Etiqueta: literatura

Seres e pareceres

[Inês] «Marido cuco me levades
E mais duas lousas.»
[Pêro Marques] «Pois assi se fazem as cousas.»

A ideia era compilar de forma minimamente manuseável todos os pareceres sobre o #AO90, tarefa previsivelmente hercúlea que acabou afinal por revelar-se como sendo “um pouco” idiota e outro tanto redundante… ou até sumariamente inútil.

É de facto impossível, na prática, pelo menos segundo alguns critérios minimamente coerentes, coligir pareceres formais — por definição, institucionais e, portanto, com alguns requisitos mínimos — misturados com “pareceres” individuais, que manifestam meras opiniões e que exclusivamente vinculam os respectivos autores. Acrescem ainda os “pareceres” de carácter expositivo e/ou parcelar como, por exemplo, os apresentados em sede de audiência em Comissão parlamentar, como documentos de trabalho (discursos, intervenções) em Plenário ou até os materiais de suporte em qualquer debate público, presencial, radiofónico ou televisionado.

Mesmo os pareceres institucionais dependem e variam, em termos formais, consoante a origem, o destino e a finalidade específica. Uma coisa é o que têm a dizer as mais diversas entidades (FLUL, CNALP, DGEBS etc.), em verdadeiros pareceres, outra coisa bem diferente é o significado político de pareceres contidos em despachos de Comissões parlamentares (CESC e CNECP).

No caso concreto do “acordo ortográfico” que determinou a “adoção” da língua brasileira por parte do Governo português, dado o hermetismo — ou secretismo, vulgo, jogadas de bastidores — a que os dois gémeos partidários sempre sujeitaram o assunto, ainda mais difícil se torna apurar resultados: mesmo com recurso a ferramentas electrónicas topo-de-gama, encontrar um parecer específico num “site” como o do Parlamento é mais uma questão de sorte do que de destreza técnica.

Com duas excepções — os pareceres de Ivo Castro (contra) e de João Andrade Peres (a favor) — a lista cronológica seguinte sequencia os pareceres institucionais sobre o AO90 que foi (e que é) possível encontrar.

Outras “fontes” possíveis — mas sempre remetendo ou para becos sem saída (“error 404 — page not found“) ou para ficheiros em formato PDF, portanto geralmente não editáveis/copiáveis/utilizáveis — são a “wikipédjia lusôfuná” (neste endereço) e uma página da UNL.

Nem tudo foi trabalho perdido, porém. Esta sequenciação permite ao menos detectar de imediato algumas relações de causa e efeito.

E, se calhar, sem sequer ir longe demais, poderá mesmo lançar alguma luz por sobre as radicais diferenças entre alguém armar aos cucos e os cucos propriamente ditos, as causas das coisas e as coisas das causas. Ou, nas imortais palavras de Gil Vicente, assim se fazem...

  1. 23 Junho 1986 — Departamento Linguística — Faculdade Letras Universidade de Lisboa
    título: «Posição sobre o Acordo Ortográfico»
    «Estes são alguns dos aspectos que merecem a nossa crítica e que, pela sua gravidade e extensão, nos levam a considerar que este acordo de unificação deverá ser renegociado.»
  2. 30 Junho 1989 — CNALP – Comissão Nacional da Língua Portuguesa
    título: «Parecer sobre o Anteprojecto de Bases da Ortografia Unificada da Língua Portuguesa (1988) elaborado pela Academia das Ciências de Lisboa»
    «Assim, considerando todas as’ ordens de razoes mencionadas — atinentes a uma política da língua e razões de natureza científica —, a Comissão Nacional da Língua Portuguesa decidiu, por doze votos a favor e dois votos de abstenção, emitir parecer desfavorável sobre o Anteprojecto de Bases da Ortografia Unificada da Portuguesa (1988).»
  3. 01 Junho 1991 — DGEBS – Direcção Geral do Ensino Básico e Secundário
    título: «Acordo ortográfico de Língua Portuguesa»
    «E por isso – com a mesma naturalidade – aqui se lembra o receio, formulado já no parecer das instâncias do ME, em 29 de Maio de 1989, de que “em Portugal as medidas pela defesa da Língua se confinam à assinatura do protocolo do referido acordo, o que, sem mais nada, significaria na prática, a consolidação da vertente brasileira em detrimento da vertente lusitana, pelo que o acto de defesa de um acordo supranacional acabaria por se transformar numa prática antinacional”(p. 4).»
  4. 1 Novembro 2005 — Ivo Castro — Departamento Linguística Geral e Românica (FLUL)
    (sem título/assunto)
    «Em conclusão, recomendaria:
    — no imediato, a suspensão do processo em curso;
    — em seguida, a não ratificação por Portugal do Segundo Protocolo Modificativo, salvaguardando de outra forma a adesão de Timor-Leste à CPLP.»
  5. Dezembro 2005 — APL – Associação Portuguesa de Linguística
    (sem título/assunto)
    «Às razões acima aduzidas para aconselharem a suspensão do processo visando a entrada em vigor deste Acordo, acrescem razões não menos importantes de natureza científica.»
  6. 07 Abril 2008 — APEL – Associação Portuguesa de Editores e Livreiros
    (sem título/assunto)
    «É por todo este conjunto de razões, que a APEL entende que este Acordo Ortográfico é contrário aos interesses de Portugal e dos portugueses.»
  7. 06 Maio 2008 — CESC – Comissão de Ética, Sociedade e Cultura
    título: «Parecer da Comissão de Ética, Sociedade e Cultura»
    «Face ao exposto, e nada mais havendo a acrescentar, a Comissão de Ética, Sociedade e Cultura propõe que o presente relatório seja remetido à Comissão de Negócios Estrangeiros, para apreciação em sede de relatório final.»
  8. 12 Maio 2008 — João Andrade Peres
    título: «Breve parecer sobre a entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990»
    «A margem de manobra que o Acordo permite é muito grande e, se for seguida esta via, pouco estará já pré-determinado. Esse pouco é o que, por força da alínea b) da Base IV, nos obrigará, com algum risco de alterações lamentáveis na pronúncia, a passar a escrever ação, diretor ou adotar. Estou, todavia, em crer que, se os custos do Acordo não forem além de umas quantas consoantes que já nenhum falante de português pronuncia, não estaremos a pagar um preço demasiado elevado.»
  9. (mais…)

APELo a negócios

  • 7 de Abril de 2008
    «É por todo este conjunto de razões, que a APEL entende que este Acordo Ortográfico é contrário aos interesses de Portugal e dos portugueses.» [Parecer da APEL]
  • 29 de Junho de 2023
    «…foi criada uma barreira que é o acordo ortográfico» [presidente da APEL]

«A Associação Portuguesa de Editores e Livreiros é uma associação sem fins lucrativos, constituída no dia 14 de agosto de 1975 e reconhecida, desde 04 de maio de 1995, como Pessoa Coletiva de Utilidade Pública, nos termos do Decreto-Lei n.º460/77 de 07 de novembro.» [“site” em acordês: APEL“quem somos”]

  1. «com editores, gestores executivos, com ministros»
  2. «vertentes de negócio»
  3. «a associação tem “avaliado muito” a questão dos negócios do sector»
  4. «feiras de negócios»
  5. «Portugal pode aproximar-se da área de negócios internacional»

APEL quer debater “todas as questões” do sector livreiro num encontro em Agosto

O encontro Book 2.0, que decorrerá a 31 de Agosto e 1 de Setembro, contará com mais de 20 debates e conversas.

Ipsilon (“Público”), 29 de Junho de 2023

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As aplicações da inteligência artificial, os índices de leitura e a formação dos mais novos são desafios que os sectores da educação e do livro têm de discutir, diz Pedro Sobral, presidente da APEL MATILDE FIESCHI

A Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) vai promover em Lisboa o encontro internacional Book 2.0. A iniciativa, cujo programa foi anunciado nesta quinta-feira, decorrerá nos dias 31 de Agosto e 1 de Setembro no Picadeiro Real, paredes meias com o Palácio de Belém, onde em paralelo decorrerá a Festa do Livro em Belém, promovida pela Presidência da República.

Durante dois dias, haverá mais de 20 debates e conversas informais com convidados de várias áreas relacionadas com o livro, a leitura e a educação, entre os quais o investigador Tim Oates, especialista em educação, BartRobers, director de audiolivros da empresa Rakuten Kobo, YasminaElorduy, da rede social TikTok para Portugal e Espanha, e os escritores Juan Gabriel Vásquez, Tânia Ganho, JeanineCummins e Gonçalo M. Tavares.

À agência Lusa, o presidente da APEL, Pedro Sobral, explicou que, a par da Feira do Livro de Lisboa, os editores e livreiros associados sentiam “que era preciso criar um espaço para discutir todas as questões”.

“Precisamos de ter discussões muito sérias. Tanto o sector da educação como o do livro enfrentam desafios muito relevantes que precisamos de discutir e de conhecer”, disse, dando como exemplo as aplicações da inteligência artificial, os índices de leitura e a formação dos mais novos.

Nesta primeira edição do Book 2.0, a APEL quis ter “pessoas de variadíssimas áreas, de escritores a leitores, sem grandes estados de alma, com editores, gestores executivos, com ministros“.

Neste encontro também estarão presentes os ministros da Educação e da Cultura (João Costa e Pedro Adão e Silva, respectivamente), a comissária do Plano Nacional de Leitura, Regina Duarte, e o presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, António Feijó.

Pedro Sobral quer que do encontro saia um compromisso comum, um livro branco para o sector, porque “os editores também precisam de ter compromissos claros, no ambiente, na diversidade, na inclusividade”.

“Se há uma larga maioria de editores mulheres, temos de questionar por que é que a esmagadora maioria das editoras não tem mulheres nos seus órgãos de gestão. Por que é que não estamos preocupados com as questões ambientais? O que é que está a faltar aqui?”, perguntou o presidente da APEL.
(mais…)

“Arranha-nos a mente”

«De qualquer modo, mesmo em relação ao Brasil, não se trata de uma simples questão de ortografia, é o léxico e a sintaxe, que são muito diferentes. Um livro de Portugal, para os brasileiros, que inovam muito em termos linguísticos, soa sempre a arcaico. É muito difícil exportar para lá. E quando um livro em português do Brasil aparece em Portugal, escrito por um autor mais idiossincrático, parece mais estranho do que ler em francês ou inglês. Arranha-nos a mente. O Acordo Ortográfico não facilitou o intercâmbio cultural e não teve qualquer papel positivo nas exportações.» [Francisco Vale, director da editora Relógio d’Água, 8 de Fevereiro de 2018]

A expressão “português do Brasil”, infinitamente repetida, martelada, a ver se cola.

  • «o português do Brasil é diferente do que se fala e escreve em Portugal» [Nuno Pacheco, “Público”, 14.06.23]
    A língua brasileira não é nem tem nada a ver com “português do Brasil”. Esta é uma expressão obsoleta em que apenas alguns persistem, provavelmente à falta de melhor “argumento” para continuarem a fingir que as duas línguas são uma só — a língua univérsáu brasileira. [post “Uirapuru, saci, cocada”]

Não existe “português do Brasil”. Existe a Língua Portuguesa e existe a língua brasileira. Por mais patacoadas que alguns tugas vendidos aos interesses geopolíticos e económicos brasileiros tentem impingir às pessoas normais, o Português é a língua nacional de Portugal e a oficial dos PALOP, enquanto que o brasileiro é a língua nacional da República Federativa do Brasil.

À boleia do inexistente “português do Brasil”, este artigo da CNN-Portugau incide sobre uma nova rapsódia, a turbo-tradução (ou tradução a granel) via estupidez artificial, retomando as já velhas historinhas sobre o “mercado editorial brasileiro” — outra inexistência –, a admiração bacoca pelo “gigante” brasileiro (“ah, e tal, eles são 230 milhões e nós somos só 10 milhões“) e a habitual, geral, nacional tergiversação: nunca, ou muito, muito, muito raramente alguém se atreve a ligar os pontos ou a, ainda que apenas pela rama, relacionar causas e efeitos — nomeadamente entre o #AO90 e as suas desastrosas consequências nos planos educacional, editorial, patrimonial, identitário, histórico e cultural.

Tarefa essa que fica a cargo daquilo que jamais poderá ser substituído: a inteligência natural (passe a redundância).

Fundador da Relógio d’Água acusa BookCover de fazer traduções com Google Translate e ChatGPT. Editora diz que “é mentira”

Francisco Vale diz que esmagadora maioria das traduções da BookCover Editora são assinadas por Lúcia Nogueira, “a tradutora mais eficiente do planeta”, sugerindo que há recurso a ferramentas de tradução automática ou a uma equipa de tradutores que não são identificados. Responsável da BookCover garante que acusações são infundadas, tradutora também

A polémica começa com uma longa publicação no Facebook, assinada por Francisco Vale, editor e fundador da editora Relógio d’Água. O título é auto-explicativo e não deixa dúvidas sobre o tema e as acusações que se seguem: “Traduções por Inteligência Artificial (IA) Chegam a Portugal sem Se Fazer Anunciar”.

Francisco Vale alega que circulam em Portugal “nas livrarias, em feiras do livro ou na companhia de alguns jornais, centenas de milhares de exemplares de clássicos ingleses, franceses, alemães, italianos ou russos traduzidos com recurso a programas de inteligência artificial (IA), do Google Translate ao ChatGPT, passando pelo DeepL”. Mas vai mais longe e identifica mesmo a editora que é a visada nas suas críticas: “Tudo indica que um dos principais agentes desta situação seja a BookCover Editora, que tem publicadas centenas de clássicos de diversas línguas, o mais das vezes com preços de cerca de 5 euros. À primeira vista trata-se de uma oferenda aos leitores — clássicos a preços acessíveis. Mas na verdade a BookCover é uma esfinge com alguns mistérios”.

Segundo Francisco Vale, todos os livros da BookCover, excepto a série ConanDoyle, são traduzidos por Lúcia Nogueira, “a tradutora mais eficiente do planeta” porque, só em 2023, “aparece na ficha técnica como tradutora de dezenas de obras, entre elas ‘Guerra e Paz’, com as suas mais de mil páginas, e outros romances volumosos. Nos últimos dois anos e meio terá traduzido cerca de 80 clássicos, muitos deles extensos, como ‘Os Miseráveis’, ‘E Tudo o Vento Levou’ ou ‘Vinte Mil Léguas Submarinas'”. O fundador da Relógio d’Água aponta: “Qualquer editor sabe que mesmo tradutores a tempo inteiro e com larga experiência são incapazes de traduzir mais de 10 a 15 páginas por dia, o que a incansável Lúcia Nogueira parece fazer antes do pequeno-almoço, seja a partir do inglês, do alemão, do italiano, do cirílico russo e em breve talvez do mandarim ou grego antigo. As fichas técnicas da BookCover não indicam o título original nem a língua de que se traduz, nem o nome de revisores”.

O editor assinala ainda outro problema: Francisco Vale diz que existem nos textos traduzidos “numerosas gralhas, erros ortográficos e gramaticais, confusão de Acordos, termos brasileiros e outras incongruências”, pelo que defende que Lúcia Nogueira fará apenas uma correcção dos erros mais graves de uma tradução automática. “É muitíssimo mais provável que se trate de uma tradutora experimentada em tecnologias de tradução automática, que começaram no Google Translate, evoluindo para a tradução neuronal do DeepL e, mais recentemente, o ChatGPT“, aponta.

“Outra hipótese, menos provável por exigir que se escrevam os textos ao computador, é a de que dirija uma equipa de tradutores/revisores que usam o inglês, o que deveria ser referido e individualizado”, lamenta ainda o fundador da Relógio d’Água, no texto partilhado nas redes sociais.

A resposta da BookCover

A CNN Portugal contactou a BookCover Editora e chegou à fala com Francisco Melo, proprietário e editor, que quis fazer um único comentário breve ao texto de Francisco Vale sobre recurso a Inteligência Artificial: “É mentira”, respondeu ao telefone, sem querer alongar-se no tema ou detalhar processos de tradução, revisão e edição da editora que fundou no Porto.

Segundo um texto publicado no site, a BookCover Editora nasceu em 2017 e iniciou actividade com a publicação da obra “… da Descolonização” do general Pedro de Pezarat Correia. “Este livro, entretanto faz parte do Plano Nacional de Leitura, anunciava o programa editorial que se tem vindo a concretizar”, lê-se ainda. “Editora fundada no Porto, com distribuição própria, tem como objectivo principal a divulgação de autores portugueses, essencialmente investigadores de história de Portugal, património material e imaterial. Tem também nas suas edições duas colecções de grande fôlego, os Essenciais da Literatura Portuguesa e Estrangeira. Hoje, com mais de 150 títulos publicados, a BookCover Editora mantém o seu objectivo de editar obras de referência e apostar em novos autores portugueses e estrangeiros”, resume o texto que apresenta a editora portuense.
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Uirapuru, saci, cocada

Homem culto é aquele que, de tudo a que assiste aumenta, não os seus conhecimentos, mas o seu estado de alma. O erudito lê e fica sabendo; quanto mais lê, mais fica sabendo. O homem culto, em geral, quanto mais lê de menos fica certo. A segurança e a confiança são atributos finais da erudição — como o cepticismo e a hesitação apanágio extremo da cultura. Uma erudição de lombada, como dizem os parvos, serve de mais a um culto, que uma leitura de miolo a um erudito. Um título pode fazer colher mais de toda a obra — dado que a alma nasça ceifeira — do que a leitura de toda ela. Nós não temos homens cultos; temos eruditos apenas. Ou, antes, os homens cultos que temos são homens de génio, o que é de mais para um povo tão pequeno. [“Arquivo Pessoa“]

Maluquices das traduções de português… para português

Por Nuno Pacheco

‘« (…) E quando se quer traduzir português para português, o que acontece? Um bom (mau) exemplo foi ali dado pela leitura de passagens de um clássico da literatura brasileira para crianças, O Menino Maluquinho, de Ziraldo, editado pela Melhoramentos em 1980, comparando-o com a adaptação para a edição portuguesa da Dinapress, de Abril de 1995. (…)»’

Por uma vez sem exemplo, não foi utilizada a correcção automática antes de tirar esta “foto”. Daí aparecerem brasileiradas como “junho” e “redator”.

Não é novidade para ninguém que o português do Brasil é diferente do que se fala e escreve em Portugal. Ora, sendo antiga a convivência entre ambos, é também antigo o mau hábito de tentar adaptá-los, na escrita, quando há livros a cruzarem o Atlântico. Vem isto a propósito de uma colecção de contos infantis brasileiros de que já aqui se falou, publicada pela Tinta da China em colaboração com o Público (e em parceria com o Instituto Guimarães Rosa do Ministério das Relações Exteriores do Brasil e com a Fundação Calouste Gulbenkian), e que teve no passado domingo sessão de lançamento na Feira do Livro de Lisboa. Prestes a chegar ao quinto volume, que sairá esta sexta-feira (Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato), há-de ter mais cinco a partir de Setembro (como foi ali anunciado) e tem a particularidade de respeitar as edições originais, sem adaptações no texto. O que, se devia ser norma no que toca a obras literárias escritas em português (seja de que país for), é quase uma raridade. Que empobrece, em lugar de enriquecer, o conhecimento das variantes que se têm desenvolvido na língua portuguesa.

E quando se quer traduzir português para português, o que acontece? Um bom (mau) exemplo foi ali dado pela leitura de passagens de um clássico da literatura brasileira para crianças, O Menino Maluquinho, de Ziraldo, editado pela Melhoramentos em 1980, comparando-o com a adaptação para a edição portuguesa da Dinapress, de Abril de 1995. A leitura de tais passagens foi feita pelo diplomata brasileiro Gustavo de Sá (que trazia as duas edições) e pela directora e fundadora da Tinta da China Bárbara Bulhosa. Vale a pena recordar algumas, a começar pelo título, que passou de O Menino Maluquinho para As Maluquices do Menino Maluquinho (primeiro citamos a versão original e depois a adaptação portuguesa). BR: «Era uma vez um menino maluquinho»; PT: «Era uma vez um menino maluquinho, travesso até mais não». BR: «Pra uns, era um uirapuru – pra outros era um saci»; PT: «Para uns, era um rouxinol – para outros, um espantalho». BR: «Na turma em que ele andava, ele era o menorzinho, o mais espertinho, o mais bonitinho, o mais alegrinho, o mais maluquinho»; PT: «No grupo em que ele andava, era o minorca, o mais espertinho, o mais bonitinho, o mais porreirinho, o mais maluquinho».

BR: «Se ele perdia um caderno no colégio (e ele perdia um caderno todo dia) era fácil encontrar seu dono»; PT: «Na escola, se aparecia um caderno sem dono, era mais que certo que o dono era ele». BR: «Depois entrava o menino com seu pé de vento e a casa ventava, os quartos cantavam e tudo se enchia de som e alegria. E a cozinheira dizia: “Chegou o maluquinho”»; PT: «Depois lá vinha ele qual ventania e por toda a casa era uma corrente de ar de vida e alegria. E a cozinheira dizia: “Este menino parece maluquinho e põe-nos malucos!”» BR: «Ele deitava e rolava, pintava e bordava e se empanturrava de bolo e cocada. E ria com a boca cheia e dormia cansado no colo da vovó suspirando de alegria. E a vovó dizia: “Este meu neto é tão maluquinho!”»; PT: «Ele corria e rebolava, saltava e cabriolava e também se empanturrava de bolo e de laranjada. E ria com a boca cheia e dormia cansado no colo da avó suspirando de alegria. E a avó dizia: “Este meu neto é maluquinho de todo!”». BR: «E a torcida ria e gostava de ver a alegria daquele goleiro. E todos diziam: “Que goleiro maluquinho!”» PT: «E a claque ria e gostava de ver a alegria daquele guarda-redes. E todos diziam: “O guarda-redes é maluco de todo!”»

A adaptação foi feita, não por qualquer principiante, mas por um autor consagrado da literatura para crianças em Portugal, António Torrado (1939-2021). Esfumando-se a musicalidade do original. Faz isto qualquer sentido? Como soaria Drummond de Andrade aportuguesado? E Fernando Pessoa abrasileirado? Há termos que desconhecemos? Pois bem: conheçamo-los. Bastava ir ao dicionário de José Pedro Machado para saber que cocada é um doce de coco; que uirapuru é um «passarinho cujo canto magnífico, reboante na floresta, lhe dá prestígio e lenda, dizendo-se que todos os alados quando o ouvem se calam e vão, atraídos, escutá-lo»; e que saci não é espantalho mas sim uma «entidade fantástica, negrinho de uma só perna, que, segundo a crença popular, persegue os viandantes ou lhes arma ciladas no caminho; usa barrete vermelho e frequenta à noite os brejos; também lhe chamam saci-cererê, saci-pererê ou matim-pererê.» Pererê, por sinal o nome desta colecção. Não é já altura de nos lermos como escrevemos, sem “traduções” que só servem para aumentar a ignorância em relação às variantes do português para lá do nosso?

Artigo do jornalista português Nuno Pacheco, transcrito do Público do dia 14 de Junho de 2023. Escrito segundo a norma ortográfica de 1945.

in Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/autores/nuno-pacheco/27/pagina/1 [consultado em 16-06-2023]

[Transcrição integral da transcrição integral publicada no “site” hiper-acordista “Ciberdúvidas”.
Imagem da estátua de Pessoa de: “Genuine Portugal Tours“.]

  1. «E quando se quer traduzir português para português, o que acontece?»
    A pergunta é tão absurda quanto a resposta é impossível, dado tratar-se de mero expediente de retórica, uma espécie de contradictio in adiecto (ou contradição nos termos) utilizando para o efeito dois significantes iguais com significados diferentes: respectivamente (ou vice-versa): Português, um, e a língua brasileira, o outro.
  2. «o português do Brasil é diferente do que se fala e escreve em Portugal»
    A língua brasileira não é nem tem nada a ver com “português do Brasil”. Esta é uma expressão obsoleta em que apenas alguns persistem, provavelmente à falta de melhor “argumento” para continuarem a fingir que as duas línguas são uma só — a língua univérsáu brasileira.
  3. «o mau hábito de tentar adaptá-los, na escrita, quando há livros a cruzarem o Atlântico»
    Reduzir a questão aos “livros a cruzar[em] o Atlântico” parece circunscrever a dimensão da clivagem entre o Português e o brasileiro — essa sim, irreversível –, mas não passa disso mesmo: parece. Não só os livros mas tudo aquilo que atravessa o Atlântico é traduzido de Português para brasileiro. Traduzido, legendado ou até “dublado“.
  4. «a particularidade de respeitar as edições originais, sem adaptações no texto»
    A tradução de Português para brasileiro (de brasileiro português não há, decerto por falta de tradutores habilitados) não é “adaptação”, é tradução.
  5. «o conhecimento das variantes que se têm desenvolvido na língua portuguesa»
    O conceito de “variante”, em linguística, restringe-se a fonética (desvios ou variações em relação a ortoépia) e a léxico; não engloba, de forma alguma, nem a norma ortográfica nem, ainda menos, a sintaxe. Variantes da Língua Portuguesa são as de cada um dos PALOP. O brasileiro é uma língua originária do Português (e do Inglês, do Espanhol, do Italiano, das línguas indígenas locais), não é uma “variante” de coisa alguma.
  6. «Como soaria Drummond de Andrade aportuguesado? E Fernando Pessoa abrasileirado?»
    Soaria a… ridículo. Mas de um ridículo sem piada de espécie alguma. Aliás, é precisamente a esse tipo de pesadelo que estamos cada vez mais sujeitos, todos nós. “Abrasileirar” Fernando Pessoa — ou qualquer outro autor português — é uma impossibilidade técnica. Seria uma imbecilidade equivalente a “aportuguesar” em vez de traduzir, por exemplo, Balzac, Steinbeck, Kurosawa, Solzhenitsyn ou Cervantes.

[Nota 1: a cópia da cópia dos hiper-acordistas não permite transcrição dos “links” constantes das suas publicações; apenas é possível copiar e colar texto, sem hiperligações ou formatações. Evidentemente, quanto às formatações ainda vamos indo mas, quanto às hiper-ligações hiper-acordistas do “site” hiper-acordista, era só que mais faltava estar a copiá-los um por um. Quem quiser que vá lá.]

[Nota 2: o original publicado pelo jornal está, como aliás todos os conteúdos do “Público”, inacessível a não-assinantes.]

[Nota 3: o título deste post é um simples lembrete. São três palavrinhas da tradução para brasileiro citada no texto transcrito. Para não se me varrer da memória acrescentar aquilo ao Dicionário de Brasileiro-Português.]

10 de Junho, Dia de Portugal, de Camões e da Língua Portuguesa

Eis aqui, quási cume da cabeça
De Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa
E onde Febo repousa no Oceano.
Este quis o Céu justo que floreça
Nas armas contra o torpe Mauritano,
Deitando-o de si fora; e lá na ardente
África estar quieto o não consente.

Esta é a ditosa pátria minha amada,
À qual se o Céu me dá que eu sem perigo
Torne, com esta empresa já acabada,
Acabe-se esta luz ali comigo.
Esta foi Lusitânia, derivada
De Luso ou Lisa, que de Baco antigo
Filhos foram, parece, ou companheiros,
E nela antão os íncolas primeiros.

Desta o pastor nasceu que no seu nome
Se vê que de homem forte os feitos teve;
Cuja fama ninguém virá que dome,
Pois a grande de Roma não se atreve.
Esta, o Velho que os filhos próprios come,
Por decreto do Céu, ligeiro e leve,
Veio a fazer no mundo tanta parte,
Criando-a Reino ilustre; e foi destarte:

Um Rei, por nome Afonso, foi na Espanha,
Que fez aos Sarracenos tanta guerra,
Que, por armas sanguinas, força e manha,
A muitos fez perder a vida e a terra.
Voando deste Rei a fama estranha
Do Herculano Calpe à Cáspia Serra,
Muitos, pera na guerra esclarecer-se,
Vinham a ele e à morte oferecer-se.

Luís Vaz de Camões, “Os Lusíadas” (Canto III – estâncias 20 a 23)

Eu el-rei faço saber aos que este alvará virem que eu hei por bem e me praz dar licença a Luiz de Camões para que possa fazer imprimir, nesta cidade de Lisboa, uma obra em oitava rima chamada Os Lusiadas, que contém dez cantos perfeitos, na qual por ordem poética em versos se declaram os principais feitos dos portugueses nas partes da Índia depois que se descobriu a navegação para elas por mandado de el-rei D. Manuel, meu visavô, que santa glória haja, e isto com privilégio para que em tempo de dez annos, que se começarão do dia que se a dita obra acabar de imprimir em diante, se não possa imprimir nem vender em meus reinos e senhorios nem trazer a eles de fora, nem levar às ditas partes da Índia para se vender sem licença do dito Luiz de Camões ou da pessoa que para isso seu poder tiver, sob pena de quem o contrário fizer pagar cinquenta cruzados e perder os volumes que imprimir, ou vender, a metade para o dito Luiz de Camões, e a outra metade para quem os acusar. E antes de se a dita obra vender lhe será posto o preço na meza do despacho dos meus Desembargadores do paço, o qual se declará e porá impresso na primeira folha da dita obra para ser a todos notorio, e antes de se imprimir será vista e examinada na meza do conselho geral do santo oficio da Inquisição, para com sua licença se haver de imprimir, e se o dito Luiz de Camões tiver acrescentados mais alguns cantos, também se imprimirão havendo para isso licença do santo oficio, como acima é dito. E este meu alvará se imprimirá outrosim no princípio da dita obra, o qual hei por bem que valha e tenha força e vigor, como se fosse carta feita em meu nome, por mim assinada, e passada por minha Chancelaria, sem embargo da ordenação do segundo livro, titulo XX, que diz que as cousas cujo efeito houver de durar mais que um anno, passem por cartas, e passando por alvarás não valham. Gaspar de Seixas o fiz em Lisboa a 24 dias do mês de Setembro de MDLXXI.»

Os Lusíadas/Alvará Régio da Edição de 1572

Vi por mandado da santa & geral inquisição estes dez Cantos dos Lusiadas de Luis de Camões, dos valerosos feitos em armas que os Portugueses fizerão em Asia & Europa, e não achey nelles cousa algűa escandalosa nem contrária â fe & bõs custumes, somente me pareceo que era necessario aduertir os Lectores que o Autor pera encarecer a difficuldade da nauegação & entrada dos Portugueses na India, usa de hűa fição dos Deoses dos Gentios. E ainda que sancto Augustinho nas sas Retractações se retracte de ter chamado nos liuros que compos de Ordine, aas Musas Deosas. Toda via como isto he Poesia & fingimento, & o Autor como poeta, não pretende mais que ornar o estilo Poetico não tiuemos por inconueniente yr esta fabula dos Deoses na obra, conhecendoa por tal, & ficando sempre salua a verdade de nossa sancta fe, que todos os Deoses dos Gentios sam Demonios. E por isso me pareceo o liuro digno de se imprimir, & o Autor mostra nelle muito engenho & muita erudição nas sciencias humanas. Em fe do qual assiney aqui.Frei Bertholameu Ferreira.

Os Lusíadas/Parecer do censor do Santo Ofício na edição de 1572

Nota: procurei, confesso que de forma algo desesperada, um vídeo em que se pudesse ouvir uma leitura decente de alguma estância ou canto de “Os Lusíadas”. Miseravelmente, aliás como é costume quando se procura alguma coisa em Português na internet, só esbarrei em vídeos feitos por brasileiros, logo, falados em brasileiro. Este post vai assim mesmo, portanto, sem vídeo. Era só o que mais faltava, estar agora a levar com brasileiradas no Dia da Língua Portuguesa; já bastam os outros 364.

[Imagem de topo de: “Get Lisbon“.]