Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: Portugal

O camartelo (2)

«Os portugueses são exemplares. Têm sido exemplares desde o começo; eu tenho muitos amigos portugueses, tenho contacto com vários deles, contacto constante, pela Internet, e há um movimento geral entre os intelectuais portugueses, das mais várias procedências, contra este acordo que é uma fraude. Isto não unifica nada! Isto piora o que existe e não unifica nada. Então para quê mexer? Isto é uma fraude! Uma fraude promovida no Brasil pela Academia Brasileira de Letras. A verdade é essa. Pura e simplesmente. Por um professor de língua portuguesa que também usa fardão; é membro do clube. Ele de repente se transformou no campeão desse novo acordo. E é até hoje. E ganhou dinheiro com isso. Então não há nada a fazer. Salvo dizer a verdade, quando necessário, como eu estou fazendo agora. Até porque eu já não tenho mais nada a perder.»
Sérgio de Carvalho Pachá

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Como já vimos no primeiro texto desta curta série, de forma geral e a propósito de simples pesquisas na Internet, o que está em causa não é “apenas” abater umas consoantes mudas, não é “só” usar uma espécie de português “segundo as regras” do AO90.

Trata-se de, sem qualquer espécie de alternativa ou escapatória, levar com a construção frásica brasileira, o léxico brasileiro, as expressões idiomáticas e até o jargão técnico  brasileiro.

Com a espectacular excepção do WordPress-Portugal e de mais alguns honrosos e exemplares bastiões de coerência, a verdade é que a maior parte dos sistemas informáticos ou plataformas e serviços da Internet forçam os utilizadores a conviver  com a “língua brasileira” (quando não obrigam a utilizá-la mesmo) em toda a sua especificidade — a qual nada tem a ver com o Português de Portugal e dos PALOP.

Qualquer “corretor” ortográfico, por exemplo, em sistema operativo ou em “browser”, ou, pior ainda, nos programas de processamento de texto, sugere sempre “correções” não só conforme a “norma” ortográfica brasileira (vulgo, AO90) mas também segundo o próprio léxico brasileiro. Em alguns casos, dependendo do aparelho e do programa em uso, esta insuportável intrusão não se limita a sugerir brasileirismos — vemos em tempo real os nossos textos “corrigidos” para “brasileiro”, à má-fila; o António passa automaticamente a chamar-se “Antônio”, por exemplo, ou o bebé, pobre criança, converte-se em “bebê”.

Não há escapatória, realmente.

Sem entrar em fastidiosos pormenores técnicos, note-se que esta espécie de neo-imperialismo virtual não tem absolutamente nada a ver com as configurações específicas do aparelho, dos programas, dos sistemas ou das determinações do utilizador; o que acontece é que todos esses programas, parâmetros e opções já vêm, de e da origem, configurados para utilizar preferencialmente sugestões de léxico especificamente brasileiro. E as configurações determinadas pelo utilizador já deixaram liminarmente de aceitar a destrinça entre Pt-Pt e Pt-Br; agora só é possível escolher entre Pt-Br e… Pt-Br. “Eles” bem tentam convencer os incautos de que não é tanto assim mas é, sim, é rigorosamente assim. Aquilo que hoje em dia aparece por aí como sendo uma opção “Português (Portugal)” é de facto e apenas “Português (Brasil)”.

E se a “correção” instantânea ainda não fosse suficiente, enquanto processo de extermínio  linguístico, verificamos algo de muito mais grave, se tal é possível: a “correção” sistemática do passado, ou seja, a acordização (e concomitante brasileirização) com efeitos retroactivos

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O camartelo (1)

A Língua Portuguesa não é um objecto que se possa trocar, comprar ou vender. Os portugueses que a usam como ferramenta de trabalho, ao menos esses, não estão em saldo. Nem apreciam particularmente que alguns salteadores e traficantes lhes tentem roubar a enxada, essa alfaia singular com que revolvem o chão da pátria que lhes deu o ser e lhes dá o pão. E que também serve, como qualquer sachola honrada, para dar com ela na cabeça dos meliantes. [‘O aborto ortográfico: pontas soltas e roubos de catedral‘, 16.04.2008]

O AO nem é acordo, porque num acordo se pressupõe cedências de ambas as partes e neste houve apenas de uma, nem é ortográfico, pela simples razão de que nega e renega o próprio conceito de ortografia. [jornal “O Diabo” (entrevista), 20.12.2011]

A finalidade deste “acordo” político é que uma das seis ex-colónias, sul-americana, submeta a sua ex-potência colonizadora, europeia, e as demais ex-colónias africanas desta, a uma forma de neo-imperialismo cultural que se consubstancia na “adoção” ditatorial de uma “ortografia única”: a brasileira. [‘Anatomia da fraude‘, 02.07.2017]

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Mas será “só” isto mesmo? Trata-se apenas de abater umas quantas “consoantes mudas” ou afinal pretende-se deitar abaixo, demolir outras coisinhas?

Quando o actual Presidente da República proclamou, em 2008, que “Portugal tem de lutar para dar a primazia ao Brasil” e quando, em 2015, reforçou essa “ideia” defendendo um “acordo militante”… queria ele dizer o quê, ao certo?

Bom, assim ao certo, ao certo, parece-me não haver nestas declarações qualquer tipo de subtileza que dê lugar a dúvidas: o que este Presidente quis dizer (como o anterior) é que sim, senhor, existem de facto mais umas quantas coisinhas a abater. O “acordo ortográfico” serve meramente, por assim dizer, como cabo para empunhar o camartelo.

Ao ritmo actual dos trabalhos de demolição, presumo que dentro de dois ou três anos, o mais tardar, não reste nas plataformas e nos serviços de Internet o mais remoto vestígio da ortografia do Português-padrão. E não “só” isso, evidentemente, e não “apenas” isso com efeitos retroactivos, como também toda a Internet “lusófona” será quase integral ou exclusivamente brasileira — na redacção e na terminologia mas também nos conteúdos.

Qualquer pesquisa genérica via Google devolve já, sempre à cabeça e sempre por sistema, resultados de “sites”, textos, produtos, serviços brasileiros.

Quanto mais curto for o critério de busca, maior a probabilidade de as primeiras sugestões serem de coisas… brasileiras, pois claro. Como neste caso***, procurando “hino” no YouTube.

Ah, e tal, dirão alguns, mas isso sempre foi assim.

Não, não foi, digo eu. E já o dizia, comprovando o facto com amostras, há quase uma década.

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«Admirável Língua Nova (Parte IV)» [Manuel Matos Monteiro, “Público”]

Admirável Língua Nova (Parte IV)

Senhores acordistas, por paradoxal que possa parecer, é com o vosso Acordo que nasce uma profusão de erros nas consoantes mudas – eis mais um pretenso problema que o Acordo veio resolver, mas que apenas agudizou.

Manuel Matos Monteiro

 

Observe o leitor ou a leitora o seguinte passo de um livro publicado em 2011.¹

“Contar uma história bem contada, fazer um texto ficar filé. E como é que a gente faz um texto ficar filé? Queimando as pestanas no estudo da parada da literatura. O vô do Tom pediu pra gente contar a tal história do nosso reino, mas tudo o que a gente fez até agora é só garranchos, só xaboque que a gente escreve nas coxas… A gente escreve mal pra chuchu… A parada só entra areia… Mó xaropada…”

Creio que não precisarei de lhe dizer se se trata de um texto em português de Portugal (ou, se preferir, em português europeu) ou em português do Brasil. Não há – felizmente! – acordo ortográfico que ate com uma corda esta diversidade. Não deixa de ser curioso que, no passo transcrito acima, a aplicação do Acordo não altere rigorosamente nada, ou seja, não crie um átomo de aproximação entre o português do Brasil e o português de Portugal – o que é ‘per se’ bem ilustrativo da particular inutilidade desse documento de engenharia verbal quanto ao seu propósito principal. O que é diferente é irreconciliavelmente diferente. Tal diversidade (ortográfica, sintáctica, prosódica, lexical, semântica) é, ademais, prova viva da riqueza da nossa língua.

Sucede que o Acordo é aprovado (é importante ler estes documentos oficiais…) porque “constitui um passo importante para a defesa da unidade essencial da língua portuguesa e para o seu prestígio internacional”. Acaso alguém deu conta de que o Acordo constituiu um passo importante para a defesa da unidade essencial da língua portuguesa?, de que a nossa língua adquiriu mais prestígio internacional com o dito? Estará o prestígio internacional do inglês (que tem dezoito variantes) pelas ruas da amargura? O francês, coitado, tem quinze, e o castelhano, pobre dele, tem vinte e uma.

O argumento da unificação é de uma colossal ignorância – aquilo que se tentou foi apenas uma ligeira aproximação no plano da ortografia. Citando a Nota Explicativa do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa: “As palavras afectadas por tal supressão [das chamadas ‘consoantes mudas’] representam 0,54% do vocabulário geral da língua […] .» Mas essas cinquenta e quatro centésimas (mais as alterações de hífenes e acentos) podem certamente operar maravilhas – não é difícil imaginar que os Brasileiros acorrerão num frenesi às livrarias para ler Camões e Pessoa acordizados, porque “hei-de” perde o hífen e “actor” se passa a escrever “ator”, e que os Portugueses passarão a ler Guimarães Rosa e Machado de Assis como novidades fresquinhas, excitados que estão com a perda das ditas consoantes mudas.

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«Acordo para quê?» [Teolinda Gersão, no Brasil]

«Na edição apresentada no Brasil, entretanto, o texto segue o chamado “português de Portugal”, sem padronização do acordo ortográfico. Teolinda, historicamente, se posiciona contra a universalização da escrita da língua portuguesa. Na entrevista dada ao O POVO, ela chega a questionar com ênfase: “acordo para quê?”. “A língua portuguesa admite variantes, o que só a enriquece. Todos os países lusófonos são soberanos e donos da língua, que é a mesma, mas cada um a usa ao seu modo. A ideia de uniformizar a língua só criou confusão, porque as variantes não são uniformizáveis. Felizmente. Além disso, entendemos tudo”, explica Teolinda.»

Teolinda Gersão vem a Fortaleza para lançar A Cidade de Ulisses

Premiada escritora portuguesa estará em Fortaleza hoje para lançar o livro A Cidade de Ulisses. Evento será na Academia Cearense de Letras, no Centro

Uma das escritoras portuguesas de maior destaque na atualidade atravessou o oceano e estará em Fortaleza hoje para lançamento do livro A Cidade de Ulisses. Teolinda Gersão – professora universitária, vencedora de diversos prêmios literários e autora de uma dezena de livros – participa de encontro com o público na Academia Cearense de Letras. “É muito difícil atravessar o Atlântico. Sobretudo no sentido Portugal-Brasil. No sentido inverso é mais fácil…”, diz a escritora, que tem no currículo prêmios como o Fernando Namora (1999), o Ficção do Pen Club (1981 e 1989) e o Vergílio Ferreira (2016).

Em A Cidade de Ulisses Teolinda conta a história de amor entre os personagens Paulo Vaz e Cecília Branco, cruzando a narrativa com a história da fundação de Portugal. “A adesão do público tem sido enorme, e isso deixa-me muito feliz”, conta a escritora, em entrevista ao O POVO por email. Ela já passou por São Paulo, Belo Horizonte, Salvador, Petrópolis e Rio de Janeiro, encerrando a circulação brasileira em Fortaleza, capital mais próxima do território europeu.

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Se non è vero…

Este cartaz circula no Fakebook há cerca de uma semana. Vi-o pela primeira vez no “mural” respeitável de um não menos respeitável jornalista, facto que seria, em princípio, garantia suficiente de que a coisa é genuína.

Porém, como de costume, à cautela, fui tentar cruzar informação sobre o assunto e encontrei… zero! Apenas existe esta imagem mesmo, mais nada, nenhuma outra referência em texto, uma simples nota de rodapé ou a mais ínfima notícia.

O “português” macarrónico (ou seja, abrasileirado e com erros, passe a redundância) é também estranho e as gralhas, em número e em espécie, seguro indício de aldrabice. Não existe sequer menção a qualquer origem, autoria, entidade ou organização identificável por detrás de tão misterioso (e tenebroso) “evento”.

Isto não passará talvez de pura e dura manobra de contra-informação ou qualquer outro insondável mistério do género.

Enfim, no momento desta publicação a hora da “convocatória” já lá vai, era só o que faltava estar agora aqui fazendo propaganda a semelhante enormidade, mas fica o alerta — quanto mais não seja para memória futura.

Esta aparente brincadeira remete para algo que já se nos vai tornando assustadoramente familiar: há quem se dedique, com o beneplácito de entidades oficiais e perante a apatia geral, a arrancar pedaços do passado, a apagar episódios, marcos, factos, datas e personagens da nossa memória colectiva, assim como quem simplesmente risca, rasga, arranca páginas inteiras da História.

Pode bem suceder que tão inacreditável convocatória veicule a seguinte mensagem subliminar: “habituem-se…”

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Pelos fatos previstos no Diário da República (portuguesa)

Pesquisa no Diário da República “Eletrónico”
data: 04.10.17 às 16:25 h
critério: “pelo fato
resultados: 119

1.º resultado (por exemplo, a título de ilustração)

«4 – Pelo fato previsto na alínea f) do artigo 89.º do Decreto-Lei n.º 42 645 (…)»

 

O “fato” previsto no Decreto-Lei n.º 42 645, Artigo 89.º – alínea f)

 
(Factos levados a registo)
(…)
f) O penhor, o arresto, a penhora e o arrolamento de créditos hipotecários, bem como a transmissão, cessão ou sub-rogação destes ou a sua afectação a reservas de sociedade de seguros, e a cessão de hipoteca ou do grau de prioridade do respectivo registo, que são averbados à inscrição da hipoteca;
(…)
 

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