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‘O Estado a que isto chegou’

Meus senhores, como todos sabem, há diversos tipos de Estado: o Estado social, o Estado corporativo, o Estado socialista e o estado a que isto chegou. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que isto chegou!
Salgueiro Maia, capitão, 25 de Abril de 1974

 

A língua portuguesa resiste bem, mas urge acabar com o estado a que ela chegou

Nuno Pacheco, publico.pt 30.04.20

 

Mesmo confinados, não nos faltam datas para comemorar. Primeiro foi a Páscoa, depois o 25 de Abril, na sexta-feira será o 1.º de Maio, domingo o Dia da Mãe e na próxima terça-feira, dia 5, o Dia Mundial da Língua Portuguesa, essa outra mãe que nos calhou. Como de costume, vão tecer-se louvores ao Camões (não a Luís Vaz, mas àquele que despudoradamente usa o seu nome), brandir-se mapas e números, organizar-se saraus e discursos, agora forçosamente virtuais.

Mas nada disso pode ocultar algo que não é propriamente penúria, até porque a língua vai resistindo a tudo (fome, privações, maus tratos) e há por aí muita gente de todas as idades a falá-la e a escrevê-la com conhecimento, criatividade e brio; mas é um estado de ignorância e desleixo, muito pouco saudável, que a vai apoucando e corroendo até roçar o analfabetismo.

Nos mais diferentes meios (jornais, revistas, televisão, livros, Internet), a aplicação acéfala do chamado Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (AO90) continua a dar coisas como (e todas elas estão documentadas, com origens e datas) “artefatos” por artefactos, “estupefato” por estupefacto, “impato” por impacto, “impatante” por impactante, “pato” por pacto, “ojetivo” por objectivo, “corruto” por corrupto, “convição por convicção, “execto”, “excepo” e “exeto” por excepto, “exeção” ou “excessão” por excepção, “inteletual” por intelectual (a mais recente prova desta imbecilidade foi estampada no oficialíssimo Diário da República n.º 72/2020, Série II de 13/4/2020, no Aviso n.º 6075/2020), para já não falar na aplicação a Portugal, contra as indicações do próprio AO90, da norma escrita brasileira, escrevendo-se e até dizendo-se “fato” por facto, “contato” por contacto, “seção” por secção ou “conosco” por connosco, isto apesar de a rubrica Bom Português da RTP garantir que é “connosco” que se escreve em Portugal.

Se bem se lembram, o AO90 gabava-se de conseguir “unificar ortograficamente cerca de 98% do vocabulário geral da língua”, segundo a nota explicativa que o acompanhava. Só que tal frase ignorava um pequeno pormenor: mesmo que fosse possível unificá-lo graficamente, o vocabulário difere no uso e no sentido não só em Portugal e no Brasil (onde as diferenças neste campo são enormes) mas também nos países que começaram a moldar a língua ao seu jeito. Se a unificação ortográfica é, já de si, uma quimera retrógrada – porque línguas como o inglês, o francês ou o espanhol admitem tantas variantes ortográficas nacionais quantos os países que as usam –, a unificação vocabular é uma tolice sem nexo. Nisto, o brasileiro Evanildo Bechara, um dos bonzos do AO90, foi claro, numa entrevista que deu ao Expresso em 2012. Disse ele: “Não tem sentido uniformizarmos o vocabulário comum e os portugueses chamarem à capital da Rússia Moscovo e o Brasil chamar Moscou.” Mas chamam e escrevem, ainda hoje. Ao mesmo tempo, Bechara disse este disparate: “Em qualquer área em que seja usada, tanto no Brasil, como em Portugal ou na África, a língua portuguesa será grafada de uma só maneira. Isso significa que um livro editado em português pode correr todos esses países, porque a ortografia é a mesma.”

Não, não é a mesma, há o facto-fato, bebé-bebê, contacto-contato, amnistia-anistia, secção-seção, libertar-liberar, casino-cassino, registo-registro, planear-planejar, além das mil e uma palavras que no Brasil e em Portugal querem dizer coisas diferentes. Isso chama-se evolução. A língua foi crescendo e modificando-se consoante a cultura dos seus utilizadores. Ora isto, em lugar de ser usado como trunfo e sinal de riqueza, é aplainado por um capricho retrógrado e infame. Sim, podíamos estar a celebrar o facto, historicamente merecido, de termos neste Dia Mundial da Língua Portuguesa oito variantes vocabulares e ortográficas, que juntas fariam ainda mais forte o idioma no seu todo. Porém, na miséria que nos coube, vamos passar esse dia a ouvir discursos inflamados e a ler novos erros fomentados por um acordo que se transformou numa descabelada caça às consoantes. Seguindo a sugestão de “escrever como se fala”, ainda iremos ler “runiões”, “tamos”, “competividade”, “óvio”, “curdenação”, “mnistro” ou “custume”. É só esperar.

Na madrugada do 25 de Abril de 1974 houve um discurso decisivo para conquistar as tropas em Santarém. Foi feito por Salgueiro Maia e ele resumiu-o assim no seu livro Capitão de Abril (Editorial Notícias, 1997, pág. 87): “Declarei que havia várias modalidades de Estados: os liberais, os sociais-democratas, os socialistas, etc., mas nenhum pior do que o Estado a que chegáramos, pelo que urgia acabar com ele.” Pois também na língua portuguesa, espalhada por vários Estados e neles enraizada, há o estado indecoroso a que chegámos. Acabemos com ele.

Aliás, há um precedente vindo de dentro. Quando se acede ao Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP) e se tenta entrar no dito Vocabulário Ortográfico Comum (VOC), recebe-se esta mensagem de alarme: “Este site não é seguro. Isto poderá significar que alguém está a tentar enganá-lo ou a roubar qualquer informação que envie para o servidor. Deve fechar este site imediatamente.” É isso, fechem-no. E festejemos a rica diversidade desta língua que nos é comum.

[A reprodução de artigos e/ou conteúdos da autoria de terceiros tem por finalidade única a constituição de acervo documental sobre tudo aquilo que, segundo critérios meus, interessam ou dizem respeito ao chamado “acordo ortográfico” (e a outros detritos). (“livro de estilo”) ]

[Destaques, sublinhados, citações e “links” acrescentados por mim. Imagem de topo de:  Turismo de Portugal.]

 

Não faz bem nem faz mal

Este é um daqueles textos que, como dantes de se dizia sobre o Melhoral, não faz bem nem faz mal.

Não faz mal porque sempre é mais um (artigo, articulista) a avivar a questão; dito de uma forma canhestramente metafórica, é como quando alguém remexe as brasas de uma fogueira, atiçando-a de novo, ainda que por breves instantes, fazendo estalar a madeira e destas voando umas quantas chispas incandescentes. Nada de muito consequente, por conseguinte, mas não se pode ter tudo.

Porque na parte do Melhoral que não faz bem, mas mesmo nada bem, ah, quanto a isso é que estamos a engolir umas mezinhas ligeiramente tóxicas, em especial se em excesso: o paleio habitual, as rituais lacunas e incongruências do costume, as imaginárias questões legais envolvidas, a maravilhosa lista de “notáveis” que impressiona — quase esmaga, a bem dizer — os habitantes do Bairro Alto e arredores.

E como se não bastassem já os efeitos secundários, ainda há outro, bem pior do que os referidos: este simultaneamente estranho analgésico e inócuo anti-pirético contém a peregrina ideia de um debate televisivo sobre o AO90. E logo no programa de Fátima Campos Ferreira, valha-me Deus, como se não houvesse nada de mais sério ou, ao menos, de minimamente credível! Correu mal a prescrição. O “Prós e Contras” da RTP1, caramba! Uma feira de vacuidades em forma de estendal comunitário, por entre cujos varais comadres lavadeiras e vizinhas maldizentes penduram com molas cada qual seu rol de argumentos; tudo, pensamentos, ideias e argumentos do mais volátil que é possível inventar, razões dependuradas por cada qual segundo o espírito levezinho do momento, vagamente meditabundo sempre, descaradamente intriguista quando calha, no intuito geral e primordial de que pareça a roupinha de cada qual a mais alva, enxuta e imaculada de toda a concorrencial comandita.

O AO90 não é uma causa de consumo, santinhos, e não carece de conversa fiada, filmada em estúdio ou sussurrada nos bastidores. Tratando-se da cacografia brasileira que pretendem impingir-nos, dispensa-se perfeitamente qualquer tipo de esterilização mental ou de entubagem da estupidez, por mais ilustre que seja o corpo clínico ao qual se atribua a autópsia em vivo. “Aquilo” não é chegar lá, debitar brilhantismos de estarrecer (maravilhas de fazer embasbacar os simples) e pronto, está despachada a questão ortográfica, assunto resolvido, agora vamos todos à nossa vidinha, o que se segue, qual é o próximo tema fracturante sobre que devemos “discutir”, olha, e se a gente fosse antes ali ao Gambrinus debicar uns petiscos, que isto ele, com mil raios, ser especialista numa data de assuntos dá cá uma destas fomecas…

Ninguém para para pensar no Acordo Ortográfico

António Jacinto Pascoal
publico.pt 01.01.20

 

Há umas semanas, um amigo fez o favor de me enviar o documento Pordata, Retrato de Portugal 2019, da responsabilidade da Fundação Francisco Manuel dos Santos, no qual se trata estatisticamente a sociedade portuguesa em várias vertentes, de 1960 à actualidade, em colaboração com mais de 60 entidades oficiais de informação, sob o lema “Um convite à discussão informada sobre os factos”. Uma particularidade: todo o documento está redigido na versão do Acordo Ortográfico de 1945 (AO45).

Para além do facto de alguns organismos públicos manterem – é possível que estejam em processo de alteração – as autodenominações segundo o AO45 (ainda há dias me cruzei com uma carrinha da Protecção [sic] Civil de Almada), a própria RTP (que peleja do lado do Acordo Ortográfico de 1990) deixa escapar inúmeros casos em que a flutuação gráfica entre o AO45 e o AO90 é evidente, quer em apontamentos de rodapé, quer em destaques ou ainda em transcrições gráficas de enunciados orais ou escritos. Deixo alguns exemplos, enfatizados a itálico: “Greve em França – Eliseu afirma que actual sistema de pensões (…)” (10 de Dezembro de 2019); “Tribunal Comarca de Lisboa – Juízo Cível: Resultou à evidência que a sociedade não tem actividade para além do parqueamento (…)” (6 de Dezembro de 2019); Joe Berardo – “É impensável que a instituição de crédito tenha decidido conceder crédito directamente ao requerido (…); numa “peça” sobre os grandes contribuintes do fisco, foi exibida a imagem “Direcção de Finanças” (4 de Dezembro de 2019); “Bebé abandonado – Instituto de Apoio à Criança defende que adopção (…)” (9 de Novembro de 2019); “Apoio aos “Sem-abrigo” – várias associações de apoio a sem-abrigo queixam-se que não vêem melhoras (…)” (9 de Novembro de 2019).

Não é aqui o lugar para ser exaustivo a este propósito, mas fica claro que a RTP, emissora de televisão a prestar serviço público (e que promove até programas sobre a língua portuguesa e sua ortografia), contribui em simultâneo para o caos ortográfico e, portanto, difunde o erro ortográfico. Abreviando, a RTP torna evidente aquilo que muitos não aceitam reconhecer: a inevitabilidade de que a ortografia, em Portugal, não é um assunto fechado. Posso estar enganado, mas é possível que mais nenhum país do mundo tenha a sua ortografia por fixar (a não ser o Brasil e por questões semelhantes, envolvido no imbróglio comum). O mesmo será dizer que o país, por inteiro, não reconheceu ou fixou uma ortografia e que, nesse caso, o Acordo Ortográfico de 1990 não só não é norma como letra de lei.

Aliás, o que o sustenta, longe de se tratar de um Decreto-Lei, é somente uma Resolução do Conselho de Ministros (nº8/2011), que nem sequer aprovou um decreto-lei, como é de sua competência (veja-se a nota preambular sobre o assunto, no Diário da República Eletrónico, onde se diz “(…) retificado pela Rectificação [sic] (…)” – se atentarmos à pirâmide de Kelsen e à hierarquização dos deveres, percebemos que uma resolução de ministros surge na 6ª posição, salvo outra opinião mais segura, depois da Constituição, Leis, Decretos, Decreto Regulamentar e Resoluções do Supremo. Isso significa que ignorar o Acordo Ortográfico de 1990, como o faz a Pordata, como para tal igualmente concorrem os docentes da faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (insistindo em que os discentes adquiram os seus livros, impressos ainda segundo o acordo de 1945), ou como o faz, entre outras publicações (a Sociedade Portuguesa de Autores, por exemplo), o jornal diário Público, reputado como um (senão o) periódico de qualidade superior, não significa estar fora da lei.

Quando um país permite que a sua Constituição seja omissa quanto ao estatuto legal em que se inscreve a Língua de uso nacional, bem como a enunciação do documento orientador sobre o conjunto de regras linguísticas normativas (ambiguidades salvaguardadas) a que se submete, alguma coisa está a falhar. Aliás, não causaria prurido a ninguém a presença, na Constituição da República, de artigo próprio para a Língua Oficial. O artigo 11º (Símbolos nacionais e língua oficial) é, a meu ver, omisso, no seu ponto 3: “A língua oficial é o Português”. Resta saber a que Acordo Ortográfico adstrito.

Acredito na boa-fé das pessoas e respeito o conhecimento científico dos proponentes do novo acordo ortográfico e dos seus antagonistas. O que não aceito é que aquilo que se constitui matéria de tão alta importância não seja debatido. Tem razão a Dra. Margarita Correia (com quem tive o privilégio de trocar algumas impressões) ao afirmar que a questão do Acordo Ortográfico diz respeito somente a uma elite, porquanto a maioria das pessoas a ignora. É um facto: somente um grupo restrito de filólogos, professores, jornalistas e especialistas dá crédito ao assunto. Mas isso só é assim, porque a Língua Portuguesa, como bem imaterial (ainda que de alcance ontológico supremo) que é, não gera receitas de capital ao nível dos anseios da sociedade do entretenimento actual. A língua é contida, silenciosa, subtil e elegante. O novo acordo, parece-me, tira-lhe boa parte disso.

Seria importante, em benefício do serviço público, que a RTP, a que lanço o repto, pudesse promover o debate sério sobre a questão do Acordo Ortográfico, que, para além da componente científica, tem contornos políticos (alguns, mesmo, polémicos, desde a sua génese, ao processo e datação dos sucessivos Protocolos Modificativos, e ao impedimento de actuação do Grupo de Trabalho para a Avaliação do Impacto da Aplicação do Acordo Ortográfico de 1990). O programa Prós e Contras, moderado pela jornalista Fátima Campos Ferreira, por exemplo, seria oportuno para poder sentar à mesa pessoas como a Dra. Margarita Correia, a Dra. Maria Regina Rocha, o Dr. Artur Anselmo, filólogos e especialistas em lexicologia, jornalistas como Nuno Pacheco, tradutores, revisores (Manuel Monteiro, por exemplo), editores, escritores, activistas em torno da matéria, políticos. É um manancial humano em torno de um assunto imensamente rico e actual, que terá, isso é bem claro, interessada e viva participação. Algo que possa justificar o título assumidamente ambíguo deste artigo. E que, de uma vez por todas, clarifique aquilo que queremos para a Língua Portuguesa e se alargue a um número maior de pessoas o património simultaneamente universal e individual que ela representa.

Votos de um Bom Ano Novo, com dignidade, lucidez e sem o receio de encarar de frente as questões para as quais a nossa língua nos impele.

António Jacinto Pascoal

[Transcrição integral. Artigo da autoria de António Jacinto Pascoal. publico.pt 01.01.20. Os “links” a verde, bem como os destaques a “bold”, são meus.Imagem de topo de: Farmácia 24 (em brasileiro). 2.ª imagem de: “A televisão”.]

Uma reunião (muito) ordinária

 

«É o pensamento verbal que nos ajuda a organizar a realidade em que vivemos.»
Lev Vygotsky (1896 – 1934)

Aqui está, portanto, a notícia da constituição da Comissão Técnica de Revisão (CTR) do AO90, a qual terá por (óbvias) funções fingir que “discute” e “delibera” sobre as “aberrações”, os “erros grosseiros” e as “contradições flagrantes” de que se “queixam” há mais de 10 anos inúmeras sumidades. Como se o “acordo ortográfico” não fosse, todo ele, de cabo a rabo, uma contradição flagrante, um erro colossal (e grosseiro), uma completa aberração.

Fazendo de conta (daí a reunião à porta fechada) que analisam as “reivindicações” de alguns ilustres  “cientistas” da Língua, aquela ridícula pandilha de turistas linguísticos, com Malaca e Bechara por guias, darão com imenso júbilo a machadada final na Língua Portuguesa: tendo reservado em 1990 um certo quantitativo de “cedências” para “oferecer” mais tarde aos “contestatários” (as chamadas “novas duplas grafias” e mais umas quantas invenções), preparam-se agora, em sede de “revisão”, para simular que aceitam alguns “retrocessos” pontuais. Assim, as famílias de palavras que antes do AO90 eram (orto)grafadas da mesma maneira e que por via do mesmo “acordo” passaram a escrever-se de forma diferente (segundo o “brilhante” princípio o que não se pronuncia não se escreve), então essas palavrinhas desirmanadas voltam a escrever-se da mesma maneira em ambos os lados do Atlântico. Portanto, se até agora o total de palavras que o Brasil passou a grafar “à portuguesa” foi ZERO e as grafadas segundo a cacografia brasileira foram TODAS as alteradas pelo AO90, ainda faltava terraplanar, esmagar, eliminar de todo qualquer vestígio de ortografia, em sentido lato, a portuguesa em concreto. 

As tais “aberrações” que alguns “reclamam” sejam “corrigidas”, o que, sucedendo agora pelos ofícios da CTR, deve ser para eles motivo de satisfação (imagino os brados de “vitória”, os sorrisos de alegria desses anjinhos), consistirão em “repor” a recePção nos hotéis e a decePção nos eixos (salvo seja), por exemplo. Ou seja, de novo, como sucedeu na primeira fase da brasileirização, o que no Brasil se escreve (porque os brasileiros FALAM assim, articulam a consoante que para nós é “muda”), em Portugal volta a escrever-se conforme a PRONÚNCIA brasileira. É esta a segunda fase, mas não será a última, e foi para conspirar sobre essa incrível golpada que se reuniram na semi-clandestinidade tais e tão abjectos ordinários.        

Conhece uma língua filogeneticamente próxima da sua? Proponha-lhe namoro

A língua portuguesa continua maltratada, mal escrita, mal difundida e mal defendida, ao passo que umas criaturas se instituem, se aconselham, se comissionam e se regulam.

Nuno Pacheco, “Público”  10.10.19

 

Se o ridículo matasse, tinha sido uma tragédia. Felizmente para os participantes, o ridículo ainda não mata e pouco mói, pelo que todos sobreviveram. O que se passou? Logo no dia a seguir às eleições, dada a urgência da coisa, reuniu-se o Conselho de Ortografia da Língua Portuguesa. Em reunião ordinária, até porque era a primeira (além de que a designação se ajusta perfeitamente ao acto), e cheio de vontade de fazer coisas pelo nosso pobre idioma. E quem lá estava? Além das abencerragens do costume, e do indispensável Kaiser do Acordo Ortográfico (o actual ministro dos Negócios Estrangeiros, que ao que tudo indica vai manter a pasta mais uns aninhos), um lote de “especialistas” de “Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal e Timor-Leste” (diz a Lusa) que, no final, assinaram um documento. Ausentes? Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, o que não deixa de ser curioso, dado que São Tomé foi um dos primeiros países a ser imolado na fogueira do Acordo Ortográfico. Quanto à Guiné-Equatorial, que tem tantos e tão ilustres “especialistas” em língua portuguesa, não terá sido difícil encontrar um.

Bom, mas ao que vem este Conselho? Para que se perceba, convém explicar que o COLP é um órgão técnico do IILP. Trocando por miúdos: o Conselho de Ortografia da Língua Portuguesa, agora criado, é um órgão técnico do Instituto Internacional de Língua Portuguesa. Admira, dada a propensão dos portugueses para estas traficâncias de órgãos, que não se tenha criado também uma comissão, um comité e até um observatório para ajudar a pobre língua a sobreviver. E não é que criaram mesmo uma comissão? Para quê, perguntam? Para coordenar o Conselho, claro, que estas coisas não se coordenam sozinhas. Por isso, depois de louvarem José Malaca Casteleiro e Evanildo Bechara, responsáveis-mores pelo Acordo Ortográfico (AO90), entregaram a este último (“temporariamente”, assinale-se!) a direcção da comissão coordenadora, tendo a seu lado, para compor o ramalhete, Inês Machungo (de Moçambique, país que não assinou o AO90 nem o pratica, ao contrário do que se diz) e José Pedro Ferreira, do ILTEC. Tudo em família, portanto.

O mais curioso é que tudo isto se passou à porta fechada (de tal modo que até a agência noticiosa nacional, para citar as conclusões, teve de escrever, “de acordo com o documento a que a Lusa teve acesso”), consumindo dois dias, segunda e terça, de intensíssima reflexão. Para produzir o quê? Um documento com ideias claras, objectivos, balanços e análises, perspectivas, etc.? Na verdade, não. A inefável Margarita Correia, que preside ao IILP, disse à Lusa que o Conselho vai conferir uma “nova missão e gestão” à língua portuguesa e, embora a Lusa não o dissesse, é quase impossível não a imaginar comovida até às lágrimas, quando afirmou: “É com profunda alegria que testemunho este momento, que é histórico para a língua portuguesa”.

Histórico, claro. O IILP, que em matéria de dinheiros tem andado à míngua, obteve do Kaiser a declaração sonora de que Portugal (país de que se arroga lídimo representante) está “inteiramente disponível” para apoiar os projectos do IILP que “implicam mais verbas e menos verbos”. Isto é ouro para os ouvidos do IILP, cujo site (moderníssimo, como podem constatar), tem na secção de “eventos organizados pelo IILP” apenas quatro: dois colóquios em 2011 e dois em 2013. Ena!

Mas o que define o documento “a que a Lusa teve acesso”? Bom, já que esse papel até ontem não tinha sido transcrito na íntegra em lado algum, nem no próprio IILP, cite-se a Lusa: o COLP “define como primeira prioridade o ‘aprofundamento da sistematização das regras ortográficas do português’. Além deste aprofundamento, o órgão técnico propõe a ‘ampliação do corpo de conhecimentos sobre a ortografia’, que passa pela identificação e descrição das estruturas congéneres, o levantamento de bibliografia sobre a ortografia publicada em português e a gestão da ortografia de língua política ou ‘filogeneticamente próxima’ do português. Por fim, estabelece a criação de ‘corpora’ (conjunto de textos escritos e registos orais) de ‘dimensões comparadas e com equilíbrio semelhante’ para as variedades do português dos estados-membros da CPLP.”

Tudo isto é língua, tudo isto é fado, tudo isto é nada. É inacreditável como se gasta tempo e dinheiro com tamanhas vacuidades. Mas o mais ridículo ainda está para vir: “Esta comissão tem como função primeira supervisionar a elaboração do regulamento do COLP, a apresentar na próxima Reunião CC-IILP [Conselho Científico do IILP], prevista para maio de 2020.” É isso, faltava o regulamento. Um Instituto, um Conselho, uma Comissão, um Regulamento. Está tudo?

Não, ainda falta uma coisa: acabar com esta farsa, que mais não almeja do que a distribuição de uns cargos pela sinistra fraternidade do Acordo. A língua portuguesa continua maltratada, mal escrita, mal difundida e mal defendida, ao passo que umas criaturas se instituem, se aconselham, se comissionam e se regulam, desregulando tudo à sua passagem e sem qualquer benefício para lá das suas próprias quintas. Convém, pois, sublinhar isto: a coisa que falta é mesmo urgente.

nuno.pacheco@publico.pt

[Transcrição integral de: Conhece uma língua filogeneticamente próxima da sua? Proponha-lhe namoro | Opinião | PÚBLICO. Destaques e “links” (a cor-de-laranja) meus. Imagem de (peço desculpa pela menção àquele asqueroso programa) RTP.]

Nota: a reprodução deste artigo, como sucede com todos os aqui transcritos, tem por finalidade única a constituição de acervo documental sobre tudo aquilo que, segundo critérios meus, interessam ou dizem respeito ao chamado “acordo ortográfico”

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Moinhos de vento

Don Quijote soy, y mi profesión la de andante caballería. Son mis leyes, el deshacer entuertos, prodigar el bien y evitar el mal. Huyo de la vida regalada, de la ambición y la hipocresía, y busco para mi propia gloria la senda más angosta y difícil. ¿Es eso, de tonto y mentecato?
Miguel de Cervantes, ‘Don Quijote de La Mancha’

 

Uma situação embaraçosa que se torna cada vez mais corriqueira nos desgraçados tempos que vão correndo: estão pessoas normais e educadas conversando com toda a pacatez, quando, inopinadamente, um idiota interrompe ou vários dos circunstantes resolvem esparramar em redor toda a sua boçalidade.

Foi o que sucedeu neste caso: durante uma “tertúlia” regular da RTP3, está a escritora Inês Pedrosa comentando a iminente entrega da ILC-AO no Parlamento quando, de repente, dois tipos sentados na mesma mesa desatam a largar umas “bocas”, na tentativa de abafar com ruído o que a escritora estava a dizer.

Não fora a epidérmica simpatia da senhora a salvar a situação, estivesse ali um homem e decerto outro galo cantaria, poderia ter acontecido algo muito mais aborrecido, como, por exemplo, o dito ter dado um murro na mesa e uma palmada num dos rufias ou, pior ainda, vice-versa, uma palmada na mesa e um murro no gajo.

“Não estamos na RTP Memória”, arrotou um qualquer garoto, por entre as gargalhadas postiças de outro cretino de serviço. Mas que idiotas, valha-nos Deus, mas que abjectos yuppies caseiros, rudes, ignorantes e mal-educados “fatinhos”, mas que desoladora imagem do subúrbio mental em que vegetam tecnocratas e onde apenas e sem nenhum préstimo sopra o vento.

Inês Pedrosa saiu-se muitíssimo bem, de facto, com a sua natural classe, poupando a todos os espectadores e ouvintes o enxovalho da vergonha alheia — esse sentimento já vulgarizado pela corrupção hedonista da juventude, pelo galopante enobrecimento da estupidez, pelo inexorável triunfo da mediocridade.

Honra lhe seja feita, a senhora tem o que é preciso. Conseguiu muito mais com um simples sorriso do que teria valido uma singela chapada.

Ou duas, vá.

[foto de topo: https://pixabay.com/en/portugal-sintra-mill-landscape-2943915/]

Uma educação de qualidade ou “uma qualidade educação”?

Ministra Educação timorense nega ter política “anti-lingua portuguesa”

 

RTP/Lusa, 29 Nov. 2018

A ministra da Educação timorense negou ter uma política “anti-língua portuguesa” e afirmou estar convicta de que a reforma curricular que promoveu a partir de 2015 “vai funcionar” e ajudar os alunos a obter melhores competências.

 

“A minha política não é nem nunca foi anti-língua portuguesa. E confesso que não penso que existam assim tantas pessoas a considerarem que tenha uma política anti-língua portuguesa”, afirmou Dulce Soares, em entrevista, por escrito, à Lusa em Díli.

“Como não iniciamos a alfabetização em português, algumas pessoas compreenderam incorrectamente que o novo currículo seria, nas suas palavras, `anti-português`. Pelo que, como fui uma das promotoras desta reforma curricular, acabei por ser apelidada como `anti-português`”, explicou.

Dulce Soares concedeu uma entrevista à Lusa para analisar alguns dos aspectos relacionados com o trabalho do seu Ministério, com destaque para questões curriculares, língua e recursos educativos.

A governante considerou “normal” que processos de “profunda revisão curricular” suscitem críticas e divergências e insistiu que o modelo iniciado em 2015 – entre as medidas mais polémicas do Governo -, assenta na “progressão linguística que se inicia no tétum e progride para o português”.

“Sinceramente, acredito que este método definido pelo plano de progressão linguística vai funcionar e ajudar os alunos a adquirirem melhores competências na língua tétum e um melhor domínio da língua portuguesa, sem sacrificar a aquisição de conhecimentos nas restantes áreas disciplinares”, sustentou.

“Esta convicção não assenta apenas nas minhas crenças, esta convicção fundamenta-se em vários estudos na área da educação realizados em contextos multi-linguísticos. A minha política é antes de qualquer coisa pró-educação e pró-aprendizagem de qualidade”, afirmou.

Dulce Soares explicou que foi decidido que “a alfabetização ou a literacia se iria iniciar apenas numa língua oficial e que seria aquela que as crianças compreendessem melhor”, nomeadamente o tétum.

O português seria introduzido “progressivamente, oralmente desde o 1.º ano e na forma escrita a partir do 3.º ano, com o objectivo das crianças alcançarem uma base sólida e forte em ambas as línguas oficiais, aquando da conclusão do segundo ciclo”, explicou.

Esses currículos só prevêem que o português comece a ser língua de instrução para componentes curriculares a partir do 4.º ano, dedicando ao ensino do português apenas 25 minutos por semana no 1.º ano.

O tempo real de ensino do português aumenta para 1:15 horas no 2.º ano e 2:30 horas no 3.º e 4.º ano – pode ser ainda mais reduzido, já que muitas das escolas públicas, por falta de professores e demasiados alunos, usam um sistema de turnos.

No que toca ao componente do estudo da língua como componente curricular, o português é meramente oral nos três primeiros anos – 25 minutos por semana no 1.º, 1:15 horas na 2.º e 2:30 horas no 3.º.

O português passa à leitura e escrita apenas a partir do 4.º ano, ainda com 2:30 horas por semana, sendo ampliado ao tempo máximo de 3:20 horas no 5.º e 6.º ano.

“O meu objectivo é que as crianças aprendam e quando me refiro a aprender não é apenas uma língua. Quero que aprendam a fazer contas, aprendam a história de Timor-Leste, aprendam sobre como funciona o seu corpo, como nascem, crescem e vivem os animais e as plantas”, disse Dulce Soares.

“Quero que compreendam o mundo, que sejam capazes de resolver problemas, que saibam respeitar-se uns aos outros e que estabeleçam relações sociais saudáveis com os outros”, afirmou.

Timor-Leste, sublinhou, é único entre os países da CPLP por ter duas línguas oficiais (português e tétum). Por outro lado, acrescentou, promover o domínio linguístico demora “mais do que uma década”, pelo que se deve olhar para experiências na região e no mundo onde esse processo tem tido êxito.

“Temos de analisar estes casos de sucesso, para traçarmos estratégias que também nos permitam ter êxito, (…) que seja um país com duas línguas oficiais dominadas por toda a população”, defendeu.

“Um primeiro passo já foi dado, com o currículo do 1.º e 2.º ciclo do ensino básico que estabelece métodos mais eficazes para o ensino da língua, nomeadamente através da progressão linguística do tétum ao português”, frisou.

https://www.rtp.pt/noticias/mundo/ministra-educacao-timorense-nega-ter-politica-anti-lingua-portuguesa_n1114312

Escola algures nas montanhas, numa clareira rodeada de "madres do cacau".

Publicado por Fotografias de Timor em Quinta-feira, 2 de Fevereiro de 2017

“O «acordo» que ninguém quer” [Viriato Teles, RTP, 12.10.18]

O «acordo» que ninguém quer

RTP, 12.10,18

Viriato Teles

 

O «acordo ortográfico» é como aqueles bêbedos chatos que aparecem sem ser convidados: entra, instala-se e não pára de incomodar; mas – por piedade, temor ou excesso de civilidade – ninguém se atreve a pô-lo na rua.

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Uma boa notícia chegou de Luanda, onde esta semana a Academia Angolana de Letras pediu formalmente ao governo de João Lourenço que não ratifique o AO. Se seguida a sugestão, como se espera, Angola dará um passo decisivo para reverter um «acordo» que, como sublinha a AAL, «trouxe mais problemas do que resolveu».

Com uma lucidez que não se tem revelado nas instituições de aquém-mar, os angolanos colocam o dedo na ferida: «Face aos constrangimentos identificados e ao facto de não ser possível a verificação científica dos postulados de todas as bases do AO, factor determinante para a garantia da sua utilização adequada, a AAL é desfavorável à ratificação por parte do Estado angolano.»

As razões apresentadas são as mesmas que, por cá, os vários grupos de resistência cívica ao «acordo» têm sublinhado, com destaque para o «número elevado de excepções à regra» (as absurdas «facultatividades») que «não concorre para a unificação da grafia do idioma, não facilita a alfabetização e nem converge para a sua promoção e difusão».

A melhor definição do AO ouvi-a ao humorista brasileiro Gregório Duvivier: «O acordo ortográfico é como a tomada de três pinos: criou uma solução para um problema que não havia

Só que o problema, que não havia antes, passou a existir depois.

A confusão instalou-se, alastrou à semântica e à sintaxe, e na formulação escrita da língua portuguesa passou a vigorar a regra do «faz-como-te-der-jeito» – aliás uma constante em documentos oficiais, a começar pelo Diário da República, onde diariamente coincidem na mesma frase as ortografias de antes e de depois do «acordo», e às vezes até outras, inventadas ou induzidas pelo caos em volta.

A verdade é que, tirando Malaca Casteleiro e os seus prosélitos, é quase impossível encontrar defensores do «acordo». Porque é comprovadamente mau e ninguém gosta dele, nem sequer os que, por funções de Estado, se sentem no dever de o aplicar. Só tem faltado quem tenha a coragem de dar o primeiro passo para lhe pôr fim.

É um assunto incómodo para o governo, mesmo se, nele, o vate que ministra na Cultura assobia para o lado porque tanto se lhe dá escrever assim como assado. Felizmente o mesmo não pensa o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, que até faz parte do grupo de Professores Contra o Acordo Ortográfico, no Facebook. Não chega, mas é um bom princípio.

Mas este é também um tema desconfortável para a oposição. Afinal, o «acordo» foi impulsionado politicamente, em Portugal, por duas das mais labruscas figuras que geriram o país e a cultura dele (Cavaco e Santana, sim, é bom lembrar) e atravessou a inércia dos sucessivos governos desde então. No parlamento, apenas o PCP levantou reservas e recentemente propôs a reversão. Os demais, à direita e à esquerda, continuam a preferir varrer a areia para debaixo do tapete.

Talvez o impulso da Academia Angolana de Letras ajude Portugal a, de uma vez por todas, encarar a questão de frente, colocando-lhe o ponto final que merece. Querem fazer um acordo? Pois então comecem por concordar em acabar com este, que não tem ponta por onde se lhe pegue.

(Em jeito de nota de rodapé, esclareça-se que a tomada de três pinos referida no texto foi adoptada como norma no Brasil, poucos anos atrás, como parte de um «plano de segurança» da rede eléctrica nacional. Um plano que, tal como o AO, se revelou inútil – porém muito lucrativo para a indústria de material eléctrico, e particularmente para a multinacional que esteve na origem da criação deste suposto «sistema de segurança». Que não é eficaz e mais ninguém usa, mas potencialmente obrigou à substituição de tomadas em 60 milhões de casas em todo o Brasil, operação que terá movimentado para cima de 1400 milhões de reais, algo como 325 milhões de euros. Qualquer semelhança com os negócios que o AO gerou é, naturalmente, mera coincidência.)

[Transcrição integral de artigo publicado no “site” da RTP, em 12.10,18, da autoria de Viriato Teles. Inseri “links”.]

[Imagem de topo: publicada em 18.05.15 no “mural” Facebook de Dora Leitão Xarepe. o “meme” original deste tipo de desenhos (“All The Things“) surgiu em 2010 e foi adoptado no Brasil com a designação “Quem Somos/O Que Queremos/Quando Queremos”. (Breve “história” aqui.]