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‘Olâ genti conhecido’

Miguel Fernandes
A Dóci Papiaçam di Macau’s version of the patuá song written in patua by the late José “Adé” dos Santos Ferreira. Based on the original score “Lisboa é Assim”, composed by João Nobre

Do Brasil para Cabo Verde, Guiné e Macau: um estímulo à conversa em português

Começou como um perfil na rede social Instagram que desafiou a comunidade lusófona a participar num concurso de fotografia. Da iniciativa resultou um livro com as melhores imagens captadas. Da fotografia ao cinema documental foi um salto, com os responsáveis pelo projecto “Nossa Língua” a rumarem a terras longínquas. A mais recente foi Macau, onde uma equipa de filmagens esteve a rodar as primeiras cenas do segundo de quatro documentários previstos.

Existe na realidade uma língua comum nos países do designado universo lusófono? Estão estes povos a conversar entre si? A procura de uma resposta para estas perguntas levou os responsáveis pelo projecto “Nossa Língua”, sediado no Brasil, a Cabo Verde, Guiné Bissau e Portugal para a rodagem do primeiro filme de um movimento que pugna “pela conversa mundial em português”. No início do mês passado, uma equipa de filmagens associada ao projecto esteve no território para filmar as primeiras cenas do segundo de quatro documentários que tenciona produzir. O trabalho deverá ser lançado antes ainda do final deste ano. De Macau a equipa levou a vontade de poder regressar para recolher imagens que ficaram por capturar e conversar com pessoas que ficaram por entrevistar.

“Aquelas perguntas iniciais, aquela dúvida [sobre se] efectivamente falamos a mesma língua, acho que isso foi diluído. Efectivamente há uma conversa em português no mundo, mas eu acho que essa conversa tem de ser mais intensificada porque ela pode ser mais produtiva”, considerou Julio Silveira, editor e um dos rostos da iniciativa. Ultrapassada a dúvida inicial, criou-se espaço em Macau para explorar outros temas e abordar novas vertentes da língua de Camões. O também chefe de redacção do projecto “Nossa Língua” explicou que durante a estadia no território se interessou pela “história única de Macau” e pela questão do idioma: “Nós tentámos explorar a situação do português original, do patuá, no contexto da história de Macau. Tentámos entender como é que está a situação do antes e depois da transferência de soberania, [quando se] perde o estatuto da língua portuguesa, qual é o estatuto actual, quais são os interesses envolvidos do Governo de Pequim e das outras comunidades”, adiantou Julio Silveira ao PONTO FINAL.

Do outro lado do mundo, os pés banhados pelo Atlântico, vão entrevistar emigrantes da RAEM que se estabeleceram no Rio de Janeiro, para “propor um contraponto entre a situação de Macau” e de quem foi para o Brasil. A fórmula a adoptar no segundo filme será a mesma utilizada no primeiro, como explica o também co-director da série documental: “A gente tem um foco por episódio mas também continua fazendo conexões em outros países. No primeiro episódio nós focalizámos Cabo Verde mas nós pusemos em diálogo Cabo Verde, Portugal, Brasil e Guiné Bissau. No segundo episódio nós vamos ter a mesma fórmula, a gente vai ter o foco sobre Macau mas nós vamos pontuar com imagens do Brasil, África e Portugal”.

A incursão à RAEM no mês passado foi a primeira de Julio Silveira ao território, dois anos depois de também ter visitado Cabo Verde pela primeira vez. Ao comparar os dois locais, o argumentista considera que em Macau “é muito mais dramática a situação, é muito mais densa, tem uma história muito mais complicada”. Ao visitar o arquipélago da Morabeza há dois anos, um dos principais assuntos em discussão era a construção de um resort, questão que foi retomada no mês passado: “Quando eu cheguei a Macau, a primeira vez que eu peguei num jornal estava lá dizendo que tinha sido lançada a primeira pedra do casino e que quem estava fazendo era o David Chow”, recorda. “Isso é uma conversa entre Macau, na Ásia, e Cabo Verde, no meio do Atlântico. É uma conversa no campo da lusofonia e de vez em quando eu acho que o Brasil fica alheio a essa conversa. Nós não aproveitamos esse diálogo criativo e económico entre os países”, critica Silveira.

CRIOULO, O IDIOMA DA SAUDADE E DO POVO DESESPERADO

“O crioulo é uma maneira interessante e criativa de enrolar o português. As palavras saem apertadas, é como se estivesse tudo aglutinado, como se tivesse perdido algumas vogais” diz Shirley Broxado, uma das entrevistadas no primeiro episódio do “Nossa Língua”. “Para você pensar e entender o que eles [cabo-verdianos] estão dizendo precisa alma porque eu acho que o crioulo nasceu da alma desesperada do povo convivendo com o português que foi imposto a eles”, acrescenta ainda a astróloga brasileira.

No centro do primeiro episódio esteve o idioma de Cabo Verde por quem o fala e entende. Osiris Fernandes, um dos cabo-verdianos entrevistados, diz que, para ele, “a força da palavra saudade em crioulo é muito maior do que em português”: “A saudade que eu sinto enquanto cabo-verdiano que vê o mar e uma pessoa amiga e a família partindo. Esse tipo de saudade só dá no cabo-verdiano por causa da situação em que vive, num país insular, sem recursos e que sabe que em algum momento da sua vida você vai ter que perder alguém” defende Fernandes.

“É UM POUCO INGÉNUO TENTAR ESTABELECER UMA COISA QUE É VIVA E QUE ESTÁ MUDANDO TODO O DIA”

Falar da língua portuguesa é também falar do acordo ortográfico que Julio Silveira considera ser “um pouco autoritário no sentido de que ele quer enquadrar uma coisa que é viva e que está mudando o tempo todo”: “Eu acho ele um pouco desnecessário, meio burocrático e ele não vai contribuir para a comunicação entre os países. Eu leio livros publicados em Portugal, no Brasil, em Angola e há um certo nível de ruído, digamos ortográfico, mas o que é importante mesmo, que é a mensagem, o sentimento, as histórias, isso não precisa de ser regulado por terceiros”, defende o argumentista.

“Eu sou editor e lancei livros de Gonçalo M Tavares e eu tinha dificuldades de perceber o que estava escrito e meus revisores queriam mudar frases inteiras”, conta Silveira. “Então eu tinha a impressão que a língua já tinha derivado do português mas quando entrei nesse projecto eu vi que não é assim e que as questões ortográficas e até o vocabulário não são tão graves ao ponto de complicar a inteligibilidade da língua”, admite.

Eu acredito que existe uma mesma cultura lusófona, que ela é extremamente variada, que ela parte de várias línguas e idiomas, mas no fundo existe um traço comum, um legado que a gente leva – talvez não se dê conta de que leve mas ele existe – que a gente tem de recuperar, entender e aceitar como um património nosso”, conclui Julio Silveira.

CVN

Jornal “Ponto Final” (Macau), 05.07.17

“Alavancar”, disse ele

Fotografia: Eduardo Martins

Conselheiros das Comunidades Portuguesas alertam ministro para necessidade de divulgação da língua

Tiago Brandão Rodrigues esteve reunido com os conselheiros das comunidades portuguesas antes de realizar uma visita ao Instituto Português do Oriente. No IPOR, o Ministro da Educação de Portugal ouviu os alunos solicitarem a introdução de um grau de ensino da língua mais elevado.

Ponto Final (Macau), 14 Outubro 2016

João Santos Filipe

O Ministro da Educação do Governo de Lisboa, Tiago Brandão Rodrigues, esteve ontem à tarde reunido com os Conselheiros das Comunidades Portuguesas, que o alertaram para a necessidade de divulgar melhor a língua portuguesa no território e fazer pressão junto das autoridades locais para que o ensino do idioma seja introduzido nas escolas primárias públicas e privadas.

O encontro teve lugar no consulado, por volta das 17h00, estando presentes na reunião Rita Santos, Gilberto Camacho e Lídia Lourenço, além do ministro e do Cônsul, Vítor Sereno: “Falámos que é preciso sensibilizar o Governo da RAEM para ensinar a língua portuguesa na escola primária, não só nas escolas públicas mas também nas escolas privadas, para que as crianças aprendam o português mais cedo”, disse Rita Santos, ao PONTO FINAL.

“Também abordámos a necessidade da Escola Portuguesa de Macau ter mais interacção com as escolas chinesas e motivar as crianças a terem o desejo de aprender a língua portuguesa”, acrescentou.

Segundo a conselheira, as observações feitas pelos representantes das comunidades portuguesas foram bem acolhidas por Tiago Brandão Rodrigues, que prometeu o apoio do Governo de Lisboa nesse sentido: “Ele disse-nos que concorda com as nossas propostas e espera que através do Consulado-Geral, e em paralelo com o Governo de Portugal, se possa continuar a sensibilizar a sociedade para uma maior utilização da língua”, contou.

Após a reunião, o ministro fez uma visita às instalações do Instituto Português do Oriente, onde ouviu a opinião de alguns alunos sobre o ensino do idioma de Camões em Macau: “Vim presenciar o trabalho excelente que aqui se faz no ensino do português e ter oportunidade de conhecer a viva voz da direcção do IPOR, dos docentes e de falar com os estudantes. Também pude explicar-lhes como a língua portuguesa pode alavancar as oportunidades não só profissionais, mas também pessoais”, disse o governante.

Nesta visita, um aluno houve que interrogou o Ministro sobre a eventual introdução do nível de ensino C2 no IPOR, que é o mais elevado. Neste momento o IPOR apenas fornece o nível C1.

No entanto o director do IPOR, João Neves, explicou que esta possibilidade só poderá ser concretizada em parceria com uma universidade, isto porque o nível C2 é um grau académico: “O C2 é um curso que corresponde a um curso universitário. Nós não somos umas instituição de ensino superior portanto haveria alguma incongruência em fazê-lo. A nossa preocupação é ter um nível C1 bom e sólido para que os nossos formandos quando apresentam um diploma tenham as capacidades que correspondem aos certificados”, explicou João Neves.

Mesmo assim, o director do IPOR admitiu que caso alguma instituição do território esteja disposta a colaborar com o instituto, que este pode envolver-se num curso que forneça aos alunos o graus académica C2.

Source: “Ponto Final” – Conselheiros das Comunidades Portuguesas alertam ministro para necessidade de divulgação da língua, 14.10.16

Esta notícia foi transcrita no Português-padrão do original. Acrescentei um destaque e um “link”.

Mais negócios da China


Fórum Macau | Secretária-geral pede maior cooperação com sector privado

Por Andreia Sofia Silva6 Outubro, 2016

Em tempo de crise, China e Países Lusófonos limpam as armas. As dificuldades em fomentar o comércio também estão relacionadas com a fraca diversificação da oferta.

Macau está prestes a acolher a 5ª Conferência Ministerial do Fórum Macau (realiza-se entre os dias 11 e 12 de Outubro), mas os desafios económicos não vão ser esquecidos. Num ano os números do comércio bilateral baixaram dos 132 mil milhões de dólares americanos (dados de 2014), para apenas 9,8 mil milhões de dólares o ano passado. A Angola pediu apoio ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e nem sempre os números do comércio foram animadores. Contudo, em entrevista concedida ontem aos órgãos de comunicação social, os responsáveis do Fórum Macau mostraram-se optimistas quanto ao novo plano de acção a ser traçado em dois dias de reunião.

Segundo Xu Yingzhen, nova Secretária-Geral do organismo, será feita uma maior análise às potencialidades da política “Uma Faixa, Uma Rota”. “Vamos coordenar-nos melhor com a política e introduzir os conceitos para uma futura cooperação. Bilateralmente e unilateralmente vai ser discutida esta política”, explicou.

Apesar da existência de um Fundo de Cooperação e Desenvolvimento, Xu Yingzhen defendeu uma maior participação do sector privado. “Os créditos preferenciais poderão ser algo para promover a cooperação, mas esta depende do mercado e das instituições privadas. Notámos que há iniciativas do sector privado para participar na cooperação, não apenas do Banco de Desenvolvimento da China mas outros bancos e instituições financeiras. De uma forma mais sustentada há que haver maior participação do sector privado e não apenas do sector financeiro.”

A nova secretária-geral do Fórum Macau quer ainda que sejam destacadas as capacidades produtivas de cada país. “Talvez possamos usar o Brasil como uma ponte para entrar na América do Sul, Portugal para entrar na Europa e os [outros] países para entrar em África. Podemos pensar novas formas de cooperação mediante consultas.”

As dificuldades

O último plano de acção do Fórum Macau falava na meta dos 160 mil milhões de dólares americanos em trocas comerciais, valor que nunca foi atingido. Mas Xu Yingzhen mostra-se confiante para os próximos anos.

“O ambiente do comércio internacional está em baixo e os preços das mercadorias baixaram imenso. A redução do comércio entre a China e os PLP devem-se a essas razões. Mas tenho esperança que o comércio possa melhorar com uma melhoria do ambiente internacional e de facto existem muitas potencialidades para uma futura cooperação no âmbito comercial.”

Questionada sobre as consequências negativas que alguns cenários sócio-políticos podem trazer, tal como a crise política no Brasil ou o pedido de resgate de Angola, a secretária-geral optou por desvalorizar.

“Não creio que isso aconteça, porque existem sempre as necessidades de mercado. Há uma base muito sólida em termos de cooperação. As empresas chinesas têm os seus contactos muitos estáveis com os mercados dos PLP e assim que seja melhorado o ambiente do comércio internacional penso que o comércio bilateral possa voltar à sua tendência de crescimento.”

Yuan vai facilitar

Vicente de Jesus Manuel, secretário-geral adjunto, lembrou que a conjuntura actual dos países não é das melhores. “As trocas comerciais estão a cair 18 a 19% em relação aos anos anteriores, por isso uma das saídas para reverter a situação é diversificar a economia dos países de língua portuguesa, que são mais exportadores de matéria-prima não processada. Temos o processo de internacionalização do yuan, o que vai facilitar o investimento como também as trocas comerciais”, explicou. “No próximo plano de acção os países vão explorar os benefícios que podem ter em conjunto com a política ‘Uma Faixa, Uma Rota’, prevendo-se ainda a criação de um plano de acção em relação à capacidade produtiva. A expectativa é maior. As áreas antes acordadas serão reforçadas”, concluiu Vicente de Jesus Manuel.

As promessas que a China cumpriu

– Concedidos 1800 milhões de yuan como crédito preferencial para a zona económica especial e o Instituto Confúcio em Moçambique. Angola recebeu infra-estruturas e o Instituto Técnico-Profissional, bem como um centro de distribuição de energia. Timor-leste recebeu uma escola, enquanto que a Guiné-Bissau ganhou um novo centro de saúde

– Fundo de Cooperação e Desenvolvimento resultou em dois empréstimos, estando mais três projectos em fase de aprovação. Há 20 projectos por analisar

– Enviados 200 médicos, equipamentos e materiais para África. Angola, Moçambique e Guiné-Bissau foram os países mais beneficiados, sendo que só para este último foram canalizados 30 milhões de yuans para o combate ao Ébola

Nova secretária-geral é fluente em… espanhol

Xu Yingzhen, a nova secretária-geral do Fórum Macau, é fluente em Espanhol e não domina a Língua Portuguesa, idioma que serve de base à instituição que coordena e a toda a cooperação entre os países lusófonos e a China. Ainda assim, Xu Yingzhen garantiu que tal não traz quaisquer condicionantes ao seu trabalho. “Penso que não existem quaisquer obstáculos porque tenho uma comunicação fluida com os meus colegas. Todos os dias temos diálogo sobre o nosso trabalho e o Espanhol é muito parecido com o Português. É um desafio para mim, seria melhor que eu dominasse o Português com a maior brevidade possível. Ainda estou a aprender”, referiu.

Para Rita Santos, o facto da nova secretária-geral não falar Português não constitui qualquer problema. “Nesse aspecto não é importante, porque domina a língua oficial, o Chinês. É uma pessoa com capacidade de liderança e conexões com o Governo Central e organismo ligados a cooperações já delineadas”, disse ao HM. O HM tentou ainda obter outras reacções sobre o facto de Xu Yingzhen não dominar o Português, mas até ao fecho desta edição não foi possível.

Xu Yingzhen é licenciada em língua espanhola pela Universidade de Economia e Negócios Internacionais de Pequim, tendo entrado em 1989 para o Ministério do Comércio da China. A actual secretária-geral do Fórum Macau foi directora-geral adjunta do Gabinete para os Assuntos das Américas e Oceânia, com uma passagem pela Câmara do Comércio da China no Chile.

Source: Fórum Macau | Secretária-geral pede maior cooperação com sector privado | Hoje Macau

“Links” e destaques meus.

“Passarinhos quadrúpedes”

Erro do IACM choca residentes que falam português mas não é um caso isolado

O presidente do Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais pediu desculpa pela confusão cometida pelo organismo, que trocou no seu portal electrónico a língua portuguesa pela castelhana e promete investigar o caso. Para a comunidade local, o erro é inadmissível, mas não é um caso único e tem as raízes no tempo da Administração Portuguesa.

 

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“ponto final” (Macau), 09.09.16

João Santos Filipe

O Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais (IACM) publicou na sua página electrónica um postal em castelhano, desejando ao visitantes uma “Feliz Fiesta de la Luna”, quando pretendia utilizar o idioma português. O erro foi assumido pelo presidente do IACM, José Tavares que, através da página do PONTO FINAL na rede social Facebook, pediu desculpas pelo ocorrido. Segundo o mesmo foi ontem instaurado um processo para apurar as responsabilidades.

A atitude do presidente do IACM mereceu elogios na rede social, mas não faltou quem definisse o erro como “vergonhoso”. Também os membros da comunidade lusófona radicada no território, contactados pelo PONTO FINAL, se mostraram críticos com o caso: “Não tenho palavras para o erro… Aquilo nem é bem um erro, um erro seria ter uma letra trocada. Aquilo é simplesmente confundir uma língua com a outra… É imperdoável”, disse Fernando Gomes, antigo presidente do Conselho Permanente das Comunidades Portuguesas, médico e presidente da Associação dos Médicos dos Serviços de Saúde.

Para Rui Rocha, coordenador do Departamento de Português da Universidade Cidade de Macau, o caso ganha especial relevância por se tratar de um erro cometido pelo próprio Governo: “Fiquei espantado. Mesmo considerando eu o português uma língua subsidiária em relação ao chinês, esses erros não são admissíveis, principalmente na administração pública”, afirmou.

Contudo, erros ortográficos ou expressões incompreensíveis em português não são uma novidade no território. Quando Macau estava sob administração portuguesa estas falhas eram frequentes e ficou famoso caso de uma loja que em 1999, na Rotunda Carlos da Maia, anunciava no letreiro a comercialização de “Passarinhos Quadrúpedes”.

“Historicamente a língua portuguesa, mesmo na altura da Administração Portuguesa, tinha erros frequentemente. Bastava ler as tabuletas nas ruas. Pode haver a ideia que a língua portuguesa tinha um tratamento privilegiado até 1999 e isso deixou de acontecer. Mas não é verdade”, frisou Rui Rocha.

“É uma mera consequência do que a Administração Portuguesa deixou. Mas também mostra que nunca houve uma preocupação efectiva com o planeamento linguístico do português em Macau, que continua a não haver”, esclareceu.

Para Rui Rocha, a situação tem de ser resolvida com reformas ao nível do ensino básico e secundário, visto que o contacto com a língua portuguesa apenas no ensino superior não garante a proficiência necessária.

Fernando Gomes reconhece igualmente que estes erros existiam no tempo da Administração Portuguesa, porém diz que a exigência deve aumentar: “Apesar da falta, que é pública, de tradutores, o número que temos agora no Governo é superior em relação há dois, cinco anos ou mesmo no período antes da transição. É complicado justificar este erro quando se confunde uma língua com a outra. Mostra uma grande ignorância e estamos a falar de tradutores que têm uma boa carreira e um bom ordenado”, defende.

Fernando Gomes colocou ainda, em tom irónico, a possibilidade da tradução ter sido realizada por um “estafeta”, o que poderia justificar o acontecido. Mesmo assim, sublinhou que na rua há letreiros com erros visíveis e que estes são aprovados e inspeccionados pelo IACM.

Por sua vez, o presidente da Associação dos Macaense e da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses, Miguel de Senna Fernandes, definiu o incidente como “lamentável”. Porém o advogado acredita que se ficou a dever a uma falha por parte dos trabalhadores nos escalões mais baixos da hierarquia do IACM, que muitas vezes “não têm uma certa sensibilidade para uma língua que todos os dias ouvimos dizer que é importante para o território”.

No entanto, o advogado destaca que em relação aos primeiros anos após a transição há uma alteração no discurso oficial, que cada vez mais sublinha a importância da língua portuguesa. Uma tendência que Miguel de Senna Fernandes diz estar presente na Assembleia Legislativa, mesmo entre os deputados da comunidade chinesa.

Source: Erro do IACM choca residentes que falam português mas não é um caso isolado

Portugal e (C)PLP “vão ajudar” à internacionalização da moeda chinesa | Hoje Macau

Renminbi? República Popular da China? Plano quinquenal do Governo chinês?

Mas o que diabo, perguntareis, têm estas chinesices a ver com o AO90 ou com a malaquenha “língua universal”?

Ora, que diabo, vejamos então o que têm as chinesices a ver com as idiotices.

Pistas.

É certo que, por algum insondável mistério, nesta notícia foi escamoteada a letra “C” da sigla “CPLP”; ficou só “PLP”, o que, convenhamos, até é engraçado. Mas o “espírito” da coisa está lá, é uma pista infalível, a CPLP está para o dinheiro assim como o dinheiro está para a CPLP.

Outra pista é Macau. Se bem que honrosamente resista ainda e sempre à invasão acordista, trata-se de uma zona “especial” que faz parte da República Popular da China. Portanto, aquele microscópico território pouco ou nada poderá piar quanto aos interesses do gigante chinês.

Mais uma pista: FMI. Vá lá, só mais uma: BES (“Novo Banco”). Pronto, está bem, ainda outra pista e depois acabou-se: basta contar o número de destaques a “bold”, ou seja, a quantidade de vezes em que se repete a relação de causa e efeito entre os interesses chineses e a CPLP.

Ora, a CPLP é uma central de negócios e o AO90 é a máscara da CPLP; logo, o AO90 é a máscara dos negócios da CPLP.


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Renminbi | Portugal e PLP “vão ajudar” à internacionalização da moeda chinesa

Por Joana Freitas – 7 Setembro, 2016

A criação do sistema de liquidação imediata do renminbi foi o primeiro passo para a internacionalização da moeda chinesa e a utilização de Portugal e dos Países de Língua Portuguesa como via para esse objectivo é o segundo passo. A menos de um mês do renminbi entrar no FMI, a comunicação do presidente da AMCM em Lisboa incidiu sobre aquilo que é uma das formas de abertura da China ao mercado internacional.

Já foi concluído no primeiro semestre o sistema de liquidação imediata de renminbi e agora o próximo passo é que os Países de Língua Portuguesa sirvam como meio para a internacionalização da moeda chinesa. É o que explica o presidente da Autoridade Monetária de Macau (AMCM) que relembrou, num seminário em Portugal, que o renminbi vai fazer parte do Fundo Monetário Internacional (FMI) (ver texto secundário).

O organismo dirigido por Anselmo Teng frisa no seu relatório anual de 2015 que estavam em marcha os trabalhos para a construção do sistema de liquidação imediata em tempo real em renminbi de Macau, sistema que foi concluído dentro do calendário previsto, no primeiro semestre deste ano, em Março. Numa resposta mais detalhada ao HM, a AMCM explica que o sistema serviu para facilitar também os negócios entre o território e os países de expressão lusa, de uma forma que veio ajudar Macau a firmar-se ainda mais como plataforma.

“Através da ligação com o China National Automatic Payment System (CNAPS), [este sistema] concretizou as facilidades de serviços de liquidação transfronteiriços em renminbi, alargando os meios de movimentação bilateral [da moeda]. Paralelamente, reforçou a ligação económica e comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa e elevou o papel de Macau como plataforma de serviços financeiros entre a China e [esses países], para consolidar as bases futuras”, indica o organismo numa resposta ao HM.

No seminário onde esteve presente, em Portugal, o presidente da AMCM reiterou esta ideia. É o próprio continente quem quer usar não só os Países de Língua Portuguesa, mas também Portugal como meio para a internacionalização da sua moeda, sendo este um dos objectivos estratégicos do Governo Central.

“A adesão formal, a partir do dia 1 do próximo mês, do renmimbi aos direitos de saque especiais do Fundo Monetário Internacional simbolizará um importante marco no caminho da internacionalização [da moeda]. Com o avanço contínuo desta etapa, estamos crentes de que o renminbi será cada vez mais procurado no mercado internacional e será uma moeda de ampla utilização (…)”, disse Anselmo Teng, no seminário”Serviços financeiros, estímulo e cooperação entre a China e os Países de Língua Portuguesa, com a RAEM como plataforma”, que contou com a Caixa Geral de Depósitos na organização.

“Com base no volume de importações e exportações entre a China e os países de língua portuguesa, ascendendo a 98,5 biliões de dólares em 2015 (…), pode-se verificar que o espaço de desenvolvimento associado ao uso transfronteiriço do renminbi nas relações comerciais a desenvolver pela China e pelos Países de Língua Portuguesa será muito amplo”, frisou ainda.

Foco das atenções

Na resposta ao HM, a AMCM relembra que as Linhas de Acção Governativa sempre tiveram como objectivo “reforçar a plataforma de serviços comerciais entre a China e os Países de Língua Portuguesa, promover a cooperação com os serviços financeiros regionais, manter em geral o desenvolvimento estável da economia e aperfeiçoar continuamente as infra-estruturas financeiras de Macau”. Algo que está constantemente a ser falado, mas que ocupa, agora, um lugar mais elevado devido ao 13.º Plano Quinquenal do Governo chinês. Plano que tem, entre os seus objectivos, abrir o mercado de capitais do país e desenvolver a moeda chinesa, pelo que as várias autoridades do país estão a reforçar as relações com o exterior nesse sentido.

Também o director-geral do Shanghai Municipal Financial Services Office, Zheng Yang, salientou em Lisboa a necessidade de reforçar as relações comerciais entre o mercado português e a China, considerando que “Portugal é o mais importante parceiro de negócios da China na União Europeia”, enquanto a “China é o décimo maior mercado das exportações e o sétimo maior mercado das importações de Portugal”. Zheng Yang defendeu que é altura de haver uma melhoria na “cooperação em serviços financeiros entre Xangai, Macau e Lisboa”. Xangai é um dos mais importantes centro de negócios e financeiro do continente.

Também o responsável pela representação em Lisboa do Bank of China, Xiao Qi, afirmou que o banco está muito envolvido na internacionalização da moeda chinesa e oferece uma série de produtos e serviços em renmimbi nos 50 países e regiões em que está presente, incluindo em Portugal.

Actualmente, o sistema de liquidação imediata em tempo real em renminbi de Macau tem 28 instituições financeiras. Presta serviços de liquidação aos clientes dos bancos, no âmbito dos câmbios da moeda chinesa e de transferências de fundos nessa moeda entre os bancos. Para a AMCM, o funcionamento do sistema traz também um aperfeiçoamento das infra-estruturas financeiras de Macau.

“Não só beneficia a gestão do risco de liquidação em renminbi e eleva a eficácia da liquidação, como também promove o aprofundamento da cooperação financeira regional”, reforça a AMCM.

O sistema demorou 15 meses para entrar em vigor, depois de testes e ensaios virtuais. Avaliações concretas sobre o sistema não as há, mas a AMCM assegura que este está “a funcionar estável e fluentemente”.

O seminário em Lisboa contou com a presença de um membro da nova administração da Caixa Geral de Depósitos, Emídio Pinheiro, que frisou que o banco público quer ajudar nas ligações comerciais entre Portugal e a segunda maior economia do mundo.

(mais…)

«Em Goa algo de novo!» [Renato Epifânio, “Público”]

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Em Goa algo de novo!

Renato Epifânio
8 Agosto 2016

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Segundo o noticiado pelo jornal Indian Express, o líder do partido da oposição indiana, Pratapsinh Rane, exige que as escolas de Goa não ignorem a importância da língua portuguesa, sugerindo que o português seja a segunda língua de ensino daquele estado indiano: “Não devemos ter problema nenhum com esta língua. Eu aprendi português porque os nossos próprios documentos estão na língua portuguesa”, disse Rane, em pleno debate no Congresso, acrescentando que “os partidos têm discutido este assunto há mais de quatro anos e meio” e que “devem dar uma conclusão a esta questão”. “Sem dúvida, o português deveria ser a segunda língua que os estudantes se propõem a aprender nas escolas goesas. Se uma pessoa quiser conhecer a história deste estado, deveria conhecer esta língua”, conclui o líder da oposição.

Ainda segundo a notícia, que teve entretanto algum eco em Portugal: “A língua é um problema indiano: em mais de 28 Estados, que albergam mais de mil milhões de pessoas, há cerca de 400 idiomas e dialectos. Os dois únicos idiomas oficiais, reconhecidos pela administração federal, são o Híndi e o Inglês. O português, apesar de não ser uma língua oficial naquele país, é falado por cerca de cinco milhões de pessoas, designadamente habitantes de Goa, Damão, Diu e em algumas cidades de Guzerate. De momento, no que toca à língua, há grandes conflitos no congresso indiano: uns querem o konkani, a língua materna indiana, e outros querem o inglês. O português ainda é falado em muitas casas goesas, visto que Goa esteve sob o domínio colonial por mais de 450 anos”.

Caso para dizer: finalmente, em Goa algo de novo! Já por diversas vezes antecipámos que, mais cedo ou mais tarde, a Índia irá ter em relação a Goa a lucidez e a inteligência que a China tem tido em relação a Macau – conforme tem sido salientado por algumas pessoas (como o Professor Adriano Moreira), a China tem apostado em Macau e na língua portuguesa como uma ponte para todo o mundo, desde logo para o mundo lusófono. A Índia dá agora sinais de querer fazer o mesmo. Já era tempo: apesar de, segundo o Direito Internacional, ter sido de facto uma invasão o que ocorreu em 1961, ninguém em Portugal, no século XXI, irá reclamar aquele território. Apostem, pois, amigos indianos, sem quaisquer fantasmas (neo-)coloniais, na língua portuguesa. Não para agradar a Portugal. Apenas – razão suficiente – porque essa aposta vos será benéfica: quer para conhecerem mais o vosso passado, quer, sobretudo, para terem um melhor futuro neste mundo cada vez mais globalizado.

Presidente do MIL: Movimento Internacional Lusófono

www.movimentolusofono.org

[“Público”, 08.08.16. Acrescentei “links”.]

Imagem: By Thommy – Own work, based on Flags of the World – Flags of portuguese colonies, Coat of arms of Portuguese India (1951-1974).svg, Blason of Goa (ancient).svg and Índia portuguesa.PNG., Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=5741262