Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: Moçambique

“Dinheiro vivo”

O “despacho” da agência Brasilusa que agora se reproduz tem tudo a ver com o artigo de opinião anterior. Basta ler aquele e depois este, de enfiada, e facílimo se torna concluir que estamos perante uma espécie de jogo de espelhos: o que um constata com amargura (o Brasil está a aniquilar as ancestrais relações culturais e linguísticas entre Portugal e os PALOP) o outro apresenta em triunfo como sendo uma “conquista” da organização brasileira CPLP mai-lo seu “império global”.

Mais uma alegre trupe de maluquinhos, está bem de ver; até metem Donald Trump ao barulho, qual verdadeiro artista que abrilhantará a festa. Tal é o desplante deste grupo excursionista especializado em “turismo linguístico” cujos membros, a expensas de alguns tugas deslumbrados, percorrem as estâncias de veraneio, os casinos e outros tipos de estabelecimentos de acesso VIP (“é favor usar gravata e não usar as mangas para assoar-se, seu labrego“) levando o samba, o fio dental e a aguardente de cana aos confins do mundo.

Uma espécie de Novas Descobertas pós-modernistas, sem caravelas nem padrões mas com imensa batucada e imensos gajos do futchibóu.

Lisboa, 11/7/2018 - Maria do Carmo Silveira posa na sede da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) de que é secretária executiva. Política são-tomense, foi primeira-ministra de São Tomé e Príncipe e chega em breve ao fim do seu mandato de dois anos à frente da CPLP. (Reinaldo Rodrigues/Global Imagens)

Lisboa, 11/7/2018 – Maria do Carmo Silveira posa na sede da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) de que é secretária executiva. Política são-tomense, foi primeira-ministra de São Tomé e Príncipe e chega em breve ao fim do seu mandato de dois anos à frente da CPLP. (Reinaldo Rodrigues/Global Imagens)

https://www.dinheirovivo.pt/wp-content/themes/dv-theme/library/images/logo.png

Líderes da CPLP reúnem-se para debater liderança global

Os líderes dos países de língua oficial portuguesa reúnem-se esta terça-feira depois do debate Geral da 73.ª Assembleia-Geral da ONU, em Nova Iorque.
Os líderes de Portugal e dos Países de Língua Portuguesa reúnem-se esta terça-feira em Nova Iorque, depois das intervenções de abertura do Debate Geral da 73.ª Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). O debate vai ser inaugurado esta terça-feira pelas 09:00 em Nova Iorque (14:00 em Lisboa) com a intervenção do Presidente do Brasil, Michel Temer. O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, também vai fazer uma intervenção na abertura do Debate Geral, seguido pelo Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, da França, Emmanuel Macron e do Irão, Hassan Rouhani, entre outros. À tarde, na continuação dos trabalhos, falará o Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, que segundo um comunicado da presidência moçambicana, vai apresentar o compromisso do país com a consolidação da paz e reconciliação nacional. O debate geral deste ano tem como tema: “Tornar a ONU relevante para todos: Liderança global e responsabilidade partilhada para sociedades pacíficas, equitativas e sustentáveis”. A reunião informal dos chefes de Estado e de governo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), tem início às 16:00 locais, 21:00 em Lisboa, com uma duração esperada de duas horas e meia. Vão estar presentes o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, ao lado dos representantes lusófonos. A reunião é promovida por Cabo Verde, país que assume a presidência temporária da CPLP. Hoje, o Presidente da República português participa também num evento de alto-nível sobre acção para a manutenção de paz. O ministro dos Negócios Estrangeiros participa num evento da ONU sobre a pena de morte e noutro sobre o combate à poluição provocada pelo plástico. O dia termina com o Jantar Transatlântico, promovido pelo Departamento de Estado norte-americano. O Presidente do Brasil participa também numa reunião de chefes de Estado dos países do Mercado Comum do Sul, mais conhecido como Mercosul, às 11:00 horas locais. Também hoje, realiza-se na ONU uma Reunião Ministerial do G4, com representantes da Alemanha, Brasil, Índia e Japão.
O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, também vai fazer uma intervenção na abertura do Debate Geral, seguido pelo Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, da França, Emmanuel Macron e do Irão, Hassan Rouhani, entre outros. À tarde, na continuação dos trabalhos, falará o Presidente de Moçambique, Filipe Nyusi, que segundo um comunicado da presidência moçambicana, vai apresentar o compromisso do país com a consolidação da paz e reconciliação nacional. O debate geral deste ano tem como tema: “Tornar a ONU relevante para todos: Liderança global e responsabilidade partilhada para sociedades pacíficas, equitativas e sustentáveis”. A reunião informal dos chefes de Estado e de governo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), tem início às 16:00 locais, 21:00 em Lisboa, com uma duração esperada de duas horas e meia. Vão estar presentes o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, ao lado dos representantes lusófonos. A reunião é promovida por Cabo Verde, país que assume a presidência temporária da CPLP. Hoje, o Presidente da República português participa também num evento de alto-nível sobre ação para a manutenção de paz. O ministro dos Negócios Estrangeiros participa num evento da ONU sobre a pena de morte e noutro sobre o combate à poluição provocada pelo plástico. O dia termina com o Jantar Transatlântico, promovido pelo Departamento de Estado norte-americano. O Presidente do Brasil participa também numa reunião de chefes de Estado dos países do Mercado Comum do Sul, mais conhecido como Mercosul, às 11:00 horas locais. Também hoje, realiza-se na ONU uma Reunião Ministerial do G4, com representantes da Alemanha, Brasil, Índia e Japão.
[Transcrição parcial de “Líderes da CPLP reúnem-se para debater liderança global ”, publicado no jornal “Dinheiro Vivo” de 25.09.18. Destaques meus. A desortografia  abrasileirada do original  foi automaticamente corrigida pela solução Firefox contra o AO90 através da extensão FoxReplace do “browser”.]
Share

«A Língua e a Comunidade» [Viriato Teles, RTPN, 20.07.18]

«A relutância de angolanos e moçambicanos ao «acordo ortográfico» talvez tenha tido outros motivos, mas poderá agora ser um caminho para pôr o ponto final no desastre. Afinal, não custa muito perceber que a língua é o património genético mais importante de qualquer povo ou comunidade. É ela que identifica e agrega e nos une. Querer regulá-la com base em pressupostos economicistas (para mais de eficácia comprovadamente nula) que atropelam as noções mais básicas da semântica e da história do idioma é mais do que um disparate: é um crime praticado de forma continuada.»

A Língua e a Comunidade

Os governantes dos nove países da CPLP reuniram-se esta semana em Cabo Verde para mais uma cimeira de topo. Que terminou com os costumeiras declarações optimistas dos participantes, mas onde aparentemente pouco se avançou quanto ao que realmente interessa: a Comunidade propriamente dita ainda pouco mais é do que uma boa intenção.

RTP Notícias, 20 Julho 2018

Viriato Teles

A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa nasceu em 1996, mais de duas décadas depois do golpe de misericórdia dado pelo 25 de Abril no «império português». Entre os objectivos fundadores da organização, destacavam-se «a cooperação em todos os domínios» e «a materialização de projectos de promoção e difusão da língua portuguesa» – dois pressupostos muito nobres e que, na verdade, deveriam ser inerentes à própria natureza dos países que a integram.

A CPLP é uma organização de Estados, e nessa medida talvez funcione minimamente. Mas ainda não é – ainda, digo eu, que sou um optimista e continuo a acreditar que possa vir a ser – o motor de uma comunidade de povos. Como, eventualmente, terá idealizado o brasileiro que, para todos os efeitos, é com justiça considerado o fundador da CPLP: o embaixador José Aparecido de Oliveira, cuja persistência e talento diplomático foram determinantes para ultrapassar os obstáculos, as desconfianças e as inevitáveis mesquinhices de estados e de almas.

Reduzido à dimensão peninsular de origem, Portugal nunca apostou como deveria na ideia de uma verdadeira «comunidade lusófona». Fosse por «complexo de ex-colonizador», por um sentimento de pobreza congénita, ou por receio de virmos a ser «engolidos» pelos países-irmãos maiores e potencialmente mais poderosos, a verdade é que nunca do lado de cá se deram passos seriamente empenhados nesse sentido.

Mas isto é válido também para o lado dos países africanos de expressão portuguesa, para quem interessavam sobretudo os aspectos da «cooperação em todos os domínios», e mesmo assim com resultados frequentemente muito discutíveis – fruto de décadas de corrupção instalada, tanto lá como cá.

Quanto ao Brasil, o interesse será também essencialmente político-diplomático (e naturalmente económico), já que de cooperação o país não precisa e de cultura está razoavelmente bem servido. Isto apesar de ter sido de lá que partiu a peregrina ideia do «acordo ortográfico», contestado de ambos os lados do Atlântico e (felizmente) ignorado por Angola e Moçambique, mas ainda não exterminado, como merece – um objectivo que, aliás, bem poderia entrar na agenda da CPLP.

Só que, para isso, era necessário que a língua e a cultura fossem realmente importantes para os governos envolvidos. E manifestamente não parecem sê-lo, por mais entusiásticas que sejam as declarações formais de todos eles. O problema não é de agora, nem tem a ver especificamente com este(s) governo(s), mas – por isso mesmo – tem de ser séria e eficazmente combatido, sob pena de se hipotecar irremediavelmente toda uma memória comum.

O influente Novo Jornal Online, de Luanda, alertava há dias em editorial para o «estado absolutamente desastroso em que se encontra o uso da língua portuguesa em Angola». E isto, sendo um problema dos angolanos, é também uma questão que deve preocupar todos os membros desta ainda-não-comunidade de povos – que nasceu e se pretende continue unida pela língua, com respeito pelas diferenças e pelas especificidades que a engrandecem.

Ora a CPLP poderá, se quiser, ter um papel a desempenhar na solução deste e de outros problemas que, lenta e silenciosamente, vão deteriorando irremediavelmente o património cultural comum. Terá de ser uma intervenção séria, sem receio de corrigir erros passados, em que interesses particulares não se sobreponham aos valores comuns. Uma boa maneira de começar seria acabar de vez com o «acordo ortográfico», mas até agora, por razões diferentes, ninguém teve a coragem de dar o primeiro passo.

Nos próximos dois anos, Angola vai assumir a presidência da CPLP. Ironicamente, é neste país e em Moçambique que, actualmente, se continua a falar e a escrever o Português de que o antigo colonizador já prescindiu (na lei, mas não na grei) em nome de interesses alheios à história, à cultura e à identidade da língua e dos povos a que ela pertence.

É com certeza pedir demais, mas seria muito interessante verificar que os ventos de mudança que parecem fazer-se sentir em Luanda chegavam, nestes dois anos, também à CPLP. Não haveria, decerto, melhor sinal de que esta ideia de uma «comunidade de países» pode ser mais e melhor do que um mero conjunto de interesses circunstanciais. E tornar-se um dia, quem sabe, num espaço que os netos dos nossos netos venham a partilhar, de um modo fraterno e justo – como as dores da história ainda não nos permitem fazer hoje.

Afinal, trata-se apenas de colocar na lei aquilo que já é uma realidade: o AO só está em vigor teoricamente – e apenas no Brasil (que não o aplica, aliás quase não precisa de o fazer), em Portugal (onde as «facultatividades» e outros disparates instalaram uma confusão ortográfica que, aliada à iliteracia geral, transformou a língua numa caricatura) e, por simples inércia, em Cabo Verde (que, na prática, também o ignora, antes investe na promoção dos crioulos locais).

A relutância de angolanos e moçambicanos ao «acordo ortográfico» talvez tenha tido outros motivos, mas poderá agora ser um caminho para pôr o ponto final no desastre. Afinal, não custa muito perceber que a língua é o património genético mais importante de qualquer povo ou comunidade. É ela que identifica e agrega e nos une. Querer regulá-la com base em pressupostos economicistas (para mais de eficácia comprovadamente nula) que atropelam as noções mais básicas da semântica e da história do idioma é mais do que um disparate: é um crime praticado de forma continuada.

Eu sei que a CPLP não produz leis nem negoceia tratados. Mas é (deve ser) a plataforma comum e, deseja-se, o ponto de encontro dos governantes dos países que dela fazem parte. Nada obsta, portanto, a pelos canais de que dispõe este deixe de ser um tema tabu entre os nossos países e seja clara e seriamente discutido. Basta querer.

Para mais, é do conhecimento geral a quantidade dos que – ora no poder, ora na oposição, em Portugal e nos outros – reconhecem a valência dos argumentos «anti-acordistas» e o desconchavo que resultou da sua aparente aplicação. E todos concordam que, à medida que o tempo passa, maiores são os danos e mais difícil se torna a recuperação. Não será então a altura de, duma vez por todas, pôr fim à iniquidade?

Viriato Teles

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Viriato Teles, publicado no “site” da RTP Notícias em 20.07.18. Destaques e “links” meus. Foto de topo de: Miguel Silva (“Público“).]

Share

Angola: Francofonia OK, Commonwealth OK, CPLP… KO

Angola dá sinais de que lusofonia não é prioridade

 

Nos últimos dias, Luanda fez saber que quer entrar na Organização Internacional da Francofonia e na Commonwealth. No périplo do novo Governo pela Europa, Portugal não foi incluído. O que significa esta mudança?

Bárbara Reis
“Público”, 07.06.18

 

A intenção foi divulgada esta quarta-feira pelo ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, Boris Johnson, mas não terá espantado a diplomacia portuguesa: Angola vai pedir adesão à Commonwealth, a comunidade de países de língua inglesa.

A notícia surge dias depois de, em Paris, o novo Presidente angolano, João Lourenço, eleito em Setembro, ter anunciado que Luanda também vai pedir adesão à Organização Internacional da Francofonia.

Diplomatas ouvidos pelo PÚBLICO notam o facto de João Lourenço não ter sequer incluído Portugal no seu primeiro périplo europeu e, uma vez no continente, ter feito uma aproximação explícita aos clubes anglófono e francófono, relegando a comunidade lusófona para terceiro lugar.

“Angola escolheu Paris e agora Bruxelas”, concorda o deputado social-democrata Paulo Neves, membro da Comissão de Negócios Estrangeiros da Assembleia da República e que acompanha a política africana e a CPLP. “Se a lusofonia fosse a prioridade, a primeira visita teria sido a Portugal e à sede da CPLP”, disse ao PÚBLICO.

Para além de serem dois clubes gigantes — 53 na Commonwealth e 57 na Organização Internacional da Francofonia —, Angola é vizinho de vários dos Estados-membros dos dois organismos. Mais do que isso, no entanto, este novo posicionamento é visto como uma forma de Luanda tentar afirmar-se como potência regional (África) e sub-regional (África Austral). Essa é uma velha ambição, que vários especialistas em política africana conhecem. Nos bastidores da diplomacia, há anos que Luanda se afirma por oposição à África do Sul, sublinhando três das suas forças: tem água e petróleo e não tem um problema racial por resolver.

“Sinto um misto de alegria e tristeza”, diz o deputado Paulo Neves. “Vejo que Angola tem finalmente uma política externa clara e ambiciosa, mas vejo também que a nova estratégia de afirmação regional não passa pela lusofonia. Isso deve obrigar-nos a pensar: porque é que a lusofonia não é suficientemente atraente, porque é que a lusofonia deixou de ser a prioridade angolana, como trazer Angola de volta? O problema não é Angola querer estar com os outros. Isso é natural. O problema é não ter começado pela lusofonia. Temos que perguntar: o que é que se passa com a CPLP?”

Nenhum dos embaixadores dos países da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) contactados pelo PÚBLICO quis comentar as intenções de Luanda, incluindo os governos angolano e português.

São Tomé e Príncipe e a Guiné-Bissau pertencem à Organização Internacional da Francofonia e Moçambique pertence à Commonwealth. A existência dessas novas alianças, em acumulação com o vínculo histórico à lusofonia, ajuda a reduzir o eventual efeito surpresa que a vontade de Luanda poderia ter. Ao mesmo tempo, na próxima XII Conferência de Chefes de Estado e de Governo da CPLP — que este ano é em Cabo Verde — espera-se a confirmação formal da entrada com o estatuto de observador associado da CPLP da França, Itália, Andorra, Luxemburgo, Argentina e Sérvia.

É cedo para antecipar os possíveis resultados desta expansão do multilateralismo ou os benefícios para as relações internacionais. Para dois dos diplomatas ouvidos, no entanto, a motivação angolana de se aproximar dos clubes da francofonia e da anglofonia junta à ambição imperial um outro factor: as emoções. “Chatear Portugal.”

[Transcrição integral de: Diplomacia | Angola dá sinais de que lusofonia não é prioridade | PÚBLICO, 07.06.18 (edição em papel). Imagem de topo: recorte de foto original © POOL/MIGUEL FIGUEIREDO LOPES/REPUBLIC PRESIDENCY OF ANGOLA/LUSA]

Share

“Que língua é esta”? Real.

pecuniae obediunt omnia

Eclesiastes, 10:19

No longo texto transcrito seguidamente inseri alguns “links” e destaques a “bold”, assinalando a encarnado as barbaridades neo-imperialistas proferidas por um fulano que até no seu próprio apelido é acordista.

Barbaridades essas, aliás, extensíveis a outros acordistas citados na “peça”, com o seu inacreditável patuá panfletário: ele é os “milhões” do Brasil, tornando impossível distinguir os milhões contados em cabeças dos milhões em contado nos bancos, ele é o “investimento na língua”, como se a língua fosse um valor transaccionável pelos corretores da Avenida Paulista, ele é — de caras, já sem ao menos algum pudor ou um pingo de vergonha — o “império da língua”, ele é a “língua global” e, pasme-se, “os donos” dessa língua, que a usam (no shit, Sherlock?) como “ferramenta de negócios”.

Estamos, por conseguinte, perante mais um manifesto da ganância contendo declarações explícitas de total e absoluta insanidade. Enlouqueceram de todo e de vez, está visto. A típica, obsessiva, salivante mentalidade Tio Patinhas, com cifrões no lugar dos olhos e uma cartola repleta de ar na cabeça.

 

Francisca Gorjão Henriques
Jornalista
Fronteiras XXI – Fundação Francisco Manuel dos Santos

 

Que língua é esta?

A língua portuguesa é o tema do Fronteiras XXI de 6 de Junho, na RTP3

Há cada vez mais pessoas a falar português. Pelo menos é o que nos dizem os números: 261 milhões agora, 520 milhões em 2100. Mas há só um português, ou vários? E do que falamos quando falamos de falantes?

Em cima da mesa está caldeirada – corvina, pimentos, batata, batata doce – arroz, feijão guisado. “É caldeirada mas é a caldeirada cabo-verdiana”, avisa Fausta Montrond, sentada na mesa da cozinha do apartamento onde vive, nas Mercês, arredores de Lisboa. “Trouxe frango grelhado e batatas fritas para o jantar dos meninos, porque eles gostam mais”.

Fausta nasceu há 32 anos em Chã das Caldeiras, na ilha do Fogo, Cabo Verde – uma aldeia de cerca de mil habitantes, no sopé do vulcão, “onde se faz o vinho Manecon”. Foi lá que fez a escola primária. Lembra-se muito bem de começar as aulas e de ouvir a professora a falar numa língua estrangeira. Era português.

Antes disso, o contacto com a língua tinha sido apenas através dos turistas que de vez em quando lá apareciam, ou nas novelas que passavam na única televisão da aldeia, colocada na cooperativa, onde havia um gerador, porque naquela altura a electricidade ainda não tinha chegado a Chã das Caldeiras. Sabia por isso algumas palavras, mas nada que lhe permitisse entender tudo o que a professora dizia. “Ela tinha de misturar frases em crioulo”, diz Fausta. “Só quando fui para Santiago, no quinto ano, é que era tudo em português. Era proibido o crioulo nas aulas”.

Com o seu filho Fábio, agora com 14 anos, não foi muito diferente: “Em casa toda a gente falava crioulo e só comecei a aprender português na escola”, na Cidade da Praia, onde viviam. “Não sabia bem os verbos, só o suficiente para desenrascar.” Só se sentiu mais confortável no sexto ano, ou seja, quando a família veio viver para Portugal.

Depois de ver que o filho mais velho, Paco, tinha dificuldades quando veio para a universidade em Lisboa (agora estuda contabilidade em Bragança), Fausta quis garantir que os dois mais novos tivessem “acesso a um ensino melhor”. Decidiu que Fábio e Ariana, de 10 anos, começariam mais cedo os seus estudos aqui e por isso se mudaram todos.

Dizem os números que o português é falado por 266 milhões de pessoas. Se tivermos em conta o crescimento demográfico dos países onde é língua oficial – centrado no continente africano – em 2050 serão 395 milhões, e em 2100, mais de 520 milhões.

Nesse último ano, a população de falantes dos países africanos (319.870 milhões) ultrapassará a do Brasil (190.423 milhões) – actualmente, são 209.568 milhões de brasileiros face a 58.061milhões de falantes em Angola, Moçambique, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial e São Tomé e Príncipe.

Os dados são de 2016, assentam nas perspectivas de crescimento populacional traçadas pelas Nações Unidas e são citados pelo Novo Atlas da Língua Portuguesa. Fazem do português uma das seis línguas mais faladas no mundo (os números vão variando consoante as fontes), e são também usados nos discursos oficiais sobre o apoio à expansão da língua.

(mais…)

Share

No comment

BBC acaba com serviço em português

“Jornal de Notícias”, 25.01.11

O serviço da BBC em português e em outras línguas vai encerrar no âmbito de um plano para poupar 46 milhões de libras (53 milhões de euros) por ano.

Além do serviço em português, que se destina sobretudo aos países africanos lusófonos, irão também fechar os serviços em macedónio, albanês, sérvio e inglês para as Caraíbas.

O anúncio oficial destas medidas, bem como o despedimento de 650 funcionários de um total de cerca de 2400, será feito esta quarta-feira aos funcionários.

(“censurei” este parágrafo na citação por conter um gravíssimo erro de Português)

Ficou surpreendida, no entanto, com os “cortes demasiado drásticos” que colocam em risco os 12 postos de trabalho na secção, dos quais dez a tempo inteiro e dois a tempo parcial.

Se estes planos forem para a frente, admite que “as oportunidades de reintegração [noutros serviços da BBC] não serão muitas”.

O serviço em português foi criado a 4 de Junho de 1939 e era dirigido inicialmente a Portugal e às respectivas colónias.

Depois da sua independência, a partir de 1975, os países africanos de expressão portuguesa passaram a ser o principal destino deste serviço.

Além de três programas diários de rádio, tem uma página na internet e recentemente entrou para as redes sociais Facebook e Twitter.

O serviço começou também há pouco tempo a transmitir em directo os relatos em português dos jogos de futebol da Primeira Liga inglesa.

“A audiência continua a crescer e há uma grande interactividade com os ouvintes”, garantiu Teresa Lima.

Os números reais de ouvintes são incertos, mas o serviço transmite em sete frequências de rádio em Moçambique, o país com mais público, e tem acordos de retransmissão em Angola, Cabo Verde e Guiné-Bissau.

O encerramento da secção portuguesa faz parte de um plano de poupanças da BBC devido à redução do apoio financeiro do governo britânico.

Além de ter congelado o valor da taxa de televisão, o governo eleito em Maio determinou, em Outubro, que a BBC passasse a financiar o serviço externo da estação, antes suportado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros.

O custo total do Serviço Mundial da BBC está estimado em 272 milhões de libras por ano (315 milhões de euros). Lançado em 1932, transmite em 32 línguas para uma audiência de 241 milhões de pessoas. Inclui rádio, internet e televisão.

 


 

http://www.bbc.com/PORTUGUESE

Share

FAQ AO90 — 2


7. Que fundamentos alegaram os inventores do “acordo ortográfico” para o justificar?

Três completos absurdos, basicamente:

Não há “unificação” alguma, muito pelo contrário: o AO90 originou ainda mais diferenças entre as duas normas, novos casos de duplas grafias (e triplas e quádruplas). Neste momento (2018) existem não duas mas três “normas”: PT-BR (Brasil), “acordês” (organismos do Estado e algumas empresas em Portugal) e PT-PT (Angola e Moçambique).

Não há qualquer tipo de “projecção e expansão”, acontece o oposto: fecham cada vez mais leitorados de Português no estrangeiro e diversos organismos internacionais extinguem o Português como Língua de trabalho ou institucional.

Não há “maior facilidade” na aprendizagem coisa nenhuma: no Ensino oficial em Portugal a confusão é total e o cAOs instalado afecta gravemente as crianças e jovens, confundindo-as estúpida e desnecessariamente. Não sendo imbecis ou retardados, os alunos portugueses estão mergulhados num caldo de instabilidade ortográfica no qual não só eles mas principalmente eles já não sabem ao certo como se escreve (ou lê). Por isto mesmo os resultados são cada vez piores desde que o AO90 passou a ser obrigatório nos exames.

E os estrangeiros que aprendem Português não são também, em princípio, atrasados mentais: o AO90, abolindo radicalmente a etimologia, afasta ainda mais o Português das demais Línguas de países europeus ex-colonizadores, em especial os das Línguas francesa, espanhola e inglesa.


8. Qual foi a ideia-base para sustentar tecnicamente o “acordo ortográfico”?

Uma ideia de jerico, evidentemente, na qual apenas fingem acreditar alguns idiotas ou pessoas que comem da gamela acordista: prescindir do critério etimológico (a raiz e a evolução ortográfica das palavras) substituindo-o pelo “critério” fonético (“o que não se pronuncia não se escreve”). Uma abominável cretinice, portanto, que jamais passaria pela cabeça de um francês, americano, inglês, espanhol, australiano ou canadiano, para citar apenas alguns povos que são “parvos” por ignorarem as maravilhas dos acordos ortográficos; ideias assim tão asininas, se bem que vendidas como “geniais”, jamais ocorreriam a qualquer cidadão daqueles atrasadíssimos países; só em Portugal e no Brasil, duas super-potências mundiais, como sabemos, existem “génios” capazes de esgalhar semelhante “genialidade”.

Consequência directa do “genial” critério fonético: como no Brasil a pronúncia é completamente diferente das de Portugal e PALOP, a suposta “unificação” resulta em milhares de novas duplas grafias.

Mas esta ideia de jerico deveria levar os ditos “génios” ainda mais longe: sendo o Brasil um país-continente, nada de mais natural do que, apenas ali, existam  “dialectos” — o que, segundo a máxima acordista “se não se pronuncia não se escreve”, deveria dar direito a 16 “ortografias” brasileiras diferentes. Fica a sugestão.

Claro que algum estratagema, de preferência suficientemente idiota para impingir a perfeitos cretinos, teria de ser inventado para mascarar as verdadeiras motivações — ambições políticas e económicas do Brasil — e por conseguinte os acordistas atiraram para o ar um dos absurdos disponíveis no seu arsenal de insanidades: o critério fonético “facilita imenso”.
(mais…)

Share
Apartado 53 © 2017 Frontier Theme