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Quéru u livru dji réclámáçáum, tá légáu?

Já aqui abordámos esta questão (de tacho), mas não deixa de ser interessante, anedótica e “comovedora” a forma como os brasileiros se atiram a assuntos “linguísticos” no caso exclusivo de isso de alguma forma prejudicar os seus recém-adquiridos direitos de potência colonizadora.

Desta vez, também já cá faltava, os queixumes arranham o enxovalho político, o insulto de patrão mal servido que esbofeteia o criado com as luvas de pelica dobradas na mão do castigo. Chamam-nos, o que é para já mera bofetada indolente, “xenófobos” (em brasileiro, como em Espanhol, a designação varia mas pouco). Dizem que nós, portugueses, além de “xenofóbicos” somos do piorio, fazemos-lhes “ilegalidades” (o contrário de “légáu, viu”) e tratamos genericamente mal a brasileirada, coitadinha, ah, mas isto não fica assim, dizem e ameaçam eles, vai já de Itamaratchi em riste, vocês vão ver, seus tugazinhos, até comemos “cês”!

É curioso terem irrompido estes pruridos “linguísticos” apenas recentemente, depois de Portugal ter “adotado” politicamente a língua brasileira (AO90). Mas, ao que já se vai vendo, a vingança está agora a auto-coligir-se, ui, que medo, lá vem retaliação. De facto, onde já se viu, mas o que é isto, indígenas a revoltar-se contra a anexação estrangeira, invasão brutal e ignorante bombardeio, ainda por cima? Como?!

E quanto a nós outros, tugazinhos: ah, isto agora é assim, meia bola e força, até analfabetos temos de gramar, salvo seja? Ah, então está bem, dizem alguns, os tais tugazinhos, gente pequenina cujo modo de vida é bajular.

Uma outra curiosidade, espécie de sub-produto desta telenovela, é a própria diferença (radical) entre as duas designações: em qualquer simples busca, os resultados da (mesma) profissão em Português (“terapia da fala”) e em língua brasileira (“fonoaudiologia“) devolvem resultados evidentemente estanques, separados, num critério  exclusivamente portugueses e no outro só brasileiros. Ora, esta pesquisa simples não deixa de ser interessante (e rara), visto que uma das tremendas aldrabices do AO90 foi a adulteração das profissões, artes, especialidades: o que era português desaparece agora em qualquer pesquisa, passando a figurar nos primeiros lugares das buscas exclusivamente empresas, profissionais, materiais brasileiros; seja o que for que se procure agora, à conta do AO90 passou tudo, “milagrosamente”, a ser brasileiro. Uma golpada “muintu légáu”.

[Nota: o tom “brincalhão” desta “piquena” diatribe, aliás na sequência das imediatamente anteriores, é deliberado: o assunto (a neo-colonização) é de tal forma deprimente (ou nojento) e implica tantas e tão maçadoras considerações (técnicas, históricas, culturais e até psiquiátricas), que utilizar um timbre curial e sério seria algo como um “piqueno” suicídio intelectual. A escolha entre a escrita com uma ruga profunda na testa ou um “piqueno” sorriso na boca é fácil e resulta da escolha entre dois males: a roubalheira alegre ou a alegre roubalheira.]

Fonoaudiólogos brasileiros são impedidos de trabalhar em Portugal por não dominar idioma

Por
br.sputniknews.com, 24.11.20

Fonoaudiólogos vindos do Brasil não podem exercer a profissão em Portugal sob a justificativa de não falarem… português. Essa é a resposta padrão apresentada pela Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) para negar pedidos de cédula profissional a brasileiros.

Um abaixo-assinado virtual com o objetivo de que o processo da regularização de fonoaudiólogos brasileiros em Portugal ocorra de forma legítima e transparente estima que haja mais de dois mil profissionais “vítimas dessa ação irregular, de cunho ilegal e xenofóbico, que se caracteriza pelo preconceito linguístico“. Segundo o professor português António Veira, terapeuta da fala (nomenclatura dada aos fonoaudiólogos em Portugal), “há de 2.200 a 2.500 pedidos de fonoaudiólogos para aquisição da [cédula de] terapia da fala em Portugal e que estão quase todos a ser indeferidos”.

A Sputnik Brasil conversou com três fonoaudiólogas brasileiras que tiveram o pedido de cédula profissional indeferido pela ACSS após quase um ano de espera pela resposta. O indeferimento, nesses casos, apresenta a justificativa idêntica de que, “durante a prova linguística, a requerente demonstrou não dominar o português europeu nos diferentes domínios semântico, morfossintático, fonético-fonológico, quer na vertente oral quer na vertente escrita“.

A “prova” em questão se trata de uma entrevista presencial de meia hora e uma redação, aplicadas a candidatos brasileiros a partir de 2019, mas sem prazo para resultados. Até então, a ACSS exigia apenas o envio de “declaração original emitida por um terapeuta da fala (devidamente autorizado a exercer em Portugal) em como não possui qualquer perturbação da fala e ou da voz e domina a língua portuguesa tal como é falada ou escrita.

​No meio do processo de candidatos que deram entrada no pedido de cédula profissional, passou-se a cobrar o domínio da “língua portuguesa tal como é falada ou escrita em Portugal (português europeu)”. A mudança das regras pegou de surpresa fonoaudiólogas brasileiras como Juliana Alves de Andrade, que chegou a Cascais para morar com o marido em março de 2019 e, logo na sequência, deu início ao processo. Ela também foi surpreendida com o e-mail de uma funcionária da ACSS solicitando um “comprovativo/declaração do domínio do português europeu, falado e escrito, ao nível C2“, algo que não era pedido no site como parte do processo.

“Questionei onde eu conseguiria fazer essa prova e não souberam me orientar. Fui então na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que é o local onde os estrangeiros fazem esse tipo de prova. A diretora do Centro de Avaliação e Certificação de Português Língua Estrangeira (CAPLE) riu e disse que isso era um absurdo! Porque eu, enquanto brasileira, tinha o português como língua materna e não poderia fazer [a prova]”, conta Juliana em entrevista à Sputnik Brasil.

Certificados de universidades não fazem distinção entre português europeu e brasileiro

O Diploma Universitário de Português como Língua Estrangeira (DUPLE), ofertado pela Universidade de Lisboa, não faz distinção entre o português europeu e o português falado no Brasil, assim como ocorre em outras universidades portuguesas e brasileiras. O site da ACSS informa que “os comprovativos são obtidos junto de estabelecimentos de ensino superior ou em escolas devidamente certificadas para o efeito, relativamente a cada profissão”.

No entanto, o próprio quadro de níveis da língua por Deliberação do Conselho Diretivo de 26 de julho de 2018 não apresenta nenhuma exigência de português europeu aos profissionais de terapia da fala (fonoaudiologia). No caso dos profissionais de ortoprotésia, por exemplo, responsáveis pela avaliação de indivíduos com problemas motores ou posturais, o quadro faz a ressalva de que “candidatos cuja formação tenha sido obtida num país de língua portuguesa ou tenha exercido + de 12 anos num país de língua portuguesa, apresenta (sic) declaração que comprove a integridade de comunicação falada e escrita em português europeu”.

(mais…)

Issu daí é porrtugueiss universáu, viu?

A reboque ou à boleia (“pegando carona”, em brasileiro) do AO90 e do respectivo paleio-para-enganar-idiotas-deslumbrados sucedem-se as aberrações, qual delas a mais “imaginativa” e absurda. Já conhecemos as verdadeiras intenções da CPLB e, como escorrência (ou vomitado) daquela inacreditável palhaçada, as consequências catastróficas do AO90 sobre a Língua Portuguesa (Portugal e PALOP), mas de facto seria impossível sequer imaginar esta: brasileiros e brasileiras pretendem, à conta da tão propalada “língua universal” (o brasileiro), emigrar para cá e vir-nos “ensinar” a falar… Português. Ou seja, gêntchi, qui légáu, vamu dizê qui akilo é porrtugueiss; eles, pelo menos, apropriaram-se já da “marca”, a fingir que são muito europeus.

Confesso que nunca, jamais, em tempo algum poderia ter sequer imaginado semelhante coisa: 4 mil pessoas (4 mil, raios!) do Brasil vêm para cá ensinar o indígena (o “portuguesinho”) a usar a sua própria Lingua!

O AO90 em todo o seu brasileiro esplendor, em toda a sua asquerosa dimensão de ex-colónia que coloniza o ex-colonizador, em toda a dimensão sem medida do mais horrível pesadelo que acontece debaixo do Sol.

Inacreditável?

Não, é “terapia da fala”.

Fonoaudióloga brasileira em Portugal luta para provar que fala português…

– Veja mais em https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020/11/22/fonoaudiologa-brasileira-em-portugal-luta-para-provar-que-fala-portugues.htm?cmpid=copiaecola

Luciana Alvarez
Colaboração para o TAB, de Lisboa
22/11/2020 04h01

Quando Thaís Cruz chegou a São Paulo falando “tu vais”, “tu queres”, os colegas da faculdade de fonoaudiologia logo a apelidaram de portuguesinha. Thaís vinha na verdade de Belém, Pará, cidade onde se usa a segunda pessoa do singular (tu) por padrão. Thaís precisou viajar 2,5 mil km para fazer o curso porque, em 1997, não havia fonoaudiologia em nenhuma faculdade paraense.

Quase 23 anos depois, agora morando em Cascais, município do distrito de Lisboa, a portuguesinha não consegue exercer a fonoaudiologia porque seu português não é suficientemente português, segundo o órgão responsável por regular a profissão no país de Camões. Depois de passar por uma entrevista e escrever uma redação, recebeu um documento dizendo que ela não domina a semântica (sentido das palavras), a morfossintaxe (construção das frases), a fonética e a fonologia (os sons) do português europeu.

Preconceito linguístico ou reserva de mercado seriam as verdadeiras motivações para que seu credenciamento profissional em Portugal tenha sido negado, acredita Thaís. “A existência da prova é um disparate. Se eu não tivesse as habilidades linguísticas, sequer conseguiria me comunicar com as entrevistadoras. A justificativa é completamente inaceitável”, afirma a brasileira, que faz mestrado na área de linguagem na Universidade Nova de Lisboa.

Thaís não é a única fonoaudióloga formada no Brasil impedida de trabalhar como “terapeuta da fala” em Portugal — assim é a nomenclatura local. No dia de fazer a prova, conheceu outras fonos brasileiras, que acabaram se reunindo num grupo de WhatsApp, que foram chamando outras conhecidas. Hoje, o time das reclamantes têm quase 40 profissionais. Algumas ainda esperam ser convocadas para o exame, outras aguardam os resultados. O processo todo, entre dar entrada na papelada e receber o resultado, leva quase dois anos. Todas que já receberam resposta tiveram seus pedidos indeferidos com a mesma justificativa, ipsis litteris.

O número total de profissionais tentando obter o registro deve ser muito maior — nas redes das fonos brasileiras, especula-se que cheguem a 4 mil. Procurada pela reportagem, a Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) não informou até quinta-feira (19) qual era o número de pedidos de credenciamento total, quantos foram aceitos e quantos foram negados.

Com o recente aumento da emigração brasileira para Portugal, alguns setores de profissionais da saúde sentem pressão com a chegada de diplomados. Mais de 50% dos dentistas estrangeiros que atuam em Portugal vieram do Brasil; são quase 500 com autorização para trabalhar. Entre os médicos, há quase 600 registros de brasileiros, com número de pedidos de autorização recorde em 2018.

Sem conseguir o registro, muitas fonos acabam trabalhando em funções de baixa especialização. Thaís conta que já trabalhou na parte administrativa de um asilo, mas não gostou. “Sou fonoaudióloga. Foi a profissão que escolhi para a minha vida e não sei ser outra coisa.”

A prova para comprovar que falam português passou a ser exigida apenas em 2018. Quando questionada, a ACSS não explicou por que decidiu submeter os profissionais a um exame de proficiência no seu seu idioma materno, tampouco mostrou os referenciais teóricos para classificar o português europeu, uma variante regional, um fator decisivo para a atuação de terapeutas da fala.

As diferenças na forma de se expressar fazem com que um cidadão português reconheça um brasileiro no primeiro “oi”, até porque, em Portugal, usa-se “olá”. Mas a língua em Portugal continua sendo a mesma falada oficialmente no Brasil e em mais sete países de África e Ásia.

Existem tratados internacionais, como o Acordo Ortográfico de 1990, e órgãos oficiais, como a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), uma espécie de ONU, cujos objetivos comuns são a “defesa do prestígio internacional” e “promoção e difusão da Língua Portuguesa”. Assim, em maiúsculas, no singular e sem subdivisões.

Dentro do próprio território português, embora pequeno, há variações de palavras, construção de frases e de pronúncia. No sul do país, tênis é chamado de sapatilha. No Alentejo, usa-se o gerúndio como no Brasil e como usava Camões, embora no restante do país a construção normal seja diferente: dizem “estou a escrever”, em vez de “estou escrevendo”. No norte, o som do “v” se parece como o do “b”, como se fala no espanhol.

Na prática, as variantes do idioma não afetam o trabalho de um terapeuta da fala. Thaís faz um estágio em hospital não remunerado (porque não tem registro) e conta que nunca teve dificuldade de desempenhar qualquer função. “Faço vários exames. Em um deles, falo algumas palavras e as pessoas têm de repetir. Ninguém nunca reclamou”, garante.

Também já ajudou, informalmente, a filha de uma amiga portuguesa a pronunciar o /l/ do jeitinho português. “Cá em Portugal o fonema /l/ no final das palavras produz-se com a elevação da ponta da língua. Em duas semanas eu consegui instalar o fonema na miúda de 6 anos. Apesar de eu falar ‘Portugau’, porque sou brasileira, eu estudei a produção fonoarticulatória dos fonemas”, explica ela, já introjetando o “miúda” característico.

Por considerar o exame da ACSS “um absurdo”, Thaís tentou outro caminho para comprovar que fala, sim, português. Já tinha um laudo de um terapeuta da fala nascido, criado e estudado em terras lusitanas. O laudo foi apresentado, mas nada adiantou. Tentou fazer uma prova externa, mas a única certificação de idioma do Estado Português, do Instituto Camões, não é aplicada a brasileiros, pois dirige-se exclusivamente a quem fala português como língua estrangeira.

Enquanto aguarda uma solução, contínua no mestrado e faz até aulas de português europeu. “Resolvi estudar por causa do mestrado, não para mudar o sotaque, mas pelo fato de a gramática ser diferente — o que não quer dizer que seja melhor ou pior, certo ou errado. Como estudiosa da linguagem, penso ser interessante conhecer essas variações”, explica.

Apesar da frustração, Thaís mantém a esperança de conseguir validar de alguma forma seu diploma. Já contactou um advogado e deve ser a primeira do grupo das fonos brasileiras a levar o caso à Justiça. As demais se articulam para esperar a manifestação do juiz e, dependendo do teor, entrar uma ação coletiva. Para ela, a história realmente ainda vai dar o que falar.

[Transcrição integral de artigo com o título “Fonoaudióloga brasileira em Portugal luta para provar que fala português…”, com redacção da autoria de Luciana Alvarez, publicado online em “Tab” a 22.11.20. Destaques e “links” meus. Foi conservada, sem corrector automático ou manual, a cacografia do original em brasileiro. Base da imagem de topo: magalu (Brasil)]

[A reprodução de artigos e/ou conteúdos da autoria de terceiros tem por finalidade única a constituição de acervo documental sobre tudo aquilo que, segundo critérios meus, interessam ou dizem respeito ao chamado “acordo ortográfico” (e a outros detritos).]

Malhas que o II Império tece

Isto é uma das primeiras consequências visíveis, se bem que ainda de bandeirantes, das manobras de experimentalismo social e de engenharia política (ou vice-versa) da tremenda historinha a que se chamou — por facilitação propagandística — Comunidade dos Países de Língua Oficial Portuguesa (CPLP) e, por arrasto estupidificante, o indizível, risível, incrível AO90.

Alunos brasileiros, na miragem do canudo académico para serem “doutores”, vêm para Portugal “estudar” enquanto na maioria espreitam a Europa por um canudo, para a qual se esgueiram à primeira oportunidade, honra lhes seja feita, lá fura-vidas são eles. Se bem que a dupla nacionalidade lhes dê muito jeito, é até condição sine qua non.

Em suma, e mesmo deplorando qualquer hipotética violência (de que, aliás, não há notícia, à excepção dos delírios catastrofistas habituais), não deixa a local de ter todo o interesse — até pelo ligeiríssimo e imediatíssimo aproveitamento de umas minudências (e de umas quantas “bocas” estudantis), que para o efeito tudo serve, mesmo (ou principalmente) se não existir.

Há racismo nas universidades portuguesas

Museólogo;
deputado do Bloco de Esquerda
publico.pt, 17 de Novembro de 2020

Chegaram a público relatos de comportamentos xenófobos para com estudantes da comunidade brasileira (a maior a estudar em universidades portuguesas). As queixas que começaram a bater à porta das reitorias resumem casos de insulto permanente, exclusão social por parte de docentes, insinuações sobre a presença das brasileiras no país, tratamento inferior em residências estudantis.

Desde a aprovação do novo Estatuto do Estudante Internacional (Decreto/Lei 36/2014) que o ensino superior português iniciou um novo caminho no sentido da sua internacionalização. Mas de que tipo de internacionalização estamos a falar?

Este movimento de internacionalização da Academia em Portugal pressupõe a capacidade de atracção de novos públicos para as instituições de ensino superior. Esse movimento, que não é novo — estude-se, a título de exemplo, o caso dos estudantes dos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa) a estudar cá —, tem tido, essencialmente, um papel de balança na tesouraria dado o valor elevado a que estes estudantes estão sujeitos na hora do pagamento de propinas. Por outro lado, todas as vantagens inerentes a um alargamento da base cultural e étnica do espaço académico português parecem ter ficado na gaveta. O racismo incrustado na sociedade portuguesa estalou no universo onde o pensamento crítico devia imperar. Liberalizou-se a sua entrada, feudalizaram-se ainda mais as relações sociais com quem que chega de fora.

Conselho Nacional de Educação recomenda recolha de dados raciais de alunos no combate ao racismo

Chegaram a público relatos de comportamentos xenófobos para com estudantes da comunidade brasileira (a maior a estudar em universidades portuguesas). As queixas que começaram a bater à porta das reitorias resumem casos de insulto permanente, exclusão social por parte de docentes, insinuações sobre a presença das brasileiras no país, tratamento inferior em residências estudantis. No mês passado, a Universidade do Porto sentiu a necessidade de se desmarcar de uma nova página nas redes sociais onde estudantes da Faculdade de Engenharia partilhavam insultos a estudantes internacionais, principalmente dirigidos a jovens brasileiras. A página foi apagada, os insultos não ficaram esquecidos. A demora na tomada de posição por parte dos órgãos da própria faculdade também é reprovável. Já em 2019, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, tinha assistido a um momento tão triste quanto revoltante. Um grupo de estudantes decidiu oferecer pedras aos colegas portugueses para as poderem atirar aos “zucas” que passassem à sua frente no mestrado. Não é brincadeira, é xenofobia.

Existe, a par deste quotidiano violento, um conjunto de regras e práticas preconceituosas. Na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, aos estudantes brasileiros é-lhes exigida uma média de 16 valores para ingressar no curso, ao contrário de todos os outros estudantes (nacionais ou internacionais), que precisam de 13 valores. Vários estudantes queixam-se de não poder utilizar o português do Brasil em testes, exames e trabalhos, exactamente nas mesmas provas onde é permitida a entrega desses instrumentos de avaliação em inglês (facilitando a participação da restante comunidade estrangeira).

A mesma instituição que assume como um dos seus objectivos actuais a internacionalização parece ter dificuldades em adaptar-se à nova realidade que a própria criou: o aumento do número de estudantes internacionais — maioritariamente brasileiros — a estudar em Portugal. A universidade feudal-neoliberal é isto: assenta a sua relação num tratamento socialmente desigual, enquanto trata estes estudantes como activo financeiro com propinas abismais para equilibrar as suas contas.

Os novos colectivos de estudantes internacionais no Porto, em Coimbra, em Aveiro ou de cariz nacional são o primeiro grito de revolta sobre as suas novas vidas e novas opressões. É responsabilidade nossa, cidadãos que nasceram neste território e com tanta história de emigração, compreendermos as suas razões e sabermos apoiá-los.

Há racismo nas universidades portuguesas. Só fecha os olhos a essa realidade quem não sente na pele, quotidianamente, o que é ser tratada de forma diferente pela sua origem ou cor da pele, língua ou cultura. Uma universidade sem muros nem fronteiras ainda é projecto por vir.

[Transcrição integral de artigo, da autoria de um tal

Bom, enfim, em prol da nossa mais elementar sanidade mental, para espairecer de tantas amarguras alheias, aqui fica o poema de Fernando Pessoa que, por extenso, diz tudo (pronto, sim, tudo é exagero, vale, então, muito) do nosso extinto Império (e que serve de título a este “post”). Mal sonhava ele, Pessoa, bem como a maioria das pessoas, nanja no seu pior pesadelo, que a seguir viria outro, e ao contrário, o II Império (brasileiro).

O Menino de Sua Mãe

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas traspassado
— Duas, de lado a lado —,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino da sua mãe».

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lha a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço… Deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
«Que volte cedo, e bem!»
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.

[Foto de: “blog” Cartas das Trincheiras”]

Negócios da China


Mais do mesmo.

Estas “notícias” não são notícias e não têm absolutamente nada a ver com a chamada “lusofonia”, uma artimanha brasileira para impor o seu próprio linguajar (e escrevinhar) aos indígenas de Portugal e dos PALOP. A qual artimanha — ou golpada, para ser rigoroso — não passa de um pretexto (grotesco), bem entendido, para a protecção e “difusão” dos interesses económicos do Brasil “no mundo”.

Neste caso, na China, que de facto é o lugar mais adequado para fazer negócios, como sabe perfeitamente qualquer vigarista.

Claro que da pompa e circunstância dos anúncios — a fingir que são notícias — o que inevitavelmente resultará há-de ser exclusivamente uma universidade brasileira em língua brasileira, com a conhecida cortina de fumo (AO90) para esconder negócios da China brasileiros. Apesar de Macau, do Japão e de todas as orientais paragens que portugueses descobriram e colonizaram (ou ali se estabeleceram), criando laços comerciais duradouros, cooperação frutuosa, num encontro e simbiose de civilizações, algo absolutamente único no mundo, desde sempre e para nunca mais.

Temos, portanto, uma ex-colónia que não apenas coloniza a potência colonizadora como anda agora, 500 anos depois dos Descobrimentos portugueses, a apanhar bonés  nas outras ex-colónias portuguesas e a traficar os restos da nossa História no Oriente. Restos esses que lhes renderão lucros equivalentes aos de qualquer serralho saudita, ou de mil deles, como nas “Miu e Uma Noitchis”, mas a verdade é que o dinheiro não tem mau feitio.

O que virá a seguir? Para onde seguirá a ganância brasileira mai-las suas histórias para criancinhas (o AO90)? Para o Japão? A Indonésia? A Malásia? A Índia?!

Já sabemos de Angola e dos seus diamantes, de Moçambique e as imensas riquezas por descobrir, de Cabo Verde e as suas belezas naturais, de Timor-Leste e do seu mar de petróleo. Já sabemos (porque “vemos, ouvimos e lemos”) que Portugal está em época de saldos, cheio de coisas baratinhas, e até é calmo e tudo, não há cá massacres nem facadas nem tiros nem assaltos como no Brasil — um dos países mais violentos do mundo — e traz de brinde uma porta, a de entrada na Europa; mesmo a calhar para usar “isto” como trampolim (ou tábua de chamada), contornando maçadas como o Acordo de Schengen e outras “papeladas”. Tudo a coberto de um outro papel, o “acordo ortográfico” de 1990, para o qual se recomenda um uso, errrr… digamos… portanto… mais escatológico; intestinal, por assim dizer.

Enfim. O Brasil não se chateia com nada e muito menos ainda com “minudências”. Para esses aborrecimentos têm cá os tugazitos, essa raça de canídeos mais fiel aos brasileiros do que um Serra da Estrela ao seu pastor.

É oficial: China abre a primeira faculdade dedicada à língua portuguesa

Primeira faculdade dedicada à língua portuguesa, na China — Imagem: Universidade do Porto

Pela primeira vez abriu, em território chinês continental, uma instituição académica pioneira dedicada à língua portuguesa: a Faculdade de Estudos Hispânicos e Portugueses da Universidade de Estudos Estrangeiros de Pequim.

Aprofundar o ensino da língua e os conhecimentos sobre os países lusófonos, bem como aumentar o intercâmbio internacional são os primordiais objetivos da nova aposta universitária.

Até então, uma licenciatura em português só era possível na Universidade de Estudos Estrangeiros, sediada em Pequim, e na Universidade de Estudos Estrangeiros de Xangai. Contudo, desde 1999, as instituições de ensino superior chinesas têm apostado no incremento de licenciaturas lusófonas mais completas. Hoje em dia, mais de 1500 estudantes nacionais frequentam estes cursos. Contexto que será, ainda mais, impulsionado, devido à crescente procura por este tipo de formações.

Numa altura em que os mercados sino-lusófonos têm estreitado relações, a procura por pessoas que falem simultaneamente mandarim e português — atualmente a quarta língua mais falada no mundo —, tem crescido. Deste modo, graças à recém-novidade, serão abertas mais cadeiras de estudo, alicerçadas em sete áreas distintas: linguísticatraduçãoliteraturaciênciapolíticaeconomia e comércio.

É importante relembrar que o envolvimento económico chinês nos países lusófonos, nomeadamente em Portugal, Angola e no Brasil, tem sido fortalecido. Consequentemente, milhares de jovens têm demonstrado interesse em dominar o português — uma língua que começa a assumir-se, na contemporaneidade, como indispensável para o sucesso das transações inter-comerciais.

«Conexão “lusôfona”»]

Primeira faculdade de português na China quer aprofundar conhecimento sobre os países lusófonos

Faculdade de Estudos Hispânicos e Portugueses em Pequim vai sofrer uma reforma que reflecte a necessidade da China em formar melhores quadros para trabalhar com países de língua portuguesa.
A primeira faculdade dedicada ao português na China continental quer complementar o ensino da língua com conhecimentos “mais aprofundados” sobre os países lusófonos e “aumentar o intercâmbio internacional”, revelou hoje à agência Lusa a directora.” (fonte: Blogue do IILP)

Hiperligação para a notícia completa

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[Universidade do Porto]

[Notícia (e título) via Olga Rodrigues. Fotografia de topo de: “Expediente Sínico“. Fotografia do texto de: Barkyn.]

 

No Brasil, erros ortográficos não são erros…


Ora aqui está. Era mesmo esta exacta porcaria o que procurava  e finalmente  encontrei. Um caso oficial brasileiro (ou privado, mas sobre assuntos governamentais) que trata com os pés — e servindo-se das características arrogância e ignorância brasileiras — assuntos de admissão na função pública daquele “país-continente”. País incontinente, melhor dizendo.

Esta coisinha inacreditável reza assim na sua página “about“:

O portal Notícias Concursos foi criado em 2010 com objetivo de ajudar aqueles que almejam uma vaga na carreira pública, através de notícias e dicas relacionadas a Concursos Públicos. Nossos conteúdos prezam pela qualidade e objetividade.

Graças aos nossos leitores, resultado de um trabalho árduo, hoje atingimos mais de 15 MILHÕES de visualizações de páginas mensais.

Estamos sempre em busca de melhorias, tanto na qualidade do conteúdo quanto na disponibilidade de novas ferramentas.

“sobri nóis” ou equivalente

Ficamos cientes. Trata-se portanto de um site oficial-comercial-particular cujo “produto” maior é a estupidez, as cunhas ao pontapé, presume-se, e em suma um imenso apego à língua brasileira — isenta de erros porque tal coisa sequer existe, dizem aqueles brincalhões — que pretendem impingir à força a toda a população de expressão portuguesa.

Extraordinário. A maneira que o Brasil inventou para acabar com o erro na língua brasileira, falada ou escrita, foi abolir administrativamente o próprio conceito de erro. Não há disso no Brasil porque o erro não é erro. E o erro não é erro porque sim, ou, melhor, não existe erro em brasileiro porque não!

São de facto especialistas na matéria, isto é, a inventar coisas estapafúrdias e completamente imbecis: inventaram a CPLP, a “lusofonia”, a “difusão” da língua (brasileira) no mundo, a quarta (ou quinta, é indiferente) “língua de trabalho da ONU” e por fim o AO90 para servir de pretexto à colonização ao contrário e â promoção dos interesses geoestratégicos do Palácio do Planalto.

Caso alguém porventura duvidasse da intrincada maquinação que foi o “acordo ortográfico” — com os prestimosos serviços prestados por meia-dúzia de traidores e vendidos portugueses — tem aqui uma pequena amostra do que ganharam com a sua aposta mercenária.

Ridículos. Que a terra lhes seja pesada.

 

Um erro de ortografia é um erro de português?

por Wlianna Araújo  –  10 de novembro de 2020

 

É comum encontrarmos diversos sites que falam sobre “erros de português” que devem ser evitados em textos escritos ou mesmo na fala dos estudantes. Os tais erros muitas vezes são apenas marcas de oralidade ou problemas de ortografia. No entanto, há diversas questões delicadas quando se fala em “erro de português”.

O que é ortografia?

Primeiramente, é preciso compreender o que é a ortografia para saber o do que se trata um erro de ortografia. Muitas línguas naturais são ágrafas, diferente do português que tem uma longa tradição de cultura escrita. Desse modo, já se pode observar a partir disso que a ortografia não é natural, mas sim uma convenção.

A ortografia é, então, um conjunto de normas que padronizam a grafia das palavras de uma língua, ou seja, como se deve escrever os seus vocábulos seguindo um direcionamento oficial. Desse modo, a ortografia é uma decisão política e dita diversas regras para que haja certa unidade na escrita da língua. Sendo assim, esse sistema pode mudar ao longo dos anos. Exemplo disso é o que ocorreu recentemente com o Novo Acordo Ortográfico firmado entre os países lusófonos e que nos fez retirar, por exemplo, o acento agudo da palavra ideia.

Nesse sentido, é aceitável que se fale em erro de ortografia, caso o estudante escreva uma palavra fora das regras da ortografia vigente. No entanto, nomear tais problemas de escrita como “erros de português” é incorreto.

Existe erro de português?

O português, como qualquer língua natural, não funciona de acordo com regras preestabelecidas por um seleto grupo de falantes, como ocorre com a ortografia. Por mais que muitos alunos brasileiros acreditem que “não sabem português”, isto não é uma realidade do ponto de vista da Linguística, ciência que estuda as línguas.

Todos os falantes que adquiriram o português como sua língua materna, sua língua primeira, sabem português, pois sabem falar nessa língua, compreendem o que é dito e conseguem produzir uma infinidade criativa de sentenças nessa língua. Por mais que o falante não domine a norma culta do português ou qualquer outra norma privilegiada que seja bem vista socialmente, se essa é sua língua materna, ele não cometerá um “erro de português”.

Desse modo, há um grande equívoco em atribuir um problema de escrita de alguma palavra, como “caza”, “fui ao mossar” e “atensão“, por exemplo, a um erro de português. Na verdade, se trata de um problema de ortografia, já que as regras estabelecem que a escrita de tais palavras seja de outro modo: casa, almoçar e atenção.

Em suma, erros de ortografia não são erros de português.

Além disso, estes últimos não existem no que tange àqueles que tem o português como língua materna.

 

Notícias/Concursos (Brasil)

[Transcrição integral. Original publicado por Notícias/Concursos (Brasil). Destaques e sublinhados meus. Imagem de topo gerada no serviço WordClouds. Desenho de rodapé copiado do “blog” Timor Agora.]

«As raízes passeiam na escuridão» [por Diogo Vaz Pinto, jornal “Sol”]

É raro poder ler alguma coisa de jeito. De mais a mais quando essa coisa e esse jeito denotam uma total ausência de caganças, ou seja, sendo um texto escorreito que não arma aos cucos, simplesmente, ou, mais complicadamente, se demostra à saciedade que certa sociedade (“tipo” académica) não passa de balofa, inconsequente passagem-de-modelos fatela.

Feira de vaidades, montra de vacuidades, parada de militantes sem causa — para além do chequezinho mensal e da parábola mal parida que apenas aos próprios interessa.

De todas estas incompreendidas belezas, enfim, está a presente diatribe cheia, apenas lhe faltando por remate, palpito eu, o inerente, sonoro, retumbante, terminante arroto.

O Cânone. Intrigas e travessuras conventuais

Diogo Vaz Pinto
“Sol”, 24.10.20

Num gesto enfático de quem puxa o pano de uma coluna que não estava propriamente oculta, gesto a que se chama descerrar o monumento, surgiu entre nós um livro de ensaios de crítica literária com a pretensão de firmar a lista das listas. Mas “O Cânone” não traz grande novidade no que toca à eleição dos grandes autores da literatura portuguesa, e esconde, na verdade, um cânone secundário, ao mobilizar um conjunto de leitores da academia, formando um batalhão arregimentado para realizar uma marcha intimidatória entre os tantos percursos possíveis na memória que esta língua alcança.

Hoje, nem os esforços mais inoportunos ou aberrantes dispensam uma certa pompa, particularmente no que toca à vida cultural, essa que, no mesmo compasso em que vai perdendo relevância, e capacidade até de reflectir ou representar as experiências que vamos vivendo, parece enaltecer-se com a sua incapacidade de reagir. Mas, ao invés de assumir esta desistência, assume orgulhosamente a sua incapacidade de colar os cacos do tempo, de retomar uma qualquer razão ordenada, agarrando-se à boneca de pano de um passado morto, e apertando-a contra o peito nos momentos em que uma crise de ansiedade toma conta dela. Vemos assim um certo discurso fluir desde as regiões que se tomam por elevadas e que pouco difere do discurso dominante, esse que exibe, como notava Derrida, frequentemente aquele tom algo maníaco, jubilatório e encantatório que Freud reconhecia na chamada fase triunfante do processo de luto. Esse regime cadenciado, quando não ritualizado de certos encantamentos, é sinal tantas vezes de uma desistência ou até de rejeição profunda do futuro, e produz uma cultura de ecos cada vez mais fracos, de bocados, restos de frases, linhas em que o sublinhado sinaliza o que foi apropriado como um mantra, para manter o mais longe possível o mau-olhado do futuro.

Apareceu por estes dias uma colecta de textos de crítica literária investida, na forma como foi apresentada, desse delírio triunfal das patéticas ficções cheias do convencimento da sua preponderância. Assim, foram os próprios envolvidos a assumir que “O Cânone”, obra editada pela Tinta-da-China e financiada pela Fundação Cupertino de Miranda, deveria provocar algum celeuma, gerar uma torrente de reacções indignadas, e os editores adoptaram aquela pose desafiadora, como quem passa a mão pelo coldre, dizendo-se ansiosos por eventuais polémicas ou convites para duelos.

Por agora, depois de umas vagas notas na imprensa, instalou-se aquele concerto dos grilos, que apenas nos diz que a noite não tropeçou em nada. Não se ouviu gritos, e Vivien Leigh continuou com a cantoria no chuveiro. Houve duas sessões de apresentação, uma delas no Jardim Botânico de Lisboa, com Ricardo Araújo Pereira a assumir a moderação, e a cansar o velho número do pára-quedista que jura não entender porque raio insistem em chamá-lo para estas coisas. Essa sessão andou pela centena de pessoas seguindo a coisa em directo. Se alguém estava em pulgas para saber a lista dos escritores ou dos ensaístas o mais certo é que se tenha entretido a esmagar entre as unhas até à última das pulgas, pois a sessão foi tudo menos empolgante. A do dia seguinte, com apresentação a cargo de Pedro Sobrado, e as intervenções bem mais desenvoltas dos organizadores, especialmente de António M. Feijó e de Miguel Tamen, essa acabou por se mostrar bem mais compensadora para o pequeno auditório virtual que seguia a apresentação. Não estariam mais de 40 pessoas num mesmo momento a acompanhar esta segunda sessão. “O cânone é uma lista é uma lista é uma lista” começou por notar Sobrado, mas disse que sendo este um título anódino é, ao mesmo tempo, assombroso por tudo o que esta palavra consegue evocar – “desde o índice de textos sagrados até controvérsias sísmicas de especial magnitude”. Depois, e assumindo que existe hoje um meio literário, atendido e açulado por um público, deixando-se exaltar ainda por campanhas de promoção ou liquidação total, diz que este livro “possui um carácter incendiário”, isto por causa dos debates virulentos acerca do cânone, os quais por cá tão poucos acompanham como uma partida de futebol, e só por um rádio a pilhas, em diferido e com má recepção, tratando-se de pleitos travados noutras geografias. Sobrado punha essas querelas a par de outras motivadas pelas “sensibilidades pessoais e íntimas, confrarias académicas, tribos literárias. Mas é difícil perceber quem são esses a quem esta edição poderá causar mais do que um certo incómodo, algo mais que um beliscão ou um passageiro episódio de urticária. O mais natural é que, até por cálculo, diante de um esquadrão destes, os hipotéticos ofendidos deixem a coisa passar, e não se oiça ou leia mais que um resmoneio inconsequente à margem destas margens.

No entanto, é a presunção de que uma iniciativa editorial como esta possa assumir um carácter incendiário que chega a ser enternecedora, uma ficção ao mesmo tempo ingénua, como se, além da pauta fixada nos corredores, a tal listinha, fosse haver alguma revisão na bolsa dos valores literários, como se esta obra sinalizasse outra coisa que não um organigrama com a actual composição da comissão que dirige as festas e que tem o dedo na balança no que toca à promoção e despromoção dos autores a quem se vão dedicando teses, currículos e o raio. Sendo esta, em grande medida, uma recolha de actas, de circulares internas, de resumos de aulas, é disparatado quando Pedro Sobrado afirma que há o risco “de ninguém se rever n’O Cânone”. O verdadeiro risco que esta obra corre é de outra natureza: o de se estar tudo a marimbar e ser este gesto apenas mais outro exemplo da histeria algo nostálgica de uma “casta sacerdotal” que prega aos peixes e pouco mais. Um conciliábulo que, em face da ruína, não abre mão da postura teatral, com aquela atitude de soberba envolvida numa boa dose de anacronismo. Mas finjamos, por um momento que seja, aceitar o desafio, e discutamos essa ultrapassada questão. Não nos peçam é que levemos a coisa ao ponto de nos comovermos ou escandalizarmos com a intriga ou os personagens desta chatíssima peça de um só acto interminável, desfiando o delírio de um século ausente, a tossir o pó e as aranhas nos sótãos ou nas caves, entre a desilusão e o reacionarismo. Um século no qual um bando de académicos se convencem de que ainda são capazes de armar uma bulha dos diabos seja por, desta vez, Sophia não merecer senão uns piropos, seja por Eugénio ter sido deixado sozinho no Jardim de S. Lázaro a medir o tesão das flores ou Graça Moura em brasa e perdido no gozo com as suas musas em trajes menores, seja por terem recambiado Vergílio Ferreira para as évoras do Além ou Cardoso Pires para repórter de crime nalgum pasquim de pouco prestígio ainda que com mais proveito, até literário, do que o de tantas publicações académicas duplamente subsidiadas: quando são pagas e, depois, quando fazemos o favor de as ignorar.

O tom que caracteriza as intervenções mais contundentes neste volume é o da empáfia, o de uma injustificada sobranceria, um registo que se aproxima mais da crónica que do ensaio de crítica literária. E é Miguel Tamen quem se destaca nessa potestade que, nas voltas que dá, vai desenhando o seu próprio ralo, o vazio onde tudo acaba, entre banalidades denotativas, arremedos dando nó ao saco das obviedades ululantes, deduções vulgares, infusões e vapores achacantes, tudo como quem se baixa para acariciar um papagaio imaginário ou numa cadência de quem marcha e leva atrás de si uma pequena tropa. Sirva de exemplo a entrada que dedica a Portugal: “Quando se fala de Portugal, como aliás de literatura portuguesa, há uma grande diferença entre o que os portugueses fazem e o que os outros dizem. No caso da literatura portuguesa pode pensar-se que tal se deva a terem os portugueses lido mais livros de literatura portuguesa que os não-portugueses. Acontece que poucos portugueses leram literatura portuguesa, e a maior parte não se lembra de nada”. Aqui e ali, deparamo-nos mesmo com apatetadas tentativas de comédia: “Bem entendido, os portugueses não são uma pessoa ou sequer um animal. A palavra ‘portugueses’ designa uma soma de pessoas muito variadas, e não um ser vivo independente, por exemplo uma pessoa muito grande, ou muito gorda, ou com muitos braços.”

Mas o que mais denuncia esta atitude de quem, a coberto da liberdade da crítica para expor opiniões, usa de um tom jocoso, e faz desse exercício uma forma de tagarelice, em que as provocações degradantes assumem um tom de snobeira insuportável, lê-se numa passagem como esta: “Os portugueses, tantas vezes impiedosos com os erros de ortografia e as imprecisões em guias turísticos compostos no estrangeiro, tendem a encarar com mais benevolência o Holocausto só porque muitos refugiados, e mesmo alguns refugiados ilustres, passaram brevemente por Lisboa, como num grande congresso internacional. Tudo no mundo, acreditam, existe essencialmente para chegar a Portugal.