Etiqueta: pulhítica

Fia lux e fata lux es

Seria com certeza redundante, além de pretensioso e arrogante, especular sobre o que está por detrás disto. Que “sociedade secreta” (ou apenas “discreta”) e que ligações existirão porventura entre esta espécie de maçonaria católica e a sua congénere pretensamente secular; mais complexo ainda seria, a partir daí, determinar as relações de ambas as seitas, que facilmente se confundem, com outras organizações de características similares.

De uma coisa poderemos estar certos, porém, não apenas quanto a esta mas a respeito de todas as “famílias” e “irmandades” organizadas: não havendo para os seus membros o mais ínfimo risco ou a mais remota espécie de perigo, não sendo nem eles mesmos nem as respectivas “famílias” alvo de qualquer tipo de perseguição, de restrição de movimentos, de reunião, de expressão ou até de propagação das suas “ideias” (ou da sua total inexistência), pois então, por exclusão de partes, algo de muito difícil compreensão (ou de sinistro) compelirá tais “sociedades” a manter-se voluntariamente na clandestinidade. Se nada obsta a que se expressem ou manifestem, se ninguém pretende  segregá-los, denegri-los, caluniá-los, desonrá-los ou cometer contra eles qualquer espécie de violência — física, moral ou psicológica –, se não existe a mais ínfima reserva política ou condicionante jurídica especificamente dirigida a tais organizações, então, se se escondem por detrás do anonimato, se operam apenas nos bastidores, movimentando-se na sombra, como fantasmas ou demónios, algum motivo muito forte ou motivações quiçá inconfessáveis terão os “manos” para persistir no seu bizarro secretismo.

Não se tratando de organizações terroristas (se bem que, à semelhança dessas, também não divulguem  registos nem apresentem contas de espécie alguma) e não perseguindo objectivos de carácter subversivo (muito pelo contrário, já que todos os seus dirigentes pertencem à oligarquia dominante), torna-se para o comum dos mortais ainda mais “incompreensível” essa espécie de brincadeiras “discretas” das tais sociedades “secretas” (ou vice-versa). Ao fim e ao cabo, trata-se de adultos, nenhum deles conhecido por ser muito pobre, indigente, alienado ou particularmente ascético, praticando uma variante do infantil “vamos jogar ao esconde-esconde”. De repente, é facílimo, basta-lhes tirar o avental ou despir a batina e pronto, acabou-se a brincadeira, estão instantaneamente de volta ao seu elemento natural e ao seu ambiente habitual, os corredores do Poder, os “passos perdidos” da política, os recintos inexpugnáveis onde escorre o néctar borbulhante e se degustam canapés requintados enquanto se fecham negócios, compram-se nações e trespassam-se povos, decreta-se o apagamento de memórias inconvenientes e inventam-se “factos” indesmentíveis.

Terá decerto sido num desses lautos repastos que despacharam os confrades entre si, com a solícita participação de tribunos aspirantes, a chamada “questão ortográfica” — flagrante exemplo dos tais “factos indesmentíveis” inventados de raiz —  e como abichar mais uns milhões à conta daquela ridícula vigarice, distribuindo-os depois irmãmente (em sentidos lato e restrito) pelos demais convivas ali presentes e não esquecendo a aquiescência dos políticos envolvidos, a “neutralidade activa” dos respectivos lacaios (vulgo, deputados) e a anestesia, a passividade, a geral paralisia proporcionada pelo competentíssimo trabalho de lavagem cerebral realizado por “jornalistas” e “fazedores de opinião” a soldo. Ah, pois, contas são contas, meus amigos, e naquelas confrarias só pára gente de respeito, no que tange a metal sonante, pague-se o que se tiver de pagar, compre-se quem se tiver de comprar, até ao último centavo não há cá dívidas, raios, para alguma coisa servem os tampos das mesas, por baixo passa tudo.

São assim mesmo, os “irmãos”, quando despojados de suas vestes comprometedoras e interrompendo a contra-gosto seus estilizados rituais, aquilo é tudo gente que honra com escrúpulo compromissos, venha o primeiro que duvide, nunca, jamais um único daqueles senhores deixou por liquidar o montante que prometeu, desonrou a palavra dada a outro envolvido, roeu a corda numa qualquer negociata ou sequer chibou-se quanto a qualquer das piquenas ilegalidades que sempre ocorrem quando se congeminam fraudes, sempre que se compra, vende ou troca o que não é trocável, vendável ou comprável.

E também, que diabo, vejamos, será que existe mesmo alguma coisa absolutamente imune a transacções porque, mesmo tendo um valor incomensurável, ainda assim — ou por isso mesmo — não tem preço?

E haverá de facto alguém que de todo não se venda? Mas então porquê, santo Deus?!

Porque não tem valor? Pois. Não se vende porque não tem valor. Só pode.

Há uma nova tradução da Bíblia para Português. E os leitores vão poder pronunciar-se

Ângela Roque
24 Março 2019 , rr.sapo.pt,

Conferência Episcopal Portuguesa apresenta, esta segunda-feira, a tradução de ‘Os Quatro Evangelhos e Salmos’, feita a partir das línguas originais, mas a opinião de quem lê vai ser tida em conta para uma próxima edição. Trabalho iniciado em 2012 envolve mais de 30 biblistas, incluindo dos PALOP.

 

A edição de ‘Os Quatro Evangelhos e Salmos’ faz parte do projecto de tradução de toda a Bíblia, promovido pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP). O objectivo é conseguir um texto uniforme, traduzido directamente das línguas originais (hebraico, aramaico e grego), que possa ser usado na liturgia, na catequese e em todas as actividades da Igreja, quer em Portugal quer, futuramente, nos outros países lusófonos, que também colaboram neste trabalho. O projecto arrancou em 2012, e segue o acordo ortográfico.

A comissão coordenadora do projecto é presidida por D. Anacleto Oliveira, bispo de Viana do Castelo, e também ele biblista, e inclui vários elementos da Associação Bíblica Portuguesa (ABP).

Em entrevista à Renascença, o padre Mário Sousa, presidente da ABP e professor de Novo Testamento no Instituto Superior de Teologia de Évora, explica que já estava na altura da Bíblia ter uma nova tradução em Português, destacando, para além do grande número de colaboradores, o facto de se pretender sujeitar o texto à apreciação dos leitores antes de se avançar para uma versão definitiva.

Por que é que houve necessidade de uma nova tradução da Bíblia?

Porque sempre se sentiu, sobretudo nas traduções litúrgicas, que determinadas expressões não estavam, talvez, bem conseguidas, e que talvez fosse importante fazer-se uma revisão. Depois a Conferência Episcopal julgou ser pertinente em vez de se fazer apenas uma revisão e completar os textos – porque, de facto, nem todos os textos são usados na liturgia, e por isso nem toda a Bíblia estava traduzida a nível litúrgico -, fazer-se uma tradução de raiz, partido das línguas originais, ou seja, do hebraico e do grego, e também do aramaico, para determinadas passagens.
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Números, V3

 

Sim, esta é já a terceira versão.

A primeira, de 2017, utilizava os “dados” inicialmente disponibilizados pelo “Portal da Língua Portuguesa brasileira” e continha uma série de “posts” que tentavam explicar os quadros de resultados que foi então possível obter.

A segunda versão, bem mais recente e com outro fôlego, serviu para contrastar, completar e corrigir os dados de 2017, que o dito Portal foi alterando ao longo de 2018, disto resultando não apenas resultados mais exactos como também listas temáticas cada vez mais expurgadas — se não de todos, pelo menos da maior parte — dos inúmeros erros e imprecisões da “fonte”.

E então chegamos à terceira versão, que utiliza a plataforma “online” da Microsoft, integralmente em Excel. Mesmo para quem nunca na vida viu uma folha-de-cálculo (sim, com hífenes), espero que listas e quadros não cheguem para assustar seja quem for, até porque ninguém tem de calcular coisa nenhuma ou meter-se em alhadas técnicas. O Excel tem tudo a ver com lógica e pode, como sucede neste caso, tratando-se de analisar dados de (ou em) texto, ter muito pouco ou nada a ver sequer com a mais básica operação algébrica. Evidentemente, para chegar aos resultados todos os cálculos (em especial, de probabilidades) já foram feitos.

Basta, portanto, ver o que está nas listas e verificar os quadros. Havendo um pouco de curiosidade, é possível alguma espécie de manuseamento daquelas listas: por exemplo, pode-se ordenar os dados por tipo/coluna ou filtrá-los segundo determinado(s) critério(s). “Mexer” nisto é bem mais fácil do que parece e leva muito mais tempo a explicar quão simples é do que a testar essa simplicidade.

 

 

O produto final está pronto a consumir, sem agoiros, não vá aquilo provocar indigestões ou algo ainda pior. As conclusões são de tal forma evidentes que não há sequer margem para dúvidas.

Finalmente, depois de limpa toda a poeira que o “Vocabulário de Mudança” pretendia atirar-nos para os olhos, é possível ver com clareza este facto indesmentível: a “mudança” consistiu apenas em copiar as colunas com as palavras estropiadas à moda brasileira (OAPB1 e OAPB2) para cima das colunas (ON1 e ON2) da desortografia imposta pelo AO90 aos demais membros da Comunidade de Países de Língua Oficial Portuguesa Brasileira. Portanto, sem direito a relativismos ou tergiversações de qualquer espécie, o que aqui e agora se demonstra pode resumir-se numa singela, lapidar e horripilante frase: o AO90 significa a “adoção” integral da cacografia brasileira e implica a erradicação definitiva do Português-padrão.

A miserável manobra de ocultação deste facto culminou, por fim, em que alguns tugas tenham andado anos entretidos  a empastelar o “copy/paste”, trocando aleatoriamente (mas programaticamente) a ordem das colocações, com a óbvia finalidade de que se tornasse impossível perceber a golpada.

Azar o deles, com trabalho e boas ferramentas não há impossíveis. Removidas diversas camadas de mentiras, descobrimos, como num palimpsesto, que debaixo da reescrita está ainda e sempre a verdade — e que ela é totalmente diferente do que por cima rabiscaram mentirosos e falsários.


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“Vocabulário de Mudança”: o filme

 

O AO90 é uma fraude colossal. Ponto, parágrafo.

Por mais que alguns tentem escondê-la ou pintá-la de outras cores, aquela abominável porcaria não passa de uma negra manobra política para, de um só golpe, liquidar o Português-padrão e impor a desortografia brasileira. Por mais que tentem dourar a pílula esses tais alguns, mercenários, vendidos e deslumbrados portadores de passaporte português, não há escapatória ou sequer atenuante alguma para o que estão a fazer e não têm a menor desculpa, ainda que infantilmente ridícula, para justificar o chorrilho de mentiras com que tentam enganar as pessoas.

Alguns daqueles tipos poderiam alegar insanidade mental, ainda que apenas temporária ou episódica, mas até para isso já se vai fazendo tarde. Reiterando, a maioria esmagadora de tão desprezível minoria não é de loucos, é de mitómanos incuráveis  que, portanto, não poderiam alegar outra patologia ou distúrbio mental, visto ser geralmente reconhecida a sua desmedida ambição. Restaria um ou outro caso que talvez pudesse safar-se alegando padecer de profunda, pura e simples estupidez, o que, sendo mais do que patente para qualquer pessoa normal (uma besta quadrada tresanda a milhas), deixaria pouca margem de actuação ilibatória para as competentes autoridades de saúde pública.

Na verdade, o “acordista” típico só pode ser — além de transitória ou definitivamente louco – ou convictamente ganancioso  ou selvaticamente mentiroso ou profundamente estúpido. De tais e tão homogéneas “qualidades” constitui o AO90 basta prova, como vamos vendo quotidianamente pelos efeitos e conforme periódicos testemunhos dos ditos vamos ouvindo quando em vez.

Seja qual for a perspectiva, o ângulo de análise, o tipo de abordagem ou o elemento de estudo — histórico, linguístico, cultural, social ou simplesmente técnico, pragmático, utilitário — o “acordo ortográfico” de 1990 não passará jamais, ainda que sob um escrutínio inexperiente, empírico ou até incompetente, de uma miserável (e evidente) mescla de engenharia política e de experimentalismo social para, orwellianamente, controlar as massas (em todas as acepções) e assim poderem roubá-las em total impunidade. Roubar, sim, o verbo não é nem casual nem arbitrário, que é disso que se trata quando vigaristas nos tentam enganar, dissimulando as suas reais intenções com uma “conversa” totalmente desprovida de sentido, quando procuram convencer-nos dos méritos da banha cobra ou dos benefícios para a saúde que existem no prática regular da queda-livre sem pára-quedas.

Politicamente falando, já que falamos de roubo, estamos conversados. O AO90 é estritamente político, não é acordo algum e de ortográfico nada tem.

Porém, visto que ainda há inocentes no meio disto tudo, servindo aqui o plural condescendente para atenuar a burrice dos ditos, também não virá grande mal ao mundo se — com pinças — usarmos diversos meios para desmontar as mentiras. Para isso mesmo serve uma coisa genericamente designada como “informática” e, em especial, um dos seus ramos mais especializados, a folha-de-cálculo.

Este, pelo menos assim o espero, não é um trabalho “tipo” mete-nojo, de e para académicos, contendo impressionantes hermetismos e tecnicismos  incompreensíveis para o mais comum dos mortais. Sem peer review porque não há peers e porque há pouco quem review (em especial quando isso não é pago), sustenta-se apenas na escassa credibilidade que em Portugal é por regra atribuída ao trabalho.

Trabalho esse, no caso vertente, cuja complexidade aumenta exponencialmente na razão directa da absoluta bandalheira (cá está um termo “técnico”, peço desculpa) da matéria-prima, isto é, dos dados em análise: como nunca será demais destacar, aquilo a que o Portal da Língua Portuguesa brasileira chama “Vocabulário de Mudança” é de um amadorismo a toda a prova, tornando virtualmente impossível qualquer espécie de tratamento informático com base nos dados para ali atirados à matroca.

Para tornar possível o impossível, portanto, foi necessário esticar em muito o tempo e levar a paciência a um extremo verdadeiramente budista. Todas as tentativas de normalização automática — ou de automatização das correcções — revelaram-se infrutíferas pelo motivo mais óbvio: os erros são aleatórios, o preenchimento dos dados na origem foi feito ao acaso, sem qualquer espécie de critério, norma ou método de recolha. A título de simples ilustração, veja-se o caso da colocação (antes e depois da vírgula, outro absurdo) das entradas em PT-BR e em PT-PT: o que vai antes e o que vai depois? Qual é a regra? Nenhuma.

Tornou-se por conseguinte necessário conferir e corrigir os dados de origem, linha a linha (6569), registo por registo (4 a 11 campos cada). Existem entradas com erros de acentuação e de maiúsculas iniciais, dados  casuísticos (por exemplo, o preenchimento dos dois campos “Notas” é à sorte) e ausentes em casos de igual teor ou tipo, terceiras e (raras) quartas alternativas sem espaço para tal, “gralhas” diversas, casos únicos sem qualquer indicação, espaços a mais ou a menos, enfim, toda a sorte (digo, azar) de imprevisíveis. Confesso que não entendo sequer em que  raio de suporte aquela coisa terá sido feita; só pode ter sido uma simples tabela de texto mas nem assim acertaram nos requisitos mínimos; até em processamento de texto há regras, uma lista informatizada de palavras não é exactamente o mesmo que uma lista de compras escrita à mão.

Seja pelas alminhas, então. Para já, como appetizers, temos aí uns quadros básicos (DIF/DIF, Invenções, M.I, N.A.P.) e outros se seguirão com certeza.

Excelente Excel, de tão bons resultados quanto fiáveis conclusões. Os quais revelam e as quais implicam tratar-se o AO90 de um filme de terror — que até os inocentes só não vêem se não querem.

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Casa-grande e CPLP

Só resta a última razão, ou sem-razão, por que os senhores desprezam os escravos, que é a vileza e miséria da sua fortuna. Oh fortuna! E que mal considera a cegueira humana as voltas da tua roda? Virá tempo, e não tardará muito, em que esta roda dê volta, e então se verá, qual é melhor fortuna, se a vil e desprezada dos escravos, ou a nobre e honrada dos senhores. [Padre António Vieira, “Vigésimo Sermão do Rosário”]

 

 

Concordando-se ou não, no todo ou em parte, com aquilo que diz o autor, nomeadamente quando ilustra a sua tese com um episódio recente ocorrido no Bairro da “Jamaica” (Vale de Chícharos, Fogueteiro, Seixal), a verdade é que  — na minha simples opinião, claro — neste texto está claramente exposto e muito bem denunciado o carácter intrinsecamente neo-colonialista da CPLP.

Pena é que, talvez devido ao enraizado hábito de atirar sempre ao mesmo “colonizador” (ou seja, Portugal), Sérgio Dundão tenha omitido o verdadeiro nome da potência colonizadora que, servindo-se da CPLP como pano de vela (e do AO90 como alvará), pretende tomar posse administrativa do antigo Império Português, a começar pela respectiva sede; sempre a pretexto da “língua comum”, como sabemos, e escorando-se em efabulações avulsas nas quais fingem acreditar alguns mercenários portugueses.

Aliás, é esse carácter neo-colonialista, mesmo não o tendo feito consciente e deliberadamente, que o próprio autor formula como desfecho: «Cabe, portanto, à CPLP funcionar como uma demarcação dos antigos territórios coloniais, como um quintal idealizado pelo colonizador que serve de abrigo aos cidadãos e às empresas da casa grande, em tempos de crise.»

Exacto. “Casa-grande“. Faltou o hífen, se calhar por gralha ou abatido pelo AO90. O Brasil, portanto.

CPLP: Uma comunidade ilusória

A CPLP não assegura um tratamento paritário entre os cidadãos dos seus Estados-membros.

Sérgio Dundão
publico.pt

 

Os acontecimentos do Bairro da Jamaica mostram como a comunidade supostamente lusófona está alicerçada no equívoco do colonialismo tardio da pós-colónia. Esse colonialismo manifesta-se através da constituição de instrumentos políticos para actuar nos espaços africanos, nomeadamente a CPLP, os institutos culturais e as agências de desenvolvimento, que são uma autêntica réplica do modelo francês de projecção mundial na era global. A forma como a França se projecta no mundo acaba por reflectir, segundo Mbembe (na obra Sair da Grande Noite), a sua resistência em analisar e pensar a pós-colónia. Ao fazer esta projecção sem uma reflexão profunda, e até crítica, do seu papel no mundo, observa-se uma situação de exclusão da mundicidade que se encontra nas suas periferias e de não-aceitação do francês sem a matriz europeia.

Essa situação coloca-se igualmente no projecto português. Por exemplo, a CPLP projectou-se como uma plataforma de Estados falantes de língua portuguesa, mas a unidade linguística guineense e cabo-verdiana é em torno do crioulo, que constitui também uma marca portuguesa na medida em que é uma língua que resulta do cruzamento das línguas africanas com uma língua europeia. Mas os portugueses dificilmente reconhecem este património cultural, desejando somente projectar o português como o único instrumento linguístico na sua acção externa nos países africanos da CPLP. Por isso, na obra A Câmara, a Escrita e a Coisa Dita, Ruy Duarte de Carvalho considerou a CPLP como um mecanismo de demarcação de um território ao estilo dos machos no reino animal. O que constitui uma rejeição das línguas das comunidades africanas, fortemente enraizadas no espaço “lusófono”.

Portugal pretende assegurar um espaço de influência nos países africanos de forma a permitir que as suas empresas e cidadãos possam retornar em condições extremamente favoráveis aos lugares coloniais, sem o rótulo de colonizadores. Por isso, os quadros portugueses em Angola e Moçambique são hoje vistos como expatriados, representando um status migratório distinto dos africanos em Portugal, enquanto que os moradores do Bairro da Jamaica são meros imigrantes que vivem nos subúrbios. Em alguns casos são os antigos moradores dos “musseques” africanos que agora vivem nos guetos da exclusão e de esquecimento social.

Assim, a CPLP não assegura um tratamento paritário entre os cidadãos dos seus Estados-membros. Deixando que as comunidades africanas sejam vistas como incómodas, que nunca aceitaram submeter-se aos valores culturais europeus, tal como os indígenas africanos. O que reproduz uma velha modalidade colonial presente no discurso oficial e na imprensa: que existe uma falta de vontade por parte das comunidades africanas na inclusão e aceitação dos superiores valores europeus.

Essa perspectiva de superioridade cultural constitui uma negação da presença histórica dos portugueses no mundo, impedindo que a língua portuguesa seja assumida nas suas variações linguísticas e geográficas como um património comum. Por conseguinte, mesmo os membros das comunidades falantes de língua portuguesa com cidadania portuguesa são constantemente rejeitados por força da sua origem. Porque hoje já não basta ser cidadão português para se ser considerado um português (ou europeu) de plenos direitos, ideia já traçada por Mbembe a propósito da realidade francesa.

É sob esta perspectiva de rejeição de pertença que os acontecimentos do Bairro da Jamaica foram comentados, i.e., os polícias portugueses agrediram uma família angolana. Esta descrição mostra como a Europa tem vindo a cristalizar a distância entre negros e brancos (os de cá e os de lá). Este fenómeno pode ser explicado pelas vagas de africanos e asiáticos que chegaram ao continente europeu com o fim da colonização, cujos membros são igualmente rejeitados mesmo possuindo a cidadania europeia devido à sua origem não-europeia.

Tornando-se vital, sim, a protecção da população de origem europeia que ficou nos territórios colonizados, através da concessão de cidadania aos descendentes dos europeus. Prevalecendo, desta forma, o princípio de jus sanguinis. Por exemplo, os sujeitos africanos nascidos em Portugal, pelo facto de não pertença à origem europeia, não são tratados automaticamente como portugueses.

Observando essa realidade socio-histórica, torna-se “natural” acreditar que o tratamento dado aos moradores do Bairro da Jamaica faz parte dessa lógica de rejeição. Daí que a constituição de uma comunidade lusófona seja totalmente ilusória, porque está em vigor uma política identitária que visa preservar os europeus como sujeitos brancos e de uma só origem histórica e etno-social.

Cabe, portanto, à CPLP funcionar como uma demarcação dos antigos territórios coloniais, como um quintal idealizado pelo colonizador que serve de abrigo aos cidadãos e às empresas da casa grande, em tempos de crise.

[Transcrição integral de: «CPLP: Uma comunidade ilusória», por Sérgio Dundão, “Público”, 12.03.19. “Links”, destaques e sublinhados meus. Imagem de topo de: Prefeitura do Rio de Janeiro, via “ecompras Rio” (Brasil).]

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Panem et circenses

Optimism is the opium of the people.‘ [Milan Kundera]

Crença não é exactamente o mesmo que fé, assim como fé pouco tem a ver com escolha consciente e em nada depende da razão. No entanto, ao que parece, é melhor, respectivamente, tê-la do que não tê-la. A fé, quero dizer, já que as demais variáveis da premissa estão hoje em dia pela hora da morte.

Nesta categoria — que o “povão”, na sua infinita capacidade de síntese, designa como “fia-te na Virgem e não corras” — encaixam perfeitamente os chamados “arremedos”, isto é, aqueles eventos e gestos, aquelas datas e cerimónias ou, em suma, aqueles “actos simbólicos” que valem tudo enquanto simbólicos mas não valem rigorosamente nada enquanto actos; não raramente meras encenações — não ocasionalmente puras macaqueações — de algo inexistente a que o Poder pretende conferir alguma espécie de credibilidade e assim desviar as atenções daquilo que de facto interessa.

O caso mais flagrante de tal tipo de fantochada (designação minha) é o chamado “Natal”: há um dia 25 no calendário em que toda a gente só quer é “paz e amor e passarinhos e florinhas”, o pessoal fecha-se em casa com “os seus” e todos atestam o bandulho (as “broas” em versão Marco Ferreri), ai, mas que grande alegria, vamos cantar-zi-o Jingle Bell-Jingle Bell, que é tão nosso, tão lindo, ó Maria, não te esqueças de guardar aí os ossos do piru para dar aos pobrezinhos, óvistes? E pronto, bate a meia-noite e oferecem-se prendas, arruma-se o estenderete e xixi-cama. No dia seguinte, 26, tudo volta ao normal, durante outras 364 jornas a única dúvida existencial que por vezes assalta o maralhal é se ainda há quem acredite no Pai Natal.

Bom, mas lá voltamos à presunção básica, não haja dúvidas, também no que respeita ao Natal é melhor havê-lo (e tê-lo) do que não tê-lo (ou não havê-lo).

E quem diz Natal, salvas as devidas distâncias, diz o “Dia De” (não confundir com “Dia D”, que é ligeiramente diferente). Há um Dia da Mulher, por exemplo, como o Dia do Mar ou o Dia da Árvore (palpita-me que ainda vamos ter o Dia do Aquecimento Global, um destes dias), e há os dias feriado, os civis e os religiosos, Páscoa, Carnaval, Ano Novo, Santo António, São João, São Pedro, um Santo por dia, ui, vai por aí um engarrafamento de santos que até ferve, são mais q’as mães, salvo seja, e Dia Disto e Dia Daquilo é a gastar, já só falta um dia (feriado, bem entendido, que o pessoal adora comemorar o Dia do Banho de Sol sempre que possível) em que se “comemore” ou “enalteça” ou “recorde” uma qualquer raça canina (o Dia do Galgo Afegão seria giro, ou o Dia do Chihuahua, porque não).

Salvas as devidas distâncias, repito, pois não é certo que sirvam para alguma coisa, uns, e que não sejam absolutamente ridículos, outros, todos estes Dia De entupindo o espaço entre luas não passam também de  fantochadas com a finalidade de entreter as massas ignaras. Fantochadas essas que as ditas massas agradecem, veneradoras, atentas e obrigadas, lamentando apenas que lhes não concedam os “eleitos”, em havendo pão, ainda mais circo.

Pão e circo, portanto e afinal, o fulcro da questão em toda a sua primordial simplicidade. Quando (supostamente) Juvenal crismou a essência da conservação do Poder — culto das aparências, apagamento da memória, erosão da consciência cívica — estaria decerto muito longe de sequer imaginar que dezanove séculos depois a sua formulação, tão perene e exacta como H2O, estaria ainda mais próxima da pureza absoluta.

A cidadania também é uma questão de cultura

A noção de cidadania é algo que a cultura do espírito não deve ignorar, na sua formação primária.

Nuno Pacheco
“Público”, 28.02.19

 

A Casa da Democracia (o parlamento) abriu-se esta terça-feira à Casa da Cidadania, no que constituirá um acto simbólico de aproximação entre eleitos e movimentos sociais. Antes de falarmos da essência de tal acto (a 3.ª Conferência Anual da Plataforma de Associações da Sociedade Civil – Casa da Cidadania, reunida desta vez na Sala do Senado da Assembleia da República), recuemos na História, em busca das origens da moderna noção de cidadania que, sendo designação muito antiga, adquiriu um novo significado a partir do século XVIII.

O Dicionário Etimológico de José Pedro Machado, ao procurar “o sentido moderno” de tal palavra, encontrou as suas origens prováveis em França. Terá sido em Outubro de 1774, quando Pierre-Augustin Beaumarchais (1732-1799), dramaturgo, autor de O Barbeiro de Sevilha ou As Bodas de Fígaro, usou a palavra “cidadão” num contexto de litígio, após ter sido processado por um conselheiro de Paris. Terá dito Beaumarchais: “Eu sou um cidadão; não sou nem um banqueiro, nem um abade, nem um cortesão, nem um favorito, nada daquilo que se chama uma potência; eu sou um cidadão, isto é, alguma coisa de novo, alguma coisa de imprevisto e de desconhecido em França; eu sou um cidadão, quer dizer, aquilo que já devíeis ser há duzentos anos e que sereis dentro de vinte talvez!” Não se enganava: em 1791, a Constituição nascida da Revolução Francesa (1789-1799) deu o qualificativo de cidadão (citoyen) a todo e qualquer membro do Estado, substituindo o anterior tratamento de senhor e senhora (monsieur e madame). E a Marselhesa, hino composto nos fervores revolucionários, em 1792, registou o “Aux armes, citoyens” (às armas, cidadãos) que ainda hoje se mantém, apesar das muitas mudanças desde então.

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A terra e a terrinha

Esta política, este S. Bento, esta eloquência, estes bacharéis matam-me. Querem dizer agora aí que isto por fim não é pior que a Bulgária. Histórias! Nunca houve uma choldra assim no universo!
— Choldra em que você chafurda! observou o Ega rindo.
O outro recuou com um grande gesto:
— Distingamos! Chafurdo por necessidade, como político: e troço por gosto, como artista!
Mas Ega justamente achava uma desgraça incomparável para o país – esse imoral desacordo entre a inteligência e o carácter.
Assim, ali estava o amigo Gonçalo, como homem de inteligência, considerando o Gouvarinho um imbecil…
— Uma cavalgadura, corrigiu o outro.
— Perfeitamente! E todavia, como político, você quer essa cavalgadura para ministro, e vai apoiá-la com votos e com discursos sempre que ela relinche ou escoucinhe.
Os Maias’, Eça de Queirós

 

Enquanto a Assembleia da República da “terrinha” conserva intacto o balde do lixo onde serão despejados quaisquer laivos de resistência, o patronato brasileiro comemora o décimo aniversário da sua campanha de terraplanagem linguística e cultural. 

São, de facto, mais do que evidentemente concordantes, consequentes, interligados os sinais de um lado e do outro: a extrema arrogância do “gigante” brasileiro, passeando à trela a “sua” língua pequenina, e a vergonhosa, insultuosa, asquerosa passividade do minorca tuga, encolhido a um canto, sempre fingindo que nada se passa, receoso das chibatadas ou ganindo pelos restos que lhe possa atirar o dono.

Esta “notícia” da “terra” (brasileira, claro) é apenas uma de entre as muitas que de igual forma “parabenizam” a sua nacional golpada neo-colonialista — sem cujos acólitos, mercenários, deslumbrados, vendidos tugas não teria sido possível — e exultam, já cantando vitória, pela extinção radical do Português-padrão.

Note-se como os “caras” já nem se ralam com minudências como sejam a existência de outros países na CPLP (não contando com Portugal, pois, que não é um país, é uma choldra) e que a esses outros também “afeta” a cacografia brasileira. No parágrafo inicial da “notícia”, lá aparecem a “choldra” e os “outros” mas isso serve apenas para efeitos contabilísticos, como lembrete do número, quantas são as novas colónias.

No resto, no corpo da “notícia”, o costume: mentiras atrás de mentiras. Em todos os aspectos. Nem vou, desta vez, dar-me à maçada de acrescentar “links” ou notas; é tudo, de cabo a rabo, um chorrilho de mentiras tão descabeladas que nem vale a pena “atrapalhar” mais a fluidez das tangas, o texto ficaria virtualmente ilegível; e mesmo assim, apenas sublinhando ou destacando algumas das patranhas mais significativas, já se torna difícil ler (e muito mais ainda acreditar na lata descomunal daqueles “caras”).

A vertente política da matéria — a única que de facto interessa — é literalmente “chutada para canto”, mas até quanto ao “acordo” propriamente dito não têm qualquer pejo em reafirmar aquilo que toda a gente sabe e que apenas alguns tugas tentam iludir: o AO90 tenta atenuar um pouco a cacografia nos diversos estados do Brasil e impor a salgalhada daí resultante a sete “colônias” no “isstêriô”. Por isto mesmo referem apenas “dificuldades” brasileiras (sobrantes do AO45, não resultantes do AO90), “hábitos” brasileiros, “especialistas” brasileiros, “populações” brasileiras, “pessoas” brasileiras.

Pois sim, pois sim. Em Angola não há dificuldades nem há populações. Em Moçambique não há hábitos nem especialistas. E em Portugal ainda é pior: aqui na “terrinha” não há pessoas, só há impessoas. E “grupos de trabalho”.

Acordo Ortográfico da língua Portuguesa completa 10 anos

Acentuação e hifenização ainda são maiores dificuldades apontadas por especialistas

No dia 1º de janeiro de 2009, entrava em vigor no Brasil o novo Acordo Ortográfico, medida que pretendia padronizar a grafia das palavras do Português nos nove países que adotam o idioma como língua oficial. Estima-se que as novas regras afetaram de 0,5% a 0,8% das palavras do Português brasileiro, bem menos do que as alterações estimadas para o Português de Portugal, que ficaram em 1,5% – o que explicaria a menor resistência do brasileiro em abraçar o Acordo.

“Mudanças na ortografia, por meio de leis e acordos, ocorrem de tempos em tempos no Português. O último acordo, antes do vigente, datava de 1943, com alterações em 1971. Sempre haverá, nesses momentos, quem esperneie e blasfeme quanto às mudanças, mas nenhum Acordo nesse sentido é feito para dificultar – e sim para tornar as coisas mais simples, mais fluentes. O Português carecia de uniformidade em sua modalidade escrita. São 250 milhões de usuários que escreviam e liam com diferenças que atrapalhavam essa uniformidade do idioma. A sintaxe, a forma de combinar as frases, o vocabulário de cada localidade falante dos diversos tipos de Português não sofreram alteração. Sob o ponto de vista simbólico, essa uniformização valoriza a Língua Portuguesa em sua representatividade no cenário internacional”, avalia Yeso Osawa Ribeiro, professor de Língua Portuguesa e Redação no Curso Positivo, de Curitiba (PR).

Gestado desde 1990, como desdobramento de um encontro para unificação do Português ocorrido em 1986, o Acordo Ortográfico deveria ter entrado em vigor em 1994. Em vez disso, por questões burocráticas, ele só passou a ser adotado há uma década, quando o Brasil iniciou a implantação, fazendo com que os outros países iniciassem seus processos em seguida. Por alguns anos, as novas regras conviviam com as antigas sem qualquer problema. Porém, desde 2016, quando terminou o período de transição, somente o novo Acordo Ortográfico passou a ser aceito no Brasil.

O assessor pedagógico de Língua Portuguesa do Sistema Positivo de Ensino, Caio Castro, afirma que, apesar de o novo Acordo Ortográfico pretender facilitar a comunicação entre os países de Língua Portuguesa, é comum as pessoas apresentarem dúvidas em relação à nova ortografia – principalmente aquelas que estavam acostumadas com as normas antigas há mais tempo. Segundo ele, uma das alterações que mais confunde as pessoas, atualmente, estão ligadas à hifenização. “É muito comum nos perguntarem em que situações o hífen deixou de ser usado, como em ‘antirreligioso’ e ‘autorretrato’, e em quais não, como ‘bem-vindo’ e ‘anti-inflamatório'”, explica. Outro caso em que o hífen deixou de ser usado e ainda gera confusão na população é quando o prefixo termina em vogal e o sufixo começa com uma vogal diferente, como em aeroespacial, lembra o especialista.

Com as novas regras do Acordo Ortográfico, palavras como “assembleia”, “ideia” e “jiboia” perderam o acento, por serem paroxítonas, enquanto “herói”, “chapéu” e “anéis”, que são oxítonas, mantiveram o acento. Para Ribeiro, o caso que mais trouxe dor de cabeça, principalmente aos adultos, foi o da mudança nos ditongos abertos em “ei”, “eu”, “oi”. “Antes, todos eles eram acentuados, indistintamente. Agora, apenas quando ocorrem em palavras oxítonas”, explica o professor. Outra dificuldade de assimilação citada por ele foi a extinção do acento circunflexo nos hiatos “oo” e “ee”, o que fez com que palavras como “voo” e “leem” não sejam mais acentuadas; bem como o fim do acento diferencial em palavras com a mesma grafia, mas pronúncia e significados diferentes, como é o caso do verbo e da preposição para, ou do substantivo e da preposição pelo. “As regras dos acentos diferenciais e dos hiatos em vogais dobradas ainda causam problemas, embora a frequência seja muito menor do que os dos ditongos”, explica Ribeiro.

Por outro lado, diz ele, algumas alterações, como o fim do trema, só expressaram o que já acontecia de fato e foram rapidamente absorvidas. “As pessoas, de um modo em geral, não usavam trema; a regra, nesse sentido, facilitou o trabalho para a maioria”.

Source: Acordo Ortográfico da língua Portuguesa completa 10 anos (destaques meus)

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