Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

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“A Língua Portuguesa nas suas múltiplas vertentes” [jornal “Ponto Final” (Macau)]

Lusitanistas reunidos pela primeira vez a Oriente para afirmar o papel da língua portuguesa

São mais de 140, os académicos de algumas das mais prestigiadas universidades do mundo que por estes dias se encontram em Macau para o XII Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas. Pela primeira vez, o encontro decorre a Oriente, após de já ter passado por países como França, Portugal, os Estados Unidos da América, o Brasil, a Alemanha e Cabo Verde.

Arrancou ontem o XII Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas (AIL), iniciativa que até sexta-feira, vai reunir, no Instituto Politécnico de Macau (IPM), mais de 140 conferencistas de 80 instituições de ensino superior oriundas um pouco de todo o mundo. Elemento de destaque naquela que é a primeira edição do evento trienal a Oriente é a presença, pela primeira vez, de académicos chineses que se vão apresentar como palestrantes. Para Roberto Vecchi, presidente da AIL, este afigura-se como “o elemento mais interessante deste congresso que surgiu espontaneamente sem nenhum tipo de organização”. Em declarações ao PONTO FINAL, o também director do Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas Modernas da Universidade de Bolonha, salientou a importância do evento decorrer em Macau “porque, de certo modo, inaugura um espaço novo, um espaço dinâmico, um espaço que está a investir muito na língua portuguesa”. Vecchi revelou ainda que “provavelmente” o congresso irá regressar à Europa “nos próximos três anos”.

Presente na cerimónia de inauguração que ontem decorreu no Instituto Politécnico de Macau, entidade organizadora do congresso, esteve o secretário para os Assuntos Sociais e Cultura. Alexis Tam considerou que o idioma de Camões está a crescer de forma visível no território: “De uma forma simples, pode dizer-se que, hoje, há mais e melhor língua portuguesa em Macau”, defendeu.

Para o dirigente, tal constatação deve-se a “passos muito significativos” como o reforço “substancial” do investimento no ensino da língua, o recrutamento de novos recursos humanos, o aumento do número de alunos, a criação de novos programas e o incremento do intercâmbio e cooperação: “Considero, contudo, que podemos fazer mais. Do ensino básico ao ensino superior, das instituições públicas às instituições privadas, na pedagogia e na investigação, nos projectos e nos resultados”, assegura Alexis Tam. O secretário para os Assuntos Sociais e Cultura garantiu ainda, da parte do Governo, “o estímulo, a dinamização e os meios necessários”.

Por sua vez, Carlos Ascenso André, coordenador do Centro Pedagógico e Científico da Língua Portuguesa do Instituto Politécnico de Macau, recordou a viagem que fez até Cabo Verde há três anos, aquando do último encontro da Associação Internacional de Lusitanistas, para apresentar a candidatura da instituição de ensino superior à realização do congresso que se seguiria. Três anos depois, a associação reúne-se em Macau para uma “celebração da língua portuguesa e das culturas dos países de língua portuguesa”, como assim o entende Lei Heong Iok, presidente do IPM.

 

A LÍNGUA E A CULTURA DOS PAÍSES DE LÍNGUA PORTUGUESA NAS SUAS MÚLTIPLAS VERTENTES

O congresso prossegue hoje, pelas 14h30, com a conferência “Divulgar a Língua Portuguesa e as suas Culturas” e com a apresentação da nova série da revista “Veredas”, editada pela AIL. Hoje será ainda apresentada a “Plataforma 9”, um portal cultural do mundo de língua portuguesa desenvolvido pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela Associação Internacional de Lusitanistas. Amanhã, pelas 11h, tem lugar o seminário “O Português no Mundo” conduzido por Ana Paula Laborinho, presidente do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, Benvida da Rosa Lemos Oliveira, da Universidade Nacional de Timor Lorosa’e, e Carlos André, do IPM. Já na quinta-feira vai decorrer a “Mesa dos Escritores” que vai juntar Carlos Morais José, em representação de Macau, Ana Miranda do Brasil e João Paulo Borges Coelho de Moçambique. Por último, a conferência “As Humanidades como ‘inuntensílios’: aceleração – intervalo – interpretação”, conduzida pela ex-ministra da Cultura portuguesa, Isabel Pires de Lima, irá encerrar o congresso na sexta-feira.

Todas as actividades são abertas ao público em geral, incluindo as 44 sessões de trabalho que decorrem em simultâneo ao longo da semana. Serão debatidos temas como os diálogos transculturais entre Brasil, China e Macau, literatura feminina brasileira contemporânea, o acordo ortográfico, a personificação do poder na literatura angolana contemporânea, o papel da tradução na consolidação da identidade macaense, entre muitos outros. No último dia será ainda anunciada a localização e entidade organizadora do XIII congresso que irá acontecer em 2020.

CVN

[Transcrição integral de: Lusitanistas reunidos pela primeira vez a Oriente para afirmar o papel da língua portuguesa. Jornal “Ponto Final”, de Macau, 25.06.17. Imagem de topo de: Instituto Politécnico de Macau.]

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“Lobbies”? Cartéis? Qual quê! Nada disso existe em Portugal!

Presumo que não seja necessário enumerar as inacreditáveis aldrabices contidas nesta “notícia” (altamente suspeita, de resto, tão evidentes são os seus intuitos de intoxicação da opinião pública), mas ainda assim devo salientar — deste incrível chorrilho de patranhas — o mais flagrante insulto à inteligência das pessoas normais: as editoras, que todos os anos mudam os manuais escolares (geralmente trocando apenas de capa e movendo um ou outro parágrafo de uma página para outra), vêm agora chorar baba e ranho porque, coitadinhas, que até não ganham milhões nem nada com esta mina, teriam de «esperar que os títulos actualmente no mercado chegassem ao fim do seu período de vigência.»

Mas estes tipos julgarão mesmo que os portugueses não passam de perfeitos imbecis?

«O prazo para a estabilização dos livros também raramente é cumprido. Uma simples mudança de parágrafo ou de imagem numa capa nova e diferente tem dado origem a livros novos que a escola adopta e torna obrigatórios para todos os alunos.»
“Negócio dos manuais escolares torpedeia lei de reutilização” – RTP, 13 Janeiro 2017

Acordo Ortográfico – Ou o governo negoceia com editoras ou espera até 2023

 

Para além do problema diplomático que causaria uma iniciativa portuguesa para rever o acordo, a medida implicaria refazer um trabalho de adaptação à nova ortografia que já abrange 600 mil alunos.

 

As “Sugestões para o Aperfeiçoamento do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa” (AO), nesta semana levadas à Assembleia da República pela Academia de Ciências, dificilmente passarão do plano das ideias. E não apenas pelas falhas “procedimentais” invocadas nesta semana pelos deputados para chumbarem a proposta. Nesta fase, mesmo uma revisão parcial da nova ortografia implicaria mudanças difíceis de comportar. E com custos materiais. Desde logo na Educação.

Para além da necessidade de reeducar perto de 600 mil alunos, abrangidos desde 2011-12 pela obrigatoriedade do acordo e nada familiarizados com algumas consoantes mudas e acentuações que a Academia quer agora recuperar (ver caixa), a aplicação da proposta implicaria um processo de revisão de conteúdos pedagógicos, dos manuais escolares aos recursos online, que teria de ser negociado – ou pelo menos debatido – com os principais fornecedores desses serviços. Ou seja: as editoras.

A alternativa, no caso dos manuais, seria esperar que os títulos actualmente no mercado chegassem ao fim do seu período de vigência. Mas em muitos casos essa opção implicaria uma espera de seis anos, até 2023, para que os livros adoptados no presente ano lectivo chegassem ao final do seu ciclo natural de vida.

Nessa situação estão actualmente as obras de todas as disciplinas do 1.º ano, com excepção da Educação Moral, de todas as disciplinas do 2.º ciclo exceptuando a mesma Educação Moral, Educação Tecnológica e Educação Visual – Inglês também, mas o impacto não se reflectiria nesta obra – e ainda as disciplinas de Física e Química A, Matemática A, Matemática B, Matemática Aplicada às Ciências Sociais e Português dos cursos científico-humanísticos.

Talvez por isso, as editoras preferem manter-se à margem do debate relançado nesta semana pela Academia de Ciências. “O Acordo Ortográfico é actualmente uma questão que, por ser um tratado internacional, diz respeito à diplomacia portuguesa, com o apoio técnico dos linguistas. Qualquer avaliação do impacto de eventuais alterações ao nível do ensino é da responsabilidade do Ministério da Educação, entidade que regula o sector”, defendeu ao DN fonte oficial da Porto Editora.

Quando o actual acordo foi aplicado, recorde-se, o Ministério da Educação optou por uma introdução faseada, com os livros a serem adaptados à medida que eram introduzidos novos manuais e, também nas escolas, a optar-se pela progressividade na utilização dos novos termos. As editoras até foram fortes opositoras do acordo no passado, mas acabaram por utilizá-lo a partir do momento em que foi adoptado pelo governo e pela Assembleia da República.

Um precedente perigoso

Uma iniciativa nacional para rever o acordo poderia também abalar o equilíbrio precário em que assenta o AO. Actualmente, o entendimento vigora em Portugal, Brasil, Timor-Leste, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. A Guiné-Bissau ratificou-o, mas não o aplica na prática. Angola continua a adiar a ratificação.

Mexidas, nesta fase, poderiam pôr em causa todos os avanços dos últimos anos, o que, não desagradando aos opositores do acordo, em Portugal e nos outros países de língua portuguesa – dificilmente seria arriscado pelos partidos de governo – PS e PSD – comprometidos com a aplicação.

Na semana passada, a questão do Acordo Ortográfico foi motivo de controvérsia entre o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, e Manuel Alegre, membro da Academia das Ciências. O primeiro mostrou-se pouco disponível para mudanças no AO, acto considerado “prepotente” pelo segundo. “Como diria Salgado Zenha, unicidade e autoritarismo andaram sempre de mãos dadas”, acusou o histórico socialista, dirigindo-se ao MNE.

Fonte: Acordo Ortográfico – Ou o governo negoceia com editoras ou espera até 2023, “DN”, 12.02.17

[Destaques e “links” meus. Evidentemente, corrigi os erros de ortografia do original.]

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«Crónica de um desacordo anunciado» [Pedro Vieira, “Observador”]

Crónica de um desacordo anunciado

Pedro Vieira, Observador, 30 de Janeiro de 2017

O hífen, os acentos e as consoantes mudas poderão voltar a ser o que eram. Pedro Vieira aplaude os regressos ortográficos e lembra que há outros acordos mais importantes na língua portuguesa.

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Está a ver a utilidade daqueles conjuntos de fondue que a dada altura todos os agregados familiares portugueses foram obrigados a ter, por via matrimonial ou outra? Ou daquela app da bússola que vem sempre com os smartphones? Ou ainda a utilidade extrema do cargo de ministro da República nos Açores, entretanto substituído por um Representante? Pois. Em relação ao Acordo Ortográfico (AO) sinto o mesmo. Ultrapassam-me as questões académicas, políticas, económicas ou tão somente voluntariosas que levaram à sua concepção. Encolho os ombros ao nacionalismo e ao sentimento de posse da língua e não sei bem se sinto falta do “p” em Egito. O que sei é que quando escrevo “leitor, para para pensar um pouco neste assunto” quero dizer “pára”. Com acento.

A verdade é que nunca precisei de escrever respeitando o dito do Acordo que está mais ou menos em vigor. E quando o resultado final o exigia, contei sempre com a bondade de estranhos, como no eléctrico (com “c”) chamado desejo, e com a atenção e denodo dos revisores, essa profissão tão desprezada nos dias que correm. Por princípio nada me opõe à mudança, se houver uma lógica discernível por trás da mesma, mas esse não é o caso do AO. Aliás, a palavra Acordo está a ser usada de forma desadequada nesta questão, até porque estamos na presença, sim, da TO. A Trapalhada Ortográfica. Também conhecida como Trapalhada de Santa Engrácia (TSE).

De boas intenções está o Inferno cheio

A chamada TSE tem uma história longa, que vai pelo menos até 1990. Nessa altura Portugal abraçava toda uma nova modernidade proporcionada pela adesão recente à CEE. Numa vertigem de entusiasmo, estávamos dispostos a trocar tudo pelos euros da altura – marcos, francos, florins – inclusive a frota pesqueira ou as oliveiras que haveriam de fazer tanta falta.

Agarrámo-nos à normalização (o tamanho dos pepinos, o comprimento dos preservativos) e nesse afã procurámos, aparentemente, uma espécie de padrão comum à escrita em português, regulamentando o património mais importante da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. A seguir ao petróleo angolano e brasileiro. E ao cacau de São Tomé. E àquelas espetadas de cabrito muito pequeninas oriundas de Timor-Leste. Ou será Timor Leste, sem hífen? Adiante.

Referia-me à língua. Esse elo comum que mais tarde haveria de ligar-nos de forma fraterna ao português falado na Guiné Equatorial. Na altura o objectivo era unificar a ortografia entre todos, acabando com as diferenças entre o que se escrevia no Brasil e o que era posto no papel nos outros territórios, aumentando assim o “prestígio do português”, palavra dos promotores da TSE. A verdade é que o conteúdo desta Trapalhada nunca suscitou unanimidade entre académicos, escritores, filólogos, treinadores de bancada, cronistas, jornalistas, professores e políticos, empresários e publicistas.

Que a TSE é fundamental para a pujança económica da língua, um activo com mais de 200 milhões de utilizadores, dizem uns. Que a Trapalhada tem normas incompreensíveis como a supressão das consoantes mudas, agitam outros. Nos dias de hoje é impossível conhecer as reacções provocadas por acordos anteriores, mas pelo menos sabemos que não houve necessidade de fingir consensos ou de fazer petições online, que são quase sempre uma maçada vestida de inconsequência. Excepto no caso vertente.

Golpes de theatro

Até ao século XX, a escrita de português servia-se das suas bases latinas e gregas, sem qualquer Acordo ou TSE ao barulho. Acontece que em 1911, Portugal resolveu dotar a revolução republicana de uma revolução na escrita, aprovando um Formulário Ortográfico que o Brasil esnobou. Ou seja, ficámos a escrever de forma diferente, também na ortografia. É que a escrita dos dois lados do Atlântico teima em ser distinta, e bem, uma vez que a semântica é muito diferente, e essa não se normaliza por decreto.

Inconformados com as divergências, portugueses e brasileiros tentaram novo acordo em 1931, que viria a ser materializado em vocabulários ortográficos da língua portuguesa… diferentes. Portugal publicara o seu em vocabulário oficial em 1940 e o Brasil fizera o mesmo em 1943, registando-se diferenças que obrigaram a uma nova tentativa de acordo em 1945. Aqui no rectângulo adoptámos as novas regras acordadas no ano em que acabou a II Grande Guerra. Mas no Brasil foi tudo por água abaixo e mantiveram-se em vigor as normas adoptadas em 1943. O que significa que é mais fácil terminar um conflito intercontinental que pôs Churchill, Hitler e Estaline à chapada do que chegar a um consenso ortográfico.

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«Cabo Verde e uma justa lembrança» [Nuno Pacheco, “Público”]

Cabo Verde e uma justa lembrança

“Se há uma língua, que é a língua portuguesa, há várias normas e logicamente umas tantas variantes”, escreveu Manuel Ferreira

Nuno Pacheco – 29 de Dezembro de 2016, 6:45

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Alguém lembrou, e bem, que tendo o título da minha crónica de 15 de Dezembro aludido a uma das mais celebradas obras do escritor Manuel Ferreira (Hora Di Bai, de 1962), isso devia ter sido ali assinalado. Discordando do princípio (inúmeros títulos de artigos ou obras de arte citam abertamente outros, de conhecimento geral, num claro jogo de memórias, sem que tal citação seja explicitamente atribuída), o pretexto de falar nesse grande africanista e na sua obra é irrecusável. Mas antes convém recordar que não só a expressão crioula “hora di bai” (hora da despedida, hora da partida) é antiga e corrente em Cabo Verde, como o grande compositor Eugénio Tavares (1867-1930) fez dela título de uma célebre morna sua, Hora di bai, escrita muito antes, em finais do século XIX: “Hora di bai,/ Hora di dor,/ Já’n q’ré/ Pa el ca manchê!/ De cada bêz/ Que ‘n ta lembrâ,/ Ma’n q’ré/ Fica ‘n morrê!”

Porém, é Manuel Ferreira (1917-1992) que aqui se recorda. Nascido em Gândara dos Olivais, Leiria, foi ele que introduziu o ensino das literaturas africanas na universidade portuguesa, após o 25 de Abril de 1974. Permaneceu vários anos da sua vida em Cabo Verde (onde se casou com a escritora Orlanda Amarílis), Índia e Angola, visitando outros países africanos e tornando-se um dos maiores especialistas da cultura africana de expressão portuguesa. É nesse contexto que se desenvolve a sua obra, composta por contos, romances, ensaios e até livros infantis, e onde sobressaem títulos como Morna (1948), Morabeza (1958), Hora di Bai (1962) ou A Aventura Crioula (1967). Em Hora di Bai escreve: “Noite de Mindelo é sabe”; e no glossário final explica que “sabe” quer dizer “agradável, saboroso, aprazível”. É o crioulo cabo-verdiano enlaçado no português, na música da literatura.

No prefácio que escreveu para a 1.ª edição de A Aventura Crioula, o escritor, poeta e linguista Baltasar Lopes alinhava argumentos para defender “que o crioulo padrão para uso literário se há-de fixar, partindo da base fonética do falar de Sotavento” (no de Barlavento, notava ele, operara-se um desgaste fonético pela queda de vogais átonas pretónicas e postónicas, provocando um encontro áspero de consoantes). Manuel Ferreira, que nesse livro (devedor de uma outra aventura, decisiva para a cultura de Cabo Verde, a da histórica revista Claridade, a partir de 1936) antevia a existência futura de “um crioulo universal” a par com um hibridismo no recurso simultâneo ao crioulo e ao português, veio mais tarde, no opúsculo Que Futuro para a Língua Portuguesa em África? (1988), a notar que a entrada de línguas maternas africanas nas escolas viria a desenvolver literaturas nessas línguas, dando exemplos (na altura mais recentes) de antecipação literária em Cabinda e Moçambique, a par das literaturas em crioulo de Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. Isto não significaria, necessariamente, o relegar do português para um papel subalterno (registe-se que em Cabo Verde vai ser ensinado nas escolas como “Língua Segunda” — termo que, diplomaticamente, substituiu o “Língua Estrangeira” das primeiras notícias sobre tal facto), mas levaria ao reconhecimento e fixação de várias normas do português, consoante os países. Fazendo os africanos do português língua sua. “Tão sua”, escreveu Manuel Ferreira, “que a modificam, a alteram, a adaptam ao universo nacional e regional, no plano da oralidade e no plano da escrita. (…) E se há uma língua, que é a língua portuguesa, há várias normas e logicamente umas tantas variantes: a variante da Guiné-Bissau, a variante de Cabo Verde, de São Tomé e Príncipe, a variante de Angola, Moçambique, do Brasil, de Goa, da Galiza, de Timor-Leste, a variante de Portugal.

Para algumas criaturas, isto é um suicídio linguístico e, amedrontadas, impuseram a contestada “unificação” ortográfica que se conhece. Mas, na verdade, a esta visão de Manuel Ferreira deve chamar-se inteligência. Em lugar de olhar a língua como outros antes olhavam o império (uno e indivisível!), Manuel Ferreira anteviu nela, em África, uma saudável aculturação. Se tivéssemos há muito ido por aí, estaríamos todos mais felizes, no final deste triste ano de 2016.

[Nuno Pacheco, “Público”, 29.12.16. Adicionei “links”. Destaque meu. Imagem de topo de: claridade.org]

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Si bô ‘screvê’ me ‘m ta ‘screvê be

“SODADE”

Quem mostra’ bo
Ess caminho longe?
Quem mostra’ bo
Ess caminho longe?
Ess caminho
Pa Sao Tomé

Sodade sodade
Sodade
Dess nha terra Sao Nicolau

Si bo ‘screve’ me
‘M ta ‘screve be
Si bo ‘squece me
‘M ta ‘squece be
Até dia
Qui bo voltà

Sodade sodade
Sodade
Dess nha terra Sao Nicolau

O Português na hora di bai?

Em Cabo Verde, o Português vai ser ensinado como língua estrangeira. Vamos muito bem unificados, como se vê.

15 de Dezembro de 2016, 7:00

Nuno Pacheco

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Perdida no turbilhão do noticiário geral, passou despercebida uma notícia relevantíssima para o futuro do Português: a de que este vai passar a ser ensinado como língua estrangeira em Cabo Verde, já no próximo ano lectivo.

Antes que comecem já a atirar pedras aos cabo-verdianos, convém atender às razões de tal opção. Já em 2010, o conhecido escritor Germano Almeida defendia, em entrevista à Lusa, o ensino do português como língua estrangeira. Argumentos: “Não podemos pensar que o cabo-verdiano fala o português desde criança, porque não fala. Vemos alunos que terminam o décimo segundo ano e falam mal o português. Há professores que também não sabem falar português, portanto, só podemos concluir que o ensino está a falhar”. Mais: “Portugal, Brasil, Angola não precisam de contactar connosco, nós é que precisamos de contactar com eles, então o português para os cabo-verdianos é essencial. Os cabo-verdianos não são bilingues e por isso precisamos começar a ensinar o português como língua estrangeira”.

Seis anos depois, é a Ministra da Educação de Cabo Verde, Maritza Rosabal, que vem anunciar a iniciativa: “A língua portuguesa é abordada como língua primeira de Cabo Verde, quando não é. Temos uma eficácia do sistema muito baixa, onde apenas 44% das crianças que começam o primeiro ano finalizam o 12.º em tempo. Temos muitas perdas”. Mais: “O Brasil exige provas de língua portuguesa aos nossos estudantes, o Instituto Camões exige provas de língua portuguesa o que quer dizer que apesar de estarmos no espaço lusófono, começamos a não ser reconhecidos como um espaço com proficiência linguística em português”. Ou: “Toda esta duplicidade linguística afecta o processo. Reconhecemos que a nossa língua materna é o crioulo, mas como língua instrumental de trabalho e de comunicação temos de fortalecer a língua portuguesa”.

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Sim, senhor Ministro

Em Portugal fala-se um português com “típico fechamento de vogais”, o que “pode levar à incompreensão entre falantes de duas variantes da mesma língua”

[Augusto Santos Silva, Ministro dos Negócios Estrangeiros português]

Ora aí está uma lógica impecável, senhor Ministro: como em Portugal existe esse “típico fechamento de vogais”, então impinge-se aos portugueses um “acordo ortográfico” para forçar ainda mais esse mesmo fechamento de vogais.

Muito bem visto, senhor Ministro: já que temos de facto essa tendência para o “emudecimento”, vá de amputar todas as consoantes “mudas” com valor diacrítico para emudecer ainda mais, até ao absurdo, a fala “típica” na “variante portuguesa” da Língua.

Ah, já agora, senhor Ministro, por falar em “variantes da mesma língua”: afinal o “maravilhoso” AO90 não era para esgalhar uma suposta “ortografia única”? E esta, por seu turno, não tinha por objectivo “eliminar as diferenças” entre as duas variantes do Português conduzindo-nos assim, a todos os 240 milhões da “lusofonia”, ao supremo Nirvana parido por Malaca e Bechara que os próprios parturientes baptizaram como “Maravilhosa Língua Unificada”? Afinal de contas mantêm-se as duas variantes, senhor Ministro, certo?

Como diz, senhor Ministro? Ah, não é bem assim nem deixa de ser, muito pelo contrário.

Sim, senhor Ministro. 

Língua portuguesa enfrenta “problemas sérios”, avisa Santos Silva

 

“Jornal de Negócios”/Lusa 15 de Novembro de 2016 às 23:09

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, advertiu que o português, apesar de ser uma língua global e uma das mais faladas no mundo, enfrenta problemas sérios, como a incompreensão entre falantes de variantes diferentes.

“A língua portuguesa é uma das mais faladas do mundo e uma das mais globais no mundo de hoje”, afirmou esta terça-feira o ministro, durante a apresentação, no Palácio das Necessidades, do Novo Atlas da Língua Portuguesa, da autoria do reitor do ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, Luís Antero Reto, e dos professores, da mesma faculdade, Fernando Luís Machado e José Paulo Esperança. No entanto, a política da língua enfrenta hoje “desafios e dificuldades”, avisou Santos Silva.

O ministro exemplificou com o caso de Timor-Leste, onde, apesar de o português ser língua oficial, apenas as gerações mais velhas o falam, devido à ocupação indonésia, pelo que “é preciso difundir o ensino” da língua portuguesa naquele país.

Por outro lado, em Portugal fala-se um português com “típico fechamento de vogais”, o que “pode levar à incompreensão entre falantes de duas variantes da mesma língua”, algo que, segundo o governante, só se combate “pela comunicação tão constante quanto possível entre os falantes dessas variantes”.

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