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Lápis azul nas redes anti-sociais [5]

«Porque nós temos a oposição, a nível global, de uma conspiração monolítica e impiedosa que se apoia em meios obscuros para expandir as suas esferas de influência, com infiltração em vez de invasão, com subversão em vez de eleições, com intimidação em vez de livre escolha, com guerrilha a coberto da noite em vez de exércitos à luz do dia. É um sistema que congrega vastos recursos humanos e materiais que resultam numa máquina eficiente e afinada, que combina operações militares, diplomáticas, de espionagem, económicas, científicas e políticas. As suas actuações são feitas em segredo, não reveladas ao público. Os seus erros são enterrados, não mencionados. Os que discordam são silenciados, não apreciados. Nenhuma despesa é questionada, nenhum rumor sai na imprensa, nenhum segredo é revelado.» [John Fitzgerald Kennedy, Presidente dos Estados Unidos da América, New York City, 27 April 1961]

Nesta altura, ainda o vídeo de JFK não tinha sido bloqueado por “copyright infringement” (queixa de 1 agente auto-alcunhado como “Zé Pawns“). O tema então mais activo na minha conta YT era o “processo Casa Pia”.

Não há coincidências

Para compreender a diferença entre o lápis azul virtual, geral e casuístico, e aquilo que é de facto censura por delito de opinião, cirúrgico e objectivo, com motivações políticas e ad hominem, não basta simplesmente enumerar uma cadeia de episódios, ainda que a anormal recorrência desses episódios indicie per se a existência — ou, no mínimo, a suspeita — de um padrão subjacente. Pode “não ser nada”, como se costuma dizer, mas nunca fiando.

Vinte anos “disto” é bem capaz de chegar e sobrar para algo bem mais “pesado” do que apenas desconfiar. Não é de ontem nem de anteontem, que as “coincidências” se vão acumulando. Ora, se ao menos assumirmos que na vida em geral muito raramente e na política em particular absolutamente nunca alguma coisa é mera coincidência…

A finalidade única desta série de conteúdos sobre “lápis azul”, contando também com todos os antecedentes (como por exemplo, os dois “posts” sobre A Internot), é alertar para os perigos que correm e a que tipo de retaliações podem sujeitar-se todos aqueles que julgam, por ingenuidade ou mera “distracção”, que o Artigo 37.º da Constituição vale mesmo o que lá está solenemente garantido. Trata-se, portanto e em suma, de deixar a quaisquer presentes ou futuras vítimas de censura ou represália por delito de opinião algumas pistas, caso ainda acreditem que também existe disso em Portugal, para que exerçam a sua prerrogativa mais básica e inalienável — o direito de legítima defesa.

Os sucessivos episódios de censura no Fakebook — alguns dos quais são de facto hilariantes mas outros nem por isso, ou rigorosamente nada — podem não ser ainda indícios suficientes. Com tudo isso, a que se juntam os sucessivos ataques técnicos — quanto aos pessoais, de “anónimos”, identificados e infiltrados, nem vale a pena bater mais no ceguinho –, bem, o mais natural é que por fim ainda ressurja a rapsódia da “vitimização”; até porque esta é uma palavrinha que está na moda, por um lado, e por outro há quem não reconheça a vitimização — uma táctica política, não um insulto canalha — nem que esbarre nela e parta o nariz.

A plataforma YouTube não é geralmente considerada como sendo uma “rede social”, mas na verdade funciona como tal: os utilizadores publicam “posts” com vídeos, estes são comentados e/ou partilhados, qualquer pessoa pode subscrever as contas que entender, existem “likes” e “unlikes” etc.

Ora, também no YouTube, e já desde antes do #AO90, quando ocorreram outros “fenómenos” (Maddie Mccann, diploma de Sócrates, processo Casa Pia) mas principalmente desde que o (meu) assunto principal passou a ser a aldrabice brasileirista, choveram os apagamentos, as limitações, as suspensões da (minha) conta de utilizador. Cá está de novo o padrão, tanto no Fakebook como no “TuEntubas”.

Uma das ocorrências de censura ali ocorridas está retratada, a traços largos, nas imagens que se seguem e nas respectivas legendas.

O “post” em que o vídeo aparecia ficou assim.

O “aviso” da plataforma You Tube sobre o vídeo refere “direitos de autor” (copyright infringement) como motivo para o apagamento.


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Feira do Livro de Lisboa – 2022

A Feira do Livro de Lisboa 2022 realiza-se no Parque Eduardo VII, entre 25 de Agosto e 11 de Setembro, com 140 participantes representando centenas de marcas editoriais, num total de 340 pavilhões. As editoras e entidades assinaladas no mapa são as que editam, promovem e distribuem publicações em Língua Portuguesa.

https://www.google.com/maps/d/edit?mid=17_fEQLMlmVBJhJcTjbh5hjqMZuHSYOI&usp=sharing

Pavilhões de editoras em Português

Alêtheia Editores

D82

R. de São Julião, 140, R/c
1100-527 LISBOA
210 939 748|9
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B17

Av. Infante Santo, 52 – 3.º E
1350-179 LISBOA
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Antígona

A42, A44

R. Silva Carvalho, 152 – 2.º
1250-257 LISBOA
: 213 244 170
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C23, C25, C27, C29, C31, C33, C35, C37, D50, D52, D54, D56, D58, D60, D62, D64

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8500-679 PORTIMÃO
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«Nota – Não seguimos o Acordo Ortográfico de 1990.»

Sabooks Editora – Lusodidacta

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Sabooks Editora – Lusodidacta – Livros técnicos de saúde
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2670-427 LOURES
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http://www.lusodidacta.pt/

Maldoror

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Orfeu Negro

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Fax: 213 244 171
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Sistema Solar

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210 117 011
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Gabinete de quê brasileiro em Lisboa?

Página “edição Portugal” da agência informativa espanhola EFE. Como tantas outras páginas do género (BBC, Twitter, Facebook, Google, ONU), também está redigida em brasileiro: “contato”, “prêmios” etc.

 

O cansaço é perfeitamente natural e aceitável quanto ao já enorme acervo noticioso e documental que envolve tudo aquilo que aqui foi dito e repetido, explicado, demonstrado, ilustrado. Esse cansaço (público) é o princípio fundamental da estratégia acordista e a anestesia mental a sua técnica de eleição. É à base de cansaço e anestesia que podem instaurar a política do facto consumado.

Boa parte dos episódios e incidências que marcam o processo de demolição cultural em curso têm sido neste “blog” persistente e sistematicamente relatados, escalpelizados, documentados, outro tanto sucedendo — as duas realidades são concomitantes e consequentes — com a metodologia e os objectivos de cariz político-económico que enformam o AO90 enquanto instrumento primordial do linguicídio do Português.

Efectivamente, desde o lançamento do plano de brasileirização, através e a pretexto de uma pretensa “unificação ortográfica”, até às mais recentes movimentações de bastidores, em especial nos meandros esconsos da chamada “diplomacia”, passando pelas sucessivas campanhas de propaganda e lavagem cerebral em massa através dos mais diversos organismos oficiosos, por fim já vamos vendo que afinal todas as peças do puzzle encaixam mesmo, que afinal não havia pessimismo algum nas previsões, que afinal as “teorias da conspiração” não eram teorias coisíssima nenhuma.

O plano original, ainda em tosco, urdido por meia dúzia de portugueses que foram expressamente ao Brasil traficar a Língua Portuguesa, nos idos de 1985 e 86, foi posteriormente redesenhado — então já com os préstimos de verdadeiros profissionais em desinformação, especialistas em psicologia de massas e especuladores bolsistas de alto gabarito — tendo sido “implementado” à força com base no “acordo” de 1990. Após um longo período de aparente letargia, a marcar passo, e contando com um paciente trabalho de “remoção” de obstáculos (apadrinhamento presidencial e governamental, assinaturas de 3 valendo por 8, pareceres ignorados, opositores silenciados, garantia de aprovação parlamentar), o AO90 seria finalmente aprovado em 2008 com a conivência da esmagadora maioria dos deputados que passeiam seus bocejos pelos Passos Perdidos.

Com tamanho triunfo nas mãos, o que equivalia a um cheque em branco passado pelo Estado português ao portador, então sim, o plano de brasileirização foi lançado a todo o vapor. A transcrição fonética do falar “culto” brasileiro — nisso consiste o acordo que de ortográfico nada tem — tornou-se obrigatório no Ensino e em todos os organismos oficiais (portugueses, só os portugueses, em tudo isto o papel do Brasil é exclusivamente o de assistir à paródia) a partir de 1 de Janeiro de 2010. E de então para cá foi, como diz(ia) o povo, um ver se te avias: a começar pelos “órgãos de comunicação social” — emissores de material de propaganda a soldo do patrão governamental — e a terminar nas instituições e empresas dos mais diversos sectores que são ou estão de alguma forma dependentes do Estado, gradualmente grande parte do tecido socioeconómico nacional “adotou” a cacografia brasileira.

Tudo decorreu entre os “mentideros” da política e os bares de porta fechada onde se cozinham e apuram os maiores pitéus em metal sonante, mas hoje em dia, decorridos 36 anos desde o lançamento do primeiro calhau, as mais diversas incidências — e até alguns aparentes acidentes de percurso — encaixam perfeitamente uns nos outros, como peças de Lego, compondo um quadro terrível que era até há poucos anos quase indecifrável.

Agora, quando vemos e lemos “notícias” sobre “queixas” de brasileiros por xenofobia, racismo e preconceito em Portugal, percebemos que isso não passa de mais uma manobra com finalidades políticas, que aquilo não é mais do que pura e dura vitimização, em busca de ainda mais dividendos e privilégios.

Agora entende-se com a maior das facilidades para que serve, ao certo, o “acordo de mo(r)bilidade” e como o AO90 serve de respaldo e cobertura política para essa manobra, sabendo-se que desde há muitos anos foram assinados acordos de mobilidade com vários dos PALOP, se não com todos eles. O mesmo vale para uma série de outras benesses gratuitas e ainda veremos o que mais virá.

Sempre com o AO90 a servir de pretexto ideológico e com a CPLP a funcionar como expediente para alguma cobertura política, foram subsequente e sucessivamente implementadas diversas medidas cujos únicos objectivos sempre foram — ao contrário do que faz constar a persistente propaganda governamental — privilegiar os interesses geoestratégicos e político-económicos da República Federativa do Brasil. É esse, aliás, o factor comum que explica a “adoção” forçada do “fálá” brasileiro, as represálias, a censura e a repressão de quaisquer contestações ou contestatários, a pulverização dos acordos diplomáticos entre Portugal e as suas ex-colónias africanas, o acordo de morbilidade (com gralha na designação oficial) e, por fim, a presidencialmente almejada dupla nacionalidade luso-brasileira “facilitada”, válida apenas para uma das partes.

É para que se cumpra este “projeto” de etapas múltiplas que surgem de permeio as manifestações folclóricas de vitimização a propósito das igualmente encenadas alegações de “racismo, xenofobia e preconceito“. Isto quando, afinal, se porventura tão negativos (e primitivos) sentimentos existem entre portugueses e brasileiros, então o exclusivo de semelhante aberração cabe por inteiro a brasileiros — não o contrário.

Já lá vão os tempos em que o sinistro plano foi sumariamente arquivado na gaveta sem fundo das “teorias da conspiração”. Por definição, uma teoria deixa de o ser quando factos verificáveis anulam qualquer carácter especulativo da premissa.

Aquilo a que vamos assistindo, com cada vez mais clareza e sempre sem deixar margem para a menor das dúvidas, é ao infindável desfilar de sucessivos “pacotes” de medidas governamentais que objectivamente delapidam o património histórico-cultural português.

https://www.onfm.pt/2020/01/10/matrafona-a-mulher-desleixada-mais-famosa-do-pais/Torna-se impossível contornar o ambiente de pesadelo que envolve tal desfile, algo como se fosse um corso de carnaval à antiga portuguesa, para variar, carros alegóricos com umas fitinhas (alusões à “língua universau”, claro) e mimos e cabeçudos e pantomineiros e sobretudo matrafonas, muitas, imensas matrafonas (acordistas, políticos, lacaios) com seus vestidos e enchumaços pretensamente engraçados, com suas pinturas grotescas enfeitando bigodes farfalhudos, com suas horríveis piadolas (o “porrtugueiss univerrsau”, a “expansão da língua”), com toda a sua confrangedora tristeza travestida de um arremedo de alegria avinhada e sórdida.


As três transcrições que se seguem constituem mais uma pequena amostra do percurso habitual.

Um político — sacando de um pretexto qualquer do restrito naipe de brasileirismo — enaltece o “dia mundial da língua” brasileira e “aproveita” para falar de uma coisa a que chama «agenda estratégica para a língua portuguesa», aproveitando a oportunidade para avançar com uma espécie de originalidade velha e relha: «plataforma de comunicação para o entendimento empresarial». Tentando escorar a “ideia”, a ver se cola, atira com a «cooperação cultural entre os dois países» e, para compor o ramalhete, refere «centros de investigação e associações locais da comunidade imigrante brasileira». Pronto. Está o mote lançado. Dará para várias glosas mas, assim de repente, dado o curto espaço temporal entre causa e (esta) consequência, serve a charla das “associações locais”.

Atirado o osso à comunicação social, esta lança-se com entusiasmo e apetite na busca de algum pretexto para reforçar a ministerial “ideia”. Por norma, nestes casos repete-se mesmo a “argumentação” usando até algumas expressões ipsis verbis. Basta portanto encontrar alguém (um qualquer “notável” ou uma organização) que se preste a cumprir as funções de idiota útil e fazer eco da mais recente inovação que ocorreu nas insondáveis circunvoluções cerebrais de tal indivíduo.

Biblicamente falando, ecce item, consummatum est. Ou, em Português vernáculo, bem mais simples, então pronto, está feito. A coisa fica ainda mais apimentada, salvo seja, se se meter uma agência estrangeira ao barulho, ainda que essa estrangeirice não passe de mais uma das imensas brasileiradas de que está o mundo virtual cheio.

E o mundo real a encher. Bem, pelo menos nesta “terrinha” que perdeu além do tino a última réstia de decência.

Celebrar o Dia Mundial da Língua Portuguesa

João Gomes Cravinho
“Público”, 04.05.22

 

O trabalho conjunto de Portugal e dos países da CPLP foi determinante para que a UNESCO decidisse, em 2019, que o dia 5 de Maio ficasse consagrado mundialmente à Língua Portuguesa.

A institucionalização de um Dia comemorativo assume uma importância, tanto real como simbólica, para a promoção da causa do reconhecimento e da disseminação da nossa língua. Ao longo deste dia, em múltiplas organizações internacionais, em variados organismos regionais, nacionais e locais, em diversas entidades de natureza distinta espalhadas pelos quatro cantos do mundo, a língua portuguesa será evocada, entoada, cantada, dita. Serão destacadas as suas enormes virtualidades como ferramenta de comunicação que, como poucas, dá a volta ao mundo. Será ressaltada a plasticidade que permitiu que se espalhasse, que crescesse, e que se constituísse como elo entre povos. Será uma ocasião para recordar o intenso dinamismo e a variedade que caracteriza a língua portuguesa, e a importância cada vez maior que assume na sua expressão cultural.
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Lusofobia: causa(s) e efeito(s) – 4

Os brasileirófilos

Sem comentários.

Constituição da República Portuguesa

PARTE I – Princípios fundamentais
Artigo 9.º
Tarefas fundamentais do Estado

a) Garantir a independência nacional e criar as condições políticas, económicas, sociais e culturais que a promovam; (…)
d) Promover o bem-estar e a qualidade de vida do povo bem como a efectivação dos direitos económicos, sociais, culturais e ambientais (…);
e) Proteger e valorizar o património cultural do povo português (…);
f) Assegurar o ensino e a valorização permanente, defender o uso e promover a difusão internacional da língua portuguesa; (…)

PARTE III – Organização do poder político
TÍTULO II – Presidente da República
Artigo 127.º – (Posse e juramento)

(…)
3. No acto de posse o Presidente da República eleito prestará a seguinte declaração de compromisso:
Juro por minha honra desempenhar fielmente as funções em que fico investido e defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa.

 

«Este é um primeiro episódio a tratar da massiva emigração de brasileiros para Portugal. Iniciaremos a reflexão juntamente com o apontamento do presidente Marcelo Rebelo de Sousa em seus pronunciamentos nos Consulados Gerais de Portugal no Rio de Janeiro e São Paulo. Para o presidente da República Portuguesa, “Está a haver uma invasão de Portugal por brasileiros”, e isso ocorre especialmente nos últimos 4 anos e coincide com o governo de Bolsonaro. Nunca antes na História do Brasil um presidente foi capaz de expulsar tantos cidadãos brasileiros… É mesmo uma pena… Muitos brasileiros chegam à Portugal desesperados, saídos de um Brasil de ódio, insegurança, injustiças, instabilidade política e caos social…»

[YouTube, André Carvalho LUSOaBRaço (Brasil)]

Marcelo: “Não há portugueses puros, como não há brasileiros puros”

Lusa
“Públiico”, 3 de Julho 2022

 

Na intervenção que encerrou a cerimónia de abertura da Bienal do Livro de São Paulo, Presidente da República considerou que orquestra com músicos refugiados “é um retrato daquilo que o Brasil é, que Portugal também gosta de ser, que é acolhimento de refugiados e de migrantes”.

[imagem]
[legenda] Marcelo Rebelo de Sousa discursou na abertura oficial da
26.ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo

O Presidente da República afirmou este sábado à noite que “não há portugueses puros, como não há brasileiros puros”, depois de ouvir uma orquestra formada por músicos imigrantes e refugiados, em São Paulo.

Marcelo Rebelo de Sousa falava na abertura oficial da 26.ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em que houve uma actuação da Orquestra Mundana Refugi, com músicos vindos da Síria, da Palestina, do Congo, da Guiné, da Tunísia e de Cuba, entre outros.

Esta orquestra tocou, entre outros, os temas As caravanas, de Chico Buarque, e Canto das três raças, que ficou famoso na voz de Clara Nunes.

Na intervenção, que encerrou esta cerimónia, Marcelo Rebelo de Sousa considerou que a Orquestra Mundana Refugi “é um retrato daquilo que o Brasil é, que Portugal também gosta de ser, que é acolhimento de refugiados e de migrantes”.

“Não há portugueses puros, como não há brasileiros puros. Somos todos cruzamento de todos. E temos honra em sermos cruzamento de todos. E isto é uma lição própria de sociedades cultas, avançadas, progressivas”, afirmou, em seguida, recebendo palmas.

No discurso, o Presidente da República declarou-se muito honrado por Portugal ser o país homenageado nesta edição da Bienal do Livro de São Paulo.

Segundo o chefe de Estado, isso quer dizer que “Portugal já não é só nem sobretudo o Portugal do passado, é o Portugal do futuro, é o Portugal da liberdade, é o Portugal da democracia, em que é possível ter um Presidente de direita com um Governo de esquerda”.

“É o Portugal da juventude, é o Portugal da nova literatura e da nova cultura”, acrescentou.

Marcelo Rebelo de Sousa defendeu, no entanto, que “se a língua portuguesa é importante no mundo é porque há muitos outros países irmãos que têm mais falantes, muito mais falantes, mais leitores e maior projecção nesse mundo” do que Portugal.

E apontou o Brasil como “uma potência cultural” desde “há muito, muito, muito tempo” e “uma potência cultural imparável”.

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O ‘regime do deixa andar’ [José Carlos Barros]

«José Carlos Barros (Boticas, 1963) é licenciado em Arquitectura Paisagista pela Universidade de Évora e vive no Algarve, em Vila Nova de Cacela. A sua actividade profissional tem sido exercida nos domínios do ordenamento do território e da conservação da natureza. Foi director do Parque Natural da Ria Formosa. É autor, entre outros, dos livros de poesia Uma Abstracção Inútil, Todos os Náufragos, Teoria do Esquecimento, Pequenas Depressões (com Otília Monteiro Fernandes) e As Leis do Povoamento (editado também em castelhano). Com Sete Epígonos de Tebas venceu o Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama 2009. Em 2003 estreou-se na prosa com O Dia em Que o Mar Desapareceu. Venceu vários prémios literários (com destaque para o Prémio Nacional de Poesia Sebastião da Gama, que lhe foi atribuído duas vezes) e os seus textos poéticos estão publicados em vários países. O Prazer e o Tédio foi o seu primeiro romance, seguido de Um Amigo Para o Inverno (Casa das Letras, 2013), com o qual foi finalista do Prémio LeYa em 2012. Os seus livros mais recentes (poesia) são os seguintes: O Uso dos Venenos, ed. Língua Morta (2ª edição, 2018), A Educação das Crianças, ed. Do Lado Esquerdo Editora, 2020, Estação – Os Poemas do DN Jovem, 1984-1989, ed. On y Va, 2020, e Penélope Escreve a Ulisses, Edições Caixa Alta, 2021.» [Wook]

 

Esta entrevista do arquitecto, ex-deputado e escritor José Carlos Barros mereceria talvez algumas observações, mas qualquer delas iria decerto dispersar atenções, desviando o enfoque do essencial.

Em traços gerais, as respostas — numa conversa amena, aliás muito bem conduzida — pintam um quadro que, a traço grosso mas a cores, transmitem uma ideia genérica da “paisagem” acordista, num enquadramento em versão bucólica e por isso paradoxalmente assustador, com algum gado vacum e muita carneirada pastando em descanso sob o olhar vigilante de alguns ciosos pastores.

Convirá recordar que o entrevistado foi, em 2017, o deputado relator do Grupo de Trabalho parlamentar para a avaliação do “Impato” do AO90 (por extenso, “Avaliação do Impacto da Aplicação do Acordo Ortográfico de 1990, de sua graça)[ver Nota, em baixo].

Como diz? Contradição? Bem, com certeza que sim… mas se calhar não. Isto das ralações parlamentares é assim, complicado mas pouco, difícil mas não muito, ao fim e ao cabo trata-se de saber quem diz o quê, se o que diz é “na condição de” deputado ou “enquanto” cidadão e quando e por quem será decidido que afinal a posição final já não é a inicial, muito pelo contrário, vem de trás para a frente e vice-versa.

Para se entender o que pensam ao certo os que “andam na” política, todos eles deveriam ser forçados — como acontece nos filmes — a pendurar ao pescoço um cartaz com os dizeres “qualquer semelhança entre o que eu penso e o que o Partido manda é mera coincidência”.

José Carlos Barros:

“Esta asneirada do acordo ortográfico é uma metáfora da degeneração da nossa sociedade”

Diogo Vaz Pinto
11/07/2022
ionline.sapo.pt

Os leitores de poesia já se haviam deparado há muito com os inventários afectivos e a subtil ironia de José Carlos Barros. Mas depois de ter já sido finalista do Prémio Leya, com o terceiro romance, aquele cuja escrita se arrastou por uma década, conquistou o prémio e então… o quê? Logo se verá.

Já o chinfrim amainou, e deram por si esgotadas aquelas semanas mais intensas, publicitárias, depois do anúncio do Prémio Leya, resta agora ver de que modo assenta o pó depois desse pequeno pé de vento, sendo este o mais cobiçado pelo valor, pelo pequeno buzinão que se segue, isto quando há muito a literatura por si só não alimenta já grandes farras. A glória literária vive de ninharias e é o passatempo de uns tantos que não se cansam de jogar a feijões e uma ocupação de uns poucos demagogos do mistério, que se devotam a umas aleivosias de feira em feira, improvisando umas patetices choramingonas para essa gente que aparece a fingir de povo. Isto não diminui o empenho daqueles que ainda se esmeram e dão anos da sua vida, tantas horas para superar alguns emperros de ofício, esses que não se encostam ao tal do ‘dom’ mas se esfalfam para encontrar as suas páginas levando a cabo esse esforço de sondagem e conhecimento mágico da realidade, não passando ao lado nem por cima das agruras, dos aspectos mais rudes e esgotantes do quotidiano. Transmontano, nascido em Boticas, e vivendo há vários anos no Algarve, José Carlos Barros foi vereador municipal e ainda deputado na Assembleia da República (2015-2019). Tem-se mantido fiel ao mundo de que sempre foi íntimo, trazendo notícias tantas vezes miúdas, como uma chuva que preferisse a sua avara e honesta melodia a inventar às três pancadas uns vendavais ou tempestades muito postiças. Seja nos poemas que escreve desde a adolescência seja nos romances a que se abalançou já maduro, prefere dizer-nos as coisas claramente, apresentar-nos paisagens de punhos cerrados contra ídolos de pó, do que vir-nos com galanteios de sonhos parvos. Durante o mandato na assembleia, bateu-se como pode contra ‘o silêncio antidemocrático’ com que nos fazem engolir certas aberrações como este novo acordo ortográfico e tem sido sempre uma voz crítica da forma como se tem esquecido o interior do país e se marginalizou a riquíssima cultura das populações rurais. O romance que lhe valeu o Prémio Leya – As Pessoas Invisíveis – procede, de resto, a um ajuste de contas com um obscuro e sujo episódio do período colonial, mas também com esta mentalidade do deixa andar, este alheamento e até receio de enfrentar o passado, isto num país onde persistem as mofentas lérias sobre a grandeza dos nossos feitos, e em que aqueles que nos exaltam a identidade vêm sempre com aranhas na boca já a dobarem a História.

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Uns grelhados e outros assados

«Ana Cristina Leonardo estudou Filosofia. Há muito ligada à edição e jornalismo, trabalhou na Assírio & Alvim e em diversos jornais e revistas. Mantém actualmente uma crónica no Expresso. Publicou em 2008 o livro infantil, ilustrado por Álvaro Rosendo, «Joaninha, a Menina que não Queria Ser Gente» e, em 2018, o romance «O Centro do Mundo». Tem três filhas e dois netos e vive no Algarve com dois cães.» [“Wook”]

Do encanto de uma galinha assada

Ana Cristina Leonardo

“Público” (suplemento “Ipsilon”), 08.07.22

 

 

Cinquenta e quatro anos após a morte de Manuel Bandeira — um reconhecido poeta maior do Modernismo brasileiro — Portugal é o convidado de honra da 26.ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, a decorrer naquela cidade entre 2 e 10 de Julho.

Na informação oficial publicada no site do Instituto Camões, organismo criado em 1992 para a defesa e divulgação da língua e da cultura portuguesas a funcionar sob a alçada do Ministério dos Negócios Estrangeiros — e talvez nesse vínculo administrativo se encontre a explicação para a tenência de aço com que o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, o licenciado em economia Augusto Santos Silva, defendia o Acordo Ortográfico que só seria alterado por cima do seu cadáver, salvo seja… — pode ler-se que a comitiva integra “21 autores de Portugal, de Países Africanos de Língua Portuguesa e de Timor-Leste” a que “irão juntar-se dois renomados ‘chefs’, Vitor Sobral (sic) e André Magalhães”.

Não nos passando pela cabeça que a cultura — nomeadamente a literária — não seja para comer, ainda assim nos espantamos pelo destaque dado aos dois cozinheiros, mesmo se renomados. Afinal, tratando-se de um acontecimento ligado à edição e não a tachos e frigideiras, seria legítimo esperar que o acento fosse posto no nome dos escritores (e já agora em Vítor…) ou, pelo menos, que a lista dos participantes se apresentasse completa: ou há moral, ou comem todos!

Nada a obstar à relação entre estômago e literatura, binómio há muito ilustrado com excelência nos livros do crítico camiliano José Quitério, uma referência de estalo para todos os que nasceram antes da invenção dos pastéis de bacalhau com queijo da Serra ou da exportação dos pastéis de nata para o mundo. Podia referir ainda, provando que nada me move contra a arte da mesa, o hilariante ‘Cabeça, Coração, Estômago’ (Camilo Castelo Branco, Alêtheia, 2016). E há também, claro, aquele panfleto de JulienGracq, adequadamente chamado ‘A Literatura no Estômago’ (Assírio & Alvim, apresentação e tradução de Ernesto Sampaio, 1987) mas aí a salada é outra.

Sem abandonar o tema, é de toda a justiça juntar ao rolo corajoso texto do crítico António Guerreiro, publicado a 9 de Abril de 2011 no semanário Expresso (‘Retrato do Escritor Enquanto Saltimbanco’), a propósito “da edição desse ano do Festival Literário da Madeira, onde se punha em evidência o formidável convívio entre a ‘grande bouffe’ e “a pura substância espiritual” que moveria os promotores do encontro.

Não só de ‘chefs’ nos fala o Instituto Camões. Fica-se igualmente a saber que um dos objectivos essenciais da nossa participação é “promover Portugal como destino de múltiplas experiências de turismo literário”.

Supina!, pensei eu, já a imaginar ‘charters’ de turistas literários a quererem reservar o quarto do Largo do Carmo onde Fernando Pessoa viveu no princípio do século XX (disponível no Airbnb a preços razoáveis). Não será o mesmo do que dormir na cama do poeta na rua Coelho da Rocha, mas esse foi um privilégio reservado a ‘happyfew’ (se considerarmos um privilégio dormir, sob a ameaça de fantasmas, numa cama notoriamente desconfortável…).

Não me esqueci de Manuel Bandeira. Em 1930 inclui no seu livro ‘Libertinagem’ o poema ‘Poética’. Começa assim:

“Estou farto do lirismo comedido / Do lirismo bem-comportado / Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor / Estou farto de lirismo que para e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo / Abaixo os puristas”

E vai por ali fora, espadeirando sem dó nem piedade:

“…Estou farto do lirismo namorador / Político / Raquítico / Sifilítico / De todo o lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.”

Para terminar com

“Quero antes o lirismo dos loucos / O lirismo dos bêbedos / O lirismo difícil e pungente dos bêbedos / O lirismo dos clowns de Shakespeare — Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.”

Que diria hoje Manuel Bandeira do mote da participação portuguesa na Bienal, que, lemos no site do Instituto Camões, traz a assinatura de Valter Hugo Mãe:’ É Urgente Viver Encantado?’

Antes de mais, de onde surge o mote? De uma frase retirada ao ‘As Mais Belas Coisas do Mundo’, livro que é, e reproduzo do portal da editora: “A história de um menino que, dentro do abraço do avô, procura encontrar respostas para os mistérios do mundo. O avô, que tem ar de caçador de tesouros, revela-lhe o maior de todos para curar a tristeza e a despedida: o encanto”.

Cito o mote no seu contexto: “Eu queria ser sagaz, ter perspicácia, estar sempre inspirado. O meu avô pedia que não me desiludisse. Quem se desilude, morre por dentro. Dizia: é urgente viver encantado. O encanto é a única cura possível para a inevitável tristeza”.

Podia agora falar do meu avô que nada me pedia (eu alheada dos meandros da inspiração…), limitando-se ele prosaicamente a passar-me em silêncio nacos vermelhos de melancia sem sementes, mas para voltar a Manuel Bandeira, se o ‘É Urgente Viver Encantado’ não tresanda a “lirismo bem-comportado” que se abata sobre mim uma praga de Alvor e, para quem não conhece, em comparação com as pragas de Alvor, Putin é um copinho-de-leite.

Pergunto: a que ponto chegou a infantilização (ou o aparvalhamento) dos espíritos para que lirismo tão pateticamente raquítico pudesse ser escolhido para mote de um pais com séculos de idade suficientes para ter juízo? E que dizer dos rodriguinhos linguísticos, do tom moralizador, da escrita inspiracional?
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