Etiqueta: literatura

‘Está tudo vivo’

18percentgray / Canva

É de facto gratificante verificar, até pela raridade do fenómeno, que existe ainda quem não se limita a “dar aulas”, bem pelo contrário, trata os alunos como seres-humanos e não como retardados incapazes de atar os próprios atacadores.

Não é da responsabilidade dos alunos que alguns adultos (pelo menos em idade acumulada), “pedagogos” e “técnicos” da corda, tenham por profissão inventar inanidades como a «“Leitura Recreativa” ou de “Entretenimento” para o texto literário», salteando esses pratos indigestos com temperos ainda mais intragáveis, como a TLEBS, e, para rematar, o molho de cicuta da marca AO90.

Não sendo de todo necessário ir tão longe na matéria quanto o parnasianismo nem tão perto quanto o nihilismo, a verdade é que nos crescentes escalões etários — ou seja, em cada um dos “ciclos” curriculares do Ensino no nível Básico e no Secundário — existe uma espécie de consciência artística colectiva à qual a população estudantil é sensível, está receptiva e demonstra entusiasmo sem hesitações nem considerandos.

https://www.facebook.com/poets01/photos/a.102296028635339/193269342871340/Aproveitar ou dar vazão às capacidades artísticas inatas, no sistema de Ensino português — à semelhança do que sucede com o processo de ensino/aprendizagem da Língua Portuguesa –, tornou-se hoje em dia numa empreitada que, além de ingrata e arriscada, é também profundamente tantálica; dito de outra forma, se a algum professor ocorrer tentar uma abordagem pedagógica escorada pela Arte, seja esta qual for ou um pouco de todas elas (recapitulando, para abreviar: som, imagem, cor, volume, movimento, espaço e palavra), pois então esse infeliz docente irá, ainda que em absoluto inocente, ser crucificado como indecente. O que significa, muito para além do mero jogo de palavras, que vivemos uma era em que ser docente é indecente, logo, indocente,

Veja-se, como ilustração do governamental postulado quanto ao “item”, uma espécie de orientação oficial sobre “A educação através da arte” escarrapachada num blog por certa entidade obscura de que, devo confessar, jamais tinha ouvido falar:

«Também o gabinete responsável pela execução do Programa Rede Bibliotecas Escolares (RBE) em Portugal instituiu a questão da cultura e das artes como uma das prioridades para a acção das bibliotecas escolares em 2020/21 e, como forma de a tornar visível, disponibiliza na sua biblioteca escolar digital uma recolha de museus presentes no mundo virtual que pode ajudar as bibliotecas a desenharem actividades e a impulsionarem experiências educativas inovadoras nas escolas.» [escrita brasileira corrigida para Português]

Mesmo dando de barato o erro de Português no parágrafo transcrito (não aguento mais do que uma bacorada de cada vez, lacuna minha, só li o resto de relance), e mesmo não chamando a atenção para o facto indesmentível de haver erros até em sites oficiais de Ensino e sobre Português, ainda assim será de destacar a total vacuidade do palavreado, a ausência de qualquer conteúdo objectivo ou programático e, em suma, o abjecto “verbo de encher” que aquilo é. Nesse vazio de ideias atafulhadas com expressões idiomáticas do ensinês bacoco (não confundir com barroco) consiste todo o “pugrama” da tal educação através da tal coisa que os tais burocratas debitam por ócio e vício.

A escrita, mesmo, por vezes, a escrita não literária, é Arte. Como a pintura e a escultura, assentando numa arquitectura própria, escrever é uma outra forma de música, obedecendo ambas por igual a tempo e modo, à pauta — que pode evoluir mas que é imutável enquanto código de interpretação — e às notas que são letras, à clave que é o tom, aos silêncios gritantes que fazem todo o sentido, ao som “mudo” que é solene ou de terror ou estupefacção ou reverencial.

Portugal não teria sequer hino nacional sem as oito notas e as vinte e seis letras. Notas e letras, inseparáveis e solidárias, duas gémeas siamesas unidas para sempre pela memória num só carácter colectivo que torna a existência em algo com sentido.

Quando a escola falha na relação do ensino do Português com a Arte

 

Maria do Carmo Vieira
www.publico.pt, 9 de Setembro de 2021

 

«A finalidade da arte não é agradar. O prazer é aqui um meio. Não é neste caso um fim. A finalidade da arte é elevar.» [Fernando Pessoa (1888-1935)]

«Fazer arte é querer tornar o mundo mais belo, porque a obra de arte uma vez feita, constitui beleza, beleza acrescentada à que há no mundo.»[Fernando Pessoa (1888-1935)]

 

Ao longo dos anos, e enquanto professora de Português, presenciei a reacção de alunos que nunca haviam reflectido sobre o conceito de Arte e cuja sensibilidade não fora educada nesse sentido, em casa, falhando muitas vezes a Escola na seriedade desse trabalho imperioso; presenciei também a reacção dos que eram minimamente capazes de atribuir-lhe um significado e testemunhar a sua influência favorável, em vários momentos da sua ainda curta vida, precisamente porque em casa haviam encontrado diálogo propício. E como a experiência já me evidenciara quão vital era essa força que nos alimenta o espírito, toca, consola e enriquece, tornou-se objectivo proeminente da minha função de professora não só colmatar uma lacuna que, a permanecer nos alunos, determinaria o acentuar de diferenças sociais, mas também revigorar o encontro nos que haviam já dado os primeiros passos na assimilação do Belo, daquilo que comove, que ilumina, que faz pensar e que dá prazer ainda que tudo isso possa acontecer, em pleno, mais tarde, como tive oportunidade de verificar com alguns dos meus alunos. Sempre estive segura de que a minha postura interferiria na formação da personalidade dos que me eram confiados, e que em mim confiavam, em cada início de Outono. E não me enganei porque o tempo demonstrou-o nesse passado e tem vindo a somar comoventes testemunhos, escritos e orais, de inúmeros alunos das muitas escolas onde leccionei.

Foi no ensino do Português, com o estudo de autores programáticos, que me empenhei em demonstrar aos meus alunos, do Básico ao Secundário, a importância da Arte, em geral, e da Literatura, em particular. A Literatura, como veículo privilegiado de reflexão sobre a condição humana e arte da palavra que “vive primordialmente dos [seus] sentidos indirectos”, exigindo uma interpretação da simbologia que expressa. Só compreendendo se pode efectivamente amar e é nessa procura de sentido, no silêncio da leitura e em diálogo tranquilo com a palavra, chave de diferentes olhares e vozes, que nos revelamos tantas vezes a nós próprios, indo forçosamente ao encontro do Outro e treinando assim a nossa capacidade de desobedecer a tudo o que colida com a nossa humanidade ou nos imponha o absurdo. Assim aconteceu também com muitos dos meus alunos, num trabalho cúmplice e comprometido.

Vivo em saudade os cerca de quarenta anos em que ajudei a desbravar ou a intensificar o caminho que leva ao estreito diálogo com uma obra de arte, seja ela escrita, plástica ou musical. Nesse percurso, foi relevante a reflexão de Fernando Pessoa sobre o facto de toda a Arte ser “uma forma de literatura, porque toda a arte é dizer qualquer coisa.” A demonstração é um pouco longa, mas imperiosa a necessidade de a registar: “[…] As artes que não são a literatura são as projecções de um silêncio expressivo. Há que procurar em toda a arte que não é a literatura a frase silenciosa que ela contém, ou o poema, ou o romance, ou o drama.” Por isso me envolvi interiormente nesta causa, nesta urgência de desfazer o mito da dificuldade no estudo da obra de um determinado escritor, com realce para a poesia, ou na compreensão da autenticidade das outras artes na vivência humana, com o firme propósito de desmontar a ignorância subjacente a esses tortuosos preconceitos, íntimos aliados de teses absurdas centradas na apologia da facilidade e do funcional, bem como na perspectiva da literatura como mero tipo de texto, a par de um rótulo de garrafa. Absurdos que se haviam manifestado já no indesejado Acordo Ortográfico de 1990 (AO90), que pôs em causa a função normativa da ortografia e desfigurou a sua vertente cultural, em nome da facilidade, danificando a própria pronúncia das palavras e pondo mais uma vez em evidência a sobranceria da ignorância e a leveza mental de quem a impõe, transformada em lei.
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Feira do Livro – Lisboa 2021


Não tencionava fazer um mapa sobre a Feira do Livro de Lisboa deste ano, mas a verdade é que, depois de muito procurar, não encontrei um único mapa minimamente decente.

Se porventura existisse alguma coisinha do género, aliás, as pessoas normais teriam de levar com as barracas das editoras acordistas, coisa nada recomendável, como sabemos, por questões de gosto e, especialmente, de sanidade mental.

Portanto, à semelhança aliás do que sucedeu em 2018 e em 2019, aqui fica o mapa das editoras que, no evento já a decorrer no Parque Eduardo VII, dão todas ou pelo menos algumas garantias de que estão em Português e não em acordês (ou em brasileiro) as obras que editam e distribuem.

Ressalve-se que existem alguns casos, felizmente poucos, em que a edição de certas obras é feita à vontade do freguês; de facto, ainda existem uns quantos autores tugas que, alucinados e salivando de ganância, sonham com o dia de S. Nunca, aquele em que um qualquer anjinho faça o milagre de obrigar um só brasileiro a comprar um único livro (tout court ou) escrito em Português de Portugal, mesmo se traduzido para brasileirês.

Como texto de apresentação desta FdLL serve perfeitamente a transcrição do artigo publicado pelo (excelente) jornal “Portugal News”. Entre as folhas-de-couve pseudo-brasileiras — obviamente ilegíveis — e os jornais portugueses online com ortografia decente mas que se fazem pagar tripla e principescamente (publicidade, subscrições, subvenções), mais vale ler a imprensa em Inglês, Francês ou Castelhano.

Read all about it! Lisbon book Fair returns

This year’s edition of the Lisbon Book Fair, which runs from 26 August to 12 September, will feature 131 exhibitors, spread across 325 pavilions, making this the “second largest edition in the history” of the initiative.

By TPN/Lusa, in News, Lisbon

According to the organisation, “the Lisbon Book Fair [which takes place at Parque Eduardo VII] has the participation of 131 exhibitors (with 24 new presences) spread over 325 pavilions, bringing six hundred editorial brands to the event”. “This is the second largest edition in the history of the Fair, surpassed only by the one in 2019”, highlights the organisation.

Last year, according to data from the Portuguese Association of Publishers and Booksellers (APEL), which organises the fair together with Lisbon City Council, 117 participants in 310 pavilions were present at Parque Eduardo VII, representing 638 publishers, bookstores and brands.

This is the second consecutive year that the Lisbon Book Fair, which usually takes place between the months of May and June, has been postponed to the end of August and beginning of September, due to the lockdown periods and the containment measures adopted for the prevention of the spread of Covid-19. In 2020, the Lisbon Book Fair was held for the first time between the 27th of August and the 13th of September.

The Lisbon Book Fair will be open from Monday to Thursday, between 12:30pm and 10pm on Fridays, between 12:30pm and midnight, and on Saturdays, between 11am and midnight and on Sundays between 11am and 10pm.

Feira do Livro de Lisboa 2021

Pavilhões de editoras em Português

Gradiva

B64; B66
Rua Almeida e Sousa, 21 R/c Esq.
1399-041 LISBOA
vpatinha@gradiva.mail.pt

Alêtheia Editores

A80
Rua de São Julião, 140, R/c
1100-527 LISBOA
Tel: 210 939 748|9 – aletheia@aletheia.pt

Âncora Editora

B17
Av. Infante Santo, 52 – 3.º Esq.
1350-179 LISBOA
Tel: 213 951 221 – catarina.ferreira@ancora-editora.pt

Antígona

A42;A44
Rua Silva Carvalho, 152 – 2.º
1250-257 LISBOA
Tel: 213 244 170 – info@antigona.pt

Companhia das Letras

A105, A107, A109, A111, A113, A115, A117
(representado por PENGUIN RANDOM HOUSE)
Av. Duque de Loulé, 123 – Sala 3.6
1069-152 LISBOA
jose.carvalheira@penguinrandomhouse.com – Tel: 911749878

Edições Avante

A18
Campo Grande, 220 A
1700-094 LISBOA
Tel: 218 161 760|8 – isimoes@paginaapagina.pt

Edições Colibri

A30;A32
Faculdade de Letras de Lisboa
Alameda da Universidade
1600-214 LISBOA
Tel: 217 964 038 – colibri@edi-colibri.pt
http://www.edi-colibri.pt/ – 21 931 7499

E-Primatur

D66; D68; D70
Rua Oceano Atlântico, 5
2560-510 SILVEIRA
Tel: 912 192 454 – pbernardo@e-primatur.com

Fundação Francisco Manuel dos Santos

Praça da Fundação
Auditório Sul
C02 – C03
Lg. Monterroio Mascarenhas, 1 – 7.º piso
1099-081 LISBOA
Tel: 938 045 034 – snorton@ffms.pt

Guerra e Paz Editores

A50; A52; A54
Rua Conde Redondo, 8 – 5.º Esq.
1150-105 LISBOA
Tel: 213 144 488 – guerraepaz@guerraepaz.net

Sabooks Editora – Lusodidacta

B25; B27; B29
Sabooks Editora – Lusodidacta – Livros técnicos de saúde
Rua Dário Cannas, 5 A
2670-427 LOURES
http://www.lusodidacta.pt/ – 926 803 798

Nova Vega

A20; A22
Rua do Poder Local, 2 – Sobreloja A
1675-156 PONTINHA
Tel: 217 781 028|217 786 295 – info@novavega.pt

Sistema Solar

A10: A12
Rua Passos Manuel, 67 B
1150-258 LISBOA
Tel: 210 117 011 – editora@sistemasolar.pt

Tinta-da-China

C14; C16; C39; C41; C43
Rua Francisco Ferrer, 6 A
1500-461 LISBOA
Tel: 217 269 028 – rdias@tintadachina.pt

Zéfiro

C22; C24; C26
Rua Casal da Ligeira, 20, Armazém 4 Ral – Terrugem
2705-830 SINTRA
Tel: 914 848 900 – zefiro@zefiro.pt

Editorial Divergência

D20
«Cria edições acessíveis e de qualidade, com regularidade e sem acordo ortográfico de 1990.»
https://divergencia.pt/quem-somos/
Estrada Militar de Valejas, n.º 66
2730-226 Barcarena, Oeiras
E-mail: geral@divergencia.pt – Telemóvel: 962083369

Desordem de Camões

Artigo 3.º
Finalidade geral das Ordens Honoríficas Portuguesas

1 – As Ordens Honoríficas Portuguesas destinam-se a galardoar ou a distinguir, em vida ou a título póstumo, os cidadãos nacionais que se notabilizem por méritos pessoais, por feitos militares ou cívicos, por actos excepcionais ou por serviços relevantes prestados ao País.
2 – Quando a condecoração se destine a galardoar feitos heróicos em campanha é concedida com palma.
3 – De harmonia com os usos internacionais, as Ordens Honoríficas Portuguesas podem ser atribuídas a cidadãos estrangeiros, como membros honorários de qualquer grau, não se lhes aplicando as condições da sua concessão a cidadãos nacionais.
4 – Os corpos militarizados e as unidades ou estabelecimentos militares podem ser declarados membros honorários de qualquer das Ordens Honoríficas Portuguesas, sem indicação de grau.
5 – As localidades, assim como colectividades e instituições que sejam pessoas colectivas de direito público ou de utilidade pública há, pelo menos, 25 anos podem também ser declaradas membros honorários de qualquer das Ordens Honoríficas Portuguesas, sem indicação de grau.
6 – Em todos os casos previstos nos números anteriores, respeitam-se sempre as finalidades específicas de cada Ordem, conforme resultam da presente lei.

Ordem de Camões
Artigo 30.º-A
Finalidade específica

A Ordem de Camões destina-se a distinguir quem tiver prestado:

a) Serviços relevantes à língua portuguesa e à sua projecção no mundo e à intensificação das relações culturais entre os povos e as comunidades que se exprimem em português;

Conteúdos noticiosos que “falam” por si mesmos, sem necessidade de comentários extensos.

Sinopse: o Presidente da República português foi ao Brasil, a pretexto da reinauguração do Museu da Língua brasileira, e levou debaixo do braço, para oferecer aos seus confrades brasileiros, uma Ordem honorífica expressamente criada para o efeito.

Do medalhão deste moderníssimo penduricalho, a “Ordem de Camões”, ainda não existe sequer uma imagem a cores, à excepção daquela em que o exemplar n.º 1 aparece nas mãos de um “cara” qualquer (o Presidente brasileiro não quis saber da palhaçada para nada e nem pôs os pés na “cerimónia”).

Em artigo de opinião publicado no jornal “Sol”, um tal Dinis de Abreu escreve (em brasileiro) uma diatribe exclusivamente partidária, fingindo-se zangado (ou “indignado”, como agora é de bom tom dizer-se) com o “acinte” dos brasileiros e logo aproveitando o embalo para atacar partidariamente o Presidente tuga. Paleio (de) político, portanto, o qual vale o que vale, isto é, zero.

Mais uma vez fica exposta, vergonhosamente escarrapachada em alguns media “do regime”, a canina e salivante bajulação do filho de Baltasar Rebelo de Sousa ao “gigante” brasileiro, a sua inamovível dedicação à causa neo-imperialista sob a “liderança do Brasil”. Com a dedicação característica dos sonsos e na senda de Cavaco, Sócrates e Costa, aquilo a que manifestamente aspira — e que pretende promover a alto desígnio nacional — é entregar a Língua de Camões, simbolicamente representada numa medalha de lata, a uma ex-colónia terceiro-mundista.

Não merecia o nosso poeta maior, símbolo de Portugal, semelhante enxovalho.

 

O ‘anjo da guarda’ do Governo

Dinis de Abreu
“Jornal Sol”, sol.sapo.pt, 07.08.21
opiniao@newsplex.pt

 

Com a desenvoltura que o caracteriza, Marcelo Rebelo de Sousa deslocou-se ao Brasil, a pretexto da reinauguração do Museu da Língua Portuguesa, em S. Paulo, que um incêndio quase consumiu há cinco anos. Fez bem. Mas o clima pré-eleitoral que já se vive no país não o poupou.

Apesar de convidado, Jair Bolsonaro não compareceu ao evento, sem aviso prévio, trocando-o por uma concentração de motoqueiros, que decorria no estado paulistano. Uma descortesia.

É certo que Marcelo soube, com ironia, furtar-se ao embaraço, ao citar um provérbio popular – «Só dança quem está na roda»…

Mas ficou o revés, tanto mais que o Presidente era portador da primeira medalha Camões, uma nova condecoração atribuída ao museu recuperado.

Poderá conjecturar-se que o facto de Bolsonaro ter ignorado a homenagem, se deveu ao actual governador de S. Paulo, anfitrião da cerimónia, ser um dos seus activos críticos, ou ’sinal de desagrado’ por Marcelo se ter avistado com Lula da Silva, um seu declarado adversário, ainda a contas com a Justiça.

Mas nada disso absolve o gesto, que não diminuiu Marcelo, mas que foi uma nota dissonante numa celebração da Língua Portuguesa, com mais de 250 milhões de falantes, cabendo ao Brasil o contributo principal.
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Pedro Tamen [1934 – 2021]


Um Fado: Palavras Minhas

Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido…

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
— que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.

in “Tábua das Matérias” – Poesia 1956-1991

 

«Pedro Tamen nasceu em Lisboa, em 1934 e estudou Direito na Universidade de Lisboa.»

«Entre 1958 e 1975 foi director da Editora Moraes e depois, até 2000 (data em que se retirou da actividade profissional), administrador da Fundação Calouste Gulbenkian.»

«Foi também dirigente cine-clubista, professor do ensino secundário e director-adjunto de uma revista de actualidades.»

«Fez crítica literária no semanário Expresso.»

«Foi presidente do P.E.N. Clube Português (1987-90).»

«Foi membro da Direcção e presidente da Assembleia Geral da Associação Portuguesa de Escritores.»

«Tem poemas traduzidos e publicados em francês, inglês, espanhol, italiano, alemão, neerlandês, sueco, húngaro, romeno, checo, eslovaco, búlgaro e letão.»

«Foi duas vezes finalista do Prémio Europeu de Tradução.»

«Traduziu recentemente À la Recherche du temps perdu, de Marcel Proust.»

«A sua obra poética, iniciada em 1956 com Poema para Todos os Dias (Ed. do Autor, Lisboa) encontra-se reunida em Retábulo das Matérias (Gótica, Lisboa, 2001). Posteriormente,publicou os livros Analogia e Dedos (2006) O Livro do Sapateiro (2010) e Um Teatro às Escuras (2011). Em 1999 foi publicado um disco-antologia intitulado Escrita Redita (poemas ditos por Luís Lucas; Ed. Presença / Casa Fernando Pessoa).»

«À sua poesia foram atribuídos o Prémio D. Dinis (1981), o Prémio da Crítica (1991), o Grande Prémio Inapa de Poesia (1991), o Prémio Nicola (1997), o Prémio Bordalo da Imprensa (2000), o Prémio do PEN Clube (2000), o Prémio Luís Miguel Nava (2007) e o Prémio Inês de Castro (2007).»

 


Priberam: em Português

Daquela que é, na minha opinião, a melhor ferramenta do género, absolutamente indispensável para quem trabalha com a Língua Portuguesa, ou seja, toda a gente que sabe ler e escrever em Português, apenas há a esperar que a equipa da Priberam não tenha estragado nada com esta nova versão, nem no corrector ortográfico e sintáctico FLIP (programa e utilitário) nem no dicionário online.

Parece que não. Corrector e dicionário continuam intactos e, portanto, imunes à brasileirização compulsiva que já vai infectando os programas e as plataformas da concorrência, nesta incluindo um “serviço” financiado pelo Governo que está convictamente assimilado, ao serviço da terraplanagem brasileira: refiro-me ao tremendo barrete que dá pelo nome de “ciberdúvidas”. Ora, a Priberam também disponibiliza, além do corrector, do dicionário e de diversos outros auxiliares da escrita, um verdadeiro serviço de “Dúvidas Linguísticas”.

Enfim. Por uma vez sem exemplo, aqui fica a sugestão — inteiramente grátis, é claro, que ninguém me encomendou frete algum — já não apenas de uma ferramenta única mas de uma caixa de ferramentas inteira, daquelas à moda antiga, sólida, em chapa e com pegas de ferro, pronta para resistir sem amolgadelas ou sequer riscos a quaisquer pancadas, marteladas e pontapés na gramática. Estamos todos fartos de porcarias tipo “loja do chinês” e de plástico moldável em tretas infantis enjorcadas por cabecinhas cheias de… enfim, digamos, borracha.

Este é todo um trabalho sério, escorreito, limpo e transparente, obra de portugueses competentes, e por isso não será exagero algum saudar ambos, os trabalhadores do cérebro e a empresa que os seleccionou e emprega: parabéns, mas que luxo!

 

Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa (DPLP) é um dicionário online de português. Compreende o vocabulário geral e os termos das principais áreas científicas e técnicas. O DPLP contém informação sobre as diferenças ortográficas e de uso entre o português europeu e o português do Brasil. O dicionário online apresenta funções avançadas de consulta e pesquisa assentes na plataforma lexicográfica da Priberam. Inclui ainda ligação para os auxiliares de tradução do FLiP (espanhol, francês e inglês).

O DPLP é um dicionário online de consulta gratuita. O seu conteúdo é assegurado por uma equipa de linguistas, estando em constante actualização e melhoramento.

A Priberam agradece desde já todos os comentários e sugestões dos utilizadores do dicionário online. A informação será tida em conta pela equipa de linguistas. Todos os comentários devem ser enviados para dicionario@priberam.pt.

O DPLP e o novo Acordo Ortográfico

O DPLP apresenta-se em duas versões. Por um lado, uma redigida na norma europeia do português, sem e com as alterações gráficas previstas pelo Acordo Ortográfico de 1990. Por outro, uma versão redigida na norma brasileira do português, com e sem as alterações previstas pelo novo Acordo Ortográfico.

Na secção Como consultar, cada uma destas opções de pesquisa no dicionário online é descrita pormenorizadamente.

Para mais informações sobre o Acordo Ortográfico, consulte a secção Acordo Ortográfico no site do FLiP.

[…]

[“site” da Priberam]

Flip 11: nova versão do corrector ortográfico da Priberam para quem leva o Português a sério

TekGenius
Marco Trigo

Depois de alguns anos de espera, a Priberam lançou o FLiP 11, a nova versão do seu conceituado corrector ortográfico, e que chega com algumas novidades. Acima de tudo, chega com um foco muito forte na exactidão e nos glossários científicos, para se distinguir dos dicionários generalistas.

A questão que se coloca à Priberam é que, nos últimos anos, generalizaram-se os dicionários generalistas que encontramos nos telemóveis, nos browsers e, principalmente no Microsoft Office, que continua a ser uma ferramenta fundamental em muitas empresas. Mas, como a Priberam destaca, embora estes dicionários generalistas sejam suficientes para o cidadão comum, a Microsoft optou por um caminho peculiar com revisão pré ou pós acordo ortográfico, e também uma mista. O resultado é que muitas grafias erradas acabam por ficar nos nossos textos.

Não foi sempre assim. A partir de 2001 e até ao Office 2016, a Priberam e as diversas versões do FLiP foram os parceiros da correcção ortográfica do Microsoft Word.

A apresentação à imprensa, que contou com Carlos Amaral, CEO da Priberam, e com a linguista Helena Figueira, focou este ponto, mostrando amplos exemplos de grafias incorrectas aceites pela Microsoft e não pelo FLiP.

Um ponto forte do FLiP 11 é também a integração de dicionários temáticos, com uma grande riqueza de termos específicos das áreas científicas, uma lacuna ainda gritante no Office. Graças a estes dicionários temáticos, o FLiP é um facilitador da escrita científica, reconhecendo termos que para o Office (e outros) serão apenas erros ortográficos. O exemplo citado é bastante claro: para o FLiP, “cometário” refere-se a um cometa, mas para o Office é apenas um erro ortográfico em “comentário”.

Para o académico, o FLiP 11 tem então uma dupla vantagem: não só não lhe enche o ecrã de palavras sublinhadas, como também não o induz em erro, corrigindo falsos positivos.

O FLiP 11 tem também uma melhor compartimentalização das ortografias pré e pós Acordo Ortográfico e uma capacidade melhorada de correcção contextual da ortografia. Conta, além do mais, com dicionários para todos os países Lusófonos e é compatível não só com o Microsoft Office, mas ferramentas da Adobe ou Open Office e ainda é possível utilizá-lo como plugin para o WordPress. Estas aplicações tiram todas proveito não só das ferramentas correctivas (tanto ortográficas, quanto sintácticas e estilísticas), mas também dos dicionários Priberam e do conjugador de verbos.

[…]

Priberam anuncia o FLiP 11 com foco na universalidade

noticiasetecnologia.com

A Priberam anunciou o novo FLiP 11, a décima primeira versão do pacote de ferramentas de revisão e auxílio à escrita da empresa portuguesa, conhecida pelo seu Dicionário. Disponível apenas para Windows, é totalmente compatível com o Microsoft Office 2019 e, a partir desta versão, e deixa de haver um produto diferente para o mercado brasileiro – ou seja, este é um FLiP universal.
(mais…)

Os Cinco

Mais um artigo sobre “o uso e abuso” de anglicismos. A coisa já cansa, sejamos francos, mas não deixa de ser uma curiosa espécie de fenómeno… anti-linguístico, digamos assim. De facto, e nisso reside a sua “curiosidade”, a questão, sendo radicalmente contra-producente, é por regra apresentada agora (porquê agora?) como a única maleita que afecta a Língua Portuguesa; ou seja, igorando olimpicamente (quando não ostensivamente) o AO90 — este sim, o verdadeiro cancro que vai minando a nossa Língua nacional.

A sanha extrema com que os agentes ao serviço das negociatas brasileiras vão destruindo a Língua Portuguesa é uma excepção no âmbito do movimento mundial pela instauração obrigatória da Novilíngua, se bem que os princípos basilares e as técnicas de demolição sejam as mesmas, num caso e no outro: adulterar a Língua, seja ela qual for, implica a alteração radical do raciocínio e, por consequência, do próprio indivíduo, o que incluiu a revisão da História e a liquidação sumária da consciência. Disto mesmo é exemplificativo o mais recente banimento das obras de Enyd Blyton; sem necessidade de quaisquer juízos de valor, a verdade é que a rotulagem desta autora como “racista e xenófoba”, incluindo-a numa extensa lista de autores “inadmissíveis”, implica o apagamento de boa parte da nossa memória, especialmente de períodos da puberdade e da adolescência de milhões de leitores em todo o mundo.

A imposição selvática da linguagem “politicamente correcta” implica igualmente a proibição, a erradicação, o abate de palavras — mesmo ou principalmente no quotidiano, por fluidez discursiva, sem qualquer carga ideológica ou política — pressupõe um tipo de empobrecimento que, por indelével, equivale a um ditame tão binário quanto imbecil: isto podes dizer, aquilo não podes. 

E não podes escrever e não podes sequer pensar.

Banir o pensamento é afinal possível. Basta adulterar as palavras, tornar obrigatória a obsolescência de conceitos e a caducidade da memória, extinguir por decreto o passado de um  indivíduo, de um povo, de uma nação.

Evidentemente, a neo-colonização de Portugal (e PALOP) pela língua brasileira (AO90) é em tudo semelhante, a começar pelos métodos e processos, à selvática imposição do pensamento único através da “destruição das palavras”, para usar uma expressão do próprio Orwell, o visionário que previu o horror agora tornado realidadePorém, mesmo provindo ambas as formas de ditadura mental da mesma “escola” de estupidificação em massa, e embora sejam similares os métodos e as respectivas finalidades, entre a obrigatoriedade da Novilíngua e a imposição da língua brasileira existem algumas diferenças de pormenor.

Como, por exemplo, retomando o fio à meada, alvos errados e tiros falhados: atirar sobre “o uso e abuso” da língua “cámone” é um exercício de puro (e vesgo) laxismo, ou coisa ainda pior, dependendo da figura que vocifera a sua espécie de nacionalismo oral e a sua estranha concepção de purismo linguístico, visto que tais pruridos puristas são tão ineficazes como eliminar a estupidez por decreto e tão inúteis como engessar as pernas a alguém que está com uma valente gripe.

Em suma, o “tiro ao anglicismo” está, ao contrário do que sucede no “tiro ao boneco”, nos arraiais, infalivelmente condenado a acertar sempre ao lado.

Acresce que alguns destes (aparentemente) azelhas do tirinho nem mesmo tentam disfarçar que usam uma espingarda torta: o seu verdadeiro alvo é fazer passar o AO90 por “facto consumado”, algo com que as pessoas normais já nem devem ralar-se, está feito, está feito, agora (porquê agora?) aguentem-se à bronca. Esta táctica de desvio de enfoque, truque manhoso e aldrabice velha e relha que os vendidos aprendem no seu 1.º ano de formação intensiva, socorre-se primordialmente do falso pretexto “anglófono” mas apresenta outras variantes, diversas manobras de diversão para os mesmos fins: por exemplo, listas e mais listas de “aberrações” (como se o AO90 não fosse, todo ele, de cabo a rabo, uma aberração), “discussões” amenas, tertúlias e “mesas-redondas” em vários órgãos de comunicação social, textículos sobre assuntos “linguísticos” sortidos, qual deles o mais irrelevante e frívolo. 

Nesta acepção, quem, ainda que movido de boa-fé e de todo inocente, colabora em tais manobras acordistas, ou quem às ditas confere sequer um mínimo de credibilidade, então estará — lamentavelmente, tristemente — a ser conivente de alguma forma com tais expedientes, com tais vendidos, com tal traição.

Bem, as papas e os bolos não enganam todos.

Pode bem ser que estejamos nós outros utilizando uma simples espada mental, pode até essa espada estar já romba, ou até quebrada de tanto golpear armaduras de coriáceos acordistas, mas não será por isso que deixaremos de a empunhar e contra eles investir, agora como sempre.

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Perdão? Final demasiadamente lírico?

Ah, OK, não vi o sinal de STOP. Oops, “STOP” é Inglês, não posso. Oops, “oops” também.

Como diz “em português” a nossa juventude nas redes anti-sociais, LOL.

 

O vírus do anglicismo

Joaquim Miguel de Morgado Patrício
Centro Nacional de Cultura, 18.06.21

 

Saber inglês é hoje uma ferramenta necessária para quem estuda, investiga, trabalha, viaja e tem de ter acesso ao mundo globalizado. Em todas as épocas há uma língua franca, sendo a de hoje o inglês. Os avanços técnico-científicos permitiram uma globalização que possibilitou uma maior proximidade, em que o inglês foi promovido a língua dominante nas empresas que controlam a produção, beneficiando-o nos impressos e folhas de instruções, nas etiquetas, caixas, distribuição, transportes, publicidade, ou seja, em todas as apresentações e disponibilização do produto desde a origem ao consumidor.

Esta permissividade tem condições especialmente favoráveis em países que têm falta de autoestima ou uma fraca imagem de si em termos económicos, onde o estrangeiro associado aos mais ricos é que é bom, sinónimo de culto, moderno, desenvolvimento e prestígio. Por vezes há ausência de legislação obrigatória quanto ao uso da língua materna ou oficial nas instruções e nos rótulos dos produtos importados. E quando há legislação, nem sempre os entes competentes a fazem cumprir, sendo injustificável que se invoquem dificuldades na sua implementação ou fiscalização. Não fazer cumprir uma lei também é uma opção e estratégia, tida como uma mera exigência do politicamente correcto, sem conteúdo prático.

Por questões de imagem e de redução de custos, a língua da empresa é a da casa-mãe, que não se compadece com traduções, com perda de tempo e de dinheiro, o que é agudizado pelo facto de, no actual momento económico, a sua sede ter a maior probabilidade de ser num país anglófono, ou que tenha tão só o inglês como língua de comunicação global.

Opta-se quase sempre pelo idioma tido internacionalmente como mais conveniente, o das empresas multinacionais, em que a língua da empresa é a do país onde está a inovação criativa e o dinheiro, sendo a língua do poder.

Esta imposição do inglês como língua económica, cultural e política, é tida, por vários autores, como imperialismo linguístico e um vírus do anglicismo.
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