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Com efeito, Camões

Os antecedentes são inúmeros, de tal forma que é praticamente impossível sequenciar, agrupar ou simplesmente apontar os mais significativos. A resistência ao “acordo” continua viva e recomenda-se, sendo hoje como desde sempre os mesmos os resistentes — todos os portugueses, incluindo os tecnicamente analfabetos –, apesar de uma desprezível minoria continuarem a tentar menorizar a questão, isolar a polémica e encapsular em bolhas estanques uns quantos “notáveis” mais ou menos ilustres.

Dessa mesma resistência disseminada e democrática (na acepção canónica do termo) são também exemplo os dois registos em vídeo contidos neste “post”.

No primeiro deles, José Pacheco Pereira prossegue, com a coerência discursiva que o caracteriza, o combate à imposição política da cacografia brasileira e às desastrosas consequências da “adoção” perpetrada por Cavaco, Sócrates e Lula da Silva, prosseguida por António Costa e violentamente imposta em todo o espaço dos PALOP… que recusam “adotar” um enteado alheio em detrimento da Língua-mãe. JPP alinhava desta vez, a propósito do último 10 de Junho e do abominável discurso de circunstância de um tal Jorge Miranda, algumas ideias certeiras e não menos nem menores considerações a respeito de semelhante desconchavo.

No outro vídeo, e igualmente a pretexto do Dia de Portugal, a escritora Inês Pedrosa — uma militante aguerrida desde a primeira hora — refere o mesmíssimo paleio (com o devido desrespeito) do “constitucionalista” dos interesses geopolíticos brasileiros. Este brasileiro “adotivo” foi nomeado pelo Governo português actualmente em funções — herdeiro do “legado” sócretino — como “presidente da comissão organizadora das comemorações do 10 de Junho” e aproveitou o tempo de antena do discurso oficial para fingir sentir-se “invadido” pela Língua… Inglesa!

Medalha de lata, por conseguinte, título plenamente merecido. Já sobre a neo-colonização linguística brasileira, que ele mesmo, enquanto “constitucionalista”, tenta atabalhoadamente justificar (diz que é assim porque é assim e pronto), é claro, na cerimónia militar do Dia de Camões a questão varreu-se-lhe completamente. Nem uma palavrinha. Ah, mas que grande “surpresa”!

Inês Pedrosa e JPP são dois dos notáveis resistentes que não se “armam” em “notáveis”. Nem um nem outra pretendem “rever” ou “melhorar” ou “despiorar” coisíssima nenhuma. Ambos sabem — porque falam firme e coerentemente — que a alternativa teria por fatalidade um único efeito: a devastação.

Aproxima-se velozmente o dia em que por fim se revele a causa desse efeito. E então, após um êxodo de proporções bíblicas, segundo o princípio da incerteza restará apenas uma coisa para fazer à saída: o último apaga a luz.


“O Princípio da Incerteza” – CNN Portugal – 12 de Junho de 2022

Sobre o programa

Um programa de resumo semanal dos principais temas da actualidade, de natureza política, social e económica.

Carlos Andrade conduz o formato que tem Alexandra Leitão, José Pacheco Pereira e António Lobo Xavier como comentadores. [CNN Portugal]

“Link” para o programa: https://cnnportugal.iol.pt/videos/o-principio-da-incerteza-12-de-junho-de-2022/62a67d220cf2f9a86ea8f750


“O Último Apaga a Luz” – RTP – 17 de Junho de 2022

Sobre o programa

O último apaga a luz lança um olhar sobre a nossa realidade. A iniciar o fim de semana, Raquel Varela (historiadora), Joaquim Vieira (jornalista), Rodrigo Moita de Deus (cronista), Inês Pedrosa (escritora) e Pedro Vieira (humorista e escritor) analisam, a partir das suas experiências profissionais, a forma como as noticias têm sido tratadas. [RTP]

“Link” para o programa: https://www.rtp.pt/play/p10000/o-ultimo-apaga-a-luz

Inês Pedrosa refere a crónica de Nuno Pacheco publicada no jornal “Público” de 16.06.22, cujo texto foi transcrito na íntegra no “site” da ILC-AO.

Notas:

1. Os textos transcritos (se na cacografia brasileira no original) foram corrigidos automaticamente.
2. Devido ao extraordinário número de denúncias por “copyright infringement” na conta YouTube do Apartado 53, os excertos de vídeos são alojados no domínio cedilha.net.
3. Se pretender reproduzir os “videoclips”, descarregue-os para o seu computador; por favor, não utilize os “links” directos para “embed” no seu “site” ou “blog”. Este “domain” (como aliás qualquer outro) tem limites de tráfego e de sobrecarga no “server” onde está alojado.

[imagem de topo de: http://www.claudia-schoen.de ]

Novo Império (escola de samba, Figueira da Foz, Portugal)

Fragmento de troca de comentários, em data incerta (talvez 2017), entre dois utilizadores do Facebook. Este recorte, encontrado e repescado por mera casualidade, estava perdido entre dezenas de materiais e conteúdos diversos numa das várias “colecções” que ao longo do tempo foram sendo guardadas (à cautela) em locais e em suportes diferentes.

[Tradução]

— Mihail Cazacu (Bucareste, Roménia)
Porque é que em Portugal se fala Português, uma língua brasileira, em vez de uma das línguas europeias?
— Garcia Francisco (Portugal)
Em Portugal falamos Português, que é efectivamente uma língua brasileira, dado o facto de nós termos sido descobertos em 1876 por uma navegadora brasileira de nome Fafá de Belém. A capitã Fafá atravessou o Atlântico num barco chamado Chico Buarque e encontrou terra num local hoje conhecido como sendo a costa de Portugal, perto de Évora, uma cidade costeira de onde eles enviavam escravos portugueses para o Brasil. Depois de estabelecido o comércio de escravos, os colonizadores brasileiros começaram a desenvolver o local e por fim começaram a enviar [para cá] as suas telenovelas, que sem dúvida se tornaram no ponto fulcral da Cultura deste jovem e ingénuo país. Apenas em 1958 conquistamos a independência em relação ao [Brasil] […]

Evidentemente, este “diálogo” tem tanto de virtual como de — não sendo brutal na adjectivacão — irónico. O ilustre desconhecido, Garcia Francisco de sua graça, merece uma saudação calorosa pelo extraordinário sentido de humor com que destrói uma intrigante dúvida existencial de certa cabecinha extremamente baralhada. Presume-se que a interlocutora romena tenha ficado mergulhada numa ainda mais intrincada teia de ignorância sobre Portugal e a Língua Portuguesa e sobre o crioulo brasileiro mai-lo seu “gigantismo”. É, no entanto, algo curioso que até entre alguns estrangeiros já comece a pairar a fábula brasileirista.

A resposta não é de todo irónica, afinal. Podemos mesmo dizer que é reveladora — e tristemente — do ponto a que chegou já a “difusão da língua” brasileira no mundo, ou seja, da intensa campanha de desinformação e de intoxicação da opinião pública promovida pelos lacaios neo-imperialistas da tugalândia.

Ainda menos piadético do que este “diálogo”, se tal coisa é possível dizer a respeito das golpadas visando a estupidificação em massa, é a gravação que seguidamente [agradecimentos a Paulo Martins pela indicação] podemos “apreciar” ao vivo e a cores: as “exigências” que brasileiros em Portugal pretendem impor ao país que os acolheu (e que os qualifica), na sua auto-assumida condição de colonizadores. Em suma, para este naipe extremamente “selecto”, é um escândalo que em Portugal se fale Português. Acusando os “portuguesinhos” do habitual no seu discurso característico e atirando-lhes para riba dos lombos os insultos habituais (que nós somos “preconceituosos” e xenófobos”, essas lindas coisinhas), em especial os “académicos” do calçadão — a coberto da total impunidade conferida pelos brasileiristas tugófilos — fartam-se de malhar no país, nos seus habitantes e na sua Língua.…e


Nada disto é meramente casual, evidentemente. O linguicídio é “apenas” uma das facetas mais visíveis e notórias do processo em curso que visa a aniquilação da identidade nacional. Além do factor identitário fundamental, substituindo a Língua Portuguesa pela brasileira a coberto de um “acordo ortográfico” que de acordo nada tem e de ortográfico ainda menos, os brasileiristas nascidos em Portugal promovem sistemática e violentamente o esmagamento cultural e o radical apagamento da História de todo e qualquer resquício da Pátria que tanto os seus egrégios avós como aqueles bastardos gerou.

Com a maior das “levezas” (superficialidade) foram sucessivamente permitindo — e até mesmo facilitando — a eliminação de conteúdos portugueses. Em especial na Internet e nos sistemas informáticos — a começar pela extinção do “código de matrícula” do Português-padrão (CHCP 860) — mas também nos demais canais e meios de informação, difusão e entretenimento.

Já aqui foram escalpelizados alguns dos casos mais flagrantes de apagamento selectivo e eliminação sumária (Google e outros “motores de busca”, Wikipedia, programas de edição de texto, “corretores” cacográficos compulsivos, etc.). Todos os endereços de serviços e de plataformas que eram “https://domínio.com.pt” ou “pt.domínio.org” ou “domínio.xxx.pt-pt”, por exemplo, e que continham “interfaces”, documentação ou quaisquer outros conteúdos portugueses e cuja ortografia era a da Língua Portuguesa mantiveram o endereço (URL) mas o que agora deles consta está tudo na cacografia brasileira, escrito na língua brasileira e com conteúdos brasileiros; existem casos em que os anteriores conteúdos portugueses (imagens, entradas de enciclopédia, expressões idiomáticas, etc.) foram substituídos pelos equivalentes brasileiros.

Evidentemente, convém ir ilustrando e documentando o golpe de Estado, também a página de abertura da Wikipédjia Lusôfona contém apenas assuntos brasileiros (negócios, de preferência)

O Programa de Desenvolvimento de Submarinos é uma parceria firmada entre o Brasil e a França, no ano de 2008, com o objetivo de transferir tecnologia para a fabricação de embarcações militares. É um componente da Estratégia de Defesa do Estado para o desenvolvimento do poder naval do país com a produção de quatro submarinos convencionais (propulsão diesel-elétrica) e do primeiro submarino de propulsão nuclear brasileiro. O programa fará do Brasil um dos poucos países a contar com tecnologia nuclear, ao lado de Estados Unidos, Rússia, França, Reino Unido, China e Índia.

Apesar de o programa ter iniciado em 2008 com o objetivo de prover a Marinha do Brasil com uma “força naval de envergadura”, parte dele remonta à década de 1970 quando a Marinha começou a procurar o domínio da energia nuclear. (leia mais…)

Veja-se um outro caso ao acaso, que isto está por todo o lado e já infectou tudo: a versão “pt” (brasileira) da Google Maps utiliza para os transportes públicos portugueses a terminologia exclusiva do Brasil. Assim, o famoso “eléctrico 28” é uma espécie de monumento alfacinha em movimento a que agora os brasileiros impõem que se chame “bondji vintchioito” ou “bondjinho 28”.Temos portanto, por força do AO90, da “língua univérsáu” e, em suma, por ordem dos novos “bwana” cá do indigenato, que “em nossa cápitáu próvinciáu” Lisboa temos “bondes”, o que aliás é extensível a toda a colónia, onde também passamos a ter ponto de “ônibus” onde na anticlíngua tínhamos “paragens de autocarro” (uma chinesice que ninguém entendia, “ônibus” é muito mais “fáciu, viu”).
(mais…)

Novo episódio da mais recente telenovela brasileira rodada em Portugal

https://www.facebook.com/EducatedMindsPage/photos/a.1425131077767795/3117035281910691/?__cft__[0]=AZXRGO0BU6KV3udbhOd9EZr_23hFatDiSkIUwwjSVAOCAYeCyU6KzNLi8goZqgorPC1Hqg01op5nrDm5WxKI6lx4kybEJUd0h9lVIH0OvYqPbedEaXCpuatIoEuudJQKe498faZBLiow65fkS3wqz5zW1Y3Tj3QX38trf-eSyNO39__-3a-kNDbqybhVNJbb1TM&__tn__=%2CO*FNo episódio inaugural, Paula Sofia entra em parafuso quando se apercebe de que os seus filhos meteram-se por maus caminhos, coisas latrinárias, e agora andam por aí no “gramado” e no “banheiro” (ou lá o que é) como uns tolinhos.

No 2.º episódio, Sérgio mete um “youtuber” ao barulho, diz que é esse o “cara” que anda a endrominar os “tuguinhas”.

3.º episódio: o tal fulano dos vídeos defende-se, diz — com muito jeitinho, à cautela — que não tem culpa de os tugas adultos serem uma cambada de idiotas, que tem uma avó cá nas berças e tudo; por fim, lança uma “bomba”, o miolo da trama, anuncia que vai traduzir e dobrar os seus vídeos de brasileiro para Português.

A telenovela brasileira sobre a lavagem ao cérebro a que os brasileiros e os vendidos portugueses andam a sujeitar as nossas crianças (quanto aos adultos está o caso arrumado, missão cumprida, muitos deles sentenciam que “agora é assim que se escreve e fala” e “prontos”) avança hoje para o 4.º episódio e outros estão em preparação.

Desta vez, o que temos é um artigalho de certo (digo, de errado) imigrante brasileiro. Absolutamente inacreditável. O fulano nem disfarça. Pois, pudera, aqui a “terrinha” passou de lugar mal frequentado a ainda pior, e por acréscimo temos de levar com toda a arrogância do protótipo, o arzinho petulante de quem se acha muito “superior” (ou lá o que esses tipos se julgam), textículos de auto-propaganda publicados em jornais portugueses (mas que lata descomunal!) espalhando em brasileiro — que exigem intocável — o seu proselitismo neo-imperialista de grande potência mundial (que é, de facto, basta ver as estatísticas de criminalidade, pobreza extrema, corrupção endémica) e, em suma, a suprema maravilha que deixaram quando nos fizeram o extraordinário favor de emigrar para cá.

Claro que a semelhante chorrilho de insultos e provocações a resposta mais adequada seria o silêncio sepulcral que por definição inspira o mais profundo desprezo.

Contudo, todavia, não obstante, porém, mas por questões de dever de ofício há também que fazer sacrifícios. Não vá o freguês sem levar troco, é o que é.

Vejamos então alguns dos disparates mais escabrosos, anedóticos ou simplesmente cretinos.

    • «a expressão “brasileiro” como referência à variante do idioma português». Não, já não é nada disso, Português e brasileiro são línguas diferentes, conforme foi já explicado diversas vezes, até a criancinhas. Inúmeros brasileiros reivindicam o seu (pleno e mais do que justificado) direito a que a língua brasileira seja declarada Língua nacional da República Federativa do Brasil, assim como fez a República de Cabo Verde com o seu crioulo.
    • «excesso de consumo de conteúdo brasileiro». Ah, sim, pois é, há por cá muito disso. Esse truque de tentar restringir o “consumo” ao YouTube — ou mesmo à Internet em geral — não cola; não é consumo, é enfiar pela goela abaixo: nos canais de TV e rádio, música, filmes, nos desportos colectivos (em futebol é a granel, até na “seleção” nacional), há por cá escolas de samba (!!!), “cárrnáváu” com “garotas” em trajes diminutos a tiritar de frio, enfim, em tudo, em todo o lado e de toda a maneira e feitio. Claro que por vezes tais espectáculos circenses são da iniciativa de alguns portugueses, os mais deslumbrados que adoram macaquear brasileiradas, mas isso são contas de outro rosário.
    • «variante idiomática como uma doença a ser contida». Olha, boa! Aí está, para variar, uma excelente formulação. Aquilo a que alguns chamam variante é de facto uma doença a ser contida em Portugal. E com urgência.
    • «se separarmos o “brasileiro” do “português”, o primeiro seria o 7.º idioma mais falado no planeta». Outra vez, de novo, esta nunca falha. Não há por lá um neo-imperialista que dispense a contagem de cabeças (deve ser hábito de contar vacas e pilecas nas “fazendas”) para “provar” que são não apenas muitos mais como também são, por inerência algébrica, muito superiores a nós. Por isso só os brasileiros acham que a Língua Portuguesa lhes pertence, porque são “mais de 20 vezes mais” do que nós, portugueses.
    • «O idioma português é um patrimônio coletivo internacional». O idioma português é o (não “um”) património colectivo do povo português e da nação portuguesa, tendo as ex-colónias portuguesas em África (e, até 1822, a colónia sul-americana) resolvido adoptar, aquando da respectiva independência, como Língua nacional o Português vernáculo. Essa “internacionalização” não passa de um parasita semântico que interessa aos neo-imperialistas brasileiros impingir para efeitos meramente empresariais, comerciais, de tráfico de influências, tráfico de excedentes, tráfico de matérias-primas e de outros tráficos.
    • «nem devesse ter seu nome atrelado ao de um país.» Ora aqui está, em todo o seu “esplendor”, o epítome do significado da expressão idiomática do Português “descobrir a careca”; claro, isso de se chamar “Língua Portuguesa” ou, mais prosaicamente, “Português” ao idioma nacional de Portugal é para os brasileiros certamente insuportável. Resta clara a típica irritação ou o ódio raivoso que eles nutrem pelos eternos culpados da sua “frescura”. Inglês, Francês, Espanhol, Japonês, Coreano, por exemplo, ou qualquer outra Língua cujo nome seja o do país que a criou, bem, isso para os “irmãozinhos” não interessa nada, faz de conta, Português é que, oi, qui ôrrô, né, cara, pódji naum, issu faiss lembrá pôrrtugáu.

De novo, cá vai o troco em forma de recado repetido ad infinitum: fiquem-se lá com as vossas cabeças de gado, “caras”, fiquem com a vossa língua brasileira, digam o que quiserem em brasileiro, arranjem uns tachinhos valentes na ONU à conta das vossas imensas manadas, boa sorte, adeus.

 

Em defesa do ″português brasileiro″

Edson Capoano
www.dn.pt, 12 Novembro 2021

 

Ouvi pela primeira vez a expressão “brasileiro” como referência à variante do idioma português em conversa com pais que esperavam, como eu, os seus filhos na porta do pré-escolar em Braga, onde vivo. O relato tinha um misto de curiosidade com preocupação sobre o excesso de consumo de conteúdo brasileiro no YouTube e a assimilação de termos estrangeiros pelas crianças portuguesas, tal como reporta a notícia “Há crianças portuguesas que só falam brasileiro”, reportagem do DN de 10 de novembro último.

Como pai, solidarizo-me com todos. Afinal, a linguagem é uma ferramenta essencial para o desenvolvimento cognitivo infantil e para a integração cidadã dos indivíduos. Porém, vejo com preocupação o cenário gerado pela notícia anteriormente mencionada, apresentando uma variante idiomática como uma doença a ser contida. A reportagem não entrega dados suficientes para compreender qual o tamanho do fenômeno ou se este é de nocivo, tal qual os termos “vício”, “tratamento”, “apelativo” e “o problema” do texto sugerem.

Tampouco o relato dos especialistas entrevistados sustenta que haja problemas fonéticos ou educativos às crianças no futuro. O que sim é fato é que a pandemia alterou as rotinas familiares e muitos pais abandonaram seus filhos aos ecrãs, para que eles mesmos se dedicassem ao teletrabalho. Em Portugal, já no primeiro confinamento devido ao covid-19, houve aumento de tráfego de dados na web em 20%. No mesmo período e em nível mundial, o consumo de internet através de dispositivos em casa aumentou em 40,1% (Comscore, 2021).

Nesse contexto, parece-me descabida a atitude de bloquear conteúdo brasileiro no YouTube por conta apenas do idioma, da professora que se impressiona com expressões estrangeiras, da linguista que acredita ser uma moda ou da terapeuta da fala que acha “difícil travar o brasileiro” provindo da web. Afinal, isso não vai impedir que as crianças troquem palavras e expressões nas escolas e em seus grupos, o que acontece de forma saudável e diariamente em Portugal. Imagino que a questão mais urgente é de fato a influência das plataformas sociais digitais na formação das crianças.

O idioma português é um patrimôniocoletivo internacional e, como tal, talvez nem devesse ter seu nome atrelado ao de um país. Afinal, se separarmos o “brasileiro” do “português”, o primeiro seria o 7.º idioma mais falado no planeta, enquanto o segundo estaria abaixo do 80.º lugar, entre o zulu e o checo. Se isso importa na criação de nossos filhos, não posso afirmar, mas que na produção cultural tem peso imenso, é inegável. Assim, também é um dos idiomas mais utilizados em produtos midiático-culturais, como vídeos, filmes e séries e, como é de se esperar, na vertente brasileira. Não existem fronteiras nacionais para variantes linguísticas verbais-orais, ainda mais em tempos de plataformas sociais digitais.

O jornalismo precisa intermediar este debate para além do senso comum e dos casos pontuais. Caso contrário, não se diferencia dos comunicadores independentes do YouTube, um dos quais este jornal escolheu como o responsável pelo fenômeno abordado no texto referido, o comunicador Luccas Neto. Curiosamente, o brasileiro, assim como seu irmão, Felipe Neto, tem cidadania portuguesa, graças à sua origem familiar. Enquanto eles entram na casa dos portugueses pelos ecrãs, mais de 150 mil brasileiros vivem em Portugal (SEF), o que torna o idioma vivo e em constante mutação. Ou dito de forma mais simples, como minha filha de 4 anos: “Aqui se diz relva, no Brasil, se diz grama.”

A pedido do autor, o jornal não fez qualquer alteração ortográfico-gramatical no texto, a respeito da variante linguística portuguesa utilizada.

Jornalista, doutor em Comunicação e Cultura e investigador do ICS-CECS sobre jornalismo, participação e media digitais, na Universidade do Minho. Autor de “Panorama da imigração brasileira a Portugal na web”, “Resistência à intermediação pelos ecrãs conectados” e “O medo do consumo solitário: comentários em canais infantojuvenis de YouTube do Brasil e de Portugal”, artigos disponíveis em http://repositorium.sdum.uminho.pt/

[Transcrição integral de artigo do brasileiro Edson Capoano publicado no “DN” de 12 Novembro de 2021. Secundei a posição tomada pelo DN quanto à exigência do autor de que o seu artigo fosse publicado com as regras ortográficas que lhe apeteceu usar (no Brasil a cacografia é individual). Imagem de topo de: página “Educated Minds” (Facebook). Imagem de (belíssima) vaca (ou boi?) brasileira de: “CPT” (Brasil).]


Á sigui: cênaiss duiss próssimuiss cápítuluiss

Um brasileiro que escreve sobre Portugal num blog da Rêdji Globo refere-se ao “pobrema” da Paula Sofia e refere casos de “discriminação, xenofobia e conflitos” por os miúdos falarem em brasileiro, coitadinhos. Será que a Globo mete o bedelho? E a encrenca? Já terá chegado ao Palácio do Planalto?

Não perca!

Águas residuais, estações de tratamento, saneamento básico

 

e o Alencar imediatamente, limpando os bigodes dos pingos de sopa, suplicou que se não discutisse, à hora asseada do jantar, essa literatura latrinária. Ali todos eram homens de asseio, de sala, hein? Então, que se não mencionasse o excremento! [Eça de Queirós, “Os Maias”]

 

Lixo. Detritos. Excrementos. A célebre máxima popular, muito utilizada para designar os mais variados assuntos, postula com imenso grau de certeza que os dejectos flutuam, formulação essa que plenamente se aplica em significado — se bem que não exactamente com o mesmo escatológico significante — ao “acordo ortográfico” e às suas igualmente repugnantes implicações. Acresce que, misturadas na flutuante lei empírica, estão também presentes, antes de que alguém por odorífera caridade carregue no botão de descarga do autoclismo, os repugnantes pedaços fétidos a que se convencionou chamar “acordistas”.

Começa a vir à tona o produto da fossa séptica (AO90) daquilo que alguns apreciadores do dito produto andam por aí a impingir às pessoas embrulhado num papel (a “nota explicativa“) enfeitado com um lacinho (a “língua univérrssáu“). Começam portanto a vir à tona os excrementos e dissemina-se implacavelmente o fedor nauseabundo. O que significa ter-se tornado impossível para os “acordões” continuar a disfarçar o pivete.

Há apenas alguns dias teve início mais um episódio da latrinária saga.

Em jeito de síntese, temos que uma jornalista portuguesa publicou no mais antigo diário nacional um artigo (ver abaixo) sobre aquilo que toda a gente sabe mas que ainda poucos se atrevem a mencionar: o AO90 representa não “apenas” a imposição violenta da língua brasileira a Portugal (e PALOP), eliminando no processo a Língua Portuguesa, como também facilita enormemente — em “traduções”, programas para crianças, telenovelas a granel, camiões TIR cheios de pontapeadores, nas legendagens (“dublagens”, em brasileiro), na eliminação de conteúdos cibernéticos portugueses — a demolição sistemática de todo e qualquer sector estruturante do statu quo cultural português, em especial na sua vertente mais disseminada, popular, visível, quotidiana. Ou seja, está em curso em Portugal o fenómeno sociológico vulgarmente designado como aculturação, a qual resulta ou é implicação directa, no caso vertente, de enculturação brasileira.

Este é um tema para continuar a acompanhar em futuro(s) post(s), até porque o referido artigo vai tendo imensas repercussões e algumas sequelas. Para já, aqui fica o ponto de partida ou, por assim dizer, a notícia do primeiro rebentamento do sistema de esgotos em que medram alguns apreciadores de porcaria, o estoiro da abjecta cloaca neo-imperialista.

Acompanhamento esse que terá certamente, como se verá pelos nacos a citar, a reacção pavloviana habitual: lá vêm as rotineiras “acusações” de xenofobia (e até de “racismo”), com brasileiros e tuguinhas (como nos designam os zucas), lado a lado, ombro a ombro, os do lado de lá com a habitual arrogância de quem se julga “enorme” e “gigantesco” como o seu “país-continente”, os do lado de cá lambendo o chão (e outras partes dos ditos) que se dignam pisar os seus idolatrados “caras”.

Ignoremos, como sempre e desde sempre, tais e tão insultuosos carimbos. Ignoremos as provocações de estrangeiros e as iguais dos seus lacaios com passaporte português. Assim como a Língua não é só ortografia (nem apenas sintaxe, léxico, morfologia), também a questão não se resume a qualquer interpretação meramente semântica e muito menos se restringe à retórica dos agentes assalariados e dos tacanhos deslumbrados.

Os factos falam por si e portanto pouco ou nada sobra para explicar. O que está agora a tornar-se do conhecimento geral, esse tenebroso filme de terror envolvendo crianças, entrou numa rotina de sessões contínuas a que urge pôr termo. Quanto mais adultos responsáveis souberem destes horripilantes experimentalismos, mais certa e assegurada estará a sua revolta contra os fanáticos da seita acordista.

É uma questão de tempo.

″Há crianças portuguesas que só falam ‘brasileiro’″

www.dn.pt, 10.11.21

Paula Sofia Luz

Dizem grama em vez de relva, autocarro é ônibus, rebuçado é bala, riscas são listras e leite está na geladeira em vez de no frigorífico. Os educadores notam-no sobretudo depois do confinamento – à conta de muita horas de exposição a conteúdos feitos por youtubers brasileiros. As opiniões de pais, professores e especialistas dividem-se entre a preocupação e os que relativizam, por considerarem tratar-se de uma fase, como aconteceu com as novelas.

…………………..

0 espectáculo estava classificado como para maiores de 6 anos, mas as crianças a partir dos 3 anos ou mais podiam assistir “desde que com e bilhete e acompanhadas por um adulto”. A informação constava na página do pavilhão Altice Arena desde que (finalmente) foi confirmado o espectáculo de Luccas Neto, o youtuber brasileiro que no último fim de semana esteve em Portugal para delírio dos mais pequenos.

Percebe-se facilmente a indicação. Afinal, são dele os vídeos que a maioria das crianças portuguesas vê nos ecrãs de tablet, computador ou telemóvel. E falamos de crianças que têm precisamente essa idade. Numa altura em que ainda estão a aprender a falar.

Era o caso de Laura, agora com três anos, dois na altura do primeiro confinamento. “Ela chegou lá muito facilmente. Primeiro foi ver o Panda e os Caricas, o Ruca e coisas do género. Mas há muito mais conteúdos brasileiros do que portugueses. Ora, quando acaba o vídeo do Panda, aparece logo outro desses, que é muito mais apelativo para os miúdos. A partir daí é viciante para eles”, conta ao DN o pai, Jaime Pessoa, locutor numa rádio local em Pombal.

Além do confinamento – e do teletrabalho do pai, que facilitou um livre acesso ao telemóvel e aos conteúdos por parte da mais nova -, também o facto de Laura ter uma irmã mais velha, Mariana, agora com 9 anos, acabou por ser um gatilho para aceder a youtubers brasileiros. De resto, metade da família lá estará este fim de semana na Altice Arena, a usufruir de um presente de Natal de há dois anos, uma vez que o espectáculo já foi adiado duas vezes à conta da pandemia.

Todo o discurso dele é como se fosse brasileiro. Chegámos ao ponto de nos perguntarem se algum de nós era brasileiro, eu ou o pai”, conta ao DN a mãe, Alexandra Patriarca, numa altura em que o pequeno seguidor de Luccas Neto já frequenta sessões de terapia da fala.

Luccas Neto, de 29 anos, é irmão de Felipe Neto, também youtuber, mas esse mais voltado para um público mais velho, de adolescentes e jovens. Embora existam vários produtores de conteúdos similares, é ele o rei das visualizações e o seu canal no Youtube tem 36 milhões de subscritores.

Laura não diz que vê um polícia na rua mas sim um policial, a relva é grama. Come tudinho. Já Iara pediu à mãe uma bala no supermercado e “isso foi um sinal de alarme”, conta ao DN Ana Marques, que no mesmo dia percebeu que “não podia deixá-la sozinha com o tablet, porque apesar de ser muito autónoma, só tinha quatro anos“. António, da mesma idade, começou a dar sinais de alerta há já algum tempo. Ao princípio, a família até achava alguma piada à forma como ele falava, às expressões brasileiras. Mas à medida que o tempo foi passando, a educadora de infância começou a preocupar-se e foi dando sinais, porque o menino não conseguia dizer os r”s nem os l”s.
(mais…)

Um realmente piqueno aborrecimento

Não é bem assim. Ou, em rigor, não é nada assim. Pelo menos no título da “notícia” há uma piquena truncagem.

Que se passe a ferro, salvo seja, a contestação desde (até antes de) 2010, isto é, apagando toda uma década com apenas um sopro, bem, ainda vá, de facto a ILC-AO foi entregue no Parlamento há “apenas” dois anos. De tudo o que antes dessa entrega se passou, da luta contra o AO90 iniciada nos trepidantes meses finais do já longínquo ano de 2008, do antes, do durante e dos entretantos sobeja com certeza alguma ponta solta mas o essencial está devida e claramente escarrapachado n’”Uma História (Muito) Mal Contada“. Acresce que, desde então e agora ainda, não apenas foi conservado o seu “sítio” original como está disponível a actual versão “online” da iniciativa cívica pela revogação da entrada em vigor do AO90.

Dois aninhos, portanto, levaram os “serviços” da Assembleia a “despachar” o assunto, com uma displicência assombrosa e, não desfazendo na igualmente parlamentar lata descomunal, um desprezo assinalável manifestado pelo sistema parlamentarista português para com a mais elementar das regras do regime democrático, isto é, para com a democracia propriamente dita. Desprezo esse que abarca não apenas o sistema político que a enforma mas também, ou principalmente, os votantes que a consagram, aquele povo que os deputados dizem representar e que através da cruzinha legitimam o funcionamento, as instituições e, em suma, toda a estrutura do próprio Estado. 

730 dias, contas redondas, uma bagatela, portanto, segundo o padrão de infindável arrastamento que é característica intrínseca de “nossos” 230 tribunos, para os quais uma piquena demora de dois anitos é coisa pouca (ou nenhuma), que jamais lhes tira o sono e não perturba nunca seu sagrado remanso, digo, ressonar. Em todo este tempo, sempre escudados num mutismo escandalosamente suspeito e deambulando no secretismo das negociatas e dos lobbyists, em plenos Passos Perdidos ou nos “clubs” privados das imediações, os eleitos da Nação apenas tiveram tempo para inventar “razões”, mentir descaradamente e perverter a própria figura legal (a Iniciativa Legislativa de Cidadãos) que eles mesmos criaram, enquanto “legislador”, mas que afinal jamais passou de figura de estilo “democrático”.

Tal e tão prolongada descanseira terá, nessa farsa teatral, obedecido obviamente não apenas a piquenas necessidades fisiológicas, uma das quais e a mais ingente será dormir, como também a outras urgências que realmente não devem ser lá muito piquenas ou no mínimo não serão realmente assim tão piquenas. Os negócios, pelo menos os estrangeiros, parecem estar rolando  sobre carris, não apenas em geral mas também em particular para alguns dos mais “empreendedores”, especialistas em “indústrias” várias, como a das “portas rotativas”, o fabrico de “factos”, a manufactura de vontades e “solidariedades”, transitários de turismos vários e geniais inventores de tudo quanto há, das “energias alternativas” aos “mercados” (da alta finança, isto é, da vigarice global), passando pelas tretas pacifistas (tráficos sortidos) e por outras fabulosamente imaginativas formas de enriquecer brutalmente à custa do povinho ignaro. Convenhamos que, no fim de contas, nunca antes tão poucos enganaram tanto e durante tanto tempo tanta gente.

Nesta abrangente (e horripilante) acepção, no âmbito da geral corrupção a chamada “questão linguística” (“adotar” o brasileiro como Língua nacional) será para alguns um pormenor. Não é. A História não é um pormenor.

Sucede que, portanto, segundo relata o serviço público de “télvisão” sobre o despacho de Ferro Rodrigues, ou a ILC-AO amocha “ou não há discussão“.

Bem, nada de novo, em especial porque nunca houve discussão alguma, estamos portanto habituados ao conceito de discussão inexistente ou de diálogo de surdos que geneticamente caracteriza a chamada “casa da democracia” de São Bento: a entrada em vigor do AO90 foi “aprovada” à sorrelfa, através da “Resolução da Assembleia da República” n.º 35/2008, uma golpada parlamentar tão obscenamente evidente que nem a uma ameba poderá passar despercebida.

A intenção era bem clara e os pressupostos regimentais pareciam ser sérios.

«No pressuposto de que as leis da República têm por finalidades a defesa dos interesses e a regulação das relações entre os cidadãos que são parte integrante e a própria razão de ser dessa mesma República, caberá a estes exercer os seus direitos de cidadania, nomeadamente através de uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC), caso considerem que houve prejuízo para os seus interesses colectivos ou que foram afectadas as relações entre os indivíduos e/ou entre os grupos sociais.» [ILC AO90: revogação da RAR 35/2008 (Preâmbulo)]

Porém, por fim, depois de deixar arrastar infindavelmente o caso ao longo de meses a fio, a alguém lá na parlamentar barraca ocorreu passar uma cruz sobre o assunto e, sem bulir com as datas — que ficaram inalteradas, atarrachadas ao atraso deles que assim passa a ser culpa dos interessados — mandaram tecnicamente “arquivar” a ILC contra o AO90. E chiu, que os ilustres não têm vagar para se ralar com “minudências” nem pachorra para aturar poviléu.

Que ingenuidade, oh, deuses! Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. Afinal tudo aquilo, qualquer ILC, a “ferramenta cívica”, a arma legislativa democrática ao dispor da “sociedade civil”, a partilha do poder legislativo (como o executivo, como o judicial) entre políticos e cidadãos, tudo mentira, tudo encenação, tudo uma farsa miserável.

“Poder soberano” significa muito mais do que uma simples tradução literal.

Grupo de cidadãos contesta há dois anos aprovação do Acordo Ortográfico

RTP Notícias – actualizado 5 Maio 2021
por Ana Isabel Costa

 

Continua a não ser consensual a aplicação do acordo ortográfico em Portugal. A aplicação do novo acordo ortográfico, está em vigor apenas em alguns dos países de Língua Oficial Portuguesa, onde se inclui Portugal. Um grupo de cidadãos nacionais contesta a aprovação do Acordo Ortográfico e apresentou um projecto de lei na Assembleia da República, há mais de dois anos.

Desde então a iniciativa pública para fazer marcha atrás no acordo não tem tido qualquer avanço.

Nuno Pacheco, um dos subscritores desta iniciativa de cidadãos explica que a alternativa proposta – petição – quase nunca tem efeitos práticos.

O jornalista também garante que este movimento não quer rasgar todo o acordo ortográfico, apesar de não concordarem com ele. Querem apenas eliminar a parte que permite que tenha as assinaturas de somente três países.

Do lado dos defensores deste acordo está Edite Estrela. A deputada do PS e antiga presidente da Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto, que analisou o assunto e explicou à Antena 1 as vantagens que esta mudança implicou.

[Notícia RTP (sem imagens no original). Imagens de: parlamento.pt]

RTP1, 05.05.21 – “É Ou Não É”

É Ou Não É? – O Grande Debate

Géneros: Informação – Entrevista e Debate

A opinião de quem sabe. O debate entre quem pensa diferente

Em “É Ou Não É? – O Grande Debate” é um espaço de debate onde se pretende promover a discussão e dissipar dúvidas, mas acima de tudo acrescentar conhecimento sobre os principais assuntos da actualidade, desde a Saúde, à Educação, à Justiça, mas também dos desafios com que o futuro nos interpela diariamente, designadamente ao nível tecnológico e ambiental.
Carlos Daniel é o moderador deste espaço de debate que contará com a presença de personalidades da vida pública e especialistas para uma reflexão tão interessante quanto profunda sobre os tempos de mudança onde a investigação, a inovação e os problemas do mundo global são fatores decisivos e presentes nas nossas vidas.
[“site” RTP, página do programa]

Em Português nos Entendemos?

Episódio 14 de 43 Duração: 130 min

Na semana em que lhe dedicam um dia mundial, vamos debater a nossa pátria maior, que é a língua portuguesa, a quinta mais falada no mundo, a primeira no hemisfério Sul. Que importância tem hoje no mundo o idioma de Camões, que valor económico tem de facto e qual é a estratégia para crescer e se afirmar num mundo dominado pelo inglês, espanhol e mandarim? “É ou Não É”… ainda em português que nos entendemos? [“site” RTP, página do episódio]

No “post” anterior sobre o mais recente “episódio” deste mesmo programa vimos, a traço grosso, em grandes pinceladas, o que foi e em que consistiu a acção de propaganda governamental genericamente designada como “Dia Mundial da Língua” brasileira: foi uma palhaçada feérica e consistiu num concurso que bem poderia chamar-se, por exemplo, “Quem Quer Ser Otário”.

Dirigidos às massas ignaras, à sua avassaladora ignorância e contando com que o  embrutecimento da população (a política de Estado vigente) tenha já provocado a paralisia total e uma geral, bovina anestesia, os “festejos” do dia da língua brasileira contaram com umas “sessões solenes” insuportavelmente soporíferas e ainda, fazendo de cereja no topo do bolo do caco, o tal programinha no canal principal da televisão estatal.

São dessa ressonante sessão filmada as gravações parcelares que se seguem. Recomenda-se a visualização de toda a fantochada, na íntegra, pelo menos a todos aqueles que sofrem de insónias, mas ao menos para efeitos de arquivo morto (e bem morto) aí ficam uns excertos da acordista, esquisitíssima, por vezes hilariante sessão.1.º excerto: Intervenção inicial de Nuno Pacheco, o único anti-acordista presente na tertúlia armadilhada. Nota-se-lhe a irritação, compreensível, e há que reconhecer-lhe o mérito de provocar rugas na testa ao apresentador, aos “convidados” e à “Excelência”, mais uns sorrisinhos condescendentes a armar ao superior nos diversos vendedores de livros, discos e cassettes pirata, entre os outros artistas que por igual “abrilhantaram” a emissão.

2.º excerto: ASS puxa dos galões e faz outros números a ver se impressiona a pategada; anuncia oficialmente quando e como Portugal se tornará na “porta dos fundos” para que os brasileiros, à conta da “língua universáu”, entrem à vontade na União Europeia, contornando o Acordo de Schengen.

3.º excerto: Outra intervenção de Nuno Pacheco. Vale, como “etiqueta”, a máxima de Mark Twain, em tradução livre: «nunca tentes argumentar com idiotas; eles vão arrastar-te para o nível deles e então tornam-se imbatíveis com a sua imensa experiência em  estupidez.»

4.º excerto: Um indivíduo que não sabe sequer que o “acordo” de 1990 não é de 1994 (porque 1990 foi em 1990, chavalo, 1990 não foi em 1994, bacano, topas?) debita umas coisinhas e (felizmente) cala-se.
Sob as rugas profundas na testa do bacano Carlos Daniel, lixado da vida com os “chatos” anti-acordistas, Nuno Pacheco fala dos dois sistemas vocálicos. Deve ter-se-lhe varrido no momento a patranha da “pronúncia culta”, entre outras enormidades acordistas habituais.

5.º excerto: Para o fim estava guardada a “discussão” do AO90 em sentido mais lato (digamos). Curiosamente, logo no início, ouve-se alguém da “régie” do programa a largar umas postas que parecem ser sobre o AO90; se calhar foi o encenador de serviço mas também pode ser ilusão ótica (não confundir “ótica”, de ouvido, com, nos termos do AO90, a “ótica” dos zarolhos).
A tal “escritora” desfia um chorrilho de idiotices (e mentiras), ASS puxa de novo dos galões e dá, em estreia mundial, desvenda ao bom povo que lavas no rio a sua profundidade intelectual (meio metro, mal medido): diz que, apesar de não ser linguista e, portanto, abster-se desse tipo de questões “mais técnicas”, acha sobre o AO90 uma data de coisas “mais técnicas” e discursa pormenorizadamente como se fosse um linguista (manhoso, mas pronto, vá, faz de conta).

E ósdespois, como aliás é habitual, não morreram nem as vacas nem os bois, ou seja, tudo como dantes, quartel-general em Abrantes, a Oeste (e nos outros pontos cardeais) nada de novo, etc., basta escolher ao acaso uma das inúmeras expressões idiomáticas e trivialidades palavrosas para qualificar genericamente mais esta fantochada a propósito do “Dia Mundial da Língua” brasileira.

A táctica acordista mais uma vez funcionou, até porque está bem afinada e  generosamente untada, servindo uns quantos lacaios o arroz com feijão (e fubá) aos alegres convivas que, em amena cavaqueira e muito mal disfarçada galhofa, vão queimando com velinhas de aniversário as sobras da Língua Portuguesa.