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«O AO90, Jorge Amado ou afinal Santana tinha razão» [João Esperança Barroca, “Público”, 26.03.21]

O busílis da questão, algo que na propaganda acordista passa por anátema amaldiçoado, é a fronteira que a língua brasileira, queiram ou não queiram, já atravessou: à semelhança do que sucedeu em relação ao Latim, com o Português, o Espanhol ou o Francês, por exemplo, a progressiva autonomização acabou por conduzir à inerente e inevitável independência; o fenómeno, salvas as devidas distâncias mas também consideradas as respectivas similitudes, é válido para as línguas assim como para os países. O Brasil adoptou o Português como língua-franca de 1500 em diante e, a partir do momento em que declarou a independência política, em 1822, o país acelerou também o processo de autonomização cultural terminando, a partir de finais do século XIX, por desenvolver de igual modo a sua independência linguística.

Ao invés do que sucedeu com a independência política, que foi súbita e rápida (e simbolicamente liderada por um filho do rei português, nem de propósito), a independência linguística resultou de um processo relativamente lento mas inexorável: paulatinamente, a língua brasileira afastou-se cada vez mais da sua matriz portuguesa e acabou por se transformar tão radicalmente que — por exemplo — qualquer português que diga alguma coisa num canal de TV brasileiro tem de ser legendado.

Tornou-se já virtualmente impossível fingir que um texto brasileiro está redigido em Português; será algo parecido, quando muito, mas ainda mais parecido com o Português é o Galego e afinal pouco diferem da nossa Língua o Espanhol ou o Italiano. Simples diferenças nominais ou ligeiras variações lexicais já não passam de mera bizarria, vulgar e extremamente frequente, no meio de uma floresta com todo um outro sistema comunicacional: além de outra semântica, outra sintaxe, outra semântica, outra prosódia, ou seja, por extenso, toda uma outra Gramática.

Os títulos de filmes ingleses e americanos no Brasil, além de apenas mais um pequeno pormenor, um galho de uma das árvores da floresta linguística (ou do bosque gramatical), são para qualquer português motivo de chacota, quando não de pura risota.

Não seria mau, portanto, que uma obtusidade anedótica como o AO90 servisse em exclusivo os fins para os quais foi inventado: promover os interesses económicos e geopolíticos do Brasil utilizando a língua brasileira como truque de legitimação expansionista, baptizando fraudulentamente essa língua alienígena como “português universal”; “português” de nome, é claro, e “universal”, sim, mas de um “universo” que não vai além das paredes do Palácio do Planalto e dos lisboetas Passos Perdidos.

A língua brasileira separou-se da Língua Portuguesa, então adeus, boa sorte, como sucede em qualquer separação apenas resta a uma das partes desejar à outra que tenha sucesso no seu caminho.

Seria bom, seria excelente, seria magnífico que não roubassem os gatunos de cá e de lá, neo-imperialistas e vigaristas, aquilo que foi por nós originalmente manufacturado e que usamos há séculos, essa nossa antiquíssima, riquíssima, sólida e honesta ferramenta, o cinzel com que escrevemos a História do futuro.

O AO90, Jorge Amado ou afinal Santana tinha razão

A quimera da unificação ortográfica foi, desde sempre, uma das bandeiras desfraldadas pelos apoiantes do AO90. Mas basta ler Jorge Amado para corroborar a tese de que a maravilhosa língua unificada é tão real quanto os unicórnios voadores.

João Esperança Barroca
26 de Março de 2021, 17:00

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“O AO90 é algo como espetar no chão duas estacas, uma do lado de cá e a outra do lado de lá do Atlântico, esticar entre elas uma corda e assim tentar bloquear a natural deriva dos continentes, algo que ocorre desde os primordiais tempos da Pangeia. Os continentes afastam-se uns dos outros como as Línguas se distanciam entre si. Tentar perverter (ou deter) o curso natural das coisas não é só tremenda estupidez — é impossível. E ainda bem.”
Do blogue Apartado 53, 30-01-2021

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“Acordo Ortográfico, não! Começámos a tirar consoantes às palavras, quando, no Brasil, elas continuam a existir. É ridículo, não é nenhum acordo, é uma grande aldrabice! Sou absolutamente contra. Tenho muita esperança de que se consiga corrigir a grande borrada que foi essa invenção.”
Lena d’Água, cantora, vencedora do Prémio José Afonso 2020

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“Júlio Silveira, um dos fundadores da editora Casa da Palavra, que dirigiu a Nova Fronteira e é curador do LER Salão Carioca do Livro, conta que sempre perguntam se os livros que ele vende são escritos em português ou em ‘brasileiro’. Ele responde que são escritos na língua portuguesa do Acordo Ortográfico.”

“Não se sabe onde Silveira ou O Globo foram desencantar tal língua, porque ela simplesmente não existe. É uma ficção absurda, inventada por lunáticos.[…] Língua portuguesa do Acordo Ortográfico? Nem como anedota. As culturas portuguesa e brasileira talharam o idioma à sua medida. É por isso que o romance Wuthering Heights1, de Emily Brontë (1818-1848) se chama por cá Monte dosVendavais e no Brasil, O Morro dos Ventos Uivantes (que é, aliás, a tradução dada pelo tradutor automático da Google). Ou que o filme de Robert Wise The Sound OfMusic (1965) ganhou por título em Portugal Música no Coração e no Brasil foi titulado como A Noviça Rebelde. Isso pode ser comprovado em milhares de livros e filmes, onde cada tradução segue o caminho que lhe ditam os costumes e coloquialismos locais.”
Nuno Pacheco, no jornal Público, em 11-02-2021

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A quimera da unificação ortográfica, a maravilhosa língua unificada foi, desde sempre, uma das bandeiras desfraldadas pelos apoiantes do AO90. Essa unificação, imprescindível à expansão e difusão do português, abriria, diziam eles, as portas da ONU, por onde a língua entraria, triunfante, como língua de trabalho, a par do inglês, do francês, do russo, do chinês, do espanhol (castelhano, mais propriamente) e do árabe.

Nuno Pacheco já afirmou um sem-número de vezes que essa língua não existe e como tal, é impossível escrever nela. Por razões que não vêm agora ao caso, o autor deste escrito teve necessidade de reler, há pouco tempo, a obra O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá do escritor brasileiro Jorge Amado. A versão consultada foi a 11.ª edição, de Outubro de 2005 (em tudo igual aos excertos existentes nos manuais escolares), das Publicações D. Quixote, e essa leitura obriga-nos a corroborar a tese de que a maravilhosa língua unificada é tão real quanto os unicórnios voadores.

Vejamos, então, vários factos (e também alguns fatos de que falava Santana):

– praticamente no início da obra, na página 16, encontramos a interrogação “Por que o bobo faz questão de dizer que estava passando ali por acaso quando todos sabem não existir tal casualidade e sim propósito deliberado?” Na variante europeia do português grafaríamos porque e tolo ou parvo (em vez de “bobo”). A mesma situação com o advérbio interrogativo surge ainda na página seguinte no excerto “Mas por que não falar também de inegáveis qualidades?”;

– no excerto da página 18 “… suicidou-se, enforcando-se nos ponteiros, por não mais suportar a lentidão da Manhã…” o advérbio (de quantidade, intensidade ou grau) no português europeu surgiria depois do verbo “suportar”;

– na página 19, lemos “… pouco afeita a regras e códigos, ela o fazia esquecer por alguns momentos a suprema chateação da eternidade e a bronquite crônica.” Este excerto em Portugal seria escrito, talvez, assim: … pouco habituada a regras e códigos, ela fazia-o esquecer por alguns momentos o supremo aborrecimento da eternidade e a bronquite crónica;
(mais…)

Traduttore traditore

Um Povo Resignado e Dois Partidos sem Ideias

Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.
Abílio de Guerra Junqueiro

Isto não sucedeu só na tradução mas foi a tradução que a vigarice de Estado mais violentamente afectou. O AO90, ou seja, a imposição canina da língua brasileira, não apenas implicou a falência, a ruína, a extinção da actividade de tradução em Portugal, de empresas e principalmente de tradutores por conta própria, como implicou a pura e simples extinção do próprio conceito de “Língua Portuguesa”: o chamado “Português europeu” foi administrativamente abolido e em seu lugar aparece agora por todo o lado o brasileiro, essa horripilante “língua universáu”. A própria bandeira portuguesa foi virtualmente arreada e içada em seu lugar a bandeira brasileira para significar “Portuguese” nas empresas de tradução internacionais.

Claro que a geral carneirada, os burros de carga de que falava Guerra Junqueiro em 1896, engoliu esta imperdoável afronta e lá seguiu, com um encolher de ombros e assobiando, num alegre optimismo que faria inveja a qualquer Miguel de Vasconcelos temporão e fantasmagórico.

De certa forma, com muito boa vontade e não menor caridade, a atitude da dita carneirada compreende-se; é do conhecimento comum que a hombridade e a coragem são, nos sinistros tempos que vão correndo, luxos caríssimos; a noção de honra, somente a noção. já sem ir mais longe, como o brio patriótico ou o orgulho nacional, não passam agora de vagas memórias que se misturam num passado longínquo com os nossos “egrégios avós”, que do hino se papagueia sem o mínimo significado.

Para esta nação de “heróis do mar” a terraplanagem neo-colonialista parece afinal ser indiferente, coisa de somenos. Para os tradutores em particular, de facto, sem ofensa (ou com ela, tanto se me dá), resta o labéu cujo significado, profundo e triste, só agora se revela e que pouco ou nada tem a ver com o do jogo de palavras antigo: tradução, traição.

[este jornal é português, não é brasileiro]

jornaldocentro.pt, 21.12.20

Qual é o custo de uma tradução online?

O cálculo do preço para traduções profissionais depende de vários fatores e varia de profissional para profissional e de agência para agência de tradução. Isto porque existem vários métodos diferentes para chegar ao valor final e também existem muitos fatores que influenciam a complexidade dos trabalhos.

Veja alguns exemplos do que pode influenciar o custo de uma tradução online:

Formato do documento: se o documento a ser reproduzido é muito complexo, o custo pode ser maior do que uma tradução mais simples. Por exemplo, se o documento a ser traduzido contém gráficos ou imagens que exigem tradução, o trabalho será maior e o custo da tradução também será maior; há também o DTP (Desktop Publishing), que influencia no custo da tradução online. Criar novos gráficos, tabelas ou imagens vai gerar trabalho extra.

O volume: um maior número de palavras ou de páginas tem um preço correspondente;

Prazo: traduções mais urgentes costumam ter um custo mais elevado;

Combinação linguística: quanto mais raro o idioma, maior será o preço da tradução.

Grau de conteúdo técnico: quanto mais técnicos forem os documentos, maior o preço;

Entre outros;

Quais são os cálculos de custo de tradução online mais comuns?

Pode aceder este site para saber mais sobre o Custo de Tradução https://www.protranslate.net/pt/custo-de-traducao/. De qualquer forma, os cálculos de custo de tradução online mais comuns são:

Custo de Tradução por Palavra

Nestes casos, o orçamento será de acordo com o número de palavras num documento. Este é um método de valorização bastante usado em empresas de confiança como a Protranslate, que possui uma plataforma online onde pode submeter o seu documento, selecionar um idioma e depois calcular o custo do serviço de tradução.

Custo por Página de Tradução Certificada

Como a modalidade de Tradução Certificada possui preços tabelados, os valores destes serviços costumam ser fixos. De qualquer forma, plataformas como a Protranslate também permitem que envie os seus documentos e tenha acesso a traduções profissionais de acordo com o serviço que necessita.

Tudo o que precisa fazer é aceder à plataforma, enviar o documento, selecionar o idioma de origem e o de destino que pretende na sua tradução. Depois, ser-lhe-á pedido que escolha a categoria da tradução, ou seja tradução certificada. A partir daí vai conseguir aceder a um valor médio do custo pelo serviço.

É importante salientar que, mais do que o custo, é preciso observar a qualidade da agência de tradução ou dos profissionais que farão o trabalho. Procure sempre empresas que também disponibilizem profissionais de revisão de texto, para garantir qualidade e legibilidade em cada documento, evitando erros de ortografia, gramática e estilo.

[A imagem de topo foi copiada do “site” LawLinguistics. O autor da pintura original (Torre de Babel) foi Pieter Bruegel the Elder (1563)]

“O único tabu”

Haverá sobre o Acordo Ortográfico uma clara posição parlamentar? Ou para lamentar?

Um acordo é um acordo: faz-se, se é útil; desfaz-se, se é inútil. O que sair sexta-feira do Parlamento deve, pois, ser claro. Só que isso implica coragem. Haverá?

Nuno Pacheco
“Público”, 18.07.19

 

No sábado, o Expresso noticiou, e outros jornais disso fizeram eco, que o relatório final do Grupo de Trabalho para a Avaliação do Impacto da Aplicação do Acordo Ortográfico (só o nome, pela sua extensão, espelha bem o pesadelo que rodeia a coisa) aponta para “novas negociações”. E alinhava, de forma sintética, o que estaria na base da tal recomendação. Ora a notícia baseou-se no documento que, elaborado (naturalmente) pelo coordenador e relator desse grupo, o deputado José Carlos Barros (PSD), circulava já pelos partidos e, portanto, começava a ser público. Problema? O do costume. Apesar de este grupo de trabalho já existir desde 20 de Janeiro de 2017, cessando funções nesta legislatura, parece muito difícil chegar a consenso sobre tão magno tema. O relatório, nas suas dezenas de páginas, enumera os muitos contactos e depoimentos prestados, a favor e contra o AO. Aí, mostra-se descritivo, como deveria ser. Porém, no final, ousa: tem conclusões e recomendações. E isso é sinal de que trabalhou bem; ouviu, analisou e sugeriu. Não é para isso que serve um grupo de trabalho?

Nem todos pensarão o mesmo. O PS, na reunião da Comissão de Cultura desta quarta-feira, exerceu o seu direito potestativo para adiar a discussão. Que vai realizar-se esta sexta-feira, de manhã cedo, talvez para que os deputados meditem bem durante o sono da véspera. Ao fim de quase dois anos de trabalhos e consultas, foi preciso ainda empurrar o assunto para um quase “abismo”. Porque dia 19 é o último dia de trabalho no Parlamento. Depois, férias e eleições.

O que concluía, então, o relatório, que tanta ponderação exige? Primeiro, que “a aplicação do Acordo Ortográfico, bem como a concretização dos objectivos que se propunha atingir, continuam longe de ser uma realidade do ponto de vista político e social.” Alguém duvida? Depois, que “o tom da discussão entre opositores e defensores do Acordo continua aceso, com posições, em regra, extremadas e argumentos, de um e outro lado, inconciliáveis.” Óbvio e incontestável. Depois, alinhando pacientemente os argumentos pró e contra o AO (retirados dos depoimentos, que cita), a vários níveis, jurídico e diplomático, educativo e, político, bem como “a comprovada existência de opções discutíveis, incongruências e ambiguidades do Acordo Ortográfico do ponto de vista técnico” (e isso até os defensores do AO admitem), recomenda, em traços gerais, o seguinte: 1) “Que o Governo dê início a uma negociação político-diplomática” na CPLP “com vista à discussão da situação actual ao nível da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990 e a ponderação das decisões mais adequadas neste domínio, incluindo a possibilidade e o interesse de se dar início a um processo de alteração ou aperfeiçoamento do actual Acordo ou à negociação de um novo Acordo Ortográfico.” 2) “A constituição de uma Comissão Científica Independente para a Ortografia” que acompanhe tal processo; 3) “A realização de estudos, envolvendo os serviços do Estado e as comunidades académica, científica, literária e profissionais, com vista à avaliação das implicações da aplicação do Acordo Ortográfico no sistema educativo, no mercado editorial e na imprensa, bem como ao nível da estabilidade ortográfica nos serviços públicos e nas publicações oficiais.” Seria bonito, pelo que se conhece, ler o resultado de tal estudo…

Mas o que está aqui em causa é uma coisa bastante simples: ou o Grupo de Trabalho cumpre a sua missão, honrando o Parlamento (goste-se ou não das conclusões e recomendações – mas isso, com eleições à vista, há-de ficar para outro governo), ou arrumarão todo o trabalho que teve, e não foi pouco, na gaveta das decisões para lamentar. Deixemo-nos de rodeios: de todos os temas submetidos ao Parlamento, o único a que se pede “xiu”, o único tratado como tabu, é o deste Acordo Ortográfico. Tem-se discutido abertamente (e bem!), esgrimindo argumentos opostos, o aborto, a eutanásia, o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a adopção, mas quando se chega ao Acordo Ortográfico, logo surge uma barreira, um temor, um incómodo. E, no entanto, a palavra escrita é algo diário, quotidiano, corrente, a que nunca deixamos de estar ligados, seja em que área for. E quem diz a escrita, diz a forma como ela se vai desfigurando, a ponto de doutos senhores afirmarem publicamente que já não sabem bem como se escreve.

Foi para isto que um punhado de seres se bateu acerrimamente por um Acordo Ortográfico? Não, não foi. Mas é para isso que o temos. Para escrever a calar. Razões, que as leve o vento! O tema da Língua Portuguesa, da sua ortografia (e das necessárias variantes nos países onde ela é falada e escrita) e do seu futuro, apesar das declarações enfáticas de vários governantes, há-de ser tratado como um não-tema ou coisa não discutível, e seria até colocado a seguir à definição da composição da alpista para canários se tal tema fosse agendado no Parlamento.

Pois bem: contrariemos o tabu. É urgente discutir, questionar, pôr em causa o que alguns têm por intocável e imutável. Um acordo é um acordo: faz-se, se é útil; desfaz-se, se é inútil. O que sair sexta-feira do Parlamento deve, pois, ser claro. Só que isso implica coragem. Haverá?

[Transcrição integral de artigo da autoria de Nuno Pacheco publicado no jornal “Público” de 18.07.19. “Links” meus. Imagem (recorte) de topo de: “O Globo” (Brasil).]

Facebook em Português de Portugal

Mais um apelo a que ajudem na tradução do Facebook para Português.

Já sabemos que, por exemplo, a “Wikipêdjia lusôfuna” foi tomada de assalto por meia dúzia de brasileiros “adotivos” e que, portanto, enquanto esses sabujos não forem corridos aquilo é impenetrável, mas no Facebook não se passa nada disso. São neste momento 180 os inscritos no grupo de tradutores Português (Portugal) e, desses, pelo que vejo, poucos serão brasileiros genuínos ou portugueses vendidos a servir de “controleiros”. Portanto, estamos ali muito mais à vontade do que na Wikipêdjia ou nos diversos serviços da Google — até porque são conceitos distintos em plataformas com finalidades radicalmente diferentes.

Traduzir o “interface” do Facebook não é propriamente, como dizem os americanos, rocket science (“engenharia aeroespacial”, digamos). Qualquer pessoa, de vez em quando, no intervalo de qualquer coisa ou simplesmente quando não tiver nada que fazer — na sala-de-espera do consultório, na fila para pagar as compras, numa Repartição à espera de vez — pode ao menos ir votando numas quantas traduções em Português correcto.

Quantos mais formos a ajudar nisto, menos provável será que algum dos acordistas de serviço se atreva a sequer votar contra e, muito menos, a alterar as nossas traduções já aprovadas.

E nem mesmo é preciso ser-se tradutor/a profissional, nem estar inscrito na APT. A coisa é bem mais fácil do que, se calhar, parece. Colaborar nesta “empreitada”, posso afiançar, acaba por se tornar quase viciante. Rapidamente o hábito de abrir a página e desatar a votar nas palavras, frases e expressões-chave em Português correcto torna-se rotineiro.

Contando com uma larga maioria de participantes anti-acordistas (de pouco ou nada adianta só falar), é claro, mais facilmente — e mais depressa — veremos “as nossas palavras” (em duplo sentido literal) servindo a milhões de pessoas biliões de vezes.

Esta é uma das páginas do “ambiente de trabalho”, onde podemos ver todo o nosso historial. O quadro mais importante é o da lista das tradução rejeitadas/desaprovadas pela “comunidade”; por aí podemos obter orientações de “consistência” e ver se os acordistas andam a votar contra ou a anular as nossas traduções em PT-PT.

Nesta imagem vemos “Actualizar” (voto) e “esoaço” (em vez de “espaço”; foi erro propositado para testar os “censores” .

Nesta imagem está “interactivos” (tradução) e “eliminar” (votação). Nada de brasileiradas (“interativos”, “deletar”).

Os títulos obtidos (“achievements”) pouco ou nada interessam – são um engodo do Fakebook para captar tradutores e obter traduções inteiramente grátis – mas os números contam (e interessam) muito.

 

“1 T” é “one Trillion” em Inglês, o que corresponde a um bilião, em Português, ou seja, um milhão de milhões.

Natal 2018 — Clássicos da “Guerra & Paz”

 

 

 

colecção de clássicos da Guerra e Paz nasceu em Setembro de 2015, fez agora três anos. Publicámos já 38 títulos, de Os Maias, de Eça, ao Frei Luís de Sousa, de Garrett, passando pela Madame Bovary, de Flaubert, o Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, o Lord Jim, de Conrad, ou os Lusíadas, de Camões.

Há três razões pelas quais nos orgulhamos desta colecção. Todos os textos de autores portugueses foram revistos e fixados pelos colaboradores da Guerra e Paz, que têm trabalhado connosco, o Helder Guégués, a Ana Salgado, a Inês Figueiras e o André Morgado. Todos os clássicos estrangeiros, sem excepção, foram objecto de novas traduções, assinadas por Rui Santana Brito, Maria João Madeira, João Moita ou Miguel Nogueira, entre outros. Todos os clássicos incluem notas de apresentação e anexos finais, com listas de personagens e com textos de análise, por vezes de outros grandes autores, como seja o texto de Baudelaire sobre a Madame Bovary ou o de D. H. Lawrence sobre Moby Dick, ou o de Virginia Woolf sobre Conrad e Lord Jim.

E o que nos deixa ainda mais felizes é a resposta que os livreiros têm dado à concepção visual que o nosso designer gráfico, Ilídio Vasco, imprimiu à colecção. Os livreiros gostam – fazem uma mancha linda – e expõem. É outra sintonia que queremos aqui celebrar e que é tão necessária ao mundo do livro, a sintonia entre o editor e o livreiro. Quem mais dela beneficia é, claro, o leitor.

Para comemorar este terceiro aniversário, até final de Novembro, os nossos clássicos, que já estejam fora da lei do preço fixo, estão aqui, no nosso site, à disposição dos leitores com um valente e mais do que clássico desconto de 30%. Boas compras.


[imagem de topo de: PlusPNG]

A treta que nos separa


Volta a atacar, salvo seja, um tal Sérgio Rodrigues, autor do panfleto com o significativo título “Viva a Língua Brasileira”.  Reemerge agora esse escriba, portanto, do charco infecto em que chafurdam os flautistas acordistas, para de novo perorar sobre aquilo que, em sua não muito douta opinião, é o “antibrasileirismo linguístico, marca bandeirosa da cultura lusitana“.

Ou seja, traduzindo para Português tão duvidoso paleio, acha o dito que nós, os tugas, somos “contra eles”, os zucas, e que essa espécie de “contrismo” é uma marca identitária da “cultura lusitana”.

Não há paciência.

Pois está claro, antes do AO90 não existia qualquer “antipatia” pelos diversos crioulos brasileiros, mas isso não tem rigorosamente nada a ver com a Literatura brasileira. E essa “antipatia” nunca foi mútua, aliás: nós por cá não traduzimos para a língua indígena os livros nem legendamos os filmes provenientes do “país-continente”.

Escora-se o escriba neste seu textículo, o que de todo não surpreende, em supostos aliados que, do lado oriental do Atlântico, circunstancial ou ocasionalmente paridos algures no meridiano de Greenwich, parece apoiarem tão bizarra (quanto estúpida) teoria da conspiração “contra” a “cultura brasileira” em geral e a respectiva Literatura em particular. No caso, para “ilustrar” a tese, cita umas quantas indignadíssimas bojardas publicadas no Fakebook por um tal Venâncio, gajo se calhar porreiríssimo, suponho, mas que tem no entanto essa estranha — e tuga — mania de armar aos cucos denegrindo os seus compatriotas para dar graxa aos brasileiros.

Coisa que me irrita solenemente, confesso. Para isso, bajulação travestida de erudição, ainda tenho menos pachorra do que para levar com as tretas neo-colonialistas dos acordistas de serviço.

 

A língua que nos separa

Forte em Portugal, desprezo ao português brasileiro também viceja aqui

Sérgio Rodrigues

Jornal “Folha de S. Paulo” (Brasil), 19.07.18

 

Dia desses, no Facebook, o linguista português Fernando Venâncio desabafou: “Poucas coisas me irritam tanto como o antibrasileirismo primário e militante que encontro por estas paragens”. Referia-se ao antibrasileirismo linguístico, marca bandeirosa da cultura lusitana.

Qualquer escritor brasileiro que tenha lançado livros em Portugal nas últimas décadas (sou um desses) sabe o que Venâncio quer dizer. As portas que Jorge Amado escancarou de par em par no século passado se fecharam em algum momento sobre corredores cada vez mais estreitos e labirínticos.

Sim, é claro que muitos editores, críticos, jornalistas e outros portugueses esclarecidos insistem em furar com brio essas defesas. Infiltrando-se nas brechas, porém, os brasileiros que se expressam por escrito logo se veem escalados pelos leitores comuns d’além-mar como representantes de uma versão menor, tosca e corrompida da língua “deles”. Se soubessem cantar, dançar, contar piadas, temperando o verbo com aquele jeito de corpo que é sua maior —ou quem sabe a única— vocação, talvez pudessem ser levados a sério. Mas isso de escrever, francamente…

Nas palavras de Venâncio, há em Portugal uma “desavergonhada altanaria perante os pretensos ‘erros’ de que o português brasileiro estaria inçado”. O linguista vê esse sentimento integrado ao senso comum, cultivado por “gente visivelmente de poucas letras, e poucas luzes”. Refere-se a ele como “assustador”.

Eu prefiro o adjetivo “triste”. Assustador é constatar que um antibrasileirismo tão pimpão e ignorante quanto o luso viceja aqui também. Como reclamar do insulto de nos negarem em terra estrangeira o direito de gozar livremente de algo tão pessoal e profundo quanto a língua materna, sem ouvir sermões abestalhados sobre algum ideal platônico de gramática? Negamos a mesma coisa por conta própria, o que é bem pior.

Parte dessa dissonância é comum às línguas imperiais. A relação de amor e ódio entre o inglês britânico e o americano é tema do recém-lançado “The Prodigal Tongue” (A língua pródiga), de Lynne Murphy, linguista americana que mora e leciona na Inglaterra. Ela identifica em seus compatriotas um “complexo de inferioridade verbal” e, nos britânicos, o que chama de “amerilexofobia”, aversão esnobe a americanismos.

Nada tão diferente assim do que se vê no universo da língua portuguesa ou da espanhola. Ex-colônias crescidinhas e ex-impérios em queda vão sempre se emaranhar em teias complicadas de amor e ódio, admiração e desprezo. Contudo, vale atentar para a diferença que Venâncio, repetindo no post-desabafo o que já defendeu em livros, aponta entre os projetos linguístico-coloniais de Lisboa e de Madri.

“No Brasil, Portugal abandonou a língua portuguesa à sua sorte. E ainda bem! Pense-se na uniformidade lexical, gramatical e ortográfica que a Espanha impõe como ideal à América de fala espanhola”, escreve o linguista, concluindo que “o Português Brasileiro pôde desenvolver em invejável liberdade a sua norma, e vive bem nela”.

O texto termina exigindo, ainda que de forma jocosa, gratidão: “E venha daí um ‘obrigadinho’ a este Portugal que, oh felicidade, nunca teve um projecto linguístico, nem cultural, para o seu Império”.

Muito bem, mas não estou tão certo de que o deus-dará cultural seja algo que devemos agradecer. Seria necessário investigar primeiro até que ponto se funda nele a ridícula autoestima linguística que leva o brasileiro médio a situar nosso português três degraus abaixo do português europeu, e este, pelo menos sete palmos abaixo do inglês.

Sérgio Rodrigues

Escritor e jornalista, autor de “O Drible” e “Viva a Língua Brasileira”.

[Transcrição integral de artigo, da autoria de Sérgio Rodrigues, publicado no jornal brasileiro “Folha de S. Paulo” em 19.07.18.]