Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: tugas

«Adeus, África» [Eduardo Oliveira E Silva, jornal “i”, 12.09.18]

Este artigo acaba por ter bastante interesse — numa segunda leitura, numa terceira, ou aí por volta da 5.ª vez, vá — se atendermos ao facto de o autor (apesar de provavelmente acordista e dos mais ferozes, a julgar pela voracidade com que estraçalha “consoantes mudas”, qual Lince bípede, mas sendo ainda capaz de enumerar todos os efeitos nefastos (laterais, bilaterais, multilaterais e colaterais) que a peregrina “ideia” de uma putativa “língua comum” (a brasileira, evidentemente) vai já, paulatina mas progressivamente alastrando em Portugal e nos PALOP.

O que significa, portanto, que AO90 ou CPLP são na prática uma e a mesma coisa: o processo de demolição em curso do património identitário basilar de 7 dos 8 países cuja alegre agremiação, sob o alto patrocínio do Brasil e à custa, à conta, à pala do erário público de Portugal, persegue o objectivo único de erigir um II Império brasileiro de cariz alucinogénico.

Com alguma timidez, certamente de mãos trémulas, ele escreve este pequeno manifesto não tentando sequer disfarçar que algures no passado também acreditou nas patranhas da seita mas é crível que de repente ter-lhe-á caído um pedregulho em cima. Este homem diz da CPLP o que certo profeta não diria da entremeada assada mas bem poderia trocar os nomes aos bois, chamar AO90 à Comunidade dos Países de Língua Oficial Brasileira (CPLB), que ainda assim os ditos quadrúpedes ruminantes seriam os mesmos: em manada, cabeças para abate.

 

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Adeus, África

Aos poucos mas inexoravelmente, os países africanos de língua portuguesa afastam-se de nós

Eduardo Oliveira E Silva
Jornal “i”, 12.09.18

1. À medida que o tempo passa, verifica-se um inexorável afastamento entre Portugal e os países africanos de língua portuguesa. O fenómeno pode escapar a alguns, mas é real e não se limita a temas como o acordo ortográfico. O problema não tem só a ver com os africanos dos PALOP que vivem em Portugal ou com os portugueses que por lá andam e trabalham. É mais fundo e, portanto, mais preocupante. Há um distanciamento político, económico e cultural que não cessa de crescer. A circunstância de haver emigrantes e imigrantes de um lado e de outro não impede um esfriamento das relações e um distanciamento. Há não muito tempo havia mais atenção e preocupação com o que se passava em cada um dos países. Agora não. Há indiferença e não propriamente afecto, para usar uma palavra da moda. Os Estados passaram a intitular-se parceiros estratégicos. Os donos das empresas têm-nas para fazer dinheiro e não por gosto, orgulho e função social. Esse desapego instalou-se também nos cidadãos, que já pouco se interessam por saber as circunstâncias próprias e os problemas por que passam ou deixam de passar as pessoas em concreto. É uma situação triste porque contraria a proximidade que, apesar da História e do colonialismo, conseguiu manter-se entre muita gente. Hoje, tanto faz para um português que um africano seja daqui ou dali, desde que ele consiga comunicar na mesma língua. Inversamente, o problema deve existir. Há xenofobia anti-portuguesa nos PALOP e anti-angolana por cá. Podem dizer que há a CPLP, que há cooperação e que há um conjunto de acordos, além de haver milhares de estudantes dos PALOP (e do Brasil) em Portugal. Há isso tudo, mas não há compreensão, sentimento e uma partilha de coisas e causas comuns. Aos poucos, ficamos alheios, o que não significa hostis. No mundo do trabalho, estão a reformar-se cá e em África os homens e as mulheres que tinham mais ou menos 20 anos no 25 de Abril. Por muitas diferenças ideológicas que tenham tido, são eles o cimento de relações que se foram mantendo exactamente por causa de laços identitários que agora se vão dissolvendo. Apesar do mérito que têm instituições como a RTP e a sua notável RDP/África, os países lusófonos africanos e Portugal estão a caminhar de costas voltadas. As viagens de Estado e as convenções nada resolverão se as sociedades civis luso-africanas não reverterem a situação. E pode–se apostar que isso se confirmará, passada a espuma das viagens oficiais de António Costa a Angola e de João Lourenço a Portugal. Se não houver um movimento de aproximação genuíno e civil, teremos com os PALOP um panorama semelhante ao que se passa com o Brasil, cujos imigrantes não querem saber nada do que aqui acontece, enquanto as sociedades portuguesa e brasileira só param pontualmente uns minutos para ver nas televisões escândalos, casos pitorescos ou de violência que tenham ocorrido num dos países. Além de turistas que descobriram que Portugal é das nações mais importantes da história dos últimos 500 anos, chegam do Brasil pobres e ricos. Paradoxalmente, vêm pelos mesmos motivos: fugir da pobreza e da violência. Uns vêm para ganhar a vida, outros para gastar o que têm num país onde há calma e onde os entendem. Pode ser importante, mas é pouco. Amanhã, não pode acontecer o mesmo com os PALOP.

(…)

[Transcrição parcial de “Adeus, África”, da autoria de Eduardo Oliveira E Silva, publicado no jornal “i” de 12.09.18. Destaques meus. A desortografia  abrasileirada do original  foi automaticamente corrigida pela solução Firefox contra o AO90 através da extensão FoxReplace do “browser”. Imagem de topo de: VOA (Angola)]

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«Crazy poor portuguese» [Clara Ferreira Alves, “Expresso”, 01.09.18]

«De Goa e Bombaim a Malaca, de Macau a Pequim, da Índia aos confins da Pérsia, da China e do Japão, os portugueses deixaram uma herança histórica e cultural que decidiram não honrar e eliminar. A lusofonia tornou-se um conceito brasileiro e africano, um conceito que nenhum resultado teve até hoje, a não ser a consequência de um Acordo Ortográfico inútil e destruidor da raiz latina da língua. Ou seja, tudo o que a lusofonia com esta matriz PALOP fez por Portugal foi pago por Portugal e ignorado por todos os países lusófonos. A política da língua, inexistente, serviu para o costume, a criação de um corpo de funcionários públicos e clientelas dos partidos, que existem sem missão e sem verba.»
Clara Ferreira Alves

CRAZY POOR PORTUGUESE

Clara Ferreira Alves

Abolir filmes asiáticos não nos ajuda, porque quem conheça a Ásia percebe que o futuro está no eixo do Pacífico e que o eixo do Atlântico está a terminar

Quando saiu do elevador deixou um perfume que entonteceu os sitiados. Orquídeas? Jasmim? Flores brancas das que crescem na Ásia por todo o lado. Os sitiados, que iam para andares diferentes do hotel, ficaram em silêncio a aspirar o cheiro do dinheiro. Tudo, naquela mulher, cheirava a dinheiro. A roupa de marca, a jóia discreta, o cabelo negro lacado, os sapatos de verniz e salto alto, mil euros desenhados por aquele senhor com nome francês que tem casa na costa alentejana. E isto sabendo-se que ao anoitecer a chuva cairia com violência, inundando as ruas e escorrendo nos declives e goteiras com o barulho de uma catarata. Aqueles sapatos nunca saíam à rua, eram sapatos de motorista e carro de luxo, de portas abertas à passagem por gente fardada. Por servos. Aqueles sapatos pertenciam a uma mulher chinesa rica. Podia ser de Xangai, Pequim, Singapura ou Hong Kong, podia ser de Banguecoque, era sem dúvida de ascendência chinesa. Conforme as sábias palavras do grande viajante árabe Ibn Batuta, o marroquino nascido em Tânger em 1304, em nenhuma parte do mundo se encontra gente mais rica do que os chineses.

A frase serve de epígrafe à novela de Kevin Kwan que deu origem ao filme “Crazy Rich Asians”, que bate recordes de bilheteira e que a Netflix tentou comprar sem conseguir. O filme parece que não será visto nas salas portuguesas. A distribuidora assim decidiu, por ser um filme habitado por actores asiáticos e que se passa no universo exclusivo dos multimilionários de Singapura. O filme, como o livro, não passa de um best-seller de aeroporto que vale pelo que mostra desta Ásia com dinheiro, muito dinheiro. Mostra uma parte de um mundo que, para os portugueses que deixaram de ser comerciantes, aventureiros e diplomatas, deveria ser mais bem conhecida e deveria despertar mais curiosidade. Abolir filmes asiáticos não nos ajuda, porque quem conheça a Ásia percebe que o futuro está no eixo do Pacífico e que o eixo do Atlântico está a terminar. Ali estão os países que determinarão a prosperidade mundial, e os Estados Unidos perceberam isso. Portugal permanece um dos países mais ignorantes e avessos a um continente onde fomos importantes, onde desembarcámos e comerciámos e missionámos, onde construímos e onde deixámos uma elite, pequena, é certo, que foi a única elite do império português. De Goa e Bombaim a Malaca, de Macau a Pequim, da Índia aos confins da Pérsia, da China e do Japão, os portugueses deixaram uma herança histórica e cultural que decidiram não honrar e eliminar. A lusofonia tornou-se um conceito brasileiro e africano, um conceito que nenhum resultado teve até hoje, a não ser a consequência de um Acordo Ortográfico inútil e destruidor da raiz latina da língua. Ou seja, tudo o que a lusofonia com esta matriz PALOP fez por Portugal foi pago por Portugal e ignorado por todos os países lusófonos. A política da língua, inexistente, serviu para o costume, a criação de um corpo de funcionários públicos e clientelas dos partidos, que existem sem missão e sem verba.

A ignorância da Ásia prejudica-nos. O nosso conhecimento do continente não pode resumir-se à diáspora emigrante de Macau ou a um pacote de turismo de massas numa praia da Tailândia. Ao contrário dos franceses, que mantiveram os laços com a Indochina, Portugal não estudou nem investiu. Nos mercados asiáticos, não se vê uma marca portuguesa, uma só, esqueçam o pastel de nata, que foi culturalmente apropriado, o que demonstra que perdemos a nossa vocação de comerciantes para nos tornarmos o que somos, um país a vender as pratas da família para poder comer. Portugal está a ser comprado pela China, em largas quantidades, e não nos importamos de vender sectores essenciais que determinarão a soberania e nos reduzirão a uma plataforma logística. A actual ministra do Mar anda por aí num enlevo a ver se vende por grosso os portos portugueses aos chineses, contrato que nenhum outro país da Europa, com excepção da Grécia, assinaria. Pelas implicações futuras e pela demonstração da incapacidade para administrar bem o que nos pertence. O que não for vendido à China será vendido a Singapura ou à Tailândia, como aconteceu com as sobras hoteleiras do império Espírito Santo, que se desmoronou em corrupções e humilhações. Será vendido a gente como a do mundo mostrado em “Crazy Rich Asians”, gente que tem uma visão do mundo determinada pelo privilégio e o poder do dinheiro. Conviria percebê-los melhor, visto que não existem filmes, nem existirão, sobre os interiores e corredores da nomenclatura comunista, constituída também por crazy rich asians.

Não existe gente mais rica do que os chineses, ou não existe gente mais ostensivamente rica do que os chineses. A nossa relação com a Ásia devia ser aprendida e cultivada, ou não passaremos, no tempo que aí vem, de novos funcionários. De servos de gente e de culturas que não conhecemos nem estudámos. E abriremos as portas à sua passagem. Portugal tem especialistas da Ásia, excelentes, que nenhum ignorante político português se lembraria de consultar, tão entretidos que andam com a intriga palaciana e a discussão do Orçamento, único tema de um país na indigência. Crazy poor portuguese.

Expresso, Revista E, 01SET,2018

[Transcrição integral de transcrição integral publicada no “blog ” Cadernos da Libânia de artigo, da autoria de Clara Ferreira Alves, publicado no semanário “Expresso” de 01.0918. A desortografia  abrasileirada do original foi automaticamente corrigida pela solução Firefox contra o AO90 através da extensão FoxReplace do “browser”.]

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Museu Nacional do Brasil: 1818 – 2018

Em Dezembro de 2015 ardeu o Museu da Língua Portuguesa de S. Paulo, agora arde o Museu Nacional do Rio de Janeiro. Parece que o Brasil anda em maré de azar aos museus. Evitemos, porém, quaisquer aleivosias de trocadilhismo militante, como diria o célebre Odorico Paraguaçu, e limitemo-nos, para já, a dar conta da onda de emoção que o mais recente arraso provocou em ambos os lados do Atlântico.

Do lado de cá, o hype surpreendeu pela quantidade de manifestações de comoção e em especial pela qualidade, pelo tremendismo das mesmas.

Sem grande (ou nenhuma) surpresa, do lado de lá houve até manifestações de regozijo pela ocorrência. Fenómeno que será talvez de esmiuçar — porque tem sua piada — em  próximo “post”.

Muita gente anda me dizendo que, por mais cruel que fosse o Império Brasileiro, isso não justifica que se destrua a sua…

Publicado por Robson Lucas de Oliveira em Segunda-feira, 3 de Setembro de 2018

«Muita gente anda me dizendo que, por mais cruel que fosse o Império Brasileiro, isso não justifica que se destrua a sua memória. Concordo. Porém o que se perdeu não foi a verdadeira memória daquela época. Uma coisa é um museu que lembra e mostra os horrores de determinado período, como o holocausto, a segunda guerra mundial, etc. Desses museus saímos enojados com a crueldade humana. Outra coisa é um museu que CELEBRA uma época de horrores, como era o caso do Museu Nacional. Quem visitasse aquele palácio, agora em ruínas, como vocês acham que saía de lá, senão falsamente maravilhado com o período imperial?

O fogo não veio para devastar, mas para acender em nós a verdadeira visão da história. Veio como punição aos que a deixavam falsificar pela suntuosidade, pela beleza enganosa daquele antigo covil de tiranos.» [Robson Lucas de Oliveira, Facebook, 03.09.18]

Entrevista
Eduardo Viveiros de Castro: “Gostaria que o Museu Nacional permanecesse como ruína, memória das coisas mortas”

A tragédia do incêndio do Museu Nacional não deverá ser suficiente para abrir um debate sério no Brasil sobre o “descaso” a que tem sido votada a cultura, diz o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro. Este é “um país onde governar é criar desertos”.

Alexandra Prado Coelho
“Público”, 04.09.18

Eduardo Viveiros de Castro, 67 anos, é um dos mais conhecidos antropólogos brasileiros, autor de vários livros e do conceito de perspectivismo ameríndio [teoria a partir da visão ameríndia do mundo], e professor do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a instituição que na noite de domingo para segunda-feira foi destruída pelo fogo, que arrasou quase totalmente uma colecção de mais de 20 milhões de peças, com um valor incalculável. Falou ao PÚBLICO por telefone a partir do Rio.

Qual é a dimensão da perda do Museu Nacional do Rio de Janeiro para o Brasil e para o mundo?
O Museu Nacional talvez fosse o lugar mais importante do Brasil em termos do seu valor como património cultural e histórico, não só brasileiro como mundial. Trata-se da destruição do ground zero, o lugar central que era o símbolo da génese do país como nação independente e continha um acervo inestimável, não só do ponto de vista da história da cultura e da natureza brasileiras mas com peças de significado mundial. Foi destruída toda a colecção de etnologia indígena, inclusive de vários povos desaparecidos, foi destruída toda a biblioteca do sector de Antropologia, e foi destruído o Luzia, o fóssil humano mais importante e antigo das Américas. É uma perda que não tem como reverter, não há nada que se possa fazer que mitigue, que amenize essa situação. Só se pode chorar em cima do leite derramado, que não adianta nada.

As causas últimas desse incêndio, todo o mundo sabe quais são. É o descaso absoluto desse Governo, e dos anteriores, para com a cultura. O Brasil é um país onde governar é criar desertos. Desertos naturais, no espaço, com a devastação do cerrado, da Amazónia. Destrói-se a natureza e agora está-se destruindo a cultura, criando-se desertos no tempo. Estamos perdendo com isso parte da história do Brasil e do mundo, porque se trata de testemunhos com significado para toda a civilização.

É portanto uma perda com impacto a nível mundial.
Com certeza, tem impacto brasileiro, português, porque boa parte da história de Portugal estava nesse museu também, visto que foi a residência de D. João VI, e também da história mundial – a colecção de etnologia não tinha significado apenas para o Brasil pelo facto de os povos aqui representados habitarem essa parte do planeta, esses povos têm significado para a história da humanidade. Além disso, havia peças muito valiosas que não eram apenas de povos indígenas no território brasileiro, peças africanas, egípcias, etruscas.

É uma perda incalculável que se explica – não se justifica, mas explica-se – pelo descaso absoluto que todos os Governos, e esse Governo ilegítimo em particular, votam à cultura, com cortes dramáticos nos orçamentos da cultura e da educação, ameaças grave de desmontagem das universidades públicas [o Museu Nacional está ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro]. É um projecto de devastação, de criação de desertos, desertos no espaço e no tempo. A destruição do museu é um deserto no tempo, é destruir a memória, destruir a História.

E para si, em particular, o que é representa?
O Museu Nacional abrigava vários departamentos da Universidade. Era um museu de exposição, mas também de pesquisa, eu fazia parte do sector de pesquisa, de um programa de doutoramento em Antropologia. A minha relação com a parte física do museu, com os objectos, era bem menor do que a de vários colegas meus. A perda pessoal, imediata, para mim é a da Biblioteca de Antropologia, que devia ter uns 200 mil títulos e que era um instrumento de trabalho fundamental para a minha actividade como docente.

Essa perda atingiu-me de maneira directa, perdemos toda uma biblioteca construída ao longo de 50 anos. Como etnólogo, relativamente à colecção do Museu Nacional, significou para mim a perda de toda a memória material desses povos que foram destroçados pelo colonialismo europeu e que estavam ali como testemunhas mudas da história sinistra que foi a invasão da América pelas potências europeias.

A biblioteca de Antropologia tinha manuscritos, volumes insubstituíveis
Manuscritos, menos, porque a biblioteca central do Museu Nacional já não estava no edifício que foi destruído, estava num anexo, e é essa que contém as obras raras. A do programa de doutoramento era muito moderna, tinha toda a produção antropológica, sociológica, histórica, dos últimos 50 anos. Embora teoricamente possa ser refeita, não há dinheiro para o fazer. De resto, os fósseis, as borboletas, os insectos, as colecções de estudo, isso é insubstituível.

O que é que se deve fazer agora, perante este edifício queimado?
A minha vontade, com a raiva que todos estamos sentindo, é deixar aquela ruína como memento mori, como memória dos mortos, das coisas mortas, dos povos mortos, dos arquivos mortos, destruídos nesse incêndio.

(mais…)

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Feira do Livro do Porto 2018

Jornal da Feira do Livro do Porto 2018

Published on Aug 30, 2018

A inquietação é o tema dominante do grande festival literário deste ano, que homenageia o cantautor José Mário Branco nos 50 anos de carreira. Os assuntos ligados à sua obra – liberdade, amor e sublevação – são percorridos pelos debates, sessões de spoken word e lições comissariados por José Eduardo Agualusa e Anabela Mota Ribeiro. Entre 7 e 23 de Setembro, nos Jardins do Palácio de Cristal, há também um ciclo de cinema, três exposições, várias sessões especiais e ainda numerosas oficinas, acções de programa educativo e de animação.

[Imagem de topo de: CMP]

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“Os Maias”, bro? Yow, cena fatela!

Aparentemente, isto seria uma boa notícia: afinal os facínoras politicamente correctos (passe a redundância) que enxameiam o Ministério da “Educação” ganharam juízo e recuaram, ao menos por uma vez, se calhar sem exemplo, numa das suas desastrosas decisões.

Pois bem, não me parece. De todo. Não há nisto mais do que uma manobra táctica, aliás a do costume, consistindo esta em fingir que existe recuo quando se trata de simples adiamento: a seu tempo, quando àquela espécie de lagartixas extra-terrestres mais convier, o “recuo” de agora será mais tarde cobrado com juros exorbitantes. A real finalidade mantém-se intacta e entretanto os papalvos do costume rejubilam com o que julgam ser uma “grande vitória” a curto prazo.

Pois sim. A curto prazo o engodo da “reposição” de “Os Maias“, por exemplo, mas depois, a médio prazo, o abate sistemático de tudo aquilo que vagamente cheire a Literatura no ensino, e por fim, a longo prazo, a institucionalização da “ideia” subjacente: ler não passa de um ridículo anacronismo, às crianças e aos jovens a leitura “não serve para nada”, há que dar vazão à sua própria “criatividade” (jogando futebol, por exemplo) e promover a “inclusão” erradicando por via administrativa a “exclusão”. Sempre a mesma dicotomia simplista, a mesma premissa binária de incompatibilidade mútua,

Ou seja, patacoada pseudo-progressista atrás de patacoada pseudo-pedagógica, mais tarde ou mais cedo um “radioso” futuro de “igualdade” universal acabará de uma vez por todas com os últimos laivos de esperança em que as gerações vindouras não sejam exclusivamente compostas de perfeitos ignorantes, completos trogloditas, absolutos idiotas.

Os Maias voltaram à lista de leitura para o ensino secundário

Ministério da Educação recuou na proposta de conteúdos que devem ser leccionados no secundário. Versão definitiva das aprendizagens essenciais volta a incluir quais as obras que devem ser lidas em vez de deixar esta escolha a cada professor.

Clara Viana
“Público”, 02.09.18

 

A obra de Eça de Queirós Os Maias não vai, afinal, desaparecer da lista de leitura para o ensino secundário, como o Ministério da Educação (ME) chegou a propor. É o que se pode comprovar ao ler a versão definitiva das aprendizagens essenciais para o secundário, que foi homologada nesta sexta-feira por despacho do Secretário de Estado da Educação João Costa.

As chamadas aprendizagens essenciais vão ser aplicadas a partir do próximo ano lectivo, num processo que começará, no caso do secundário, pelo 10.º ano. Para o ME, a definição destas aprendizagens, que esteve sobretudo a cargo das associações de professores, é necessária para resolver o problema da “extensão” dos actuais programas e permitir que seja fixado um “conjunto essencial de conteúdos” que todos os alunos devem saber, em cada disciplina, no final de cada ano de escolaridade.

Na versão que esteve em consulta pública em Julho, os documentos propostos para a disciplina de Português omitiam quais as obras de Eça de Queirós que deveriam ser lidas no secundário, referindo apenas que os alunos teriam de ler um livro deste autor.

O programa da disciplina, que ainda se encontra em vigor, determina que a abordagem a Eça de Queirós, que faz parte da matéria do 11.º ano, passa pela leitura de um de dois livros: Os Maias ou a Ilustre Casa de Ramires. E é essa a prática que tem sido seguida nos últimos anos.

A supressão da obra Os Maias na versão inicial apresentada pelo ME, noticiada pelo PÚBLICO, deu origem a um coro de protestos de académicos, professores e especialistas queirosianos. Mas como o ME não tem por hábito elaborar relatórios das consultas pública que promove, não se sabe quantas propostas de alteração foram apresentadas, nem qual o seu teor.

Não foi só em relação a Eça de Queirós que o ministério recuou. Em todas as listas de leitura apresentadas agora para o 10.º, 11.º e 12.º anos, voltam a ser inscritas as obras de Almeida Garrett, Alexandre Herculano e Camilo Castelo que constam do programa, mas que tinham desaparecido da versão inicial das aprendizagens essenciais, onde foram substituídas pela referência “escolher um romance” de um destes três autores. Foi o que passou também com Cesário Verde, onde se apontava apenas que seria preciso “escolher três poemas”, o que agora foi substituído pela leitura obrigatória, como tem sido a norma, do Sentimento dum Ocidental.

Na altura, a presidente da Associação de Professores de Português, Filomena Viegas, justificou esta opção, por um lado com a necessidade de diminuir o número de obras propostas para leitura e, por outro para se permitir “o alargamento das opções que podem ser tomadas pelos docentes”, a quem ficaria entregue a escolha dos livros que os alunos deveriam ler.

Também no 12.º ano o ME desistiu de retirar a abordagem ao conto, enquanto género literário. Na lista de leitura para este ano de escolaridade voltam a estar incluídos contos de Manuel da Fonseca, Maria Judite de Carvalho e Mário de Carvalho.

Num artigo de opinião escrito para o PÚBLICO, a professora da Universidade do Porto e ex-ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, chamou a atenção para o facto de a supressão do conto do programa de Português não ser “uma opção desejável, até por se tratar de um género breve que os jovens nas sociedades de hoje (…) nitidamente privilegiam como é possível constatar na blogosfera onde narrativas breves e micronarrativas ocupam lugar de relevo”.

Por fim, no que respeita ao 10.º ano, a versão definitiva das aprendizagens essenciais volta a incluir a Crónica de D. João I, de Fernão Lopes, que na proposta inicial tinha sido erradicada.

cviana@publico.pt

Source: “Os Maias” voltaram à lista de leitura para o ensino secundário | Escolas | PÚBLICO

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O buraco de trás

«They can make you say anything – anything – but they can’t make you believe it.
They can’t get inside you.
»
George Orwell, “1984”

 

“Esclarecido” o que é e porque surgiu o “buraco da frente” vejamos, por analogia (salvo seja, não sei se já tinha dito), o seu émulo das traseiras, na mui douta opinião de outros, se bem que da mesma espécie, especialistas na matéria — canadianos, neste caso.

Isto é, apuremos então em que consiste o conceito de “buraco de trás” e como este outro orifício se enquadra na mesma linha de engenharia linguística para fins de experimentalismo social.

Note-se que sobre o buraco anterior aqui citado, ou seja, dizer “buraco da frente” em vez de dizer (ou escrever) “vagina”, está ainda numa fase precoce de “implementação”, não sendo ainda obrigatório por lei trocar uma designação pela outra, ainda não é CRIME usar o termo “vagina” para designar vagina em vez de “buraco da frente” para designar vagina.

Mas se quanto a esse buraco ainda não é CRIME chamar outra coisa além de “buraco da frente”, em qualquer parte do mundo, cenário bem diferente se passa já quanto a toda uma classe gramatical numa certa parte do mesmo mundo: a classe é a dos pronomes e a parte é o Canadá.

Sucede que o país da “folha do ácer” tem correntemente um Primeiro-Ministro com seu quê de atrasado mental, ou de perfeito imbecil, vá, um tal Justin Trudeau, de sua graça, cuja função primordial parece consistir na demolição sistemática da linguagem: chamando os bois por outros nomes, deixa de haver bois. O que significa que, por exemplo, se a “pobreza” passar a ser “desfavorecimento”, então fica doravante administrativamente erradicada a pobreza, são eliminados de uma assentada todos os pobres e passarão a existir apenas “desfavorecidos”. Proibindo qualquer menção a “ignorância” e se, em vez deste desprezível termo, for obrigatório utilizar a expressão “necessidades educativas especiais” (ou outra patacoada qualquer), então está erradicada a iliteracia, toda a população receberá de imediato os respectivos canudos, à escolha. O próprio conceito de “crime” (quando perpetrado por “criminosos”, tipos violentos), por extenso e extensivamente, desaparecerá de todo — até porque é muito aborrecido, por vezes mete sangue, ou assim, sei lá — caso se passe a designar a coisa como “acidente de percurso” e os coisinhos como “vítimas da sociedade, coitadinhas”.

Coisa brilhante, portanto, que vai aliás fazendo escola — inclusivamente em Portugal, descontando os habituais dez anos de atraso — e que permite destarte resolver todos os problemas sociais sem sequer aflorar absolutamente nenhum deles.

No fundo, salvo seja pela enésima vez, trata-se neste caso de pronomes e, making short a very long story, sucede que a lei canadiana (alterando os próprios preceitos constitucionais) não apenas torna agora obrigatório o uso de pronomes consoante o “género” da pessoa (ou grupo) a que o pronome é aplicado, como CRIMINALIZA a utilização de “apenas” o masculino ou o feminino. Do que resulta isto: qualquer pessoa que pretenda dirigir-se, comunicar com ou referir-se a alguém (ou a um grupo) terá de saber de cor esta tabela de “géneros” alternativos. 

Gender Neutral / Gender Inclusive Pronouns

A gender neutral or gender inclusive pronoun is a pronoun which does not associate a gender with the individual who is being discussed.

Some languages, such as English, do not have a gender neutral or third gender pronoun available, and this has been criticized, since in many instances, writers, speakers, etc. use “he/his” when referring to a generic individual in the third person. Also, the dichotomy of “he and she” in English does not leave room for other gender identities, which is a source of frustration to the transgender and gender queer communities.

People who are limited by languages which do not include gender neutral pronouns have attempted to create them, in the interest of greater equality.

Quem tentar escapar disto, quem mijar fora do penico, ou pede publicamente desculpa aos/às/les/lis/xis/vis ofendidos/as/les/lis/xis/vis ou então paga uma multazinha jeitosa ou ainda, no caso de ser reincidente, vai malhar com os ossos na cadeia.

Isto é em Inglês, claro, e suponho que em Francês também, desgraçados dos Québécois, mas fazendo um exercício de analogia simplificado teríamos em Português algo como “ele, ela, ila, vila, vela, xela, xilo, zil, eles, elas, ilas, vilas, velas, xelas, xilos, zils, seus, suas, trilas, trilos, hezis, silas, xzels”, etc., etc., etc.

Um prodígio da pós-modernidade. Digo, uma prodígia dil pós-modernimil. Ou lst prodígicoise da modernzilic.

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