Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: literatura

«Que fique escrito a fogo» [Manuel Monteiro, “Por Amor à Língua”]

«Um dos capítulos do livro, com o título “Malfadado Acordo”, é dedicado ao Acordo Ortográfico de 1990, com dezenas e dezenas de exemplos esclarecedores. Como é esclarecedora a posição do autor, expressa na pág. 189: “Que fique escrito a fogo: quem se opõe ao Acordo não deve aceitar uma revisão do mesmo. Não há polimento possível que retoque o que não tem ponta por onde se lhe pegue.” A afirmação não é gratuita, é sustentada numa pesquisa que lhe tomou muitos meses de trabalho, e onde deparou com “aberrações ortográficas” como cocomissário (“é mesmo assim com o acordo”). Tal como um co-réu se transforma em corréu ou um co-mandante em comandante.»

“Utilizamos poucas palavras. E sendo mais curto o léxico, também é mais curto o pensamento”

Manuel Monteiro, revisor e formador de revisores, lança um livro que é uma declaração de amor ao idioma. Por Amor à Língua é lançado esta quinta-feira, na Ler Devagar, às 18h30, com apresentação de Fernando Dacosta.

Nuno Pacheco
“Público”, 18 de Outubro de 2018

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O título não deixa dúvidas: Por Amor à Língua. E o subtítulo também não: Contra a linguagem que por aí circula. E essa é a das redundâncias, dos pleonasmos, dos muito utilizados lugares-comuns, dos estrangeirismos desnecessários, da pobreza vocabular. Manuel Matos Monteiro, que assina Manuel Monteiro, revisor linguístico e formador profissional de revisão de textos, com vários livros publicados nas áreas da literatura e da não-ficção, já escrevera em 2015 um Dicionário de Erros Frequentes da Língua (ed. Soregra), onde se explicava que não se deve escrever atazanar mas atenazar, cartapácio e não catrapázio, ovelha ronhosa e não ovelha ranhosa, em muitos exemplos, alinhados de A a Z. Por Amor à Língua, com chancela da Objectiva (grupo Penguin), já “não é só um repositório de erros”, como ele diz ao PÚBLICO. E “tem um valor menos normativo.”

O livro, que é lançado esta quinta-feira em Lisboa, na livraria Ler Devagar (LxFactory), às 18h30, com apresentação do jornalista e escritor Fernando Dacosta, é uma reflexão, com variadíssimos exemplos práticos, acerca de quão mal se escreve e fala quando se descuida o uso do idioma. E lê-se, logo na capa, que não se deve escrever protagonista principal (risque-se o principal) nem elo de ligação (se é elo já é de ligação, trata-se de pleonasmo) nem sentem-se nos vossos lugares, a construção errada (é sentai-vos nos vossos lugares) que vem de “vossos” ser pronome que se refere à segunda pessoa do plural e não à terceira, diz Manuel Monteiro. “Os brasileiros estão a recuperar o tu, mas dizem tu sabe, tu viu [como ele sabe, ele viu]; nós fazemos o mesmo, só que no plural: utilizamos pronomes da segunda pessoa do plural [vós/vos/convosco/vossos/vossas] com conjugações da terceira pessoa do plural sabem, viram [como eles sabem, eles viram].”

Isto ocorre porque “a maior parte das pessoas desconhece a conjugação dos verbos” mas também porque o ‘vós’ está a ser abolido, até mesmo em livros escolares. “Faço muito trabalho de revisão com uma editora virada para as escolas e, há poucos anos, comecei a ver uma coisa que na altura me espantou. Eles, nos livros, tinham eu, tu, ele, nós, eles, sem o vós. E já vi livros adoptados pelas escolas onde não está o vós.”

Piores dicionários

Outro exemplo de preguiça é o abuso da palavra líder: “Tudo líderes. E já nem é só nos cargos. O número um de vendas agora é o líder de vendas, nas sondagens é o líder das sondagens, na oposição é o líder da oposição.” Isto dever-se-á ao empobrecimento do vocabulário, também reflectido nos dicionários. “A qualidade dos dicionários actuais baixou, sobretudo na quantidade de palavras e de significados. Os mais antigos têm abonações literárias, têm considerações etimológicas e têm sugestões de como evitar galicismos ou anglicismos. E isso é uma coisa que já não encontramos nos actuais.” O que é mais grave nos dicionários digitais: “Aí já não se distingue as palavras portuguesas das estrangeiras, não há itálicos a assinalar. Às vezes até têm uma seta que remete para a ortografia estrangeira. Por exemplo, stresse, com e, é encaminhado para stress.”

Para Manuel Monteiro, “mais grave do que adoptar uma palavra estrangeira é adoptar uma construção estrangeira. Como o em termos de que vem do in terms of, ou o prévio a, que é o prior to inglês.” Isto é também agravado pela velocidade com que os dicionários digitais registam tais termos. “O Priberam, por exemplo, já tem realizar com o sentido do inglês [dar por, dar conta de, compreender]. As pessoas erram, eles validam e depois as pessoas vão aos dicionários legitimar o disparate. É um círculo vicioso.”

Acordo, nem revisto

Um dos capítulos do livro, com o título “Malfadado Acordo”, é dedicado ao Acordo Ortográfico de 1990, com dezenas e dezenas de exemplos esclarecedores. Como é esclarecedora a posição do autor, expressa na pág. 189: “Que fique escrito a fogo: quem se opõe ao Acordo não deve aceitar uma revisão do mesmo. Não há polimento possível que retoque o que não tem ponta por onde se lhe pegue.” A afirmação não é gratuita, é sustentada numa pesquisa que lhe tomou muitos meses de trabalho, e onde deparou com “aberrações ortográficas” como cocomissário (“é mesmo assim com o acordo”). Tal como um co-réu se transforma em corréu ou um co-mandante em comandante.

A par do Acordo (que o livro não aplica e contra o qual, fundadamente, se insurge), Manuel Monteiro é também reticente em relação ao real proveito das tecnologias. “Esta sociedade tecnológica tem muitas vantagens, mas da mesma forma que há muito mais informação disponível também há menos informação lida. A enciclopédia digital não tem o mesmo rigor da enciclopédia em papel, os dicionários digitais também não. Há tempos surgiu um estudo que me deixou muito curioso. Perguntava-se: ‘É verdade que com a internet as pessoas passaram a ter uma aceitação do ponto de vista dos outros e abalar as suas convicções políticas e de todo o género?’ E a conclusão era ‘não’. Porque as pessoas procuram as coisas que querem reforçar as suas crenças e não o contrário.”

[Transcrição integral de notícia do jornal “Público” de 18.10.18. Imagem de topo: convite da Editora Objectiva (recebido por e-mail).]

Nota: peço desculpa pelo atraso de 24 horas na publicação deste “post” mas a verdade é que tive de me certificar previamente de que não se tratava de mais uma fantochada acordista a fingir o contrário ou de mais uma passagem-de-modelos promovida pelos vaidosos do costume. Fica a divulgação do livro, que é o que importa, e não apenas a nota do seu lançamento.

Editora ObjectivaWook  –  FNAC

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O preço certo

Muito se tem falado, umas vezes a pretexto do AO90 propriamente dito e outras tantas em divertidas tertúlias sobre a “lusofonia” ou a “CPLP”, de uma coisa hermética a que alguns chamam, com um piscar de olho espertíssimo e entendido,  “valor económico da língua”. Atrelam por regra esses tais excursionistas, sempre os mesmos, o dito “valor económico“, a um outro fenómeno que igualmente ninguém faz a menor ideia do que diabo vem a ser: a “promoção e expansão da língua portuguesa no mundo”.

Tudo coisas fantásticas, só grandiloquências. Expressões tonitroantes sem o mais ínfimo significado, pois claro, como convém a políticos para verbalmente comporem seus ramalhetes de absolutas vacuidades, mas contendo a dose exacta de palavreado esmagador que chegue para impressionar pategos, intimidar ignorantes, emudecer totós.

No entanto, apesar de algumas especulações avulsas — oscilando, com impecável rigor algébrico, entre os “muitos milhões” e os “muitíssimos milhões” –, jamais ocorreu fosse a quem fosse quantificar com uma exactidão “aproximada” o tal “valor económico da língua”.

Até agora. “Nosso” Ministro dos Negócios estrangeiros acaba de atrever-se, efectivamente, a determinar esse valor apondo nela, com a chancela do Estado, a etiqueta com o preço (isto é, o “valor”) da Língua Portuguesa. E não faz a coisa por menos: «30 mil milhões de euros». Os 30 mil milhões não são o preço de venda por grosso ou a retalho, nada disso, trata-se do valor anual que o ou os “clientes” (ou seja, quem a quiser tomar de aluguer) pagará por cada ano (ou fracção, presumo) do respectivo usufruto, correspondente posse e inerente detenção em regime de propriedade global.

É espantoso, de facto. Vivemos num “maravilhoso mundo novo”, em que toda a gente sabe o preço de tudo mas ninguém sabe o valor de nada, sobrevivemos numa espécie de condomínio pessimamente frequentado cujo lema é “salve-se quem puder” e vamos todos caminhando a cadência certa para uma morte extremamente saudável.

Neste matagal caótico alagado pelo pântano da loucura geral, surgem por vezes, como se fossem orquídeas ideológicas vicejando num charco infecto, alimentando-se de matéria em decomposição, umas quantas ervas daninhas com pétalas coloridas e um cheiro pestilento para atrair alguma incauta varejeira.

Vemos, ouvimos e lemos. Mas não podemos acreditar.

Aí está o preço certo. “Espetáculo”.

Augusto Santos Silva diz que língua portuguesa vale 30 mil milhões de euros por ano

“Observador”, 9/10/2018

O ministro dos Negócios Estrangeiros afirmou que a língua portuguesa “é das pessoas, depois da cultura, especificamente da literatura, e só depois é uma língua económica”.

TIAGO PETINGA/LUSA – Autor
Agência Lusa

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, destacou esta terça-feira que a língua portuguesa representa, como “matéria para a actividade económica”, quase 17% do Produto Interno Bruto de Portugal, o equivalente a 30 mil milhões de euros por ano.

“A língua portuguesa é também de trabalho, é um valor económico de nós todos”, disse o governante, na inauguração da exposição itinerante “A Língua Portuguesa em Nós”, no Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia (MAAT), no edifício Central Tejo, com a presença do ministro das Relações Exteriores do Brasil, Aloysio Nunes Ferreira.

Augusto Santos Silva lembrou que um estudo estimou “um conjunto de actividade económicas cuja matéria prima é o português, que vai desde as artes literárias performativas até à indústria do cinema, da edição didáctica e pedagógica até ao mundo da televisão ao audiovisual”. O ministro referiu que “a estimativa de todos estas actividades” em Portugal levam a “um número próximo de 17% do PIB, o que quer dizer que, a preços actuais, a língua, matéria para actividade económica, vale por ano pelo menos 30 mil milhões de euros”.

Porém, o titular da pasta dos Negócios Estrangeiros, que aludiu à importância afirmou que a língua portuguesa “é das pessoas, depois da cultura, especificamente da literatura, e só depois é uma língua económica”. O ministro dos Negócios Estrangeiros acentuou também que “é uma língua de afirmação internacional e de comunicação internacional e é esta flexibilidade e polivalência que faz a sua força”.

“Se Fernando Pessoa pôde dizer que a língua portuguesa era a sua pátria e se Vergílio Ferreira pôde dizer que da língua portuguesa se via o mar, acho que nós todos – os portugueses, os brasileiros, os angolanos, os guineenses, os são-tomenses, os moçambicanos, os cabo-verdianos e os timorenses – podemos todos dizer que da língua portuguesa, que é a nossa língua comum, se vê hoje o futuro”, disse.

O ministro dos Negócios Externos do Brasil, Aloysio Nunes Ferreira, declarou que a língua portuguesa tem “relevância política e diplomática” na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP. O membro do Governo de Michel Temer notou a importância do idioma na CPLP para “estreitar os laços de cooperação, de comunicação e buscando a aproximação de posições que os países têm sobre as grandes questões do mundo”.

A exposição itinerante “A Língua Portuguesa em Nós”, criada pelo Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, no Brasil, exibe-se parte do acervo desta mostra apresentada na Flip – Festa Literária Internacional de Paraty, que percorreu países de África de língua portuguesa, como Cabo Verde, Angola e Moçambique.

A mostra faz um percurso pela presença da língua portuguesa no mundo, que representa actualmente cerca de 270 milhões de falantes nos cinco continentes, além de abordar o contacto com outros idiomas e a sua participação na formação cultural brasileira. Esta exposição no MAAT transitará, com carácter permanente, para a Cidade Literária de Óbidos.

Source: Augusto Santos Silva diz que língua portuguesa vale 30 mil milhões de euros por ano – Observador

[A desortografia  abrasileirada do original  foi automaticamente corrigida pela solução Firefox contra o AO90 através da extensão FoxReplace do “browser”.]

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Feira do Livro do Porto 2018

Jornal da Feira do Livro do Porto 2018

Published on Aug 30, 2018

A inquietação é o tema dominante do grande festival literário deste ano, que homenageia o cantautor José Mário Branco nos 50 anos de carreira. Os assuntos ligados à sua obra – liberdade, amor e sublevação – são percorridos pelos debates, sessões de spoken word e lições comissariados por José Eduardo Agualusa e Anabela Mota Ribeiro. Entre 7 e 23 de Setembro, nos Jardins do Palácio de Cristal, há também um ciclo de cinema, três exposições, várias sessões especiais e ainda numerosas oficinas, acções de programa educativo e de animação.

[Imagem de topo de: CMP]

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“Os Maias”, bro? Yow, cena fatela!

Aparentemente, isto seria uma boa notícia: afinal os facínoras politicamente correctos (passe a redundância) que enxameiam o Ministério da “Educação” ganharam juízo e recuaram, ao menos por uma vez, se calhar sem exemplo, numa das suas desastrosas decisões.

Pois bem, não me parece. De todo. Não há nisto mais do que uma manobra táctica, aliás a do costume, consistindo esta em fingir que existe recuo quando se trata de simples adiamento: a seu tempo, quando àquela espécie de lagartixas extra-terrestres mais convier, o “recuo” de agora será mais tarde cobrado com juros exorbitantes. A real finalidade mantém-se intacta e entretanto os papalvos do costume rejubilam com o que julgam ser uma “grande vitória” a curto prazo.

Pois sim. A curto prazo o engodo da “reposição” de “Os Maias“, por exemplo, mas depois, a médio prazo, o abate sistemático de tudo aquilo que vagamente cheire a Literatura no ensino, e por fim, a longo prazo, a institucionalização da “ideia” subjacente: ler não passa de um ridículo anacronismo, às crianças e aos jovens a leitura “não serve para nada”, há que dar vazão à sua própria “criatividade” (jogando futebol, por exemplo) e promover a “inclusão” erradicando por via administrativa a “exclusão”. Sempre a mesma dicotomia simplista, a mesma premissa binária de incompatibilidade mútua,

Ou seja, patacoada pseudo-progressista atrás de patacoada pseudo-pedagógica, mais tarde ou mais cedo um “radioso” futuro de “igualdade” universal acabará de uma vez por todas com os últimos laivos de esperança em que as gerações vindouras não sejam exclusivamente compostas de perfeitos ignorantes, completos trogloditas, absolutos idiotas.

Os Maias voltaram à lista de leitura para o ensino secundário

Ministério da Educação recuou na proposta de conteúdos que devem ser leccionados no secundário. Versão definitiva das aprendizagens essenciais volta a incluir quais as obras que devem ser lidas em vez de deixar esta escolha a cada professor.

Clara Viana
“Público”, 02.09.18

 

A obra de Eça de Queirós Os Maias não vai, afinal, desaparecer da lista de leitura para o ensino secundário, como o Ministério da Educação (ME) chegou a propor. É o que se pode comprovar ao ler a versão definitiva das aprendizagens essenciais para o secundário, que foi homologada nesta sexta-feira por despacho do Secretário de Estado da Educação João Costa.

As chamadas aprendizagens essenciais vão ser aplicadas a partir do próximo ano lectivo, num processo que começará, no caso do secundário, pelo 10.º ano. Para o ME, a definição destas aprendizagens, que esteve sobretudo a cargo das associações de professores, é necessária para resolver o problema da “extensão” dos actuais programas e permitir que seja fixado um “conjunto essencial de conteúdos” que todos os alunos devem saber, em cada disciplina, no final de cada ano de escolaridade.

Na versão que esteve em consulta pública em Julho, os documentos propostos para a disciplina de Português omitiam quais as obras de Eça de Queirós que deveriam ser lidas no secundário, referindo apenas que os alunos teriam de ler um livro deste autor.

O programa da disciplina, que ainda se encontra em vigor, determina que a abordagem a Eça de Queirós, que faz parte da matéria do 11.º ano, passa pela leitura de um de dois livros: Os Maias ou a Ilustre Casa de Ramires. E é essa a prática que tem sido seguida nos últimos anos.

A supressão da obra Os Maias na versão inicial apresentada pelo ME, noticiada pelo PÚBLICO, deu origem a um coro de protestos de académicos, professores e especialistas queirosianos. Mas como o ME não tem por hábito elaborar relatórios das consultas pública que promove, não se sabe quantas propostas de alteração foram apresentadas, nem qual o seu teor.

Não foi só em relação a Eça de Queirós que o ministério recuou. Em todas as listas de leitura apresentadas agora para o 10.º, 11.º e 12.º anos, voltam a ser inscritas as obras de Almeida Garrett, Alexandre Herculano e Camilo Castelo que constam do programa, mas que tinham desaparecido da versão inicial das aprendizagens essenciais, onde foram substituídas pela referência “escolher um romance” de um destes três autores. Foi o que passou também com Cesário Verde, onde se apontava apenas que seria preciso “escolher três poemas”, o que agora foi substituído pela leitura obrigatória, como tem sido a norma, do Sentimento dum Ocidental.

Na altura, a presidente da Associação de Professores de Português, Filomena Viegas, justificou esta opção, por um lado com a necessidade de diminuir o número de obras propostas para leitura e, por outro para se permitir “o alargamento das opções que podem ser tomadas pelos docentes”, a quem ficaria entregue a escolha dos livros que os alunos deveriam ler.

Também no 12.º ano o ME desistiu de retirar a abordagem ao conto, enquanto género literário. Na lista de leitura para este ano de escolaridade voltam a estar incluídos contos de Manuel da Fonseca, Maria Judite de Carvalho e Mário de Carvalho.

Num artigo de opinião escrito para o PÚBLICO, a professora da Universidade do Porto e ex-ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, chamou a atenção para o facto de a supressão do conto do programa de Português não ser “uma opção desejável, até por se tratar de um género breve que os jovens nas sociedades de hoje (…) nitidamente privilegiam como é possível constatar na blogosfera onde narrativas breves e micronarrativas ocupam lugar de relevo”.

Por fim, no que respeita ao 10.º ano, a versão definitiva das aprendizagens essenciais volta a incluir a Crónica de D. João I, de Fernão Lopes, que na proposta inicial tinha sido erradicada.

cviana@publico.pt

Source: “Os Maias” voltaram à lista de leitura para o ensino secundário | Escolas | PÚBLICO

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O AO90 na encruzilhada das escolhas

Carlos Reis, o mais seráfico dos sinistros acordistas, ou vice-versa, revela neste seu textículo — que o jornal “Público” por algum estranho motivo aceitou publicar em acordês  — até que inimaginável ponto pode chegar a desonestidade intelectual de um vendido aos interesses (dos) neo-imperialistas brasileiros. A verborreia que agora debita é não apenas uma espectacular demonstração de como pode ser despudorada e completamente desprovida de sentido a propaganda malaquenha, como também demonstra, em regra e formato, a sistemática, obsessiva, estuporada contradição em que chafurdam estes tipos.

Exercício elementar: contrastar, simplesmente eliminando ou trocando o tema em referência, o que ele debita (e bem) sobre “Os Maias” com o que ele não credita (e mal) sobre o AO90.

«Sob os véus da autonomia das escolas e da flexibilização curricular, o ME desce mais alguns furos na exigência formativa dos alunos; fazendo-o, abdica da responsabilidade de garantir que todos eles, não apenas os que frequentam escolas privadas de elite, têm acesso àquilo que de mais significativo existe na nossa história literária

«Uma pergunta que alguns modulam assim: o que fazer com esse incómodo elefante sentado na sala, para maçada de quantos preferem modos de vida amenos?»

«O assunto parece risível, mas é sério e terá consequências gravíssimas, como efeito de um atávico comportamento político em Portugal: o Governo quer marcar presença educativa; para tal, muda. Programas, metas, aprendizagens, critérios, seja o que for. Muda-se e não se pensa na estabilidade curricular, um factor relevante para ajudar a garantir uma formação harmoniosamente desenvolvida, mesmo sabendo-se que os currículos não são dogmas inamovíveis.»

«Primeiro tema: o cânone. Mesmo sendo esta uma matéria impopular, afirmo convictamente o seguinte: o Estado tem o dever de, como se faz noutros países, pensar um cânone de autores e de textos que estruture a Educação Literária no Ensino Secundário (é deste que estou a falar). Pensar um cânone não significa ditá-lo ex abrupto ou torná-lo coisa rígida; significa propô-lo, criar condições para que ele seja debatido e configurado, com base na tradição literária ortográfica, no seu diálogo com a nossa identidade e com os valores que presidem a uma sociedade tolerante, multicultural e descomplexada relativamente ao que herdou. E significa também conhecer o lastro de saber acumulado em torno da nossa literatura ortografia, com a certeza de que não está aqui em causa um corpus mastodôntico.»

Os Maias na encruzilhada das escolhas

Muitos alunos, por causa do “negócio” das Aprendizagens Essenciais, não terão a oportunidade de estudar o mais admirável romance da nossa literatura.

Carlos Reis
24 de Julho de 2018, 6:19

1. Quando entraram em vigor os actuais programas de Português do Ensino Secundário (ES), apoiei o que neles havia de reabilitação de um domínio curricular fundamental: o da Educação Literária. Havia razão para reparos, no tocante a escolhas de obras em alternativa, escolhas que, nalguns casos, me pareciam injustificadas; mas preferi (e sempre prefiro) valorizar o que se ganhava, em vez de criticar aquilo que me parecia discutível.

Com as Aprendizagens Essenciais postas à discussão pública pelo Ministério da Educação (ME), o caso muda de figura. Sob os véus da autonomia das escolas e da flexibilização curricular, o ME desce mais alguns furos na exigência formativa dos alunos; fazendo-o, abdica da responsabilidade de garantir que todos eles, não apenas os que frequentam escolas privadas de elite, têm acesso àquilo que de mais significativo existe na nossa história literária.

Veja-se o que está nas Aprendizagens Essenciais: “Estas aprendizagens repercutir-se-ão no projecto individual de leitura de cada aluno que desenvolverá o seu perfil de leitor a partir de uma selecção de leituras que negociará com o professor, tendo por referência não só o conjunto das obras que constitui referência para as actividades de educação literária (…) em aula mas também o Plano Nacional de Leitura.” Deixo de lado a duplicação da referência e observo isto: nos casos de Garrett, Herculano, Camilo, Eça, Antero e Cesário, o “negócio” faz-se com três autores, uma obra narrativa, um romance, seis poemas – e chega.

2. O assunto parece risível, mas é sério e terá consequências gravíssimas, como efeito de um atávico comportamento político em Portugal: o Governo quer marcar presença educativa; para tal, muda. Programas, metas, aprendizagens, critérios, seja o que for. Muda-se e não se pensa na estabilidade curricular, um factor relevante para ajudar a garantir uma formação harmoniosamente desenvolvida, mesmo sabendo-se que os currículos não são dogmas inamovíveis.

Mas não é disso que trato agora. Prefiro centrar-me em dois temas decisivos, para pôr a nu aquilo que considero crucial: a lógica das escolhas “negociadas” é perversa, estimula a facilidade e gera efeitos antidemocráticos.

3. Primeiro tema: o cânone. Mesmo sendo esta uma matéria impopular, afirmo convictamente o seguinte: o Estado tem o dever de, como se faz noutros países, pensar um cânone de autores e de textos que estruture a Educação Literária no Ensino Secundário (é deste que estou a falar). Pensar um cânone não significa ditá-lo ex abrupto ou torná-lo coisa rígida; significa propô-lo, criar condições para que ele seja debatido e configurado, com base na tradição literária, no seu diálogo com a nossa identidade e com os valores que presidem a uma sociedade tolerante, multicultural e descomplexada relativamente ao que herdou. E significa também conhecer o lastro de saber acumulado em torno da nossa literatura, com a certeza de que não está aqui em causa um corpus mastodôntico; numa literatura que infelizmente não tem a amplidão de outras, um cânone mínimo e consensual talvez não vá além de uma vintena de títulos e de autores. Esse cânone não consente negócios, exige reflexão e aquele “honesto estudo” que contraponho à simplificação do ensino.

(mais…)

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«Os livros e os papéis que vão para o lixo» [JPP, “Público”, 28.07.18]

Os livros e os papéis que vão para o lixo

Agora que ando com um grupo de amigos e voluntários “aos papéis”, estou numa posição privilegiada para saber onde milhares de livros e arquivos vão parar.

José Pacheco Pereira
“Público”, 28.07.18

Livros são uma das coisas que nos nossos dias têm mais probabilidade de ir parar ao lixo. Não exagero, é mesmo assim. As razões são cada vez mais habituais: despejos ou mudanças de casa sob a pressão das novas rendas e leis do inquilinato, e as novas casas por sua vez não têm espaço para os livros, divórcios, falecimentos, e “os meus filhos não se interessam por isto”. Não me cabe julgar, até porque estou consciente do drama que muitas vezes é esta separação de alguém dos livros de uma vida.

Mesmo quando são oferecidos a bibliotecas ou instituições, a resposta habitual é que não os querem. Conheço muitas destas histórias e podem-se compreender algumas das razões da recusa, e saber que, nalguns casos, não existem mesmo condições para os receber — nem pessoal para os tratar, nem espaço para os acolher, nem recursos para os conservar. Tudo isto é verdade. Mas estes “nãos” são também favorecidos por uma concepção “moderna” do que é uma biblioteca pública, com muita animação, Internet, jogos, música e DVD, e com uma enorme dificuldade em pôr as pessoas a ler livros. É um problema que transcende as bibliotecas, e que se relaciona com a dificuldade de manter, no mundo contemporâneo de distracções e rapidez, actividades “lentas” e silenciosas como a leitura.

Não é uma questão de ter qualquer fetichismo com os livros, mas a de registar uma clara desvalorização do valor patrimonial das bibliotecas que explica a demasiada pressa, desleixo e pouco cuidado em responder que não às ofertas, ou em encontrar alternativas que encaminhem os livros, em função da sua natureza, para outros destinos e outras necessidades. E por isso ou vão de imediato para o lixo, ou ficam uns anos em caixas para depois irem também para o lixo, para o bolor e para os bichos que os comem com mais vontade do que os humanos.

Esta desvalorização do carácter patrimonial das bibliotecas leva muitas vezes a considerá-los um “peso morto” que ninguém consulta. Também não tem de ser assim, porque há maneiras de dar vida ao “morto” com vontade e imaginação. Na verdade, as listas dos livros que nunca foram consultados, que alguns investigadores e bibliotecários fizeram, principalmente fora de Portugal, e que jazem nas estantes há décadas, sem nunca terem visto um olhar humano, são particularmente interessantes. Também não me custa perceber que a mesma falta de imaginação nas bibliotecas é o espelho do conservadorismo e apatia nos temas de investigação nas universidades. Por exemplo, eu gostava de ler alguma investigação sobre a “má” poesia (em edições de autor, mas não só), que enche estantes sobre estantes, por que é que é “má”, por que é que é escrita, é escrita por quem e quem é que acha que deve gastar dinheiro a publicá-la. Suspeito que algumas respostas não são as que pensamos ser óbvias.

Agora que ando com um grupo de amigos e voluntários “aos papéis”, estou numa posição privilegiada para saber onde milhares de livros e arquivos vão parar. Já se salvaram muitos e continuamos a fazê-lo, mas também já fomos buscar bibliotecas e arquivos literalmente ao lixo. E não estamos a falar de pequenas bibliotecas, ou de livros de refugo, se é que há disso. Estamos a falar de verdadeiras bibliotecas que não são ajuntamentos, e que contêm critérios de selecção e sinais da identidade de quem as fez, dedicatórias, notas nos livros, coerência entre si. E, ainda mais grave, estamos a falar de arquivos e papéis únicos, correspondência, manuscritos, etc., que, desaparecendo, fazem desaparecer com eles parte da nossa história. A micro, mas também a macro. Por exemplo, o lixo diz-nos que estão a desaparecer arquivos e livros que pertenciam a antigos altos funcionários coloniais, que estão a morrer e, com eles, parte da nossa história “ultramarina”. Voltaremos noutra altura aqui.

Tudo isto vem a pretexto de um acontecimento desta semana. Avisados por um amigo de que estava ao ar livre num sucateiro informal, muito informal, num improvável local, uma grande pilha de livros, fomos lá ver e conseguimos falar com o homem que os recebeu, para fazer um favor a uma junta de freguesia que os despejou de uma camioneta como lixo. O seu valor para o nosso homem é o do papel, neste caso cerca de tonelada e meia.

A fotografia acima mostra parte da pilha e engana. Havia à superfície manuais escolares (aliás, novos) e números do National Geographic, até porque é provável que haja mais do que uma origem para a pilha, mas por baixo estava uma muito boa biblioteca de História, com edições raras, dedicatórias, obras completas de vários volumes, uma muito boa secção de monografias locais, com relevo para Lisboa e a sua região, livros de ficção portuguesa e estrangeira, com destaque para edições dos anos 1940 e 1950, e o mais que adiante se verá, visto que apenas cerca de 10% do total foi visto e às pressas.

Tivemos sorte, pois não choveu e chegámos uma semana antes de os livros regressarem ao seu estado original de polpa de papel. Não tenho dúvidas de que, um pouco por todo o lado, é o que está a acontecer.

José Pacheco Pereira

[Transcrição integral de Os livros e os papéis que vão para o lixo” | Opinião | PÚBLICO, 28.07.18. A imagem no corpo do artigo é do autor, alojada no “site” do jornal. Destaques meus. Imagem de topo de: “Ephemera“.]

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