.mo

e

 

Miguel de Senna Fernandes quer editar em livro as quase 30 peças levadas à cena pelos Dóci Papiaçam di Macau. Por ocasião da palestra online “Os Crioulos de Origem Portuguesa na Ásia”, o advogado afirmou que o idioma continua vivo e a evoluir, por exemplo, na forma de falar português dos macaenses. Os académicos Mário Pinharanda Nunes e Raúl Gaião apresentaram estudos sobre o crioulo e discorreram sobre a sua evolução

Miguel de Senna Fernandes, advogado e director do grupo teatral Dóci Papiaçam di Macau revelou ter planos para publicar em livro, pelo menos em patuá, português e chinês, os textos que estiveram na base das peças levadas à cena pelo grupo. O projecto, contou ao HM, está a ser delineado com a investigadora académica macaense, Elisabela Larrea.

“Ainda vou publicar as peças de teatro [em livro]. Já lá vão 28 ou 29 peças. Seriam vários volumes. Tenho um projecto pensado para isto com a Elisabela Larrea. É fundamental. O trabalho dos Dóci Papiaçám tem de ser convertido em obra escrita. Suspendemos este trabalho, mas temos mais ou menos uma ideia de como fazer a coisa. Não nos interessa ter um livro só em patuá, isso ninguém vai ler, mas, naturalmente, uma edição também em português e em chinês”, partilhou. O director dos Dóci Papiaçam vinca ainda que, por isso mesmo, “é muito importante definir bem uma estratégia”, considerando ser uma obra “sobre o património intangível de Macau”, que poderá ser apoiada pelo Instituto Cultural (IC)

As várias vidas do patuá

O Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM) realizou ontem a sessão “Os Crioulos de Origem Portuguesa na Ásia”. Contando com presença de vários linguistas e académicos especializados na área, a sessão abordou temáticas como as “ecologias endógenas e diaspóricas do patuá”, o português de Malaca e iniciativas de revitalização destes crioulos luso-asiáticos.

Miguel de Senna Fernandes, que também participou na sessão “Resgate do Patuá”, considera que, apesar de o idioma já não ter expressão prática, é necessário “olhar para o fenómeno linguístico do patuá de uma perspectiva actual e compreender o seu estado, onde é que se utiliza e porque é que se utiliza”. Isto porque continua a ser usado, de forma mais ou menos inconsciente, por muitos macaenses quando se exprimem em português.

“O patuá não morreu, há é várias formas de o falar. Muitos dos macaenses, quando se exprimem em português, falam a partir do patuá e, essa forma de falar e mesmo como constroem as frases, misturada com o português e o cantonês, por exemplo, tem muito de patuá. São registos e padrões de linguagem que denunciam uma sub-língua”, partilhou Miguel de Senna Fernandes, ainda antes do início da sessão de ontem.

Quando questionado sobre se é efectivamente possível resgatar o patuá, sublinha que um “resgate” não pode ser entendido com a finalidade de “pôr as pessoas a falar patuá outra vez”, pois é uma língua que já não tem razão prática para existir.

“As condições do aparecimento da língua já não existem. O patuá formou-se há mais de 200 anos, num contexto social muito próprio da altura. Hoje em dia, este contexto não existe e, se existisse, teria que ter características muito especial e uma função para que as pessoas voltassem a utilizar com frequência o patuá como veículo de comunicação”, acrescentou.
(mais…)