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Fia lux e fata lux es

Seria com certeza redundante, além de pretensioso e arrogante, especular sobre o que está por detrás disto. Que “sociedade secreta” (ou apenas “discreta”) e que ligações existirão porventura entre esta espécie de maçonaria católica e a sua congénere pretensamente secular; mais complexo ainda seria, a partir daí, determinar as relações de ambas as seitas, que facilmente se confundem, com outras organizações de características similares.

De uma coisa poderemos estar certos, porém, não apenas quanto a esta mas a respeito de todas as “famílias” e “irmandades” organizadas: não havendo para os seus membros o mais ínfimo risco ou a mais remota espécie de perigo, não sendo nem eles mesmos nem as respectivas “famílias” alvo de qualquer tipo de perseguição, de restrição de movimentos, de reunião, de expressão ou até de propagação das suas “ideias” (ou da sua total inexistência), pois então, por exclusão de partes, algo de muito difícil compreensão (ou de sinistro) compelirá tais “sociedades” a manter-se voluntariamente na clandestinidade. Se nada obsta a que se expressem ou manifestem, se ninguém pretende  segregá-los, denegri-los, caluniá-los, desonrá-los ou cometer contra eles qualquer espécie de violência — física, moral ou psicológica –, se não existe a mais ínfima reserva política ou condicionante jurídica especificamente dirigida a tais organizações, então, se se escondem por detrás do anonimato, se operam apenas nos bastidores, movimentando-se na sombra, como fantasmas ou demónios, algum motivo muito forte ou motivações quiçá inconfessáveis terão os “manos” para persistir no seu bizarro secretismo.

Não se tratando de organizações terroristas (se bem que, à semelhança dessas, também não divulguem  registos nem apresentem contas de espécie alguma) e não perseguindo objectivos de carácter subversivo (muito pelo contrário, já que todos os seus dirigentes pertencem à oligarquia dominante), torna-se para o comum dos mortais ainda mais “incompreensível” essa espécie de brincadeiras “discretas” das tais sociedades “secretas” (ou vice-versa). Ao fim e ao cabo, trata-se de adultos, nenhum deles conhecido por ser muito pobre, indigente, alienado ou particularmente ascético, praticando uma variante do infantil “vamos jogar ao esconde-esconde”. De repente, é facílimo, basta-lhes tirar o avental ou despir a batina e pronto, acabou-se a brincadeira, estão instantaneamente de volta ao seu elemento natural e ao seu ambiente habitual, os corredores do Poder, os “passos perdidos” da política, os recintos inexpugnáveis onde escorre o néctar borbulhante e se degustam canapés requintados enquanto se fecham negócios, compram-se nações e trespassam-se povos, decreta-se o apagamento de memórias inconvenientes e inventam-se “factos” indesmentíveis.

Terá decerto sido num desses lautos repastos que despacharam os confrades entre si, com a solícita participação de tribunos aspirantes, a chamada “questão ortográfica” — flagrante exemplo dos tais “factos indesmentíveis” inventados de raiz —  e como abichar mais uns milhões à conta daquela ridícula vigarice, distribuindo-os depois irmãmente (em sentidos lato e restrito) pelos demais convivas ali presentes e não esquecendo a aquiescência dos políticos envolvidos, a “neutralidade activa” dos respectivos lacaios (vulgo, deputados) e a anestesia, a passividade, a geral paralisia proporcionada pelo competentíssimo trabalho de lavagem cerebral realizado por “jornalistas” e “fazedores de opinião” a soldo. Ah, pois, contas são contas, meus amigos, e naquelas confrarias só pára gente de respeito, no que tange a metal sonante, pague-se o que se tiver de pagar, compre-se quem se tiver de comprar, até ao último centavo não há cá dívidas, raios, para alguma coisa servem os tampos das mesas, por baixo passa tudo.

São assim mesmo, os “irmãos”, quando despojados de suas vestes comprometedoras e interrompendo a contra-gosto seus estilizados rituais, aquilo é tudo gente que honra com escrúpulo compromissos, venha o primeiro que duvide, nunca, jamais um único daqueles senhores deixou por liquidar o montante que prometeu, desonrou a palavra dada a outro envolvido, roeu a corda numa qualquer negociata ou sequer chibou-se quanto a qualquer das piquenas ilegalidades que sempre ocorrem quando se congeminam fraudes, sempre que se compra, vende ou troca o que não é trocável, vendável ou comprável.

E também, que diabo, vejamos, será que existe mesmo alguma coisa absolutamente imune a transacções porque, mesmo tendo um valor incomensurável, ainda assim — ou por isso mesmo — não tem preço?

E haverá de facto alguém que de todo não se venda? Mas então porquê, santo Deus?!

Porque não tem valor? Pois. Não se vende porque não tem valor. Só pode.

Há uma nova tradução da Bíblia para Português. E os leitores vão poder pronunciar-se

Ângela Roque
24 Março 2019 , rr.sapo.pt,

Conferência Episcopal Portuguesa apresenta, esta segunda-feira, a tradução de ‘Os Quatro Evangelhos e Salmos’, feita a partir das línguas originais, mas a opinião de quem lê vai ser tida em conta para uma próxima edição. Trabalho iniciado em 2012 envolve mais de 30 biblistas, incluindo dos PALOP.

 

A edição de ‘Os Quatro Evangelhos e Salmos’ faz parte do projecto de tradução de toda a Bíblia, promovido pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP). O objectivo é conseguir um texto uniforme, traduzido directamente das línguas originais (hebraico, aramaico e grego), que possa ser usado na liturgia, na catequese e em todas as actividades da Igreja, quer em Portugal quer, futuramente, nos outros países lusófonos, que também colaboram neste trabalho. O projecto arrancou em 2012, e segue o acordo ortográfico.

A comissão coordenadora do projecto é presidida por D. Anacleto Oliveira, bispo de Viana do Castelo, e também ele biblista, e inclui vários elementos da Associação Bíblica Portuguesa (ABP).

Em entrevista à Renascença, o padre Mário Sousa, presidente da ABP e professor de Novo Testamento no Instituto Superior de Teologia de Évora, explica que já estava na altura da Bíblia ter uma nova tradução em Português, destacando, para além do grande número de colaboradores, o facto de se pretender sujeitar o texto à apreciação dos leitores antes de se avançar para uma versão definitiva.

Por que é que houve necessidade de uma nova tradução da Bíblia?

Porque sempre se sentiu, sobretudo nas traduções litúrgicas, que determinadas expressões não estavam, talvez, bem conseguidas, e que talvez fosse importante fazer-se uma revisão. Depois a Conferência Episcopal julgou ser pertinente em vez de se fazer apenas uma revisão e completar os textos – porque, de facto, nem todos os textos são usados na liturgia, e por isso nem toda a Bíblia estava traduzida a nível litúrgico -, fazer-se uma tradução de raiz, partido das línguas originais, ou seja, do hebraico e do grego, e também do aramaico, para determinadas passagens.
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Governo Sombra com Iniciativa

Os “ministros” Pedro Mexia, Ricardo Araújo Pereira e João Miguel Tavares, além do próprio “host” do programa, Carlos Vaz Marques, manifestam mais uma vez unanimidade no que ao “acordo ortográfico” diz respeito: todos contra.

Esta emissão do “Governo Sombra” passou na TVI na madrugada do dia 2 de Fevereiro de 2019 e em gravação áudio, na TSF, no dia seguinte.

A parte que mais interessa, aquela em que o “gabinete ministerial” fala (ou, melhor, diz cobras e lagartos) sobre o AO90, acontece a partir do minuto 45 e, durante os seis minutos e meio dedicados ao tema, aquilo a que assistimos é o habitual arraial de pancadaria, os quatro altos dignitários da Nação competindo entre si a ver quem dá mais porrada na malaquenha invenção. Apenas João Miguel Tavares coloca algumas reticências quanto à reversão do processo de demolição em curso (ah, e tal, as minhas filhinhas, coitadinhas, se isto volta atrás vão ter de aprender a escrever de novo, etc.) mas, evidentemente, aquilo é brincadeira, ninguém pode aventar semelhante objecção sem estar no gozo, este João Miguel adora a reinação.

Uma espécie de fenómeno curioso ocorrido durante esta ministerial conversação é o facto de Pedro Mexia ter declarado apoiar a ILC-AO (que subscreveu, como é público, à semelhança do que fez RAP) e de ter assinado «tudo o que me puseram à frente sobre o acordo ortográfico» mas com uma única excepção: «tirando uma coisa sobre um referendo; como ia ter 5% de participação, achei que era má ideia.»

Curioso, realmente, oh, sim, muito curioso. Mas então não é ele mesmo, Pedro Mexia, um dos “mandatários” do tal referendo-que-afinal-é-má-ideia?

Estarás pois tu, ó Pedro, a mentir? E, se não estás tu a mentir, ó Pedro, como a mim me parece, então quem será que anda por aí a aldrabar o pessoal? Quem será o aldrabão (ou aldrabões), hem, ó Pedro, que a mim, assim de repente, não me ocorre (digamos) nomezinho nenhum, hem, ó Pedro, o que dizes?

Bom, e daí, talvez seja melhor não dizer mais nada, pelo menos até ver.

O que por agora importa é ouvir. E ler. E pensar. E então agir: apoiar a luta contra o AO90  ajudando de todas as formas possíveis a única Iniciativa verdadeira, séria, credível e viável para acabar com ele.

 

Nota: o vídeo acima está em “iframe” (página externa embutida), daí a publicidade inserida pela TVI na “janela” de origem; é possível que o dito canal de TV tente impingir remotamente, além de anúncios a granel, uma qualquer inscrição num “portal” ou num serviço qualquer. Evidentemente, não tenho nada a ver com isso, manobras publicitárias ou truques de “marketing” não são a minha praia. Sugiro que a visualização seja feita no “site” onde está alojado (e aferrolhado) o vídeo.

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O AO90 visto a 45º

[Como nem o entrevistador nem o entrevistado apreciam particularmente o uso de palavras em “estrangeiro”, aqui deixo, da entrevista, à laia de apetáisa, alguns ailáites.]

  • Isto é uma salgalhada total.
  • A ortografia vai a reboque da pronúncia. Isto é um princípio perigosíssimo.
  • Quem se mete a defender o acordo sai sempre com disparates absolutos.
  • “Pronuncio, escrevo. Não pronuncio, não escrevo. Então temos a ortografia unipessoal.
  • Isto é o desmembramento da Língua em muitos aspectos.

#46 Manuel Monteiro – “Andamos a tratar mal a Língua Portuguesa?”

Manuel Monteiro é um escritor e revisor linguístico que se tem tornado conhecido, de há uns anos para cá, como um dos maiores paladinos da Língua Portuguesa na actualidade. Tem obra publicada na área da literatura e da não-ficção e o seu livro mais recente, “Por Amor à Língua — Contra a Linguagem Que por aí Circula”, foi o mote para a conversa.

O Manuel é, como vão ver, de uma erudição no que toca à língua que nos faz logo sentir ignorantes. Faz questão, por exemplo, de continuar a usar palavras que foram caindo em desuso ou de usar a pronúncia original para palavras cuja pronúncia o uso corrente deturpou (o que leva a que pareça, a um ouvinte incauto, ser ele quem está a falar mal).

Durante a discussão, que foi bem animada, discorremos sobre vários temas, desde a origem, etimologia e evolução da Língua Portuguesa, até à nossa predilecção nacional pela importação de palavras estrangeiras, passando pelo inevitável acordo ortográfico.

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Bio: Manuel Monteiro é autor, revisor linguístico e formador profissional da Revisão de Textos. Tem obra publicada na área da literatura e da não-ficção. Os seus livros mais recentes são Dicionário de Erros Frequentes da Língua e Por Amor à Língua — Contra a Linguagem Que por aí Circula.

[Conteúdos produzidos e publicados por José Maria Pimentel, podcast “45 Graus”, em 23.01.19. Inseri “links” no texto citado.]

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ετυμολογία: προέλευση, τρόπος σχηματισμού και η εξέλιξη μιας λέξης

De onde vêm as palavras dos dicionários? Trá-las a cegonha, como aos bebés

Nuno Pacheco
publico.pt, 17.01.19

 

Não tencionava voltar esta semana ao tema, mas três razões vieram impor-se: os argumentos invocados por alguns comentários à minha crónica anterior; uma notícia da Rádio Agência, de Brasília, sobre o acordo ortográfico; e a edição, recente, de mais um dicionário da Texto.

Comecemos pelos comentários. Num, diz-se que “o AO não é um instrumento perfeito. (…) Que tem bastantes incongruências, é verdade. Que muitas delas podem ser corrigidas, também o é.” Mas alguém as corrigirá? Outro: “Graças a si e aos demais como o sr. pensam e (pior) agem, a língua portuguesa daqui a menos de duas décadas estará num museu.” Engana-se, já está. Em São Paulo. E ainda ninguém se queixou.

Outro ainda: “É pena não ver algo muito mais importante (e preocupante!), que é a (cada vez menos) subreptícia [sic] instalação de anglo-americanismos no discurso diário [PÚBLICO incluído].” Uma coisa não exclui a outra: as aberrações da “nova ortografia” são, aliás, mais recentes do que as modas dos anglicismos (antes foram os galicismos), porque o papaguear “estrangeiro” sempre foi, desde há décadas ou até séculos, forma ridícula de nos imaginarmos “maiores”; enchemos a boca dos valores do Português, mas à mínima oportunidade ignoramo-lo. Isso enquanto permitimos que o Português se deforme até ficar irreconhecível à vista e à fala.

Por fim: “Qualquer entidade pública e até as empresas devia [sic] estar obrigadas por lei a aplicar somente o AO que esteja em vigor!” Pois se assim fosse, aplicariam o AO de 1945, único ainda em vigor por lei. O AO90 foi imposto por resoluções, do governo e da assembleia, e essas, como devia ser claro para todos, não têm valor para revogar tal lei. Fica claro?

Há, no meio de tudo isto, um justo alerta: o “quase desaparecimento do ensino do Latim e do Grego do ensino secundário português, e das consequências desta situação na qualidade do ensino do Português.” É verdade, mas até isso anda associado aos efeitos nefastos do dito acordo de 1990, com a deslegitimação da etimologia em prol da fonética.

Basta ver a mais recente edição do Dicionário da Língua Portuguesa da Texto (já com o AO), das mesmas autoras do Dicionário Verbo de 2006 (ainda sem AO). Num e noutro, não há indicações etimológicas (ao contrário do que sucedia no Universal da Texto de 1995, ou no da Porto Editora de 2009). De onde vêm as palavras? Não dizem. Nem grego, nem latim, nem árabe, nem qualquer língua que haja influenciado a nossa. Podemos talvez arriscar esta explicação patética: Palavras? Trá-las a cegonha, como aos bebés. Tentem agora dizer isso às crianças.

Mas já que falamos deste dicionário, que só por si há-de merecer um texto (não por ele, em particular, mas pelas aberrações que o acordês lhe impõe), registe-se a reabilitação de óptico (relativo à luz, aos olhos, à visão), deixando o ótico aos ouvidos. E sem dupla grafia! Isto contradiz o AO, claro, mas alguém se importa?

Já a secção das “espetadas” ganhou curioso alinhamento. Assim: espetacular, espetáculo, espetada, espetador, espetar, espeto. No Brasil escreve-se espectador, cá não, e o Dicionário deixa isso claro, com um pêzinho ao lado de espetador, indicando que tem “uso privilegiado” [sic] em Portugal. Para quê isto, no entanto, se, como se afirma na Introdução, o AO “prevê o uso facultativo das variantes lexicais europeia e brasileira em todo o espaço lusófono”? Prevê mesmo? Olhe que não.

No site brasileiro Português à Letra (que aplica e pretende “explicar” o AO) diz-se claramente: “Quando duas formas são indicadas como válidas, embora sejam ambas corretas [sic], não são necessariamente recomendadas em todos os países.” E mais adiante: “Por seguirem até agora a mesma norma que Portugal, considera-se que os PALOP e Timor apresentarão formas idênticas [no pós-acordo]. ”

E aqui vem, em todo o esplendor, a monumental farsa que é o AO90. Continuamos a ter duas normas, a portuguesa e a brasileira, e jamais uma ortografia “unificada”. Se tivéssemos mantido as normas portuguesa de 1945 e a brasileira de 1943 podíamos fazer o mesmo exercício, com a vantagem de não termos de ler notícias como a que publicou no dia 10 de Janeiro a Rádio Agência, de Brasília (que transmite as sessões da Câmara dos Deputados): “Não há acordo sobre Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.”

Na reportagem radiofónica (e também escrita), diz-se que o AO “só se tornou obrigatório no Brasil em 2016. Em Portugal e Cabo Verde o acordo também já é obrigatório. Mas isso ainda não ocorreu nos outros países que falam português.” Mais: “Apesar de todos os esforços, não há acordo sobre o AO, nem mesmo no Brasil.” Uma professora de Letras afirma que, “na verdade, não precisaríamos de um acordo ortográfico. (…) É alguma coisa na contramão do desenvolvimento da escrita”; um professor universitário diz, a favor do AO, que este quis “eliminar a duplicidade de ortografias que havia em português” [só que não as eliminou, pelo contrário, mudou-as para pior]; e a presidente da Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados, Raquel Muniz (do PSD) afirma que é este o “momento para revisão da norma.”

Querem parar de brincar com a nossa paciência, de uma vez por todas?

Nuno Pacheco

[Transcrição integral de crónica do jornal “Público”, da autoria de Nuno Pacheco, publicada em 17.01.19. Os “links” a verde são meus. Título do “post” em Grego moderno) composto em: Greek Language Portal. ]

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A neo-colonização transformada em lei

Radioagência

11/01/2019 17h46 – Atualizado em 11/01/2019 18h52

Não há acordo sobre Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa

O acordo ortográfico entrou em vigor no Brasil no início de 2009. São dez anos de tentativas de enquadrar a língua escrita nos oito países que falam português e assinaram o acordo

Assinado em 1990, o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa entrou em vigor no Brasil no início de 2009. Considerando esse último marco, são dez anos de tentativas de enquadrar a língua escrita nos oito países que falam português e assinaram o acordo: Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.

São mais de 280 milhões de falantes do português em todo o mundo, unidos pela língua, mas separados pela geografia e pelas particularidades de cada cultura. Apesar de todos os esforços, não há acordo sobre o Acordo Ortográfico, nem mesmo no Brasil, com o maior número de falantes e, supostamente, o maior interessado no assunto.

Na avaliação de Josenia Antunes Vieira, professora titular do Instituto de Letras da Universidade de Brasília, o acordo foi feito por interesses políticos:

Um acordo ortográfico ele é altamente, digamos assim, impositivo, ele é ditatorial, digamos assim. Ele vai impor mudanças que não seriam, nesse momento, o que aconteceriam, talvez até nunca acontecesse. (…) Nós temos diferenças culturais e também ideias diferentes sobre a cultura, tanto em Portugal como em outros países que falam a língua portuguesa no mundo. Na verdade, não precisaríamos de um acordo ortográfico. (…) É alguma coisa na contramão do desenvolvimento da escrita. Porque a fala, ela segue um processo de mudanças muito mais célere que os processos de escrita. A escrita é muito mais conservadora, ela é muito mais permanente e ela retém as mudanças.”

Por conta da hegemonia do Brasil entre os falantes da língua portuguesa, segundo a professora Josênia, muitos portugueses têm se sentido “injuriados” com o Acordo.

Já o linguista Carlos Alberto Faraco, da Universidade Federal do Paraná, defende a necessidade do acordo:

“Olha, não é um problema de saber se o Brasil precisa. Na verdade, a língua portuguesa precisava disso. Ela vinha desde 1945, pelo menos, com duas ortografias diferenciadas: a portuguesa e a brasileira. Sempre foi uma intenção aí dos filólogos, principalmente do professor Antônio Houaiss, a unificação da ortografia. Chegar a uma ortografia com um único regimento. Então, o acordo teve essa finalidade: eliminar a duplicidade de ortografias que havia em português. Pensando principalmente numa ideia de internacionalização da língua.”

Para a presidente da Comissão de Cultura da Câmara, a deputada Raquel Muniz, do PSD de Minas Gerais, os dez anos do Acordo Ortográfico são um momento para revisão da norma:

“Mudanças, elas não ocorrem só através de uma norma fria. Elas têm que vir a partir de modificações que ocorrem de acordo com os nossos costumes. E ao longo dos anos, da colonização, a gente percebe essa mudança, e isso acaba se transformando em lei. Esses dez anos, eu acho que seria pertinente, dentro da Câmara, a gente fazer um trabalho pra avaliar o que que efetivamente aconteceu com essas normas, se algumas precisam ser revistas e, com certeza, eu acho que é um marco importante se fazer uma revisão de tudo isso.”

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa só se tornou obrigatório no Brasil em 2016. Em Portugal e Cabo Verde o acordo também já é obrigatório. Mas isso ainda não ocorreu nos outros países que falam português.

Reportagem – Newton Araújo

[Transcrição integral (conservando, evidentemente, a ortografia brasileira do original) de “peça” publicada na folha-de-couve do governo brasileiro e emitida pela respectiva “Emissora Nacional” em 11.01.19. Destaques e “links” meus.]

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Lá foi

Uma coisa é o estilo, outra é a marca de cigarros. Esta pretendia ser uma (fumegante) homenagem àquele, mas nem o arquitectónico tributo salvou a marca, pela intenção, das chamas ateadas pela Nova Inquisição. Os velhos maços de “Português Suave”, com ou sem filtro (eu cá pelava-me por ambas as modalidades), foram amputados do segundo termo pelos crentes fanáticos da SLPC (Santa Linguagem Politicamente Correcta).

Pois então, lá diz o povo, não há duas sem três, ou que uma desgraça nunca vem só, chiça, que o povo é lixado, com a mesma designação temos agora algo bem mais modesto e que certamente não deixará marca, este artigalho sobre um livrinho da autoria de certo gajo porreiríssimo. Trau, tomai lá, portuguesitos, este é o ‘Lá Fora´, obra primorosa, não desfazendo, a qual tem toda a pinta de autobiografia ou será, no mínimo, não sei bem porque não li nem vou saber porque não faço (agora) tenções disso, uma espécie de auto-retrato.

Português suave“, a peça jornalística, é, de facto, laudatório título a condizer com o criador de “Lá Fora“, a criatura, pois assim deviam ser todos, suavezinhos e bonacheirões, uns barilaços que fazem questão de estar de bem com Deus e com o Diabo, tudo gajos (e gajas) tipo Marcelo — a propósito, é estranhíssimo não ter o Presidente da República estado presente no lançamento da obra, sendo o autor desta seu “consultor cultural” e tudo — que têm sempre uma palavrinha solidária para dar, abracinhos a gastar e milhões de selfies para tirar.

Acho que já vi este filme, daí a irritação. Em Portugal, que é uma aldeia (ou uma pequena cidade, vá), onde toda a gente se conhece e conhece os grupos aos quais é conveniente pertencer (ou, ao menos, não hostilizar), as “causas” não passam de simples produto de consumo que se usam enquanto convêm (e convém) e que se deitam fora quando deixam de convir.

O livro foi publicado em Março de 2018. Teve desde então direito a inúmeros artigos, textos e entrevistas, tudo em acordês, à excepção desta última, no “i”: por exemplo, na Visão, no Observador, no DN, entre outras. Teve ainda direito a… direito de antena: na Antena 2, na Antena 3 e na Feira do Livro de Lisboa.

Foi bonita a promoção, pá! Nada a objectar, bem entendido. Escrever é preciso, divulgar também é preciso. Mas… e o Português? Nem uma palavra, agora, sobre o “acordo”, nada a respeito da Língua, sequer? Gastaram-se todas as palavras entre 2010 e 2013 (ou 2015), o assunto deixou de interessar — ou seja, já não convém — e pronto, toda a gente foi à sua vidinha, assobiando, vamos lá ver se o guisado está encruado ou se terá ficado recozido? O AO90 “já era”, Maria, olha, procura aí no Google uma  “causa” que esteja a dar?

Mas… ora vejamos… irra, que até fico entupido, digo, estúpido.

Não teriam sido todas estas ocasiões, ou qualquer delas, artigos e entrevistas de um “Português Suave” promovendo o seu “Lá Fora”, excelentes oportunidades para defender — referir, no mínimo, raios! — o Português Correcto? Queda-se por nada de nada elevado ao cubo, opta por zero absoluto? Nem uma palavrinha, caramba?!

Não fui lá, mas quem sou eu, ui, iria dar péssimo aspecto à tertúlia, que horror, mas se tivesse sido convidado, se calhar, ao lançamento da obra até iria, para ouvir falar de “Lá Fora” lá fora. Assim, nada feito, “Lá Fora” lá foi.

E palpita-me que Mexia também, seu estilo e sua marca.

Pedro Mexia. Português Suave

João Oliveira Duarte
jornal “i”, 12/12/2018

Em «Lá Fora», conjunto de crónicas editadas este ano, Pedro Mexia dá largas a uma tonalidade que se vem tornando cada vez mais comum nas letras portuguesas: uma tristeza vaga, levemente nostálgica, cuja razão de ser não se entende. Um mundo declinado em português suave.

Antigo director interino da Cinemateca, comentador político na televisão e na rádio, crítico literário e cronista do jornal Expresso, director de uma colecção de poesia da editora Tinta da China, consultor cultural da Presidência da República, júri de inúmeros prémios literários e, encimando um já extenso currículo político-cultural, poeta, Pedro Mexia publicou, em Abril deste ano, «Lá Fora», um conjunto de crónicas com prefácio de outro nome maior da cultura em Portugal, António Mega Ferreira.

Maioritariamente escritos para o Expresso, estes pequenos textos vão do bucolismo da Serra da Lousã à placidez da Figueira da Foz, passam por África, Brasil, Havana ou Londres e englobam histórias menores e pequenos apontamentos que tanto podem versar sobre temas mais mundanos (a ponte «25 de Abril», o «Café Império» ou Robert Falcon Scott, o segundo homem a atingir o Pólo Sul, por exemplo) como sobre literatura, cinema, música pop ou mesmo política – um dos melhores textos deste volume é, sem dúvida, «A sauna da democracia».

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