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«Admirável Língua Nova (Parte X)» [Manuel Matos Monteiro, “Público”, 23.02.19]

 

Admirável Língua Nova (Parte X)

O Acordo e a sua aplicação encarregaram-se de aniquilar os seus apregoados objectivos. A impossível unificação traduziu-se no acentuar das diferenças ortográficas entre o português de Portugal e o português do Brasil.

Manuel Matos Monteiro
publico.pt, 23.012.19


— Vais comprar um carro novo?

— Vou. O meu carro para sempre.

Guarde bem a ideia do diálogo.

Leia agora:

— Vais comprar um carro novo?

— Vou. O meu carro pára sempre.

Neste jornal, Francisco Miguel Valada, em 1 de Dezembro de 2018, apresentou dois exemplos que falam por si. Vejamos. “Bloqueio nos fundos da UE pára projecto de milhões na área do regadio” (um título deste jornal) — é evidente que “Bloqueio nos fundos da UE para projecto de milhões na área do regadio” será lido de outra forma. Tão evidente, que os jornais, as revistas, os canais televisivos que adoptaram o Acordo continuam a pôr abundantemente o acento no “pára” quando querem desmanchar a ambiguidade ou até a leitura errónea. Faz lembrar Ricardo Araújo Pereira: “Pode-se fazer, mas é proibido.” O outro exemplo vem de Saramago (Cadernos de Lanzarote II): “Ninguém pára para o socorrer.” Com o Acordo, ficará a parecer gralha ou gaguez: “Ninguém para para o socorrer.”

E já que falamos do Nobel da Literatura e do Acordo, mergulhemos em Bob Dylan traduzido (Canções — Volume I).

(Deixemos de lado o merecimento ou desmerecimento do Nobel, quando a poesia tem uma percentagem escassíssima na lista dos galardoados. Dylan será certamente um poeta maior do que Cummings, Herberto Helder, Auden. E terá até dado um contributo à literatura que, por exemplo, Tolstói, Joyce, Borges, Proust, Fitzgerald, Nabokov, Conrad, Virginia Woolf, Lawrence Durrell não deram.)

Oh, a Primeira Guerra Mundial, rapazes

Desperdiçou a sua sorte

A razão para a luta

[…][1]

Imagine que era uma edição acordizada. Imagine que no original estava “A razão pára a luta”. Ficaria igual à fiel tradução do que Dylan realmente escreveu: The reason for fighting.

Alguém consegue explicar porque desaparece obrigatoriamente o acento de “pára”, enquanto se preservam os acentos de “pôr” e “pôde” e se decreta — pasme-se — a facultatividade do acento de “dêmos”? Ninguém.

Camilo Castelo Branco, em O Santo da Montanha: “Já que morreu a serpente, demos duas cabriolas; que, medrosos de seus olhos, nada até ora fizemos.”

Sem tirar o acento e como Camilo escreveu: “Já que morreu a serpente, dêmos duas cabriolas; que, medrosos de seus olhos, nada até ora fizemos.”

Alguém consegue explicar a vantagem da facultatividade do acento em “dêmos”?, em “lavámos”, “jogámos”, “ganhámos”, “trocámos”? Ninguém.

Que ornamento ortográfico é este que só serve para confundir o tempo pretérito com o tempo presente e até futuro? “Não ganhamos” poderá ser, com o Acordo, “não ganhamos” (no presente), “não ganhamos” (opinião sobre algo que se realizará futuramente, passe a redundância) ou… “não ganhámos” (no passado).

Que ganha a Língua Portuguesa com isto?

Que ganha a Língua Portuguesa por “descaracterizámos” (no pretérito perfeito) passar a dispor de um cardápio de quatro ortografias: “descaracterizámos”, “descaraterizámos”, “descaracterizamos” e “descaraterizamos”?

Alguém consegue explicar a razão que presidiu a estas decisões? Ninguém.

Não tendo sido aprovado o Acordo de 1986 (que pretendia abolir os acentos das palavras graves e esdrúxulas), o Novo Acordo — o de 1990… porque será que, em 2019, ainda se fala tanto do dito?, será pelos seus inexcedíveis méritos? — lá condescendeu que se mantivessem acentos nas palavras graves e esdrúxulas: “análise (s.[2])/analise (v.[3]), fábrica (s.)/fabrica (v.), secretária (s.)/secretaria (s. ou v.), vária (s.)/varia (v.), etc., casos que, apesar de dirimíveis pelo contexto sintáctico [eis o Acordo a não seguir o Acordo], levantariam por vezes algumas dúvidas e constituiriam sempre problema para o tratamento informatizado do léxico”.

No caso do “pára”, porém, o acento desaparece, porque “tratando-se de pares cujos elementos pertencem a classes gramaticais diferentes, o contexto permite distinguir claramente tais homógrafas”. Mas esperem lá, os exemplos de “análise/analise”, “fábrica/fabrica”, “secretária/secretaria [que pode ser forma verbal], “vária/varia” não pertencem também a classes gramaticais diferentes?! E o “para” que é “pára” não levanta “por vezes algumas dúvidas”?! Continuando nesta lógica de manicómio: e “pôde”, que é palavra grave e tem uma frequência muito menor na escrita do que “pára”/”para”, porque manteve o acento para não se confundir com “pode”?

Tudo isto serviu para internacionalizar a Língua Portuguesa? Quem é tão tolo que possa acreditar nisso? Tudo isto serviu apenas para a abandalhar.

O Acordo e a sua aplicação encarregaram-se de aniquilar os seus apregoados objectivos. A impossível unificação traduziu-se no acentuar das diferenças ortográficas entre o português de Portugal e o português do Brasil, com a criação de palavras num laboratório exclusivo para o português de Portugal, porque os Brasileiros pronunciam muitas consoantes etimológicas que nós não pronunciamos; na destruição dos vestígios do nosso património cultural e no consequente afastamento ante as línguas que preservaram as raízes etimológicas; numa proliferação diária e omnipresente de erros em falsas “consoantes mudas” (nasceram milhões de “contatos”); num português falado que vai fabricando pronúncias inauditas com o fechamento de vogais (revelou-se que, afinal, era bem mais fácil ensinar que “recepção” se escrevia com p do que ensinar que “receção” se deve ler “recéção” e não “recessão”, como por aí crescentemente se vai dizendo).

Continuemos a exigir dos políticos discussão e acção quanto ao Acordo. Não esqueçamos, porém, a arma essencial: a resistência de cada indivíduo e instituição: não adoPtar o Acordo. É o combate de quem rejeita que a estupidez vingue sobre a inteligência.


[1] Agradeço ao professor João Esperança Barroca o envio da fotografia da página do livro.

[2] Substantivo.

[3] Verbo

[publico.pt, 23.012.19. ranscrição integral. Os “links” a verde são meus. Textos desta série anteriormente reproduzidos aqui: Parte IX, Parte VIII, Parte VII, Parte VI, Parte V, Parte IV, Parte III, Parte II, Parte I. ]

 

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(Com o AO90) “A diversidade cultural AINDA é preservada”

Esqueçamos as patranhas do costume.

Finjamos não ver as patacoadas enjoativamente repetitivas.

Atenhamo-nos, por conseguinte, ao essencial: mas o que raio vem a ser isto?

Bem, isto, esta “notícia” da treta, este conjunto desconexo de paleio acordista, esta inacreditável lista de bojardas brasileirófilas é só mais uma espécie de eructação propagandística, de branqueamento do neo-colonialismo: não existe aqui a mais ínfima réstia de “notícia”, os “conteúdos” do artigalho — bem como os nomes e cargos nele citados — servirão apenas para citar como “fonte”. Táctica básica na difusão de contra-informação, o confusionismo referencial consiste em publicar umas coisas algures para mais tarde citar esses mesmos “sound bites” (que não significam nada) e respectivos autores (que ninguém conhece), tentando assim conferir alguma espécie de validade “científica” às bojardas e revestindo-as de uma suposta dignidade intelectual conferida pela respectiva publicação na “imprensa”, insinuando-se esta simples citação de um manhoso artigo publicado num jornal ainda mais manhoso como sendo algo semelhante a “citação bibliográfica”.

Como perfeitamente sintetiza Nuno Pacheco, citar substitui a leitura, tal como a vaga ideia substitui o pensamento“; pois muito bem, então aqui temos um espectacular exemplo do axioma.

Este mais do que evidente caso de propaganda e intoxicação, inserido na mais recente campanha de contra-informação lançada por alguns brasileiros alucinados e acolitada por alguns portugueses deslumbrados (ou  vendidos), contém toda a “cartilha” da seita acordista. Estas vão destacadas a “bold”, algumas sublinhadas e as mais evidentes ou risíveis ficam assinaladas a vermelho.

Mas há no texto desta “notícia” em particular uma expressão que, de tão sinistra, assinalei a “bold”, sublinhada e a vermelho.

Arrepiante enquanto ameaça descarada, será certamente citada no futuro como “fonte” pelos agentes policiais da novilíngua.

Que outros o leiam como se estivessem ouvindo um toque a finados. E que por isso mesmo corram a fazer soar o toque de alerta, que por todo o lado se oiça a ordem para cerrar fileiras.

Linguista afirma que acordo ortográfico amplia alcance da língua portuguesa

Por Amanda Mendes

Jornal “Bom Dia”  (Brasil), 21.02.19

Novo acordo ortográfico completou 10 anos em 2019

Linguista e professora da URI, Lúcia Balvedi Pagliosa
Ministrante do curso de extensão da URI Cássio Lucas
Professora de Língua Portuguesa do Colégio Estadual
Professor Mantovani, Nádia Federle
Professor de Português da URI, Neivo Zago

 

Entre encontros e desencontros, muitas discussões e elaboração de alternativas para difundir internacionalmente a língua portuguesa, o novo acordo ortográfico completa neste ano, uma década. 

Contudo, a história da atualização da norma escrita iniciou no século passado, o acordo entrou em vigor em 2009, mas com período de transição até 2016 e há três anos as regras já são obrigatórias.

De acordo com a linguista e professora da URI, Lúcia Balvedi Pagliosa, há mais de 20 anos foram suscitados debates para promover a unificação ortográfica entre os países que têm a língua portuguesa como oficial. “Nesse momento, existia a exigência de que todos os países deveriam assinar o decreto. No entanto, depois foi protocolado uma notificação permitindo que pelo menos três países ratificassem as alterações ortográficas”, destaca Lúcia.

A professora ressalta ainda, que se trata de um acordo e não de uma reforma ortográfica, portanto, além de não ter a pretensão de alterar a modalidade oral da língua, é apenas uma forma de criar convenções para unificar a língua portuguesa. “Muitas pessoas questionavam: “terei que me alfabetizar de novo?” e a resposta é não. Estatisticamente, no Brasil foi mudado cerca de 0,47%, já em Portugal, por exemplo, as modificações ficaram próximas a 2%, ou seja, nós não temos muito a que nos adaptar“, pontua.

Lúcia reforça que a unificação permite ampliar de forma expressiva a circulação de obras em língua portuguesa e potencializa seu uso, sendo que é a mais falada do hemisfério Sul, “afinal, o uso de uma linguagem implica o entendimento de todos os usuários e, por isso, a alteração é apenas na escrita, ou seja, a diversidade cultural ainda é preservada, pois não foi mudada a pronúncia das palavras, somente a grafia“, enfatiza.

Nos últimos anos, a URI tem promovido semestralmente um curso de extensão para auxiliar nesse processo de atualização da escrita em língua portuguesa, coordenado pela professora Lúcia e ministrado por Cássio Lucas, que possui formação em licenciatura em Letras. Conforme o ministrante, a unificação também permite, por exemplo, que a Organização das Nações Unidas (ONU) adote a língua portuguesa como oficial.A ONU não reconhece como oficial as línguas que possuem mais de uma ortografia. Nestes casos, só a consideram como um dialeto, pois não tem força de língua cultural e com representatividade. Vale ressaltar que foi alterada a escrita, porque não é uma unificação da língua, mas da ortografia. Assim, ainda continuarão existindo os sotaques, diferenças e riquezas culturais na língua“, destaca Cássio.

Com relação a recepção das pessoas às novas regras, Cássio acredita que não é a maioria das pessoas que está apta a escrever conforme o acordo. “Percebo que aqueles que trabalham com a palavra escrita, tais como, jornalistas, advogados, publicitários e professores de língua portuguesa, estão atentos às regras do novo acordo, no entanto, penso que uma outra parcela da população ainda possui muitas dúvidas“, conclui.
Desafios na escolarização
Para a professora de Língua Portuguesa do Colégio Estadual Professor Mantovani, Nádia Federle, o acordo facilitou significativamente a união entre os países que a utilizam o português como língua oficial. “A língua é um organismo vivo, ela se modifica, se transforma e temos que nos adaptar às novas regras, caso elas estejam sendo implementadas para possibilitar melhoras culturais”, pontua.
No entanto, Nádia percebe que ainda há desafios para melhorar a aprendizagem dos estudantes. “Como professora do terceiro ano do ensino médio, eu noto que estamos enfrentando uma dificuldade muito grande com as novas regras. Percebo que devem ser intensificados alguns exercícios no momento da trajetória escolar em que aprendem essas regras. Outra questão é apostar na repetição de exercícios e leitura para fixar a norma escrita. A resistência de assimilação do novo acordo não é só dos alunos, mas também das famílias e professores, por exemplo”, destaca Nádia.
Analisando o contexto de escola pública, a professora ainda apresenta outras dificuldades, tais como a atualização de obras literárias. “Não temos como nos desfazer de livros se não temos recursos para substituí-los, considerando que são obras de extrema importância e os estudantes precisam ter esse contato. Outra questão é que alguns livros não foram atualizados, portanto, eles acabam lendo com a ortografia antiga”, pontua.

A falta de assimilação das regras entre os estudantes também preocupa o professor de Português da URI, Neivo Zago. “É importante considerar que as alterações são planejadas para melhorar algo, contudo, a praticidade não trouxe benefícios. Algumas modificações são muito difíceis para os estudantes e falantes quando se trata da redação de texto”, pontua.

Outro aspecto que Zago questiona é a motivação comercial do acordo. “Há quem diga que um dos objetivos do acordo articulou interesses comerciais, levando em consideração que as novas regras demandaram a reedição de livros e, com isso, mobilizou editoras, por exemplo”, conclui o professor.

Confira algumas mudanças:
– O alfabeto ganhou, novamente, três letras: k, w e y;
– Não se usa mais o trema;
– Caiu o acentos gráficos em ditongos abertos (ei e oi) das palavras paroxítonas;
– Nas palavras paroxítonas, não se usa mais o acento no i e no u tônicos;
– Caiu o acento das palavras terminadas em eem e oo(s);
– Não se usa mais os acentos diferenciais.

Source: Jornal Bom Dia | Notícias | Notícias: linguista-afirma-que-acordo-ortografico-amplia-alcance-da-lingua-portuguesa

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Á tramoço e minuins

«Hoje temos “esta grande controvérsia do acordo ortográfico”, mas “os romanos já tinham resolvido isso”, ao não pronunciarem na oralidade certas letras que apareciam na escrita culta.»

Ou não disse exactamente isto ou, se, ainda que vaga e confusamente, proferiu tal bacorada, então  estamos perante um número circense — abrilhantado pelo inerente “palhaço rico” — que ficará decerto nos anais, salvo seja, do anedotário gramatical. 

Eu cá, notório ignorante (e insuportável fã de minhoquices), confesso que nunca ouvi alguém a pronunciar seja o que for de outra forma que não “na oralidade”. Como debitar asneiras, por exemplo, sem as deitar pela boca fora? Linguagem gestual, claro, pode ser, mas isso não é bem “na oralidade”. E então? Como pronunciar (ou omitir na pronúncia) “certas letras que aparecem na escrita culta” (ou na escrita inculta, “tipo” menus das tascas) sem ser pela “oralidade”? Fala-se pelas orelhinhas? Utiliza-se qualquer outro orifício corporal para “soprar” umas letrinhas (e omitir outras)?

Insondável mistério. Estou sem palavras. E nem sei por que buraco as faria sair, caso me ocorresse algo para dizer a respeito.

A tautologia, de um ponto de vista gramatical, possui — ao contrário da escatologia, na acepção biológica que remete para a coprofilia, longe vá o agoiro — uma piadética intrínseca de impagável hilariedade. Redundâncias tão comuns como subir para cima, descer para baixo, entrar para dentro, sair para fora ou opinião pessoal, por exemplo, constituem uma espécie de 1.ª Classe do Ensino Primário, de tal forma são… primárias. Mas formulações pleonásticas como esta, “pronunciar na oralidade”, ah, bem, isto é realmente de outro nível, é pleonástico majestático, é abundantemente redundante, é coisa para sair no exame não da 1.ª mas da 4.ª Classe, ou então ainda mais arriba, upa, upa. 

Escreviam como falavam“, afirma Lourenço. Vai daí, toca a “desempoeirar” a gramática latina que, segundo garante, “será para todos“. Argumentum ad baculum, bem entendido, que estendem acordistas por arrevesada analogia sobre o AO90: “escrever como se fala”, “o que não se pronuncia não se escreve“, “facilitar a aprendizagem“, é isso o que significa “desempoeirar” no hiper-acordista jargão TAP (Tretas para Aldrabar Pategos).

Bom, vejamos: se houver por aí quem passe bem sem semelhante coisa, quem aprecie “poeira” na sua gramática e estime “empoeirados” todos os seus livros, pois então que levante o braço.

o/ 

A gramática latina “desempoeirada” de Frederico Lourenço será para todos

| Livros | PÚBLICO, 18.02.19

Nova Gramática do Latim irá para as livrarias a 15 de Março numa edição da Quetzal. Agora o sonho do Prémio Pessoa 2016 é… fazer uma gramática do grego.

A gramática latina mais usada em Portugal teve a sua primeira edição há mais de 50 anos e reflectia ainda os programas e as metodologias do ensino do latim nos liceus antes do 25 de Abril. Mas a partir de 15 de Março estará nas livrarias portuguesas a Nova Gramática do Latim, um volume de 500 páginas preparado por Frederico Lourenço, Prémio Pessoa em 2016, docente de línguas clássicas desde que se licenciou, em 1988, tendo começado o seu percurso profissional como professor de Latim no ensino secundário. A novidade foi apresentada esta segunda-feira de manhã pelo director editorial da Quetzal, Francisco José Viegas, e pelo próprio Frederico Lourenço, num encontro com os jornalistas na Cinemateca, em Lisboa.

“Não sou o primeiro tradutor português da Bíblia a publicar em simultâneo uma gramática de latim porque no século XVIII António Pereira de Figueiredo, o primeiro tradutor da Bíblia completa para português, também foi autor de uma gramática de latim muito utilizada ainda no século XIX”, contou Frederico Lourenço aos jornalistas.

Essa gramática “foi feita com aqueles parâmetros que eram habituais no século XVIII e XIX, em que o latim fazia parte da escolaridade”, lembrou. “Hoje uma gramática como a de António Pereira de Figueiredo não seria útil para ninguém. Era necessário pensar numa gramática do latim feita noutros termos e foi isso justamente que eu quis fazer”, acrescentou Lourenço.

O novo volume será uma gramática moderna e actualizada destinada aos professores e alunos do ensino secundário, aos universitários e também a quem não sabe nada daquela língua mas gostaria de poder olhar para um excerto em latim e perceber o que lá está escrito.

“Muitas pessoas gostariam de saber latim – até pessoas que não estão ligadas às Letras. Outras – historiadores, arqueólogos, linguistas, teólogos, filósofos e lusitanistas – têm consciência de que deveriam saber (bastante mais) latim. E outras, ainda, estão de facto a aprendê-lo em Portugal, na escola ou na universidade, mas sem se darem conta de que, muito provavelmente, usam recursos para o estudo do latim que ainda reflectem, em pleno século XXI, os programas e as metodologias dos liceus no tempo da ditadura de Salazar. Este livro pretende oferecer a todas estas pessoas uma gramática nova, cujo objectivo é sistematizar de forma desempoeirada os tópicos essenciais para a leitura de textos latinos em prosa e em verso”, escreve, no Preambulum deste livro, o seu autor, que está a fazer a tradução mais completa da Bíblia para português e é também tradutor da Odisseia e da Ilíada (e das respectivas versões para jovens).

“Escreviam como falavam”

(mais…)

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500 anos Barreiras (em pista coberta)


Já começamos a ficar um bocadinho fartos deste bacano (termo aqui aplicável com a devida carga de dignidade parlamentar) mas, dado voltar ele à carga com o seu querido “valor da língua” (este também só vê cifrões, como o Tio Patinhas) e com mais uma declaração de amor dedicada à sua verdadeira pátria, a terra do samba, bom, assim sendo, atão váláver o que lá vem desta.

Pois parece que, por entre dois ou três novíssimos “argumentos”, esgalha Barreiras, neste seu segundo textículo a seguinte verdadeira pérola de cultura: «No ano 1500, só um milhão de pessoas falava português no mundo.»

Eisch! C’um caneco, bálhamedeus, etc.! Isto é mesmo fantástico. Uma descoberta sobre as Descobertas, mas que maravilha: no ano 1500, “por coincidência” aquele em que Cabral largou âncora em terras de Vera Cruz, éramos só um milhão, no total, mas agora — certamente, evidentemente, devendo-se tão extraordinário fenómeno (demográfico) ao Brasil — somos para cima de um ror de gente a “falar português no mundo”, eia, há quem aponte para 240 milhões, ou assim, números redondos.

Descobriu Cabral o Brasil há 500 anos e descobre agora Barreiras que a História deu um salto de cinco séculos, em 1500 a população total do planeta não era afinal de 500 milhões. Deixemos os pormenores insondáveis (a Revolução Industrial, a máquina a vapor, a “pílula”, a mecanização maciça, a vacinação, )  para quem sabe umas coisas, como é o notório caso de Barreiras, ele há-de ter informações fidedignas sobre o senhor Taylor, o senhor Ford, o senhor Von Braun e outras personagens inventadas pelos suspeitos do costume.

Há 500 anos nós éramos “só” um milhão e agora somos mais de 260 milhões de “lusófonos”, eis a tese de Barreiras, de 1 vamos num pulinho a 240+IVA, e que se não fosse o Brasil mai-lo milagroso “acordo ortográfico” continuávamos a ser aquele triste milhãozito, e pronto, não se fala mais nisso, adiante.

Nota, porém, Barreiras, neste seu artigalho, com tremendo susto, que a coisa  terá emperrado algures. Chega mesmo ao inusitado ponto, Barreiras, de se queixar com excruciante amargura que é preciso  «resolver de uma vez por todas o que fazer ao chamado Acordo Ortográfico. Será um nado morto?»

Pois, Barreiras, ainda bem que pergunta.

É, Barreiras. É um nado-morto.

II) Monolinguismo – o analfabetismo do século XXI?

Na Sorbonne, o português é a terceira língua mais procurada, a seguir ao inglês e ao espanhol.

«Os preconceitos têm mais raízes do que os princípios».

Nicolau Maquiavel

No que respeita à aprendizagem de línguas estrangeiras, os dados disponíveis atestam que, ao contrário do percepcionado, não são muitas as pessoas na Europa que aprendem (aprenderam) e falam línguas estrangeiras (inglês e outras). Em 1970, 25% dos portugueses não sabiam ler e escrever. Essa percentagem é actualmente de 4% (ou seja, ainda meio milhão de pessoas com idade entre os 18 e os 65 anos).

No ranking EPI (English Proficiency Index) de 60 países, Portugal é o 14º (igual à Alemanha e Suíça) entre os melhores, apesar de tudo, a falar inglês. Os melhores são a Suécia, a Noruega, a Holanda, a Estónia, a Dinamarca, a Áustria e a Finlândia; os piores são o Chile, Marrocos, Colômbia, Equador, Venezuela, Jordânia, Tailândia, Arábia Saudita e Iraque.

Da Europa, os piores a falar inglês são os franceses e os italianos. No ano 1500, só um milhão de pessoas falava português no mundo. Em 2019, em todos os continentes, são mais de 260 milhões os que hoje falam português. Mais do que nós, nas línguas europeias, só o espanhol e o inglês. Em 2100 serão 400 milhões os falantes de português em todo o mundo. No Facebook e no Twitter, o português é a 3ª língua mais utilizada, e na Internet é a quarta. Países como o Senegal (que as estimativas assumem ir ter um grande aumento da população) já tem quase 50 mil alunos a aprender o português.

Em setenta dos quase duzentos países que o mundo tem, existem actualmente mais de duzentos mil estudantes de português. Na Sorbonne, o português é a terceira língua mais procurada, a seguir ao inglês e ao espanhol. Na China, a aprendizagem e o domínio da língua portuguesa estão em grande expansão e não só através de Macau. O português, língua com mais de oitocentos anos (desde o século XII), tem sido ao longo dos séculos um instrumento de identidade de vários estados e comunidades politicamente organizadas.

O monolinguismo, enquanto uma espécie de analfabetismo do século XXI, não pode servir para acabar e secundarizar (e/ou matar) línguas e dialectos. Antes pelo contrário. No caso do português, temos de ser mais inteligentes e corajosos na sua afirmação enquanto língua de poder. Língua falada e oficial nos principais fóruns internacionais (Nações Unidas, FMI, OCDE, Organização Mundial de Turismo, Organização Mundial do Comércio, Vaticano, etc.). O poder regulatório das políticas linguísticas à escala mundial tem um caminho a fazer e muitos objectivos a atingir.

Fora de Portugal, a língua portuguesa não pode ser apenas uma língua de ‘rua’, do ‘café’, do ‘centro comercial’, etc. Tem de ser também e acima de tudo uma língua da diplomacia, da economia, das cimeiras internacionais.

E neste domínio há muito a fazer. Desde logo, resolver de uma vez por todas o que fazer ao chamado Acordo Ortográfico. Será um nado morto? E já agora, quem cuida da ortofonia? E quem explica a alguns dos nossos ricos e profissionais das bolsas de estudo que não devem esquecer a sua língua materna? Isabelle Oliveira, vice-reitora da Sorbonne, diz que «um cientista que abandone a língua que lhe é mais familiar para realizar o seu trabalho nunca poderá alcançar o seu pleno ‘potencial’». Porque o valor das línguas maternas no mundo científico é muito relevante.

O dia 5 de Maio é o dia internacional da língua portuguesa. O dia 8 de Setembro é o dia internacional da literacia. Saibamos estar à altura não só da importância de ambas as datas mas também de projectar a importância do seu significado. Num tempo desafiante, em que o monolinguismo não pode significar o analfabetismo do nosso tempo – e o esmagamento da generalidade das línguas por uma língua dominante. Em particular, pelo inglês.

olharaocentro@sol.pt

[Transcrição integral. Semanário “Sol”, Feliciano Barreiras Duarte, 18.02.19, II) Monolinguismo – o analfabetismo do século XXI?. Destaques e sublinhados meus.As letras em falta no original do artigo foram automaticamente repostas pela solução Firefox contra o AO90 através da extensão FoxReplace do “browser”.]

Gráfico de Keith Montgomery, Department of Geography and GeologyUniversity of Wisconsin USA

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Uiss Maiaiss nu Timô

E por isso – com a mesma naturalidade – aqui se lembra o receio, formulado já no parecer das instâncias do ME, em 29 de Maio de 1989, de que “em Portugal as medidas pela defesa da Língua se confinam à assinatura do protocolo do referido acordo, o que, sem mais nada, significaria na prática, a consolidação da vertente brasileira em detrimento da vertente lusitana, pelo que o acto de defesa de um acordo supranacional acabaria por se transformar numa prática antinacional [parecer DGBES]


O Acordo Ortográfico poderá afectar negativamente a cooperação que hoje existe na área do livro escolar entre Portugal e os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa. Dado que em tais países se segue a norma ortográfica portuguesa toda a produção do livro escolar – à excepção de uma escassa produção doméstica – é exclusivamente assegurada pelos editores portugueses.

O Acordo poderá não só deslocar esta produção para o Brasil, como determinar, por arrastamento, a prevalência de docentes brasileiros na cooperação com tais países, no âmbito do ensino. [parecer DGBES]

«Representantes do Ministério da Educação estarão no Timor Leste, de 9 a 13 de abril, para avaliar e monitorar programas de cooperação educacional, especialmente o Programa de Qualificação de Docentes e Ensino de Língua Portuguesa, implementado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes/MEC) em 2005.»

«O coordenador-geral de Cooperação Internacional da Capes, Benício Schmidt, vai ao Timor Leste para tratar da implantação de um programa de formação de magistério para os professores em exercício nas escolas primárias do país.»

«O grupo de brasileiros que está no Timor Leste ministra aulas, em português, de disciplinas como matemática, química e biologia, com o objetivo de qualificar docentes dos diversos níveis de ensino. Um dos resultados alcançados pela missão foi a elaboração de livros didáticos de física, biologia, história, geografia e educação física, levando em conta a realidade local.»[Governo do Brasil, Ministério da Educação]

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Não invocarás o nome de Deus em vão de escada

Muito bomEkbom, 1981 texto, este de Nuno PachecoNuno Pacheco, jornal “Público”, 2019. Com muita pena minhaO Peninha [n. Fethry Duck], Walt Disney, 1964, nunca viStevie Wonder, “I Just Called To Say I Love You“, mil novecentos e oitenta e picos um único cagãoAntónio Lobo Antunes, O Próprio, vencedor do Prémio Nobel da Literatura de 2119 que não enchesse qualquer das suas grandessíssimas merdas(como diria Miguel Esteves Cardoso, um bacano à séria) com um monte de citações ou de referências a uns gajos de quem nunca ninguém ouviu sequer falarDomingos Monteiro, 1903 e que os próprios cagões(“tipo” João Baião mas em versão por escrito, iach, que horror) jamais leram, aquilo é tudo a fingir, a ver se cola, uns nomezinhos catitasEça de Queirós, “Cartas de Inglaterra”, ed. Ferro&Filhos, Rua de S. Paulo, 14, Lisboa, 1888 para tentar impressionar o pagodeMao Tse-tung, 1949.

Uma finalidade subsidiária da referencite aguda (ou bibliografite mórbida) é esconder a ignorância dos próprios, daqueles cromos que se dizem “autores” mas que nem ler sabem, quanto mais escrever; destarte (adoro escrever “destarte”, é muntafixe e dá imensa pinta de jurista), sepultando a sua triste prosa, o seu exíguo domínio da Língua e, sobretudo, a sua assustadora pobreza de espírito, sob diversas camadas de nomes sonantes e polvilhando toda a superfície da sua poia em prosa com umas citações avulsas e desconexas, o vigarista da escrita julga ter ascendido — como se tivesse apanhado um elevador — às alturas estratosféricas onde imagina irá confraternizar com os verdadeiros deuses da Literatura, cavaquear com Eça, estender o bacalhau a Camilo, jogar à bisca lambida com toda a Geração de 70 e até conversar em “estrangeiro” com um Zola, com um Murakami, com dois (ou três) Cervantes.

Não adianta sequer — mais resultará espetar um prego na parede e dar-lhe cabeçadas — tentar fazer ver a tal raça de cretinos que as citações e notas bibliográficas, quando inseridas no corpo do texto, funcionam na leitura como travões a fundo num carro, na compreensão como cubos de gelo atirados às pázadas, na fluidez narrativa como a entrada súbita de um marido ciumento quando estávamos muito entretidos a “conhecer” sua digníssima esposa.

É o mesmo que ouvir música enquanto alguém vai papagueando o nome dos instrumentos (e o respectivo fabricante), como se chama cada um dos executantes (com indicação do respectivo número de contribuinte), qual é o tempo e o tom de cada acorde, que horas são e quando é que se come. Corta o ritmo, raios, estraga tudo, nem assim  entendem?! 

Pobres diabos, tão tristes citadores, sobre os quais é vão e inútil e redundante e, sobretudo, imensamente estúpido perorar. Nem de insultos são merecedores. Ou de que a seu propósito se gaste nosso Latim.

Enfim, vale pelo divertimento. Acho-lhes imensa piada, valha-me Deus.

Deus, Fernando Pessoa ou McLuhan: cuidado com as citações

Nuno Pacheco
publico.pt, 14.02.19
Citar substitui a leitura, tal como a vaga ideia substitui o pensamento.

Se o texto apócrifo é uma praga antiga, como se recordou aqui há uma semana, a citação abusiva não o é menos. Há criaturas que, para justificarem uma tese ou tornarem credível um texto, recorrem a frases alheias, muitas célebres e já feitas cliché, venham elas de Platão ou Churchill, Pessoa ou Lacan, Homero ou Lincoln. Citar substitui a leitura, tal como a vaga ideia substitui o pensamento. Há vários livros e sites de citações, e deles não vem mal ao mundo; mas já o seu uso leviano ou acéfalo é, pelo contrário, coisa a evitar.

Se há palava usada e abusada, é esta: a de Deus. Não falta quem se arrogue a invocá-lo para justificar tudo, mesmo as ideias mais pérfidas ou os actos mais criminosos. E esta “cegueira” começa por ser exaltação. No Brasil, um deputado conhecido como Pastor Sargento Isidório apresentou, na primeira sessão legislativa da era Bolsonaro, um projecto de lei para tornar a Bíblia “património nacional, cultural e imaterial do Brasil e da Humanidade”. Corresponde, por alto, a decretar que a água é líquida ou que uma esfera é redonda, já que a Bíblia não precisa de leis para se tornar património universal. Mas Isidório, ex-militar que diz ter curado a sua homossexualidade com “a palavra de Deus” (pena que não tenha curado o que o levou a tal afirmação), quis chamar a si a profética tarefa. Ora num congresso onde as facções dominantes já são conhecidas por BBB (Bíblia, Boi e Bala), imagina-se o efeito disto.

Sobre a Bíblia, há um interessante texto de Frei Bento Domingues, no PÚBLICO, em 2016, intitulado “Não invocar o nome de Deus em vão”. Escreveu ele: “Nunca temos acesso à ‘Palavra de Deus’ de modo imediato. Estritamente falando, a Bíblia não é a Palavra de Deus, mas um conjunto de testemunhos de fé de crentes que se situam numa tradição particular da experiência religiosa.”

O pior, fora dessa experiência, é que muitos dela se apropriam no sentido mais vil. E o que deveria ser inspiração benigna passa a justificação de tormentos.

Noutro campo, há entre as simplificações do pensamento uma particularmente irritante: o abuso de Fernando Pessoa na já estafada frase “A minha pátria é a língua portuguesa” ou até, neste caso mal citado, “A minha pátria é a minha língua.” O que escreveu Pessoa, a coberto do seu heterónimo Bernardo Soares, no Livro do Desassossego? Na íntegra, e na ortografia original, anterior à grafia oficial decretada em 1911, escreveu isto (corresponde aos 2 últimos parágrafos, de 5, do trecho 259):

“Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse. Sim, porque a orthographia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-m’a do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.”

É bem menos cómodo e romântico do que a frase tirada do seu contexto, não é verdade?

Por último, uma cena de um filme que é um achado. Woody Allen, no seu Annie Hall (1977), inventa um diálogo que põe em causa o abuso do pensamento de outrem. Na fila de um cinema, o personagem que ele interpreta (Alvy Singer) ouve alguém atrás de si (o actor Russel Horton) dizer para a namorada: “O Marshall McLuhan trata a questão em termos de alta intensidade. Estás a perceber? Um medium quente…” Allen diz que ele não faz a mínima ideia do que diz MacLuhan, mas Horton defende-se: “Ai é? Por acaso até dou uma cadeira em Columbia sobre TV, Media e Cultura. E acho que as minhas ideias sobre o sr. McLuhan têm imensa validade.” Allen riposta: “Ai acha? Calha bem, porque tenho aqui o sr. McLuhan.” E Marshall McLuhan, o próprio, surge em cena e diz: “Ouvi o que disse. Não sabe nada do meu trabalho. (…) É espantoso que o deixem dar uma cadeira do que quer que seja.”

É nesse momento que Woody Allen, na pele de Alvy Singer, se vira para os espectadores e diz: “Se a vida fosse assim…” Infelizmente não é.

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