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«Admirável Língua Nova (Parte X)» [Manuel Matos Monteiro, “Público”, 23.02.19]

 

Admirável Língua Nova (Parte X)

O Acordo e a sua aplicação encarregaram-se de aniquilar os seus apregoados objectivos. A impossível unificação traduziu-se no acentuar das diferenças ortográficas entre o português de Portugal e o português do Brasil.

Manuel Matos Monteiro
publico.pt, 23.012.19


— Vais comprar um carro novo?

— Vou. O meu carro para sempre.

Guarde bem a ideia do diálogo.

Leia agora:

— Vais comprar um carro novo?

— Vou. O meu carro pára sempre.

Neste jornal, Francisco Miguel Valada, em 1 de Dezembro de 2018, apresentou dois exemplos que falam por si. Vejamos. “Bloqueio nos fundos da UE pára projecto de milhões na área do regadio” (um título deste jornal) — é evidente que “Bloqueio nos fundos da UE para projecto de milhões na área do regadio” será lido de outra forma. Tão evidente, que os jornais, as revistas, os canais televisivos que adoptaram o Acordo continuam a pôr abundantemente o acento no “pára” quando querem desmanchar a ambiguidade ou até a leitura errónea. Faz lembrar Ricardo Araújo Pereira: “Pode-se fazer, mas é proibido.” O outro exemplo vem de Saramago (Cadernos de Lanzarote II): “Ninguém pára para o socorrer.” Com o Acordo, ficará a parecer gralha ou gaguez: “Ninguém para para o socorrer.”

E já que falamos do Nobel da Literatura e do Acordo, mergulhemos em Bob Dylan traduzido (Canções — Volume I).

(Deixemos de lado o merecimento ou desmerecimento do Nobel, quando a poesia tem uma percentagem escassíssima na lista dos galardoados. Dylan será certamente um poeta maior do que Cummings, Herberto Helder, Auden. E terá até dado um contributo à literatura que, por exemplo, Tolstói, Joyce, Borges, Proust, Fitzgerald, Nabokov, Conrad, Virginia Woolf, Lawrence Durrell não deram.)

Oh, a Primeira Guerra Mundial, rapazes

Desperdiçou a sua sorte

A razão para a luta

[…][1]

Imagine que era uma edição acordizada. Imagine que no original estava “A razão pára a luta”. Ficaria igual à fiel tradução do que Dylan realmente escreveu: The reason for fighting.

Alguém consegue explicar porque desaparece obrigatoriamente o acento de “pára”, enquanto se preservam os acentos de “pôr” e “pôde” e se decreta — pasme-se — a facultatividade do acento de “dêmos”? Ninguém.

Camilo Castelo Branco, em O Santo da Montanha: “Já que morreu a serpente, demos duas cabriolas; que, medrosos de seus olhos, nada até ora fizemos.”

Sem tirar o acento e como Camilo escreveu: “Já que morreu a serpente, dêmos duas cabriolas; que, medrosos de seus olhos, nada até ora fizemos.”

Alguém consegue explicar a vantagem da facultatividade do acento em “dêmos”?, em “lavámos”, “jogámos”, “ganhámos”, “trocámos”? Ninguém.

Que ornamento ortográfico é este que só serve para confundir o tempo pretérito com o tempo presente e até futuro? “Não ganhamos” poderá ser, com o Acordo, “não ganhamos” (no presente), “não ganhamos” (opinião sobre algo que se realizará futuramente, passe a redundância) ou… “não ganhámos” (no passado).

Que ganha a Língua Portuguesa com isto?

Que ganha a Língua Portuguesa por “descaracterizámos” (no pretérito perfeito) passar a dispor de um cardápio de quatro ortografias: “descaracterizámos”, “descaraterizámos”, “descaracterizamos” e “descaraterizamos”?

Alguém consegue explicar a razão que presidiu a estas decisões? Ninguém.

Não tendo sido aprovado o Acordo de 1986 (que pretendia abolir os acentos das palavras graves e esdrúxulas), o Novo Acordo — o de 1990… porque será que, em 2019, ainda se fala tanto do dito?, será pelos seus inexcedíveis méritos? — lá condescendeu que se mantivessem acentos nas palavras graves e esdrúxulas: “análise (s.[2])/analise (v.[3]), fábrica (s.)/fabrica (v.), secretária (s.)/secretaria (s. ou v.), vária (s.)/varia (v.), etc., casos que, apesar de dirimíveis pelo contexto sintáctico [eis o Acordo a não seguir o Acordo], levantariam por vezes algumas dúvidas e constituiriam sempre problema para o tratamento informatizado do léxico”.

(mais…)

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Uiss Maiaiss nu Timô

E por isso – com a mesma naturalidade – aqui se lembra o receio, formulado já no parecer das instâncias do ME, em 29 de Maio de 1989, de que “em Portugal as medidas pela defesa da Língua se confinam à assinatura do protocolo do referido acordo, o que, sem mais nada, significaria na prática, a consolidação da vertente brasileira em detrimento da vertente lusitana, pelo que o acto de defesa de um acordo supranacional acabaria por se transformar numa prática antinacional [parecer DGBES]


O Acordo Ortográfico poderá afectar negativamente a cooperação que hoje existe na área do livro escolar entre Portugal e os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa. Dado que em tais países se segue a norma ortográfica portuguesa toda a produção do livro escolar – à excepção de uma escassa produção doméstica – é exclusivamente assegurada pelos editores portugueses.

O Acordo poderá não só deslocar esta produção para o Brasil, como determinar, por arrastamento, a prevalência de docentes brasileiros na cooperação com tais países, no âmbito do ensino. [parecer DGBES]

«Representantes do Ministério da Educação estarão no Timor Leste, de 9 a 13 de abril, para avaliar e monitorar programas de cooperação educacional, especialmente o Programa de Qualificação de Docentes e Ensino de Língua Portuguesa, implementado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes/MEC) em 2005.»

«O coordenador-geral de Cooperação Internacional da Capes, Benício Schmidt, vai ao Timor Leste para tratar da implantação de um programa de formação de magistério para os professores em exercício nas escolas primárias do país.»

«O grupo de brasileiros que está no Timor Leste ministra aulas, em português, de disciplinas como matemática, química e biologia, com o objetivo de qualificar docentes dos diversos níveis de ensino. Um dos resultados alcançados pela missão foi a elaboração de livros didáticos de física, biologia, história, geografia e educação física, levando em conta a realidade local.»[Governo do Brasil, Ministério da Educação]

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Não invocarás o nome de Deus em vão de escada

Muito bomEkbom, 1981 texto, este de Nuno PachecoNuno Pacheco, jornal “Público”, 2019. Com muita pena minhaO Peninha [n. Fethry Duck], Walt Disney, 1964, nunca viStevie Wonder, “I Just Called To Say I Love You“, mil novecentos e oitenta e picos um único cagãoAntónio Lobo Antunes, O Próprio, vencedor do Prémio Nobel da Literatura de 2119 que não enchesse qualquer das suas grandessíssimas merdas(como diria Miguel Esteves Cardoso, um bacano à séria) com um monte de citações ou de referências a uns gajos de quem nunca ninguém ouviu sequer falarDomingos Monteiro, 1903 e que os próprios cagões(“tipo” João Baião mas em versão por escrito, iach, que horror) jamais leram, aquilo é tudo a fingir, a ver se cola, uns nomezinhos catitasEça de Queirós, “Cartas de Inglaterra”, ed. Ferro&Filhos, Rua de S. Paulo, 14, Lisboa, 1888 para tentar impressionar o pagodeMao Tse-tung, 1949.

Uma finalidade subsidiária da referencite aguda (ou bibliografite mórbida) é esconder a ignorância dos próprios, daqueles cromos que se dizem “autores” mas que nem ler sabem, quanto mais escrever; destarte (adoro escrever “destarte”, é muntafixe e dá imensa pinta de jurista), sepultando a sua triste prosa, o seu exíguo domínio da Língua e, sobretudo, a sua assustadora pobreza de espírito, sob diversas camadas de nomes sonantes e polvilhando toda a superfície da sua poia em prosa com umas citações avulsas e desconexas, o vigarista da escrita julga ter ascendido — como se tivesse apanhado um elevador — às alturas estratosféricas onde imagina irá confraternizar com os verdadeiros deuses da Literatura, cavaquear com Eça, estender o bacalhau a Camilo, jogar à bisca lambida com toda a Geração de 70 e até conversar em “estrangeiro” com um Zola, com um Murakami, com dois (ou três) Cervantes.

Não adianta sequer — mais resultará espetar um prego na parede e dar-lhe cabeçadas — tentar fazer ver a tal raça de cretinos que as citações e notas bibliográficas, quando inseridas no corpo do texto, funcionam na leitura como travões a fundo num carro, na compreensão como cubos de gelo atirados às pázadas, na fluidez narrativa como a entrada súbita de um marido ciumento quando estávamos muito entretidos a “conhecer” sua digníssima esposa.

É o mesmo que ouvir música enquanto alguém vai papagueando o nome dos instrumentos (e o respectivo fabricante), como se chama cada um dos executantes (com indicação do respectivo número de contribuinte), qual é o tempo e o tom de cada acorde, que horas são e quando é que se come. Corta o ritmo, raios, estraga tudo, nem assim  entendem?! 

Pobres diabos, tão tristes citadores, sobre os quais é vão e inútil e redundante e, sobretudo, imensamente estúpido perorar. Nem de insultos são merecedores. Ou de que a seu propósito se gaste nosso Latim.

Enfim, vale pelo divertimento. Acho-lhes imensa piada, valha-me Deus.

Deus, Fernando Pessoa ou McLuhan: cuidado com as citações

Nuno Pacheco
publico.pt, 14.02.19
Citar substitui a leitura, tal como a vaga ideia substitui o pensamento.

Se o texto apócrifo é uma praga antiga, como se recordou aqui há uma semana, a citação abusiva não o é menos. Há criaturas que, para justificarem uma tese ou tornarem credível um texto, recorrem a frases alheias, muitas célebres e já feitas cliché, venham elas de Platão ou Churchill, Pessoa ou Lacan, Homero ou Lincoln. Citar substitui a leitura, tal como a vaga ideia substitui o pensamento. Há vários livros e sites de citações, e deles não vem mal ao mundo; mas já o seu uso leviano ou acéfalo é, pelo contrário, coisa a evitar.

Se há palava usada e abusada, é esta: a de Deus. Não falta quem se arrogue a invocá-lo para justificar tudo, mesmo as ideias mais pérfidas ou os actos mais criminosos. E esta “cegueira” começa por ser exaltação. No Brasil, um deputado conhecido como Pastor Sargento Isidório apresentou, na primeira sessão legislativa da era Bolsonaro, um projecto de lei para tornar a Bíblia “património nacional, cultural e imaterial do Brasil e da Humanidade”. Corresponde, por alto, a decretar que a água é líquida ou que uma esfera é redonda, já que a Bíblia não precisa de leis para se tornar património universal. Mas Isidório, ex-militar que diz ter curado a sua homossexualidade com “a palavra de Deus” (pena que não tenha curado o que o levou a tal afirmação), quis chamar a si a profética tarefa. Ora num congresso onde as facções dominantes já são conhecidas por BBB (Bíblia, Boi e Bala), imagina-se o efeito disto.

Sobre a Bíblia, há um interessante texto de Frei Bento Domingues, no PÚBLICO, em 2016, intitulado “Não invocar o nome de Deus em vão”. Escreveu ele: “Nunca temos acesso à ‘Palavra de Deus’ de modo imediato. Estritamente falando, a Bíblia não é a Palavra de Deus, mas um conjunto de testemunhos de fé de crentes que se situam numa tradição particular da experiência religiosa.”

O pior, fora dessa experiência, é que muitos dela se apropriam no sentido mais vil. E o que deveria ser inspiração benigna passa a justificação de tormentos.

Noutro campo, há entre as simplificações do pensamento uma particularmente irritante: o abuso de Fernando Pessoa na já estafada frase “A minha pátria é a língua portuguesa” ou até, neste caso mal citado, “A minha pátria é a minha língua.” O que escreveu Pessoa, a coberto do seu heterónimo Bernardo Soares, no Livro do Desassossego? Na íntegra, e na ortografia original, anterior à grafia oficial decretada em 1911, escreveu isto (corresponde aos 2 últimos parágrafos, de 5, do trecho 259):

“Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse. Sim, porque a orthographia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-m’a do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.”

É bem menos cómodo e romântico do que a frase tirada do seu contexto, não é verdade?

Por último, uma cena de um filme que é um achado. Woody Allen, no seu Annie Hall (1977), inventa um diálogo que põe em causa o abuso do pensamento de outrem. Na fila de um cinema, o personagem que ele interpreta (Alvy Singer) ouve alguém atrás de si (o actor Russel Horton) dizer para a namorada: “O Marshall McLuhan trata a questão em termos de alta intensidade. Estás a perceber? Um medium quente…” Allen diz que ele não faz a mínima ideia do que diz MacLuhan, mas Horton defende-se: “Ai é? Por acaso até dou uma cadeira em Columbia sobre TV, Media e Cultura. E acho que as minhas ideias sobre o sr. McLuhan têm imensa validade.” Allen riposta: “Ai acha? Calha bem, porque tenho aqui o sr. McLuhan.” E Marshall McLuhan, o próprio, surge em cena e diz: “Ouvi o que disse. Não sabe nada do meu trabalho. (…) É espantoso que o deixem dar uma cadeira do que quer que seja.”

É nesse momento que Woody Allen, na pele de Alvy Singer, se vira para os espectadores e diz: “Se a vida fosse assim…” Infelizmente não é.

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Correntes na escrita

(aviso: o “pugrama” está, no original, perdoe-se-me a redundância, em nojento acordês)

Confesso que não entendi. Nem à primeira nem à segunda nem à terceira. Esta simpática missiva aterrou no meu “desktop” há já umas horas e ainda estou a tentar percebê-la.

Das duas, uma: ou sou (mesmo) de compreensão lenta ou então a coisa afinal pouco ou nada tem que se lhe diga, mistério nenhum.

Apenas estranhei que a introdução do texto fale de uma coisa quando o texto propriamente dito se limita a reproduzir, quase na íntegra, o programa do evento do qual na dita introdução o autor diz — muito justamente — cobras e lagartos.

É, mal comparando (e, repito, pior entendendo), como se um vegetariano apelasse a uma manifestação de protesto contra a matança do porco e nesse apelo incluísse todo o cardápio de certo repasto, a ocorrer num festim de degola do suíno, com requintes de malvadez para com os esfomeados em geral e os comedores de saladas em particular, há lombo assado de presigo, arrozinho de miúdos por conduto, pernil fumado, enchidos que ele só visto, pasta de fígado nas hors d’oeuvres, a sopinha é caldo verde com chouriça e nacos de toucinho, tudo regado com a bela pinga da região, uns verdinhos do melhorio, e por fim rola a sobremesa, disso é que não há nada que venha do reco, temos pena, mas há doces e gelados de toda a maneira e feitio, que até ferve, vinde, vinde, de pé, ó vítimas da fome, ou comei vossemecês sentados, isso é consoante prefira cada qual, já provou vocelência o nosso presunto, salvo seja?

São, neste caso, ignoremos similitudes quiçá foleiras, 191 palavras de entrada apelando à manifestação contra o evento de propaganda ao “acordo” e 550 palavras de propaganda ao mesmíssimo evento.

Talvez se trate de alguma nova técnica de mobilização (ou de “agitprop”, ou assim), que sinceramente desconheço. Ou seja, em resumo, continuo sem entender.

Mas das 191 contra e das 550 a favor aí ficam — para quem as quiser — todas as 741 palavras, não guardo nem uma só.

Caros amigos “desacordistas” (aqueles que são contra o acordo ortográfico de 1990):

Contamos com a vossa prestimosa participação, no protesto que se pensa efectuar contra o AO90, conhecido por Aborto Ortográfico, no dia 19 de Fevereiro de 2019, pelas 11H00, terça-feira, à entrada do casino da Póvoa de Varzim, aquando da cerimónia de abertura do Correntes d’Escritas pelo Senhor Presidente da República.

Caso não queira ou não possa aderir, solicitamos os bons ofícios, no sentido de fazer circular este texto por todos os vossos contactos do FACEBOOK e assim sucessivamente até que a mensagem chegue ao maior número de pessoas possível, que são contra o AO90, que tem lesado permanentemente o ensino da Língua Portuguesa na matriz culta indo-europeia, um autêntico linguicídio, crime de LESA-PÁTRIA.

O que se pretende é que a mensagem chegue ao conhecimento dos professores e alunos das escolas e freguesias da Póvoa de Varzim, e cidades vizinhas da região, onde o evento se realizará, e que se sentem maltratados e coagidos na aprendizagem da língua, segundo a cartilha brasileira: o AO90.

Eis o que vai passar-se neste evento, onde o AO90 brilhará na escuridão que o envolve.

A 20ª edição do Correntes d’Escritas decorrerá na Póvoa de Varzim, de 16 a 27 de Fevereiro.

Além de Marcelo Rebelo de Sousa, o Correntes d’Escritas contará com mais de 140 escritores de 20 países (Alemanha, Angola, Argentina, Brasil, Cabo Verde, Chile, Colômbia, Cuba, Espanha, Guatemala, Guiné Bissau, México, Moçambique, Nicarágua, Peru, Portugal, Republica Dominicana, S. Tomé, Timor e Uruguai).

Dos autores convidados, estão já confirmadas as seguintes presenças: um prémio Cervantes: Sérgio Ramírez (Nicarágua); três Prémios Camões: Arménio Vieira, Germano Almeida e Hélia Correia; cinco Prémios Literários Casino da Póvoa: Lídia Jorge, Ana Luísa Amaral, Hélia Correia, Manuel Jorge Marmelo, Juan Gabriel Vásquez (Colômbia); seis Prémios Saramago (e já todos os vencedores passaram por cá ao longo das várias edições): Paulo José Miranda, Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe, João Tordo, Ondjaki, Bruno Vieira Amaral e 8 ex-conferencistas de Abertura das Correntes: Nélida Piñon, Marcelo Rebelo de Sousa, José António Pinto Ribeiro, Álvaro Laborinho Lúcio, Adriano Moreira, Guilherme D’Oliveira Martins, Francisco Pinto Balsemão e Ignácio de Loyola Brandão.

A Conferência de Abertura desta edição, a 19 de Fevereiro, terça-feira, às 15h00, será proferida pelo Presidente da Conferência dos Chefes de Estado da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), Jorge Carlos Fonseca, que falará sobre “As Letras da Língua e a Mobilidade dos criadores na CPLP”. Um dos objectivos do actual presidente da CPLP é a mobilidade entre os países da Comunidade. Jorge Carlos Fonseca é também o Presidente da República de Cabo Verde.

(Logo Cabo Verde que passou a Língua Portuguesa para segunda língua, e adoptou o Crioulo Cabo-verdiano como língua oficial, em 2017).

Neste mesmo dia, às 11h30, vai realizar-se, no Casino da Póvoa, a Sessão de Abertura do Correntes, com o anúncio dos vencedores dos Prémios Literários 2019 e o lançamento da Revista Correntes d’Escritas nº 18, dedicada a Nélida Piñon. O Presidente da República presidirá a esta cerimónia.

Muitas outras iniciativas, além das Mesas (temas serão versos da Sophia de Mello Breyner, cujo centenário do nascimento se assinala este ano), vão coabitar neste 20º Correntes d’Escritas: a Feira do Livro (que promove edições acordizadas). As Galerias Euracini 2 vão acolher não apenas a Feira do Livro mas Exposições, Lançamentos de Livros, sessões com alunos do 1º ciclo e famílias, as Correntes DAR, pequenas conversas literárias e muitas outras conversas paralelas.

Serão lançados durante o Encontro meia centena de livros, destacando: “Correntes D’Escritas & Correntes Descritas” de Onésimo Teotónio Almeida, uma compilação das suas intervenções ao longo dos anos no Correntes D’Escritas.

A Arte terá um papel de destaque nesta edição e vai espalhar-se um pouco por toda a cidade com as mais variadas exposições. Palavras, Música e a musicalidade das palavras estão sempre presentes, desde a 1ª edição, no Correntes e este ano vários cantores, músicos e poetas darão voz às suas e às palavras dos outros em vários espectáculos.

Destaque ainda para a emissão em directo do Programa Governo Sombra, da TVI24, às 24h00 de 22 de Fevereiro, sexta-feira, com Carlos Vaz Marques, João Miguel Tavares, Pedro Mexia e Ricardo Araújo Pereira, a partir do Cine-Teatro Garrett. Além deste, vários programas de Rádio e Televisão serão gravados durante o Correntes, como: Obra Aberta, da Rádio Renascença, Ensaio Geral, da Rádio Renascença e Todas as Palavras, da RTP.»

O programa completo pode ser consultado aqui:
https://www.cm-pvarzim.pt/areas-de-atividade/povoa-cultural/pelouro-cultural/areas-de-accao/correntes-d-escritas/correntes-descritas-2019/programa

[Inseri “links”.]

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“O quadro do Grande Pintor” [Luiz Carlos Amorim]

Luiz Carlos Amorim: O acordo ortográfico em Portugal

“Correio do Estado” (Brasil), 24.01.19

 

Escrevi e publiquei este texto em 2014, mas volto a publicá-lo porque chego, mais uma vez, a Portugal, esta terra fantástica, e encontro manifestações do povo contra o Acordo Ortográfico de 1990, adotado no Brasil a partir de 2016. Em Portugal, ele teria sido adotado em 2009, mas há polêmica quanto a essa data, em razão da não publicação em tempo hábil do Diário Oficial de Portugal. Porém, a verdade é que o acordo nunca foi totalmente assimilado no país, pois a maioria não quer mudar a maneira de falar nem de escrever. E os portugueses pedem para revogar o documento, com a Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico, tendo conseguido já o número de assinaturas necessárias para encaminhá-la.

Então, bem antes disso, um artigo, muito interessante, sobre o fato de o Acordo Ortográfico e a Unificação da Língua Portuguesa – essa pretendida “unificação” não tem como ser levada a efeito – não ter melhorado o acesso do livro português no mercado brasileiro me chama muito a atenção: “Ao estabelecer uma ortografia unificada, o acordo ortográfico facilitaria a circulação do livro português no Brasil. E a circulação de livros de um país lusófono nos outros. Este foi, entre muito outros, um dos argumentos brandidos em favor da sua aplicação. Agora que tanto em Portugal como no Brasil boa parte das editoras adotaram o acordo, essa promessa começa já a se concretizar? A resposta parece ser negativa”. O texto é de origem portuguesa, está num apanhado de clipes sobre livro e literatura, mas não identifica o órgão publicador.

Uma afirmação de Pedro Benard da Costa, da legendadora portuguesa Cinemateca, fecha o texto – que não é pequeno – com depoimentos de editores e livreiros portugueses: “A construção gramatical é completamente diferente e há muitas palavras que não têm o mesmo sentido cá e lá”.

Pois venho escrevendo sobre isso há anos, ponderando que o Acordo Ortográfico não significa que haverá, automaticamente, uma unificação da língua portuguesa em todos os países onde ela é falada. Existem muitas palavras que têm significado diferente aqui e em Portugal, por exemplo, mas é possível que isso aconteça na comparação com outros países, como Cabo Verde, Angola etc. Lá fora existem muitas palavras que são não usadas aqui e vice-versa. Uma alteração quase que exclusivamente de acentuação não resolveria as diferenças de significação, o que não inviabiliza a leitura dos livros portugueses no Brasil. O que incomoda é a pretensão de alguns dos promotores do acordo em querer que o português seja exatamente o mesmo, independentemente do país onde ele é falado. Se até dentro do mesmo país há diferenças na maneira de falar o português – isso acontece no Brasil –, como esperar que a língua seja a mesma em vários países onde ela é a língua oficial, tão distantes uns dos outros? A linguística existe e vai continuar existindo sempre, não há como ser diferente.

Tenho lido vários autores portugueses, como José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares, Miguel Torga, Saramago e o angolano Valter Hugo Mãe, angolano que vive em Portugal, e não tenho tido dificuldade na compreensão dos textos, apesar de serem livros publicados em Portugal e, por isso, conter palavras desconhecidas. O contexto permite que se entenda perfeitamente o assunto. Não tenho dicionário português que não seja o nosso, aqui do Brasil, mas posso pesquisar na internet, se for o caso.

Aliás, como já sabemos por meio dos clássicos portugueses mais conhecidos no Brasil, Pessoa e Camões, a literatura portuguesa é rica e de qualidade. Quem conhece os autores contemporâneos citados acima sabe do que estou falando, pois são autores consagrados em Portugal, com obra extensa e largamente premiada. Vale a pena conhecer. O português não é exatamente o mesmo que o nosso, há diferenças, sim, mas não há necessidade de tradução para publicação da obra de autores portugueses aqui, porque a compreensão é completamente possível.

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Luiz Carlos Amorim, publicado no Correio do Estado” (Brasil) em 24.01.19. Imagem de topo de: Luiz Carlos Amorim (Facebook). Destaques e “links” meus. Bem entendido, a ortografia do original brasileiro foi mantida.]

 

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Passar roupa a ferro

Como diabo terei ido parar a esta lista de spamming? Não faço a menor ideia. Talvez tenha comentado alguma coisa, lá no covil do spammer, muito provavelmente denunciando (como é de bom tom fazer-se quando se topa com “lusofonistas” da treta, passe a redundância) as suas manigâncias enquanto agente de viagens não encartado encapotado sob a pomposa designação de “colóquio da lusofonia”. Isto, bem entendido, no pressuposto de que esteja correcta a minha opinião: quem promove esses tais “colóquios da lusofonia” É mesmo só ele e só ele mesmo É os ditos “colóquios da lusofonia”.

Não sei como terá o meu endereço de email ido parar a semelhante lista de spamming, repito, mas a verdade é que recebo — amiúde e há já longos anos — a publicidade não solicitada remetida pela pessoa em causa. Por regra, quando algum spam consegue furar o “software” de detecção automática, envio imediata e directamente esse tipo de detritos electrónicos para o virtual balde do lixo mas, desta vez, não sei bem porquê, num simples relance, em milésimos de segundo, algo fez retinir aquela espécie de campainha mental que me nasceu entre as orelhas há mais de vinte anos; soou o sinal de alarme anti-acordista, portanto, repentino e instintivo, que por experiência sei nunca ou raramente falhar: alguma coisa grave ou algo muito errado constava daquele texto. Portanto, abrindo para o efeito uma tão dolorosa quanto necessária excepção, fui ler aquela porcaria.

E… pim! Cá está. É ali aquele nomezinho. E, olha, outro ali, outro nomezinho. Macacos me mordam. O que diabo vai esta gente, boa gente, gente decente, lá fazer ou lá dizer?

Será que deixaram-se apenas tentar pelo carácter turístico do evento, o qual desta vez contemplará uma das 9 ilhas dos Açores, qual delas a mais bela, mais edílica, mais bucólica e quiçá poética, rendendo-se eles por conseguinte aos encantos do “colóquio” (e à música do respectivo “host” ou agente) a troco de umas quantas palavrinhas coloquialmente debitadas?

Será que não fazem a menor ideia daquilo em que se estão a meter, em que assados, salvo seja, em que verdadeiro caldeirão fervente (não, não me refiro às Furnas) irão seguramente mergulhar caso acedam de facto a participar num daqueles “colóquios da lusofonia”, dos quais ninguém ouviu jamais falar, que não são noticiados em lado algum e cujo pretexto programático é mais falso do que uma nota de 3 dólares?

Será que irão mesmo prestar-se, aquelas duas (ou três) figuras de prestígio das Letras pátrias, a fazer o papel de idiotas úteis numa festarola privada cuja única finalidade — para além dos proventos que tocarão a unidades hoteleiras, restaurantes, companhias aéreas, agências de viagens e demais negócios envolvidos — é a promoção (descarada) da chamada “lusofonia”, ou seja, a colonização linguística brasileira e o extermínio cultural do Português-padrão e de tudo aquilo que o representa e que ele significa?

Já que não declinaram o convite, ao menos que dispensassem a “honra”. A simples presença  em semelhante fantochada já seria vergonha bastante, dispensava-se a humilhação — não a própria mas a alheia.

Em suma: será que nem desconfiam, aqueles “convidados de honra”, de que vão cair numa cilada?

Ou desconfiarão, afinal? Bem, tivemos pelo menos dois precedentes (1, 2) e num deles a coisa acabou por correr bem

Estou em crer, quero crer que sim, os convidados sabem perfeitamente ao que vão e não apenas desconfiam como até já terão delineado um plano de acção adequado, catita, jeitoso: dinamitar o “colóquio” por dentro, fazê-lo implodir denunciando claramente o seu carácter propagandístico e a sua real finalidade — proselitismo acordista.

Ir aos “congressos da lusofonia” ou, de resto, a qualquer outra patuscada com o “alto” patrocínio do Bechara e do Malaca? Cruzes, canhoto! T’arrenego, Satanás! Deusmalibre, carago!

Ou, como dizia “a” Manuela (nascida Manuel mas achando isso aborrecido), com seus maneirismos caricaturais, ai, filhinhas, mais valia passar roupa a ferro.

—– Original Message —–

From: info
To: undisclosed-recipients
Sent: Wednesday, January 16, 2019 1:50 PM
Subject: : 32º COLÓQUIO DA LUSOFONIA NA GRACIOSA: convite formal

 

CONVITE FORMAL A PARTICIPAR

A AICL [ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL DOS COLÓQUIOS DA LUSOFONIA], tem o grato prazer de o/a convidar a estar presente (como ORADOR ou PRESENCIAL) no 32º Colóquio da Lusofonia cujas sessões terão lugar, de 2 a 7 de outubro na Sala de Conferências do Hotel Graciosa Resort em Santa Cruz da Graciosa, Açores.

Todos os detalhes em / http://coloquios.lusofonias.net/XXXII/

  • Teremos a presença do Prémio Nobel da Paz 1996, Dom Ximenes Belo e de José Ramos-Horta entre muitas outras personalidades de vulto.
  • Escritores de honra convidados TEOLINDA GERSÃO, JOSÉ LUÍS PEIXOTO e JOEL NETO
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