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«Em defesa da ortografia XXXIII» [por João Esperança Barroca]

Em defesa da ortografia XXXIII

João Esperança Barroca

26 de Março de 2021

 

«Que fique escrito a fogo: quem se opõe ao Acordo não deve aceitar uma revisão do mesmo. Não há polimento possível que retoque o que não tem ponta por onde se lhe pegue. É um exercício fútil tentar ancorar algo no vácuo: a ideia de a ortografia navegar à mercê das ondas do elemento mais indomável, flutuante, contingente, mais variável geográfica, temporal e individualmente que há na língua – a pronúncia.»***

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Uma das estratégias adoptadas na aprendizagem de uma língua (e, no que diz respeito à ortografia, não poderia ser de outro modo) é a da utilização das famílias de palavras. No estudo de uma língua estrangeira também se fala do parentesco entre as línguas, mostrando as semelhanças no vocabulário, mesmo em línguas de diferentes origens.

Como o leitor já reparou, desde a aplicação do inadjectivável AO90, o País dos Faraós, um dos berços da civilização, passou a grafar-se sem p, Egito. Contudo, como se escrevem (com o AO90) as outras palavras da família de Egipto? Os habitantes designam-se egípcios, egipcianos ou egipcíacos. Os especialistas na civilização, egiptólogos. A ciência e o adjectivo a ela referente, respectivamente, egiptologia e egiptólogo. O leitor poderá hoje num texto acordizado encontrar uma frase tão banal como: Um egiptólogo não precisa de estar no Egito para estudar a cultura egípcia. Isto é, o Egipto divorciou-se das restantes palavras da sua família. Quando os acordistas falam da “unidade essencial da língua” e da “simplificação da aprendizagem”, será a isto que se referem?

Felizmente, alguns órgãos de comunicação como a RTP e o Jornal da Madeira, como se pode comprovar nas imagens que acompanham este escrito, tomam, regularmente, umas doses da vacina contra o ortogravírus e retomam esporadicamente a grafia coerente, lógica e congruente de 1945.

Indo agora a outros factos, que agora não são fatos, como afirmou Pedro Santana Lopes, que, em nome do governo português, assinou o AO90, e a quem voltaremos num próximo escrito, vejamos como se escreve Egipto em diversas línguas: Egipte, em africâner e catalão; Eg-jipti, em albanês; Ägypten, em alemão e luxemburguês; Yegiptos, em arménio; Egipto, em basco e espanhol (castelha-no); Jehipiet, em bielorrusso; Egipat, em bósnio, croata e sérvio; Egipet, em búlgaro e macedónio; Ījipṭ, em cana-rim (língua falada na região indiana de Canará), malaiala (língua falada no Malabar, Ín-dia Ocidental) e telugo (língua usada no Sudeste da Índia); Egïpet, em cazaque; Ehipto, em cebuano (língua austro-nésia falada nas Filipinas; Ījiptuva, em cingalês (língua falada no Sri Lanca ou Sri Lanka); Ijibteu, em coreano; Egittu, em corso; Egypten, em dinamarquês e sueco; Egypt, em eslovaco, filipino, inglês, latim, norueguês e checo; Egipt, em esloveno, polaco e romeno; Egiptujo, em espe-ranto; Egiptus, em estónio; Egypti, em finlandês; Egypteem francês, frísio (ou frisão) e holandês; An Èiphit, em gaélico (língua céltica falada na alta Escócia e na Irlanda); Exipto, em galego; Eg v i p’t’e, em georgiano; Aígyptos, em grego; Ijipta, em guzerate (língua falada em Guzerate, estado da Índia), marata (lín-gua falada no Centro e Sul da Índia) e nepalês; Aikupita, em havaiano; Egyiptom, em húngaro, Ijipt, em igbo (língua falada no sudeste da Nigéria); Egipti, em iorubá, (língua fala-da na Nigéria, Benim e Togo); An Èigipt, em irlandês; Egypt-taland, em islandês; Egitto, em italiano; Ejiputo, em japonês; Ēģipte, em letão; Egiptas, em lituano; Ejipta, em malgaxe (língua falada em Madagás-car); L-Eġittu,em maltês; Ihi-pa, em maori (língua do povo com o mesmo nome, da Nova Zelândia); Yegipyet, em mon-gol; Igupto, em nianja (língua banta falada na zona do lago Niassa, no distrito de Tete, Moçambique); Yegipet, em russo, Aikupito, em samoano (língua falada no Arquipélago de Samoa, no Pacífico); Ege-peta, em sesoto (língua oficial da África do Sul e Lesoto); Xīyipt̒, em tailandês, Ekiptu, em tâmil (língua falada no Sul da Índia e no Norte e Oeste do Sri Lanca); Yehypet, em ucra-niano; Iphethe, em xosa, xos-sa ou xhosa (língua falada na província de Cabo Delgado,na África do Sul); Ijipita, em xona (língua falada nas províncias de Manica, Tete e Sofala, em Moçambique, na parte Norte do Zimbabué e no Leste da Zâmbia); Igibhithe, em zulu (língua falada na Zululândia, província da África do Sul).
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50 tons de cinza

Peanuts. Aquilo que toda a gente aponta como sendo a “principal culpada” pelo AO90 não é a indústria editorial e essa “acusação” ainda menos pode ser assacada a qualquer editora, grupo de editoras ou associação empresarial do sector. Essa treta não passa, como se diz em “americano”, de amendoins. Servirá a carapuça, quando muito, no improvável caso de alguém a enfiar, para — como de costume — quem tenta desviar as atenções da questão essencial e assim enganar totós ou, ainda que não tenham caído no logro, pôr a conversar uns com os outros, de forma inconsequente e ociosa, os “teóricos” e “especialistas” na matéria.

A questão, evidentemente, é em essência de cariz político — privilegiar os interesses geoestratégicos do Brasil — e em função deste mesmo facto envolve, realmente, “operações financeiras”; mais prosaicamente, o que define e explica o AO90 é o dinheiro, o vil metal: em notas de Banco, letras e livranças, cheques à sorrelfa ou, ainda mais “interessante” para a “difusão da língua” brasileira e para a “expansão da língua” brasileira no mundo, em negociatas de todo o tipo.

O “pequeno pormenor” dos títulos de filmes é de facto “amendoins”, se comparado com os cambalachos esconsos, as roubalheiras escandalosas, os negócios escuros (ou totalmente negros) a que o AO90 confere  cobertura política. Na mesma linha de “peanuts” estratégico, a banda desenhada fabricada no Brasil para impingir às nossas crianças o mais retinto brasileiro, se bem que ainda mais grave (e asqueroso), é uma golpada  igualmente irrelevante, ou de pouca monta, comparativamente falando.

As “traduções” brasileiras, à patada, por grosso e atacado, nos livros e revistas, nas legendas de filmes ou documentários, nas plataformas cibernéticas e nos programas de computador, toda essa parafernália de estupidificação em massa e de anestesia metódica, enfiando-nos goela abaixo, com violência, um linguajar alienígena, até esse triste cortejo de miserável bajulação do “gigante brasileiro” é coisa pouca se nos lembrarmos da abolição do Acordo de Schengen, do ensino do brasileiro em Timor-Leste, da Embraer em Évora, dos governantes brasileirófilos (Durão Barroso, Guterres, Marcelo e tutti quanti), dos vendidos e graxistas, da indústria das telenovelas, do futebol e suas transferências bilionárias, de Angola e suas imensas riquezas…

Efectivamente, vai avançada a anexação da ex-potência colonizadora pela sua ex-colónia. Assim que for nomeada a CTR (Comissão Técnica de Revisão) do AO90 e depois de nela instalados todos os tachistas que já andam por aí em bicos-de-pés, suplicando por um tachinho “académico”, abatidas as derradeiras diferenças (inventadas em 1986) a cacografia da língua brasileira será oficial, integral e radicalmente “adotada” pelo Governo português. Logo após esse sancionamento seguir-se-á a benzedura legislativa (outra golpada, como a RAR 35/2008) e então Portugal passará a ser a única colónia linguística do mundo, isto é, mais exactamente, o único país do sistema solar a escrever numa língua que não existe.

 

 Não é possível escrever numa língua que
não existe

Nuno Pacheco

www.publico.pt, 11.03.21

 

Em Janeiro, o diário brasileiro O Globo garantia, em título, que as “Editoras independentes brasileiras preparam ofensiva em Portugal”. Boa notícia, para os amantes da leitura. Porém, logo nas primeiras linhas, trazia esta declaração espantosa: “Júlio Silveira, um dos fundadores da editora Casa da Palavra, que dirigiu a Nova Fronteira e é curador do LER Salão Carioca do Livro, conta que sempre perguntam se os livros que ele vende são escritos em português ou em ‘brasileiro’. Ele responde que são escritos na língua portuguesa do Acordo Ortográfico.”

Não se sabe onde Silveira ou O Globo foram desencantar tal língua, porque ela simplesmente não existe. É uma ficção absurda, inventada por lunáticos. Querem exemplos? Aqui vai um, bem recente. A editora Planeta DeAgostini, especialista em colecções generalistas, vendidas em bancas de jornais ou papelarias, acaba de lançar o primeiro volume (são 61) de uma família bem célebre na história da banda desenhada: Snoopy, Charlie Brown & Friends – A Peanuts Collection. O título vem em inglês, mas a edição é em português… do Brasil. A ficha, logo nas primeiras páginas, não engana e até o serviço de atendimento “ao colecionador” (sic) é, não em Portugal, mas no Brasil: www.planetadeagostini.com.br. Se o Snoopy fosse criação brasileira, fazia todo o sentido. Mas não: o original é americano, criado por Charles Monroe Schulz em 1950. Por isso, quiseram apenas poupar numa nova tradução, à boleia das promessas do Acordo Ortográfico (edições iguais para todo o espaço lusófono) e das crenças do senhor Silveira.
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Quéru u livru dji réclámáçáum, tá légáu?

Já aqui abordámos esta questão (de tacho), mas não deixa de ser interessante, anedótica e “comovedora” a forma como os brasileiros se atiram a assuntos “linguísticos” no caso exclusivo de isso de alguma forma prejudicar os seus recém-adquiridos direitos de potência colonizadora.

Desta vez, também já cá faltava, os queixumes arranham o enxovalho político, o insulto de patrão mal servido que esbofeteia o criado com as luvas de pelica dobradas na mão do castigo. Chamam-nos, o que é para já mera bofetada indolente, “xenófobos” (em brasileiro, como em Espanhol, a designação varia mas pouco). Dizem que nós, portugueses, além de “xenofóbicos” somos do piorio, fazemos-lhes “ilegalidades” (o contrário de “légáu, viu”) e tratamos genericamente mal a brasileirada, coitadinha, ah, mas isto não fica assim, dizem e ameaçam eles, vai já de Itamaratchi em riste, vocês vão ver, seus tugazinhos, até comemos “cês”!

É curioso terem irrompido estes pruridos “linguísticos” apenas recentemente, depois de Portugal ter “adotado” politicamente a língua brasileira (AO90). Mas, ao que já se vai vendo, a vingança está agora a auto-coligir-se, ui, que medo, lá vem retaliação. De facto, onde já se viu, mas o que é isto, indígenas a revoltar-se contra a anexação estrangeira, invasão brutal e ignorante bombardeio, ainda por cima? Como?!

E quanto a nós outros, tugazinhos: ah, isto agora é assim, meia bola e força, até analfabetos temos de gramar, salvo seja? Ah, então está bem, dizem alguns, os tais tugazinhos, gente pequenina cujo modo de vida é bajular.

Uma outra curiosidade, espécie de sub-produto desta telenovela, é a própria diferença (radical) entre as duas designações: em qualquer simples busca, os resultados da (mesma) profissão em Português (“terapia da fala”) e em língua brasileira (“fonoaudiologia“) devolvem resultados evidentemente estanques, separados, num critério  exclusivamente portugueses e no outro só brasileiros. Ora, esta pesquisa simples não deixa de ser interessante (e rara), visto que uma das tremendas aldrabices do AO90 foi a adulteração das profissões, artes, especialidades: o que era português desaparece agora em qualquer pesquisa, passando a figurar nos primeiros lugares das buscas exclusivamente empresas, profissionais, materiais brasileiros; seja o que for que se procure agora, à conta do AO90 passou tudo, “milagrosamente”, a ser brasileiro. Uma golpada “muintu légáu”.

[Nota: o tom “brincalhão” desta “piquena” diatribe, aliás na sequência das imediatamente anteriores, é deliberado: o assunto (a neo-colonização) é de tal forma deprimente (ou nojento) e implica tantas e tão maçadoras considerações (técnicas, históricas, culturais e até psiquiátricas), que utilizar um timbre curial e sério seria algo como um “piqueno” suicídio intelectual. A escolha entre a escrita com uma ruga profunda na testa ou um “piqueno” sorriso na boca é fácil e resulta da escolha entre dois males: a roubalheira alegre ou a alegre roubalheira.]

Fonoaudiólogos brasileiros são impedidos de trabalhar em Portugal por não dominar idioma

Por
br.sputniknews.com, 24.11.20

Fonoaudiólogos vindos do Brasil não podem exercer a profissão em Portugal sob a justificativa de não falarem… português. Essa é a resposta padrão apresentada pela Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) para negar pedidos de cédula profissional a brasileiros.

Um abaixo-assinado virtual com o objetivo de que o processo da regularização de fonoaudiólogos brasileiros em Portugal ocorra de forma legítima e transparente estima que haja mais de dois mil profissionais “vítimas dessa ação irregular, de cunho ilegal e xenofóbico, que se caracteriza pelo preconceito linguístico“. Segundo o professor português António Veira, terapeuta da fala (nomenclatura dada aos fonoaudiólogos em Portugal), “há de 2.200 a 2.500 pedidos de fonoaudiólogos para aquisição da [cédula de] terapia da fala em Portugal e que estão quase todos a ser indeferidos”.

A Sputnik Brasil conversou com três fonoaudiólogas brasileiras que tiveram o pedido de cédula profissional indeferido pela ACSS após quase um ano de espera pela resposta. O indeferimento, nesses casos, apresenta a justificativa idêntica de que, “durante a prova linguística, a requerente demonstrou não dominar o português europeu nos diferentes domínios semântico, morfossintático, fonético-fonológico, quer na vertente oral quer na vertente escrita“.

A “prova” em questão se trata de uma entrevista presencial de meia hora e uma redação, aplicadas a candidatos brasileiros a partir de 2019, mas sem prazo para resultados. Até então, a ACSS exigia apenas o envio de “declaração original emitida por um terapeuta da fala (devidamente autorizado a exercer em Portugal) em como não possui qualquer perturbação da fala e ou da voz e domina a língua portuguesa tal como é falada ou escrita.

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Mais um lobby “com os políticos”

bbc-brPortugal quer liberdade de circulação e residência entre países lusófonos; Brasil enxerga ideia com cautela

BBC BRASIL.com
18 dez 2015 -12h28

O novo governo português quer derrubar a necessidade de visto e estabelecer a liberdade de circulação e residência para os cidadãos dos Estados-membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Uma iniciativa que o Brasil, por enquanto, trata com cautela e fora de suas prioridades momentâneas.

O projeto é detalhado oficialmente no programa de governo apresentado pelo Partido Socialista luso [pg 86 e seguintes, nota de JPG], que assumiu o poder em novembro, e já foi defendido em diversas ocasiões pelo recém-empossado primeiro-ministro António Costa.

“A autorização de residência garante a liberdade de circulação. É preciso eliminar barreiras, que tantas vezes têm dificultado não só o contato das famílias, como o desenvolvimento econômico e o contato cultural (entre esses países)”, argumenta Costa.

A proposta de derrubar as fronteiras no bloco lusófono também ganha força no setor empresarial. Em um fórum que acontece nesta quinta e sexta-feira, em Braga (Norte de Portugal), a Confederação Empresarial da CPLP (CE-CPLP) garantiu que reforçará o coro pela liberdade de circulação de pessoas, bens e capitais entre os Estados-membros.

“Precisamos de mobilidade, da livre circulação. Estamos fazendo um lobby persistente com os políticos para que isso aconteça. Nossa proposta é muito simples: abram as vias que os empresários farão o resto”, promete o moçambicano Salimo Abdula, presidente da CE-CPLP.

Itamaraty

Coordenador-geral para a CPLP do Ministério das Relações Exteriores brasileiro, o diplomata Paulo André Moraes de Lima explica à BBC Brasil que o país não enxerga o bloco lusófono como uma nova versão da União Europeia ou do Mercosul, e sim com funções mais próximas a organismos como a Organização dos Estados Americanos (OEA) ou a Secretaria-Geral Ibero-americana (Segib).

“Nós entendemos a CPLP como um importante foro de concertação política e diplomática, bem como uma plataforma de cooperação e de difusão e promoção da língua portuguesa, nos moldes de uma organização multilateral convencional, e não como um organismo com vocação supranacional”, argumenta Lima, que também não se mostra entusiasmado com as promessas do empresariado lusófono.

“O mesmo raciocínio se aplica para a circulação de bens e serviços. Nesse aspecto, nossas prioridades estão claramente no foro da OMC (Organização Mundial do Comércio) e nas negociações no âmbito do Mercosul, intra e extra-bloco”, explica à BBC Brasil o diplomata.

Apesar do posicionamento contido sobre as propostas portuguesas, o alto funcionário do Itamaraty para a CPLP confirma que a circulação de pessoas tem sido um tema recorrente na agenda do bloco e admite que “tecnicamente não há nenhum impedimento para que o assunto avance”.
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