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«Adeus, África» [Eduardo Oliveira E Silva, jornal “i”, 12.09.18]

Este artigo acaba por ter bastante interesse — numa segunda leitura, numa terceira, ou aí por volta da 5.ª vez, vá — se atendermos ao facto de o autor (apesar de provavelmente acordista e dos mais ferozes, a julgar pela voracidade com que estraçalha “consoantes mudas”, qual Lince bípede, mas sendo ainda capaz de enumerar todos os efeitos nefastos (laterais, bilaterais, multilaterais e colaterais) que a peregrina “ideia” de uma putativa “língua comum” (a brasileira, evidentemente) vai já, paulatina mas progressivamente alastrando em Portugal e nos PALOP.

O que significa, portanto, que AO90 ou CPLP são na prática uma e a mesma coisa: o processo de demolição em curso do património identitário basilar de 7 dos 8 países cuja alegre agremiação, sob o alto patrocínio do Brasil e à custa, à conta, à pala do erário público de Portugal, persegue o objectivo único de erigir um II Império brasileiro de cariz alucinogénico.

Com alguma timidez, certamente de mãos trémulas, ele escreve este pequeno manifesto não tentando sequer disfarçar que algures no passado também acreditou nas patranhas da seita mas é crível que de repente ter-lhe-á caído um pedregulho em cima. Este homem diz da CPLP o que certo profeta não diria da entremeada assada mas bem poderia trocar os nomes aos bois, chamar AO90 à Comunidade dos Países de Língua Oficial Brasileira (CPLB), que ainda assim os ditos quadrúpedes ruminantes seriam os mesmos: em manada, cabeças para abate.

 

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Adeus, África

Aos poucos mas inexoravelmente, os países africanos de língua portuguesa afastam-se de nós

Eduardo Oliveira E Silva
Jornal “i”, 12.09.18

1. À medida que o tempo passa, verifica-se um inexorável afastamento entre Portugal e os países africanos de língua portuguesa. O fenómeno pode escapar a alguns, mas é real e não se limita a temas como o acordo ortográfico. O problema não tem só a ver com os africanos dos PALOP que vivem em Portugal ou com os portugueses que por lá andam e trabalham. É mais fundo e, portanto, mais preocupante. Há um distanciamento político, económico e cultural que não cessa de crescer. A circunstância de haver emigrantes e imigrantes de um lado e de outro não impede um esfriamento das relações e um distanciamento. Há não muito tempo havia mais atenção e preocupação com o que se passava em cada um dos países. Agora não. Há indiferença e não propriamente afecto, para usar uma palavra da moda. Os Estados passaram a intitular-se parceiros estratégicos. Os donos das empresas têm-nas para fazer dinheiro e não por gosto, orgulho e função social. Esse desapego instalou-se também nos cidadãos, que já pouco se interessam por saber as circunstâncias próprias e os problemas por que passam ou deixam de passar as pessoas em concreto. É uma situação triste porque contraria a proximidade que, apesar da História e do colonialismo, conseguiu manter-se entre muita gente. Hoje, tanto faz para um português que um africano seja daqui ou dali, desde que ele consiga comunicar na mesma língua. Inversamente, o problema deve existir. Há xenofobia anti-portuguesa nos PALOP e anti-angolana por cá. Podem dizer que há a CPLP, que há cooperação e que há um conjunto de acordos, além de haver milhares de estudantes dos PALOP (e do Brasil) em Portugal. Há isso tudo, mas não há compreensão, sentimento e uma partilha de coisas e causas comuns. Aos poucos, ficamos alheios, o que não significa hostis. No mundo do trabalho, estão a reformar-se cá e em África os homens e as mulheres que tinham mais ou menos 20 anos no 25 de Abril. Por muitas diferenças ideológicas que tenham tido, são eles o cimento de relações que se foram mantendo exactamente por causa de laços identitários que agora se vão dissolvendo. Apesar do mérito que têm instituições como a RTP e a sua notável RDP/África, os países lusófonos africanos e Portugal estão a caminhar de costas voltadas. As viagens de Estado e as convenções nada resolverão se as sociedades civis luso-africanas não reverterem a situação. E pode–se apostar que isso se confirmará, passada a espuma das viagens oficiais de António Costa a Angola e de João Lourenço a Portugal. Se não houver um movimento de aproximação genuíno e civil, teremos com os PALOP um panorama semelhante ao que se passa com o Brasil, cujos imigrantes não querem saber nada do que aqui acontece, enquanto as sociedades portuguesa e brasileira só param pontualmente uns minutos para ver nas televisões escândalos, casos pitorescos ou de violência que tenham ocorrido num dos países. Além de turistas que descobriram que Portugal é das nações mais importantes da história dos últimos 500 anos, chegam do Brasil pobres e ricos. Paradoxalmente, vêm pelos mesmos motivos: fugir da pobreza e da violência. Uns vêm para ganhar a vida, outros para gastar o que têm num país onde há calma e onde os entendem. Pode ser importante, mas é pouco. Amanhã, não pode acontecer o mesmo com os PALOP.

(…)

[Transcrição parcial de “Adeus, África”, da autoria de Eduardo Oliveira E Silva, publicado no jornal “i” de 12.09.18. Destaques meus. A desortografia  abrasileirada do original  foi automaticamente corrigida pela solução Firefox contra o AO90 através da extensão FoxReplace do “browser”. Imagem de topo de: VOA (Angola)]

«A Língua e a Comunidade» [Viriato Teles, RTPN, 20.07.18]

«A relutância de angolanos e moçambicanos ao «acordo ortográfico» talvez tenha tido outros motivos, mas poderá agora ser um caminho para pôr o ponto final no desastre. Afinal, não custa muito perceber que a língua é o património genético mais importante de qualquer povo ou comunidade. É ela que identifica e agrega e nos une. Querer regulá-la com base em pressupostos economicistas (para mais de eficácia comprovadamente nula) que atropelam as noções mais básicas da semântica e da história do idioma é mais do que um disparate: é um crime praticado de forma continuada.»

A Língua e a Comunidade

Os governantes dos nove países da CPLP reuniram-se esta semana em Cabo Verde para mais uma cimeira de topo. Que terminou com os costumeiras declarações optimistas dos participantes, mas onde aparentemente pouco se avançou quanto ao que realmente interessa: a Comunidade propriamente dita ainda pouco mais é do que uma boa intenção.

RTP Notícias, 20 Julho 2018

Viriato Teles

A Comunidade dos Países de Língua Portuguesa nasceu em 1996, mais de duas décadas depois do golpe de misericórdia dado pelo 25 de Abril no «império português». Entre os objectivos fundadores da organização, destacavam-se «a cooperação em todos os domínios» e «a materialização de projectos de promoção e difusão da língua portuguesa» – dois pressupostos muito nobres e que, na verdade, deveriam ser inerentes à própria natureza dos países que a integram.

A CPLP é uma organização de Estados, e nessa medida talvez funcione minimamente. Mas ainda não é – ainda, digo eu, que sou um optimista e continuo a acreditar que possa vir a ser – o motor de uma comunidade de povos. Como, eventualmente, terá idealizado o brasileiro que, para todos os efeitos, é com justiça considerado o fundador da CPLP: o embaixador José Aparecido de Oliveira, cuja persistência e talento diplomático foram determinantes para ultrapassar os obstáculos, as desconfianças e as inevitáveis mesquinhices de estados e de almas.

Reduzido à dimensão peninsular de origem, Portugal nunca apostou como deveria na ideia de uma verdadeira «comunidade lusófona». Fosse por «complexo de ex-colonizador», por um sentimento de pobreza congénita, ou por receio de virmos a ser «engolidos» pelos países-irmãos maiores e potencialmente mais poderosos, a verdade é que nunca do lado de cá se deram passos seriamente empenhados nesse sentido.

Mas isto é válido também para o lado dos países africanos de expressão portuguesa, para quem interessavam sobretudo os aspectos da «cooperação em todos os domínios», e mesmo assim com resultados frequentemente muito discutíveis – fruto de décadas de corrupção instalada, tanto lá como cá.

Quanto ao Brasil, o interesse será também essencialmente político-diplomático (e naturalmente económico), já que de cooperação o país não precisa e de cultura está razoavelmente bem servido. Isto apesar de ter sido de lá que partiu a peregrina ideia do «acordo ortográfico», contestado de ambos os lados do Atlântico e (felizmente) ignorado por Angola e Moçambique, mas ainda não exterminado, como merece – um objectivo que, aliás, bem poderia entrar na agenda da CPLP.

Só que, para isso, era necessário que a língua e a cultura fossem realmente importantes para os governos envolvidos. E manifestamente não parecem sê-lo, por mais entusiásticas que sejam as declarações formais de todos eles. O problema não é de agora, nem tem a ver especificamente com este(s) governo(s), mas – por isso mesmo – tem de ser séria e eficazmente combatido, sob pena de se hipotecar irremediavelmente toda uma memória comum.

O influente Novo Jornal Online, de Luanda, alertava há dias em editorial para o «estado absolutamente desastroso em que se encontra o uso da língua portuguesa em Angola». E isto, sendo um problema dos angolanos, é também uma questão que deve preocupar todos os membros desta ainda-não-comunidade de povos – que nasceu e se pretende continue unida pela língua, com respeito pelas diferenças e pelas especificidades que a engrandecem.

Ora a CPLP poderá, se quiser, ter um papel a desempenhar na solução deste e de outros problemas que, lenta e silenciosamente, vão deteriorando irremediavelmente o património cultural comum. Terá de ser uma intervenção séria, sem receio de corrigir erros passados, em que interesses particulares não se sobreponham aos valores comuns. Uma boa maneira de começar seria acabar de vez com o «acordo ortográfico», mas até agora, por razões diferentes, ninguém teve a coragem de dar o primeiro passo.

Nos próximos dois anos, Angola vai assumir a presidência da CPLP. Ironicamente, é neste país e em Moçambique que, actualmente, se continua a falar e a escrever o Português de que o antigo colonizador já prescindiu (na lei, mas não na grei) em nome de interesses alheios à história, à cultura e à identidade da língua e dos povos a que ela pertence.

É com certeza pedir demais, mas seria muito interessante verificar que os ventos de mudança que parecem fazer-se sentir em Luanda chegavam, nestes dois anos, também à CPLP. Não haveria, decerto, melhor sinal de que esta ideia de uma «comunidade de países» pode ser mais e melhor do que um mero conjunto de interesses circunstanciais. E tornar-se um dia, quem sabe, num espaço que os netos dos nossos netos venham a partilhar, de um modo fraterno e justo – como as dores da história ainda não nos permitem fazer hoje.

Afinal, trata-se apenas de colocar na lei aquilo que já é uma realidade: o AO só está em vigor teoricamente – e apenas no Brasil (que não o aplica, aliás quase não precisa de o fazer), em Portugal (onde as «facultatividades» e outros disparates instalaram uma confusão ortográfica que, aliada à iliteracia geral, transformou a língua numa caricatura) e, por simples inércia, em Cabo Verde (que, na prática, também o ignora, antes investe na promoção dos crioulos locais).

A relutância de angolanos e moçambicanos ao «acordo ortográfico» talvez tenha tido outros motivos, mas poderá agora ser um caminho para pôr o ponto final no desastre. Afinal, não custa muito perceber que a língua é o património genético mais importante de qualquer povo ou comunidade. É ela que identifica e agrega e nos une. Querer regulá-la com base em pressupostos economicistas (para mais de eficácia comprovadamente nula) que atropelam as noções mais básicas da semântica e da história do idioma é mais do que um disparate: é um crime praticado de forma continuada.

Eu sei que a CPLP não produz leis nem negoceia tratados. Mas é (deve ser) a plataforma comum e, deseja-se, o ponto de encontro dos governantes dos países que dela fazem parte. Nada obsta, portanto, a pelos canais de que dispõe este deixe de ser um tema tabu entre os nossos países e seja clara e seriamente discutido. Basta querer.

Para mais, é do conhecimento geral a quantidade dos que – ora no poder, ora na oposição, em Portugal e nos outros – reconhecem a valência dos argumentos «anti-acordistas» e o desconchavo que resultou da sua aparente aplicação. E todos concordam que, à medida que o tempo passa, maiores são os danos e mais difícil se torna a recuperação. Não será então a altura de, duma vez por todas, pôr fim à iniquidade?

Viriato Teles

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Viriato Teles, publicado no “site” da RTP Notícias em 20.07.18. Destaques e “links” meus. Foto de topo de: Miguel Silva (“Público“).]

45% dos alunos não conseguem situar Portugal no mapa

«Então, por causa dos tais dois mil para quem o conhecimento desta língua é útil, noventa e oito mil foram torturados e em vão sacrificaram um tempo precioso. (…) Daí que seria essencialmente mais útil se ao jovem estudante fossem transmitidos apenas os contornos gerais da língua (…) Evitar-se-ia também o perigo de, de toda a sobrecarga de matéria, apenas ficarem uns fragmentos na memória, uma vez que o jovem só teria de aprender o essencial, sendo assim feita antecipadamente a selecção do que é útil e inútil. (…) Ganhar-se-ia assim no currículo o tempo necessário para a educação física (…)»

[“Mein Kampf”, Adolf Hitler]

«É indiscutível que a supressão deste tipo de consoantes vem facilitar a aprendizagem da grafia das palavras em que elas ocorriam. De facto como é que uma criança de 6-7 anos pode compreender que em palavras como concepção, excepção, recepção, a consoante não articulada é um p, ao passo que em vocábulos como correcção, direcção, objecção, tal consoante é um c? Só à custa de um enorme esforço de memorização que poderá ser vantajosamente canalizado para outras áreas da aprendizagem da língua.» [Acordo Ortográfico – Nota Explicativa [Pseudologia fantastica – 12]

 

 

 

Grande parte dos alunos que fizeram as provas de aferição de História e Geografia do 2.º ciclo, em 2017, não conseguiam localizar o país no Sudoeste da Europa.

Entre os mais de 90 mil alunos que fizeram provas de aferição de História e Geografia do 2.º ciclo, em 2017, 45% não conseguiram localizar Portugal continental em relação ao continente europeus. Esta conclusão consta num novo relatório que abrange dois anos de provas de aferição – 2016 e 2017 – de várias disciplinas e anos de escolaridade, citado pelo Diário de Notícias.

Ou seja, utilizando os pontos colaterais da rosa-dos-ventos, os alunos não conseguiam localizar o país no Sudoeste da Europa. Além disso, apenas 45% dos estudantes localizaram correctamente “o continente europeu em relação ao continente asiático, o continente africano em relação ao continente europeu e Portugal continental em relação ao continente americano”.

O presidente do Instituto de Avaliação Educativa (IAVE), Hélder de Sousa, não considera que estas falhas sejam por falta de conhecimento, mas sim na capacidade de o aplicar.

“Em alguns relatórios, na análise que se faz da Geografia do ensino secundário, uma das coisas um pouco anacrónicas é a dificuldade que os alunos têm em utilizar a informação cartográfica, quando a Geografia é a área em que, por excelência, estas áreas deviam estar mais consolidadas”, frisa.

Source: 45% dos alunos não conseguem situar Portugal no mapa – Portugal – SÁBADO

 

“Do lirismo ao desastre” [Nuno Pacheco, “Público”, 14.06.18]

Angola quer acesso à comunidade dos países de língua francesa. (RTP)

Angola quer acesso à comunidade dos países de língua francesa. (RTP)

 

Língua portuguesa, do lirismo ao desastre

Nuno Pacheco
“Público”, 14 de Junho de 2018

Os panegíricos em torno da expansão da língua portuguesa equivalem a um banquete de bombeiros no interior de uma casa em chamas. Um absurdo.

 

Inflada pelo 5 de Maio, Dia Internacional da Língua Portuguesa, e o 10 de Junho, Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas, anda por aí a euforia do costume em torno da nossa língua. “A quinta mais falada no mundo, a terceira mais falada no hemisfério ocidental e a mais falada no hemisfério sul”, diz a propaganda, e os políticos rejubilam. “Trabalho bem feito, hã? Valeu o esforço, ora se valeu!” Há como que uma espécie de embriaguez que nos tolda os sentidos e nos impede de ver o que se esconde por detrás dos desejos, da retórica, das frases encomiásticas, das estatísticas que anunciam, sem pejo, que a língua portuguesa, se é falada hoje (garantem) por mais de 260 milhões de seres, sê-lo-á por 400 milhões até 2050 e por nada menos do que 600 milhões até ao final do século. É obra, senhores, é obra!

Mas é obra, sobretudo, da imaginação. Quem preza a língua portuguesa desconfia de tal abundância. Para que isso fosse verdade, era preciso haver um trabalho sério de difusão da língua à escala global (e difundi-la é fazê-la ouvir e ser utilizada no mundo, não é trocá-la pelo inglês à mínima oportunidade, como é hábito nosso), era não confundir língua com ortografia (e o malfadado “acordo” nasce desse equívoco espúrio), era olhar primeiro para a nossa própria casa, que tão desarrumada está, e só depois para o horizonte em torno dela.

O debate que a Fundação Francisco Manuel dos Santos promoveu no mais recente programa Fronteiras XXI, que a RTP3 transmitiu em directo no dia 6 de Junho, foi bem elucidativo dos equívocos que persistem. Ouvimos Onésimo Teotónio de Almeida, escritor radicado há 46 anos nos Estados Unidos, dizer que o “movimento de crescimento” do português está ali a ter uma curva descendente desde 2015; ouvimos, numa reportagem, dizer que em cada dez crianças que chegam à escola em Moçambique, só uma fala português, e que, segundo o último censo moçambicano, só metade da população fala minimamente o português (só um em cada dez moçambicanos considera o português língua materna, disse-se também); ouvimos Germano Almeida, escritor cabo-verdiano recém-distinguido com o Prémio Camões, dizer que “Cabo Verde não é um país bilingue, é um país que tem uma língua que é o crioulo” e que “talvez 10% da população fale português” em Cabo Verde, sendo que “mais de 50%” entende a língua portuguesa (os restantes, conclui-se, nem sequer a entenderão). A este quadro, poderíamos juntar uma notícia inquietante desse mesmo dia 6: Angola vai pedir adesão à Commonwealth (comunidade com 53 países de língua inglesa) e à Francofonia (57 países), no que, aliás, não está isolada, já que Moçambique pertence também à Commonwealth, pertencendo Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, ambos, à Organização Internacional da Francofonia. Talvez em “troca”, França, Itália, Andorra, Luxemburgo, Argentina e Sérvia pedem agora adesão à CPLP, como observadores.

Perante tal quadro, que reacções houve? Preocupação? Insistência num trabalho mais firme e profícuo? Não, muito pelo contrário. Ouvimos, espantados, dizer que “o português nunca esteve tão bem”, que “continua firme”, que “está muito bem e recomenda-se”. E ouvimos Luís Antero Reto (um dos autores do panegírico Novo Atlas da Língua Portuguesa) dizer que “o facto mais significativo da língua portuguesa é o seu potencial de crescimento neste século”, garantindo que o português “é a língua que mais cresce a seguir ao árabe” por estar em mais continentes. Estar, está; mas de que modo? Disso os “promotores” da língua não querem saber. Há escolas a ensinar português na China, e isso basta-lhes, é sinal de “crescimento” (e logo na China, caramba!), mas ignoram que mesmo debaixo dos seus olhos Moçambique está como está; Angola afasta-se; o Brasil está numa tremenda crise (também em matéria educativa); Cabo Verde, São Tomé e Guiné privilegiam, compreensivelmente, os respectivos crioulos; e a língua portuguesa, em todo este enorme universo, corre o risco de minguar em lugar de expandir-se.

Ouvir os arautos desta mirífica expansão é como assistir a um banquete de bombeiros no interior de uma casa em chamas: um absurdo. Nos anos 1970, o PPD tinha um curioso slogan: “Hoje somos muitos, amanhã seremos milhões”. Os anarquistas, cáusticos, acrescentaram-lhe um comentário: “Tomem a pílula”. Pois na língua portuguesa não precisamos: já tomámos a pílula da inconsciência, do lirismo e do desvario. A continuar assim, nenhum discurso nos valerá. A menos que abramos os olhos.

Nuno Pachecho

[Transcrição integral de texto, da autoria de Nuno Pacheco, publicado no “Ipsilon” (suplemento do jornal “Público”) em 14.06.18. Inseri “links”. Imagem de topo de: RTP.]

Ainda o “Fronteiras 31”

«O futuro da Língua Portuguesa nunca poderá estar neste famigerado acordo ortográfico, em que a língua foi vilmente…

Publicado por Fundação Francisco Manuel dos Santos em Segunda-feira, 4 de Junho de 2018

Aldrabice. Aquilo foi, na verdade, e absolutamente ao contrário das expectativas, um saco cheio de lixo acordista. Não reciclável, portanto.

Como se já não bastasse tratar-se o programa de uma “parceria” entre a Fundação Francisco Manuel dos Santos, instituição respeitável e — pelo menos, aparentemente — insuspeita, e a RTP, rede televisiva de propaganda governamental e de intoxicação acordista, e mesmo que dêmos de barato a fraude das “perguntas do público” que afinal não existiram, ainda tivemos de levar com as baboseiras dos paineleiros (tirando a honrosa excepção de Ivan Lins) e com toda aquela encenação feérica, elegíaca, pacóvia, incrivelmente patega na sua “admiração” pelo “gigantismo” do Brasil.

Uma coisa nojenta, em suma.

O acordismo impingido às massas, o II Império brasileiro servido em bandeja “lusófona”. De novo. E, como sempre sucede quando a esmola é grande, o pobre, afinal, estupidamente, nunca desconfia.

O pobre, neste caso, ingénuo, crédulo, anjinho, fui eu. Divulguei aqui uma badalhoquice, peço desculpa.


«O vencedor do Prémio Camões, Germano Almeida, pede mais apoio do Estado de Cabo Verde à literatura portuguesa. Já o escritor português Pedro Mexia defende que a Guiné Equatorial não devia estar na CPLP. Declarações no programa Fronteiras XXI, da RTP 3, que discutiu o futuro da língua portuguesa.» [RTP]

https://www.rtp.pt/play/p4259/fronteiras-xxi

(mais…)

Perguntas sem resposta

1. Anunciei aqui este programa da RTP3.

Fronteiras XXI – 6 de Junho às 22h na RTP3

Não perca hoje às 22h na RTP3 o debate #FronteirasXXI sobre o futuro cultural e económico da língua portuguesa.Com Germano Almeida, Ivan Lins e Pedro Mexia. Participações especiais de Gregório Duvivier, Onésimo Teotónio de Almeida e Maria do Carmo Vieira: http://fronteirasxxi.pt/linguaportuguesa

Publicado por Fundação Francisco Manuel dos Santos em Quarta-feira, 6 de Junho de 2018

 


 

2. Chamei a atenção para a possibilidade de qualquer pessoa poder colocar questões.


 

3. Do programa resultou, em resumo, isto.

 


 

4. Mas não houve afinal qualquer pergunta da assistência, presencialmente ou via formulário.

Mesmo tendo sido eu tão aldrabado como os demais, expresso o meu pedido de desculpas a quem porventura terá sido induzido em erro pela aldrabice da RTP que aqui difundi.

Já tenho idade suficiente para ter juízo, muito me penalizo por ter caído na esparrela. Não me perdoo.

Mas, ao menos no que diz respeito à RTP “serviço público”, prometo que terei doravante mais cuidado, porque o que aqui publico é serviço. Não é brincadeira.