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Traduttore traditore

Um Povo Resignado e Dois Partidos sem Ideias

Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.
Abílio de Guerra Junqueiro

Isto não sucedeu só na tradução mas foi a tradução que a vigarice de Estado mais violentamente afectou. O AO90, ou seja, a imposição canina da língua brasileira, não apenas implicou a falência, a ruína, a extinção da actividade de tradução em Portugal, de empresas e principalmente de tradutores por conta própria, como implicou a pura e simples extinção do próprio conceito de “Língua Portuguesa”: o chamado “Português europeu” foi administrativamente abolido e em seu lugar aparece agora por todo o lado o brasileiro, essa horripilante “língua universáu”. A própria bandeira portuguesa foi virtualmente arreada e içada em seu lugar a bandeira brasileira para significar “Portuguese” nas empresas de tradução internacionais.

Claro que a geral carneirada, os burros de carga de que falava Guerra Junqueiro em 1896, engoliu esta imperdoável afronta e lá seguiu, com um encolher de ombros e assobiando, num alegre optimismo que faria inveja a qualquer Miguel de Vasconcelos temporão e fantasmagórico.

De certa forma, com muito boa vontade e não menor caridade, a atitude da dita carneirada compreende-se; é do conhecimento comum que a hombridade e a coragem são, nos sinistros tempos que vão correndo, luxos caríssimos; a noção de honra, somente a noção. já sem ir mais longe, como o brio patriótico ou o orgulho nacional, não passam agora de vagas memórias que se misturam num passado longínquo com os nossos “egrégios avós”, que do hino se papagueia sem o mínimo significado.

Para esta nação de “heróis do mar” a terraplanagem neo-colonialista parece afinal ser indiferente, coisa de somenos. Para os tradutores em particular, de facto, sem ofensa (ou com ela, tanto se me dá), resta o labéu cujo significado, profundo e triste, só agora se revela e que pouco ou nada tem a ver com o do jogo de palavras antigo: tradução, traição.

[este jornal é português, não é brasileiro]

jornaldocentro.pt, 21.12.20

Qual é o custo de uma tradução online?

O cálculo do preço para traduções profissionais depende de vários fatores e varia de profissional para profissional e de agência para agência de tradução. Isto porque existem vários métodos diferentes para chegar ao valor final e também existem muitos fatores que influenciam a complexidade dos trabalhos.

Veja alguns exemplos do que pode influenciar o custo de uma tradução online:

Formato do documento: se o documento a ser reproduzido é muito complexo, o custo pode ser maior do que uma tradução mais simples. Por exemplo, se o documento a ser traduzido contém gráficos ou imagens que exigem tradução, o trabalho será maior e o custo da tradução também será maior; há também o DTP (Desktop Publishing), que influencia no custo da tradução online. Criar novos gráficos, tabelas ou imagens vai gerar trabalho extra.

O volume: um maior número de palavras ou de páginas tem um preço correspondente;

Prazo: traduções mais urgentes costumam ter um custo mais elevado;

Combinação linguística: quanto mais raro o idioma, maior será o preço da tradução.

Grau de conteúdo técnico: quanto mais técnicos forem os documentos, maior o preço;

Entre outros;

Quais são os cálculos de custo de tradução online mais comuns?

Pode aceder este site para saber mais sobre o Custo de Tradução https://www.protranslate.net/pt/custo-de-traducao/. De qualquer forma, os cálculos de custo de tradução online mais comuns são:

Custo de Tradução por Palavra

Nestes casos, o orçamento será de acordo com o número de palavras num documento. Este é um método de valorização bastante usado em empresas de confiança como a Protranslate, que possui uma plataforma online onde pode submeter o seu documento, selecionar um idioma e depois calcular o custo do serviço de tradução.

Custo por Página de Tradução Certificada

Como a modalidade de Tradução Certificada possui preços tabelados, os valores destes serviços costumam ser fixos. De qualquer forma, plataformas como a Protranslate também permitem que envie os seus documentos e tenha acesso a traduções profissionais de acordo com o serviço que necessita.

Tudo o que precisa fazer é aceder à plataforma, enviar o documento, selecionar o idioma de origem e o de destino que pretende na sua tradução. Depois, ser-lhe-á pedido que escolha a categoria da tradução, ou seja tradução certificada. A partir daí vai conseguir aceder a um valor médio do custo pelo serviço.

É importante salientar que, mais do que o custo, é preciso observar a qualidade da agência de tradução ou dos profissionais que farão o trabalho. Procure sempre empresas que também disponibilizem profissionais de revisão de texto, para garantir qualidade e legibilidade em cada documento, evitando erros de ortografia, gramática e estilo.

[A imagem de topo foi copiada do “site” LawLinguistics. O autor da pintura original (Torre de Babel) foi Pieter Bruegel the Elder (1563)]

“O único tabu”

Haverá sobre o Acordo Ortográfico uma clara posição parlamentar? Ou para lamentar?

Um acordo é um acordo: faz-se, se é útil; desfaz-se, se é inútil. O que sair sexta-feira do Parlamento deve, pois, ser claro. Só que isso implica coragem. Haverá?

Nuno Pacheco
“Público”, 18.07.19

 

No sábado, o Expresso noticiou, e outros jornais disso fizeram eco, que o relatório final do Grupo de Trabalho para a Avaliação do Impacto da Aplicação do Acordo Ortográfico (só o nome, pela sua extensão, espelha bem o pesadelo que rodeia a coisa) aponta para “novas negociações”. E alinhava, de forma sintética, o que estaria na base da tal recomendação. Ora a notícia baseou-se no documento que, elaborado (naturalmente) pelo coordenador e relator desse grupo, o deputado José Carlos Barros (PSD), circulava já pelos partidos e, portanto, começava a ser público. Problema? O do costume. Apesar de este grupo de trabalho já existir desde 20 de Janeiro de 2017, cessando funções nesta legislatura, parece muito difícil chegar a consenso sobre tão magno tema. O relatório, nas suas dezenas de páginas, enumera os muitos contactos e depoimentos prestados, a favor e contra o AO. Aí, mostra-se descritivo, como deveria ser. Porém, no final, ousa: tem conclusões e recomendações. E isso é sinal de que trabalhou bem; ouviu, analisou e sugeriu. Não é para isso que serve um grupo de trabalho?

Nem todos pensarão o mesmo. O PS, na reunião da Comissão de Cultura desta quarta-feira, exerceu o seu direito potestativo para adiar a discussão. Que vai realizar-se esta sexta-feira, de manhã cedo, talvez para que os deputados meditem bem durante o sono da véspera. Ao fim de quase dois anos de trabalhos e consultas, foi preciso ainda empurrar o assunto para um quase “abismo”. Porque dia 19 é o último dia de trabalho no Parlamento. Depois, férias e eleições.

O que concluía, então, o relatório, que tanta ponderação exige? Primeiro, que “a aplicação do Acordo Ortográfico, bem como a concretização dos objectivos que se propunha atingir, continuam longe de ser uma realidade do ponto de vista político e social.” Alguém duvida? Depois, que “o tom da discussão entre opositores e defensores do Acordo continua aceso, com posições, em regra, extremadas e argumentos, de um e outro lado, inconciliáveis.” Óbvio e incontestável. Depois, alinhando pacientemente os argumentos pró e contra o AO (retirados dos depoimentos, que cita), a vários níveis, jurídico e diplomático, educativo e, político, bem como “a comprovada existência de opções discutíveis, incongruências e ambiguidades do Acordo Ortográfico do ponto de vista técnico” (e isso até os defensores do AO admitem), recomenda, em traços gerais, o seguinte: 1) “Que o Governo dê início a uma negociação político-diplomática” na CPLP “com vista à discussão da situação actual ao nível da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990 e a ponderação das decisões mais adequadas neste domínio, incluindo a possibilidade e o interesse de se dar início a um processo de alteração ou aperfeiçoamento do actual Acordo ou à negociação de um novo Acordo Ortográfico.” 2) “A constituição de uma Comissão Científica Independente para a Ortografia” que acompanhe tal processo; 3) “A realização de estudos, envolvendo os serviços do Estado e as comunidades académica, científica, literária e profissionais, com vista à avaliação das implicações da aplicação do Acordo Ortográfico no sistema educativo, no mercado editorial e na imprensa, bem como ao nível da estabilidade ortográfica nos serviços públicos e nas publicações oficiais.” Seria bonito, pelo que se conhece, ler o resultado de tal estudo…

Mas o que está aqui em causa é uma coisa bastante simples: ou o Grupo de Trabalho cumpre a sua missão, honrando o Parlamento (goste-se ou não das conclusões e recomendações – mas isso, com eleições à vista, há-de ficar para outro governo), ou arrumarão todo o trabalho que teve, e não foi pouco, na gaveta das decisões para lamentar. Deixemo-nos de rodeios: de todos os temas submetidos ao Parlamento, o único a que se pede “xiu”, o único tratado como tabu, é o deste Acordo Ortográfico. Tem-se discutido abertamente (e bem!), esgrimindo argumentos opostos, o aborto, a eutanásia, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a adopção, mas quando se chega ao Acordo Ortográfico, logo surge uma barreira, um temor, um incómodo. E, no entanto, a palavra escrita é algo diário, quotidiano, corrente, a que nunca deixamos de estar ligados, seja em que área for. E quem diz a escrita, diz a forma como ela se vai desfigurando, a ponto de doutos senhores afirmarem publicamente que já não sabem bem como se escreve.

Foi para isto que um punhado de seres se bateu acerrimamente por um Acordo Ortográfico? Não, não foi. Mas é para isso que o temos. Para escrever a calar. Razões, que as leve o vento! O tema da Língua Portuguesa, da sua ortografia (e das necessárias variantes nos países onde ela é falada e escrita) e do seu futuro, apesar das declarações enfáticas de vários governantes, há-de ser tratado como um não-tema ou coisa não discutível, e seria até colocado a seguir à definição da composição da alpista para canários se tal tema fosse agendado no Parlamento.

Pois bem: contrariemos o tabu. É urgente discutir, questionar, pôr em causa o que alguns têm por intocável e imutável. Um acordo é um acordo: faz-se, se é útil; desfaz-se, se é inútil. O que sair sexta-feira do Parlamento deve, pois, ser claro. Só que isso implica coragem. Haverá?

[Transcrição integral de artigo da autoria de Nuno Pacheco publicado no jornal “Público” de 18.07.19. “Links” meus. Imagem (recorte) de topo de: “O Globo” (Brasil).]

Facebook em Português de Portugal

Mais um apelo a que ajudem na tradução do Facebook para Português.

Já sabemos que, por exemplo, a “Wikipêdjia lusôfuna” foi tomada de assalto por meia dúzia de brasileiros “adotivos” e que, portanto, enquanto esses sabujos não forem corridos aquilo é impenetrável, mas no Facebook não se passa nada disso. São neste momento 180 os inscritos no grupo de tradutores Português (Portugal) e, desses, pelo que vejo, poucos serão brasileiros genuínos ou portugueses vendidos a servir de “controleiros”. Portanto, estamos ali muito mais à vontade do que na Wikipêdjia ou nos diversos serviços da Google — até porque são conceitos distintos em plataformas com finalidades radicalmente diferentes.

Traduzir o “interface” do Facebook não é propriamente, como dizem os americanos, rocket science (“engenharia aeroespacial”, digamos). Qualquer pessoa, de vez em quando, no intervalo de qualquer coisa ou simplesmente quando não tiver nada que fazer — na sala-de-espera do consultório, na fila para pagar as compras, numa Repartição à espera de vez — pode ao menos ir votando numas quantas traduções em Português correcto.

Quantos mais formos a ajudar nisto, menos provável será que algum dos acordistas de serviço se atreva a sequer votar contra e, muito menos, a alterar as nossas traduções já aprovadas.

E nem mesmo é preciso ser-se tradutor/a profissional, nem estar inscrito na APT. A coisa é bem mais fácil do que, se calhar, parece. Colaborar nesta “empreitada”, posso afiançar, acaba por se tornar quase viciante. Rapidamente o hábito de abrir a página e desatar a votar nas palavras, frases e expressões-chave em Português correcto torna-se rotineiro.

Contando com uma larga maioria de participantes anti-acordistas (de pouco ou nada adianta só falar), é claro, mais facilmente — e mais depressa — veremos “as nossas palavras” (em duplo sentido literal) servindo a milhões de pessoas biliões de vezes.

Esta é uma das páginas do “ambiente de trabalho”, onde podemos ver todo o nosso historial. O quadro mais importante é o da lista das tradução rejeitadas/desaprovadas pela “comunidade”; por aí podemos obter orientações de “consistência” e ver se os acordistas andam a votar contra ou a anular as nossas traduções em PT-PT.

Nesta imagem vemos “Actualizar” (voto) e “esoaço” (em vez de “espaço”; foi erro propositado para testar os “censores” .

Nesta imagem está “interactivos” (tradução) e “eliminar” (votação). Nada de brasileiradas (“interativos”, “deletar”).

Os títulos obtidos (“achievements”) pouco ou nada interessam – são um engodo do Fakebook para captar tradutores e obter traduções inteiramente grátis – mas os números contam (e interessam) muito.

 

“1 T” é “one Trillion” em Inglês, o que corresponde a um bilião, em Português, ou seja, um milhão de milhões.

Natal 2018 — Clássicos da “Guerra & Paz”

 

 

 

colecção de clássicos da Guerra e Paz nasceu em Setembro de 2015, fez agora três anos. Publicámos já 38 títulos, de Os Maias, de Eça, ao Frei Luís de Sousa, de Garrett, passando pela Madame Bovary, de Flaubert, o Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, o Lord Jim, de Conrad, ou os Lusíadas, de Camões.

Há três razões pelas quais nos orgulhamos desta colecção. Todos os textos de autores portugueses foram revistos e fixados pelos colaboradores da Guerra e Paz, que têm trabalhado connosco, o Helder Guégués, a Ana Salgado, a Inês Figueiras e o André Morgado. Todos os clássicos estrangeiros, sem excepção, foram objecto de novas traduções, assinadas por Rui Santana Brito, Maria João Madeira, João Moita ou Miguel Nogueira, entre outros. Todos os clássicos incluem notas de apresentação e anexos finais, com listas de personagens e com textos de análise, por vezes de outros grandes autores, como seja o texto de Baudelaire sobre a Madame Bovary ou o de D. H. Lawrence sobre Moby Dick, ou o de Virginia Woolf sobre Conrad e Lord Jim.

E o que nos deixa ainda mais felizes é a resposta que os livreiros têm dado à concepção visual que o nosso designer gráfico, Ilídio Vasco, imprimiu à colecção. Os livreiros gostam – fazem uma mancha linda – e expõem. É outra sintonia que queremos aqui celebrar e que é tão necessária ao mundo do livro, a sintonia entre o editor e o livreiro. Quem mais dela beneficia é, claro, o leitor.

Para comemorar este terceiro aniversário, até final de Novembro, os nossos clássicos, que já estejam fora da lei do preço fixo, estão aqui, no nosso site, à disposição dos leitores com um valente e mais do que clássico desconto de 30%. Boas compras.


[imagem de topo de: PlusPNG]

A treta que nos separa


Volta a atacar, salvo seja, um tal Sérgio Rodrigues, autor do panfleto com o significativo título “Viva a Língua Brasileira”.  Reemerge agora esse escriba, portanto, do charco infecto em que chafurdam os flautistas acordistas, para de novo perorar sobre aquilo que, em sua não muito douta opinião, é o “antibrasileirismo linguístico, marca bandeirosa da cultura lusitana“.

Ou seja, traduzindo para Português tão duvidoso paleio, acha o dito que nós, os tugas, somos “contra eles”, os zucas, e que essa espécie de “contrismo” é uma marca identitária da “cultura lusitana”.

Não há paciência.

Pois está claro, antes do AO90 não existia qualquer “antipatia” pelos diversos crioulos brasileiros, mas isso não tem rigorosamente nada a ver com a Literatura brasileira. E essa “antipatia” nunca foi mútua, aliás: nós por cá não traduzimos para a língua indígena os livros nem legendamos os filmes provenientes do “país-continente”.

Escora-se o escriba neste seu textículo, o que de todo não surpreende, em supostos aliados que, do lado oriental do Atlântico, circunstancial ou ocasionalmente paridos algures no meridiano de Greenwich, parece apoiarem tão bizarra (quanto estúpida) teoria da conspiração “contra” a “cultura brasileira” em geral e a respectiva Literatura em particular. No caso, para “ilustrar” a tese, cita umas quantas indignadíssimas bojardas publicadas no Fakebook por um tal Venâncio, gajo se calhar porreiríssimo, suponho, mas que tem no entanto essa estranha — e tuga — mania de armar aos cucos denegrindo os seus compatriotas para dar graxa aos brasileiros.

Coisa que me irrita solenemente, confesso. Para isso, bajulação travestida de erudição, ainda tenho menos pachorra do que para levar com as tretas neo-colonialistas dos acordistas de serviço.

 

A língua que nos separa

Forte em Portugal, desprezo ao português brasileiro também viceja aqui

Sérgio Rodrigues

Jornal “Folha de S. Paulo” (Brasil), 19.07.18

 

Dia desses, no Facebook, o linguista português Fernando Venâncio desabafou: “Poucas coisas me irritam tanto como o antibrasileirismo primário e militante que encontro por estas paragens”. Referia-se ao antibrasileirismo linguístico, marca bandeirosa da cultura lusitana.

Qualquer escritor brasileiro que tenha lançado livros em Portugal nas últimas décadas (sou um desses) sabe o que Venâncio quer dizer. As portas que Jorge Amado escancarou de par em par no século passado se fecharam em algum momento sobre corredores cada vez mais estreitos e labirínticos.

Sim, é claro que muitos editores, críticos, jornalistas e outros portugueses esclarecidos insistem em furar com brio essas defesas. Infiltrando-se nas brechas, porém, os brasileiros que se expressam por escrito logo se veem escalados pelos leitores comuns d’além-mar como representantes de uma versão menor, tosca e corrompida da língua “deles”. Se soubessem cantar, dançar, contar piadas, temperando o verbo com aquele jeito de corpo que é sua maior —ou quem sabe a única— vocação, talvez pudessem ser levados a sério. Mas isso de escrever, francamente…

Nas palavras de Venâncio, há em Portugal uma “desavergonhada altanaria perante os pretensos ‘erros’ de que o português brasileiro estaria inçado”. O linguista vê esse sentimento integrado ao senso comum, cultivado por “gente visivelmente de poucas letras, e poucas luzes”. Refere-se a ele como “assustador”.

Eu prefiro o adjetivo “triste”. Assustador é constatar que um antibrasileirismo tão pimpão e ignorante quanto o luso viceja aqui também. Como reclamar do insulto de nos negarem em terra estrangeira o direito de gozar livremente de algo tão pessoal e profundo quanto a língua materna, sem ouvir sermões abestalhados sobre algum ideal platônico de gramática? Negamos a mesma coisa por conta própria, o que é bem pior.

Parte dessa dissonância é comum às línguas imperiais. A relação de amor e ódio entre o inglês britânico e o americano é tema do recém-lançado “The Prodigal Tongue” (A língua pródiga), de Lynne Murphy, linguista americana que mora e leciona na Inglaterra. Ela identifica em seus compatriotas um “complexo de inferioridade verbal” e, nos britânicos, o que chama de “amerilexofobia”, aversão esnobe a americanismos.

Nada tão diferente assim do que se vê no universo da língua portuguesa ou da espanhola. Ex-colônias crescidinhas e ex-impérios em queda vão sempre se emaranhar em teias complicadas de amor e ódio, admiração e desprezo. Contudo, vale atentar para a diferença que Venâncio, repetindo no post-desabafo o que já defendeu em livros, aponta entre os projetos linguístico-coloniais de Lisboa e de Madri.

“No Brasil, Portugal abandonou a língua portuguesa à sua sorte. E ainda bem! Pense-se na uniformidade lexical, gramatical e ortográfica que a Espanha impõe como ideal à América de fala espanhola”, escreve o linguista, concluindo que “o Português Brasileiro pôde desenvolver em invejável liberdade a sua norma, e vive bem nela”.

O texto termina exigindo, ainda que de forma jocosa, gratidão: “E venha daí um ‘obrigadinho’ a este Portugal que, oh felicidade, nunca teve um projecto linguístico, nem cultural, para o seu Império”.

Muito bem, mas não estou tão certo de que o deus-dará cultural seja algo que devemos agradecer. Seria necessário investigar primeiro até que ponto se funda nele a ridícula autoestima linguística que leva o brasileiro médio a situar nosso português três degraus abaixo do português europeu, e este, pelo menos sete palmos abaixo do inglês.

Sérgio Rodrigues

Escritor e jornalista, autor de “O Drible” e “Viva a Língua Brasileira”.

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Sérgio Rodrigues, publicado no jornal brasileiro “Folha de S. Paulo” em 19.07.18.]

É evidente, mente

Os quatro conteúdos em baixo reflectem outros tantos factos:

1. Já em 2008 Malaca Casteleiro  babujava uma das suas mentiras favoritas: «A língua portuguesa é a única com duas variantes que têm que ser traduzidas nas Nações Unidas

2. As Línguas oficiais (ou “de trabalho”) na ONU são seis: Árabe, Chinês, Inglês, Francês, Russo e Espanhol. Alguns documentos oficiais são também traduzidos para Alemão.

3. Das seis Línguas de trabalho utilizadas na ONU, as três originárias da Europa dividem-se em variantes: 18 de Inglês, 15 de Francês, 20 de Espanhol.

4. Em 2018 continuam em distribuição os dicionários das variantes de todas as línguas, incluindo os das respectivas reformas ortográficas. Em 2018 continuam em distribuição os dicionários de “Português do Brasil” e de “Português de Portugal”. 

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Juntando estas quatro peças processuais, digamos assim, e simplesmente constatando o  nexo de coerência entre elas, ou a sua coesão factual, ficamos com uma ideia clara da dimensão da patranha que babuja Malaca há 10 anos.

Evidentemente, uma coisa é “língua de trabalho da ONU” — são aquelas seis apenas, não consta que o “brasileiro” esteja sequer em cogitação — e outra coisa completamente diferente é a “tradução” dos documentos oficiais, discursos e conferências (tradução simultânea) para as diversas línguas dos 193 Estados-membros da ONU.

Evidentemente, cada país possui os seus próprios serviços de tradução especializados nas Nações Unidas: os do Reino Unido não utilizarão com certeza, para poupar uns trocos, as versões em Inglês produzidas pelos tradutores americanos (e vice-versa), o mesmo sucedendo com a França em relação à Bélgica francófona, ao Canadá francófono (Québec), ao Mali, ao Congo, ao Senegal ou até à Suiça francófona. Outro tanto sucede com a Língua espanhola: o Reino de Espanha não se serve das traduções feitas pelos serviços oficiais mexicanos, bolivianos, peruanos, venezuelanos ou chilenos, por exemplo.

Evidentemente, existem serviços de tradução portugueses especializados nas Nações Unidas (ou em assuntos e documentos da Organização), assim como o Brasil e Angola ou Moçambique produzem as suas próprias traduções oficiais.

Evidentemente, aquilo que se passa na ONU, no âmbito da tradução, passa-se de igual forma em todas as organizações intergovernamentais (UE-Parlamento Europeu, EFTA, NATO, FMI, InterPol, etc.): as traduções de documentos oficiais são em si mesmas documentos oficiais, próprios de cada Estado-membro.    

Portanto, a conclusão evidente a retirar destas simples evidências é que Malaca mente, evidentemente, obedecendo como sempre à mesma premissa essencial: a finalidade da patranha não tem absolutamente nada a ver com as “duas variantes que têm que ser traduzidas nas Nações Unidas”, tem absolutamente tudo a ver com a eliminação sumária da “variante portuguesa” e a sua substituição integral pela sua (dele) querida “língua universal” — a brasileira.

Evidentemente.   


1. A mentira de Malaca (2008)

“Acordo Ortográfico é uma medida pragmática”, diz Malaca Casteleiro

“Público”, 16 de Maio de 2008

O “pai” do Acordo Ortográfico defende que a unificação do português é uma medida de pragmatismo que visa acima de tudo promover a língua portuguesa no mundo. Para Malaca Casteleiro, “no plano da lusofonia interna é lamentável que não exista um acordo”, contribuindo para situações que não passam uma boa imagem. “A língua portuguesa é a única com duas variantes que têm que ser traduzidas nas Nações Unidas“, refere.

Mas será o acordo determinante para o futuro da língua de Camões? No caso do inglês, do francês e do espanhol, por exemplo, existe algum tipo de acordo semelhante que unifique a ortografia nos países que assumem estas como as suas línguas oficiais?

No caso da língua inglesa, refere o British Council, não existe qualquer tipo de acordo ortográfico em termos gerais; apenas foi criado um International Legal Agreement, destinado a uniformizar a terminologia jurídica utilizada nos países que têm o inglês como língua oficial.

O caso francófono é diferente. A mais recente posição oficial sobre o assunto, de 2005, foi tomada pela Delegação Geral para a Língua Francesa e para as Línguas de França – uma estrutura de reflexão na alçada do Ministério da Cultura francês – e confirma o que havia já sido aprovado, em 1990, pela Academia Francesa, acolhendo uma série de rectificações que haviam sido recomendadas pelo Conselho Superior da Língua Francesa.

“Pequenas rectificações com vista a suprimir as anomalias, as excepções e as irregularidades”, lê-se na informação fornecida por Françoise Sabatelli, adida de cooperação educativa da Embaixada de França em Portugal. “Tais rectificações não atingiram, em média, mais do que uma palavra por página num livro normal”, mas, apesar de as rectificações serem ensinadas em muitos países francófonos, em França são ignoradas pelos professores, talvez pelo facto de serem simples recomendações e não imposições.

O espanhol, segundo fonte do Instituto Cervantes, também não é regido por nenhum tipo de acordo, dado que a nível ortográfico os vários países sempre coincidiram.

No entender de Casteleiro, o Acordo Ortográfico irá facilitar a comunicação entre os países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Em relação ao facto de não existir um acordo do mesmo tipo nas outras línguas, o linguista refere que, no caso inglês, “as diferenças entre as variantes são demasiado marginais para dar azo a um acordo”; já nos casos francês e espanhol, as academias de ambos os países conseguiram manter uma ortografia idêntica nos vários países, pelo que a questão nunca se pôs – salvo as correcções já referidas.

Para Ivo Castro, professor de Linguística na Faculdade de Letras de Lisboa, “a questão tem cem anos”. “O caso português é diferente dos outros. Não é comparável ao espanhol e ao francês, em que existiu um acordo entre academias e não entre governos. As coisas seriam mais naturais caso fossem conduzidas por academias e não por medidas governativas“, diz. Bruno Nunes.”


2. As Línguas oficiais da ONU

The Translation Services translate all official United Nations documents, meeting records and correspondence at Headquarters from and into Arabic, Chinese, English, French, Russian, and Spanish.  Some official documents are also translated into German. (mais…)