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Diz que coiso e tal

Lari e Hugo – 135K subscribers
Larissa, como é que você aprendeu a falar português de Portugal? É muito difícil? É muito diferente? Você demorou quanto tempo pra entender tudo? haha Recebo várias mensagem assim diariamente!! E no vídeo de hoje resolvi ser professora por um dia e vim “vos ensinar” a “FALAR PORTUGUÊS DE PORTUGAL” de uma maneira rápida, prática e fácil!! Quem aí tá animado? Vamos lá comigo que tenho a certeza que vai ser divertido!!

Uma das bacoradas favoritas de acordistas (e outras não menores mas de aparente sinal contrário) é esta coisinha intocável: «o falar influencia a ortografia mas no sentido inverso ‘no pasa nada’». Estabelecido na sua mirrada cabecinha tão grosseiro quanto idiota axioma, estendem-no como se fosse um tapete a outras “verdades” de igual ou semelhante calibre: por exemplo, diz que «a ortografia não passa de um código arbitrário para simples transcrição da fala», assim como diz que, ainda por exemplo, que «o AO90 não altera o modo de falar, só “afeta” a escrita».

Ora, evidentemente — e neste ponto dá imenso jeito aos acordistas a metáfora do tapete, para debaixo do qual varrem os argumentos contra os seus ditames –, qualquer aluno da 4.ª Classe (do 5.º Ano, vá) sabe e já percebeu que a via é bi-unívoca, dá para os dois lados, salvo seja, a fala afecta a escrita assim como a escrita influencia o modo de falar. Veja-se (e oiça-se) o que já se vai passando por aí, o emudecimento (por via da caça à consoante dita muda) daquelas coisinhas que antes eram sílabas tónicas (em Portugal e PALOP) e que agora até locutores de TV ou rádio fazem soar conforme lêem textos estropiadas pelo AO90 segundo a “lógica” fonética brasileira (em que todas as vogais são mais tónicas do que o Gin); a peçonha acordista já chegou ao inimaginável ponto de alguns não apenas tentarem ler o brasileiro com sotaque português (ou seja, sem sotaque algum) como, ainda por cima, os mais expeditos a engraxar brasileiros desataram já a “imitar” o próprio léxico brasileiro: os advérbios de modo foram abolidos (é tudo “fácil”, nada é feito facilmente, o que antes se fazia rapidamente agora faz-se “rápido”, e assim por diante), já não há pessoas, o que há é “oi, minha gente” (ou algo do género, igualmente asqueroso), volta-e-meia ouve-se tugas a balbuciar “registro” em vez de registo, o verbo “dizer” foi também administrativamente abolido, agora é “falar”, ele “falou” que ou, pior ainda, “ele me falou que”.

São aberrações destas (sim, isto é que são aberrações, fora o resto) que levam um ser-humano a interrogar-se “mas onde raio guardei eu a pistola”.

De semelhante cambada, de tais e tão estranhos fenómenos, temos aqui dois exemplos (também eles) contrastantes; lá em baixo, como o tiroliroliro, temos uma espécie de exposição do “mundo das línguas”; lá em cima, como se fosse o tiroliroló da loucura, temos a demonstração prática do processo de colonização linguística em curso.

Ao mundo dos conceitos básicos na matéria, traduzido sem calão da árvore em imagem, junte-se o vídeo com efeitos especiais de uma rapariga brasileira ensinando a seus patrícios como comunicar com os selvagens que habitam nesta sua nova província.

Que horror.

Viagem ao extraordinário mundo das línguas – Opinião

Marco Neves
24.sapo.pt
24.01.21

 

Fechado em casa, apetece-me fazer uma viagem pelo mundo das línguas. Vou escrever um facto sobre uma língua de cada vez. A língua seguinte terá de estar ligada à anterior pela geografia ou de outra maneira. No fim, regresso ao nosso país.

 

GALEGO | Será uma surpresa em Portugal, mas há galegos que consideram o galego e o português a mesma língua. As opiniões dividem-se, mas uma coisa é certa: se não forem a mesma língua, dificilmente encontraremos duas línguas mais próximas do que estas.

CASTELHANO | A língua aqui ao lado tem 5 vogais. Por cá, usamos umas 14 da boca para fora. É uma das razões pelas quais é tão difícil aos vizinhos perceber o que dizemos. Para compensar, na escrita, têm uma letra vogal adicional: o <y>.

BASCO | É a única língua não indo-europeia da Península. Na Europa, há mais umas quantas: o maltês, o turco e as línguas urálicas como o húngaro, o finlandês e o estónio (sem esquecer outras da família, como o lapão). O basco é a única sem familiares.

CATALÃO | Na Idade Média, foi uma importante língua do Mediterrâneo. Os primeiros textos conhecidos em catalão são mais antigos do que os primeiros textos escritos em galego ou português.

OCCITANO | A língua tradicional do Sul de França é hoje falada por poucos, mas recebeu um Prémio Nobel da Literatura antes do inglês ou do italiano. O laureado foi Frédéric Mistral, em 1904.

FRANCÊS | A ortografia francesa está particularmente distante da fonética da língua. Uma palavra como «août» é lida por muitos franceses simplesmente como [u]. A conjugação verbal é também muito mais simples na oralidade do que na escrita.

NEERLANDÊS | Apesar de, em Bruxelas, ser mais fácil encontrar quem fale francês, o neerlandês é a língua mais falada na Bélgica, onde era tradicionalmente chamada de «flamengo». Por cá, também usamos o termo «holandês» para designar a língua.

FRÍSIO | Esta é a língua mais próxima do inglês. Mesmo assim, são muito diferentes, porque o inglês sofreu profundas alterações (e o frísio também não deve ter ficado parado). Aqui fica uma frase em frísio: Myn namme is Marco en ik kom út Portegal.

INGLÊS | É uma língua germânica apaixonada pelo léxico de origem latina. Vindas do francês, do latim ou de outras línguas românicas, há tantas palavras latinas no inglês que é quase um membro honorário do nosso clube. Note-se: no inglês, as palavras latinas tendem a ser mais formais.

SCOTS | Ane leid is ne’er eneuch!* Na Escócia, fala-se gaélico (nas Terras Altas), inglês (à escocesa) e ainda Scots, considerado por uns dialecto do inglês e por outros língua separada. Uma coisa é certa: tem uma antiga tradição literária. [*Uma língua nunca é suficiente!]

NORUEGUÊS | Tem duas normas oficiais, ambas ensinadas nas escolas, cada uma com variedade interna considerável: o nynorks («novo norueguês») e o bokmål («língua dos livros»). Esta última é a mais usada e também a mais próxima do dinamarquês.

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“Identidades”

O Amor A Portugal

O dia há-de nascer
Rasgar a escuridão
Fazer o sonho amanhecer
Ao som da canção
E então
O amor há-de vencer
E a alma libertar
Mil fogos ardem sem se ver
Na luz do nosso olhar
Na luz do nosso olhar
Um dia há-de se ouvir
O cântico final
Porque afinal falta cumprir
O amor a Portugal
O amor a Portugal

Carlos Vargas

 

Soy Español, y orgulloso de serlo. Quiero a mi España. Y quiero y como lo quiero a mi entrañable Portugal. Es para mi un refugio de emociones que consiguen sacar de mi hasta la ultima gota de sentimiento y emoción. Amo sus Fados, si con mayúscula y una lagrima siempre se marcha solitaria con el pensamiento puesto en Hermosa Tierra de la vecina Patria de Portugal a la que amo igual que si fuese Portugues. Mi abrazo a todos por siempre.

 

 

Apenas se lido de relance este texto de Filipa Moreira da Cruz pode parecer que pouco ou nada tem a ver com o AO90. De facto, não é por a autora referir o aleijão uma única vez, e de raspão, que o resto do escrito ganha especial relevância nesse aspecto mais “militante”. Aliás, é perfeitamente normal que as pessoas normais mencionem amiúde o excremento; estranho (e um pouquinho nauseabundo, por paradoxal) é que não o façam algumas delas, talvez por cobardia ou se calhar por convicta mediocridade, com pelo menos alguma regularidade. Há por aí algumas pessoas que em tempos até rasgavam as vestes jurando que “jamais” e outras palavrinhas radicais, mas que agora chafurdam com entusiasmo no esterco da sua hipocrisia, tendo “adotado” já o que em tempos achavam repugnante.

Bem, voltemos ao texto, que dessas tristezas e dessa triste gente não resta nem a sombra.

Além da sua desarmante simplicidade — mais de meio caminho andado para a genuinidade, ou seja, para atingir o cerne da questão –, o que lemos aqui é um pequeno manifesto identitário, algo que é tão caro a quem se dedica ao combate à neo-colonização brasileira e aos vendidos portugueses, quase uma declaração de paixão pela Pátria, o apego ao torrão ilustre e o apelo de quem está longe (mas afinal tão perto) a que vivamos em paz, com as nossas asas e as nossas raízes, orgulhosamente independentes, «desde que saibamos de onde vimos».

Ora bem, fantástico poder de síntese, esta autora é cá das nossas, o que diz tem afinal tudo a ver com o estrume, com a brasileirada “infeta”. Mesmo.

“De Mala Pronta”, Filipa Moreira da Cruz,”Sol”,

Identidades

https://sol.sapo.pt/tag/filipamoreiradacruz

Mas o que é ser português? Nascemos portugueses ou tornamo-nos portugueses? A nacionalidade é muito mais do que um passaporte E não se adquire só pelos genes. O meio onde vivemos contribui (e muito) para a nossa identidade.

Há uns dias, uma amiga ligou-me para partilhar uma boa notícia: acaba de obter a nacionalidade australiana. A meio da conversa disse-me que já não se sente apenas francesa, é uma mistura. Talvez só quem tenha passado vários anos num país que não é o seu a possa entender. De qualquer forma, até os que nunca saíram do seu cantinho são 100% de coisa nenhuma. Todos somos fruto de séculos de cruzamento de civilizações que habitaram a Terra antes de cá chegarmos. Como diz a canção de Jarabe de Palo, «en el puro no hay futuro, el futuro está en la mezcla». Felizmente.

Saí de Portugal há mais de 20 anos. Já vivi em cinco países europeus, nove cidades e, da última vez que contei o número de mudanças já ia em 18. Falo, leio, escrevo e sonho em quatro idiomas. Talvez a minha língua materna já não seja tão imaculada. Se fizer um ditado respeitando o acordo ortográfico, não terei 0 erros, como nos tempos de escola. Mas por muitas voltas que dê, Portugal é e será sempre a minha pátria.

Mas o que é ser português? Nascemos portugueses ou tornamo-nos portugueses? A nacionalidade é muito mais do que um passaporte E não se adquire só pelos genes. O meio onde vivemos contribui (e muito) para a nossa identidade. Daí a eterna questão em relação ao que deve ser predominante, a lei do sangue ou a lei do solo. Há uma constante dualidade entre dar e receber. Incluir não é somente integrar. Assimilar não é apenas adquirir.

O meu filho considera-se 50% gaulês, 40% luso e 10% espanhol. A minha filha diz que é metade portuguesa, metade francesa e un poquito espanhola. Ambos nasceram em Paris, têm nacionalidade francesa e são bilíngues. Viveram um ano em Portugal e três anos em Espanha, sendo fluentes em castelhano. Eu vejo esta trilogia como uma mais-valia para cultivarem o respeito, a tolerância e a solidariedade. A força reside na diversidade. Todos somos iguais na essência, mas diferentes em tantos outros aspectos. Não há lugar para o racismo, até porque só há uma raça: a humana.

Durante a presidência de Sarkozy a identidade nacional era um assunto recorrente. Certos políticos consideravam que havia um desapego em relação à nação. Xavier Bertrand, secretário geral do partido que estava no poder (UMP), enalteceu o orgulho de viver em França. Algo ambíguo e vago. Várias medidas foram implementadas para promover a identidade francesa. O canto do hino nacional na escola, cursos de língua e cultura francesas, proibição do uso da burka. A oposição denunciou, com razão, o perigo de confundir-se identidade nacional e nacionalismo exacerbado. Nem todos os Martin ou Richard têm uma cega adoração pela França. Em contrapartida, há estrangeiros que se consideram franceses.

Há um país, para além do meu, onde me sinto em casa: Espanha. E não apenas por ter antepassados que nasceram no país vizinho. Certas afinidades não se explicam. Como dizia Saramago, em castelhano, «Lanzarote no es mi tierra, pero es tierra mía”» Ainda assim, recusou várias vezes a cidadania espanhola. Quando visitei a sua casa na ilha canária deparei-me com Portugal em cada recanto. Na mobília, no serviço de café, nos livros da biblioteca e até mesmo na oliveira alentejana que plantou no jardim, em frente ao oceano. Tão longe e tão perto.

Somos todos cidadãos do mundo e não importa para onde vamos, desde que saibamos de onde vimos. Somos árvores e pássaros. Temos raízes e asas. Nem sempre podemos estar onde gostaríamos, mas nunca nos esquecemos quem somos. Talvez por isso os mais bonitos poemas de Pablo Neruda tenham sido escritos durante o exílio, longe da sua terra natal, o Chile. Todos temos direito a várias identidades para que o futuro se escreva no plural.

A reprodução de artigos e/ou conteúdos da autoria de terceiros tem por finalidade única a constituição de acervo documental sobre tudo aquilo que, segundo critérios meus, interessam ou dizem respeito ao chamado “acordo ortográfico” (e a outros detritos). Os textos que eventualmente sejam publicados na imprensa usando a cacografia brasileira no original (por exemplo,da Agência brasileirusa) e aqui reproduzidos são automaticamente corrigidos com a solução Firefox contra o AO90 através da extensão FoxReplace do browser.

Trinta anos de luta

O PEV apresentou no Parlamento um Projecto de Resolução com vista, no limite, à suspensão do “acordo ortográfico” de 1990. A notícia está ali em baixo, é do Pravda (“verdade”, em Russo), e a gravação vídeo da sessão parlamentar respectiva está aqui em cima.

Como seria de todo expectável, a argumentação aduzida nesta “recomendação ao Governo” refere, além da  habitual resenha histórica sobre o AO90, as palavras-chave da ordem e os lugares-comuns da oratória ritual sobre o tema, isto é, as “lacunas”, as “facultatividades”, as “ambiguidades” do AO90, etc. Este tipo de preâmbulo é de certa forma natural, em especial quando o parlamentar documento é redigido e lido por alguém que, por excepção no caso do “acordo”, não teve nem tem qualquer espécie de ligação aos “negócios” envolvidos ou às “conversações” secretas nos Passos Perdidos; de quem não suspeita sequer de coisa nenhuma no que respeita à imensa penumbra (ou, melhor dizendo, à total escuridão) que envolveu o processo de “adoção” da cacografia brasileira através de uma simples Resolução parlamentar, em 2008; de quem está ali de boa-fé, em suma.

Evidentemente, depois dos considerandos o PEV explanou — com basta soma de razões — o que é e para que serve (serviria, se por milagre fosse aprovado) o seu Projecto de Resolução. A deputada a quem tocou essa explanação terá com certeza dado o seu melhor mas, como de resto era muito mais do que previsível, o Projecto foi derrotado por larga maioria — como sempre sucede num regime como o vigente em Portugal, a democracia parlamentar.

Tal tipo de regime político implica necessariamente o primado não da democracia propriamente dita mas do poder absoluto — teoricamente legitimado pelo voto popular universal — entregue ao sistema partidário e, dentro deste, à cobertura política da acção governamental por parte de um partido político ou de uma coligação ad-hoc suficiente para garantir uma maioria parlamentar.

Ora, em tal conformidade é totalmente inviável a apresentação em sede de Parlamento de qualquer iniciativa política que por algum motivo não agrade ao partido do Governo ou escape ao controlo  dos partidos maioritários em coligação. Do que resulta a total e absoluta irrelevância dos deputados, que para o efeito (aprovação ou rejeição de iniciativas e diplomas) cumprem apenas o papel de corpo presente: o seu sentido de voto foi previamente determinado pelos respectivos directórios partidários. Portanto, a votação pelos deputados desta iniciativa do PEV — ou de qualquer outra entregue em mão a São Bento — foi totalmente inútil, como é invariavelmente inútil, tratando-se, na prática, de um simples ritual regimental sem o menor vestígio de democraticidade e sem qualquer espécie de relevância ou efectividade; se os votos dos deputados não são dos deputados (são do respectivo “chefe”) e se o resultado dessa “votação” já estava previamente determinado, então será legítimo (e justo) que um qualquer cidadão pergunte a si mesmo para que raio servem as votações na Assembleia da República; com efeito, em vez da cena teatral com 230 actores, cinco ou seis chamadas telefónicas para as sedes partidárias bastaria para aprovar ou chumbar qualquer iniciativa legislativa ou diploma legal.

Não houve portanto nesta sessão qualquer tipo de votação, a não ser a ritual e inútil, assim como também não houve qualquer espécie de “discussão” sobre o Projecto de Resolução em causa, debitando as diversas bancadas parlamentares um discurso  impermeável a um único argumento que não seja da sua própria lavra; sequer dão-se à maçada de ouvir as intervenções alheias (tagarelam, de costas para a oradora, em amenas cavaqueiras); à semelhança de outras iniciativas parlamentares, inclusivamente sobre o AO90 (do PCP e da ILCAO), os diversos partidos limitaram-se a ler o seu texto pré-formatado e a ignorar qualquer outro; no caso do Centrão (PSD e PS), em especial destaque (pela negativa), repetindo as mesmíssimas bojardas, o chorrilho de mentiras e aldrabices que usam há já 30 anos para enganar o povo — o mesmíssimo povo que votou neles e assim autorizou (para gáudio de alguns) que eles se marimbem sistematicamente na memória, na propriedade imaterial colectiva, na História, na Cultura, no património identitário de quem os elegeu.

Projecto de Os Verdes no qual Recomendam a Avaliação Científica do Acordo Ortográfico de 1990

pravda.ru, 16.01.21

 

Este Projecto de Resolução será discutido e votado, em Plenário da Assembleia da República, amanhã sexta-feira, dia 15 de Janeiro, a partir das 10H00.

PROJECTO DE RESOLUÇÃO Nº 533/XIV/1ª. – AVALIAÇÃO DO ACORDO ORTOGRÁFICO DE 1990

Nos anos 80, um grupo de especialistas da Língua Portuguesa reuniu-se e criou uma série de regras ortográficas modificativas, alegadamente para “unificação e simplificação da escrita do Português”.

Em 1990 foram assinados dois documentos: o Projeto de Ortografia Unificada da Língua Portuguesa e a Introdução ao Projecto de Ortografia Unificada da Língua Portuguesa, que viriam dar origem ao Acordo Ortográfico de 1990 (AO90).

Este Acordo foi assinado por Portugal, Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe, tendo Timor-Leste aderido em 2004, após ter reconquistado a independência.

O Acordo Ortográfico de 1990 foi aprovado, para ratificação, pela Resolução da Assembleia da República n.º 26/91, de 23 de agosto, e foi ratificado pelo Decreto do Presidente da República n.º 43/91, 23 de agosto.

Entretanto, surgiram protocolos modificativos.

O Primeiro Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico de Língua Portuguesa foi aprovado pela Resolução da Assembleia da República n.º 8/2000, de 28 de janeiro, e ratificado pelo Decreto do Presidente da República n.º 1/2000, 28 de Janeiro, excluindo do seu artigo 3.º a data da entrada em vigor, mas mantendo o requisito do depósito dos instrumentos de ratificação de todos os Estados contraentes.

O Segundo Protocolo Modificativo ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa é aprovado pela Resolução da Assembleia da República n.º 35/2008, de 29 de Julho, e ratificado pelo Decreto do Presidente da República n.º 52/2008, de 29 de Julho, que, para além de permitir a adesão de Timor-Leste, veio introduzir diversas alterações ao texto como, por exemplo, permitir a possibilidade de o Acordo Ortográfico entrar em vigor mesmo sem ter sido ratificado por todos os países envolvidos, sendo suficiente que apenas três membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) o ratificassem para que entrasse em vigor nesses países.

Recorde-se que apenas Portugal e Cabo Verde ratificaram o novo acordo dentro do prazo estabelecido.
Em Portugal, entrou em vigor oficialmente em 13 de Maio 2009, com um período de seis anos para a sua total implementação. Nas escolas do ensino básico e secundário passou a ser aplicado a partir de Setembro de 2011 e, em Janeiro de 2012, em todos os demais organismos e publicações do Estado.

Emitiu-se uma Nota Explicativa, nos primeiros anos, em que se indicavam as razões de tais modificações e os objectivos que os autores esperavam obter com a utilização do AO90, na Língua escrita e oral. Eram apresentados alguns exemplos, para esclarecer a sua efectuação, com listas, nunca exaustivas, de palavras alteradas pelo Acordo.

Foram estabelecidas diversas regras ortográficas, que se concentraram em queda de consoantes mudas, na retirada de hífenes em locuções nominais, na passagem a minúscula inicial em várias palavras, na eliminação de acentos, e outras.

Para além destas regras e para abordar casos difíceis, apresentavam-se complementarmente noções elucidadoras como: «pronúncia erudita» para resolver dúvidas no caso das consoantes que não se pronunciam; noção de «consagrado pelo uso» para resolver casos em que as palavras não perderiam os hífenes; e a noção de que «o contexto define a semântica», no caso da eliminação de acentos que permitiam discernir significados.
Os objetivos mais salientados na Nota Explicativa seriam três, na tal ambição de melhorar a Língua Portuguesa, nas suas gerais utilizações, nos vários Países de Língua Oficial Portuguesa:

1) Unificação da Língua;
2) Simplificação da Língua;
3) Facilitação da aprendizagem da Língua para crianças em fase escolar e para estrangeiros.

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Ao menos coerência!

Não há-de ser difícil e muito menos será de alguma forma arriscado, seja qual for a perspectiva: os escritores estão legalmente protegidos por Direitos de Autor, o que significa que a integridade das obras literárias está de facto preservada e consignada. A nenhuma editora assiste o poder de alterar*** — seja de que forma for, a começar pela ortografia utilizada pelo autor — qualquer obra, livro, artigo, notas, comentários ou quaisquer outra formas de expressão escrita.

Por algum motivo que escapa à compreensão dos simples mortais, isto é, do público ao qual a Literatura se dirige e da qual é consumidor, porque adquirente, ou de outra forma leitor, porque destinatário, alguns escritores portugueses (e jornalistas e tradutores) admitem que as suas obras sejam estropiadas pelas editoras; estas, por seu turno, não apenas destroem alegremente a ortografia dos originais como, por requinte de malvadez, obrigam os autores a permitir que os seus escritos sejam previamente triturados pelo AO90. São imensas (e muito mal esgalhadas, como não podia deixar de ser) as desculpas que tais autores balbuciam para justificar a sua cobardia (ou pura estupidez); mesmo dando de barato as tretas e mentiras do costume (ah, e tal, o AO90 agora é lei, as editoras são obrigadas a empregar o “acordo”, o que posso eu fazer, a vida está difícil, e tal e tal), para esses esponjosos autores não há qualquer desculpa e sequer podem alegar coisa alguma em sua defesa. Admitem a cacografia brasileira nas suas publicações porque são feitos de borracha — sejamos polidos na terminologia — e portanto fingem que o problema lhes é indiferente, mera “questão de hábito” e patacoadas assim.

Não é de todo este o caso da escritora Teolinda Gersão, que desde sempre recusa liminarmente, como é seu direito, quaisquer vigarices na ortografia. Militante desde a primeira hora da luta contra o AO90, Teolinda Gersão declara expressamente em todos os seus originais que a edição e impressão de qualquer original seu terá de respeitar a versão integral do original, o que inclui, natural e inerentemente, a respectiva ortografia.

Não há cá “funfum nem gaitinhas”: ou a editora segue as instruções da autora quanto à ortografia ou então a autora mudará de editora (que as há, e bastantes, a recusar também o AO90), e adeus, passem bem.

[Nota: por respeito para com Teolinda Gersão, que além do mais é uma pessoa simpaticíssima, e para o muito improvável caso de tão honorável senhora alguma vez ler isto, devo dizer que — de boa vontade — tentei quase desesperadamente não desatar a insultar os brasileirófilos em geral e os escritores portugueses desse género em particular.]

*** Entretanto, os vigaristas ao serviço do Centrão acordista já alteraram o CDADC

 

Escritora Teolinda Gersão celebra 40 anos de carreira literária com novo livro

“Diário de Notícias” (Madeira), 14.01.21

 

A escritora Teolinda Gersão, a celebrar 40 anos de actividade literária, publica hoje um novo título, “O Regresso de Júlia Mann a Paraty”, e reedita “A Mulher que prendeu a Chuva”, de 2007, um dos mais premiados da autora.

“O Regresso de Júlia Mann a Paraty” reúne três novelas que se entrecruzam, e a que a escritora admite chamar romance, como afirmou, em declarações à agência Lusa.

“Prefiro considerá-lo um conjunto de três novelas entrelaçadas, sobre personagens históricas, que na vida real coexistiram e tiveram algum tipo de relacionamento”, afirmou Teolinda Gersão, numa entrevista por escrito, à Lusa, na qual sublinha a sua determinação em não seguir o Acordo Ortográfico vigente.

“Poderia chamar romance a este livro”, assegurou. “Obviamente há aspectos ficcionados, imediatamente reconhecíveis, mas todos os factos que refiro no livro são rigorosamente verdadeiros e estão documentados”, sublinhou.

Segundo Teolinda Gersão, “os títulos fornecem as coordenadas ao leitor”, são eles: “Freud pensando em Thomas Mann em Dezembro de 1938”, “Thomas Mann em Freud em Dezembro de 1930” e “O regresso de Júlia Mann a Paraty”, que dá titulo ao livro.

Quanto a “A Mulher que Prendeu a Chuva e outras histórias”, foi editado em 2007, venceu os prémios Máxima Literatura e Fundação Inês de Castro e vai na 7.ª edição.

A obra [de] 14 contos, que, partindo do quotidiano, se desenvolvem “insensivelmente, a outros mundos – oníricos, fantásticos, terríveis ou absurdos -, que nem por isso deixam de nos pertencer e de ser o lugar onde habitamos”, lê-se na apresentação da obra.

Sobre os 40 anos de vida literária, Teolinda Gersão faz um “balanço positivo e gratificante”.

“Sou agora muito mais lida do que há décadas atrás, os leitores estão familiarizados com a minha escrita. E os primeiros livros que publiquei tornaram-se ainda mais actuais do que na altura em que surgiram”, argumentou.

“Suponho que sou intuitiva, e me arrisco muitas vezes a ter razão antes do tempo”, acrescentou.

Sobre a actual situação pandémica, Teolinda Gersão afirmou que “é, certamente, inspiradora de novas histórias”.

“Todas as situações e épocas precisam de ser contadas, é o que distingue os humanos das outras espécies do planeta. Mas as narrativas necessitam em absoluto de ser verdadeiras. Para isso, a ficção pode ser, paradoxalmente, o melhor dos caminhos. Daí a responsabilidade enorme, e cada vez maior, dos escritores”.

“O mundo está cheio de narrativas falsas, e elas são uma das grandes perversões do mundo doente em que nos encontramos”, acrescentou.

O novo título de Teolinda Gersão, “O Regresso de Júlia Mann a Paraty”, é apresentado em ‘live streaming’ no dia 09 de Fevereiro, às 21:30, nas páginas da Porto Editora nas redes sociais Facebook e Youtube, com a participação da autora e da psicanalista Deolinda Santos Costa, numa sessão moderada pelo editor Vasco David.

Teolinda Gersão completa 81 anos no próximo dia 30. Nasceu em Coimbra, estudou Germanística, Romanística e Anglística nas universidades de Coimbra, Tübingen e Berlim, na Alemanha.

Foi Leitora de Português na Universidade Técnica de Berlim, assistente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e professora catedrática da Universidade Nova de Lisboa, tendo lecionado Literatura Alemã e Literatura Comparada.

Teolinda Gersão recebeu mais de uma dezena dos principais prémios literários, alguns dos quais bisou, como o Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, da Associação Portuguesa de Escritores, que recebeu em 2002, com “Histórias de Ver e Andar” e, em 2017, com “Prantos, Amores e Outros Desvarios”.

Também por duas vezes foi distinguida com o Prémio Fernando Namora, atribuído pela Estoril-Sol, em 2001 pela obra “Os Teclados” e, em 2015, com “Passagens”.

O Prémio P.E.N. Clube de Narrativa foi-lhe igualmente atribuído pelas obras “O silêncio”, a sua estreia literária em 1981, e por “O Cavalo de Sol”, em 1990, ambos atribuídos ex-aequo, respectivamente com Eduarda Dionísio, “Histórias, Memórias, Imagens e Mitos duma Geração Curiosa” e Paulo Castilho, “Fora de Horas”.

“O Regresso de Júlia Mann a Paraty” sucede ao livro de contos “Atrás da Porta”, publicado em 2019.

 

[Os textos que eventualmente sejam publicados na imprensa usando a cacografia brasileira no original (por exemplo,da Agência brasileirusa) e aqui reproduzidos são automaticamente corrigidos com a solução Firefox contra o AO90 através da extensão FoxReplace do browser.]

 

 

Triste comédia

Os neuropsicólogos que estudam a linguagem tentam compreender como utilizamos e combinamos palavras (ou signos, no caso de uma linguagem gestual) para formar frases e transmitir os conceitos elaborados pelo cérebro. Investigam também como compreendemos palavras expressas por outros e de que forma o cérebro as transforma em conceitos. A linguagem surgiu e manteve-se ao longo da evolução porque constitui um meio de comunicação eficaz, sobretudo para conceitos abstractos; auxilia-nos a estruturar o mundo em conceitos e a reduzir a complexidade das estruturas abstractas a fim de apreendê-las: é a propriedade de “compreensão cognitiva”. O termo “chave-de-fendas”, por exemplo, evoca várias representações dessa ferramenta: as descrições visuais da sua aparência e utilização, as condições específicas do seu emprego, a sensação que provoca o seu manuseio ou o movimento da mão quando a utiliza. Da mesma forma, a palavra “democracia” é associada a diversas representações conceptuais. A “economia cognitiva” que a linguagem autoriza ao reagrupar numerosas noções sob um mesmo símbolo permite-nos elaborar conceitos complexos e alcançar níveis de abstracção elevados.

[António Damásio; Hanna Damásio. ‘O cérebro e a linguagem. Viver Mente & Cérebro’.
Scientific American, ano XIII, nº. 143, Dez. 2004]

Assunto recorrente, principalmente em Portugal, a chamada “revisão” do AO90 parece actualmente constituir o tema central no que diz respeito ao “acordo ortográfico” de 1990 (AO90). Puro engano, está bem de ver, se bem que tenhamos de reconhecer os méritos dos métodos de dissimulação que os acordistas conseguiram levar a cabo.

A golpada foi de facto brilhante: em 1986 cozinharam uma primeira versão do “acordo” introduzindo no articulado umas quantas aberrações (ainda mais horripilantes do que aquelas que lhes interessavam) para que a contestação fosse radical e absoluta, como veio evidentemente a suceder. Foi com base nessas hiper-aberrações que surgiram as bacoradas de alguns pretensos acordistas, como as brincadeiras do “cagado de fato na praia”. Toda a gente gozou imenso com o cagado e com o seu fato sem se aperceber de que os acordistas pretendiam na realidade ameaçar o povão com uma versão deliberadamente exagerada contendo o que nem a eles mesmos interessava; tal expediente serviu para que se tornasse mais fácil aparecer posteriormente com uma outra versão, já sem o recheio do “cagado” e do “fato”; assim, satisfeitos com a sua “vitória”, os “indignados” profissionais do costume (e agentes acordistas) regressaram a penates, olha que bom, ganhámos, assim ao menos temos um “acordo”, sim, mas sem “cagados” nem “fatos”. Está claro, tratou-se de uma velha e relha manobra de contra-informação, daquelas que se podem encontrar em qualquer manual de guerrilha propagandística: primeiro ameaça-se com alguma coisa que seja inadmissível e depois saca-se da manga, como se fosse uma concessão aos opositores, a versão final — que sempre foi a única em que os vigaristas estavam interessados. 

Uma ressonância dessa táctica transparece de certa forma neste artigo de Gregório Duvivier, um comediante brasileiro: mesmo tratando-se apenas de alterações respeitantes ao acordo ortográfico de 1945, que o Brasil denunciou unilateralmente 10 anos depois, o comediante deixa de ter qualquer espécie de piada quando se “indigna” com questões de acentuação e de hifenização, os dois únicos itens em que “o Brasil cedeu”. Desses dois aspectos do AO45 que o Brasil não cumpriu então e que apresenta agora no AO90 como sendo “cedências”, aquilo que mais irrita o excelente piadético é a abolição do acento diferencial em pára/para. 

Aliás, o busílis, para os brasileiros que sabem escrever qualquer coisinha, resume-se àqueles dois pormenores (que ocorrem, desde 1945, exclusivamente na escrita brasileira) e à diferenciação entre a forma verbal “pára” e a preposição “para”.

Ora, aqui também vale a mesmíssima táctica (vigarice) utilizada na versão de 1986 do “acordo” e posteriormente na versão “mitigada” de 1990: quando o articulado “final” deste foi aprovado e, posteriormente, quando foi “ratificado” pelos deputados portugueses a soldo (RAR 35/2008), já toda a gente sabia perfeitamente que não iria ser aquela a versão final do estropício e que iria haver posteriormente uma “comissão técnica de revisão” para nela “corrigir os erros mais flagrantes”. De facto, como alegam alguns portugueses, não é só “despiorar” o AO90, é rever as “contradições flagrantes”, as “facultatividades” e, sobretudo, as “duplas grafias”.

Apenas então, quando entrar em funções tal “comissão”, serão “corrigidas” as “aberrações” todas, a do “pára/para” (fica “para/pra”), as tais “facultatividades” e as “duplas grafias” (se no Brasil a consoante é articulada, então em Portugal reentra na escrita). Teremos, por conseguinte, à conta do truque “ok, então nós cedemos”, a “adoção” definitiva — e na íntegra — do brasileiro como língua oficial de Portugal. 

Portanto, os que agora se atiram às “contradições” como gato a bofe terão não apenas de se calar como de, por desfastio, dar palmadinhas nas costas uns aos outros e uma bofetada enorme na coerência. E terão ainda de reconhecer que afinal contribuíram para dar uma enorme, tremenda, fatal machadada na nossa História.

Nossa ruína começou em 2009, quando aprovaram o novo acordo ortográfico

Gregório Duvivier, “Folha de S.Paulo” (Brasil), 12.01.21

País ficou ainda mais confuso a partir do momento em que a gente não sabia nem se era pra ou para onde ir

Historiadores do futuro divergirão sobre a hora em que tudo começou a dar errado aqui. Haverá quem culpe o golpeachment de 2016. Outros citarão o fatídico 7 a 1 na Copa de 2014. Arqueólogos atribuirão às manifestações de 2013 o papel de invasões bárbaras — a culpa, dirão, é do gigante que acordou, quebrou tudo e voltou a dormir.

Tenho uma hipótese que gostaria que paleontólogos do futuro aventassem ao se deparar com nossos fósseis. Nossa ruína começou antes, mais precisamente em 2009, quando aprovaram o novo acordo ortográfico —que, além de não ser novo, não gerou nenhum acordo.

Nesse mesmo ano Portugal entrou numa crise da qual nunca se recuperou. No Brasil, a crise chegou com alguns anos de atraso, como de hábito.

Não se derruba tantos acentos numa língua sem que se derrubem algumas instituições junto. O falante do português ficou na sua própria língua como num ônibus lotado: sem assento. Nem hífen, o cinto de segurança da língua.

A palavra “co-comandante” passou a ser grafada “cocomandante”. Percebam os impactos subliminares de se falar uma língua na qual o cocô é o mandante. Apenas isso explica o fato de termos eleito um tolete de bosta pra pilotar o país.

O Brasil nunca soube pra onde ir, mas ficou ainda mais confuso a partir do momento em que a gente não sabia nem se era “pra” ou “para” onde ir.

A reforma ortográfica derrubou o acento de pára, no sentido de parar, e agora no português “para” significa duas coisas opostas: para onde se vai, e o ato de deixar de ir. O lema “progresso para sempre” diz o contrário do que ele quer dizer.

Dito isso, chego ao real motivo dessa crônica: precisamos parar de escrever “para” com o sentido de “pra”. Com a queda do acento no verbo parar, o acordo nos obriga a escrever “pra” quando usamos a preposição, pra diferenciá-la do verbo. A vogal da primeira sílaba da preposição não deixará saudades.

Ninguém a pronunciava, em nenhuma variante do português — não conheço ninguém que peça: “vamos pAra casa!”, a não ser numa dublagem da sessão da tarde.

Eu me lembro do amigo cronista Fabrício Corsaletti, ao fim de uma noitada sem fim, pedindo aos amigos: “se eu morrer, é pra! É pra!”.

“É pra que?”

“É pra! Não deixa nenhum editor trocar meus ‘pras’ por ‘paras’! Promete?”

Dito isso, peço encarecidamente aos revisores, e editores, e professores desse país: é pra! É pra! Deixem os “pras” em paz. O para precisa parar. Quem sabe assim o país volta a andar.

 

“Pandemia da ignorância” [Pedro Marta Santos, “Sábado”, 05.01.21]

A ciência e a matemática são muito importantes, mas a arte e as humanidades são imprescindíveis à imaginação e ao pensamento intuitivo que estão por trás do que é novo.
António Damásio

 

Não obstante existam inúmeras opiniões, fundamentadas em imenso suporte documental e trabalho de campo  experimental, sobre a questão do QI (Quociente de Inteligência), parece ser um facto indesmentível que existe uma co-relação*** e, de certa forma, um certo nexo de causalidade entre inteligência e escrita. Essa co-relação*** será até bi-unívoca, visto que não apenas é muito mais fácil para um aluno dotado aprender a escrever, por um lado, e por outro o acto de escrever é, sem dúvida, um factor de incremento intelectual (por assim dizer). Exemplos flagrantes de tal interacção vão dos exercícios mais simples (incluindo as palavras cruzadas, o Scrabble e outros jogos) até a expressões-chave (“leste-me os pensamentos”, “tu para mim és um livro aberto”) e abarcam mesmo rituais particulares; namoro (cartas, recados), “pichagens” nas paredes, leitura compulsiva, etc.

Nesta acepção, a imergência de todo o tecido social nas chamadas “redes sociais”, independentemente da faixa etária ou do estatuto pessoal e profissional de cada qual, representou e representa, quanto à Língua, uma verdadeira tragédia; nas ditas “redes” há de tudo, boa gente e escroques, tarados e pseudo-intelectuais mas também gente que sabe escrever e não engoliu uma vassoura, uma miríade de conteúdos aproveitáveis em contraste com lixo do mais abjecto, cobarde, insultuoso, aviltante; o maior problema desses tugúrios virtuais, porém, quanto à escrita, é a aceleração vertiginosa do processo de degradação que o sistema de Ensino convencional veicula e até promove. A mediocridade que desde há décadas (ou séculos) se instalou no nosso sistema “educativo” e a novel promoção acelerada da Escola enquanto “espaço lúdico”, mimetizando um parque infantil monstruoso ou um circo de 700×200 km, conduziram a uma sistemática fabricação de seres avessos ao conhecimento, renitentes quanto ao estudo e absolutamente alérgicos a um mínimo de rigor; consequentemente, tornou-se vulgar — e até motivo de gala — escrever “com os pés”, ou seja, de qualquer maneira, não importa como, “desde que se perceba”…

E, é claro, a partir de 2010 caiu em cima do sistema, já de si laxista e incompetente, uma epidemia (“pandemia”, para ser exacto) que veio desferir o golpe de misericórdia no Português-padrão; o AO90 destruiu o que de sério ainda restava no Ensino e, para acabar com uma única e geral espadeirada, fez com que imensos portugueses — sem qualquer obrigação ou necessidade disso — “adotassem” a cacografia brasileira no  quotidiano.

Por isso, digo eu, este extracto de um artigo de Pedro Marta Santos tem todo o interesse, Termina, porém, numa pergunta que jamais obteve resposta dos autores do estropício. Os quais, aliás, acoitados na impunidade, sob a mão oculta dos Donos Disto Tudo, nunca responderam a coisa nenhuma nem responderam por coisa alguma.

Quando a resposta ao articulista, senhores acordistas, teria sido muito simples: por nada.

Da estupidez em 2021

 

O maior desafio de 2021 é o da pandemia da ignorância.

O efeito Flynn é a asserção, polémica mas maioritária, de que o valor do Q.I. das populações mundiais tem subido de forma consistente desde o pós-guerra. Nas últimas duas décadas, os especialistas em ciências cognitivas constataram uma inversão do efeito Flynn, sobretudo nos países mais desenvolvidos. Para Christophe Clavé, um guru da estratégia empresarial e professor na INSEEC Business School of Economics, grupo francês especializado no ensino de gestão com filiais em Londres e São Francisco, uma das chaves do problema é a linguagem.

Com o empobrecimento do vocabulário dos millennials (nascidos entre os anos 80 e o final do século XX) e a redução do léxico da geração Z (nascidos entre a segunda metade dos 90 e 2010), não são apenas as palavras que perdem o valor comunicativo. É o próprio pensamento. Falar e, sobretudo, escrever no presente, sem projecção no tempo ou recurso ao condicional, o desaparecimento da pontuação, o abandono das maiúsculas e a longa quarentena de verbos sofisticados, antes em liberdade criativa, são causas e sintomas de um problema maior: a redução na capacidade de desenvolver e reproduzir ideias complexas.

Como António Damásio e outros há muito demonstraram, a atrofia do intelecto pressupõe a asfixia das emoções. Escrever de forma cada vez mais simples e em tempo linear mutila a diversidade emocional. Sem ela, tornamo-nos agressivos. Como frisa Clavé, “parte da violência nas esferas pública e privada provém directamente da incapacidade de descrever as emoções por palavras, como quando abolimos géneros, tempos e nuances”.

A essa escravatura da linguagem podem acrescentar-se os estrangeirismos tecnocráticos (aquele vazio supremo do soft power, do branding ou dos segmentos premium), o novo dadaísmo do Tik-Tok (onde a mensagem é o virtuosismo com que alguém se espeta contra uma parede) e a infantilização do diálogo (likes, tags, emojis). Quando tirarmos as máscaras, o maior desafio de 2021 será dinamitar o monólito das explicações simples para responder à complexidade do mundo. A vida é complicada. Porque não haveriam de o ser a linguagem e o pensamento?

[…]

[Transcrição parcial. Destaques e “links” meus.]

*** Como já disse várias vezes, pelo facto de o AO90 prever não uma mas diversas grafias, eu cá reivindico o direito de escrever conforme me dá na real gana, ou seja, em Português-padrão mas omitindo (de caminho) uma ou outra das regras do acordo de 1945 e mesmo da convenção de 1911.