Etiqueta: Madeira

Odiar pelos dois

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Novembro 1999

Caetano Veloso acha que “a colonização portuguesa foi a pior coisa” que alguém pode imaginar. Em entrevista ao jornal português “Expresso”, concedida na semana passada, em Londres, o cantor e compositor disse que os portugueses só foram ao Brasil, “lugar que não lhes interessava nada”, para “sugar, sugar, sugar o que fosse possível e matar os índios”.
No entender do compositor, a colonização do Brasil por Portugal “foi o oposto dos EUA, para onde alguns ingleses foram para criar um país melhor”.
“Bom, os ingleses são melhores a matar índio e a discriminar preto do que os portugueses. Porém, os ingleses criaram na América uma sociedade nova, melhor e mais justa”, disse.»

“Folha de S. Paulo”, 17.11.99


Agosto 2012

(…)
E deixe os Portugais morrerem à míngua
Minha pátria é minha língua
Fala Mangueira! Fala!
Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?(…)Letra: Língua – Caetano Veloso

CaetanoVelosoVEVO, 13.08.12

 


Maio 2018

Imagem de topo: recorte de original © RegionalPress/DR publicado no “JM Madeira”

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Onde se lê “mirandês” leia-se “Português”…

 

Portugal pode assinar a Carta Europeia de Línguas Minoritárias

Agência Lusa /15 Dez 2017 / 22:00 H

 

A presidente do Comité de Peritos para as Línguas Minoritárias defendeu esta sexta-feira, em Miranda do Douro, no distrito de Bragança, que Portugal reúne as condições necessárias para a assinatura da Carta Europeia de Línguas Minoritárias (CELM).

A croata Vesna Crnic-Grotic falava no encerramento do Encontro Europeu das Línguas Minoritárias, que reuniu naquela cidade transmontana representantes do Conselho da Europa e do Governo português, para uma avaliação das línguas minoritárias em Portugal, trabalhos que hoje terminaram.

“Agora, a responsabilidade da assinatura da CELM, está do lado do Governo português. Portugal já cumpre grande parte dos 35 requisitos exigidos no diploma, já que o mirandês é ainda uma língua falada e ensinada em diversos escalões etários e tem o apoio das autoridades locais e organizações não-governamentais”, indicou a responsável pelo colégio de peritos europeus em línguas minoritárias.

Há 35 princípios mínimos que cada signatário do documento terá de cumprir na área da educação, administração local, justiça, média, vida económica, relações transfronteiriças e cooperação institucional.

Segundo os peritos, a CELM é um tratado internacional do Conselho da Europa que “define boas práticas para o enquadramento legal e institucional de línguas minoritárias, como é o caso, em Portugal, da língua mirandesa”.

“O Governo só terá de assinar a CELM e depois ser ratificada pela Assembleia da República, para tornar o ato oficial no espaço europeu”, frisou a perita.

O secretário executivo da CELM, junto do Conselho da Europa, Sixto Molina, disse que o primeiro passo foi dado com a reunião de representantes do município de Miranda do Douro e do Governo português para verificar se todos os requisitos impostos no diploma poderão ser cumpridos por ambos os intervenientes, junto das entidades europeias, nesta área.

“Não vejo obstáculos para que a carta não seja assinada. Agora, é preciso dar passos em frente, já que estamos a atravessar um momento histórico, tudo porque a CELM assinala 20 anos sobre a constituição, e a língua mirandesa celebra, igualmente, 20 anos sobre a sua oficialização”, enfatizou o responsável.

Para o presidente da Câmara de Miranda do Douro, Artur Nunes, estão presentes a principais razões para que Portugal possa assinar a CELM.

“Estão reunidas as condições para propor ao Ministério dos Negócios Estrageiros, a assinatura deste diploma europeu, já que há um compromisso de todas as partes envolvidas neste processo, para que o documento seja apresentado em Conselho de Ministros”, indicou o autarca.

Segundos os representantes da Associação de Língua e Cultura Mirandesa (ALCM), foram avaliados os 35 pontos da CELM com que Portugal tem de se comprometer.

“Agora serão feitos alguns acertos no documento final, se assim for necessário. Ao mesmo tempo, quisemos que os próprios peritos europeus tomassem um contacto directo com a língua mirandesa”, concluiu o linguista e membro da ALCM, José Pedro Ferreira.

Apesar do reconhecimento oficial através de lei, em 1999, o mirandês continua “a não ter um enquadramento institucional adequado”, apontam os linguistas que se dedicam ao estudo desta língua.

Dos 47 estados membros da União Europeia, 22 não assinaram a CELM, não sendo “obrigatório” este acto.

[Artigo da agência “Lusa” (brasileira “adotiva”) publicado pelo “Diário de Notícias” da Madeira em 15.12.17. Imagem de topo de: Biblioteca Brasiliana.]

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«Da língua como instrumento» [Raul Ribeiro, “DN – Madeira”]

genesis_dnoticias_logoDiário de Notícias (Madeira)

Da língua como instrumento

Raul Ribeiro

No século XIX, o “vitorianismo” surgiu como repressão de tudo o que pudesse perturbar a ordem vigente. Pela primeira vez, o Homem passou a ser o polícia de si próprio e, enquanto unidade viva de pressão social, também do seu vizinho. O moralismo daí decorrente concentrou-se na sexualidade – o mais forte e básico dos instintos. Cerceou-se a libido ocultando o máximo possível de corpo e afastando os pensamentos perversos e pecaminosos. Foi a partir deste período que a mulher passou à condição de frágil e recatada “fada do lar”, etérea e sagrada, ignorante de algumas facetas relevantes da vida, por oposição ao rude macho, desprovido de emoções e em estado de excitação permanente.

Já o Politicamente Correcto (PC) despontou nos EUA, país tão generoso na defesa dos direitos humanos quanto atávico nos preconceitos. Começou por ser grito de revolta de grupos sociais marginalizados, após séculos de opressão e humilhação, veiculando também a intenção adicional de alterar o vocabulário, para evitar ofender ou desconsiderar os indivíduos pertencentes a esses grupos.

Ao que isto chegou, em pleno século XXI, é que nem a Rainha Vitória se lembraria…

Tudo se move em torno do PC: há ONGs que, na ânsia de produzir textos limpos de impurezas que firam susceptibilidades, adoptam um dialecto praticamente ininteligível; há universidades que publicam manuais de PC, para além de promoverem uma efectiva repressão ao “insulto”, nas suas várias vertentes: raciais, religiosas, sexuais, etc.; há discursos que se enrolam em “senhoras e senhores, amigas e amigos, portuguesas e portugueses”, arrastando-se de forma irrazoável; há um acordo ortográfico que, de tanto genuflectir aos critérios do PC, nos deixou pasmados a olhar para os “tetos”; há textos pejados de embirrentas arrob@s, que saltitam por tod@s as palavras às quais é possível dar um sentido duplo, despido de género. Ler um texto assim é um@ bo@ merd@…

Em termos de conceito filosófico, tornar a linguagem neutra em termos de discriminação irá inevitavelmente conduzir a uma sociedade mais igualitária e inclusiva.

Levando este “statement” ao limite, o humor será então uma manifestação politicamente incorrecta, por externalizar os preconceitos sociais, ridicularizando os oprimidos e ignorando os opressores. Há todo um legado – que vai de Platão a Hobbes – a sustentar a tese de que o riso advém da percepção de superioridade, por isso é agressivo e humilhante, de pouco valendo posições contrárias de ilustres como Kant, Schopenhauer e Tomás de Aquino. E assim se explica o motivo de haver tão bons humoristas de direita, e um tão rarefeito sentido de humor à esquerda (que não se pode dizer em italiano – sinistra – porque é pejorativo).

Construir a sociedade ideal através da língua, eis o supremo desiderato. A língua como instrumento de igualdade!

Cabe tudo e vale tudo, desde a penalização do piropo às questões fracturantes de género, como a Cidadania dos Cartões. Paulatinamente, todas as pessoas com algum tipo de característica diferenciadora, passaram a ser portadoras de algo: de deficiência auditiva, visual, motora, de desconformidade do aparelho fonético, sendo ainda apelidadas, de forma estupidamente lírica, de “pessoas especiais”.

É um suplício memorizar as opções de género, consoante a pilinha entra ou sai, fica ou vai, ou simplesmente não é para ali chamada: homo, bi, tra, trans, cis, poli, para além dos indivíduos portadores de preconceito na orientação sexual, também chamados hetero.

Em breve lidaremos com pérolas como o portador de enfermidade crónica associada ao consumo de álcool (bêbedo), portador de extremismo e explosivos (terrorista), portador de fadiga crónica com contrato vitalício (funcionário de repartição pública), e claro, o descendente de cidadã portadora de profissão liberal de disponibilização de actividade sexual através da utilização do próprio corpo e mediante retribuição financeira, o inevitável FdaP…

Entretanto, o jovem portador de subnutrição vai mesmo morrer de fome…

Deixem a língua em paz, ou melhor dêem-lhe melhor uso, seja em intercâmbio de cultura ou de saliva, como adorno de fellatio ou como instrumento dum competente cunilingus…

Se é assim tão complicado obter uma igualdade satisfatória, ao menos que os orgasmos o sejam…

[Texto da autoria de Raul Ribeiro publicado no  Diário de Notícias (Madeira) em 15.09.16.]

 

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«Réu condenado a pena suspensa» [Duarte Afonso, “JM Madeira”]

JM_logoRéu condenado a pena suspensa

 

É frequente lermos títulos de notícias do seguinte teor:
“Réu condenado a pena suspensa”.

Só depois de lermos a notícia, ou parte, é que ficamos a saber a realidade da mesma.

Se um réu for condenado a 2 anos de prisão e a pena ficar suspensa não a cumpre, a não ser que cometa algum delito na vigência da mesma. A pena suspensa é um alívio, uma oportunidade para o réu e não uma condenação. Ninguém é condenado a pena suspensa, mas sim a prisão ou multa.

Antes do Acordo Ortográfico não se escreviam disparates como estes. Agora é normal. Isto é o português moderno fruto do Acordo, que permite escrever de qualquer maneira em nome da unificação ortográfica.

A palavra Pára (verbo) deixou de ter acento e não se distingue da (preposição) Para. Mas, a palavra Pôr (verbo) mantém obrigatoriamente acento para se distinguir da (preposição) Por. (Base VIII, 3).

Vejamos um pequeno exemplo sem o Acordo: “Onde Pára e Para onde vai o dinheiro?”

Com o Acordo: “Onde Para e Para onde vai o dinheiro.” Neste exemplo não se distingue o verbo da preposição.

A finalidade do Acordo era unificar a ortografia; mas, os seus autores introduziram no mesmo a dupla grafia, casos de “ facto e fato, dicção e dição, ceptro e cetro, corrupto e corruto, subtil e sutil, recepção e receção etc. (Base IV).

A dupla grafia não une, afasta. A consagração da grafia dupla reflecte a impossibilidade efectiva e incontornável de unificação. Os autores do Acordo deviam saber isso e reflectir nestes disparates.

Vejamos um exemplo de unificação. Um aluno pode escrever o seguinte: “De facto o espectador que estava na recepção do sumptuoso hotel era corrupto”.

No mesmo texto o colega ao lado pode escrever: “De fato o espetador que estava na receção do suntuoso hotel era corruto”.

Antes do Acordo escrevia-se só de uma forma. Agora escreve-se de várias para unificar a nossa língua.

Face ao mesmo, cor-de-rosa tem hífen, mas cor-de-vinho não tem. Fim-de semana deixou de ter. Mas, cor-de-rosa e arco-da-velha mantêm o hífen com o argumento de serem consagrados pelo uso. (Base XV, 6).

Fim-de-semana não é consagrado pelo uso? Como é que chegaram a esta ignorante conclusão? Com moeda ao ar?

[Duarte Afonso, “Réu condenado a pena suspensa”, JM Madeira, 28.11.15. Acrescentei “links”.]

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História de uma Acta | Jornal da Madeira

História de uma Acta

Artigo | Qui, 30/07/2015 – 03:42 |

Por Duarte Afonso

 

O Acordo Ortográfico não entrou em vigor em 1994 conforme estava estipulado por não ter sido ratificado por todos os países de língua oficial portuguesa.

Em 2004 na V conferência dos Países da CPLP realizada em 26 e 27 de Julho, em São Tomé e Príncipe, adoptaram um Segundo Protocolo Modificativo que alterou o art.º 3.º do Acordo para que o mesmo pudesse entrar em vigor só com o terceiro depósito de instrumento de ratificação.

Se o Acordo era tão importante para a “unidade essencial da língua portuguesa e para o seu prestígio internacional”, como afirmam os seus autores, porque é que não conseguiram que todos os países intervenientes ratificassem o Acordo? Porque é que foi preciso alterar o art.º 3.º do aludido Acordo?

Angola e Moçambique ainda não o ratificaram. Uma notícia do Expresso do dia 23 de Junho do ano corrente é bem explícita a esse respeito, da qual, com a devida vénia passo a citar duas passagens:
“Exigências de Angola e Moçambique sobre o Acordo Ortográfico (AO) obrigaram à alteração da ata final da XIV Conferência dos Ministros da Justiça da CPLP, em Díli, para incluir, ao longo de todo o texto, as duas grafias.
Esta foi a solução encontrada depois de um debate que incluiu referências múltiplas à “língua de Camões” e até a análise etimológica da palavra “ata”, que o representante da Guiné-Bissau disse poder suscitar uma interpretação alternativa” de atar pessoas”.

Estes factos além de tantos outros demonstram que o Acordo é ilegal, e o 2.º Protocolo Modificativo não tem valor. Se tivesse e estivesse dentro da legalidade a Acta era assinada por todos os países intervenientes em conformidade com o dito Acordo e não com duas grafias, Acta e “Ata”.

Angola e Moçambique tinham e têm razão porque naqueles países o Acordo não foi ratificado, escrevem o português correcto e não o acordês que é a trapalhada que se escreve em Portugal. Por isso os seus representantes exigiram a grafia que se escreve nos seus países e não abdicaram da palavra Acta, com (C).

Estes factos e não fatos são uma lição para Portugal. No nosso país os governantes com o beneplácito do Presidente da República impuseram um Acordo Ortográfico, ilegal, inconstitucional, cheio de erros grosseiros e disparates escandalosos. Na Conferência de Díli o representante de Portugal não foi capaz de impor no estrangeiro o que os governantes impõem em Portugal, o que significa que o Acordo é uma mentira.

Angola e Moçambique não alinharam na ilegalidade, e por isso defenderam a nossa língua, a língua de Camões, porque também lhes pertence, porque a estimam e respeitam.

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«O AO90 e a idosa que apostrofou o astrólogo» [Duarte Afonso, Jornal da Madeira]

O Acordo Ortográfico e a idosa que apostrofou o astrólogo

Artigo | | Por Duarte Afonso

 

Em 2005 um Parecer solicitado pelo Instituto Camões à Associação Portuguesa de Linguística relacionado com o acordo ortográfico recomendava “a suspensão imediata do processo em curso, e a manter-se o texto actual do Acordo, Portugal não ratifique o Segundo Protocolo Modificativo”. Qual foi o resultado dessa recomendação? Nenhum!

No dia 8 de Abril de 2009, na Comissão de Ética Sociedade e Cultura da Assembleia da República foi votada uma petição subscrita por 32.000 cidadãos em defesa da nossa língua, chamando a atenção para os malefícios do acordo. O veredicto deu razão aos peticionários.

Qual foi o efeito prático dessa petição? Zero!

De todo o País têm-se levantado imensas vozes alertar para a inutilidade do acordo e para a destruição que está a causar à nossa língua, mas esses alertas têm ido direitos para as gavetas do silêncio dos nossos governantes, anteriores e actuais, e para a do Presidente da República.

O próprio acordo contradiz-se na sua designação, porque nem é acordo e só passará a sê-lo quando for ratificado por todos os países de língua oficial portuguesa. Angola não o ratificou nem vai ratificar como está. Isto significa que o chamado acordo ortográfico é uma mentira.

O acordo impõe um vocabulário ortográfico comum a todos os países signatários. Esse vocabulário é o único válido para esses países mas ainda não foi elaborado. Mesmo sem essa exigência cumprida o acordo já está em vigor no nosso país. Porquê? E para quê tanta pressa?

A finalidade do acordo era unificar a ortografia. Os seus autores até escreveram na nota explicativa o seguinte: “optou-se por fixar a dupla acentuação gráfica como a solução menos onerosa para a unificação ortográfica da língua portuguesa.” (5.2.4).
Esta “não lembrava ao diabo”. Com esta pérola literária os autores do acordo dão uma excelente lição como se escreve bom português, e demonstram claramente o que é a iliteracia. Escreveram o contrário do que defendem. Escreveram uma coisa e interpretaram outra. A dupla grafia não une, afasta, que é bem diferente. A consagração da grafia dupla reflecte a impossibilidade efectiva e incontornável de unificação.

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