Etiqueta: pulhítica

“Não falo o português.” Ah, pois não, não.

Dada a sua evidente raridade, merece destaque o reconhecimento que uma autora brasileira publicou, em brasileiro, num jornal diário português. “Não falo o português”, diz ela. E diz muitíssimo bem.

A expressão “português do Brasil” está de tal forma enraizada no imaginário de alguns portugueses e na estratégia política do Brasil que chega por vezes — tanto nos meios mais passivos, porque ignorantes, e são muitos, como nos círculos mais bajuladores e parolos, que são ainda mais — a passar por verdade incontestável. Nada de mais falso, evidentemente, e nem o matraquear constante de tão bizarro wishful thinking (ou tão estranha alucinação) de uns e de outros, analfabetos e deslumbrados, poderá jamais abalar a realidade: a Língua Portuguesa e o brasileiro são tão diferentes entre si como o Português e o Galego, por exemplo, mesmo dando de barato que a Língua Galega, ao contrário da brasileira, mantém intactas as estruturas gramaticais — nomeadamente a sintaxe — comuns a ambas as Línguas.

Para ilustração da similitude entre o Português e o Galego, o que exclui liminarmente dos termos de comparação a língua brasileira, serviria qualquer uma das milhares de gravações “made in” Galiza que se podem encontrar no Youtube. Servindo apenas de exemplo, por conseguinte, mas também porque versa um assunto relacionado com a colonização linguística, o vídeo seguinte ilustra perfeitamente a evidência: Português e Galego são efectivamente quase iguais, com regras comuns, inteligíveis e coerentes entre si.

Portanto, como mais uma vez se vê e comprova — aliás, caso alguma dúvida subsista, basta ir a Sanxenxo, por exemplo, que é já ali, e falar seja com quem for –, entre o Português e o Galego existem muito menos diferenças do que entre o Português e o brasileiro. Repita-se: as duas línguas ibéricas partilham exactamente as mesmas regras gramaticais, ao passo que a ex-colónia sul-americana as demoliu; os brasileiros têm obviamente o direito de fazer o que entenderem com aquilo que aos brasileiros pertence, incluindo a língua cuja origem portuguesa tanta repugnância lhes causa.

Justificam-se assim os encómios devidos à “jornalista formada pela Universidade de São Paulo, especializada em Jornalismo Digital“, por ter ousado — ou terá sido por mera distracção, quem sabe — escrever e publicar, para variar, contrariando a pandemia de públicas mentiras e negócios privados, a verdade, toda a verdade e só a verdade: não fala português.

Pode até não ser exactamente um acto revolucionário, ao contrário do que escreveu Orwell, mas a verdade liberta (João 8:32) ou, pelo menos, não merece castigo.

Saudações, PT (BR)

Com uma expressãozinha pequena, revelo minha brasilidade e descubro, todo dia, que não falo o português.

Letícia Sorg
“Público”; 6 de Fevereiro de 2023

Na escola brasileira, ao lado de clássicos nacionais, como Machado de Assis, João Guimarães Rosa e Clarice Lispector, os alunos precisam ler obras de Eça de Queiroz, Agustina Bessa-Luís e José Saramago. Comigo não foi diferente. Naquela altura, aos tropeços de uma jovem leitora preocupada com exames, pouco me importava de que lado do Atlântico estava cada autor. Já me era suficiente saber as escolas literárias e os estilos de cada um.

Não me recordo de ter estranhado mais o vocabulário de um Eça do que de um Machado. Os textos de ambos eram maravilhosamente diferentes e belos aos meus olhos adolescentes. E talvez tenha nascido bem ali uma grande ignorância que ora confesso: sempre achei que a minha língua fosse o português. Desde o ano passado, porém, venho descobrindo que falo um português.

A minha conclusão é de uma obviedade acachapante para os portugueses, que cresceram a ouvir os brasileiros tomando liberdades com sua língua materna novela atrás de novela. Nunca imaginei que agradeceria a Manoel Carlos por ser tão bem percebida (vejam como estou a aprender, sem gerúndio também). Viva o nosso softpower, que agora passa também por youtubers e influenciadores digitais que cruzam fronteiras.

No Brasil, especialmente em 1980 e 1990, porém, não tivemos a sorte de ter contato com produções culturais portuguesas que nos apresentassem as diferenças linguísticas e nos preparassem os ouvidos. No máximo, de vez em quanto, topávamos com algum software que pedia para escolher: PT-PT ou PT-BR? Algo que eu fazia sem dar qualquer atenção.

Trata-se de uma ignorância tão grande que o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, ao ouvir a pergunta de um jornalista português numa coletiva de imprensa, no ano passado, respondeu que não sabia falar… espanhol. Mas, bem, às vezes eu também tinha dúvidas se ele e eu falávamos a mesma língua!

Este é meu primeiro contato mais intenso com Portugal. Antes disso, só havia cá estado (ou estado aqui, se eu for seguir o meu português) uma vez, em 2018, para um evento quase todo em inglês. E não há um dia em que eu não descubra uma palavra ou expressão novas. Talvez eu não tenha reparado que Eça falava outro português porque, naquela época, não havia nem autocarrro/ônibus, nem telemóvel/celular.

Também tenho de lidar com a sensação diária de escrever e/ou falar “errado” – o que é particularmente incômodo para alguém que trabalha com a língua. Há regras diferentes para os porquês e, confesso, ainda me dói ver uma pergunta com “porque” juntinho.

Falando em juntinho, adoro a relação dos portugueses com o diminutivo. Há jantarinhos e até beijinhos que podem, ainda assim, ser grandes. Beijinhos esses que me causam alguma confusão quando enviados “para si”. No Brasil, esse pronome oblíquo só é usado de maneira reflexiva em referência à terceira pessoa. “Ele cuidava de si próprio” seria levemente pleonástico, por exemplo. Quando enviam “beijinhos para si”, logo penso num “autobeijo”, para só depois retribuir. E, com essa breve observação linguística, espero ter ajudado os portugueses a ler o olhar confuso que pode surgir em alguns brasileiros diante de uma situação tão gentil.

Mais curioso, porém, foi perceber que basta uma reles palavra ou expressão para descortinar minha origem toda.

– Tô!

– Alô?

A rigor, ao atender o telefone, queremos só testar se o canal está funcionando: tanto faz a palavra que se usa. Mas não deixa de me soar divertida a maneira portuguesa de cumprir essa função fática. Quando alguém diz “por favor” (não “faz favor”) e “imagine” (no lugar de “por nada”), também é quase como se apresentasse um passaporte brasileiro. Agora, com licença, que achei bem elegante essa forma PT-PT de dizer “tchau”, mas deixar entreaberta a porta da comunicação.

A autora escreve em português do Brasil.
Jornalista formada pela Universidade de São Paulo, especializada em Jornalismo Digital


[Transcrição integral (incluindo “links” a azul e destaques a “bold”) de artigo,
da autoria de Letícia Sorg, publicado pelo jornal “Público” em 6 de Fevereiro de 2023.
Sendo a autora brasileira, esta transcrição não foi corrigida automaticamente.
A expressão “português do Brasil” é da autoria do “Público”.
Destaques e “links” a cor verde acrescentados por mim.]

…E a “igualdade” demográfica

Seria não apenas estúpido como absolutamente inútil confrontar a realidade dos números com a manipulação da propaganda oficial. Os dados até podem ser os mesmos e provenientes das mesmas fontes, isso é indiferente, o que na verdade importa é a forma como os resultados são apresentados: o copo estará ou meio cheio ou meio vazio consoante quem olha para ele, assim como a estatística dirá sempre que se numa mesa abancarem duas pessoas e uma delas devorar um frango assado e a outra nada, então, em média, cada um dos comensais teve direito a meio franguinho. Fifty-fifty, assim sendo, os números não mentem, aquilo foi uma refeição a mielas, e tanto assim é que se fossem quatro à mesa e não dois, então por força cada qual teria, em média, abichado 25% do galináceo que um só deles enfardou inteiro.

Ignoremos cacarejos e penas a esvoaçar, por conseguinte, mas atendamos aos números reais.

No quadro de dados a seguir pode ver (click na imagem para a ampliar) os resultados da variação populacional — absoluta (em milhares) e percentual — entre os anos de 2014 e 2021.

Click na figura para ampliar

Click na figura para ampliar. Dados/quadro de: Pordata. Nem na Pordata nem no I.N.E. nem no “portal” do Governo existem, à data deste “post”, quaisquer dados actualizados referentes a 2022.

A seguir, um vídeo da Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS) em que se tenta explicar — se bem que à custa de algum futurismo, necessariamente especulativo — a evolução dos chamados “indicadores demográficos” (saldo natural, saldo migratório) e a forma como as tendências em anos mais recentes podem projectar-se no futuro.

Um estudo inédito da FFMS mostra o impacto das migrações em Portugal, um país a perder população e onde, até 2060, faltarão recursos humanos.

Porém.

As tendências podem projectar-se no futuro… ou não! Dependerá de inúmeras variáveis, é claro. Este estudo da FFMS é de Maio de 2017, já lá vão quase sete anos, mas nele se assume por antecipação (e uns pozinhos de bruxedo) uma perspectiva que ainda hoje não apenas perdura como parece ter sido revista e aumentada: Portugal está a envelhecer e só a imigração em massa poderá retardar o processo (note-se o sublinhado), servindo a “redução da emigração” como contribuição (outro sublinhado) para esse retardamento. Quanto ao retorno de nacionais, nada de concreto, e no que diz respeito a, por exemplo, medidas de incentivo à natalidade, outro tanto, ou seja, nada. O objectivo político confunde-se com uma espécie de wishful thinking; muito à portuguesa, bem ao jeito do nacional chico-espertismo, será portanto a velha política do “deixa andar e depois logo se vê“.

Ou então toda a campanha de propaganda não será exactamente o deixarandarismo tradicional…

Afinal, se virmos bem, as peças do puzzle encaixam perfeitamente no plano geral. Está tudo previsto desde o início. E mesmo aquilo que porventura não fosse de todo previsível mas que possa dar jeito há-de encaixar também e servir para abater quaisquer objecções, dúvidas ou simples cepticismos — a política do “fato consumado” vai fazendo o seu caminho, dê lá por onde der, e de facto já alguns ajustaram a gravata do dito fato.
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O interior da “igualdade”

«Apoio financeiro atribuído pelo IEFP, IP aos trabalhadores que celebrem contratos de trabalho por conta de outrem ou criem o seu próprio emprego ou empresa, cujo local de prestação de trabalho implique a sua mobilidade geográfica para território do interior.»

1 – «Se a entidade empregadora não tiver atividade registada em Portugal, apenas terá de indicar a designação da entidade empregadora e a atividade económica da mesma.»
2 – «Indicar se a atividade profissional é realizada à distância

[Guia de apoio à apresentação de candidaturas (04-02-2022), transcrição com a cacografia brasileira do original.]

Tudo isto é de facto muito estranho. O assunto já aqui foi referido mas é mais do que evidente a complexidade da matéria, dada a profusão da legislação envolvida e das entidades públicas e privadas, organizações profissionais ou particulares intervenientes: Governo, IEFP, escritórios de advogados, empresas de fornecimento de trabalho escravo (vulgo, “trabalho temporário“), youtubers, “influencers” e palpiteiros a granel. Curiosamente, ou talvez não, do que pouco ou nada se sabe é da participação dos municípios do “Portugal profundo” que teoricamente ficariam muitíssimo gratos por esta extraordinária benesse concedida pelos seus deles compinchas do Terreiro do Paço, de Belém e de São Bento.

De facto, quanto a consequências práticas ou directas, a propaganda ao “Programa Interior Mais” é imenso mas quanto a resultados, números, dados, a coisa fica-se por uma de duas cambiantes: ou contabilizações sempre atrasadíssimas dando conta de uma aparente exiguidade da acção, ou então sobra um silêncio ensurdecedor que nada esclarece nem clarifica nem, principalmente, justifica os meios implicados.

Aliás, os números que resultam daquele programa são paradoxais em relação a um outro que, esse sim, faria todo o sentido mas parece ter tido resultados meramente residuais, quase nulos: o “Programa Regressar“, que teoricamente serviria para incentivar o regresso à Pátria dos portugueses forçados a emigrar em anos recentes.

«Encerrámos o ano de 2022 com um universo de candidaturas de 6.705 acumuladas no período da vigência do Programa, com o potencial de pessoas envolvidas de cerca de 15 mil emigrantes e seus familiares. A taxa de aprovação de candidaturas até ao momento é superior a 70%, com cerca de 4.800 candidaturas aprovadas [“bom dia Europa“]

Não valerá talvez a pena especular sobre a simultaneidade de ambos os programas, mesmo sendo de senso comum que em política não há coincidências, mas não deixaria de ser curioso estabelecer relações de causa e efeito entre um e o outro para entender as diferenças nos efeitos práticos de ambos. Sintetizando o mais evidente, uma coisa não interessa a praticamente ninguém — mas a outra interessa a muitos milhões.

4800 EUROS PARA MORAR NO INTERIOR DE PORTUGAL (PRAZO FINAL)?! (Ep. 878)
Diário da Cidadania por Célio Sauer

Apoio para trabalhadores em Portugal: 4800€ ao morar no interior

Em 17 de julho de 2020, o governo de Portugal publicou um decreto-lei para lançar o programa Emprego Interior MAIS, que previa dar apoio financeiro aos cidadãos que quisessem se fixar em determinadas cidades do interior para trabalhar, atendendo a alguns requisitos.

A intenção era que o programa terminasse no final de 2021. Porém, houve um prolongamento desse prazo e outras mudanças que podem ser uma oportunidade para brasileiros que se enquadram nas condições para se candidatarem.

Na última segunda-feira (6), foi publicada uma portaria que estende o prazo do apoio para trabalhadores em Portugal até 31 de dezembro de 2023, além de alargar a sua abrangência a quem vive fora de Portugal e a situações de teletrabalho.

Nacionalidade Portuguesa (Brasil)

Nacionalidade Portuguesa
39.2K subscribers | 44,604 views | 6 Sept 2022

Morar nas cidades do interior de Portugal nem sempre é uma das primeiras opções dos brasileiros que pretendem se mudar para o país europeu. Mas você sabia que existem cidades incríveis em lugares mais afastados dos grandes centros, com poucos moradores e muita qualidade de vida? Confira nesse vídeo algumas sugestões de cidades para morar no interior de Portugal e quais as vantagens e desvantagens.

QUEM SOMOS A Nacionalidade Portuguesa nasceu em 2015 com o propósito de levar conteúdo de qualidade aos brasileiros que desejam visitar, morar, estudar ou investir em Portugal. Hoje, nosso blog é referência em conteúdo sobre Portugal e como é viver no país, com artigos publicados diariamente. Contamos também com a parceria do escritório Martins e Oliveira Advogados que presta serviços especializados para quem deseja adquirir um visto ou a dupla cidadania portuguesa e já concretizou o sonho de milhares de brasileiros que desejam cruzar o oceano e viver no continente europeu.

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– Como é morar em Portugal: https://www.youtube.com/watch?v=qoCo9UHDHqM
– Imóveis em Portugal: https://youtu.be/eXWsYignh_g
– Investir na Europa e em Portugal: https://youtu.be/tO7a18Z5wKI

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[Transcrição ipsisverbis, logo, mantendo a redacção brasileira do original. Os “links” a verde são meus.]

O factor comum a toda esta (espécie de) informação é, como sempre, não existir uma única referência ao “Estatuto de Igualdade“; de igual modo, não aparece em lado algum qualquer menção, como se fosse para variar, à “divulgação”, à “expansão” e ao “valor económico” da “língua universau” brasileira (#AO90), assim como não se refere jamais a CPLB, o pretexto político utilizado para encobrir manobra(s).

Alegam alguns dos executores e propagandistas, do que resulta este programa légau, que a população portuguesa está excessivamente concentrada no litoral, o que é evidente, em particular nas grandes cidades, o que é igualmente evidente, e que, portanto, há que fomentar a re-colonização do interior do país. E quem melhor poderá levar a cabo essa patriótica tarefa — se bem que verde e amareladamente falando — além daqueles que, em termos de “igualdade”, são mais iguais do que os outros?
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Ignorância e apatia

«Esse é um problema da nossa justiça, uma espécie de anedota nacional que permite que um pescador de 79 anos seja detido por causa de uma caixa de sardinhas enquanto outros, hábeis com peixes mais graúdos, continuem a passar entre os pingos da chuva.»
[João Mendes, blog “Aventar”, 2015]

Constituir acervo sobre o #AO90, todo o seu historial, incidências, consequências e, em suma, as mentiras descabeladas de que se sustenta, coloca a quem o faz vários factores que podem — ou poderão ou poderiam, depende de cada qual — condicionar (ou não, de todo) as matérias seleccionadas para o efeito, sobretudo quando são prévia ou simultaneamente comentadas. A adjectivação implícita pode mesmo revelar-se algo arriscada, literal e figurativamente, apesar de todas as chamadas “garantias” dos mais elementares direitos titulados na Constituição da República.

A (triste) realidade, com a qual deparamos inevitavelmente se nos abstrairmos da retórica política, é que as “garantias” de “liberdade de opinião e informação” não garantem per se coisa alguma — do que resulta, na prática, a absoluta nulidade daquilo que se convencionou designar como “liberdade de pensamento”. Neste pressuposto, todo o capítulo da “lei fundamental” portuguesa, em que teoricamente são consagrados direitos, liberdades e garantias, vale o que vale: por alguma estranha razão, seria talvez mais prudente não quantificar esse valor em vez de lhe atribuir um rotundo zero.

Vêm estes considerandos a propósito dos reflexos (condicionados) — uma variante de icterícia mental — que já vão provocando na chamada “situação” (acordista, brasileirista, comodista, capitalista ou simplemente conformista) os alertas para o processo de demolição cultural em curso. São simplesmente palavras, na verdade, mas nada existe de mais perigoso para os ditos situacionistas do que traduzirem essas palavras a realidade, relatarem factos, demonstrarem a evidência das (suas deles) golpadas.

Daí, portanto, utilizarem esses tais a arma mais corriqueira do seu gigantesco arsenal de estupidez: a rotulagem. Característica intrínseca e definidora do vazio de ideias, a rotulagem é uma espécie de reflexo pavloviano que visa exclusivamente silenciar qualquer dissidência, ou, por extensão, seja quem for que se atreva a pôr em causa o “pensamento” tido por único ou vigente.

Rotular algo como “xenofobia” ou alguém como “racista”, nas diversas gradações dos termos e incluindo variantes mais ou menos delirantes (“preconceituoso” ou “reaccionário”, por exemplo), suscita conotações que denotam sobretudo desespero de causa. Ou seja, quem atira insultos assim que uma das suas vacas sagradas é picada fá-lo simplesmente porque não é capaz de articular sequer uma frase inteligível ou elaborar um raciocínio elementar.

Não é nada difícil por conseguinte, adivinhar as “reações” [ʁi.ɐ.ˈsõjʃ] à seguinte conjugação de factores, em termos comparativos.

1 – Entre 1974 e 1978, Portugal (então “continental”) terá acolhido cerca de 700 mil “retornados”, tendo esse facto provocado um naturalíssimo abalo nas estruturas e em todo o complexo tecido social da época, com o impacto do súbito e inusitado aumento populacional daí decorrente e com as inerentes implicações a todos os níveis, habitacional, laboral, empresarial e até cultural.

‘Retornados’ poderão ter sido mais de meio milhão

A estatística oficial diz que Portugal recebeu meio milhão de ‘retornados’ de África, mas o tenente-general na reforma Gonçalves Ribeiro, que coordenou as operações de acolhimento dos desalojados, reconhece que talvez seja “um número subdimensionado”.

(…)

Simultaneamente, a certa altura a lei restringiu os apoios a quem tinha antepassados portugueses, o que excluiu boa parte da população negra. (…) Em entrevista à Lusa, Gonçalves Ribeiro assinalou como o acolhimento das pessoas que deixaram África e vieram para Portugal “surpreendeu, de uma maneira geral, o mundo inteiro, a começar por países europeus, nomeadamente aqueles que também tinham colónias”. Impressionados, perguntavam-lhe: “Como é que um país pequeno como o nosso, em turbulência política, económica e social, pôde, num espaço de tempo relativamente curto, assimilar cerca de seis por cento da população portuguesa?”.

(…)

Olhando para a barra do Tejo, Gonçalves Ribeiro lembra o dia em chegou a Lisboa, no navio “Niassa”, embarcado em Luanda um dia antes da independência de Angola, juntamente com “o derradeiro remanescente da soberania de Portugal” naquela ex-província ultramarina. Mesmo perante a ameaça de “uma série de grupos” envolvidos no PREC, mais preocupados com “o umbigo” do que com o que se passava no Ultramar, a tripulação insistiu em atracar no cais de Alcântara, em Lisboa, onde tinha à espera “pequenas hordas ululantes” que consideravam aqueles últimos militares ao serviço do “império” português “reaccionários, conservadores e fascistas”.

(…)

Compreendendo as reivindicações que os espoliados, nunca indemnizados pelo Estado, mantêm até hoje, considera que “é insustentável esse tipo de expectativa”.

[Transcrição parcial de artigo publicado por “Notícias Ao Minuto” (com texto da agência Brasilusa), Abril 2014]

2 – Ora então, se 700 mil “retornados” — com a mesma Língua e partilhando os valores histórico-culturais e familiares dos portugueses “residentes” — provocaram semelhante abalo social, como é possível compreender que outros tantos 700 mil estrangeiros de nacionalidade brasileira não causem, segundo a “verdade” oficial, o mais ínfimo impacto no mesmíssimo tecido social nacional?

3 – E, quanto a motivações, em que ficamos? Os portugueses residentes nas ex-colónias tiveram de buscar refúgio na sua Pátria — na maioria dos casos possuindo apenas a roupa que traziam no corpo, caso não fosse emprestada –, ou arriscando a viagem para o “torrão” ou arriscando a própria vida, caso ficassem em África. O que tem esse facto a ver, que similitude existe entre as terríveis provações que todos os “retornados” passaram com a imigração de livre e espontânea vontade, em massa (para os padrões portugueses)? O que motivou uns foi a pura e simples sobrevivência. E quanto aos recém-chegados, o que será?
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Teorema dos assados

«Tento não falar muitas vezes do acordo ortográfico neste blogue, porque estou em crer que, nisto da língua, há muitos temas interessantes e importantes para lá dessa obsessão de tantos, de um e de outro lado da contenda tribal em que a discussão se transformou.» [Marco Neves]

Obsessão“? A sério?
Contenda tribal”? Não. De todo.

Enfim, com algumas reservas, porque nesta matéria devo ser de facto inflexível, aqui fica a transcrição integral de um artigo do (excelente) “Le Monde Diplomatique” sobre a última publicação de Marco Neves, um autor já aqui citado por diversas vezes. Além do texto desse artigo, em forma de entrevista, pode encontrar também, em baixo, uma “playlist” do “podcast” que deu origem ao livro.

À laia de comentário(s), caso queiramos ir “para lá” do significado estrito ou do conteúdo expresso na entrevista, relembremos uma realidade comezinha: a aprendizagem não se restringe à matéria ou ao objecto de estudo; muito se aprende também, e por vezes até mais do que em simples enunciados a granel ou em pilhas de calhamaços, com aquilo que não é jamais referido e, sobretudo, com o que poderá significar a absoluta ausência de referências a uma matéria basilar em determinado contexto discursivo, literário ou… ideológico.

Neste caso, como é por demais evidente, e por maioria de razões tendo em atenção que o tema é a Língua Portuguesa, o que não aparece referido de forma alguma é o #AO90. Nem expressa nem colateral nem subtilmente.

Ora, então, e porquê? Como é possível falar ou escrever sobre a Língua oficial de Angola e Moçambique, ainda para mais quando tanto se fala de “variedade”, sem mencionar uma única vez a manobra tardo-neo-colonialista dos vendidos tugas?

“Contenda tribal”? Isso não é possível. Os trogloditas estão todos do lado do adversário, da seita de vendidos, mercenários e traidores que venderam em 1986 e desde então traficam a Língua Portuguesa e, por inerência, a nossa Cultura, o mais valioso património identitário herdado por todo o povo português.

Para a pancadaria primitiva, é dos outros todo o arsenal de mocas e clavas, ou seja, de mentiras como pedradas, de asneiras violentas a esvoaçar. E é também inteiramente sua a bizarra obsessão (isso sim, é uma obsessão) pelo “gigante”, pelo “país-continente”, pela sonoridade pacóvia dos “230 milhões“.

“Assim ou Assado”. 100 perguntas sobre a língua portuguesa
SAM THEKID E MARCO NEVES
Oficina do Livro, Lisboa, 2022, 128 pp.,
15,50 Euros

Quando se diz a alguém que se é professor de Português ou apenas que se é da das línguas, surgem logo as perguntas sobre como se deve dizer ou escrever. Muitas pessoas querem saber o que é «português correto», dão muita importância a isso ou têm já convicções muito firmes sobre certas «correcções» e «incorreções», que gostam de ver confirmadas. Muita gente exprime opiniões veementes sobre coisas da língua, mesmo sem ter reflectido muito sobre as inúmeras questões que qualquer palavra, expressão ou regra levantam. Como diz Marco Neves, «é mais porque sempre ouvimos alguém dizer que [determinada coisa] não se podia dizer e, pronto, ficámos convencidos de que era assim. É também uma questão de identidade. Uma pessoa tem esta imagem de si de que cumpre esta norma, tem certas ideias sobre essa norma e defende-a, mesmo que implique contrariar a língua real falada pela comunidade». Além disso, acrescenta, «[h]á sempre um pouco de exclusividade social no uso da língua. Há palavras que as pessoas desprezam porque não gostam de quem as usa. Mas também, há outra coisa, há o medo… As pessoas têm medo de que seja tudo possível, lembram-se das regras que aprenderam e acham que agora podemos dizer tudo. Não é assim (antes pelo contrário)» E ele também compreende esse medo: «Há uma insegurança linguística muito marcada num país onde, até há poucas décadas, poucos sabiam escrever. (…) Gostamos muito de dizer “diz-se assim”. “Temos medo, no fundo, do assado.»

Marco Neves é «tradutor, revisor, professor, leitor, conversador e autor», e «pai, com o ofício de contar histórias». Samuel «Sam TheKid» Mira é «músico, produtor, poeta, compositor, leitor, realizador e conversador». São ambos conversadores, portanto, e têm em conjunto um podcast chamado Assim ou assado, em que conversam sobre temas de língua. O livro baseia-se nas 10 primeiras emissões do podcast, de 23 de Setembro de 2021 a 20 de Junho de 2022 (disponíveis em https://tvchelas.com/category/podcast). As perguntas e as respostas não são exactamente 100, porque perguntas e respostas não numeradas escondidas no meio das outras, mas 100, 10 perguntas por podcast, é só uma maneira de organizar a coisa. Quando se faz um livro a partir de conversas, ganha-se algo em organização, precisamente, mas há também algo que se perde: «Se transcrevermos uma conversa, vemos que está cheia de hesitações, de frases que não terminam, de meias palavras. Ao escrever, podemos voltar atrás, corrigir (…). A escrita imita a língua falada, mas é outro bicho.»

Como é natural, é mais Samuel Mira a levantar questões — de facto, a trazer à conversa muitas polémicas actuais sobre «erros» da fala e da escrita — e Marco Neves a dar as respostas. E, como acontece em conversas com alguém que saiba de língua e se recuse a ter uma atitude puramente normativa, a conversa passeia pela história da língua, fonética, sintaxe e semântica, sociolinguística, enfim, todas as áreas do saber linguístico.

Quem procure indicações claras do que deve dizer ou corrigir provavelmente ficará desiludido com o livro. O que se procura aqui é, antes, compreender os fenómenos linguísticos e encarar a língua na sua diversidade de registos, não definir taxativamente o que é «correto» ou «incorrecto» — sem cair, porém, no extremo de aceitar displicentemente que vale tudo o que de facto se diz ou escreve, só porque faz realmente parte da língua.

Também não é livro para especialistas. A obra visa claramente um publica leigo e o especialista poderá achar que algumas afirmações pecam por falta de rigor ou excesso de simplificação. O livro centra-se, antes, em conhecimentos básicos em que é preciso continuar a insistir: se, por um lado, é bom dominar a norma culta («as regras de etiqueta da língua») e usá-la nas situações adequadas, também se deve compreender que não há, muitas vezes, mais justificação para essas regras do que para as formas criticadas que se usam nos registos menos formais — e que o excesso de cuidado com a observância de uma regra aceite acriticamente pode, em várias situações empobrecer, descolorir e artificializar o discurso, seja ele falado ou escrito.
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Os assimilados do 28.º

assimilation, in anthropology and sociology, the process whereby individuals or groups of differing ethnic heritage are absorbed into the dominant culture of a society. The process of assimilating involves taking on the traits of the dominant culture to such a degree that the assimilating group becomes socially indistinguishable from other members of the society. As such, assimilation is the most extreme form of acculturation. Although assimilation may be compelled through force or undertaken voluntarily, it is rare for a minority group to replace its previous cultural practices completely; religion, food preferences, proxemics (e.g., the physical distance between people in a given social situation), and aesthetics are among the characteristics that tend to be most resistant to change. [Britannica]

O indivíduo que assina os dois textos cujas transcrições se seguem é portador de passaporte de cidadão português mas escreve, tanto no seu blog pessoal como no jornalzuca “Folha de S. Paulo”, numa mistura de cacografia brasileira — em construções frásicas características do Português — com a mais retinta língua brasileira, em todo o “esplendor” da respectiva anarquia gramatical. Por conseguinte, para que se possa aferir da medida do fenómeno de aculturação a que voluntária e alegremente não apenas o dito indivíduo como alguns outros tugas aderiram, tive o cuidado de desligar o conversor automático antes de, se bem com imenso embaraço e constrangimento, transcrever semelhantes obscenidades anti-vernaculares com igual lastro de pura estupidez.

Este Seu Manoéu, já anteriormente aqui citado, não apenas faz gala da sua “identidade” brasileira como tem por modo de vida impingir entusiasticamente ao tugazinho — que sem qualquer disfarce evidentemente despreza — a putativa bondade das pretensões tardo-neo-colonialistas do Itamarati e as ainda mais putativas virtudes dos números circenses em que ele próprio se especializou, como vergar a coluna até ao chão, limpar com a língua (aniquilando a Língua) o chão que eles literalmente pisam e fazer vénias infinitas aos “caras”.

Como desfecho do transcrito desfile de imbecilidades “puxa-saquistas”, surge a gravação de uma entrevista deste e de outro brasileiro à SICN. Realmente, trata-se de uma sequência linear: o Manoéu diz no primeiro texto que teve uma conversa com um gajo qualquer sobre a “terrinha”, daí salta para explicar a converseta, urbi et orbi, no pasquimzuca do costume, e por fim o mesmo Manoéu e o tal gajo qualquer (“gajo” em brasileiro é “cara”) são ambos, por mera coincidência, entrevistados por um canal de desinformação brasileirista da tugalândia.

Dessa suposta “entrevista” — pura e dura sessão de propaganda, é claro — ressaltam algumas frases lapidares que ilustram perfeitamente o facto de o processo de colonização inversa estar em curso e que métodos de intoxicação da opinião pública têm sido sistematicamente utlizados pelos media a soldo dos neo-imperialistas.

Tudo dito? Se calhar não. Ficaram desta vez claras, finalmente, as intenções daquela gente? Provavelmente não. E as técnicas de anestesia geral, o papel dos órgãos de intoxicação social, dos “opinion makers”, dos infiltrados, vendidos e traidores? Entendido? Parece que ainda não.

A inércia, a apatia, o embotamento, a indiferença? Nada? Nem assim?

Bom, será então necessário fazer um desenho. Mais um. Ou vários.

Não faz sentido pensar na promoção do Brasil no exterior sem considerar Portugal

JM-Diogo
Post published: Dezembro 21, 2022
blog “O homem de lá e de cá”

Em uma conversa política e viva com o Paulo Dalla Nora, falávamos sobre a imagem externa do Brasil. Entre os lagostins e a paçoca de amêndoa tentávamos compreender melhor as oportunidades em esta “nova era” de relacionamento entre Portugal e o Brasil.

Será que o governo brasileiro está olhando em todas as possibilidades? Será que já pensou no que fazer com este seu “novo estado brasileiro na Europa“? Portugal fará parte da cabeça da estratégia de promoção da imagem internacional do Brasil?

Quando chegou a sobremesa, depois do vinho do Dão, o Paulo dizia que não fazia nenhum sentido o BNDES estar em Londres — ainda por causa do Brexit, mas que ainda era menos razoável ter agência de promoção externa do Brasil – a APEX – agarrada às burocracias de Bruxelas.

Pensei que a melhor coisa era escrever sobre isso na Folha de S. Paulo.

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