Apartado 53

Um blog contra o AO90 e outros detritos

Etiqueta: Universidade

FAQ AO90 — 3


13. Das quatro vias para acabar com o “acordo ortográfico”, qual a mais viável?

Dessas 4, que afinal são 5, se contarmos com a denúncia unilateral do AO90 enquanto Tratado internacional, existem duas muito semelhantes entre si e são ambas igualmente viáveis: em qualquer destes dois casos, a solução passará sempre pela apresentação de uma iniciativa legislativa — ou por um mínimo de 23 deputados ou por mais de 20.000 subscritores no caso de uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos (ILC).

Seja de uma forma ou seja de outra, o objectivo terá de ser forçosamente a anulação do instrumento legal que ratificou o II Protocolo Modificativo (alterando este a redacção original do AO90) e que, assim, colocou em vigor o “acordo” na ordem jurídica nacional.

Instrumento legal esse (RAR 35/2008) que fez ainda mais do que “apenas”, ratificando o dito Protocolo, aceitar em nome de Portugal o golpe perpetrado pelo Brasil: a ratificação do Protocolo por apenas 3 Estados implica a automática entrada em vigor do AO90 em todos os oito Estados-membros da CPLP.

Portanto, só revogando aquela Resolução parlamentar será possível reverter a entrada em vigor do AO90 em Portugal; a anulação de qualquer outra legislação subsequente, decorrente e dependente da RAR 35/2008, seria inútil. Por exemplo, a revogação da RCM 8/2011 não teria quaisquer efeitos práticos, já que o AO90 continuaria legalmente em vigor.


14.  Em que diferem do “acordo ortográfico” brasileiro os casos Francês, Espanhol ou Alemão? Porque é que o Inglês nunca teve qualquer “acordo”?

Não existe a mais pequena similitude entre as reformas ortográficas dos países civilizados e aquilo que se passa em Portugal.

Primeiro, nenhuma das reformas ortográficas promovidas por outros países que não os terceiro-mundistas Brasil e Portugal é vinculativa ou obrigatória. Não contêm qualquer imposição — e muito menos implicam sanções para os “renitentes” –, visto que nenhuma dessas reformas é  compulsiva, como o AO90.

Segundo, tais reformas são a consequência natural e não a causa artificial das alterações ortográficas. Ou seja, os estrangeiros fixam a sua norma ortográfica, apenas quando absolutamente necessário, em função das naturais oscilações que porventura ocorram pela simples passagem do tempo. “As Línguas” evoluem, de facto, como tanto gostam de cuspilhar os acordistas portugueses, mas de forma natural e não por decreto.

O caso da Língua inglesa é algo completamente diferente. Evoluiu ao longo de 1.400 anos mas a sua ortografia mantém-se praticamente inalterada há vários séculos. Por alguma razão — ao invés do que dizem acordistas, com a sua alucinada teoria do facilitismo e da “expansão” — o Inglês é “só” a Língua mais falada (e escrita) no Ocidente e é “só” a lingua franca por excelência em todo o mundo. De resto, em todos os países do ex-Império britânico a ortografia e a etimologia são ponto de honra e motivo de orgulho; nos EUA e no Canadá, por exemplo, existem concursos nacionais, regionais e locais dedicados exclusivamente a soletrar: spelling bee.


15. Se existiu desde o início tanta resistência (e indiferença), porque é que o “acordo ortográfico” entrou em vigor?

Por uma questão de agenda: aos políticos implicados na tramóia e aos empresários gananciosos interessados nela (é a grande finança que paga as campanhas eleitorais e os tachos dos políticos) convinha que a coisa avançasse o mais depressa possível. Assim, primeiramente avançou a parte política do assunto — aprovação do II Protocolo Modificativo — preparando o terreno para que os grandes grupos editoriais, por exemplo, começassem de imediato a facturar. A expansão económica brasileira, tendo por objectivos primordiais Angola e a União Europeia (usando Portugal como trampolim, bem entendido), ficaria para mais tarde, a seu tempo.

Primeiro, era necessário garantir que o AO90 entrasse em vigor em todos os países da CPLP, fosse como fosse, à força, à má-fila.

Como os processos de ratificação tinham vindo a arrastar-se desde 1994, em todos esses países, então o Brasil e seus agentes em Portugal descobriram a pólvora: cozinhar uma espécie de adenda ao “acordo”, o II Protocolo Modificativo, passando a obrigatoriedade de ratificação do AO90 por todos os 7 para apenas 3 Estados-membros; ou seja, a ratificação por 3 Estados implicaria que o AO90 entraria em vigor oficialmente nesses 3… e também nos outros quatro, mesmo que não ratificassem coisa alguma (ratificar é diferente de simplesmente subscrever o AO90, são processos autónomos).

Assim, em 2004 o Brasil (é claro) ratificou, em 2005 Cabo Verde também e por fim São Tomé e Príncipe idem. Pronto, já está, o AO90 entrou em vigor em todos os Estados da CPLP por via administrativa, por imposição de países terceiros. Só faltava então a aquiescência de Portugal para dar um ar de legalidade ao golpe e assim enfiá-lo goela abaixo dos pategos portugueses.

Foi precisamente esta incrível vigarice que o Parlamento português sancionou, através da RAR 35/2008, entrando do mesmo passo o AO90 em vigor também em Portugal.
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«Admirável Língua Nova (Parte VI)» [Manuel Matos Monteiro, “Público”]

Admirável Língua Nova (Parte VI)

Manuel Matos Monteiro, “Público”, 09.03.18

Não há revisão possível que limpe a face do Acordo e todos os caçadores dispostos a encontrar a “pronúncia culta” voltaram de mãos vazias. Citando Einstein: “Não se resolve um problema com as ideias que o criaram.”

Procurava explicar numa aula que devemos distinguir “manuscritos” de “dactiloscritos” – os primeiros são escritos à mão; os segundos, à máquina – e logo me lembrei: deixa lá ver como é que os dicionários acordizados acolhem o segundo verbete.

A Infopédia (Porto Editora), um dos dicionários mais consultados, da editora com mais penetração nas escolas, regista o seguinte:

  • dactiloscrito
    dac.ti.los.cri.to
    nome masculino
    original datilografado
    Do grego dáktylos, «dedo» +escrito

O “daCtiloscrito” é, portanto, o original “datilografado”. E que dirá o verbete “datilografado”?

  • datilografado
    da.ti.lo.gra.fa.do
    adjetivo
    escrito à máquina
    Particípio passado de dactilografar

“Datilografado” é, afinal, o particípio passado do verbo “daCtilografar”.

Em se tratando do infinitivo impessoal e do particípio passado do mesmo verbo, ora se preserva ora se mutila a consoante. É isto simplificar a ortografia?! É esta salgalhada um melhor caminho para a aprendizagem da língua portuguesa?!

Continuemos a digressão.

  • tactilidade
    tac.ti.li.da.de
    nome feminino
    1. qualidade do que é táctil
    2. qualidade das substâncias que exercem ação especial no sentido do tato
    De táctil+-i-+-dade

“TaCtilidade” é a qualidade do que é “táCtil”, aquilo que se refere ao sentido do “tato”. O “tato” opera no ecrã “táctil”, muito bem.

Temos…

  • circunspecto
    cir.cuns.pec.to
    adjetivo
    1. que olha em torno de si
    2. prudente; ponderado; acautelado
    Do latim circumspectu-, «idem», particípio passado de circumspicere, «olhar em volta»
  • circunspeto
    adjetivo
    1. que olha em torno de si
    2. prudente; ponderado; acautelado
    Do latim circumspectu-, «idem», particípio passado de circumspicere, «olhar em volta»

… mas apenas uma grafia para:
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Lusofonia ou Lusotopia ou “Palopofonia”?

(Maria Manuel Baptista, 2008)

 

Lusofonia ou Lusotopia? Escolho a “Palopofonia”

Filipe Zau
“Jornal de Angola”, 2 de Março de 2018

Há quem afirme que África foi descoberta quando a origem da humanidade está em África. Como se de coisas se tratasse, a imagem dos “descobrimentos” opõe-se ao encontro entre povos, culturas e civilizações e está muito associado ao conceito de “lusofonia”. Mas os povos colonizados não se encontravam perdidos e não precisavam de nenhum reconhecimento da sua humanidade, nem de nenhuma ratificação das suas identidades.

Independentemente das especificidades inerentes a cada um dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa, hoje constituídos em FORPALOP, houve, do ponto de vista identitário, para todos eles, um contacto de meio milénio com a administração colonial portuguesa, com o povo português e com a língua portuguesa, independentemente da situação de dominação que está na origem da luta clandestina e das guerras coloniais para a obtenção das respectivas autonomias políticas, económicas e culturais. Este contacto de meio milénio constitui uma primeira vertente de identidade histórica e cultural comum a todos os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa. O associativismo e as acções nativistas e protonacionalistas que, a partir dos finais do século XIX, serviram de suporte para a edificação de um moderno nacionalismo africano, representa a segunda vertente identitária comum a estes cinco Estados africanos. Com a excepção de S. Tomé e Príncipe, a guerra pela independência nacional constitui uma terceira vertente de identidade comum. Pela sua própria natureza, a guerra foi factor dissociativo, com o seu cortejo infindável de tragédias e paradoxalmente, foi também factor associativo de identidade nacional, ao atingir, directamente, toda a sociedade angolana, guineense e moçambicana, independentemente das origens etnolinguísticas ou sócio-económicas. Também a sociedade cabo-verdiana, embora de forma indirecta (já que o PAIGC representava a Guiné e Cabo Verde), faz parte também desta vertente identitária. Para as sociedades angolana e moçambicana, há ainda a pertença maioritária a uma mesma origem civilizacional bantu, à qual uma parte da sociedade santomense pertence, facto que, especificamente para estes três países, constitui uma quarta vertente identitária comum. Para todos, a língua portuguesa é língua oficial e de escolaridade. Mas, tal facto, não justifica em África uma hipotética “Palopofonia”, se me permitem o neologismo, à volta da língua portuguesa, enquanto património da humanidade. Maria Manuel Baptista, numa comunicação apresentada no III Seminário Internacional “Lusografias”, promovido pelo Centro de Investigação e Desenvolvimento em Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Évora, que decorreu de 8 a 11 de Novembro de 2000, referiu o seguinte: “A presente comunicação parte da ideia de que o conceito de Lusofonia é um bom conceito para abandonar, pois é um termo que imagina designar e conter em si um espaço linguístico-cultural que teria desde logo como centro os ‘lusos’ ou os ‘lusíadas’, apesar de o discurso oficial, de intelectuais e políticos dos mais diversos quadrantes e formações, ser incapaz de assumir claramente, e sem hipocrisia, a não inocência de um tal conceito”. Maria Manuel Baptista sustenta esta afirmação com uma citação do professor e filósofo português Eduardo Lourenço, que, em 1999, no seu livro – “Cultura e Lusofonia ou os Três Anéis” – A Nau de Ícaro, seguido de Imagem e Miragem da Lusofonia, afirmou peremptoriamente: “Não sejamos hipócritas, nem sobretudo voluntariamente cegos: o sonho de uma Comunidade de Povos de Língua Portuguesa, bem ou mal sonhado, é por natureza – que é sobretudo história e mitologia – um sonho de raiz, de estrutura, de intenção e amplitude lusíada”. Acrescenta ainda que a questão da “Lusofonia” tal com a Francofonia, só pode ser adequadamente esclarecida num contexto mais vasto “que é o da nossa actual cultura mundializada, a braços com a, porventura, mais profunda crise que o pensamento ocidental já viveu, situação cultural e espiritual que tem sido comumente designada por pós-modernismo, pós-humanismo, pós-cristianismo ou pós-colonialismo”. De entre os intelectuais portugueses que têm procurado um sentido, simultaneamente retrospectivo e prospectivo, para a “lusofonia”, destaca-se, de facto, Eduardo Lourenço, “um europeísta convicto, ora crítico e desiludido, ora utópico e entusiasta”, mas, face à “lusofonia” são claras e reiteradamente assumidas as suas posições, nos diversos textos que tem publicado sobre esta matéria. Lamentavelmente, pouco divulgados. Fazendo minhas as palavras do recém-falecido Embaixador Luís Gaspar da Silva, que foi docente na Universidade de Minho, onde o conheci, no seu livro de política de cooperação, intitulado “Utopia seis destinos”, antes de qualquer lusotopia, há a necessidade de “fazer desaparecer definitivamente a ideia reaccionária de que o africano não é completamente normal, mas pode ser ‘assimilado’.”

* Ph. D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

© 2017 Jornal de Angola

Source: Lusofonia ou Lusotopia? Escolho a “Palopofonia” | Artigos | Opinião | Jornal de Angola – Online, “Jornal de Angola”, 02.03.18

[Transcrição integral, exactamente conforme está no original.]

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Em Português – 66

“Saco de Gatos” – Associação Cultural

~ ~ ~ ~ ~ Sábado 17 de Fevereiro ~ ~ ~ ~ ~ Parede Vermelha habitada com trabalhos de Xavier Paes "…

Publicado por Gato Vadio em Sábado, 17 de Fevereiro de 2018

A inauguração conta ainda com a projecção do trabalho “Nessum Dorma”, com música ao vivo.

“Saco de Gatos” – Associação Cultural
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Companhia Olga Roriz

Publicado por João Pedro Graça em Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2018

Os espectáculos da Companhia são o resultado de um processo criativo eivado de referências ao universo teatral, literário, cinematográfico, fotográfico e outros que parecem ser tangenciais à arte mas que actuam igualmente como fonte inspiradora e instrumentos de trabalho.

Companhia Olga Roriz
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Cutla – Universidade Sénior da Amadora

Boas Festas!

Publicado por Cutla – Universidade Sénior da Amadora em Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017

Cutla – Universidade Sénior da Amadora
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Pé ante pé

Este artigo é muito interessante, digo eu, sob diversos aspectos mas principalmente porque a autora, qual equilibrista com sua vara, percorre a passo tímido aquele fino arame que, pretensamente ligando dois pontos sólidos, separa também, precariamente, a lógica do vazio. Ou seja, digo eu de novo, anda ela ali na corda bamba, tem-te e não caias, upa, upa, ai, valha-me Deus, mas que perigo!

Cabe a cada qual, no conforto da sua cadeirinha, decidir se por fim a artista merece aplausos porque, sim, atravessou mesmo o precipício sem se despencar.

Ou não.

Quando falar português, em Portugal, não basta!

05 de Fevereiro de 2018 – 00:00
Juliana Iorio

Faz parte do senso comum dizer que “os brasileiros emigram para Portugal por causa da língua”. Mas, como já referi em outro artigo, as motivações para migrar, bem como para a escolha do país de destino, não se reduzem a um único fator. Quando muito pode dizer-se que o idioma é um dos fatores que podem motivar esta escolha, e que enquanto facilitador da comunicação pode ser um capital social importante na concretização desta mobilidade.

Contudo, ao investigar o caso dos estudantes brasileiros no ensino superior português tenho observado que, para além das dificuldades que encontram com a língua portuguesa falada em Portugal (diferenças de vocabulário, concordância, fonética, sotaques, regionalismos, gírias, etc.), a maioria não sabe que no ensino superior português o conhecimento da língua inglesa é fundamental (é cada vez mais comum o uso do inglês em aulas, bibliografias, participação em conferências e escrita de papers, já que a academia portuguesa quer marcar presença nas principais revistas científicas do mundo, e estas encontram-se, maioritariamente, em inglês).

Portanto, a partilha do mesmo idioma, um dos fatores que têm contribuído para a mobilidade destes estudantes para Portugal, não se tem mostrado muito eficiente quando a questão se prende com a integração dos mesmos no país. Apesar de ambos os países terem como língua oficial a portuguesa, o facto é que os brasileiros incorporaram à “língua de Camões” algumas diferenças (muitas vezes provenientes dos autóctones, de outros colonizadores, imigrantes, etc.), nem sempre vistas com bons olhos pelos portugueses.

Por isso, alguns estudantes brasileiros referem já ter ouvido, inclusive de professores, que o português que falam não é o correto. Custa-me acreditar que um estudante universitário brasileiro não saiba utilizar a língua portuguesa, da forma como a utilizamos no Brasil, corretamente. Mas que a utiliza de forma diferente, é certo! Assim, acho mais plausível admitir que não se trata de uma utilização errada, mas diferente. Obviamente se estes estudantes escolheram vir para Portugal devem fazer um esforço para se adaptarem à língua que aqui é falada. Mas visto que as universidades portuguesas também têm interesse em atrair estudantes estrangeiros, sobretudo dos países lusófonos (como já expliquei em outro artigo), será que elas também não deveriam fazer um esforço para aceitar estas diferenças? Parece-me que separar “erro” de “diferença” é o primeiro passo que deve ser dado em direção a uma maior integração.

Quanto ao uso do inglês, enquanto alguns estudantes brasileiros veem nisso uma “mais-valia”, uma forma de melhorar este idioma, outros consideram “um absurdo”, uma forma “arrogante” de as universidades portuguesas se posicionarem em concordância com os desígnios eurocêntricos de dominação da língua inglesa e de autores anglo-saxões. Ou seja, é paradoxal que o uso do inglês como forma de internacionalização do ensino superior português possa afastar a maior comunidade de estudantes estrangeiros do país: a brasileira.

A dificuldade que o brasileiro sempre teve com a língua inglesa baseia-se numa aprendizagem de fraca qualidade durante o ensino fundamental e médio (1.º ao 12.º ano), onde somente quem fosse capaz de custear um curso privado de inglês (ou seja, uma elite) teria chance de ver este défice colmatado. No entanto, com uma maior democratização no ensino superior brasileiro, que possibilitou que não só uma elite pudesse estudar no exterior, mas também aqueles que não tiveram como emendar o fraco aprendizado do inglês, Portugal configurou-se na oportunidade de “estudar fora”, bastando falar português.

Mas não, falar português, em Portugal, não basta! Em Portugal ainda é preciso haver um esforço de entendimento entre os diferentes falantes de língua portuguesa; é preciso que as universidades invistam mais na publicação de artigos nesta língua e aproveitem toda a potencialidade e a diversidade provenientes dos países lusófonos. Só assim talvez se consiga restituir a importância de um idioma que, apesar de subalternizado, ainda é o quarto mais falado no mundo.

Juliana Iorio
Jornalista, Doutoranda em Migrações pelo IGOT – Univ. Lisboa

[Transcrição integral de: Opinião – Quando falar português, em Portugal, não basta!  “Diário de Notícias, 05.02.18. Sendo a autora brasileira, “instruí” a solução “Firefox contra o acordo ortográfico” para não converter a escrita brasileira do original para Português-padrão. Imagem de topo, sem menção de autoria, copiada daqui.]

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Alvíssaras! Diz que a “Academia” já chegou à letra B, 200 anos depois…

«Em Lisboa há uma Academia Real das Ciências, grande título que por si se impõe, deduzindo-se que Lisboa possui sábios e se encontra dotada com um lugar onde se honra e cultiva as ciências… Risum teneatis amici, porque esta Academia não passa de um madeiro que, ao flutuar na água, por vezes pode aparentar um grande barco.»

«Esta Academia é uma monstruosa agremiação de pessoas, umas que não sabem nem têm nada a fazer, outras que não sabem nem querem fazer nada, e ainda de alguns sujeitos que se mexem muito para fingirem que andam muito ocupados e que, no entanto, não produzem mais que aqueles que nada fazem.»

«Está dividida em seis classes: a primeira é formada por dezasseis sócios honorários, prelados, ministros do Estado, grandes senhores que se exibem orgulhosamente nas suas cadeiras académicas, julgando que o nome pode substituir os talentos que não possuem e os trabalhos que não fazem. A segunda é a dos sócios estrangeiros, em número de oito. Ali se encontram inscritos os nomes de famosos sábios europeus, que a Academia elegeu sem os consultar e que certamente ficariam muito surpreendidos de encontrarem os seus nomes figurando à frente de uma academia desconhecida em toda a parte e quase ignorada dentro dos limites da cidade onde está estabelecida. A terceira classe é composta pelos sócios fundadores, em número de oito. Estes sócios transitaram da classe dos sócios efectivos, onde permaneceram pouco tempo, não fazendo nada, para ingressarem nesta, destinada ao seu repouso. A quarta compreende vinte e um sócios efectivos, a única, nesta Academia, onde os sócios trabalham e dos quais trataremos particularmente. A quinta é a dos sócios livres, trinta e três em número; estes usufruem, em toda a plenitude, a liberdade de não fazerem nada, o que está adstrito a tal categoria. A última é a dos correspondentes, cujo número é ilimitado e conta presentemente cento e quatro sócios. Residem em diversos lugares de Portugal, outros são sábios estrangeiros, cujos nomes a Academia cobiçou para ornamento do seu elenco e que, exactamente como os sócios da segunda classe, ignoram a existência desta Academia.»

«A Academia dividiu os seus trabalhos em três classes: a das ciências naturais, que tem seis sócios efectivos; a das ciências exactas, com oito sócios, e a de literatura portuguesa, que conta sete sócios. Assim, os sócios que trabalham encontram-se reduzidos ao número de vinte e um, dos quais catorze destinados ao cultivo das ciências.»

«Esta Academia suou as estopinhas para publicar algumas produções. O público português prestou-lhes pouca atenção, certamente por não ter bastante boa opinião dos sábios da sua Academia — o público das outras nações ainda menos, pois não as conhece, nem nunca delas ouviu falar.»

«A maior aplicação do engenho desta Academia, o seu mais penoso trabalho, o mais glorioso para ela, o mais inútil, o mais fastidioso, o que ao público se afigura mais cansativo, é o seu Dicionário da Língua Portuguesa, de que até agora só está publicado o primeiro volume, um enorme tomo in-fólio de mil páginas. Versa apenas sobre a letra A. Será obra para não menos de vinte volumes, se alguma vez chegar ao fim.»

“Panorama de Lisboa no ano de 1796”, J.B.F. Carrère, B.N., 1989
Tradução, prefácio e notas de Castelo Branco Chaves.
Capa de António Pedro.

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