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Quatro milhões, quatro cadeiras, quatro perguntas

Por alguma razão o título dos dois primeiros posts (1, 2) sobre este assunto foi “PMF”. Era previsível, se o assunto não fosse entretanto abafado, que a coisa iria provocar celeuma. Como aliás agora se vai vendo e como, caso o mistério continue a descoberto, certamente muito mais se verá ainda.

Nesta actualização da matéria, por assim dizer, começamos por uma gravação da jornalista Sandra Felgueiras — cuja peça emitida pela TVI espoletou a polémica da possível interferência presidencial no caso de utentes brasileiros do SNS — em que acrescenta agora novos dados, alguns dos quais bastante estranhos. Por exemplo, que:

  • não foram duas, foram quatro as cadeiras (duas das quais eléctricas) atribuídas
  • os pais das crianças têm bastantes posses no Brasil
  • o processo de naturalização das gémeas foi completado em tempo record
  • as cadeiras eléctricas daquele tipo nunca foram atribuídas a crianças portuguesas
  • a mãe das gémeas disse, numa entrevista, que recorreu a uma cunha através da nora do PR português
  • a consulta foi marcada contra o parecer dos médicos do Hospital de Santa Maria
  • as crianças regressaram ao Brasil e nunca mais vieram a quaisquer consultas de seguimento
  • as cadeiras eléctricas foram enviadas (pelo pai das crianças) de barco para o Brasil

A seguir a este interessantíssimo “briefing” jornalístico pode ler um artigo da revista “Sábado” em que o “presidente dos afectos”, como o próprio aprecia intitular-se, ameaça — literalmente, claramente — processar quem porventura ousar pôr em dúvida, ainda que apenas como opinião ou alvitre, qualquer procedimento seu em toda esta tramóia. O que diz Marcelo é isto: “vendo a reportagem, ninguém diz que“. E então.. pronto; como “ninguém diz que”, na reportagem, lógico será concluir que isto é o contrário de alguém ter dito, na reportagem, que.

Ora, ameaça velada torna-se ainda mais séria pela natureza do cargo de quem a profere: poderá um Chefe de Estado mover uma acção judicial de algum tipo, cível ou até criminal, no caso de ofensa, calúnia e difamação? Poderá o Presidente da República, o “mais alto magistrado da nação”, despojar-se da dignidade (e virtual intocabilidade) do cargo que exerce e mover uma acção judicial, enquanto simples cidadão, contra seja quem for? Iria ele comparecer numa audiência, em pleno tribunal, assumindo o papel de simples queixoso? Com ou sem escolta pessoal, deslocando-se na viatura presidencial ou indo a pé, pagando a um advogado ou entregando o caso ao gabinete jurídico da sua Casa Civil (ou militar)?

Questões meramente retóricas, na verdade, já que a resposta comum a todas elas — de tão escarrapachadamente evidente — resulta em indício seguro do que, sem bravata, está implícito na sentença antecipada: “Se aparecer alguém [a acusar de favorecimento], vou a tribunal comparar a minha verdade com a da outra pessoa“.

Apesar disso, e do que adiante virá, um artigo do “Diário de Notícias” completa este “update” da situação servindo como contrastante ou contraponto. Apesar de envolver algumas trapalhadas acessórias, o conteúdo da peça mantém o foco naquilo que de facto está em causa: se não houve “cunhas” ou “empenhos”, se ninguém interferiu, então como se compreende que no SNS português haja tudo, e já, e do melhor, para uns, e que não haja nada, e só no dia de S. Nunca à tarde, e só se for baratinho, para outros?

Finjamos esquecer os custos astronómicos do Zolgensma, as cadeiras topo-de-gama, os 14 dias para obter o cartãozinho, as facilidades prontas, as mordomias avulsas. Finjamos também esquecer a orgânica do Estado, do qual o SNS faz parte, os pressupostos do regime, do qual a Constituição deveria ser a estrutura, e até as normas de deontologia médica que vigoram há 2500 anos.

Podemos realmente fingir que tudo isso está esquecido, mas ninguém pode fingir que não está a perceber coisa alguma.

Constituição da República Portuguesa
Parte I – Direitos e deveres fundamentais
Título I – Princípios gerais
Artigo 13.º – (Princípio da igualdade)

1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.
2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.

 

Marcelo nega cunha e ameaça processar no caso das gémeas brasileiras operadas no Santa Maria

www.sabado.pt, 01.12.23

“Vendo a reportagem, ninguém diz que eu falei ou que falaram comigo”, afirmou o chefe de Estado.

 

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, garantiu, este sábado, não ter interferido na decisão do caso das gémeas brasileiras operadas no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, e ameaça partir para tribunal caso apareça alguém que diga o contrário.

Lula da Silva, Marcelo e Janja (Grã-Cruz da Ordem Infante D. Henrique)”

“Se aparecer alguém [a acusar de favorecimento], vou a tribunal comparar a minha verdade com a da outra pessoa“, afirmou o chefe de Estado.

Em declarações aos jornalistas, o Presidente da República não só negou a “cunha” às duas gémeas como sublinhou o facto de não aparecer ninguém na reportagem emitida, esta sexta-feira, pela TVI, que afirme ter sido contactada pelo próprio.

“Eu não fiz isso. Se tivesse feito tinha-o dito. Vendo a reportagem, ninguém diz que eu falei ou que falaram comigo”, frisou.

Inspecção-Geral em Saúde abre inspecção ao caso das gémeas

[Transcrição integral cacografia brasileira corrigida automaticamente.
“Links” e destaques meus.]

Hospital de Coimbra recusa medicamento a duas crianças com Hemofilia A grave

O Infarmed autorizou o uso de um fármaco inovador nos hospitais em Fevereiro deste ano. Uma especialista em doenças raras, do CHUC, prescreveu-o a dois doentes, de 13 e 14 anos, mas o conselho de administração recusou, justificando a decisão com base num protocolo aprovado a posteriori, que define que só médicos do centro de referência o podem fazer. A médica já não faz parte do centro. Os familiares das crianças sentem-se “discriminados”. O advogado da médica diz que “é o assédio levado ao extremo”. O hospital não respondeu ao DN.

Ana Mafalda Inácio

“Diário de Notícias”, 02 Dezembro 2023

[foto]
Andreia diz ser uma optimista em relação à doença do filho, mas custa sentir que ele está a ser “discriminado”.

Aos oito meses do filho, Andreia e o marido, receberam um diagnóstico que os deixou “sem chão”: Hemofilia A grave – ou seja, segundo a literatura médica, deficiência congénita no processo de coagulação do sangue que se manifesta quase exclusivamente nos homens e se caracteriza pela ausência ou carência de um dos factores da coagulação, provocando hemorragias frequentes, especialmente a nível articular e muscular.

O diagnóstico foi feito no Hospital de Viseu, mas desde essa altura que têm caminhado para o Hospital Pediátrico de Coimbra, primeiro mais amiúde, agora de três em três meses para garantirem ao filho cuidados de qualidade. Mas as viagens constantes também têm a ver com o facto de Andreia e o marido quererem que o filho seja acompanhado pela especialista que o observou pela primeira vez em bebé e que continua a fazê-lo aos 13 anos. “É uma médica que faz parte da vida dele, em quem ele tem confiança”, explica ao DN.

D, vamos tratá-lo assim, para salvaguardar a sua identidade, habituou-se à doença, a ter de injectar na veia o Factor VIII de que necessita, duas, três ou quatro vezes por semana, mas também a ter de esconder os braços por baixo da roupa, para tapar as marcas deixadas pelas seringas.

O mesmo acontece com Mário, um nome fictício, pedido pelo irmão mais velho, com quem o DN falou, para o salvaguardar também. Mário tem 14 anos, o irmão 27, ambos padecem de Hemofilia A grave, e ambos foram e são acompanhados pela médica sobre quem aqui falamos, no mesmo hospital pediátrico, que hoje integra o Centro Hospitalar Universitário de Coimbra (CHUC). O mais velho já sentiu na pele a frustração de ter de abdicar de alguns sonhos pela doença, “por não me poder magoar ou fazer feridas, que depois não se conseguem tratar”, o mais novo começa agora a perceber o que isso é, quando anseia jogar futsal, vai aos treinos “e depois não vai aos jogos porque nunca se sabe o que pode acontecer”. Mário tem de injectar Factor VIII três vezes por semana, “já é ele que o faz, mas quando tem dificuldades em picar-se eu e a minha mãe cá estamos para ajudar”.
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Primeiro Comando da Capitau da terrinha

«Devo dizer que como presidente da Assembleia da República de Portugal considero que Portugal deve muito, mas mesmo muito aos muitos milhares de imigrantes que aqui trabalham, que aqui vivem e que aqui contribuem para a nossa Segurança Social, para a nossa coesão social, para a nossa vida colectiva, para a nossa cidadania e para a nossa dignidade como um país aberto inclusivo e respeitador dos outros.»
Augusto Santos Silva

Como seria previsível, a extinção do SEF e a atomização das respectivas competências por múltiplos organismos e serviços — uma situação inédita a nível europeu e, muito provavelmente, única em todo o mundo — lançou de imediato o caos em todo o sector do (suposto) controlo de fronteiras, arrastando para a confusão geral os serviços consulares e ainda os demais sistemas oficiais envolvidos, incluindo as forças policiais (PSP, GNR, PJ) e vários departamentos da Segurança Social.

Esta deve ter sido a única verdadeira “reforma estrutural” levada a cabo por qualquer dos últimos quatro (ou cinco, ou seis) governos, tendo surgido a pretexto do assassinato de um imigrante ucraniano no aeroporto de Lisboa, e vê-se agora o “belíssimo” resultado de tão meteórica urgência governamental em “reformar” umas coisas.

Recorte de notícia TVI. “Click” na imagem para aceder ao vídeo.

A interligação sequencial — ou, mais uma vez, a relação de causa e efeito — resulta clara nas duas peças jornalísticas agora transcritas e no vídeo da CNN-Brasil (ver no fim deste “post”): enquanto que em Portugal ninguém se entende sobre aquilo que agora compete a cada qual, um jornal e um canal de TV brasileiros vêm, em simultâneo, dar conta de que, apesar de isso não ser grande novidade, temos aí pelo menos uma organização criminosa (brasileira, claro) dedicando-se a explorar a mina da bandalheira tuguesa.

Segundo os media de ambos os lados do Atlântico, 1000 (mil) membros daquela organização de “investidores” já cá estão instalados e, por conseguinte, a “trabalhar” com imenso afinco e, certamente, cada um daqueles até agora mil cidadãos contribuirá com os seus impostos e descontos para a SS para equilibrar o “saldo fisiológico”, logo à cabeça, fora os outros saltos, digo, saldos, mais alcavalas e custas, sem esquecer o IVA e assim.

Recorte de notícia TVI/CNN-Portugal. “Click” AQUI para aceder ao vídeo.

PF e autoridades de Portugal investigam fraudes na emissão de vistos de permanência

De acordo com fontes da TV Globo, o esquema teria sido utilizado por traficantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) para viajar para o país europeu. Policiais apuram agendamento ilícito de vagas para a prática de atos consulares, além dos crimes de corrupção, concussão, peculato e falsificação de documentos.

Por Márcia Brasil
TV Globo, 07/11/2023

[vídeo]
PF e autoridades de Portugal investigam fraudes na emissão de vistos de permanência

A Polícia Federal, em parceria com autoridades de Portugal, cumpre cinco mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro e na cidade de Saquarema, na Região dos Lagos, nesta terça-feira (7).

Os agentes apuram o agendamento ilícito de vagas para a prática de atos consulares, além dos crimes de corrupção, concussão, peculato e falsificação de documentos por funcionários do Consulado Geral de Portugal na capital fluminense, em conluio com requerentes de vistos e nacionalidade portuguesa.

De acordo com fontes da TV Globo, os agentes investigam se o esquema teria sido utilizado por traficantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) para viajar para o país europeu.

O nome da operação é Agendródomo, em referência às ilicitudes investigadas no agendamento das vagas.

Os mandados foram expedidos pela Justiça Federal brasileira.

O Núcleo de Cooperação Internacional do Rio de Janeiro (NCI/INTERPOL/PF) coordena as ações da Polícia Federal em solo brasileiro, por meio de cooperação jurídica internacional com as autoridades portuguesas.

Os mandados são cumpridos por policiais federais com a participação de 30 agentes de segurança portugueses, além de membros do Ministério Público de Portugal.

[foto]
PF cumpre mandado de busca e apreensão no Consulado de Portugal no Rio
Foto: Divulgação/ Polícia Federal

[foto]
PF e autoridades de Portugal cumprem mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro e Saquarema
Foto: Divulgação/ Polícia Federal

 

[Transcrição integral (de texto), incluindo “links”. Destaques meus.
Sem correcção automática (jornal brasileiro).

Imigrantes: maior parte das renovações de títulos de residência não fica com o IRN

O Ministério da Justiça esclarece ainda que “o IRN ficou com o front office (frente de atendimento) das renovações de autorização de residência presenciais”.

Amanda Lima
www.dn.pt, 08.11.23

O Governo de Portugal informou erroneamente que a renovação dos títulos de residências de imigrantes ficaria a cargo do Instituto dos Registos e Notariado (IRN). Mesmo com as mudanças, a maior parte das renovações, neste momento, mantém-se online através do extinto Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), o portal SAPA, que ainda está dentro do site do SEF.

A medida fica sem efeito, já que a parte dos títulos são aptos para renovação apenas na AIMA. Para efeitos de comparação, foram emitidos 42.409 autorizações para migrantes trabalhadores em 2022. Já o número de pareceres favoráveis para actividades de investimento foi de 1.281. O Ministério informou ao DN que estão programados 7 mil atendimentos até final de 2023 e que os primeiros serão realizados ainda nesta semana.

Corrida e venda de vagas

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Zolgensma – PMF* (1.ª parte)


«Marcelo suspeito de “cunha” para tratamento de duas gémeas no Santa Maria»

TVI/CNN-Portugal, Sex, 3 Nov 2023

«O Hospital de Santa Maria abriu uma auditoria para perceber como é que duas gémeas que vivem no Brasil receberam em Lisboa um tratamento de quatro milhões de euros. Há suspeitas de que isso tenha acontecido por influência do Presidente da República, mas Marcelo Rebelo de Sousa nega a situação. Apesar de um parecer contra de todos os neuropediatras do hospital, o tratamento avançou mesmo e as suspeitas admitem que possa ter sido por influência do chefe de Estado. O programa Exclusivo, do Jornal Nacional da TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal), interceptou a mãe das crianças a admitir que recorreu a uma “cunha” do Presidente da República

Marcelo envolvido em caso de gémeas brasileiras tratadas em hospital de Lisboa

“Jornal de Notícias”, 03 Novembro, 2023

[foto]
Gémeas obtiveram nacionalidade portuguesa para serem tratadas – DR

O presidente da República terá tido influência no tratamento de duas bebés brasileiras, que para o efeito terão recebido em Lisboa medicamentos na ordem dos quatro milhões de euros, noticiou a TVI.

Marcelo Rebelo de Sousa é suspeito de interferência no Hospital de Santa Maria, num caso ocorrido em 2019, altura em que duas bebés brasileiras entraram naquela unidade hospitalar de Lisboa para receber um tratamento que custou quatro milhões de euros.

À TVI, Daniela Martins, mãe das crianças, confirmou que as então bebés, que viviam no Brasil, entraram no Santa Maria em finais de 2019 para serem tratadas, tendo conseguido obter a naturalização portuguesa, para que fossem tratadas em Lisboa. A progenitora precisou ainda que a nora e o filho do presidente da República tinham interferido a esse respeito.

De resto, a convicção dos médicos do Santa Maria é que tal sucedeu por influência do chefe de Estado. Uma carta de indignação dos clínicos desapareceu entretanto dos registos hospitalares, tal como o dossier de admissão das crianças, acrescentou aquele canal televisivo. O Hospital de Santa Maria vai abrir uma auditoria, para perceber o sucedido.

Em declarações à TVI, Marcelo Rebelo de Sousa disse não se recordar de ter tido interferência no caso, negando qualquer tipo de favor no processo. “Francamente não me lembro”, vincou o presidente da República, vincando, contudo, não ter tido influência no tratamento das bebés em Portugal.

Marcelo nega ‘cunha’ no caso de gémeas brasileiras em hospital de Lisboa

sol.sapo.pt, 4 de Novembro de 2023

Presidente da República negou, este sábado, ter interferido no acesso a tratamento médico de duas bebés gémeas brasileiras num Hospital de Lisboa.

Em causa está uma reportagem da TVI, transmitida na sexta-feira à noite, que dizia que Marcelo Rebelo de Sousa teria metido uma ‘cunha’ para o tratamento das crianças.

Eu ontem disse que não tinha feito isso, se tivesse feito tinha dito. Não falei”, sublinhou o chefe de Estado, em declarações aos jornalistas.

“Ninguém aparece [na reportagem] a dizer que eu falei com essa pessoa. Ninguém. Só há um Presidente. A família do Presidente não foi eleita”, afirmou.

Para Marcelo Rebelo de Sousa, os portugueses têm direito a saber “se o Presidente está a mentir ou se está a dizer a verdade”, pelo que “se aparecer alguém” admite não ter “outro remédio se não eventualmente ir a tribunal”, para comparar a sua “verdade com a verdade dessa pessoa”.

O chefe de Estado fez ainda questão de distinguir que não é o dever da sua honra que está em causa, mas sim “o dever da defesa do Presidente da República.”

[A cacografia brasileira foi corrigida automaticamente nas três transcrições.
Destaques e “links” (a verde) meus.]

*PMF = Para Memória Futura

É o viu metau

If money go before, all ways do lie open. - William Shakespeare
[Se o dinheiro é o que mais importa, a mentira abre qualquer porta.]

De facto, genericamente falando, o #AO90 será talvez o facto político e a demonstração prática que melhor ilustra o conceito de estupidez pura e dura. Se bem que por detrás das tais figurinhas estejam outros seres ainda mais sinistros do que os “apenas” estúpidos, ou seja, aqueles cuja ganância cegou por completo — logo à nascença, como o estúpido comum, ou então assim que viram a mina que poderia ser a língua “universau” brasileira — e aqueles outros que se limitam a obedecer à voz do dono, alguns dos quais até com extrema competência, como os profissionais da desinformação, os infiltrados nas hostes ditas “anti-acordistas”, os bufos, os homens-de-mão, os mercenários, os indefectíveis da “brasileirofonia”, os infames lacaios da traição.
[“Manual de Estupidologia Aplicada”]

Um dos últimos “posts”, aqui no Apartado, parece ter suscitado alguma controvérsia entre algumas pessoas ligadas à Causa anti-acordista. Pelo menos num grupo do Facebook e num “blog”, o título “O que faz correr os acordistas?” dividiu de alguma forma as opiniões, variando estas das coisas mais evidentes, como a estupidez pura e dura, a ignorância, a irresponsabilidade, a mediocridade, até às explicações mais subtis ou complexas: “medo de ferir as susceptibilidades do governo brasileiro”, por exemplo, ou ainda a disseminação da iliteracia em Portugal.

Evidentemente, nenhum dos “diagnósticos” está sumamente ou sequer vagamente errado, bem pelo contrário; a “adoção” do #AO90, todo o processo, todo o plano arquitectado em 1986 e consolidado — até ao mais ínfimo pormenor — em 2008, não teria quaisquer hipóteses de medrar (ainda que sem vingar) se não contasse a priori com a mais do que provável mediocridade dos arrivistas e traidores, com a atávica ignorância de «um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo» e sem o consequente espírito de manada de uma maioria esmagadora à qual apenas interessa não se meter em aborrecimentos.

É de facto a este estado de coisas, um statu quo amorfo, dir-se-ia comatoso, que podemos assacar não a responsabilidade mas apenas a permissividade, a gélida indiferença com que não foi enfrentado o assalto à Cultura portuguesa, à nossa identidade colectiva e ao âmago do nosso património — a Língua Portuguesa.

Ora, mesmo aceitando ou sabendo perfeitamente que assim é e assim continua a ser, estas ilações óbvias não explicam tudo. Quando muito, passam uma tangente ao essencial.

Num dos comentários à partilha do “post” referido no Facebook, lê-se o seguinte:

«Mais do que o que possa fazer correr os acordistas, é compreender a rendição de empresas e pessoas ao AO90. Quais os motivos concretos e realistas que os leva a apoiar o infame sem o questionar ou regatear. Isso sim, é o maior mistério, para mim.» [Paulo Teixeira]

Cá está. Se a construção frásica da segunda parte do comentário tivesse sido em forma de pergunta, então a resposta estaria contida na frase inicial: os motivos concretos e realistas que fazem correr os acordistas, o que explica a “rendição de empresas e pessoas” e o que leva estas a “apoiar o infame sem o questionar ou regatear” é… o dinheiro. Chama-se-lhe o que se quiser, pilim, poder, tachos, cacau, ferros, guita, ou simplesmente “aparecer”, tudo vai dar sempre ao mesmo, o dinheiro, o vil metal (“viu metau”, em brasileiro).

Sobre “especialistas” (alguns dos quais se intitulam a si mesmos como “académicos” e “linguistas” e até “juristas” ou mesmo “constitucionalistas”), já muito foi dito, aqui no Apartado e em outros sítios, incluindo jornais. Quem são eles, bom, todos sabemos isso perfeitamente, e conhecemos até as conivências político-partidárias, logo, as coligações e alianças de interesses — económicos, bem entendido, que a isso se resume a porca da política. Este tipo de constatações, que nem os próprios envolvidos se atrevem a desmentir, poderá ainda assim, dada a enormidade da corrupção e o gigantismo da podridão, levantar algumas dúvidas ou perplexidades.

Mas sobre as empresas, que diabo, então não se está mesmo a ver como funciona o carneirismo acordista? É que não é carneirismo coisa nenhuma, é a obediência à voz do dono! (mais…)

Lula Róbarunossuôru da Silva

O objectivo primordial da invenção da CPLB, sob o pretexto do #AO90 (a “tau língua universau”), sempre foi Angola — ou seja, o petróleo, o gás natural, os diamantes de Angola — e portanto faz todo o sentido, segundo a cartilha rascunhada nos anos 80, que Luanda tenha sido uma etapa decisiva. Recorde-se que anteriormente, e de enfiada, este colosso dos direitos humanos e da transparência política aterrou na “terrinha”, “por mero acaso” em pleno 25 de Abril, a seguir passou por Bruxelas, à conta do Mercosul,, ao que se seguiu Cabo Verde — uma etapa simbólica, digamos assim, espécie de prólogo para a subida ao Monte da Graça, essa montanha de primeiríssima categoria, ou seja, como já foi dito, a terra das línguas Kimbundu, Umbundu, Chokwe e Kikongo: Angola.
[post
Pedaladas do camisola amarela (e verde)“]

[Angola] É um país que já foi usurpado e roubado de tanto diamante que esse país produzia. Não sei quanto esses diamante geraram riqueza para o povo de Angola ou geraram riqueza apenas para meia dúzia de espertos. Esse país tem ouro, esse país tem petróleo, esse país tem gás e esse país tem oportunidade, esse país tem um potencial agrícola extraordinário. É por isso [inaudível] você que é você tem que saber o seguinte a gente vai ter que pensar nessas coisas para que a gente possa fazer o que a gente não fez no século passado. Nós não temos o direito de continuarmos pobre. Nós não temos o direito de continuar sendo chamado de o terceiro mundo. Nós temos muitas condições a oferecer. Por isso eu queria fazer um convite aos empresários brasileiros. Eu comecei dizendo Angola é importante que Angola dá estabilidade. Eu vou repetir: Angola paga! Angola não vive devendo. Mas tem outros países também tem oportunidade. O que eu quero que vocês tentem é que vocês se quiserem crescer, se quiserem virar empresa multinacional, vocês nunca vão poder investir na França, nunca vão poder investir nos Estados Unidos, nunca vão poder investir na Alemanha. É aqui que vocês podem investir, é aqui que vocês podem ter oportunidade.


Continuam as réplicas do ligeiro tremor de terra baptizado como “Cimeira da CPLB“, o culminar do périplo mundial deste exemplar de BRICS (tijolos, em Inglês).

Na visita oficial a Angola, o proprietário da “língua universau” atroou as paredes de Luanda com a sua tremenda eloquência e não menor (nem menos ilustre) “verve”.

Lula da Silva “Doutor” pela Universidade Coimbra, Março 2011

Além do choradinho habitual — no Brasil, um ritual pandémico — a espumar de raiva ao “colonizador”, lá debitou as tretas do costume, o ouro que “uiss pôrrtuguêziss, êssiss mauvadu” roubaram lá na terra deles e a forma “seuvági” como nós os “escravizámos”. Além desta espécie de liturgia como appetizer, o comunista Lula foi a Luanda reclamar a sua tranche na “repartição de riqueza” — outro ritual, consistindo este em redistribuir a riqueza alheia metendo-a no próprio bolso — que, na sua douta (e experiente) opinião, abunda na terra dos Quicongo, Quimbundo, Umbundo, Cuangar, Vátua e tantos outros povos. Aliás, esta sede de “redistribuição” já aqui tinha sido referida por diversas vezes, pelo que a visita deste cefalópode ao seu camarada angolano poderá ser tudo menos surpresa.

E muito menos surpreendente será o chorrilho de enormidades que o cefalópode lá foi babujar, não para Inglês ver mas para angolano ouvir. Os títulos das gravações dizem quase tudo: “o Brasil voltou para «a» Angola” e “«Na» Angola, Lula é condecorado com a Ordem António Agostino[sic] Neto”.

Perguntas parvas como, por exemplo, “voltou?, mas quando raio é que lá esteve?” ou “António quê?, quem é esse Agostino?” não serão admitidas. Não abandalhemos ainda mais a questão.