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Um fenómeno

O relato de uma permanente inquietação: assim nos é apresentado o livro Assim Nasceu Uma Língua, de Fernando Venâncio, sobre as origens do português. E essa inquietação levou-o a concluir, aos 74 anos, uma obra a que nenhum linguista ainda se abalançara, embora pudesse tê-lo feito. O que o moveu? “A curiosidade, sem dúvida. E a vontade de ir até onde ninguém tinha ido”, diz Fernando Venâncio ao Ípsilon.

Nascido em Mértola, Baixo Alentejo, a 13 de Novembro de 1944, foram os lugares por onde depois andou (Lisboa, logo aos 2 anos, Braga aos 10, Amesterdão aos 26, formando-se aí em Linguística Geral) que o incentivaram a olhar os fenómenos linguísticos com abertura e ousadia. Foi isso que fez com o português, indo até às suas origens mais remotas, para concluir que “português e galego procediam ambos duma língua única, que durara de 1100 até ao século XV.” (Pág. 93). A história do português, dirá mais adiante, é “em larga medida, a história das suas tentativas de afastamento do galego” (Pág. 114). Por isso, concluiu, “denominar português qualquer variedade linguística anterior a 1400 é resvalar num anacronismo, e pelo menos numa sofrível incongruência. Até essa data, Portugal utilizou a língua que herdara ao fazer-se independente: o galego.” (Pág. 83) .

Fernando Venâncio tem, em Mértola (onde vive), um vasto arquivo, mas muito do que cita e refere no seu livro é público. “Não andei por arquivos, não limpei o pó a nenhum manuscrito ou obra rara em sombrios mosteiros. Toda a informação aqui reunida estava disponível. Era, e é, pública.” (Pág. 43) “Tenho muita coisa e muita já está digitalizada”, diz agora. “Mas dá muito trabalho. E é preciso estar disponível, em todos os sentidos. E o nosso establishment linguístico não está disponível. Há pessoas disponíveis, sem dúvida nenhuma o Ivo Castro, que é o gigante em cima de cujos ombros eu me ponho, e também a Esperança Cardeira, com a sua pequena mas importantíssima afirmação de que muita coisa se passa antes de Portugal, antes do português. Se eu tivesse que lutar sozinho contra os mitos feitos, não sei se tinha coragem. Mas houve muita gente que fez trabalho antes de mim. E disso aproveitei-me bem.” Ou, como escreve: “Fiz aquilo que há muito pedia para ser feito: somar dois e dois.” (Pág. 43)

Outra coisa o motivou: “O contacto com a Galiza foi muito importante, assim como o debate que mantive desde 2004 e fechei agora, com o Portal Galego da Língua. Nenhum português ficou lá mais do que uns meses. Eu mantive debates contínuos e muito sérios e aprendi é que o que pensamos ser óbvio não é óbvio. Sobretudo para interlocutores sem vontade de mudar.

Da Galécia aos lusitanos

Na apresentação do livro, Esperança Cardeira, professora e investigadora em Linguística Histórica, chamou a essa língua comum, de onde vieram o galego e o português, “romance [idioma românico] da Galécia Magna”. Venâncio concorda com a designação: “Seria mais exacto do que galego, mas eu uso o termo galego por uma espécie de justiça.” Um tributo de reconhecimento. “A Galécia chegou a Coimbra, mas a língua não; a língua formou-se até ao Douro com umas surtidas só até à Ria de Aveiro. Praticamente todos os autores das cantigas de amigo eram galegos. E os portugueses escreviam-nas como os galegos, ao estilo deles.

Nos debates que foi mantendo com a Galiza, apercebeu-se que os radicais galegos “têm um complexo de inferioridade tremendo. Durante séculos, mas sobretudo durante o franquismo, eles tiveram uma doutrinação (tão convincente, para eles) de que aquilo que falavam não valia nada, que acreditaram. É uma situação completamente diferente da dos bascos e da dos catalães.” Uma história, a propósito (ele queria contá-la no livro, mas acabou por não contar): “No final do século XIX, princípios do século XX, houve aquelas aparições de Maria em Lourdes e Fátima. Depois destas, houve na Galiza uma aparição. Uma menina de 12, 13 anos, disse à família que Nossa Senhora lhe tinha aparecido. E a família foi falar com o padre, que era espanhol, como praticamente todos os bispos e padres na Galiza até há pouco tempo, desde o século XIV. A menina lá contou a história ao padre e este perguntou-lhe: ‘O que é que a Virgem te disse?’ E ela respondeu: ‘Uma porção de coisas’, e explicou-as em galego. ‘Estás a mentir’, disse o padre. ‘Porque Nossa Senhora nunca iria falar em galego!’ Isto é absolutamente revoltante! Podia ser uma parábola, mas é real, passou-se em Vigo.

Apesar dos enfrentamentos bélicos com Castela, Portugal irá aproximar-se da cultura e da língua espanhola. “A batalha de Aljubarrota [1385] deu-nos uma abertura cultural, e depois também linguística, para nos irmos ‘vestir’ a Toledo. Lisboa ganha autoconfiança em relação ao Norte, há uma língua que se elabora e tudo o que cheirasse a erva, a antigo, era para abater. Há uma desruralização, como lhe chama o autor e também linguista galego-brasileiro Xoán Lagares. Quando se chega a 1700 já há outra norma, já se fala em Lisboa outra língua.”

Desenhou-se aí o afastamento do português face à Galiza. “Portugal vai muito mais longe e mais depressa na absorção do espanhol do que o galego. Porque a Galiza tem um povo aldeão que conserva até 1850 um galego muito puro, face a uma classe superior de advogados, padres e escrivães de língua espanhola. Duas camadas praticamente incomunicáveis. Por volta de 1850 começa o ensino escolar e esse é espanhol. Então, dá-se uma imensa aceleração da absorção do espanhol’. E quem é que agora escreve o galego puro? É uma elite.” Fernando Venâncio adianta ainda outra explicação para a aproximação portuguesa a Castela: “É preciso não esquecer que em Espanha, no século XV, houve uma porção de edições de poesia, que se liam aqui, enquanto o primeiro volume de poesia que se edita em Portugal é de 1516, o Cancioneiro de Resende. E o seguinte é Os Lusíadas, de 1562. Entre 1516 e 1562 não há um único volume de poesia editado em Portugal! Havia cancioneiros copiados à mão. É a partir dos Lusíadas que começa a haver ás edições de Sá de Miranda ou Bernardim Ribeiro.”

A fixação na denominação lusitana (ainda hoje a vemos no conceito lusofonia) surgiu depois do afastamento das culturas nortenhas: “Quando a Galiza deixou de ser referência, Portugal procurou uma referência mais a sul, no povo lusitano. E Camões consagrou isso.

Uma castelhanização

Há um dado relevante na evolução linguística que levará ao português actual: a eliminação dos n e I intervocálicos, que, diz Venâncio, “começam a cair ainda não havia Portugal.” No livro, há exemplos como voar e soar. “Se o espanhol faz volar e sonar, o italiano fará volare e suonare, e o francês voler e sonner. Em todos eles estão, pois, presentes um I e um n. O que não admira, visto as formas latinas de que eles derivam serem volare e sonare.” (Pág. 49)

Só que não é directamente do latim, mas sim através do castelhano e depois do francês que Portugal irá repor muitos n e I intervocálicos banidos da fala uns séculos antes. “Qualquer que seja a ortografia, é pela eliminação de I e n intervocálicos que aquela a que chamamos a nossa língua mais fundamentalmente se distingue de idiomas vizinhos”, escreve Venâncio (Pág. 59). E assim, a par de voar temos hoje volante e a par de soar temos também sonante. “Se há alguma tese muito original minha”, diz agora, “é mostrar que a chamada latinização de 1400 a 1700, três séculos, foi na realidade uma castelhanização. Vivíamos embebidos em espanhol. ”

Porque depois, antes das invasões napoleónicas (1807-1810), veio a “invasão” francesa: “Eu dato o francês a partir de 1730, porque é quando acaba a edição do Dicionário de Bluteau [Raphael Bluteau, padre nascido em Londres de pais franceses]. Ele ainda é muito apegado ao espanhol, mas já há ali incorporações francesas muito importantes. No Dicionário de Morais [1789] já estamos em pleno francesismo. Se incorporámos milhares de castelhanismos, no século XVIII incorporámos milhares de galicismos – ainda ninguém escreveu essa história, mas eu hei-de escrevê-la. Mas enquanto que o espanhol não levantou ondas, porque teve uma absorção muito pacífica, o francês provocou uma grande resistência, mas que não conseguiu nada. Muitos dos francesismos então criticados são hoje norma, não os quereríamos perder.” E já no século XX veio o inglês.Com uma curiosidade: “Há dezenas de milhares de palavras correntes, em inglês, que vieram através do francês. Como resources [recursos], que vem do francês ressources.” Assim, com o inglês voltámos ao francês e, por via de ambos, ao latim.
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«Resistir contra o que é incorrecto» [António Garcia Pereira]


Meus Caros Amigos, estão todos convidados e conto convosco no próximo dia 17 de Setembro, às 18h30, na “minha” Escola – O ISEG – para o lançamento deste meu novo livro de Crónicas publicado pela Âncora Editora.
Prefaciado pelo General Ramalho Eanes e apresentado por Clara Raposo, Santana Castilho e António-Pedro Vasconcelos.

António Garcia Pereira

Não, não somos livres!

(…) É que todos nós vivemos hoje uma época em que, a todo o momento e a todo o custo, se procura impor a lógica de que o instantâneo deve prevalecer sobre o duradouro, o superficial sobre o profundo, o espectacular e o primário sobre o reflexivo e o maduro.

Vive-se, pois, uma época em que as instituições (a começar pelos organismos públicos e a acabar nos sindicatos e nos partidos políticos), por influências de poder, de dinheiro, ou outras, como que vegetam numa espécie de nevoeiro de silenciamento, de conformismo e de impotência.

A nós, cidadãos, compete-nos, porém, resistir contra o que é incorrecto, lutar contra o que é injusto, e se as instituições e organizações que existem não servem para aquilo a que supostamente se destinariam, teremos que saltar por cima delas e criar novas formas de organização e de intervenção.

(…) Ao contrário do que pregam os ideólogos do pensamento dominante, é, pois, possível fazer diferente e melhor.

E o primeiro passo a dar é precisamente saber denunciar o que está, e profundamente, errado. E o segundo é promover a discussão acerca das soluções que devem ser adoptadas e dos caminhos que devem ser percorridos.

Que a publicação destas crónicas possa ser um passo nesse sentido.

[Introdução do livro no “site” da Editora. Destaques e “links” meus.]

António Garcia PereiraAntónio Pestana Garcia Pereira é Advogado e Professor Universitário.

Doutorado em Ciências Jurídicas na Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa. Professor Auxiliar com nomeação definitiva do I.S.E.G. – Universidade Técnica de Lisboa onde sou o responsável pelas disciplinas de Introdução ao Direito do Trabalho (Licenciaturas), e Relações Industriais e Direito do Trabalho e Direitos Sociais e Cidadania (Mestrados). Lecciono igualmente em diversos cursos de Pós-Graducação da Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais da Universidade Católica e ainda em módulos de cursos de Mestrado das Faculdades de Direito da Universidade de Coimbra, da Universidade Católica do Porto e da Universidade Lusíada.

[transcrição de perfil no blog do subscritor]

[Excerto de “post” «António Garcia Pereira subscreveu a ILC» de 20.03.11. Imagem de rodapé de: https://www.emnomedaverdade.com/]

“Volver à barbárie” [por José Augusto Filho (Brasil), “Observador”, 03.07.19]

O multilateralismo vacilante da comunidade lusófona

José Augusto Filho
observador.pt, 03.07.19

 

Numa velocidade sem precedente na história, a atual vaga de globalização tem implodido as barreiras ao fluxo de bens e capitais e à disseminação das tecnologias de informação. Mas mesmo em um mundo cada vez mais interdependente, muitos dos benefícios do desenvolvimento podem deixar de alcançar as regiões mais pobres do planeta.

Ao transformar os modos de vida tradicionais, a globalização produz tensões domésticas e amplifica problemas pré-existentes. Trata-se de questões que costumam escapar à capacidade resolutiva dos governos nacionais. Os países mais afetados pela desintegração social associada à integração económica tendem a ser, lamentavelmente, aqueles mais pobres.

De forma premonitória, ainda em 1997, o economista e professor universitário turco Dani Rodrik, um dos mais influentes e prestigiados do novo século, já questionava: “a globalização foi longe demais?”

Volvidas mais de duas décadas, as virtudes e os vícios daquele fenómeno restam amplamente evidenciados. Até por isso, o mundo assiste atualmente a uma reversão de muitos dos acordos regionais de livre-comércio e de integração económica pactuados na década de 1990. O multilateralismo, outrora considerado uma panaceia para o isolacionismo dos Estados, aparenta viver hoje o seu ocaso. Nem mesmo a União Europeia, a mais notável das Organizações Internacionais, escapou a ter as suas estruturas abaladas por tais ventos revisionistas.

Essa atual conjuntura desfavorável às Organizações Internacionais não deixa de impactar também a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).  Embora ainda incipiente como organização internacional, o potencial do seu património é incontestável. Em suas dimensões política, cultural e socioecónomica, a CPLP reúne condições para trilhar a senda aberta pela Commonwealth inglesa e pela Organização Internacional da Francofonia.

Em recente seminário realizado em Cabo Verde, cujo tema foi a relação Europa-África, o General António Fontes Ramos, professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, sublinhou a presença global da CPLP. “A sua internacionalização é facilitada porque existindo em entidades geograficamente separadas, alarga-se ao mundo pela integração dos seus componentes nas múltiplas organizações de que fazem parte, seja a União Europeia, a União Africana, o Mercosul, os BRICS ou no espaço Índico-Pacífico. A capacidade de exposição mundial da CPLP é, pois, evidente e de resto única”.

No entanto, a CPLP não tem se traduzido em desenvolvimento para os seus Estados-membros. Por isso, o desapontamento com a dinâmica daquela Comunidade não deixa de ser justificado. Apesar do inegável potencial para beneficiar os seus integrantes, os resultados da CPLP têm ficado muito aquém do que seria razoável.

Os casos de uma Guiné-Bissau marcada pela instabilidade política e de um Moçambique arrasado pelo Ciclone Idai, para ficar apenas nos casos mais sensíveis, revelam a necessidade e a urgência de a CPLP assumir um protagonismo à altura do seu potencial.

A inoperância da CPLP decorre em larga medida da negligência dos seus Estados-membros mais destacados, nomeadamente Brasil e Portugal. Com olhos atentos ao jogo internacional mais alargado, ambos tendem a definir as suas preferências desde um ideal de pertença ao tabuleiro das superpotências – ainda que seja apenas para gravitar em sua periferia. E já no âmbito na CPLP, as possibilidades de ação coordenada não raro acabam prejudicadas por disputas pelo protagonismo no seio da comunidade.

Foi em razão dessa disputa que, inebriado de ideologia e incapaz de dimensionar as suas reais capacidades, o Brasil do Partido dos Trabalhadores (PT) tencionou apadrinhar alguns dos países-membros da comunidade lusófona. Aos olhos da política brasileira da altura, tratava-se de um meio de projeção de poder, objetivando fortalecer o pleito por um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Tudo isso, é claro, combinado a um esquema de corrupção estruturado com as ditaduras então no poder em Angola e Guiné-Equatorial.

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«Dez anos é muito tempo» [Paulo de Carvalho/Nuno Pacheco]

 

Dez anos é muito tempo, muitos dias, muitas horas a errar

Nuno Pacheco
publico.pt, 04.07.19

Chegado do Reino Unido, onde esteve em visita oficial, Donald Trump escreveu no Twitter que se tinha encontrado com o “Prince of Whales”. Ora isto deu a Stephen Colbert mais uma oportunidade, e já são tantas, de ironizar com o desprezo a que Trump vota a língua em que fala e escreve. E pôs-se a imitar o canto das baleias, pois “Prince of Whales” seria príncipe das baleias, e na verdade Trump esteve com o “Prince of Wales”, o príncipe de Gales. Ora “Whales” e “Wales” soam da mesma maneira, mas a letrinha que as distingue na escrita faz toda a diferença. É como “acto” e “ato”, não é verdade?

Voltando a Trump: não são apenas erros de escrita os que ele repete, sem o mínimo pudor. Ainda há dias o vimos anunciar mais sanções contra o regime do “ayatollah Khomeini” (que morreu em 1979), em vez de se referir ao “ayatollah Khamenei”, actual líder supremo do Irão. Um erro histórico. Mas isso importa?

Importa, claro. E é aqui que se levantam umas vozes a dizer que tanto faz, que toda a gente sabe que ele queria dizer Khamenei e se enganou, que Trump sabe escrever “Wales” mas lhe escorregou o dedo para as baleias, etc. E quem diz Trump diz o senhor Gervásio, ou o menino Tonecas, ou a senhora dona Miquelina, porque isso de errar é muito relativo. Pois. Repitam isso a quem vai a conduzir um camião pesado ou a um cirurgião de bisturi em punho. Errar não é uma escolha, para a esmagadora maioria das pessoas e das profissões. Diz-se que errar é humano, e é verdade, mas também é humano procurar evitar o erro. Porque, em certos casos, o erro paga-se muito caro. Até em práticas sem danos letais, como o futebol ou o atletismo.

Há dez anos, num curioso texto intitulado “Abordagem histórico-sociológica do debate em torno do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa”, assinado em 2009 por Rita Marquilhas, da Universidade de Lisboa, concluía-se o seguinte: “A inclusão de secções dentro do texto do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa em que se prevê flexibilidade na escolha entre a antiga solução portuguesa e a antiga solução brasileira, que foi no fundo uma demonstração de pragmatismo por parte dos negociadores do documento, introduz por arrastamento uma modificação no conceito de erro ortográfico. O erro deixa de ser, naqueles casos particulares, um desvio em relação à matriz inflexível constituída por regras de sentido único, para passar a ser, somente, a inobservância de uma escolha. Fica-se mais perto, portanto, de uma desmistificação das virtudes inerentes às ortografias. Dada a história de intolerância a que elas têm estado ligadas, isto parece ser uma boa notícia em termos de renovação de mentalidades.”

Resumamos, portanto: as ortografias são intolerantes, por serem inflexíveis; o erro constitui uma estigmatização desnecessária de quem nele persiste; e transformá-lo em “inobservância de uma escolha” foi uma saída inteligente para que o erro deixe de existir e de envergonhar. Isto, para certas criaturas, é um triunfo. Já não se pode dizer: o senhor errou. Porque o senhor apenas se decidiu pela “inobservância de uma escolha”. Parabéns, Trump, pelas suas baleias.

Tendo em conta este raciocínio, que acabaria com a maldita regra que diz “não se consentem grafias duplas ou facultativas” (reforma ortográfica de 1945), dir-se-ia que agora cada um pode escrever como quer. Vejamos o que aconteceria se certas palavras usadas nos recentes exames de Português e de Matemática do 12.º ano, como “aspeto”, “correção”, “objeto”, “correta”, “vetor”, “reta”, “semirreta”, “diretor”, “bissetriz”, surgissem escritas como aspecto, correcção, objecto, correcta, vector, recta, semi-recta, director, bissectriz. Vinha logo alguém dizer que não senhor, isto agora não se escreve assim. Portanto, a ideia de que a ortografia deixou de ser uma coisa impositiva e mais dada a “inobservâncias” nas escolhas só vale para palavras admitidas pelo dito “acordo ortográfico”. Aos que não o seguem, é posto o carimbo (nada discriminatório!) de “fulano escreve de acordo com a antiga ortografia”. Como se vê, a “desmistificação das virtudes inerentes às ortografias” não só não existe como é usada em sentido contrário, para impor grafias idiotas ou inadmissíveis no português europeu.

Não admira, por isso, que todos os dias surjam aberrações como “impato” por impacto, “fato” por facto ou “autosustentável” por auto-sustentável (estas pérolas, na SIC e na CMTV, foram registadas recentemente, com imagem, pelos Tradutores Contra o Acordo Ortográfico). Por isso, quando nos vêm falar nos dez anos que as criancinhas já levam de aprendizagem desta intragável caldeirada, invocando-os como razão para manter o “acordo” como está, só me vem à memória uma antiga canção de Paulo de Carvalho (10 anos). E a resposta só pode ser, alterando-lhe ligeiramente o refrão: dez anos é muito tempo, muitos dias, muitas horas a errar. E cada minuto a mais, além de escusado, pesa. É, pois, mais que tempo de acabar com isto e repor a racionalidade perdida: a diversidade da língua portuguesa deve ser reconhecida, fixando as suas riquíssimas variantes em cada país (e não de forma transnacional), como parte de um património comum. É esse o acordo do futuro, não a mistela que nos impuseram.

[Transcrição integral de artigo da autoria de Nuno Pacheco, jornal “Público”, 04.07.19. O “link” a verde foi acrescentado por mim. A imagem de topo (SICN, 22.06.19) é de minha autoria (big deal!).]

 

Nota: os erros de Português que aparecem no vídeo são da exclusiva responsabilidade do autor do dito vídeo, evidentemente.

Feira do Livro de Lisboa 2019

20|20 EDITORA A58,60,62,64,66,68,70,72,
B19,21,23,25,27,29,31,33
IDEIAS COM HISTÓRIA A07; A09
4ESTAÇÕES EDITORA C05 ILC – AO C68
A ESFERA DOS LIVROS C96 IMPRENSA DE CIÊNCIAS SOCIAIS A35
AAFDL EDITORA C23 IMPRENSA NACIONAL-CASA MOEDA C46; C48
ABYSMO | LIVROS DO MEIO E15 INLD – MOÇAMBIQUE A51
ADELAIDE BOOKS PORTUGAL E13 ISCPSI/PSP B08
AFRONTAMENTO – TEODOLITO A45; A47; A45 ISCTE-IUL B04
ALÊTHEIA EDITORES A80 ISPA – INSTITUTO UNIVERSITÁRIO B06
ALFAGUARA / COMPANHIA DAS LETRAS D103; D105 KALANDRAKA B09
ALFARROBA A05 LELLO EDITORES D14
ALMA DOS LIVROS E08; E10 LEMA D’ORIGEM – EDITORA E12
ÂNCORA EDITORA C15 LER DEVAGAR / SERRALVES E01
ANTÍGONA D40; D42 LETRA LIVRE A15
AREAL EDITORES C26 LEYA A57,86,88,90,92,94,96,
B49,51,53,55,57,59,61
ARIANA EDITORA A39 LIDEL – EDIÇÕES TÉCNICAS C19
ARMAZÉM 111 A13 LIVRARIA HISTÓRICA ULTRAMARINA A26
ARQUIMEDES LIVROS A19 LIVRARIA SANTIAGO A17; A28
ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA C42; C44 LIVRARIA TIGRE DE PAPEL E09
BABEL D02,04,06,08,10,12,08,10 LIVRARIA TURISMO DE MACAU B13
BERTRAND EDITORA C02,04,06,08,10,12,
D13,15,17,19,21,23,025,
C12; D25; C10
LIVROS COTOVIA C35
BIMBY A06 LIVROS DE BORDO A31
BIZÂNCIO A25; A27; A29 LIVROS HORIZONTE D77; D79; D81
BOOKS OF RUSSIA (OGI) A49 LOJA BLX A02; A04
BOOKTIQUE A18; A20 LOJA DA BÍBLIA D18
BRAGA ALFARRABISTA A11 LUSODIDACTA A33
BRASIL A82 MEBO GAMES A12
CALEIDOSCÓPIO A23 METAMORFOSE A24
CENTRO ATLÂNTICO B02 MIGUEL – ALFARRABISTA A22
Centro Português de Serigrafia MINUTOS DE LEITURA C01; C03
CHIADO GRUPO EDITORIAL A44,46,48,50,48,50 MORAPIAF A08
CINEMATECA PORTUGUESA B47 NOVA VEGA D22; D24
CÍRCULO DE LEITORES D41; D43 ORFEU NEGRO|PATO LÓGICO D36; D38
CLÁSSICA EDITORA D45 PÁGINACARMIM E11
CLIA BOOKS C33 PAULINAS EDITORA C36; C38; C40
CLIMEPSI EDITORES  D47 PAULUS EDITORA D59; D61
CLUBE DO AUTOR D51; D53; D55; D57 PENGUIN RANDOM HOUSE D95; D97; D99; D101; D103; D105
CORDEL D’PRATA  E17 PINGO DOCE A16
CTT  D11 PLÁTANO EDITORA D26
CULTURA AÇORES A52; A54; A56; A54: A56 PONTO DE FUGA / GRUPO NARRATIVA E04
CULTURA EDITORA  D28 PONTO M B22
DEVIR  B43 PORTO EDITORA C14, 16;,18,20,22,24,
D29,31,33,35,37,39; C26; D27
DINALIVRO C27,90,92,94,92,94; C27-C90-C92-C94 PRESENÇA C50,52,54,56,58,60,62,
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GRADIVA C64; C66; C68 ZÉFIRO B24; B26; B28
GRUPO ALMEDINA C72,74,76,78,80,82,
D83,85,87,89,91,93
ZERO A OITO B18; B20
GUERRA E PAZ EDITORES D48  

500 anos Barreiras (em pista coberta)


Já começamos a ficar um bocadinho fartos deste bacano (termo aqui aplicável com a devida carga de dignidade parlamentar) mas, dado voltar ele à carga com o seu querido “valor da língua” (este também só vê cifrões, como o Tio Patinhas) e com mais uma declaração de amor dedicada à sua verdadeira pátria, a terra do samba, bom, assim sendo, atão váláver o que lá vem desta.

Pois parece que, por entre dois ou três novíssimos “argumentos”, esgalha Barreiras, neste seu segundo textículo a seguinte verdadeira pérola de cultura: «No ano 1500, só um milhão de pessoas falava português no mundo.»

Eisch! C’um caneco, bálhamedeus, etc.! Isto é mesmo fantástico. Uma descoberta sobre as Descobertas, mas que maravilha: no ano 1500, “por coincidência” aquele em que Cabral largou âncora em terras de Vera Cruz, éramos só um milhão, no total, mas agora — certamente, evidentemente, devendo-se tão extraordinário fenómeno (demográfico) ao Brasil — somos para cima de um ror de gente a “falar português no mundo”, eia, há quem aponte para 240 milhões, ou assim, números redondos.

Descobriu Cabral o Brasil há 500 anos e descobre agora Barreiras que a História deu um salto de cinco séculos, em 1500 a população total do planeta não era afinal de 500 milhões. Deixemos os pormenores insondáveis (a Revolução Industrial, a máquina a vapor, a “pílula”, a mecanização maciça, a vacinação, )  para quem sabe umas coisas, como é o notório caso de Barreiras, ele há-de ter informações fidedignas sobre o senhor Taylor, o senhor Ford, o senhor Von Braun e outras personagens inventadas pelos suspeitos do costume.

Há 500 anos nós éramos “só” um milhão e agora somos mais de 260 milhões de “lusófonos”, eis a tese de Barreiras, de 1 vamos num pulinho a 240+IVA, e que se não fosse o Brasil mai-lo milagroso “acordo ortográfico” continuávamos a ser aquele triste milhãozito, e pronto, não se fala mais nisso, adiante.

Nota, porém, Barreiras, neste seu artigalho, com tremendo susto, que a coisa  terá emperrado algures. Chega mesmo ao inusitado ponto, Barreiras, de se queixar com excruciante amargura que é preciso  «resolver de uma vez por todas o que fazer ao chamado Acordo Ortográfico. Será um nado morto?»

Pois, Barreiras, ainda bem que pergunta.

É, Barreiras. É um nado-morto.

II) Monolinguismo – o analfabetismo do século XXI?

Na Sorbonne, o português é a terceira língua mais procurada, a seguir ao inglês e ao espanhol.

«Os preconceitos têm mais raízes do que os princípios».

Nicolau Maquiavel

No que respeita à aprendizagem de línguas estrangeiras, os dados disponíveis atestam que, ao contrário do percepcionado, não são muitas as pessoas na Europa que aprendem (aprenderam) e falam línguas estrangeiras (inglês e outras). Em 1970, 25% dos portugueses não sabiam ler e escrever. Essa percentagem é actualmente de 4% (ou seja, ainda meio milhão de pessoas com idade entre os 18 e os 65 anos).

No ranking EPI (English Proficiency Index) de 60 países, Portugal é o 14º (igual à Alemanha e Suíça) entre os melhores, apesar de tudo, a falar inglês. Os melhores são a Suécia, a Noruega, a Holanda, a Estónia, a Dinamarca, a Áustria e a Finlândia; os piores são o Chile, Marrocos, Colômbia, Equador, Venezuela, Jordânia, Tailândia, Arábia Saudita e Iraque.

Da Europa, os piores a falar inglês são os franceses e os italianos. No ano 1500, só um milhão de pessoas falava português no mundo. Em 2019, em todos os continentes, são mais de 260 milhões os que hoje falam português. Mais do que nós, nas línguas europeias, só o espanhol e o inglês. Em 2100 serão 400 milhões os falantes de português em todo o mundo. No Facebook e no Twitter, o português é a 3ª língua mais utilizada, e na Internet é a quarta. Países como o Senegal (que as estimativas assumem ir ter um grande aumento da população) já tem quase 50 mil alunos a aprender o português.

Em setenta dos quase duzentos países que o mundo tem, existem actualmente mais de duzentos mil estudantes de português. Na Sorbonne, o português é a terceira língua mais procurada, a seguir ao inglês e ao espanhol. Na China, a aprendizagem e o domínio da língua portuguesa estão em grande expansão e não só através de Macau. O português, língua com mais de oitocentos anos (desde o século XII), tem sido ao longo dos séculos um instrumento de identidade de vários estados e comunidades politicamente organizadas.

O monolinguismo, enquanto uma espécie de analfabetismo do século XXI, não pode servir para acabar e secundarizar (e/ou matar) línguas e dialectos. Antes pelo contrário. No caso do português, temos de ser mais inteligentes e corajosos na sua afirmação enquanto língua de poder. Língua falada e oficial nos principais fóruns internacionais (Nações Unidas, FMI, OCDE, Organização Mundial de Turismo, Organização Mundial do Comércio, Vaticano, etc.). O poder regulatório das políticas linguísticas à escala mundial tem um caminho a fazer e muitos objectivos a atingir.

Fora de Portugal, a língua portuguesa não pode ser apenas uma língua de ‘rua’, do ‘café’, do ‘centro comercial’, etc. Tem de ser também e acima de tudo uma língua da diplomacia, da economia, das cimeiras internacionais.

E neste domínio há muito a fazer. Desde logo, resolver de uma vez por todas o que fazer ao chamado Acordo Ortográfico. Será um nado morto? E já agora, quem cuida da ortofonia? E quem explica a alguns dos nossos ricos e profissionais das bolsas de estudo que não devem esquecer a sua língua materna? Isabelle Oliveira, vice-reitora da Sorbonne, diz que «um cientista que abandone a língua que lhe é mais familiar para realizar o seu trabalho nunca poderá alcançar o seu pleno ‘potencial’». Porque o valor das línguas maternas no mundo científico é muito relevante.

O dia 5 de Maio é o dia internacional da língua portuguesa. O dia 8 de Setembro é o dia internacional da literacia. Saibamos estar à altura não só da importância de ambas as datas mas também de projectar a importância do seu significado. Num tempo desafiante, em que o monolinguismo não pode significar o analfabetismo do nosso tempo – e o esmagamento da generalidade das línguas por uma língua dominante. Em particular, pelo inglês.

olharaocentro@sol.pt

[Transcrição integral. Semanário “Sol”, Feliciano Barreiras Duarte, 18.02.19, II) Monolinguismo – o analfabetismo do século XXI?. Destaques e sublinhados meus.As letras em falta no original do artigo foram automaticamente repostas pela solução Firefox contra o AO90 através da extensão FoxReplace do “browser”.]

Gráfico de Keith Montgomery, Department of Geography and GeologyUniversity of Wisconsin USA