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O calote brasileiro à CPLP

«A verdade é que a resistência de Portugal é de cunho político. As mudanças para os portugueses, “pátria da língua”, são maiores, visto que a influência brasileira nos demais países lusófonos cresceu muito nos últimos anos. Sendo Portugal a colonizadora, aceitar mudanças impostas pela antiga colônia significa receber um duro golpe na soberania nacional portuguesa.» [Toda a lógica instrumental do AO90 é brasileira» [jornal “Opção” (Brasil)]]

 

Fantástico. O Brasil, que inventou a CPLP para dar cobertura política ao “acordo ortográfico de 1990”, é o país mais caloteiro de todos os oito membros daquela agremiação a fingir. Proporcionalmente, o calote do “gigante brasileiro” seria, ainda assim, uma verdadeira pechincha: 75%, números redondos e em média, das quotas de Angola e Moçambique.

O único país cumpridor (fora despesas da sede e demais encargos da Organização) é Portugal.

O que significa, belo negócio, excelente golpada, verdadeiro negócio da China, que a dita agremiação é brasileira nos lucros (sem custos) e portuguesa nas despesas (que não ganha nada com o cambalacho, bem pelo contrário). Ou seja, Portugal paga fantochadas brasileiras. Maravilha.

Estados-membros devem à CPLP 3,8 milhões de euros em quotas — com Brasil a liderar

Segundo dados oficiais a que a Lusa teve acesso, o Brasil deve 1.536.907,36 euros por duas contribuições anuais em atraso de 768.453,68 cada, uma referente a 2019 e a outra em relação ao ano em curso.

E logo em segundo vem Moçambique, com um total de 756.701,10 euros em dívida para com a CPLP por três contribuições em atraso, relativas aos anos de 2018, 2019 e 2020, cada uma delas de 252.233,70.

Mas o estado-membro com o maior número de contribuições em atraso é São Tomé e Príncipe, que não pagou as quotas anuais de 2018, 2019 e 2020, cada uma de 41.808 euros, e a somar a isto ainda tem mais 16.801,07 euros da contribuições em 2017 por liquidar.

Assim, o total da dívida de São Tomé e Príncipe é de 142.225,07 euros, de acordo com o mesmos dados.

A Guiné-Bissau é outro dos estados-membros mais incumpridores, tendo também as contribuições de 2018, 2019 e 2020 em atraso, cada uma delas de valor igual às de São Tomé e Príncipe, o que lhe dá um total em dívida de 125.424 euros.

Apesar disto, o montante em dívida daqueles países é inferior ao de uma Guiné Equatorial, que tem apenas duas contribuições anuais em atraso, de 2019 e 2020, porque o valor de cada uma destas é superior (204.295,99 euro). Assim, o país tem por liquidar 408.591,98 euros de quotas para a CPLP.

Já Angola, com apenas a contribuição de 2020 por liquidar, deve 589.291,90 euros.

Estes dois últimos países, bem como o Brasil, Portugal, Moçambique e Timor-Leste tem as contribuições mais elevadas para a organização.

Timor-Leste também só tem em atraso a contribuição anual de 2020, de 202.543,52 euros.

O mesmo se passa com Cabo Verde, país que tem a presidência rotativa da CPLP até Setembro deste ano, data em que a transferirá para Angola, na cimeira de chefes de Estado e de Governo.

O país só tem de liquidar a quota de 2020, de 41.808 euros, para ter as contas em dia.

Portugal é o Estado cumpridor, sem dívidas à organização e o único que já pagou a quota de 2020, em Dezembro de 2019.

O resultado dos atrasos de vários estados no pagamento das quotas é que o saldo devedor cresce de ano para ano.

Assim, depois de alguns países já terem liquidado quotas em atraso, o saldo devedor de 2017 é de 16.801 euros, relativo à dívida de São Tomé e Príncipe, em 2018 é de 335.849 e em 2019 cresce para 1.308.599 euros. Este ano situa-se em 2.142.242 euros.

Só quatro Estados-membros da CPLP pagaram quotas de 2019 e estão em atraso 1,3 milhões de euros

O valor das quotas em dívida dos Estados-membros da CPLP está a agravar-se, com apenas quatro destes a pagarem as contribuições obrigatórias de 2019, ficando em dívida 1,3 milhões de euros, segundo dados oficiais.

De acordo com os dados, a que a Lusa teve acesso, só Portugal (590.735 euros), Cabo Verde (41.808 euros), Timor Leste (202.543 euros) e Angola (589.291 euros) cumpriram até agora o pagamento das quotas de 2019. Os três primeiros pagaram no exercício devido enquanto Angola liquidou a sua quota já em Janeiro deste ano.

Assim, o secretariado-executivo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) contou com apenas 31% do total do orçamento aprovado para 2019, ou seja, cerca de 835 mil euros.

Mas mesmo depois de Angola cumprir o pagamento da sua contribuição, o valor das quotas em dívida, só do ano de 2019, ainda é superior ao montante já pago, atingindo 1,3 milhões de euros, com os atrasos de Brasil (768.453 euros), Guiné-Bissau (41.808), Guiné Equatorial (204.295), Moçambique (252.233) e São Tomé e Príncipe (41.808).

Já em relação a 2020, até agora, só Portugal pagou a quota. A contribuição anual do país, de 590.735 euros, foi paga antecipadamente, em Dezembro de 2019, ainda de acordo com os mesmos dados a que a Lusa teve hoje acesso.

Os atrasos nas quotas, tem dificultado o funcionamento do secretariado-executivo da CPLP e a implementação das iniciativas adoptadas pelos órgãos de decisão da organização, referiu à Lusa uma fonte da CPLP.

Em 2017, os Estados-membros da organização deviam 1,7 milhões de euros em contribuições em atraso de vários exercícios, mais de metade do orçamento anual da CPLP.

Aquele montante significava já um aumento face ao valor total de contribuições em atraso no ano de 2016, que era de 817.873 euros.

Em 2017, de acordo com as demonstrações financeiras, Brasil, Guiné-Bissau, Timor-Leste, além de Portugal, não tinham naquele ano qualquer pagamento em atraso à CPLP e os Estados-membros pagaram um total de 1,6 milhões de euros em contribuições.

Anualmente, a CPLP deveria receber em contribuições dos seus Estados-membros cerca de 2,7 milhões de euros por ano. Assim, só em 2017 ficou com um saldo negativo nesta rubrica de 1,1 milhões de euros.

O Brasil é o país que tem a maior quota para a organização, com um valor de 768.453 euros anuais, seguido de Portugal, com 590.735 euros, e de Angola, com 589.291.

Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe têm uma quota idêntica, de 41.808 euros. A Guiné Equatorial e Timor-Leste deveriam pagar cada um 204.295 euros anuais de quota e a Moçambique cabe uma contribuição de 252.233 euros.

Em 2017, Angola tinha em atraso apenas o valor de uma contribuição anual, ou seja, 589.291 euros, enquanto Moçambique devia um montante de 452.233 euros e Cabo Verde de 62.710 euros.

Já São Tomé e Príncipe tinha por pagar 16.801 euros e a Guiné Equatorial tinha um valor em atraso de 612.887 euros, ou seja, equivalente a três anos. Mas segundo fonte oficial, este país, que aderiu à organização em 2014, já tinha liquidado tudo e não tinha de quotas em atraso, à data em que foi divulgado o documento aprovado no Conselho de Ministros do Mindelo, em Julho de 2019.

Quanto ao ano de 2016, Angola e Brasil, tal como consta do quadro 17,1 das demonstrações financeiras de 2017, não tinham contribuições em atraso. E Portugal também não devia contribuições à organização, segundo documentos das contas.

Mas todos os outros Estados-membros tinham valores em atraso.

Timor-Leste e Guiné-Bissau terão corrigido, entretanto, a situação, enquanto outros Estados foram acumulando valores mais altos em dívida, com excepção de São Tomé e Príncipe, que fez baixar o seu valor em atraso de contribuições de 41.808 euros para 16.801 euros.

Integram a CPLP Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste.

[Source: Estados-membros devem à CPLP 3,8 milhões de euros em quotas — com Brasil a liderar – Economia. Os textos com a cacografia brasileira no original (neste caso,da Agência Brasileirusa), foi automaticamente corrigido com a solução Firefox contra o AO90 através da extensão FoxReplace do browser. Destaques meus.]

Dona Philomena e a prima Thereza

Imagem SlidePlayer de: prof. Nailton Matos (Brasil)


Aprende-se muito, ao rever 30 anos

Nuno Pacheco
“Público”, 05.03.20

 

Passam depressa, 30 anos. Mas não passa, porque nada a apaga, a memória dos tempos que viram nascer o PÚBLICO: 1988-89, quando ele foi idealizado e teve “luz verde”; e 1990, quando finalmente chegou às bancas, no dia 5 de Março. Eram anos de optimismo, em que, por imprevisíveis circunstâncias históricas (desde logo a queda do infame muro de Berlim), o mundo parecia abrir-se auspiciosamente a realidades bem menos sombrias, despedindo-se do veneno que ainda sobrava das duas guerras mundiais. Abriam-se fronteiras, abraçavam-se antigos adversários e tudo parecia entusiasmante, naquele distante início de década. Ora 30 anos passados, sem esquecer o muito de positivo que se viu e se fez, erguem-se muros, há fronteiras que se fecham, aliados que se apartam e velhos ódios ou medos que renascem, para lá dos que aproveitam o alarmismo do novo coronavírus. Deles falaram já neste jornal, e de forma claríssima, Jorge Almeida Fernandes (“O medo é um vírus e a informação é a vacina”), Teresa de Sousa (“Há um outro vírus a infectar a Europa”) ou Vicente Jorge Silva (“Os vírus e as quarentenas do mundo”). Não perdendo um só minuto a baixar os braços perante cenários sombrios, como nos parecem, à vista deles, pueris as ilusões de 90!

É instrutivo passar em revista o que de mais relevante sucedeu nestes 30 anos e que o PÚBLICO acompanhou em milhares de edições (chega hoje à n.º 10.907). Como? Uma solução prática e acessível é a Wikipédia. Há uma súmula desses factos, para cada ano, e em português. Universal? Isso é coisa que não existe, apesar da ilusão, que também surgiu em 1990 sob a forma de um acordo ortográfico internacional, de uma “unificação”. Na verdade, tais textos estão escritos em legítimo português do Brasil e, por isso, neles lemos coisas que por cá se escrevem de outra maneira (e nada relacionado com ortografias): “metrô de Moscou”, “vai ao ar [o último episódio de Friends]”, “lançado videogame”, “[sonda] aterrissa em Titã”, “Microsoft lança o novo console de jogos”, “festividades de virada de ano”, “primeiro turno [de eleições]”, “pandas marrons”, “ônibus espacial”, “Copa do Mundo”, “Quênia decreta toque de recolher”, “[inaugurado] primeiro trem-bala chinês”, “governo de coalizão”, “vítima de parada cardíaca”, “terremoto”, “Madri”, “Copenhague”, “Irã”, “Teerã”, “Bagdá”, “tênis”, “Aids”, “usina nuclear”, “astrônomos”, “colisão entre trem, ônibus e caminhão”, “decolagem do aeroporto”, “restos mortais de 1.270 detentos”, “ministro do trabalho se demite após 1 mês de denúncias de propina”, “torcidas de times de futebol”, “Facebook atinge um bilhão de usuários cadastrados”, “Cuba concede anistia”, “fenômeno astronômico permite ver Vênus próximo da Lua”, “alunissagem”, “Ronaldo ganha o prêmio da FIFA”, “narrador esportivo”, “israelenses e palestinos”, “sofria de câncer”, “disparos contra policiais”, “no Marrocos”, “dezesseis pessoas”, “caminhoneiros [em greve]”, “caminhões-bombas”, “Donald Trump e Kim Jong-un fazem reunião de cúpula”, “Suprema Corte da Índia derruba lei colonial”, “primeira espaçonave a pousar no lado oculto da Lua”, “mortos após um vazamento de gás”, “contêiner refrigerado de um caminhão”, “1917 vence prêmio de Melhor Filme”, “Brigid Kosgei quebra recorde mundial de maratona”, “[astronauta] aterrissa na Soyuz MS-13”, etc.

Dir-se-á que português não tem tradução, mas cada cultura tem os seus códigos. Se estes textos fossem escritos em Portugal, usar-se-iam outras palavras, que por sua vez soariam estranhas no Brasil. Nenhum acordo consegue iludir isto. E a ortografia? Tomemos o exemplo do coronavírus. Aqui sim, vemos que são possíveis os almejados “textos conjuntos”. Ou não? Em Portugal, na televisão, revistas e jornais (tirando honrosas excepções) lemos: infetado, infetada, infecioso, infeção, infeções, infetou, infetar, desinfeção. No Brasil, em breves rondas pelo Globo, Folha de S.Paulo ou BBC Brasil, lemos: infectado, infectada, infectados, infecção, infecções, infecciosas, infectologista, desinfecção. Tal como se escrevia em Portugal antes da dita “unificação” ortográfica. Não só: também se lê “detectado” e “detectada”, onde aqui passou a escrever-se “detetado” e “detetada”. Custa muito perceber que, de todas as ilusões de 1990, esta foi a mais idiota e inútil?


[Transcrição integral de: Aprende-se muito, ao rever 30 anos“, da autoria de Nuno Pacheco. “Público”, 05.03.20. A reprodução de artigos e/ou conteúdos da autoria de terceiros tem por finalidade única a constituição de acervo documental sobre tudo aquilo que, segundo critérios meus, interessam ou dizem respeito ao chamado “acordo ortográfico” (e a outros detritos). Imagem SlidePlayer de: prof. Nailton Matos (Brasil). “Links” (a verde) meus.]


‘A herança’, por Nuno Pacheco

A herança de Malaca Casteleiro e a alucinação unificadora da ortografia

Na morte do “pai” do Acordo Ortográfico de 1990, era preferível que tivesse ficado o homem e morrido a “obra”.

Nuno Pacheco, “Público”, 13 de Fevereiro de 2020

Há casos em que é justo dizer: morre o homem, fica a obra. Mas na morte de João Malaca Casteleiro, lembrado na maioria dos obituários noticiosos como “pai” do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90), era preferível que tivesse ficado o homem e morrido a “obra”. Apesar de ser difícil nutrir por ele simpatia, dado o que protagonizou, há que reconhecer-lhe a teimosa persistência num acordo que desde a génese era claramente um logro, mas que ele acabou por fazer impor.

Numa entrevista recente ao Observador, o linguista Fernando Venâncio (autor de Assim Nasceu Uma Língua, ed. Guerra & Paz, 2019) caracterizou deste modo tal logro: “O AO90 visava possibilitar um relatório, uma declaração, uniformes para todos os países de língua portuguesa. Visava, até, e aí já entramos no terreno da alucinação, conseguir a circulação de produtos linguísticos idênticos (traduções de literatura, legendagens, instruções de máquinas de lavar) por todas essas áreas do Planeta. Mas tenho de lhe tirar o chapéu, ao Dr. Malaca Casteleiro e seus próximos: foi com essa visão paradisíaca que convenceram os políticos.”

Pois agora que morreu, nem todos se apressaram a tirar-lhe o chapéu. No dia em que foi conhecida a sua morte, domingo, 9 de Fevereiro (a morte ocorrera no dia 7), a primeira notícia surgiu no Jornal de Notícias, assinada por Sérgio Almeida, seguindo-se, por esta ordem, as do Correio da Manhã, Sapo, PÚBLICO, Diário de Notícias, Observador e Expresso. O jornal i só no dia seguinte deu a notícia e apenas na edição em papel, numa breve de última página. Curiosamente, quer o Ciberdúvidas, quer o Instituto Internacional da Língua Portuguesa (sítio oficial do AO90), quer a Academia das Ciências de Lisboa (esta lamentando o falecimento numa curta nota) só no dia 10 deram notícia da sua morte. O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, evocou-o como “defensor da língua portuguesa” (sic), mas do Governo, ou de ex-governantes que o apoiaram, nada se ouviu. Só o silêncio. Quanto à CPLP, só no dia 11 expressou “profunda consternação e grande pesar” pelo falecimento.

Há outro motivo, na história da língua portuguesa, para recordar João Malaca Casteleiro: o Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa (ACL), também este controverso. Fundada em 24 de Dezembro de 1779, no reinado de D. Maria I e em pleno iluminismo, a então Academia Real das Ciências começou a editar um dicionário da língua portuguesa em 1793, mas não passou do primeiro volume, só com a letra A, volume esse que viria a ser reeditado, “com a modernização indispensável”, 183 anos depois, em 1976. E não passaria daí até 1988, ano em que a Fundação Gulbenkian “lhe concedeu os meios indispensáveis à remuneração permanente da equipa do Dicionário”, segundo escreve no prefácio do dito (que viria a ser publicado em 2001, mas já lá vamos) o então presidente da ACL, Pina Martins, que fala ainda num “vultoso subsídio pontual de duas outras entidades: a Secretaria de Estado da Cultura e a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento. Malaca Casteleiro foi indicado para coordenador e a equipa, cuja lista o livro integra, contou com 61 “colaboradores externos”que trabalharam no dicionário por “um período, em princípio, não inferior a seis meses”.

Enquanto isto, o que sucedia no mundo, nestes dois séculos, em matéria de dicionários do português? Publicava-se o pioneiro Vocabulário do padre Raphael Bluteau (de 1712 a 1728), o Dicionário de Morais (1789, com uma edição monumental em 1961 de 12 volumes, 12.278 páginas e 304.460 vocábulos), o de Eduardo de Faria (1853), o de Frei Domingos Vieira (1871), o Aulete (iniciado em 1881), o Michaelis (1887?), o Cândido de Figueiredo (1898), o Lello Prático Ilustrado (1927), o da Porto Editora (1952), o de José Pedro Machado (1958, com reedições em 1971 e 1981, esta com 12 volumes e um 13.º de actualização, em 1986, num total de 8063 páginas), o Vocabulário de Rebelo Gonçalves (1966), o Aurélio (1975) e o da Texto Editora (de 1995, que dedicava as suas últimas 48 páginas, num total de 1654, a dizer o que mudaria com o acordo ortográfico).

O da ACL sai em 2001, e com uma chancela comercial: a da Verbo. O mesmo ano em que, no Brasil, se publicava pela primeira vez o Dicionário Houaiss. Mas enquanto este, na edição portuguesa, logo em 2002 e também pela mão de Malaca Casteleiro (que coordenou a sua adaptação à ortografia de 1945), lamentava não ter havido “ainda vontade política de levar por diante a implantação do Acordo Ortográfico celebrado em 1990”, o da ACL omitia-o por completo. Como se não existisse. Dez anos depois de o AO90 ter sido assinado em Lisboa, a ACL punha à venda um caro dicionário em dois grossos volumes com a norma de 1945 (que ainda hoje está legalmente em vigor, assinale-se!), não dedicando uma só palavra ao acordo que o seu próprio coordenador fizera questão de “vender”, com êxito, a políticos desejosos de brilhar numa qualquer ribalta da História. Isto quando dicionários como o da Texto (de 1995) já incluíam listas de palavras que seriam alteradas no novo acordo! Uma alucinação por fases, que habilidade! Só que em todas elas coube ao público, e à língua, pagar o preço do desvario.

[Transcrição integral de:

[Transcrição integral de: «A herança de Malaca Casteleiro e a alucinação unificadora da ortografia»

A reprodução de artigos e/ou conteúdos da autoria de terceiros tem por finalidade única a constituição de acervo documental sobre tudo aquilo que, segundo critérios meus, interessam ou dizem respeito ao chamado “acordo ortográfico” (e a outros detritos). Imagem de origem/autoria desconhecida. “Links” (a vermelho), destaques e sublinhados meus.]

«O Politicamente Correcto» [Manuel Matos Monteiro, Editora Objectiva]

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Entrevista de Manuel Monteiro a propósito do seu mais recente livro Sobre o Politicamente Correcto, na Sábado que hoje…

Publicado por Editora Objectiva em Quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

«Pessoa de cor… Não conheço nenhum que goste, apesar de ser esta a nomenclatura politicamente correcta actual nos EUA. O meu problema com o politicamente correcto é a excessiva concentração no exterior do copo e não no seu interior, isto é, nas raízes do pensamento. Concentremo-nos no essencial.»

 

Lançamento Sobre o Politicamente Correcto

Lançamento do livro de Manuel Monteiro, SOBRE O POLITICAMENTE CORRECTO.

Publicado por Editora Objectiva em Segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

 

Sinopse

Manuel Monteiro, autor do aclamado Por Amor à Língua, vira a sua atenção para um tema que muita tinta tem feito correr nos media e nas redes sociais: o Politicamente Correcto e a linguagem a ele associada.

O cuidado e o respeito na forma como nos dirigimos ao outro e descrevemos o que nos rodeia são considerados, pela maioria, formas básicas de educação essenciais à boa convivência. A língua evolui com os tempos e ajusta-se a novas realidades, diferentes formas de olhar o mundo, algo natural no processo de transformação civilizacional

e social. Mas deverá este processo ser forçado? Serão todas as suas propostas positivas e igualmente defensáveis?

Estará o Politicamente Correcto a impor uma visão do mundo, ao invés de nela participar? Será possível – ou desejável – mudar mentalidades por decreto?

Argumentos de ambos os lados são pesados com a ponderação

e o humor característicos do autor acerca de um assunto mais

complexo do que aparenta e que mexe com o mais profundo da identidade de cada um: o modo como nos expressamos.

Em Sobre o Politicamente Correcto, após um aturado trabalho de pesquisa, Manuel Monteiro debruça-se sobre a vertente linguística (e não só) de um dos temas que mais têm apaixonado a opinião pública nos últimos anos: o Politicamente Correcto.

Os elogios da crítica sobre Por amor à língua:

«Este livro diverte, ensina, corrige, chama a atenção, ilustra, melhora-nos, dá vontade de ler – é um achado. É um elogio da nossa língua. Ninguém se sinta atacado. Estamos sempre a aprender. Bravo Manuel Monteiro(que não conheço) que o escreveu.»

Francisco José Viegas

«Por Amor à Língua é um livro chocante e salvífico. [#] Manuel Monteiro não está

a debater questiúnculas estilísticas – está a lutar contra a maneira como a grande maioria dos portugueses usa a língua.»

Miguel Esteves Cardoso, Público

«Uma obra em defesa da complexidade e beleza do Português que escrevemos. Missão mais

nobre não há.»

Expresso

«Manuel Matos Monteiro é autor de um notável trabalho de vigilância da Portuguesa língua.»
António Jacinto Pascoal, Público

Morreu Malaca Casteleiro

Morreu o linguista Malaca Casteleiro, “pai” do novo Acordo Ortográfico

Não foram para já adiantados pormenores sobre as cerimónias fúnebres do linguista João Malaca Casteleiro, figura central na elaboração do novo Acordo Ortográfico (de 1990).

O linguista João Malaca Casteleiro, figura central na elaboração do novo Acordo Ortográfico, morreu na sexta-feira, aos 83 anos, no Hospital da Cruz Vermelha, onde estava internado, disse hoje à Lusa uma colega e ex-aluna do professor catedrático.

Malaca Casteleiro, natural de Teixoso, Covilhã, licenciou-se em Filologia Românica, em 1961, tendo obtido o doutoramento pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em 1979, com uma dissertação sobre a sintaxe da língua portuguesa.

Professor catedrático naquela faculdade desde 1981 e membro da Academia das Ciências de Lisboa, Malaca Casteleiro foi o principal responsável na elaboração do novo Acordo Ortográfico de 1990, acordo esse que só entrou em vigor em Portugal mais de uma década depois (2009).  Foi o coordenador científico do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências.

Foi também director de investigação do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa, conselheiro científico do Instituto Nacional de Investigação Científica e presidiu ao Conselho Científico da Faculdade entre 1984 e 1987.

Foi ainda presidente do Instituto de Lexicologia e Lexicografia entre 1991 e 2008, tendo durante a sua longa carreira de professor orientado muitas de teses de doutoramento e de mestrado.

Em Abril de 2001, foi feito Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.

Não foram para já adiantados pormenores sobre as cerimónias fúnebres de Malaca Casteleiro.

Em declarações à agência Lusa, Margarita Correia, professora auxiliar da Faculdade de Letras de Lisboa e antiga aluna de Malaca Casteleiro, recordou o professor agora falecido como “uma pessoa muito generosa”, que “ajudou muita gente” e figura “importante na difusão do português na China e em Macau”.

Margarita Correia referiu que foi aluna de mestrado e doutoramento de Malaca Casteleiro e lembrou que o linguista e professor tinha duas frases predilectas que gostava de repetir aos alunos: “Dando liberdade e exigindo responsabilidade” e “quem nunca fez nada nunca é criticado”.

Recordou também que, em Outubro passado, Malaca Casteleiro foi alvo de uma homenagem dos seus pares da comunidade de países língua portuguesa, que decorreu na Universidade do Porto.

Não vejas, não oiças, não leias, não digas

Alguma alma caridosa poderia entreter-se a coligir um dicionário Politicamente Correcto-Português; bem sei que tão meritória quanto hercúlea tarefa seria quase impossível; todos os dias são inventadas mais umas quantas expressões idiomáticas e criados mais substantivos, adjectivos e verbos nessa espécie de Novilíngua muito boazinha.

Essa extraordinária manobra política, visando a criação de uma realidade alternativa — novinha em folha –, pretende extinguir administrativamente factos desagradáveis em geral e engulhos embaraçosos em particular. Torna-se assim, simplesmente trocando os nomes às coisas, isto é, chamando os bois por outros nomes, facílimo resolver de uma assentada inúmeros problemas sociais; por exemplo, para acabar com o desemprego basta eliminar a palavra “emprego”; uma forma expedita de erradicar a ignorância e a pura estupidez é passar a designar ambas por pensamento alternativo; ou, ainda mais genérica e prosaicamente, o politicamente correcto permite declarar que acabou a fome no mundo caso se torne obrigatório chamar-lhe “imenso apetite”.

À laia de contributo para um tal Dicionário do Politicamente Correcto (Manual de Engenharia Sociolinguística), previsivelmente um respeitável calhamaço, aqui deixo algumas amostras que ilustram a esmagadora imbecilidade, a espantosa estupidez dos fluentes, porém muito imaginativos engenheiros que inventam tais chinesices mai-los carneirinhos que jamais balem fora do penico.

  • pessoa portador/a de deficiência: deficiente
  • invisual: cego/a
  • pessoa com altura abaixo da média: enano (Espanha), anão
  • pessoa com excesso de peso corporal: gordo/a, badocha
  • vítima da sociedade com dificuldades económicas: bandido, meliante
  • afro-americano: negro
  • minoria étnica: ciganos
  • linguagem inclusiva: censura, higienização de palavras banidas/proibidas
  • técnico auxiliar de higiene, limpeza e segurança no trabalho: varredor, mulher-a-dias
  • pessoa problemática: sacana, gajo completamente avariado da caixa dos martelos
  • excluído da sociedade: pobre
  • aluno com necessidades especiais: cábula
  • estratégias pedagógicas: aprovação compulsiva de todos os alunos
  • doutoramento: grau académico conferido a quem souber ler e escrever
  • fumador: leproso
  • ligeira desavença: saltou-lhe a tampa, passou-se da marmita

Depois de um livro em defesa da língua portuguesa, o autor comenta o ‘politicamente correto’.

Entrevista de Francisco José Viegas, “Correio da Manhã”, 26 de Janeiro de 2020

 

Pouca gente tem dúvidas acerca da necessidade de a língua (os dicionários e a gramática) efetcuar uma espécie de ‘reparação’ a minorias étnicas ou sociais e sexuais. Manuel Monteiro, o autor de ‘Sobre o Politicamente Correcto’ (grafado com ‘c’, que o autor não segue o Acordo Ortográfico), cita George Steiner a esse propósito: as linguagens dominantes no Ocidente eram de uma ignorância assustadora sobre o Islão, a escravatura na América, o racismo e a cultura negra, bem como essencialmente masculinas. Para ‘reparar’ essas injustiças, a linguagem teria de mudar.

“Porém”, escrevia Steiner, “muito do que se tem verificado é um arrevesamento da argumentação e investigação responsáveis. […] Pseudoprogramas de ensino foram institucionalizados em detrimento de disciplinas indispensáveis, produzindo não uma libertação, mas novos guetos para os afro-americanos ou para os hispânicos. A história foi reescrita até ao ridículo”. E Manuel Monteiro dá um exemplo precioso, os alunos de uma universidade londrina exigindo a descolonização da escola, e propondo “que vultos como Platão, Descartes ou Immanuel Kant” deixem de ser estudados por serem caucasianos – brancos, homens e, já agora, velhos. A quantidade de exemplos desta novela de tolinhos tem vindo a compensar-me todas as semanas, quando faço a releitura da imprensa e descubro novos casos de limpeza, desde escolas que proíbem o Capuchinho Vermelho ou a Bela Adormecida até professores tarados que pedem que se queimem os livros de Flaubert, esse misógino machista.

Manuel Monteiro, seguindo essa pista, mas acrescentando-lhe os seus conhecimentos de linguista e competente revisor, estuda o “politicamente correcto português”, dedicando largas páginas a inventariar casos de destrambelhamento. A nossa vantagem é que Monteiro é também filólogo, ou seja, estuda a origem das palavras – e as suas explicações têm humor, graça e vêm com a fina poalha do sarcasmo. E do bom.

Em vez de nos ofendermos com quem fala e de nos ofendermos – logo – com quem se ofende, eu recomendo vivamente a leitura deste livro de Manuel Monteiro, o autor de ‘Por Amor à Língua’, um belo livro sobre a nossa língua, o último dos nossos bens.

Disco: Barroco e esplendor
O agrupamento La Serenissima deixou-nos (o disco é de Novembro) algumas gravações de grande esplendor sob o título ‘The Godfather’, dedicado aos mestres do barroco alemão e italiano. Aqui nos aparecem Pisendel ou Brescianello, ao lado de Telemann, Fasch ou Vivaldi – belos momentos para nunca mais perder.

Livraria: Gémea desigual e diferente
É gémea da Livraria da Travessa de Ipanema, no Rio de Janeiro (a minha preferida), mas não tem nada a ver: esta, do mesmo grupo brasileiro, fica no Príncipe Real lisboeta – e é uma livraria que apetece: escolhe os seus próprios livros, é bem iluminada, ameaça ser um lugar de encontro entre pessoas amáveis que gostam de livros e do final de tarde.

Bar: Vício de forma

Praticamente, a minha idade adulta começou aqui, no Snob, que existe há mais de 50 anos e não é – felizmente – um bar da moda; em vez disso, há bifes, carne estufada, croquetes, bochechas de porco, bacalhau à braz, pataniscas e álcoois de renome. Uma pessoa tem, periodicamente, de ir lá assinar o ponto no livro do Sr. Albino.

Fugir de…Pessoas que salvam o Mundo
Dá-nos conselhos sobre literatura ameríndia e o uso do copo menstrual com a mesma sensação de neutralidade, como se tivesse acabado de atingir o seu orgasmo semanal durante um exercício de ioga. Faz chá de gengibre, cravinho, limão e canela e tenta impingi-lo logo de manhã. Sabe quantos passos vão de casa até ao ecoponto mais próximo (agora acrescentou o depósito de compostagem). Quer ir a restaurantes onde servem carne para exigir mais opções herbívoras, passa horas a pesquisar “alojamentos sustentáveis” e anda sempre com uma garrafa atrás, pendurada numa mochila suja. Ui.

[Transcrição integal de: Quando falar é ofender – Domingo – Correio da Manhã”,26 de Janeiro de 2020. Editora: Objectiva. Imagem de topo de: Eric Drooker.]