Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: tugas

“Políticas linguísticas”…

Sempre batendo na única tecla que sabe tocar (pim pim pim pim), ou seja, o “colonialismo” mai-las respectivas maroteiras, e sistematicamente culpando com efeitos retroactivos — à boa maneira brasileira — o “tuga” pelas desgraças que assolam o seu país, o angolano Zau (nascido em Lisboa, músico da banda “Maravilha”) vem agora esclarecer, se bem que não se perceba nada, que existirá porventura em Angola uma coisa a que chama “políticas linguísticas no ensino primário”. Coisa essa que eu cá, devo dizer, do alto da minha ignorância sobre Angola em geral e sobre maravilhas em particular, acho fantástico.

Convém esclarecer, para que se entenda alguma coisinha deste texto quase integralmente incompreensível (bem, pelo menos para a paupérrima inteligência da minha chatérrima pessoa), que este senhor Zau ostenta, além do título académico que faz questão de amostrar (citemos, com a devida vénia, “Ph. D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais”, ena, soergamos nossos glúteos em sinal de respeito), o não tão honroso sub-título de co-signatário do AO90. Ou “cocossignatário”, como “manda” grafar o AO90 quando há mais do que um “co” a “cocoisar”.

Se bem que uns anos após tal fatalidade (a cocossignatura) o senhor pareça ter mudado de opinião, a mim me parece não haver nessa hipotética mudança um átomo de sinceridade ou sequer um módico de convicção. Talvez o cambalacho tenha tomado um rumo que porventura não antecipou (afinal, raios, não há “acordo” nenhum, isto é só impor o “brasileiro” aos indígenas e nada mais) e portanto o homem foi ligeiramente aos arames com a brincadeira. Compreende-se, vá. Delegado angolano com Ph. D e tudo, um gajo que até tocou na banda “Maravilha” e acompanhou (nas congas?) o “Duo Ouro Negro”, bem, isto não se faz, já não há respeito, no fim de contas foi tudo uma grande aldrabice, aiaiaiaiaiai, não brinquemos, eles nem sabem com quem se meteram.

Vai, Filipe, dá-les! Dá-les!

Contribuições para a implementação de políticas linguísticas no ensino primário

“Jornal de Angola”, 9 de Dezembro, 2018
Filipe Zau |*

Através da análise das experiências educativas em países africanos, alguns deles vizinhos de Angola, pudemos, em artigos anteriores, verificar a importância das políticas linguísticas, quer do ponto de vista da aprendizagem, quer patrimonial.

De um modo geral, as administrações coloniais impuseram às populações africanas estratégias de aculturação, que, através do assimilacionismo, levaram as gerações mais jovens de africanos, sobretudo das áreas urbanas e sub-urbanas, a perderem valores e hábitos culturais para aquisição de atitudes e comportamentos característicos da sociedade dominante. Tal ocorreu, em grande parte, com as administrações coloniais francesa e portuguesa. De acordo com uma fonte da UNESCO sobre “Políticas de Educação e Formação na África Sub-Saariana”, em 1987, a França chegou a fazer 4 experiências de utilização de línguas africanas no ensino, contra 11 de utilização exclusiva da língua metropolitana, enquanto Portugal não realizou nenhuma experiência nas suas cinco colónias em África. Contrariamente, a Grã-Bretanha fez 13 experiências de utilização de línguas africanas no ensino oficial contra 2 de utilização exclusiva na língua inglesa. Já a Bélgica, apenas no ex-Congo Belga (actual Congo Democrático), fez duas experiências de línguas africanas e apenas uma, em regime de exclusividade, em língua francesa.

Porém, existe também a escola da vida, pelo que não há uma única forma de educação nem um único modelo de ensino. A escola não é evidentemente o único lugar onde as pessoas aprendem, o ensino escolar não é a única prática educativa, nem o professor o seu único praticante. “Em casa, na rua, na igreja ou na escola, aprende-se e ensina-se para saber, para saber-fazer; para saber-ser e para saber-conviver”, diz-nos também o sociólogo brasileiro Carlos Rodrigues Brandão.

Contudo, a colonização inglesa foi muito mais tolerante ao permitir a manutenção parcial da identidade cultural dos grupos etnolinguísticos africanos sob sua dominação. Numa perspectiva integracionista, as pessoas conservam a sua identidade e outras características culturais próprias (língua, hábitos alimentares, religião, festas, etc.), participando simultaneamente nas estruturas económicas, políticas e jurídicas com outros grupos. No integracionismo a manutenção cultural é procurada, enquanto no assimilacionismo há pouco ou, porventura, nenhum interesse em tal continuidade. O respeito pela diversidade cultural isenta de preocupações hegemónicas é a corrente onde se situa o pluralismo cultural, que defende um modelo de relacionamento, no qual cada grupo societal preserva as suas respectivas origens, partilhando, em simultâneo, um conjunto de características culturais e de instituições com os restantes grupos.

Do ponto de vista meramente educacional, podemos concluir que a lógica da complementaridade se sobrepõe à lógica da exclusão. Tal como afirmou Paulo Freire, na sua obra «Pedagogia do Oprimido; Saberes necessários à prática educativa», “a assunção de nós mesmos não significa a exclusão dos outros.” Daí que a tendência nos sistemas educativos, em grande parte dos países africanos, é a de se estabelecer a cooperação entre as línguas africanas e a língua europeia herdada da colonização, com especial ênfase, nos três primeiros anos de escolaridade, para a língua materna.

Curiosamente, na Namíbia, o Afrikaans que, numa primeira fase, foi abolido do sistema de ensino por razões políticas, voltou a ser posteriormente reintroduzido por imperativos meramente educacionais. Já o mesmo não aconteceu com o Pidgin nigeriano, pelo menos, até 1998. As línguas não têm dono e os proprietários das mesmas são, tão-somente, os seus locutores.

Em Angola, por razões educativas e culturais poderá ser estabelecida uma política linguística mixoglótica, direccionada para uma educação bilingue e intercultural, sem esquecer a relevância da Língua Portuguesa, que, pelo seu percurso histórico no nosso país, ganhou esse direito. A Declaração Constitutiva da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), instituída na base das relações de horizontalidade que regem as relações entre os Países membros, de entre os mais diferentes objectivos a que se propõe realizar, diz o seguinte: «(…) envidar esforços no sentido do estabelecimento em alguns Países membros de formas concretas de cooperação entre a Língua Portuguesa e outras línguas nacionais, nos domínios da investigação e da sua valorização».

* Ph. D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

Source: Contribuições para a implementação de políticas linguísticas no ensino primário | Artigos | Opinião | Jornal de Angola – Online (destaques meus)

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«Admirável Língua Nova (Parte IX)» [Manuel Matos Monteiro, “Público”, 09.12.18]

Admirável Língua Nova (Parte IX)

Manuel Matos Monteiro
publico.pt, 07.12.18

Recentemente, apareceu escrito num canal televisivo: “Aconselhou-me a fazer uma comediação.” Nada que ver com comédia — trata-se da versão acordizada de “co-mediação”. Em suma, o Acordo é uma comédia, uma grande paródia.

Há uns anos, na RTP2, vi uma série em que, numa faculdade, o professor pedia aos alunos que, na aula seguinte, defendessem uma ideia ou ideologia contrária àquela que era a sua crença arraigada. Tento aqui executar semelhante exercício.

Comecemos com algumas frases.

“Tirámos o curso de Medicina.”

“Andámos expectantes na Rua do Ouro e na descaracterizada Avenida Almirante Reis.”

“Rezámos a Santo António.”

“Desligámos o interruptor.”

“Visitámos o Palácio Nacional da Ajuda, o Largo do Carmo, a Igreja do Bonfim e o Pavilhão de Portugal.”

“Iremos à Sé de Braga.”

“Descaracterizámos ou deixámos descaracterizar Lisboa.”

“Chegámos ao Templo de Salomão.”

“O professor quer que dêmos tudo na aula de Matemática.”

As frases apresentadas, sem o Novo Acordo, têm uma forma ortográfica. Com o novo, terão quantas? Vejamos.

“Tirámos [com ou sem acento] o curso de Medicina [com maiúscula ou minúscula inicial].”

“Andámos [com ou sem acento] expectantes [com ou sem c] na Rua do Ouro [com maiúscula ou minúscula inicial] e na descaracterizada [com ou sem c] Avenida Almirante Reis [com maiúscula ou minúscula inicial].”

“Rezámos [com ou sem acento] a Santo António [com maiúscula ou minúscula inicial].”

“Desligámos [com ou sem acento] o interruptor [com ou sem p para a Porto Editora ou o Portal da Língua Portuguesa, por exemplo].”

“Visitámos [com ou sem acento] o Palácio Nacional da Ajuda [com maiúscula ou minúscula inicial], o Largo do Carmo [com maiúscula ou minúscula inicial], a Igreja do Bonfim [com maiúscula ou minúscula inicial] e o Pavilhão de Portugal [com maiúscula ou minúscula inicial].”

“Iremos à Sé de Braga [com maiúscula ou minúscula inicial].”

“Descaracterizámos [com ou sem c e com ou sem acento, ou seja, quatro formas ortográficas] ou deixámos [com ou sem acento] descaracterizar [com ou sem c] Lisboa.”

“Chegámos [com ou sem acento] ao Templo [com maiúscula ou minúscula inicial] de Salomão.”

“O professor quer que dêmos [com ou sem acento] tudo na aula de Matemática [com maiúscula ou minúscula inicial].”

Resposta: 33 554 432 formas ortográficas. A conta: 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 = 33 554 432.

O Acordo permite a plurigrafia e esta pode ser bem divertida. Morte à ortografia!

Acresce uma nota curiosa. Quando à primeira pessoa do plural se liga a forma pronominal “nos”, o s desaparece. Exemplos: “Nós amámos”, “Nós sentámos”. Pospondo-lhe “-nos”, ficará “Nós amámo-nos”, “Nós sentámo-nos”. Com o Novo Acordo, “amámos” e “sentámos” (meros exemplos entre uma miríade), referindo-nos a um tempo pretérito, podem ter ou não ter acento. Ou seja, poderemos suprimir o s de “sentámos” ou “sentamos” quando se liga à forma pronominal “nos”, referindo-nos ao pretérito perfeito. “Sentamo-nos”[1] poderá ser, com o Acordo, uma ordem, uma sugestão ou uma referência ao passado — aquilo que, sem o Acordo, será obrigatoriamente “Sentámo-nos”.

Como é divertido ainda usar o prefixo “co-”. Temos “conavegante”, “corrés”. Sem o Acordo: “co-navegante”, “co-rés”. Temos “cocomissário”, “cocomandante”; não, não é o missário do coco nem o mandante do coco — vejamos sem Acordo: “co-comissário”, “co-comandante”. Temos ainda o “co-mandante” transformado em “comandante”. Recentemente, como poderá ver na página dos Tradutores contra o Acordo Ortográfico [página “Acordo Ortográfico Não!”, foto de Francisco Miguel Valada (nota de JPG)], numa publicação de 27 de Outubro, apareceu escrito num canal televisivo: “Aconselhou-me a fazer uma comediação.” Nada que ver com comédia — trata-se da versão acordizada de “co-mediação”.

Em suma, o Acordo é uma comédia, uma grande paródia. E quem não gosta de uma boa pândega?

Autor de Por Amor à Língua — Contra a Linguagem Que por aí Circula

(Continua.)


[1] No imperativo: “sentemo-nos”.

[“Público”, 07.12.18. Textos desta série anteriormente reproduzidos aqui: Parte VIII, Parte VII, Parte VI, Parte V, Parte IV, Parte III, Parte II, Parte I. ]

Tragediação. #AO90

Publicado por Francisco Miguel Valada em Sábado, 27 de Outubro de 2018

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«Car@s leitorxs (e utentas)» [Bagão Félix, “Público”, 07.12.18]

Car@s leitorxs (e utentas)

Tudo isto, a juntar ao suntuoso Acordo Ortográfico, tornaria a nossa língua uma verdadeira geringonça!

António Bagão Félix
publico.pt, 07.12.18

 

Os guardiães da ideologia de género, considerando que a língua portuguesa está muito associada a um modelo machista de sociedade, têm procurado avançar com iniciativas para favorecer a agora chamada linguagem inclusiva, eliminando ou atenuando tal dimensão patriarcal.

Bem sabemos que a linguagem oral e escrita é, por natureza, evolutiva e dinâmica. E que há expressões social e culturalmente resilientes, que revelam comportamentos misóginos.

Acontece que a exageração vem tomando conta deste propósito de erradicar o que apelidam de um “estereótipo de género”. Um dos seus traços mais visíveis relaciona-se com os substantivos uniformes, sobretudo os comuns de dois géneros – p. ex., estudante – e os sobrecomuns – p. ex., pessoa – através de pretensos neologismos tão esdrúxulos, quanto ridículos. 

Se bem me recordo, uma das primeiras ou mais entusiásticas movimentações foi quando Dilma Rousseff virou presidenta, tendo subjacente a ideia de contrariar a prevalência das desinências masculinas sobre as femininas. Parece que esta moda não pegou tanto quanto as utentas pretendiam. Assim, não vingaram as concorrentas, as estudantas, as dirigentas e gerentas, as comandantas, as adolescentas ou as doentas. Mesmo nos partidos mais envolvidos, não se diz “militantes e militantas”, aqui até com o risco de alguém entender “militantes e mil e tantas”.

Noutra perspectiva e face à ausência de um género gramatical neutro em português, há quem use o símbolo @ (arroba, ela própria feminina) para se referir a grupos dos dois sexos. Assim temos, por exemplo, car@s amig@s, alun@s, candidat@s, morador@s. Entretanto, ainda que mais esparsamente, surgiu o “x”, numa versão mais LGBT:  carxs, meninxs, delegadxs, etc. e até o tímido asterisco * para el*s, professor*s, trabalhador*s, etc.

Passou também a ser politicamente conveniente referir os dois géneros gramaticais, em frases como “portuguesas e portugueses”, “todos e todas”, “alunos e alunas” e tantas outras, numa prática aritmética de juntar um subconjunto ao conjunto que já o contém. Todavia, tal prática é selectiva e não se aplica a situações negativas ou indesejáveis (por exemplo, ninguém diz “desempregadas e desempregados”, “mortas e mortos”, “presas e presos”). Na mesma lógica, poder-se-ia perguntar se a Loja do Cidadão (ou o cartão de cidadão) não incluiria as cidadãs, se o Conselho de Ministros deveria ser também das Ministras, ou se uma câmara de deputados não teria deputadas? Ou ainda, se numa referência aos seres humanos, deveria acrescentar-se “e humanas”? Voltando ao nosso gentílico, vida facilitada teriam (com o nosso idioma) outros países. É o caso dos belgas (não imagino alguém a dizer “belgas e belgas”), tal e qual como com timorenses, são-tomenses, guineenses, croatas, vietnamitas.

Mais recentemente, numa reunião magna do Bloco de Esquerda, Pedro Filipe Soares interveio começando com “camaradas e camarados (suponho eu referindo-se aos aderentes e aderentas do partido). Em artigo posteriormente publicado neste jornal, o dirigente bloquista reconhece que foi um “erro prontamente corrigido na frase seguinte”, acrescentando, de seguida, que “há males que vêm por bem, dado que serviu, uma vez mais, para desmascarar o fanatismo da campanha contra a linguagem inclusiva”. Não percebo como de um erro se corporiza alguma vantagem no propósito enunciado. É certo que houve comentários precipitados, como precipitado me parece não se aceitar a ironia de quem também aproveitou o lapsus linguae (quem sabe se originado pelo subconsciente inclusivo do deputado) para, ao invés, criticar o também fanatismo da campanha da linguagem inclusiva. Brincando com o sucedido – se senhores e senhoras inclusivos e inclusivas me permitem –, quase me imaginei a ouvir “bloquistas e bloquistos”, “comunistas e comunistos”, “socialistas e socialistos”, bem como colegos, jornalistos, economistos, atletos ou estrelos de cinema.  E, feminizando substantivos machos, por que não dizer o intérprete e a intérpreta? Ou chamar quadra a uma quadro de uma empresa?

E o que dizer de substantivos sobrecomuns mais femininos (pois que também os há e muitos) passarem a ter dois géneros? Afinal eu fui criança ou crianço? Sou uma pessoa ou um pessoo? Uma criatura ou um criaturo? Bem confuso seria testemunha passar a ser a testemunha só no género feminino e o testemunho no masculino…

Começo a pensar que o extremoso PAN possa ter, nesta matéria, uma oportunidade para alargar a ideologia de género ao mundo animal, onde muitos são chamados por um nome epiceno, ou seja, de só um género gramatical para animais de ambos os sexos. Por exemplo: teríamos a foca, mas também o foco, o ouriço e a ouriça, a cigarra e o cigarro, a cobra e o cobro. E nos animais designados pelos dois géneros gramaticais, que bem e animalmente correcto seria dizer “gatos e gatas” e escrever gat@s, “ratos e ratas” (rat@s), “burros e burras” (burr*s), “javalis e javalinas”?

Tudo isto, a juntar ao suntuoso (não confundir com untuoso, e muito menos com sumptuoso) Acordo Ortográfico, tornaria a nossa língua uma verdadeira geringonça!

[Transcrição integral de ‘Car@s leitorxs (e utentas)’, da autoria de António Bagão Félix. Público” (online), 7 de Dezembro de 2018. Acrescentei destaques e “links” (a verde). Imagem de topo de gerada em: CoolText.]

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Há dinheiro, há palhaços

Orçamento do Instituto Camões não diminui e poderá ir até 70 ME em 2019

Lisboa, 30 Nov (Lusa) – O orçamento de 2019 do Camões não deverá baixar face a 2018, ficando entre 60 e 70 milhões de euros, e é suficiente para cumprir os objectivos da entidade, agregando orçamento de instituições europeias, disse hoje o seu presidente.

Em entrevista à Lusa, a propósito do seu primeiro mandato como presidente do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, Luís Faro Ramos afirmou que, no próximo ano, o Orçamento do Estado deve prever “um valor entre 60 a 70 milhões de euros”, mas o responsável ressalvou que ainda se desconhecem quais serão as cativações.

No ano passado, o orçamento do Camões “foi de 60 milhões de euros, mas desse valor, 20 milhões são para pagar à rede de professores de ensino do português no estrangeiro”, destaca.

O facto de não estar prevista uma diminuição do orçamento no próximo ano já é, para Faro Ramos, “muito bom”.

Além disso, explica, o Camões está a tentar agregar ao orçamento financiado pelo Orçamento Geral do Estado “orçamento que vem de instituições europeias”.

“Existe uma modalidade de cooperação para o desenvolvimento, que é a cooperação delegada, que o Camões, que é uma entidade certificada para executar projectos em nome da União Europeia irá aproveitar”, explicou.

“Isto também nos ajuda a reforçar a área da cooperação”, afirmou o diplomata.

Por isso, assegurou, “os recursos financeiros do instituto são suficientes [para dar resposta às ambições do Governo em termos de metas]”, mas é necessário alocá-los “de uma maneira judiciosa às várias actividades – cooperação, cultura e língua -, e obviamente à estrutura, que tem um peso significativo no orçamento”, sublinhou.

Temos o que precisamos” e as metas coadunam-se com o orçamento, garantiu Faro Ramos.

No âmbito da cooperação delegada, estão alguns dos projectos que estão a ser pensados com Angola e que vão ser certamente executados nos próximos anos. “Projectos, aliás, muito importantes e que se enquadram num contexto do novo relacionamento estratégico com Angola”, afirma o diplomata.

Luís Faro Ramos faz um balanço “positivo” de um ano de mandato à frente do Camões e diz que as perspectivas para 2019 também são boas.

“Obviamente que também houve dificuldades, mas também se não as houvesse não teria sido tão desafiante. É o que temos, os recursos humanos que temos e os recursos financeiros que temos. E os números estão todos em crescimento. O balanço de 2018 é muito positivo e as perspectivas para o próximo ano também”, afirmou.

“Há mais alunos a estudar de português pelo mundo fora, 200 mil, há mais professores, há mais pessoas interessadas em aprender o português, há mais protocolos com instituições de ensino assinados, há mais países onde o português está a ser ensinado no currículo escolar, há mais actividades culturais”, descreveu.

O embaixador revela ainda que “todos os dias” recebe pedidos no Camões, vindos do mundo inteiro, de autoridades que querem ensinar o português ou acções culturais com o Camões e isso, considerou, “é o mais compensador”.

E sublinha que esse é o resultado de um trabalho “notável” da equipa, tanto a da sede, em Lisboa, como a que trabalha um pouco por todo o mundo, num total de 600 pessoas.

Sobre a escolha de um diplomata para o lugar que ocupa, Faro Ramos diz que “é um reconhecimento do valor da carreira diplomática portuguesa”.

“Isso é reconhecer que as actividades do instituto, seja a promoção da língua e cultura portuguesas, seja a cooperação para o desenvolvimento, são centrais para a política externa do nosso país e isso é muito reconfortante”, destacou.

A rede do Camões alcança mais de 80 países, embora na área da cooperação as prioridades do instituto vão, como definido há muito pelo Governo português, para os países africanos de língua portuguesa e Timor-Leste.

Para 2019, além do crescimento do ensino do português pelo mundo e do reforço da cooperação Luis Faro Ramos, quer também aumentar o número de bolseiros.

“O Camões pretende reforçar o número de bolsas atribuídas em 2019”, disse o presidente do instituto, não querendo avançar com metas.

Actualmente, o Camões tem mais de 500 bolseiros dos países africanos de língua portuguesa e de Timor-Leste, seja em bolsas externas (as que os estudantes desses países recebem para estudar em Portugal), seja em internas (as que os aluno recebem para estudarem nos seus próprios países), adiantou.

Mas na opinião do diplomata, “em termos de promoção dos nossos valores, as bolsas são fundamentais”.

“Dar a um estudante de um país lusófono uma bolsa no nosso país, é estarmos a dar-lhe directamente a conhecer os nossos valores, a nossa cultura e economia”, salientou.

Além disso, os bolseiros são pessoas que normalmente “no futuro terão um papel importante a desempenhar nos seus países” e são por isso “absolutamente fundamentais na política portuguesa de cooperação para o desenvolvimento”.

Faro Ramos lembrou ainda que, além destas bolsas que o Camões atribui, “há inúmeras outras bolsas que as universidades portuguesas dão a pessoas dos países lusófonos”.

ATR // JH – Lusa /Fim
Source: Orçamento do Instituto Camões não diminui e poderá ir até 70 ME em 2019

 

[Via Olga Rodrigues. “Links” e destaques meus. Imagem de: Kisspng]

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“Erosão da memória colectiva” [Bagão Félix]

Política e políticas

A soberania reside no povo. Qual soberania? A de apenas votar de x em x anos? É sobejamente pouco. E enganoso.

Bagão Félix
“Público”; 30 de Novembro de 2018

 

A política está cada vez mais capturada pela aparência, pela obsessão do actualismo, pela catadupa de notícias devoradas umas pelas outras, pelas sondagens e likes, pelo primado da conveniência, pelo tacticismo sem estratégia, pela erosão do poder-dever. A ideia de política com ética vem-se rarefazendo, porque se para a política muitas vezes basta parecer (e aparecer), para a ética não basta a “markética” de parecer, é mesmo preciso ser.

O espectáculo do anúncio tornou-se central. Já não é preciso fazer, basta anunciar. O escrutínio e acompanhamento da acção política perde-se na penumbra do tempo e na erosão da memória colectiva. Não se age, antes se reage, em agendas mais marcadas pelo oportunismo do que pela convicção. Abraçam-se minudências para se procrastinarem os grandes desafios. Mistura-se a insignificância com a gravidade, a festarola com a solenidade. As ideias tornaram-se moldáveis, volúveis, permutáveis, negociáveis em forma de plasticina intelectual. Pelo mundo fora, há fartura de políticos dos direitos, escasseiam políticos dos deveres e estadista é uma espécie em vias de extinção.

Neste quadro têm sucesso os mais espertos, às vezes os mais falsos, aqueles para quem os fins sempre justificam os meios. Uma forma quase darwinista de preservação.

As ilimitadas formas de comunicação tornaram o jogo político numa corrida sem tréguas, mas também sem a exigência de se pensar para além do dia seguinte. Mais do que discutir ideias, formulam-se expedientes. O que hoje é considerado fundamental, amanhã pode passar a secundário e vice-versa. O que ontem foi uma promessa, amanhã poderá ser uma omissão. Por tacticismo ou por incompetência, confunde-se a árvore com a floresta. A compulsão de se discordar ou concordar é quase sempre apenas guiada por se ser oposição ou poder.

A míngua da ética da convicção e a diluição da ética da responsabilidade potenciam abordagens egoísticas ou, no máximo, utilitaristas, teleologicamente desprezíveis e favorecem ambientes corruptíveis e dissolventes. Hoje, diante de conflitos de interesses reais ou potenciais, moldam-se as leis e as regras para, não raro, legalizar o que nem sempre é legítimo. O pudor já nem sequer é um fiável regulador ou “termóstato” de conduta.

À falta de argumentos ou à boleia da preguiça intelectual, opta-se crescentemente por etiquetagens redutoras e perigosamente simplistas. Os “ismos” e os “istas” passaram à categoria de insulto alegremente papagueado que, todavia, esconde a ignorância. Em curto-circuitos axiologicamente indigentes, tuita-se, instagrama-se, facebooka-se, numa mistura de pobreza linguística, sintaxe primária, aversão ao raciocínio profundo e desprezo pela memória.

As fronteiras de interesses entre o que é ou deve ser público e sujeito à tutela do bem comum e o que é privado estão sujeitas a subjectivismos interpretativos, volúveis e movediços em função do contexto que existe ou se quer que exista.

A autenticidade, isto é, a conformidade ontológica entre ser-se, estar-se, pensar-se, dizer-se, fazer-se, esboroa-se e o mascarado só precisa de, de quando em vez, trocar de roupagem para prosseguir o fingimento.

Muda-se em razão das conveniências, não em função das convicções. Ou das dinâmicas e das narrativas, como agora se ouve. As doutrinas políticas já não são o que eram e as ideologias cedem ao pragmatismo de qualquer realpolitik doméstica ou importada.

A linguagem parece perder a força da representação genuína para ser um instrumento ao serviço de objectivos ideológicos, que se servem da “correcção política” para tudo moldarem a arquétipos de construtivismo social. A mistura sórdida de individualismo agressivo e indiferentismo esboroa o primado da individualidade e até da dignidade da pessoa.

Os poderes transformam-se em sociedades de marketing comercial e de merchandising político. As estatísticas, torturadas a bel-prazer, tornaram-se a mãe de todos os instrumentos de análise, conveniência ou omissão. O Estado de direito, não raro, fica refém de poderes não escrutinados e de forças ocultas ou dissimuladas.

Cada vez mais se quer fazer restringir a responsabilidade política à culpa pessoal como forma de ultrapassar momentos críticos e de ladear a prestação ética de contas perante os representados. É o tempo do talvez, do apesar de, do caso tivesse sido ou de qualquer outra adversativa. É o tempo de, perante um problema, uma tragédia, se entrar num jogo de culpas, mas não de desculpas, num assomo de hipocrisia, limitando-se (quando conveniente) o Estado à Administração Central. Nada acontece diante da infracção e devassa por meios ilícitos de direitos cívicos inalienáveis, possibilitadas por um Estado de direito fraco, permeável, transaccionável q.b., aproveitado por certa comunicação social vampiresca que não olha a meios. Nada acontece a não ser os inquéritos da praxe sem fim à vista e com os responsáveis a assobiar para o lado.

A soberania reside no povo, dizem os preceitos constitucionais das democracias no mundo. Qual soberania? A de apenas votar de x em x anos? É sobejamente pouco. E enganoso.

Bagão Félix

[Source: Política e políticas | Opinião | PÚBLICO. “Links” e destaques meus. Imagem de topo de: AZ Quotes.]

"If it is not right, do not do it, if it is not true, do not say it."–from MEDITATIONS (c. 121–180 AD)

Publicado por Marcus Aurelius em Quinta-feira, 11 de Outubro de 2018

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«Uma Mistura Explosiva – Parte II» [Paulo Guinote, “portal” Educare.pt, 30.11.18]

«A Crença (irracional) supera a Ciência (racional). As soluções autoritárias baseiam-se nos medos irracionais e promovem discursos activamente anti-científicos. Apaga-se a Memória e faz-se acreditar que é possível recomeçar, todos os dias, em cada aula, em cada momento, todo um edifício que levou séculos, milénios a erguer.»
Paulo Guinote

 

Uma Mistura Explosiva – Parte II

Paulo Guinote
educare.pt, 30.11.18

A “Sociedade do Conhecimento” torna-se, mesmo em países desenvolvidos, uma Sociedade da Ignorância que promove a exclusão do que é encarado como ameaçador. A Crença (irracional) supera a Ciência (racional). As soluções autoritárias baseiam-se nos medos irracionais e promovem discursos activamente anti-científicos. Apaga-se a Memória e faz-se acreditar que é possível recomeçar, todos os dias, em cada aula.

 

Cidadãos ignorantes são vulneráveis aos discursos que promovem o Medo. Porque não têm as ferramentas para ir além do uso das novas tecnologias e do acesso à informação, falsa ou não. Os populismos na sua variante puramente demagógica e falsificadora crescem em ambientes em que o aumento do acesso à informação (e mesmo à “cultura”) vai a par do crescimento exponencial de uma iliteracia/ignorância funcional. Em que a torrente “informativa” aumenta a insegurança e o Medo. Um Medo útil.

É de novo Paul Virilio que escreve que a “administração do medo, significa também que os Estados são tentados a fazer do medo, da sua orquestração, da sua gestão, uma política (…). O medo torna-se um ambiente no sentido em que realiza a fusão do securitário (…) e do sanitário” (L’administration de la peur. 2010, pp. 16, 47).

Um Medo que desperta instintos de defesa contra o desconhecido, o diferente, que não se consegue compreender, que é necessário conter, limitar, muralhar, censurar, apagar. E a “Sociedade do Conhecimento” torna-se, mesmo em países desenvolvidos, uma Sociedade da Ignorância que promove a exclusão do que é encarado como ameaçador. A Crença (irracional) supera a Ciência (racional). As soluções autoritárias baseiam-se nos medos irracionais e promovem discursos activamente anti-científicos. Apaga-se a Memória e faz-se acreditar que é possível recomeçar, todos os dias, em cada aula, em cada momento, todo um edifício que levou séculos, milénios a erguer.

Nem sequer existe qualquer preocupação em elaborar um discurso coerente, pois aposta-se no efeito de apagamento que uma informação pletórica produza nos indivíduos. As “redes sociais” que se elogiaram como grandes responsáveis pela expansão das reivindicações democratizantes durante a “Primavera Árabe” são as mesmas que se diabolizam como estando “a matar a democracia” (Jamie Bartlett, The People vs Tech. 2018), em especial quando, quase ex nihilo, se descobre que elas podem amplificar o fenómeno das fake news, dos “factos alternativos” e da “pós-verdade” (Mathew d’Ancona, Post Truth – The new war on truth and how to fight back. 2017).

A Educação é sempre parte importante da solução para romper qualquer ciclo vicioso em que os factos são truncados, manipulados e a “Verdade” é relativizada ou transformada em outra coisa. Assim como a preservação da Memória Colectiva é indispensável para qualquer “pensamento crítico” fundamentado.

Mas isso só é possível com uma Educação verdadeiramente “integral”, em que esse termo não signifique exactamente o seu oposto. Uma Educação assente em saberes fundamentais e não em selecções arbitrárias de conteúdos “essenciais”. O caminho para uma Cidadania plena só pode ser feito através da capacidade para contextualizar e comparar a Informação.

Mas isso não se alcança com uma Educação Mínima. Relativista. Generalista. Essa é a que oferece apenas o “essencial” para dar uma aparência de universalismo democrático. Cria uma ilusão. Disfarçada com uma linguagem de boas intenções. Mas que promove uma massa de cidadãos facilmente manipuláveis.Pelo bombardeamento de informação. A falsa. A do Esquecimento. A que aposta no Medo. Que justifica o aparecimento (ou eternização) de “salvadores” no Poder.

[Transcrição integral de «Uma Mistura Explosiva – Parte I I», da autoria de Paulo Guinote, artigo publicado no “portal” Educare – O Portal de Educação em 16.11.18. “Links” e destaques meus. Imagem de topo de: Wook. Imagem de rodapé de: PNGtree.]

Ver artigo anterior desta série do mesmo autor.

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