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Perfilados pelo dever

Perfilados de Medo

Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
e a vida sem viver é mais segura.

Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos.

Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido…

Alexandre O’neill


«E foi assim, parafraseando O’Neill, “ortografados de medo” (com medo que o português, como idioma, se desmembrasse, medo que contaminou certa intelectualidade e serviu de mote a actos políticos condenáveis), que impuseram a loucura da “unificação”. Agora, no dia 5 de Maio, hão-de tecer-se novas loas à língua, como convém. Ignorando que, se houve porta que Abril não abriu, foi a de reconhecer à língua portuguesa maturidade para integrar as suas diferenças (as suas variantes nacionais) sob uma denominação comum. Podendo e devendo partilhá-las num dicionário global normativo (que infelizmente não existe), embora distinguindo o que seria aplicável em cada país. É esse o futuro por que vale a pena lutar.» [Nuno Pacheco]

Não, não é.

O “futuro por que vale a pena lutar” é o passado por que vale a pena lutar. E esse passado, há que dizê-lo sem medo, que de cobardes estamos todos fartos, é ainda o presente, um presente de hiato entre decência e inteligibilidade, um laivo esplendoroso de clarividência no meio de um assomo de loucura.

Não existe no AO90 uma única palavra portuguesa “imposta” ao Brasil; é, aliás, 100% ao contrário, tudo pela inversa, toda a “nova grafia” é integralmente brasileira; trata-se, portanto, de um “acordo” sem acordo algum, já que uma das partes cede em rigorosamente tudo e a outra parte não cede absolutamente em nada. Pouco importa, face à crueza dos números e perante o roncar da porca da realidade, que uns quantos idiotas inventem de novo o fogo ou, em alternativa, finjam que o Brasil não assinou em 1945 e “desassinou” em 55 aquilo que no AO90 apregoam como sendo “cedências” dos “caras”.

E também não, não foi porque uns quantos medrosos tiveram “medo que o português, como idioma, se desmembrasse”, que meia dúzia de cretinos se lembraram de tentar impingir a todos nós o AO90. Essa patranha, o pretenso “medo” da extinção de uma putativa língua minoritária, essa mentira que ainda hoje circula foi apenas um dos pretextos para tentar disfarçar a vigarice e, do mesmo passo, vender como minimamente credível a tese do “gigantismo” brasileiro: se o Brasil é um país-continente, dizem eles, na sua “lógica” de técnicos oficiais de contas linguísticas, então basta “adotar” a espécie de língua que os brasileiros usam para comunicar entre si, amalgamar numa pasta todas as suas variantes (nordestino, carioca, paulista, amazónico, sulista, etc.) e levar Portugal a  “adotar” uma espécie de escrita fonética brasileira como sendo “comum”.

Consumada esta manobra de engenharia linguística, a coberto da CPLP e a pretexto de uma alucinada “expansão” (neo-colonialista), extinguindo por simples exclusão de partes o Português-padrão, as verdadeiras finalidades do AO90 revelaram-se por fim: está já em curso a liquidação da Língua Portuguesa, a transferência de poderes do Governo português para o brasileiro, a tomada de posse por parte do Palácio do Planalto das nossas instalações diplomáticas e, principalmente, das infraestruturas de Ensino, incluindo campus universitários, instalações e edifícios, organizações e instituições culturais portuguesas em África e na Ásia.

Com carta branca de traidores governamentais e com a solícita colaboração de vendidos “intelectuais” (linguistas e “investigadores” da treta), gente paga à hora e tarefeiros para o trabalho de sapa (intoxicação da opinião pública), uma fraude colossal — em estreia mundial — vai já garantindo, hoje por hoje, um nada despiciendo maná de tachos, além dos já conhecidos e muito mais por conhecer negócios da China.

A imposição selvática do AO90 anulou qualquer possibilidade de entendimento, antecipando em 50 ou 60 anos aquilo que será de todo inevitável, isto é, a “entronização” da língua brasileira como uma entidade imaterial independente. Seria talvez possível empurrar ainda mais para as calendas essa inevitabilidade, caso se acordasse (a sério) na fixação de duas variantes do Português (uma em Portugal e PALOP, a outra no Brasil), mas tal apenas teria alguma hipótese de sucesso caso os “homens de negócios” de ambos os lados fossem arredados das negociações, se em vez de linguistas pagos com tachos e sinecuras houvesse lá gente de saber, na muito difícil condição de a política e os políticos, mercenários, aldrabões e mentirosos profissionais ficarem de fora das académicas discussões.

Nessa absolutamente impossível conformidade talvez pudesse surgir alguma ponta (ou ponte) para um entendimento curial, com nenhuma obrigatoriedade e apenas para efeitos da mais elementar resolução de algumas discrepâncias.

Mas já nem isso é possível. Deixou de existir sequer formulação para designar, descrever ou delimitar, mesmo que grosseira e genericamente, todo e qualquer tipo de “acordo ortográfico” entre Portugal, Brasil, PALOP, Timor, Macau, Goa e diáspora(s).

O Brasil declarou a sua independência política em 1822. Parabéns.

Alguns vendidos portugueses declararam a extinção da Língua Portuguesa através da “adoção” por Portugal da língua brasileira. Malditos sejam.

Os traidores são por definição apátridas. Por definição e pela eternidade que deles já se esqueceu.

Completam-se, no domingo, 47 anos do 25 de Abril. Quase tantos, já, quantos os que durou a ditadura, que na verdade não foram bem 48 mas sim 47 anos, 10 meses e 27 dias, contados entre o golpe militar de 28 de Maio de 1926, que os partidários da ditadura celebravam como “revolução nacional”, e o golpe militar de 25 de Abril de 1974, que mundialmente se tornou célebre como “revolução dos cravos”. Não é mera questão de semântica, nem jogo de palavras: o que esteve em causa foi sempre a liberdade. Reprimida, durante a ditadura; ainda confusa na turbulência da transição; e finalmente consagrada na democracia.

Sinais dos tempos: em 1974, com os tanques na rua, tornou-se célebre uma fotografia onde, ao fundo, se via um grande cartaz de cinema a anunciar O Esquadrão Indomável. Nem de propósito. Em 2021 não há “esquadrão”, mas há Hollywood, com a cerimónia dos Óscares a ser transmitida (quem diria) pela televisão estatal, a RTP. Uma tardia “conquista de Abril”? Nem por sombras. A cerimónia costuma realizar-se em Fevereiro, às vezes em Março, e só devido à pandemia é que foi empurrada para Abril, coincidindo no nosso 25. Já agora, para não ficarem dúvidas, o tal “esquadrão indomável” do cartaz retratado em 1974 também não era um grupo de heróis, mas sim de polícias implacáveis e com métodos nada democráticos. “Quando eles estão em acção é difícil dizer quem são os polícias e os assassinos”, dizia na altura a propaganda do filme, que na versão original se chamava The Seven Ups.

Uma dúzia de anos antes de nos ser devolvida a liberdade, escreveu Alexandre O’Neill (no seu livro Poemas com Endereço, 1962) “Perfilados de medo”, que José Mário Branco viria magistralmente a musicar, gravando-o em 1971 no exílio, em Paris. “Perfilados de medo, agradecemos/ o medo que nos salva da loucura./ Decisão e coragem valem menos/ e a vida sem viver é mais segura.” (Poesias Completas, Ed. Assírio & Alvim, 2000, pág. 191). Pois bem: há casos em que é o medo que nos empurra para a loucura, em vez de nos salvar dela. E um deles, já gasto, cansativo, moribundo, é o da ortografia. Não havia em Portugal uma ortografia oficial até ser fixada em 1911, após o derrube da Monarquia. Foi a I República que nela insistiu, num país onde 76% da população era analfabeta. Mas o “bichinho” das alterações ortográficas não parou: deu mais reviravoltas em 1945 e em 1973, remexendo em acentos e letras, congeminou novas aventuras nos anos 1960, quis revolucionar as regras em 1986, recuou perante as muitas acusações escandalizadas, e finalmente ajustou-as em 1990, para depois, bem mais tarde, vê-las impostas numa coisa chamada “acordo ortográfico” com a inalcançável veleidade de criar uma ortografia comum ao universo da língua portuguesa.

Visto de fora, pode parecer normal. Mas, visto de dentro, o resultado é um pesadelo. Já em 1945, quando Portugal (então uma ditadura ainda com colónias em África) tentou acertar com o Brasil uma ortografia unificada, o gesto pecava por tardio. As divergências entre os dois países no domínio da língua eram já insanáveis. O Brasil concordou em 1945, mas dez anos depois desvinculou-se. As regras ortográficas de 1945 serviam o português de cá, o europeu, mas não serviam o português do Brasil, americano. Tudo quanto se fez depois, além de ser em vão, só serviu para descaracterizar o português de cá e de lá, sem proveito nem préstimo. Enquanto isso, as colónias africanas emanciparam-se após o 25 de Abril, cada qual com a sua bandeira, o seu hino, as suas leis, os seus sistemas e moedas próprias. Por que razão não deviam, também, dar livre curso ao uso feito do português, fixando as respectivas variantes? Por nenhuma razão. Só uma certa loucura lusitana imaginou que, escolhendo a sua própria via em tudo o resto, deviam ficar presos a uma ortografia comum.
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A Avozinha e o Lobo Mau

«No grupo havia, porém, uma criança que não gostava de finais felizes. Retomou a narrativa e acrescentou que o Lobo tinha mastigado tão bem, mas tão bem a avó que esta, ao ser retirada “cá para fora”, estava (des)feita em bocadinhos. Mais “gore” era impossível! E enquanto eu buscava uma saída para aquele desfecho sangrento, Melanie antecipou-se. Era verdade que o Lobo Mau tinha mastigado a avozinha com os seus grandes dentes, mas o pai do Capuchinho Vermelho trazia no bolso uma fita-cola muito forte com a qual colou os bocadinhos da avó muito bem colados, tão bem colados que no fim nem se notava nada.»

Como sabe qualquer doutorado em tautologia, e há bastantes por aí, “truísmo” é algo que pela sua própria natureza se impõe naturalmente, não carecendo de explicações ou considerandos. É o caso daquilo que os seus inventores designam como “AO90” ou, ainda mais estupidamente, como “acordo ortográfico”. Sabendo nós que essa aparentemente inócua designação oculta uma realidade nojenta, uma mentira abjecta, torna-se-nos penoso — ou insuportável — despender tempo e feitio com o asqueroso desconchavo; por vezes, noblesse oblige (e para mal dos pecados), chega a ser necessário fingir que se dá algum crédito aos acordistas ou que se confere uma lasca de credibilidade às baboseiras que militantemente papagueiam. Pura ilusão, quando muito, é claro, se bem que por vezes a atávica imbecilidade dos brasileirófilos até dê jeito, é uma forma de os zurzir onde mais lhes dói, isto é, nos bolsos.

O AO90, repitamos e resumamos de novo o esquema, consiste no extermínio do Português-padrão substituindo-o pela língua brasileira e assim, usando o “acordo” como pretexto e cortina de fumo, promover os interesses geoestratégicos brasileiros nas vertentes económica e política; dito de forma mais incisiva, o AO90 é uma invenção que teoricamente pretende validar e conferir alguma credibilidade política à CPLP; esta sinistra  organização, criada por brasileiros segundo os seus interesses exclusivos, comporta a dupla finalidade de abrir uma espécie de “porta dos fundos” na Europa, usando o estatuto de estado-membro de Portugal na União Europeia, e de, em última análise, saquear as imensas riquezas de Angola e as dos restantes territórios que em determinado momento histórico foram colónias portuguesas. Tudo isto, é claro, entregue de mão-beijada ao “país-continente”, sem uma única contrapartida (que dispensamos, porque a Língua tem imenso valor mas não tem preço) e tendo, ainda por cima, todas as contas e despesas inerentes pagas à cabeça pelo extraordinariamente solícito Estado português e seus sabujos.

Nós sabemos que este é o statu quo do cambalacho, para qualquer adulto minimamente letrado a inacreditável golpada é de uma simplicidade assustadora; mesmo alguém que não disponha de todas as ferramentas mentais poderá intuir — ao menos — que “algo” se passa, que o “acordo” tresanda a roubalheira.

É muito fácil entender porque é tudo afinal muitíssimo mais evidente do que aquilo que prefeririam os envolvidos. Até uma criança entende tudo isto.

Ora bem, nem de propósito, talvez neste artigo de Ana Cristina Leonardo — mesmo não tendo sido essa a sua intenção, calculo — esteja uma possibilidade de explicar a fraude “ortográfica” aos mais pequenos, sem os traumatizar (porque o tema é de facto violento) com os pormenores mais escabrosos,

Através de simples alegorias, utilizando analogias básicas e metáforas elementares, o que é preciso é que se diga às crianças a verdade, toda a verdade e apenas a verdade sobre o tráfico da nossa Língua; que a CPLP serve exclusivamente os interesses do Brasil e de um bando de salteadores portugueses, uma espécie de “Irmãos Metralha” do lado português; que o AO90 não passa de uma capa muito parecida com a do Mancha Negra para entrar disfarçadamente na Europa e como disfarce de gatuno para assaltar os cofres de Angola e as riquezas naturais das nossas ex-colónias em África; que o golpe (AO90) foi obtido através de negócios secretos entre políticos, às escondidas, sem provas e quase sem deixar rasto.

É possível ainda, dentro da mesma lógica pedagógica, apontar como modelo de resistência a extraordinária personalidade da rapariguinha da história e, com a tenacidade da sua coragem e o exemplo da sua tenacidade, demonstrar que não somos poltrões, que as crianças são grandes heróis em tamanho pequeno, ninguém desiste nem desistirá jamais porque a nossa luta é justa e ninguém irá lutar em vez de nós.

Bem pode o Lobo Mau (o AO90) tentar matar e comer a nossa Avozinha (a Língua Portuguesa), desfazê-la em bocadinhos. A rapariguinha, apesar de criança, é mil vez mais persistente do que todos os animais ferozes e do que milhares de adultos.

Tão corajosa, tão resistente, tão determinada e coerente que vai já acumulando um arsenal com todos os rolos de fita-cola que há no mundo.

No fim, a Avozinha ressurgirá de novo inteira, íntegra, digna e solene. Nem se vai notar nada.

Portugal, “we have a problem”, (pelo menos)

 

 

«Diz a lei de Murphy que, se uma coisa tem hipóteses de correr mal, correrá mal de certeza e da pior maneira. Apesar de ser uma lei que faz as delícias dos pessimistas encartados, a sua formulação condicional — “SE…” — prova que Murphy era, na realidade, um optimista.

Um enunciado realmente negro da referida lei seria: dado que nada do que é humano exclui a hipótese de poder correr mal, então, tudo correrá pessimamente. Resumindo: aquele “SE” salva-nos do desastre total.

A razão por que se tem um olhar pessimista ou optimista sobre a realidade continua um mistério. Há quem lhe encontre explicação nas experiências de vida, mas basta que eu invoque um pequeno episódio (real) passado com crianças para que essa interpretação se prove coxa.

Numa colónia de férias à beira de um lago (o lago não conta para o caso, mas é um facto que havia um lago), ao final de tarde costumava sentar o grupo de crianças que me estava atribuído. As crianças tinham entre cinco e seis anos e o propósito da reunião consistia em que uma delas começasse a contar uma história a que depois outra daria continuidade e assim sucessivamente, como diria João César Monteiro.

Um dia, a cena desembocou numa versão livre do “Capuchinho Vermelho”. Uma das crianças (chamemos-lhe Melanie que era mesmo o seu nome) deu-a por terminada após, devorada a avó pelo Lobo Mau, ter aparecido o pai do Capuchinho Vermelho que conseguia tirar a coitada da barriga do “Canis lupus”. No grupo havia, porém, uma criança que não gostava de finais felizes. Retomou a narrativa e acrescentou que o Lobo tinha mastigado tão bem, mas tão bem a avó que esta, ao ser retirada “cá para fora”, estava (des)feita em bocadinhos. Mais “gore” era impossível! E enquanto eu buscava uma saída para aquele desfecho sangrento, Melanie antecipou-se. Era verdade que o Lobo Mau tinha mastigado a avozinha com os seus grandes dentes, mas o pai do Capuchinho Vermelho trazia no bolso uma fita-cola muito forte com a qual colou os bocadinhos da avó muito bem colados, tão bem colados que no fim nem se notava nada. E foi quando eu, evidentemente, me apressei a dar por terminada a hora do conto.

Às vezes penso no que será feito daquelas duas (então) crianças, esperançosa de que, pelo menos Melanie (a única de quem, curiosamente, fixei o nome), tenha continuado vida fora a guardar no bolso uma fita-cola das muito fortes.

Havendo, portanto, situações em que um olhar pessimista ou optimista permanece inexplicável (a criança da versão “gore” não vinha de uma família disfuncional ou sequer problemática…), outras há em que só um cego não vê que a coisa vai acabar em despautério. E sendo verdade que muitas dos provas de efectividade da lei de Murphy assentam numa falácia — por exemplo, aquela que diz que se andarmos à procura dos óculos, só havemos de encontrá-los no último sítio em que os procurarmos (claro que quando os encontramos, damos por finalizada a busca…) — , tratando-se do famigerado Acordo Ortográfico, Murphy só parece ter pecado por defeito.

Habituados que estamos já à enorme variedade de “fatos” do Diário da República, eis que no outro dia vimos, com estes que a terra há-de comer, o primeiro-ministro na televisão a apontar para um quadro explicativo das medidas de desconfinamento onde aparecia a palavra “contato”.

Aqui chegados, e plagiando Manuel Bandeira, há que reconhecê-lo: “contato” “é outra civilização”!

Dirão — como sempre fazem os defensores do AO, apesar de andarem muito calados — que a culpa de contato por contacto está na ignorância e não no Acordo em si. Sem entrar em celeumas sobre o “Ser-em-Si”, o “Ser-para-Si”, o “Ser-para-Outro” e etc. — razão tinha Jorge Luis Borges quando escreveu que “a metafísica é um ramo da literatura fantástica” — a pergunta absolutamente pragmática que se impõe é: quem, em Portugal e antes do AO, escrevia contacto sem C? E a mesma pergunta vale para os incontáveis “fatos” do Diário da República.

São dois exemplos singelos, mas que vêm dar razão a Murphy: se algo tem hipóteses de correr mal, correrá mal de certeza e da pior maneira.
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‘Será então o cAOs’

“Escrever mal” e “falar pior” não tem nada a ver com o AO90, em textículos como este; o qual servirá, quando muito, de contraponto pelo absurdo: como é possível escrever uma coisa sobre “o Português a saque” sem jamais referir a cacografia brasileira que pretendem impor-nos?

Não é de brasileiro ou de erros em língua brasileira que se trata; os ilustres lá do “pedaço” que se assoem ao seu próprio guardanapo, que fiquem lá com as suas bacoradas, desenrasquem-se, o que até não há-de ser difícil visto que o brasileiro não está sujeito a qualquer tipo de regras ou norma — é uma língua “tipo” CC, ou seja, Consoante Calha: o erro em geral e a asneira em particular, aliás, são a regra e não a excepção na “língua universáu” brasileira. Problema deles. Os nossos erros, por simples corruptela ou elementar ignorância, são nossos, são exclusivos, são  gramatical, terminológica e enciclopedicamente portugueses.

Ao invés do que se entende, segundo a Vox Populi (a que se juntam uns quantos especialistas da asneirola), escrever mal e falar pior sempre foi uma espécie de desporto nacional. A tanga mais disseminada, neste particular, é que no tempo da outra senhora (ou “dantes”, para os mais tímidos) toda a gente escrevia (e falava) com correcção e só hoje em dia escrever com os pés não é ridículo, é currículo. Nem uma coisa nem outra, claro. Wishful thinking ainda não tem nada a ver com a realidade.

E isto em especial no que à escrita diz respeito, até porque a regra geral é que as formas artesanais de fazer seja o que for são, por regra e definição, bem mais simples do que a sua materialização com saber e arte; premissa que vale tanto para uma pintura como para qualquer partitura, escultura ou obra de arquitectura, o texto mais básico ou a obra literária mais fascinante e memorável.

Em suma, sempre se escreveu por cá pessimamente; declinar com correcção uma única frase parece ser um exercício excruciante para a esmagadora maioria dos portugueses; pronunciar umas palavrinhas sem desfiar asneiras a granel é algo quase tão complicado como calcular a velocidade (e a trajectória) do vento solar quando “sopra” nas “velas” do Space Shuttle.

Tanto na escrita como na fala existe um infindável anedotário no qual até altos dignitários e diplomatas, governantes, altos quadros e ministros em geral participam. O que, por conseguinte e por contraponto, em pura antítese e a título de ilustração a contrario, poderá remeter-nos de novo até ao ponto de partida, ou seja, poderá  suceder que afinal escrever com os pés tenha também a ver com a língua brasileira impingida pelo AO90: o erro que resultava de ignorância passa a ser obrigatório por lei e é o próprio Estado (português) que nos impõe esse inimaginável horror.

Porém, reiteremos também, não é essa a questão ou, pelo menos, não o busílis dela. Sempre se escreveu em Portugal com os pés e sempre se falou abaixo de cão. Por excepção absoluta, a única vantagem do AO90 foi — acrescendo à galopante falência do Ensino do Português, dos bancos da escola aos anfiteatros das faculdades — pôr algumas pessoas (que nunca antes ou muito raramente se tinham metido em tais assados) a estudar, a escrever, a falar sobre o erro “de” Português.

Evitando quase sempre encarar de frente os reais problemas que afectam a Língua Portuguesa, sim, aqueles que o AO90 gerou a partir do nada, mas ao menos deixando algumas pistas para a missão quase impossível que nos coube em sorte: acabar com o saque do Português pelo AO90.

Português a saque

O escrever mal e o falar pior nos media portugueses

 

Por Rui Cardoso 1 de Abril de 2021

in Ciberdúvidas da Língua Portuguesa,
[consultado em 09-04-2021]
ciberduvidas.iscte-iul.pt

 

 


 

«Entre o inglês contrabandeado e o brasileiro das novelas, a língua portuguesa agoniza. Nunca se falou e escreveu tão mal e o exemplo vem de cima.»

Assim se fala e escreve nos tempos que correm. Vejamos em pormenor.

JOVENS MULHERES

Se dissermos «uma jovem» estaremos a definir sem ambiguidades aquilo de que estamos a falar. Um pleonasmo, além do mais sexista, já que não consta que se costume aludir a «jovens homens». Tudo radica, diz Joana Rabinovitch, ex-docente da Faculdade de Letras de Lisboa e da Universidade Nova, no facto de «em inglês, ao contrário do português, os adjetivos e os artigos não terem género». Daí que a young woman, não se possa traduzir à letra. Em português, palavras como forte ou jovem são neutras. É o vocábulo que as antecede que lhes dá o género: «uma jovem», «várias jovens», «diversas jovens»…

TRIBUTO

Quem pagava tributo a Vasco da Gama era o Samorim de Calecute e, de uma forma geral, os vassalos aos senhores feudais ou os cativos aos seus captores. É certo que em dicionários portugueses recentes se refere que “tributo” pode ter a aceção de homenagem. Mas isso parece resultar, não da etimologia, mas de um anglicismo recente. Até porque não consta que a Autoridade Tributária tenha como principal missão homenagear os contribuintes…

OFICIAIS

Em inglês, officer tanto pode designar um oficial das forças armadas, como um agente policial, um funcionário da administração pública ou de uma companhia privada. Atenção ao contexto, portanto.

SERVIÇOS DE INTELIGÊNCIA

Se existisse tal coisa, sendo a natureza tendencialmente simétrica, seria combatida pelo seu contrário, ou seja, pelos serviços de estupidez… Os serviços ou agências de informações (é disso que se trata) dedicam-se às mais diversas coisas: espionagem, contraespionagem, vigilância pessoal, eletrónica, etc.

FOCO

Os dispositivos óticos, dos faróis às lentes, é que têm profundidade de campo, distância focal, etc. A expressão to be focused on significa «estar empenhado, concentrado ou atento».

ENCRIPTADO

É certo que existe uma técnica ou ciência chamada criptologia, relativa à forma de comunicar secretamente entre emissor e recetor. Mas o que faz é codificar ou descodificar, cifrar ou decifrar mensagens e não encriptá-las ou desencriptá-las, o que literalmente significaria enterrá-las ou desenterrá-las numa cripta ou cave…
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«O AO90, Jorge Amado ou afinal Santana tinha razão» [João Esperança Barroca, “Público”, 26.03.21]

O busílis da questão, algo que na propaganda acordista passa por anátema amaldiçoado, é a fronteira que a língua brasileira, queiram ou não queiram, já atravessou: à semelhança do que sucedeu em relação ao Latim, com o Português, o Espanhol ou o Francês, por exemplo, a progressiva autonomização acabou por conduzir à inerente e inevitável independência; o fenómeno, salvas as devidas distâncias mas também consideradas as respectivas similitudes, é válido para as línguas assim como para os países. O Brasil adoptou o Português como língua-franca de 1500 em diante e, a partir do momento em que declarou a independência política, em 1822, o país acelerou também o processo de autonomização cultural terminando, a partir de finais do século XIX, por desenvolver de igual modo a sua independência linguística.

Ao invés do que sucedeu com a independência política, que foi súbita e rápida (e simbolicamente liderada por um filho do rei português, nem de propósito), a independência linguística resultou de um processo relativamente lento mas inexorável: paulatinamente, a língua brasileira afastou-se cada vez mais da sua matriz portuguesa e acabou por se transformar tão radicalmente que — por exemplo — qualquer português que diga alguma coisa num canal de TV brasileiro tem de ser legendado.

Tornou-se já virtualmente impossível fingir que um texto brasileiro está redigido em Português; será algo parecido, quando muito, mas ainda mais parecido com o Português é o Galego e afinal pouco diferem da nossa Língua o Espanhol ou o Italiano. Simples diferenças nominais ou ligeiras variações lexicais já não passam de mera bizarria, vulgar e extremamente frequente, no meio de uma floresta com todo um outro sistema comunicacional: além de outra semântica, outra sintaxe, outra semântica, outra prosódia, ou seja, por extenso, toda uma outra Gramática.

Os títulos de filmes ingleses e americanos no Brasil, além de apenas mais um pequeno pormenor, um galho de uma das árvores da floresta linguística (ou do bosque gramatical), são para qualquer português motivo de chacota, quando não de pura risota.

Não seria mau, portanto, que uma obtusidade anedótica como o AO90 servisse em exclusivo os fins para os quais foi inventado: promover os interesses económicos e geopolíticos do Brasil utilizando a língua brasileira como truque de legitimação expansionista, baptizando fraudulentamente essa língua alienígena como “português universal”; “português” de nome, é claro, e “universal”, sim, mas de um “universo” que não vai além das paredes do Palácio do Planalto e dos lisboetas Passos Perdidos.

A língua brasileira separou-se da Língua Portuguesa, então adeus, boa sorte, como sucede em qualquer separação apenas resta a uma das partes desejar à outra que tenha sucesso no seu caminho.

Seria bom, seria excelente, seria magnífico que não roubassem os gatunos de cá e de lá, neo-imperialistas e vigaristas, aquilo que foi por nós originalmente manufacturado e que usamos há séculos, essa nossa antiquíssima, riquíssima, sólida e honesta ferramenta, o cinzel com que escrevemos a História do futuro.

O AO90, Jorge Amado ou afinal Santana tinha razão

A quimera da unificação ortográfica foi, desde sempre, uma das bandeiras desfraldadas pelos apoiantes do AO90. Mas basta ler Jorge Amado para corroborar a tese de que a maravilhosa língua unificada é tão real quanto os unicórnios voadores.

João Esperança Barroca
26 de Março de 2021, 17:00

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“O AO90 é algo como espetar no chão duas estacas, uma do lado de cá e a outra do lado de lá do Atlântico, esticar entre elas uma corda e assim tentar bloquear a natural deriva dos continentes, algo que ocorre desde os primordiais tempos da Pangeia. Os continentes afastam-se uns dos outros como as Línguas se distanciam entre si. Tentar perverter (ou deter) o curso natural das coisas não é só tremenda estupidez — é impossível. E ainda bem.”
Do blogue Apartado 53, 30-01-2021

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“Acordo Ortográfico, não! Começámos a tirar consoantes às palavras, quando, no Brasil, elas continuam a existir. É ridículo, não é nenhum acordo, é uma grande aldrabice! Sou absolutamente contra. Tenho muita esperança de que se consiga corrigir a grande borrada que foi essa invenção.”
Lena d’Água, cantora, vencedora do Prémio José Afonso 2020

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“Júlio Silveira, um dos fundadores da editora Casa da Palavra, que dirigiu a Nova Fronteira e é curador do LER Salão Carioca do Livro, conta que sempre perguntam se os livros que ele vende são escritos em português ou em ‘brasileiro’. Ele responde que são escritos na língua portuguesa do Acordo Ortográfico.”

“Não se sabe onde Silveira ou O Globo foram desencantar tal língua, porque ela simplesmente não existe. É uma ficção absurda, inventada por lunáticos.[…] Língua portuguesa do Acordo Ortográfico? Nem como anedota. As culturas portuguesa e brasileira talharam o idioma à sua medida. É por isso que o romance Wuthering Heights1, de Emily Brontë (1818-1848) se chama por cá Monte dosVendavais e no Brasil, O Morro dos Ventos Uivantes (que é, aliás, a tradução dada pelo tradutor automático da Google). Ou que o filme de Robert Wise The Sound OfMusic (1965) ganhou por título em Portugal Música no Coração e no Brasil foi titulado como A Noviça Rebelde. Isso pode ser comprovado em milhares de livros e filmes, onde cada tradução segue o caminho que lhe ditam os costumes e coloquialismos locais.”
Nuno Pacheco, no jornal Público, em 11-02-2021

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A quimera da unificação ortográfica, a maravilhosa língua unificada foi, desde sempre, uma das bandeiras desfraldadas pelos apoiantes do AO90. Essa unificação, imprescindível à expansão e difusão do português, abriria, diziam eles, as portas da ONU, por onde a língua entraria, triunfante, como língua de trabalho, a par do inglês, do francês, do russo, do chinês, do espanhol (castelhano, mais propriamente) e do árabe.

Nuno Pacheco já afirmou um sem-número de vezes que essa língua não existe e como tal, é impossível escrever nela. Por razões que não vêm agora ao caso, o autor deste escrito teve necessidade de reler, há pouco tempo, a obra O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá do escritor brasileiro Jorge Amado. A versão consultada foi a 11.ª edição, de Outubro de 2005 (em tudo igual aos excertos existentes nos manuais escolares), das Publicações D. Quixote, e essa leitura obriga-nos a corroborar a tese de que a maravilhosa língua unificada é tão real quanto os unicórnios voadores.

Vejamos, então, vários factos (e também alguns fatos de que falava Santana):

– praticamente no início da obra, na página 16, encontramos a interrogação “Por que o bobo faz questão de dizer que estava passando ali por acaso quando todos sabem não existir tal casualidade e sim propósito deliberado?” Na variante europeia do português grafaríamos porque e tolo ou parvo (em vez de “bobo”). A mesma situação com o advérbio interrogativo surge ainda na página seguinte no excerto “Mas por que não falar também de inegáveis qualidades?”;

– no excerto da página 18 “… suicidou-se, enforcando-se nos ponteiros, por não mais suportar a lentidão da Manhã…” o advérbio (de quantidade, intensidade ou grau) no português europeu surgiria depois do verbo “suportar”;

– na página 19, lemos “… pouco afeita a regras e códigos, ela o fazia esquecer por alguns momentos a suprema chateação da eternidade e a bronquite crônica.” Este excerto em Portugal seria escrito, talvez, assim: … pouco habituada a regras e códigos, ela fazia-o esquecer por alguns momentos o supremo aborrecimento da eternidade e a bronquite crónica;
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3%

«Fotografia aérea dos Liceus Salazar/D. Ana da Costa Portugal, actualmente Liceu Josina Machel. Situado na Polana, o complexo foi edificado no final dos anos 1940 e dos pontos de vista arquitectónico e funcional é considerado dos mais bem conseguidos.»«Fotografia aérea dos Liceus Salazar/D. Ana da Costa Portugal, actualmente Liceu Josina Machel. Situado na Polana, o complexo foi edificado no final dos anos 1940 e dos pontos de vista arquitectónico e funcional é considerado dos mais bem conseguidos.»

A ofensiva neo-colonialista continua, sistemática e implacável, qual rolo compressor, através da imposição brutal da língua nacional brasileira; com a cobertura política da sua invenção primordial — a chamada CPLB (Comunidade dos Países de Língua Oficial Brasileira) –, os mandantes brasileiros e os paus-mandados portugueses vão demolindo cada vez mais vastas zonas dos países que no passado foram colónias portuguesas;  paulatinamente e com a prestimosa conivência de “técnicos”, de “académicos” e, em especial, de políticos tugas (labregos deslumbrados, cretinos patológicos e vigaristas profissionais), a golpada está já largamente disseminada, começando a infectar outros países além de Portugal. Como é o caso relatado na notícia (pura propaganda) agora aqui reproduzido.

É arrepiante de facto. Como Portugal “já está” e enquanto ainda não lhes é possível enterrar o dente naquilo que de essencial os move, isto é, Angola, então no imediato segue-se, por exemplo, Moçambique (e Timor-Leste, servindo este micro-país como tubo de ensaio).

Muita coisa haveria a dizer sobre o episódio, se bem que tristemente sumarento, ou seja, amargo, porém não vale a pena maçar as pessoas com a irritante trivialidade das evidências: o Brasil mai-los seus tugas apaniguados desembarcaram em Moçambique, a 2.ª das ex-colónias portuguesas a ser abocanhada  (Timor-Leste também “já está”, como Portugal), e ali vão iniciando o seu trabalho de terraplanagem. Quais bandeirantes do avesso, com o solícito empenho do Ministro dos Negócios Estrangeiros e de outras entidades portuguesas igualmente cooperantes, os enviados do Itimaraty inauguraram — a coberto do AO90, o guião da palhaçada, e da respectiva “difusão internacional da língua” brasileira — a tomada de posse administrativa de Moçambique.

Para os 3% de Moçambicanos falantes de Português (na escrita, devem ser algo como 1%, ou coisa que o valha), a neo-colonização deve ser uma grande alegria, digo eu. Terá sido a um qualquer moçambicano, aliás, digo eu também, que repente ocorreu que. por exemplo, a maiúscula inicial nos meses do ano provocava imensas comichões e que era tremendamente incómodo (e inútil) ter de redigir um porradal de “consoantes mudas”. Pronto, é uma explicação como outra qualquer, agora já se sabe quem e porquê se lembrou de esgalhar o AO90, foi um moçambicano que certo dia acordou com os pés de fora.


Projecto do primeiro Dicionário de Português de Moçambique arranca com formação em Maputo


Jornal “Mundo Lusíada” (Brasil), 13.03.21

Da Redação
Com Lusa

Os trabalhos para a elaboração do primeiro dicionário de língua portuguesa de Moçambique (DiPoMo) arrancaram, em Maputo, com uma formação promovida pela Cátedra de Português da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), anunciou o instituto Camões.

O anúncio do arranque do projecto para o lançamento de um dicionário de língua portuguesa de Moçambique, com financiamento do instituto Camões, através do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), tinha sido feito pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, no início de Março no parlamento português.

“É o primeiro dicionário da língua comum de Saramago e Mia Couto que se publicará fora de Portugal e do Brasil”, disse na altura Santos Silva.

De acordo com uma nota do instituto Camões, no âmbito do Projecto DiPoMo – Dicionário do Português de Moçambique, a Cátedra de Português Língua Segunda e Estrangeira na Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane (UEM), em Maputo, promoveu, no início de Março, o primeiro curso de formação sobre a construção do “corpus do português de Moçambique”.

A formação, que decorreu de forma virtual, contou com a participação de investigadores e representantes de cada uma das províncias moçambicanas.

O Dicionário de Português de Moçambique surge na sequência da construção e publicação, em 2014, do Vocabulário Ortográfico Moçambicano da Língua Portuguesa – VOMOLP, “recurso que permitiu descrever o português moçambicano” e “desenvolver um primeiro recurso linguístico de larga escala”, segundo a nota.

O VOMOLP é parte integrante do Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa (VOC), acervo do qual constam vocabulários ortográficos de outros países de língua portuguesa.
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Os encantos da corrupção

«Eu casualmente conheci Pacheco. Tenho presente, como n’um resumo, a sua figura e a sua vida. Pacheco não deu ao seu paiz nem uma obra, nem uma fundação, nem um livro, nem uma idéa. Pacheco era entre nós superior e illustre unicamente porque tinha um immenso talento. Todavia, meu caro snr. Mollinet, este talento, que duas gerações tão soberbamente acclamaram, nunca deu, da sua força, uma manifestação positiva, expressa, visivel! O talento immenso de Pacheco ficou sempre calado, recolhido, nas profundidades de Pacheco!»
[Eça de Queirós, “A Correspondência de Fradique Mendes”]

 

Chame-se-lhe nepotismo, amiguismo, compadrio ou qualquer outra ternurenta designação do género, a verdade é que nessa alegre actividade, para variar e por excepção, Portugal e Brasil são de facto “países irmãos”; oh, sim, sim, sem dúvida, no que toca a usurpar cargos à conta de “cunhas” ou arrumar tachos consoante a seita, ah, caramba, em tal mister tanto os tugas  como os zucas são verdadeiros especialistas; e se alguém disser que na Itália ainda é pior, isso só pode ser por uma lamentável (e imbecil) carga de ingenuidade: os meliantes que integram organizações de crime organizado como a Mafia (ou a Camorra ou a Ndrangheta) são verdadeiros meninos de coro quando comparados com o crime desorganizado em Portugal e no Brasil.

Vem este intróito a propósito da geral orgia tachista que deu origem ao “acordo ortográfico”, abreviando uma longa história, inventado por agremiações informais de ladrões — de ambos os lados do Atlântico — mas suportado, incentivado e promovido por instituições formais, esses ninhos de compadres, correlegionários, compinchas, tachistas a granel.

A ABL, de que fala um brasileiro no artigo agora reproduzido, o qual, aliás, versa exclusivamente sobre o nepotismo ali vigente, tem o seu lamentável paralelo em membros da tuga ACL; não oficialmente na instituição, propriamente dita, cujo presidente pretende “despiorar” o AO90, mas em alguns bacanos que alegre e ociosamente envergam o traje cerimonial da lisboeta agremiação.

De certa forma, a colaboração — seja ela activa ou passiva — desses académicos na “adoção” em Portugal da cacografia brasileira torna-se compreensível: o papel de tais gerontes brasileiros e portugueses, tradicional e sumamente desocupados, isto é, sem nada que fazer, resume-se a produzir de vez em quando umas papeladas sobre o “acordo” e a mandar umas bocas pseudo-científicas para tentar justificar o AO90. Exercício fútil (e cretino), é claro, dada a impossibilidade técnica (e pragmática) de justificar o injustificável.

Sucede que o AO90, como bem sabemos, não contou na sua atrapalhada feitura com qualquer das duas Academias; quando muito, alguns dos “notáveis” de ambos os tugúrios (como Bechara, por exemplo e desgraça) juntaram umas papeladas à letrada aberração, a ver se porventura conseguiriam aldrabar algum patego ou catolizar um ou outro retardado.

Como sabemos também, ou ainda melhor, o AO90 foi exclusivamente cozinhado entre políticos indiferenciados, governantes (Cavaco, Lula da Silva, José Sócrates) e deputados do PS e do PSD.

Suas académicas sumidades não se meteram na marosca, pelo menos não de forma a comprometer-se em semelhante alhada, guardando assim nas profundidades de si mesmos, gravemente, prudentemente, o que talvez fosse da sua competência mas que o seu imenso talento emudeceu então e agora cala.

Os encantos da Academia Brasileira

jornaldiabo.com

O século XXI marca o fim de uma instituição que passou mais de cem anos no melhor do imaginário popular e das aspirações dos homens ligados de alguma forma à cultura. Trata-se da Academia Brasileira de Letras (ABL), criação de um grupo efetivamente de grandes valores intelectuais, liderados por Machado de Assis, Joaquim Nabuco, Graça Aranha e outras referências da cultura em sua época.

Tendo a Academia Francesa como modelo, a ABL procurou sempre reunir aqueles que se destacavam, especialmente na criação literária. Mas sempre teve espaço para notáveis, como o caso dos presidentes da República, desde Getulio Vargas, eleito por aclamação em pleno Estado Novo, a José Sarney, com obra compatível, e Fernando Henrique Cardoso, sociólogo de esquerda, cuja contribuição à cultura foi ter tido nos seus dois mandatos um ministro da Cultura eficiente, Francisco Weffort, que, curiosamente, a Academia não elegeu. Mas, em troca de favores para a formação de seu património, hoje robusto, derrotou Juscelino Kubitscheck, campeão da pura democracia no Brasil. Não foi de direita nem de esquerda. A Academia sempre foi sensível a abrigar os donos de ‘Media’, como foram os casos de Assis Chateaubriand e Roberto Marinho.
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