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Ad H.O.C.

A ideia é mostrar a crianças a História como quem conta uma história.

Coisas simples e fáceis, factos, intervenientes e datas em contexto pedagógico adequado ao ensino básico, primeiramente, as quais a posteriori poderão ou não ter continuidade no secundário, consoante as áreas individuais de vocação e as determinações (eufemisticamente designadas como “orientações”) da tutela e dos imensos corredores ministeriais ladeados por gabinetes que superintendem na matéria.

Integrando estas noções elementares com as outras duas vertentes cujos esquissos já aqui foram traçados, a ortografia e a caligrafia, a História da Língua Portuguesa, no caso vertente com pouca ou nenhuma reminiscência da maçada habitual (ou do massacre virtual, a tiros de tédio) que por hábito se eterniza na disciplina de História (em geral) viria tornar coesa, conferindo-lhe solidez referencial e estabelecendo uma base epistemológica para a compreensão do fenómeno linguístico em toda a sua latitude. Nada de complicado, detalhado ou miudinho, realce-se de novo, já que é de crianças e pré-adolescentes que falamos quando falamos da (sua) Língua e do que ela significa enquanto memória individual e, sobretudo, colectiva. Desde que de forma estruturada, porque é estruturante, esta nova disciplina curricular (e básica) terá necessariamente de vir a singrar num futuro próximo — assim ressuscitem do estupor os professores e da sua catatónica paralisia os responsáveis do Ministério da Educação.

Tal disciplina (ou matéria, no 1.º ciclo do Ensino Básico) poderia reunir as três áreas de conhecimento e estudo, num acrónimo simples como, por exemplo, HOC – História, Ortografia e Caligrafia do Português. Sendo nuclear, na vetusta acepção entretanto caída em desuso mas hoje tão válida como sempre, a nova disciplina seria coadjuvada por outras áreas curriculares, a começar, evidentemente, pelas disciplinas de Língua Portuguesa e de História, mas envolvendo também as da área das artes visuais (ou manuais).

Construída sobre uma base dirigida à compreensão, sem excluir as extraordinárias capacidades de memorização, características intrínsecas da infância e da pré-adolescência, sem quaisquer pretensões de uma pormenorização excessiva ou redundante, diversas matérias poderiam servir, quando muito, de mera ilustração da sequência cronológica e das relações de causa e efeito entre o passado e o presente da nossa Língua. Alguns desses exemplos poderiam ser, entre outros e apenas como ecos do passado mais remoto, o Tratado de Zamora (1143), a Notícia de Fiadores (1175), o Testamento de D. Afonso II (1214), o Pentateuco de Gacon (1487), a Gramática de Fernão de Oliveira (1536). Referências a um passado mais recente, digamos assim, desde a Carta de Pero Vaz de Caminha à Peregrinação de Fernão Mendes Pinto (servindo esta obra como ponto de partida para a compreensão do fenómeno da efabulação, da qual o AO90 foi o ponto de chegada) poderiam também enquadrar, porque respondem à pergunta elementar “como chegamos aqui, não apenas o que é a Língua Portuguesa mas principalmente porque é assim e não de outra forma qualquer.

A fruição estética, em termos de técnica de abordagem pedagógica, é um método com bastas provas dadas. Se a essa vertente, que apela à sensibilidade individual, juntarmos a do apelo à compreensão — para a qual a memória contribui decisivamente –, então poderemos ao menos acalentar a esperança de que as crianças e jovens transportarão para o futuro, intacto, porque sabem explicar o presente com exemplos do passado, o legado mais precioso dos seus antepassados: o Português.
Aires Almeida, https://creativecommons.org/licenses/by/2.0 CC BY 2.0, via Wikimedia CommonsTudo começou, como sabemos, pelo Tratado de Zamora, em 1143, e, uns anos mais tarde, pela bula “Manifestis Probatum”, em que o Papa Alexandre III outorga a D. Afonso Henriques o título de Rex. Os dois documentos desencadearam as consequências políticas inerentes, absolutamente decisivas, pelo que podemos afirmar que foi somente após a materialização por escrito dos actos, factos e personagens envolvidos que nasceu o país a que ainda hoje se chama Portugal. À excepção da tradição oral, meramente utilitária, individual ou grupal e meramente pragmática, não existe História sem suporte escrito. É desse mesmo suporte, constituindo no caso o corpus linguístico português (ou do Português), que às crianças e jovens portugueses deve ser dado ao menos algum conhecimento — o mínimo indispensável para que o conhecimento dado fique e perdure no tempo como legado.

Apenas por essa via, o caminho do saber que leva ao entendimento, será possível travar o passo a qualquer ataque e liquidar na origem quaisquer aberrações que atentem ou façam perigar a sua Língua nacional, ou seja, a independência nacional que em comum os identifica.

Os estudantes entenderão, com toda a certeza e com ainda maior facilidade, a relação de causa e efeito. Outro tanto não se poderá presumir quanto aos professores e em especial no que diz respeito à mais recente aberração, aquele “acordo ortográfico” imposto por políticos que da sua pátria apenas estão interessados na moeda… e não exactamente como excêntricos numismatas.

Haja fé, porém. O tempo, assim como a História, que se repete, tem o condão de, mesmo podendo tardar, expor a mentira. Daí a importância de que os alunos aprendam a interpretar, a “ler” o futuro através das lições do passado.

Não é, por conseguinte, nada nova a nova disciplina. Serve para compreender e apenas para isso. Ad hoc.


«O documento mais antigo escrito em português data de 1175 – início do século XII, quando era ainda o rei D. Afonso Henriques Rei de Portugal. Este documento designa-se “Notícia de Fiadores” e faz parte do espólio do Mosteiro de São Cristóvão de Rio Tinto. Neste documento são identificadas as dívidas de Pelágio Romeu.» [História da Língua Portuguesa – up.pt/portuguesuporto]

“Primeiramente mando que meu filho infante D. Sancho que eu hei da rainha D. Urraca haja meu reino integramente e em paz. […]”.
“[…] E mandei fazer treze cartas cum aquesta, tal una como outra, que per elas toda minha manda seja cumprida, das quais tem uma o arcebispo de Braga, a outra o arcebispo de Santiago, a terceira o arcebispo de Toledo, a quarta o bispo do Porto, a quinta o de Lisboa, a sexta o de Coimbra, a sétima o de Évora, a oitava o de Viseu, a “novea” o mestre do Templo, a décima o prior do Hospital, a undécima o prior de Santa Cruz, a duodécima o abade de Alcobaça, a décima terceira fazei guardar em minha reposte. E foram feitas em Coimbra, 4 dias por andar de Junho”. Contém assinatura autógrafa. [Testamento de D. Afonso II – Arquivo Nacional da Torre do Tombo – DigitArq (arquivos.pt)]

[Imagem em azulejos de cena da assinatura do Tratado de Zamora:
copyright Aires Almeida, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons. Imagem de topo copiada de: “O Minho”]

Rota rota

«Uma parte importante da Nação perdeu totalmente a fé (com razão ou sem razão) no parlamentarismo, e nas classes governamentais ou burocráticas que o encarnam; e tende, por um impulso que irresistivelmente a trabalha, a substituí-las por outra coisa, que ela ainda não definiu bem a si própria.» [Eça de Queirós, “Revista de Portugal”, 1890]

Não deixa de ser uma curiosa coincidência que, após a Cimeira de Luanda — outra coincidência –, de repente e em força, saltem para a liça alguns comentadores angolanos imensamente conhecedores de umas coisas sobre a “lusofonia”, a CPLP e a língua brasileira (vulgo, AO90). O Estado de Angola sempre manteve uma muito saudável indiferença pelo aleijão cacográfico mas, ao que parece, pelo menos a alguns naturais daquele país lembrou agora alinhar na mentira de Estado.

Porquê agora?

É certo que foi na capital angolana que decorreu o último banquete dos alegres e cimeiros convivas, mas ainda assim trata-se de um inusitado acesso de “lusofonia” — essa terrível patologia que ataca as meninges — e de um bizarro apego (tanto mais bizarro quanto mais lauto o repasto) a questões “linguísticas” e quejandos quebra-cabeças. Porém, é no mínimo estranho que em Angola — ainda que no condicional — alguém fale agora (sem se rir) de patacoadas como, por exemplo, que a língua brasileira (designada como “português”, por estrita conveniência política) passe a “língua de trabalho da ONU” ou que o AO90 “tem uns problemazitos” coisa de somenos, e portanto há que “revê-lo” periodicamente (até à transcrição fonética integral do brasileiro) e assim “corrigir” umas quantas “aberrações” e “casos flagrantes”.

Em suma, simplificando, não existe nesta etapa angolana nada de especial, já que o método é sempre o mesmo, martelar propaganda e intoxicação. Tão evidente é a martelada quanto, infelizmente, a jogada cheira a “negociação”, tresanda a golpadas à sorrelfa, acordos apalavrados e sabe-se lá bem o quê mais.

Por conseguinte, depois de arrumada a questão da porta dos fundos em Portugal, os brasileiristas vão já desbravando terreno para que se cumpra o segundo desígnio estratégico: “facilitar” os negócios brasileiros em Angola.

Tendo o AO90 sido integralmente inventado para dar cobertura política à CPLP, o conceito de “lusofonia” — escorado numa colecção de patranhas — consistiria em tornar compulsivamente obrigatória a língua brasileira em Portugal e nas suas ex-colónias africanas… especialmente em Angola.

https://www.facebook.com/remarkablebooks/posts/2165484673599035?__cft__[0]=AZVu2KMbKEYZQfOfD-318tMWvg_1NZgy3f1jCX-EdnEM40zHLauVHNvLaPyP_x3z3Vnfi3tGlBVn1Cp-4Fy02VY54GbFR0R2JyZn_TLB_eg9YHrID7EhG0R4ohxL1FLz5cNsguWOD15EPfB5aQXSYXTvyXtUvbwh0-eLezWf-CdyAQ&__tn__=%2CO*FA cujas riquezas naturais acresce agora a recente descoberta de gás natural em Moçambique. Mas também para esbulhar isso haverá com certeza tempo e meios, de mais a mais dada a situação de emergência social em que se encontra este outro país. Novo filão, portanto, do estrito ponto de vista dos interesses económicos brasileiros e das migalhas que alguns tugas pretendem abichar à comissão.

Algumas das golpadas estão devidamente plasmadas, explicadas e adjectivadas numa entrevista de Abel Chivukuvuku, um político angolano (ver abaixo a transcrição parcial) que diz também coisas acertadas — e outras certeiras, por entre algumas asneirolas — sobre a corrupção política em geral e sobre a respectiva badalhoquice à moda dos políticos portugueses. “Roubalheira generalizada”, como cirurgicamente designa a trupe governamental tuga que se reveza no poder… de destruir o nosso património material e de aniquilar o legado imaterial que nos identifica.

Diz Chivukuvuku sobre Portugal que surgiu como a lavandaria da roubalheira. Que um estrangeiro profira “afirmações” destas, mesmo — ou principalmente — que tenha razão no que diz (sobre o AO90 sim, acertou em cheio), parece que para os governantes portugueses a coisa não tem a mínima importância, é para o lado em que dormem melhor, até porque já estão habituados a ser insultados e que tais enxovalhos sejam dirigidos a todo um povo também tanto se lhes dá, cognac é cognac, negócio é negócio.

Faz aliás parte das governamentais funções levar para casa quaisquer insultos, por mais intoleráveis que sejam, desde que isso não interfira nas “relações” comerciais e empresariais. Desde que não falte a verve para entreter distraídos e embalar tolos cá na terrinha, patacoadas a granel e papagaios amestrados para as repetir, nada mal, vai por aí um esfregar as mãos que até ferve.

E assim, com enredos de rapsódia e abomináveis pantominas, alguns torcionários da memória tentam varrer para debaixo do tapete da História o que ainda resta da nossa identidade. Limpam os sapatos a esse tapete, os miseráveis, enquanto vão tentando abrir uma porta que para eles estará eternamente fechada.

Excertos de entrevista a Abel Chivukuvuku (FPA, Angola)

…………

Voz de Angola”, 02.10.21

Abel Chivukuvuku: “O MPLA não tem agenda de sociedade. Tem projecto de poder”

Quer defrontar João Lourenço nas eleições de 2022, que, alerta já, “estão a fazer tudo para manipular. De Portugal, veria como “positivo” um pedido de desculpa pela colonização.

«Acabar com a roubalheira» é o propósito de Abel Chivukuvuku que se aliou à UNITA na Frente Patriótica Unida (FPU) para disputar as eleições de 2022. Para Chivukuvuku Portugal só teria a ganhar com uma “governação séria” em Angola e “seria positivo” um pedido de desculpa pelo colonialismo e a escravatura.

[…]

Uma revisão constitucional está em agenda?

Se obtivermos uma maioria parlamentar vamos promover uma reforma constitucional. Temos um estado unitário altamente centralizado. Num país vasto este modelo não funciona.
Há, ainda, a heterogeneidade da população. Nós somos um estado-de-nações, somos um estado multi-étnico, multi-racial, com muita diversidade. A centralização amachuca as identidades. Precisamos de um modelo mais descentralizado. Pode ser federal, pode ser regionalizado, pode ser um outro modelo qualquer que promova a identidade dos vários povos e, também, uma articulação governativa com transparência, com ambição, com seriedade. Certas reivindicações e tendências secessionistas são no fundo reivindicações sociais tanto em Cabinda como da parte dos que querem fazer o Protectorado das Lundas.
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Legítima defesa

«Constitui legítima defesa o facto praticado como meio necessário para repelir a agressão actual e ilícita de interesses juridicamente protegidos do agente ou de terceiro.» [Código Penal, art,º 32.º]

De facto, há que reconhecê-lo, toda a trama que envolveu a aprovação fictícia do “acordo ortográfico” foi montada com imensa competência e admirável profissionalismo pelos mesmos agentes que agora avançam — utilizando exactamente os seus já comprovados métodos de dissimulação — com o corolário objectivo da urdidura, o “acordo de mobilidade“.

Além de garantida a priori a aprovação do diploma legal que romperá unilateralmente o vínculo de Portugal ao acordo de Schengen, os políticos envolvidos contam com a impunidade total bastando-lhes para o efeito o trabalho de sapa (sabotagem da oposição com agentes infiltrados, lavagem ao cérebro através de propaganda paga em media comprados) que os ditos agentes — com a solícita cooperação de não poucos idiotas úteis — têm executado desde os anos 90.

https://www.facebook.com/poets01/photos/a.102296028635339/191879056343702/Uma das mais eficazes formas de isolar a oposição, em qualquer caso mas neste assunto por maioria de razões, é enlamear e desacreditar a Causa e quem por ela milita: atirar a matar ao mensageiro e em simultâneo enxovalhar, apoucar a mensagem, insultar em caninos ataques ad hominem o carácter e a reputação de quem porventura tiver o atrevimento de questionar a obscuridade das motivações do plano (no caso, o da “língua universáu”) e de quem o promove. Desta táctica, em jeito de modus operandi, resulta a imediata rotulagem da contestação como sendo “reaccionarismo” e dos contestatários como “velhos do Restelo”, primeiro, como “retrógrados”, a seguir, e como “xenófobos”, por fim.

Assim, soterrada por um título que pretende arrancar-lhe a alma (ou seja, a razão), a Causa aviltada vai estiolando; quanto àqueles que ousam apoiá-la, um simples rótulo na testa (“xenófobo” é suficiente) sepulta debaixo de uma lápide pesando toneladas qualquer veleidade de contestação. Pior ainda — e melhor para os acordistas — os mais ferrenhos rotuladores (e intriguistas) são alguns daqueles que se intitulam como “anti-AO90” mas que na prática fazem o jogo e até o trabalho sujo dos que dizem combater e que, objectivamente, com palavreado entediante e iniciativas inconsequentes, servem os interesses do acordismo.

Não existe nesta Causa o mais ínfimo resquício de aversão em relação ao Brasil (bem, essa não lembraria nem ao careca), de inimizade (pelo contrário!) ou sequer de antipatia para com os estrangeiros provindos do Brasil. Aquele imenso país limita-se a prosseguir os seus interesses e, naturalmente, a aproveitar as oportunidades que se lhe oferecem. Ora, sucede que alguns tugazinhos asquerosos persistem em periodicamente “puxar o saco” aos governantes e aos académicos do lado de lá. Contra aqueles, sim, contra os traidores, mercenários e vendidos a uma potência estrangeira valem todos os epítetos e insultos, todas as armas e mecanismos legais que possam ao menos tentar travar-lhes o passo e impedir que atinjam, liquidem, roubem o nosso mais valioso património.

Combater o neo-colonialismo auto-imposto é, em última análise, exercer o direito a legítima defesa — não individual mas colectiva; não é agressão gratuita, de todo, é defesa mais do que legítima — um dever imperioso.

O que neste exacto momento está a acontecer é demasiadamente grave para que os resistentes se deixem intimidar por rótulos imbecis regurgitados por canalhas ou, pior ainda, para que fiquem mudos e quedos, paralisados pelo horror que está já ao virar da esquina: a extinção, de jure et de facto, da marca identitária mais indelével de um povo, uma nação, um país independente — a sua Língua.


Ainda a respeito do (terrível) assunto de que agora falamos, o “Acordo de Mobilidade na CPLP”, começam finalmente a surgir “novidades” que urge divulgar ao máximo.

Dos dados que se seguem, copiados do “site” do Parlamento, citamos o essencial do requerimento de acesso ao tal “acordo de mobilidade” e a resposta do M.N.E.

Pergunta dos deputados

Foi recomendada a sua aprovação final pela XIII Conferência dos Chefes de Estado e de Governo da CPLP, a realizar-se em julho de 2021, em Luanda.
Face à importância deste documento para a CPLP e para cada um dos Estados-Membros; tendo em conta que o seu carácter inovador e que tenta concretizar um anseio antigo no seio da organização; a vontade de ir para além da concertação política e diplomática entre os governos, cooperação e promoção conjunta da língua portuguesa que é apanágio desta estrutura e atendendo à imperiosa necessidade de estar em conformidade com os acordos internacionais anteriores de que já sejam signatários em função das organizações regionais a que cada Estado-membro da CPLP, […], vêm os deputados signatários do GP/PSD, através de Vossa Excelência, requerer ao governo, nomeadamente ao Senhor Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, o acesso ao Projecto de Acordo sobre a Mobilidade na CPLP que teve concordância na XV Reunião Extraordinária do Conselho de Ministros da CPLP. [ver cópia local na íntegra]

Resposta do Ministro Santos Silva

A negociação de acordos internacionais é da exclusiva competência do governo […], sendo que a negociação só termina com a assinatura dos acordos.
A informação sobre a negociação de um acordo internacional, incluindo relatos de reuniões e versões do texto, tem natureza diplomática (e não administrativa) […], só devendo ser do conhecimento daqueles que estejam envolvidos no processo negocial. [ver cópia local na íntegra]

Requerimento 209-AC/XIV/2
Data: 2021-04-13
Assunto: Acesso ao Projecto de Acordo sobre a Mobilidade na CPLP
Ver requerimento… [formato PDF]
Autores: Catarina Rocha Ferreira (PSD) , Nuno Miguel Carvalho (PSD) , Eduardo Teixeira (PSD)
Enviado a: Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros em: 2021-04-13
Respondido por: Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros em: 2021-05-06
Ver resposta… [formato PDF]

Notem-se (e anotem-se) as datas; afinal, o petisco já estava a apurar há meses, depois de ter sido posto a marinar em 1986, tendo ido ao forno em 1990, quando foi formalizado o AO90, e saiu pronto, prontinho, estaladiço, em 2008 (via RAR 35/2008, esse petisco).

Além deste requerimento, da autoria de 3 deputados do irmão gémeo do Partido actualmente no poder, co-autor do AO90 e de toda a tramóia envolvente, existe ainda um Projecto de Resolução de um outro deputado, com data de 07.07.21, recomendando ao «Governo que submeta a discussão e votação no Parlamento qualquer acordo de livre circulação ou mobilidade com a CPLP».

Que se saiba, evidentemente, nem um nem outro obtiveram qualquer tipo de aquiescência. Os deputados que vão aprovar o “acordo” não podem ver, sequer espreitar, o “acordo” que vão aprovar. A negociata está mais do que combinada e, além disso, como diz o Ministro dos Negócios estrangeiros, os deputados não passam de “administrativos”, simples escriturários de serviço numa Repartição do Estado que fica ali para as bandas de Santos, um bairro típico da Capital famoso pelas bebedeiras.

Ora, se é o próprio Ministro quem o diz, então já somos dois a dizer o mesmo.

Quanto à piquena formalidade da “aprovação” do “Acordo de Mobilidade” estamos por conseguinte conversados: disso tratarão com diligência, podemos estar certos, os 230 escriturários (designação ministerial, repita-se) que atafulham o palácio de São Bento com papelada avulsa.

Repare-se na extrema simplicidade do processo:

1. Nas eleições legislativas, menos de metade da população portuguesa elege uma maioria de deputados.

2. Os deputados da maioria parlamentar, que teoricamente representam (daí a designação de “democracia representativa”) a minoria que os elegeu, fingem “nomear” um Governo (que já estava nomeado pelo chefe do Partido da maioria parlamentar).

3. O Governo faz e desfaz o que muito bem entende, no chamado âmbito das suas competências — e também nas franjas das suas incompetências –, a começar por, sem consultar ninguém, estabelecer acordos internacionais de todo o tipo, incluindo em matérias que podem contender com os interesses nacionais, como é o mais do que evidente (e excruciante) caso da Língua Portuguesa.

4. Rabiscado um acordo em nome não da minoria relativa mas da maioria absoluta dos cidadãos nacionais, votantes e não-votantes, usurpando portanto o sentir, o querer, os anseios e os direitos de todos em nome de alguns, o Governo envia a papelada para a Repartição de Expediente (vulgo, Assembleia da República), cuja maioria de funcionários “aprovará” o documento enviado pelo seu patronato. Evidentemente, esses funcionários não têm voto na matéria (votam abstendo-se violentamente), qualquer que ela seja, porque não apreciam muito ir para o desemprego nas eleições seguintes. Portanto, no caso o voto dos deputados não é voto, é assinar de cruz.

Se bem que seja necessário ler muito atentamente, em pormenor e com muita atenção a ligeiros lapsus linguae, a notícia seguinte destapa umas pontinhas do lençol de mentiras em que os dois partidos “do arco da governação” pretendem embrulhar-nos e com o qual pretendem amortalhar a Língua nacional.

Governo português aprovou esta quinta-feira Acordo para a Mobilidade na CPLP

“Observador”, 30.09.21

 

O acordo tem de seguir agora para aprovação na Assembleia da República. O comunicado do Governo diz que este pacto vem estabelecer “um quadro de cooperação em matéria de mobilidade dos cidadãos”.

O Governo português aprovou esta quinta-feira a proposta de acordo para a mobilidade na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), referiu em comunicado do Conselho de Ministros.

“Foi aprovada a proposta, a apresentar à Assembleia da República, do Acordo sobre a Mobilidade entre os Estados-membros da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), assinado em Luanda, em 17 de Julho de 2021”, lê-se na nota.
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“Acordo de Mobilidade” e pacto de imobilidade

Consummatum est

Um dos dois principais objectivos políticos que o AO90 esconde foi já exarado em documento oficial vinculativo: Portugal é agora a porta dos fundos para a emigração em massa dos “excedentários” daquele país sul-americano, que assim podem instalar-se no país europeu da sua preferência.

Dos dois objectivos fulcrais, portanto, um deles está consumado e o outro — Angola — para lá caminha a passos largos.

De entre as várias aqui publicadas (e também no antigo “site” da ILCAO), ao longo de não menos de oito anos, virá talvez a propósito reavivar uma das formas de (então) teorização daquilo que afinal, a partir de Outubro de 2021, passará a fazer efeito e a valer como pacote legislativo:

Agora e desta vez como antes e desde sempre, diligentes funcionários do mistério dos Negócios Estrangeiros, entretêm-se na sua ociosa militância com o intuito único de promover os interesses geo-estratégicos, políticos e económicos brasileiros — ainda que para tal haja que fazer tabula rasa de quaisquer Tratados ou Acordos a que Portugal esteja vinculado enquanto Estado-membro da União Europeia. Sob a longa cauda da CPLP — uma efabulação totalmente inventada por alguns portugueses a soldo do Brasil — trabalha-se com entusiasmo nas Necessidades para resolver as necessidades do Brasil. De facto, caso vingasse a tese — por absurda hipótese académica — da livre circulação na CPLP (ou seja, de brasileiros em Portugal e daqui para toda a UE), então teríamos de sobrepor dois regimes de “livre circulação” que mutuamente se excluem: os negócios do Brasil (com a cidadania portuguesa automática?) e o Acordo de Schengen. [22.12.2019 – “O alçapão das Necessidades”]

Pela calada, sub-repticiamente, sem “fazer ondas” e com a conivência tácita da maioria dos órgãos de comunicação social pagos pelo Governo, a bombástica notícia passou quase completamente despercebida, foi sonegada a qualquer espécie de escrutínio e portanto será legítimo supor que “ninguém” fazia a mais pequena ideia de que este golpe de Estado está em curso. A “discussão” do Projecto de Lei do Governo que já deu entrada no Parlamento não passará de mais uma das fantochadas em que acordistas, traidores e vendidos são especialistas; e a respectiva aprovação não passará, evidentemente, de mera formalidade: a maioria parlamentar que entronizou um Governo da mesma “cor” (laranja, cor-de-rosa ou azul às riscas, é indiferente) irá “votar” (aprovar) um Projecto de Lei apresentado pelo mesmo Governo que a Assembleia “escolheu”. Portanto, a dita formalidade, exactamente como sucedeu com o AO90, em 2008, está já aprovada por esmagadora maioria — os 230 deputados fazem o que os respectivos caciques mandam.

Estabelecido o nexo de causalidade entre a Cimeira de Luanda e este “acordo” (outro “acordo”, como em “acordo ortográfico”, a designação favorita dos DDT), não deve haver necessidade de activar mais do que dois neurónios para concluir que resultaram na perfeição todas as manobras de intoxicação da opinião pública, de sabotagem da resistência à brasileirização, de espionagem por profissionais das “secretas” de Linda-A-Velha, de lavagem ao cérebro nas lavandarias televisivas, de infiltração de tarados, vaidosos e mentirosos patológicos nas hostes da resistência, enfim, fácil é concluir que são profissionais e não simples amadores os agentes ao serviço do “gigante brasileiro”, aqueles que são pagos para “achar” que, por exemplo, «devíamos escrever todos em brasileiro».

A este “acordo de mobilidade” responde a respeitável oposição ao “acordo ortográfico” com o tradicional pacto de imobilidade, com uma atitude de paralisia radical, com a tradicional (e patriótica) defenestração de qualquer espécie de raciocínio, com a indigente preguiça mental que na opinião pública provoca uma necessidade inadiável de fazer rigorosamente coisa nenhuma.

Governo português aprovou hoje Acordo para a Mobilidade na CPLP

www.noticiasaominuto.com, 30.09.21

 

Foi aprovada a proposta, a apresentar à Assembleia da República, do Acordo sobre a Mobilidade entre os Estados-membros da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), assinado em Luanda, em 17 de julho de 2021″, lê-se na nota.

O comunicado acrescenta que o “acordo vem permitir o estabelecimento de um quadro de cooperação em matéria de mobilidade dos cidadãos dos Estados-Membros da CPLP e entre esses mesmos Estados, através de um sistema flexível e variável que atende às particularidades relativas a cada Estado“.

Tal como a nota refere, o acordo tem de seguir agora para aprovação no parlamento.

Até agora a proposta para a mobilidade na CPLP só foi ratificada por Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.

Os chefes de Estado e de Governo da CPLP, reunidos em 17 de julho em Luanda, aprovaram o Acordo sobre a Mobilidade no espaço da comunidade.

A resolução de Conselho de Ministros aprovada na XIII cimeira da organização reafirma que a “mobilidade constitui um desígnio fulcral para a materialização da comunidade, pela sua importância para o incremento e a consolidação das relações de cooperação e amizade existentes entre os Estados-membros da CPLP e entre os seus povos, e pelo seu contributo para a aproximação da comunidade aos seus cidadãos”.

Os líderes realçaram a importância da mobilidade em setores como o turismo, a cultura, a educação, a ciência e inovação e na área económico-empresarial, e “do seu papel para o desenvolvimento sustentável dos Estados-membros”.

Além disso, comprometeram-se “a promover as diligências necessárias com vista ao acolhimento, tão célere quanto possível, do Acordo sobre a Mobilidade nos respetivos ordenamentos jurídicos e, ainda, a contribuir para a criação das condições legais e institucionais para o incremento progressivo e ordenado da mobilidade na CPLP de todos os cidadãos dos Estados-membros”.
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Margarita no sofá

Sofá… de psiquiatra, não de psicólogo. Evidentemente, confundir um cientista profissional com um amador de coisinhas esotéricas é algo parvo; o psiquiatra está para o psicólogo assim como CR7 está para um apanha-bolas: até pode suceder que, por excepção extraordinária, algum dos garotos que vão buscar o esférico às bancadas chegue a profissional, mas até lá ainda vai ter de comer muita relva. Bem, adiante, não nos emaranhemos em trapalhadas sobre estofos.

Se bem que, na verdade, também seja uma questão de estofo, isto é, de tê-lo ou não tê-lo, aquilo de que se trata no conteúdo deste textículo, da autoria de uma pessoa que até nem ganha nada à conta do AO90 e que até nem interesse nenhum em continuar a ter emprego por via do estropício, é tentar convencer as pessoas normais de que estão a precisar da “ajuda” de um profissional, ou seja, que os anti-acordistas estão contra o dito porque… são uma cambada de destrambelhados. Gente avariada da caixa dos martelos, por conseguinte, o que contrasta, na nada douta opinião da senhora, com o perfil de urbanidade e fino gosto que atribui por inerência (e mandato divino) a acordistas como ela e outros desequilibrados em geral.

Esta técnica de intoxicação política e de silenciamento da dissidência, gravando na testa de qualquer renitente o rótulo de “louco”, era o método privilegiado de aniquilação da dissidência em prática na ex-União Soviética, por exemplo. Citando, também por exemplo, o “opinion maker” e comentador Pacheco Pereira: «A dissidência era considerada uma doença mental no período de Brejnev e este argumento soviético é hoje muito usado no mundo do ataque pessoal da direita radical [“Público”, 19.06.21]

O artigalho agora transcrito (conservei nesta transcrição a cacografia brasileira do original, para não amenizar de forma alguma o nojo que provocam as baboseiras tresloucadas da amanuense acordista) é uma retumbante demonstração de que a técnica soviética (e chinesa e fascista e nazi) do silenciamento pelo “internamento” existe ainda, está pujante em algumas cabecinhas — de extrema-direita ou de extrema-esquerda, por igual — para as quais os motivos são sempre uma maçada, as razões um sacrifício intolerável, a verdade algo de odioso e sumamente insuportável.

À laia de troca de cumprimentos, devolvo a “recomendação”: esta fulana deveria procurar ajuda especializada, pois sim, ela sim, mas que ao menos nisso se abstenha do amadorismo a que está obviamente agarrada. Consulte um psiquiatra a sério, não um psicólogo a brincar. O seu caso é sério, qualquer leigo em matéria de medicina psiquiátrica poderá constatar (e até diagnosticar) facilmente o que se passa consigo.

Basta ler algumas frases suas, alucinações como esta: 《se querem “combater” a “invasão” do português do Brasil, produzam conteúdos atractivos e de qualidade em português de Portugal》.

Portanto, admite que a invasão está em curso e reconhece que existem duas línguas diferentes e não a “língua universáu”, uma invenção.

Ora, para alguém que está enterrada até acima do pescoço, ao serviço dos interesses brasileiros, na profissão de demolição da Língua Portuguesa, isto é doentio, é grave, é de facto uma patologia mental.

O sofá espera-a. As melhoras.

«Margarita Correia é doutora em Linguística Portuguesa pela Universidade de Lisboa, tendo-se especializado nos estudos do léxico. Actualmente é professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e investigadora integrada no Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC), onde coordena o grupo de Léxico e Modelização Computacional. Coordenou a realização do Vocabulário Ortográfico do Português (VOP) e, com José Pedro Ferreira, o Lince – Conversor para a nova ortografia. Garante a coordenação científica do Portal da Língua Portuguesa.» [Webinars da DGEDA]

Linguística para psicólogos. Precisa-se.

 

Margarita Correia

www.dn.pt, 13.09.21

A palavra “terapia”, proveniente do grego “therapeia“, é usada em diferentes áreas de conhecimento e na língua corrente, significando, de acordo com a Infopédia, “meio ou método usado para tratar determinada doença ou estado patológico; tratamento; terapêutica”. Há atualmente terapias para todos os gostos: e.g. familiar, sexual, da fala, do casal, de grupo, psicoterapia, isto para ficarmos só no âmbito da psicologia. A necessidade de terapia pressupõe a existência, no indivíduo ou no grupo, de um distúrbio, doença ou patologia.

A Notícias Magazine publicou, a 26 de agosto, uma reportagem intitulada “O Brasil está a invadir o vocabulário dos mais novos”. A escolha das palavras nunca é inocente, pelo que o título da peça deixa antever uma opinião (muito) negativa relativamente ao fenómeno tratado. Olhando para algumas das aceções de “invadir”, vemos que significa “1. entrar pela força; irromper; 2. MILITAR tomar ou ocupar militarmente um lugar ou território; 3. penetrar de forma hostil ou intrusiva em; 4. infestar”. Desconfiamos que a escolha da autora da peça visou expressar a opinião generalizada das pessoas com quem conversou sobre o assunto, que olham para o fenómeno com desagrado, preocupação, hostilidade e, claro, medo, muito medo. Fez, portanto, bem em utilizar o verbo “invadir”, não tanto por ser descritivo do fenómeno, mas sim da visão predominante que encontrou.
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‘Está tudo vivo’

18percentgray / Canva

É de facto gratificante verificar, até pela raridade do fenómeno, que existe ainda quem não se limita a “dar aulas”, bem pelo contrário, trata os alunos como seres-humanos e não como retardados incapazes de atar os próprios atacadores.

Não é da responsabilidade dos alunos que alguns adultos (pelo menos em idade acumulada), “pedagogos” e “técnicos” da corda, tenham por profissão inventar inanidades como a «“Leitura Recreativa” ou de “Entretenimento” para o texto literário», salteando esses pratos indigestos com temperos ainda mais intragáveis, como a TLEBS, e, para rematar, o molho de cicuta da marca AO90.

Não sendo de todo necessário ir tão longe na matéria quanto o parnasianismo nem tão perto quanto o nihilismo, a verdade é que nos crescentes escalões etários — ou seja, em cada um dos “ciclos” curriculares do Ensino no nível Básico e no Secundário — existe uma espécie de consciência artística colectiva à qual a população estudantil é sensível, está receptiva e demonstra entusiasmo sem hesitações nem considerandos.

https://www.facebook.com/poets01/photos/a.102296028635339/193269342871340/Aproveitar ou dar vazão às capacidades artísticas inatas, no sistema de Ensino português — à semelhança do que sucede com o processo de ensino/aprendizagem da Língua Portuguesa –, tornou-se hoje em dia numa empreitada que, além de ingrata e arriscada, é também profundamente tantálica; dito de outra forma, se a algum professor ocorrer tentar uma abordagem pedagógica escorada pela Arte, seja esta qual for ou um pouco de todas elas (recapitulando, para abreviar: som, imagem, cor, volume, movimento, espaço e palavra), pois então esse infeliz docente irá, ainda que em absoluto inocente, ser crucificado como indecente. O que significa, muito para além do mero jogo de palavras, que vivemos uma era em que ser docente é indecente, logo, indocente,

Veja-se, como ilustração do governamental postulado quanto ao “item”, uma espécie de orientação oficial sobre “A educação através da arte” escarrapachada num blog por certa entidade obscura de que, devo confessar, jamais tinha ouvido falar:

«Também o gabinete responsável pela execução do Programa Rede Bibliotecas Escolares (RBE) em Portugal instituiu a questão da cultura e das artes como uma das prioridades para a acção das bibliotecas escolares em 2020/21 e, como forma de a tornar visível, disponibiliza na sua biblioteca escolar digital uma recolha de museus presentes no mundo virtual que pode ajudar as bibliotecas a desenharem actividades e a impulsionarem experiências educativas inovadoras nas escolas.» [escrita brasileira corrigida para Português]

Mesmo dando de barato o erro de Português no parágrafo transcrito (não aguento mais do que uma bacorada de cada vez, lacuna minha, só li o resto de relance), e mesmo não chamando a atenção para o facto indesmentível de haver erros até em sites oficiais de Ensino e sobre Português, ainda assim será de destacar a total vacuidade do palavreado, a ausência de qualquer conteúdo objectivo ou programático e, em suma, o abjecto “verbo de encher” que aquilo é. Nesse vazio de ideias atafulhadas com expressões idiomáticas do ensinês bacoco (não confundir com barroco) consiste todo o “pugrama” da tal educação através da tal coisa que os tais burocratas debitam por ócio e vício.

A escrita, mesmo, por vezes, a escrita não literária, é Arte. Como a pintura e a escultura, assentando numa arquitectura própria, escrever é uma outra forma de música, obedecendo ambas por igual a tempo e modo, à pauta — que pode evoluir mas que é imutável enquanto código de interpretação — e às notas que são letras, à clave que é o tom, aos silêncios gritantes que fazem todo o sentido, ao som “mudo” que é solene ou de terror ou estupefacção ou reverencial.

Portugal não teria sequer hino nacional sem as oito notas e as vinte e seis letras. Notas e letras, inseparáveis e solidárias, duas gémeas siamesas unidas para sempre pela memória num só carácter colectivo que torna a existência em algo com sentido.

Quando a escola falha na relação do ensino do Português com a Arte

 

Maria do Carmo Vieira
www.publico.pt, 9 de Setembro de 2021

 

«A finalidade da arte não é agradar. O prazer é aqui um meio. Não é neste caso um fim. A finalidade da arte é elevar.» [Fernando Pessoa (1888-1935)]

«Fazer arte é querer tornar o mundo mais belo, porque a obra de arte uma vez feita, constitui beleza, beleza acrescentada à que há no mundo.»[Fernando Pessoa (1888-1935)]

 

Ao longo dos anos, e enquanto professora de Português, presenciei a reacção de alunos que nunca haviam reflectido sobre o conceito de Arte e cuja sensibilidade não fora educada nesse sentido, em casa, falhando muitas vezes a Escola na seriedade desse trabalho imperioso; presenciei também a reacção dos que eram minimamente capazes de atribuir-lhe um significado e testemunhar a sua influência favorável, em vários momentos da sua ainda curta vida, precisamente porque em casa haviam encontrado diálogo propício. E como a experiência já me evidenciara quão vital era essa força que nos alimenta o espírito, toca, consola e enriquece, tornou-se objectivo proeminente da minha função de professora não só colmatar uma lacuna que, a permanecer nos alunos, determinaria o acentuar de diferenças sociais, mas também revigorar o encontro nos que haviam já dado os primeiros passos na assimilação do Belo, daquilo que comove, que ilumina, que faz pensar e que dá prazer ainda que tudo isso possa acontecer, em pleno, mais tarde, como tive oportunidade de verificar com alguns dos meus alunos. Sempre estive segura de que a minha postura interferiria na formação da personalidade dos que me eram confiados, e que em mim confiavam, em cada início de Outono. E não me enganei porque o tempo demonstrou-o nesse passado e tem vindo a somar comoventes testemunhos, escritos e orais, de inúmeros alunos das muitas escolas onde leccionei.

Foi no ensino do Português, com o estudo de autores programáticos, que me empenhei em demonstrar aos meus alunos, do Básico ao Secundário, a importância da Arte, em geral, e da Literatura, em particular. A Literatura, como veículo privilegiado de reflexão sobre a condição humana e arte da palavra que “vive primordialmente dos [seus] sentidos indirectos”, exigindo uma interpretação da simbologia que expressa. Só compreendendo se pode efectivamente amar e é nessa procura de sentido, no silêncio da leitura e em diálogo tranquilo com a palavra, chave de diferentes olhares e vozes, que nos revelamos tantas vezes a nós próprios, indo forçosamente ao encontro do Outro e treinando assim a nossa capacidade de desobedecer a tudo o que colida com a nossa humanidade ou nos imponha o absurdo. Assim aconteceu também com muitos dos meus alunos, num trabalho cúmplice e comprometido.

Vivo em saudade os cerca de quarenta anos em que ajudei a desbravar ou a intensificar o caminho que leva ao estreito diálogo com uma obra de arte, seja ela escrita, plástica ou musical. Nesse percurso, foi relevante a reflexão de Fernando Pessoa sobre o facto de toda a Arte ser “uma forma de literatura, porque toda a arte é dizer qualquer coisa.” A demonstração é um pouco longa, mas imperiosa a necessidade de a registar: “[…] As artes que não são a literatura são as projecções de um silêncio expressivo. Há que procurar em toda a arte que não é a literatura a frase silenciosa que ela contém, ou o poema, ou o romance, ou o drama.” Por isso me envolvi interiormente nesta causa, nesta urgência de desfazer o mito da dificuldade no estudo da obra de um determinado escritor, com realce para a poesia, ou na compreensão da autenticidade das outras artes na vivência humana, com o firme propósito de desmontar a ignorância subjacente a esses tortuosos preconceitos, íntimos aliados de teses absurdas centradas na apologia da facilidade e do funcional, bem como na perspectiva da literatura como mero tipo de texto, a par de um rótulo de garrafa. Absurdos que se haviam manifestado já no indesejado Acordo Ortográfico de 1990 (AO90), que pôs em causa a função normativa da ortografia e desfigurou a sua vertente cultural, em nome da facilidade, danificando a própria pronúncia das palavras e pondo mais uma vez em evidência a sobranceria da ignorância e a leveza mental de quem a impõe, transformada em lei.
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