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‘Está tudo vivo’

18percentgray / Canva

É de facto gratificante verificar, até pela raridade do fenómeno, que existe ainda quem não se limita a “dar aulas”, bem pelo contrário, trata os alunos como seres-humanos e não como retardados incapazes de atar os próprios atacadores.

Não é da responsabilidade dos alunos que alguns adultos (pelo menos em idade acumulada), “pedagogos” e “técnicos” da corda, tenham por profissão inventar inanidades como a «“Leitura Recreativa” ou de “Entretenimento” para o texto literário», salteando esses pratos indigestos com temperos ainda mais intragáveis, como a TLEBS, e, para rematar, o molho de cicuta da marca AO90.

Não sendo de todo necessário ir tão longe na matéria quanto o parnasianismo nem tão perto quanto o nihilismo, a verdade é que nos crescentes escalões etários — ou seja, em cada um dos “ciclos” curriculares do Ensino no nível Básico e no Secundário — existe uma espécie de consciência artística colectiva à qual a população estudantil é sensível, está receptiva e demonstra entusiasmo sem hesitações nem considerandos.

https://www.facebook.com/poets01/photos/a.102296028635339/193269342871340/Aproveitar ou dar vazão às capacidades artísticas inatas, no sistema de Ensino português — à semelhança do que sucede com o processo de ensino/aprendizagem da Língua Portuguesa –, tornou-se hoje em dia numa empreitada que, além de ingrata e arriscada, é também profundamente tantálica; dito de outra forma, se a algum professor ocorrer tentar uma abordagem pedagógica escorada pela Arte, seja esta qual for ou um pouco de todas elas (recapitulando, para abreviar: som, imagem, cor, volume, movimento, espaço e palavra), pois então esse infeliz docente irá, ainda que em absoluto inocente, ser crucificado como indecente. O que significa, muito para além do mero jogo de palavras, que vivemos uma era em que ser docente é indecente, logo, indocente,

Veja-se, como ilustração do governamental postulado quanto ao “item”, uma espécie de orientação oficial sobre “A educação através da arte” escarrapachada num blog por certa entidade obscura de que, devo confessar, jamais tinha ouvido falar:

«Também o gabinete responsável pela execução do Programa Rede Bibliotecas Escolares (RBE) em Portugal instituiu a questão da cultura e das artes como uma das prioridades para a acção das bibliotecas escolares em 2020/21 e, como forma de a tornar visível, disponibiliza na sua biblioteca escolar digital uma recolha de museus presentes no mundo virtual que pode ajudar as bibliotecas a desenharem actividades e a impulsionarem experiências educativas inovadoras nas escolas.» [escrita brasileira corrigida para Português]

Mesmo dando de barato o erro de Português no parágrafo transcrito (não aguento mais do que uma bacorada de cada vez, lacuna minha, só li o resto de relance), e mesmo não chamando a atenção para o facto indesmentível de haver erros até em sites oficiais de Ensino e sobre Português, ainda assim será de destacar a total vacuidade do palavreado, a ausência de qualquer conteúdo objectivo ou programático e, em suma, o abjecto “verbo de encher” que aquilo é. Nesse vazio de ideias atafulhadas com expressões idiomáticas do ensinês bacoco (não confundir com barroco) consiste todo o “pugrama” da tal educação através da tal coisa que os tais burocratas debitam por ócio e vício.

A escrita, mesmo, por vezes, a escrita não literária, é Arte. Como a pintura e a escultura, assentando numa arquitectura própria, escrever é uma outra forma de música, obedecendo ambas por igual a tempo e modo, à pauta — que pode evoluir mas que é imutável enquanto código de interpretação — e às notas que são letras, à clave que é o tom, aos silêncios gritantes que fazem todo o sentido, ao som “mudo” que é solene ou de terror ou estupefacção ou reverencial.

Portugal não teria sequer hino nacional sem as oito notas e as vinte e seis letras. Notas e letras, inseparáveis e solidárias, duas gémeas siamesas unidas para sempre pela memória num só carácter colectivo que torna a existência em algo com sentido.

Quando a escola falha na relação do ensino do Português com a Arte

 

Maria do Carmo Vieira
www.publico.pt, 9 de Setembro de 2021

 

«A finalidade da arte não é agradar. O prazer é aqui um meio. Não é neste caso um fim. A finalidade da arte é elevar.» [Fernando Pessoa (1888-1935)]

«Fazer arte é querer tornar o mundo mais belo, porque a obra de arte uma vez feita, constitui beleza, beleza acrescentada à que há no mundo.»[Fernando Pessoa (1888-1935)]

 

Ao longo dos anos, e enquanto professora de Português, presenciei a reacção de alunos que nunca haviam reflectido sobre o conceito de Arte e cuja sensibilidade não fora educada nesse sentido, em casa, falhando muitas vezes a Escola na seriedade desse trabalho imperioso; presenciei também a reacção dos que eram minimamente capazes de atribuir-lhe um significado e testemunhar a sua influência favorável, em vários momentos da sua ainda curta vida, precisamente porque em casa haviam encontrado diálogo propício. E como a experiência já me evidenciara quão vital era essa força que nos alimenta o espírito, toca, consola e enriquece, tornou-se objectivo proeminente da minha função de professora não só colmatar uma lacuna que, a permanecer nos alunos, determinaria o acentuar de diferenças sociais, mas também revigorar o encontro nos que haviam já dado os primeiros passos na assimilação do Belo, daquilo que comove, que ilumina, que faz pensar e que dá prazer ainda que tudo isso possa acontecer, em pleno, mais tarde, como tive oportunidade de verificar com alguns dos meus alunos. Sempre estive segura de que a minha postura interferiria na formação da personalidade dos que me eram confiados, e que em mim confiavam, em cada início de Outono. E não me enganei porque o tempo demonstrou-o nesse passado e tem vindo a somar comoventes testemunhos, escritos e orais, de inúmeros alunos das muitas escolas onde leccionei.

Foi no ensino do Português, com o estudo de autores programáticos, que me empenhei em demonstrar aos meus alunos, do Básico ao Secundário, a importância da Arte, em geral, e da Literatura, em particular. A Literatura, como veículo privilegiado de reflexão sobre a condição humana e arte da palavra que “vive primordialmente dos [seus] sentidos indirectos”, exigindo uma interpretação da simbologia que expressa. Só compreendendo se pode efectivamente amar e é nessa procura de sentido, no silêncio da leitura e em diálogo tranquilo com a palavra, chave de diferentes olhares e vozes, que nos revelamos tantas vezes a nós próprios, indo forçosamente ao encontro do Outro e treinando assim a nossa capacidade de desobedecer a tudo o que colida com a nossa humanidade ou nos imponha o absurdo. Assim aconteceu também com muitos dos meus alunos, num trabalho cúmplice e comprometido.

Vivo em saudade os cerca de quarenta anos em que ajudei a desbravar ou a intensificar o caminho que leva ao estreito diálogo com uma obra de arte, seja ela escrita, plástica ou musical. Nesse percurso, foi relevante a reflexão de Fernando Pessoa sobre o facto de toda a Arte ser “uma forma de literatura, porque toda a arte é dizer qualquer coisa.” A demonstração é um pouco longa, mas imperiosa a necessidade de a registar: “[…] As artes que não são a literatura são as projecções de um silêncio expressivo. Há que procurar em toda a arte que não é a literatura a frase silenciosa que ela contém, ou o poema, ou o romance, ou o drama.” Por isso me envolvi interiormente nesta causa, nesta urgência de desfazer o mito da dificuldade no estudo da obra de um determinado escritor, com realce para a poesia, ou na compreensão da autenticidade das outras artes na vivência humana, com o firme propósito de desmontar a ignorância subjacente a esses tortuosos preconceitos, íntimos aliados de teses absurdas centradas na apologia da facilidade e do funcional, bem como na perspectiva da literatura como mero tipo de texto, a par de um rótulo de garrafa. Absurdos que se haviam manifestado já no indesejado Acordo Ortográfico de 1990 (AO90), que pôs em causa a função normativa da ortografia e desfigurou a sua vertente cultural, em nome da facilidade, danificando a própria pronúncia das palavras e pondo mais uma vez em evidência a sobranceria da ignorância e a leveza mental de quem a impõe, transformada em lei.
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Contra o AO90 na Feira do Livro de Lisboa

Este debate promovido pela “Guerra e Paz Editores”, com o apoio da “Editora Gradiva”, teve o condão de — em estreia absoluta — reunir quatro anti-acordistas, incluindo o anfitrião do evento, que fez (aliás muito bem) o papel de moderador. Tal unanimidade significa, portanto, para desgosto de um elemento da assistência que se escamou com a ausência de acordistas no painel, não ter o estimável público presente no evento, bem como todas as pessoas normais que assistirem à gravação aqui reproduzida, de levar com as baboseiras habituais de cérebrozinhos de minhoca, agentes ao serviço dos interesses do “gigante brasileiro”, mercenários, traidores e vendidos tugas.

Bem entendido, não carecendo a dedução de qualquer esforço de compreensão, a julgar — por exemplo — pela adjectivação (substantiva) que acabo de (mais uma vez) formular, neste particular (a cretinice, a desonestidade intelectual, a gatunagem infecciosa) não estou absolutamente nada em sintonia com a maviosidade dos três oradores convidados, a sua algo displicente complacência para com os neo-imperialistas em geral e para com os vendedores de banha-da-cobra em particular. Mas isso ainda é o menos. Questão de feitio, lá diz o povo, síndroma alérgica decorrente daquilo a que se chama vulgarmente ossos do ofício, ou seja, não são eles quem tem de levar com toda a sorte de insultos e ofensas que tugas e zucas (ela por ela, em número e em boçalidade) cuspilham, regurgitam, atiram com raiva e desprezo para cima de Portugal e dos portugueses como “vingança” pela sua História e por aquilo que os define — a começar pela Língua.

De facto, não há nada para “discutir” com acordistas. Muito menos as tretas do costume, todas a pedir desmentido imediato com inúmeros exemplos, as “novas duplas grafias“, os “casos flagrantes” (de absurdo, claro, como se o resto fosse impecável), a necessidade de “despiorar” o AO90, como se tal fosse possível, como se o “acordo” tivesse alguma coisinha de ortográfico, as patranhas pseudo-jurídicas (“o acordo não está em vigor” e outras alucinações semelhantes, ou a anunciada “revisão” — para repor “cá” as consoantes que no Brasil são articuladas. Enfim, quanto a debates desastres estamos todos mais do que fartos (menos uns quantos patuscos) e, basta constatar o óbvio, verificar a triste realidade, já demos para esse peditório.

Não será com certeza à custa de um inexplicável (para não dizer cobarde) temor reverencial que este horror terá fim. Não com tibieza, não com hesitações e dúvidas, jamais cavalgando a onda politicamente correcta cavaleiros zarolhos de ambas as vistas, veneradores, atentos e obrigados.

Obrigados a quê, afinal? A dizer ad aeternum que nim?

 

Guerra e Paz Editores

Partilhamos com os nossos caros leitores a filmagem integral do debate «Português do Brasil e de Portugal. Que Acordo?» que decorreu no último Sábado, dia 10 de Setembro, na 91ª Feira do Livro de Lisboa.

Agradecemos a Roberto Moreno, criador da «Fundação Geolíngua», o envio do vídeo e a presença no evento. Tratou-se de uma iniciativa conjunta da Gradiva e da Guerra e Paz Editores que juntou à mesa, no Auditório Sul, os linguistas, e autores da Guerra e Paz Editores, Fernando Venâncio e Marco Neves e o jornalista Nuno Pacheco, autor da Gradiva, moderados pelo editor Manuel S. Fonseca.

Posted by Guerra e Paz Editores on Monday, September 13, 2021

[Imagem de topo de: SIC Notícias.]

«A Língua Brasileira» [por Eni P. Orlandi]

Faz parte da estratégia de intoxicação da opinião pública a omissão absoluta do facto mais do que evidente de que a Língua Portuguesa e a língua brasileira são duas instâncias culturais de comunicação independentes; não existe já qualquer espécie de dúvida quanto à declaração, historicamente fundamentada, de a independência política do Brasil (1822) ter incluído todos os aspectos do seu património, a começar pelo territorial e de soberania, passando pelo histórico e cultural tangível, bem como pelo que de mais intangível define uma nação, a sua História e o seu povo, isto é, a Língua nacional: a Língua nacional do Brasil é a Língua Brasileira.

A estratégia referida, de omissão radical do facto, foi totalmente teorizada por meia dúzia de académicos, inventada por alguns políticos do chamado “arco da governação”, financiada por elementos de organizações tão “discretas” e aparentemente díspares como a Maçonaria e a Opus Dei, e, last but not least, com a colaboração de especialistas em empastelamento (bloqueio, silenciamento) e em outras técnicas de contra-informação.

Sofre pena de clausura em cela “disciplinar”, por tempo indeterminado (que tanto pode ser de perpétua como apenas enquanto der na real gana ao agente de serviço), quem porventura tiver o atrevimento de sequer utilizar a expressão “língua brasileira”. Funcionando como uma gigantesca cela de tipo orwelliano, isolada, escura como breu, insonorizada, com o ar viciado pela ausência de qualquer janela, é esse o “buraco” virtual (até ver) para onde são atirados “discretamente” pelos verdugos acordistas todos aqueles que, por exemplo, recordem datas, refiram factos ou reproduzam escritos sobre o assunto. Segundo a narrativa oficial, é terminantemente proibido mencionar a língua nacional do Brasil, ou seja, o brasileiro; é obrigatório, pelo contrário, encher a boca com paleios gandiloquentes e balofos, absurdos e (de) imbecis, sobre a “língua universáu”, a “difusão e expansão” do AO90 no mundo “lusófono”.

Precisamente, seguindo a mesma lógica dos variadíssimos conteúdos em texto, em imagem e em vídeo anteriormente aqui publicados sobre a língua brasileira, desta vez temos a transcrição de um texto académico — um verdadeiro “clássico” na matéria –, demonstração de rigor academista da transparência e da espectacular simplicidade da resposta a uma questão que jamais existiu: a Língua Brasileira descende da Língua Portuguesa mas já há muito ultrapassou a fase de autonomia, hoje por hoje atingiu o estatuto de independência plena.

O que de novo comprova o carácter neo-imperialista do AO90, isto é, a forma como uns quantos vendidos, mercenários e traidores pretendem selvaticamente impor a Portugal a Língua nacional da República Federativa do Brasil.

Ciência e Cultura

Print version ISSN 0009-6725 On-line version ISSN 2317-6660

Cienc. Cult. vol. 57 no. 2 São Paulo Apr./June 2005

 

A LÍNGUA BRASILEIRA

Eni P. Orlandi

A língua brasileira (bvs.br)

 

INTRODUÇÃO
A questão da língua que se fala, a necessidade de nomeá-la, é uma questão necessária e que se coloca impreterivelmente aos sujeitos de uma dada sociedade de uma dada nação. Porque a questão da língua que se fala toca os sujeitos em sua autonomia, em sua identidade, em sua autodeterminação. E assim é com a língua que falamos: falamos a língua portuguesa ou a língua brasileira? (1)

Esta é uma questão que se coloca desde os princípios da colonização no Brasil, mas que adquire uma força e um sentido especiais ao longo do século XIX. Durante todo o tempo, naquele período, o imaginário da língua oscilou entre a autonomia e o legado de Portugal.

De um lado, o Visconde de Pedra Branca, Varnhagen, Paranhos da Silva e os românticos como Gonçalves Dias, José de Alencar alinhavam-se entre os que defendiam nossa autonomia propugnando por uma língua nossa, a língua brasileira. De outro, os gramáticos e eruditos consideravam que só podíamos falar uma língua, a língua portuguesa, sendo o resto apenas brasileirismos, tupinismos, escolhos ao lado da língua verdadeira. Temos assim, em termos de uma língua imaginária, uma língua padrão, apagando-se, silenciando-se o que era mais nosso e que não seguia os padrões: nossa língua brasileira. Assim nos contam B. S. Mariani e T. C. de Souza (Organon 21, Questões de Lusofonia) que, em 1823, por ocasião da Assembléia Constituinte, tínhamos pelo menos três formações discursivas: a dos que propugnavam por uma língua brasileira, a dos que se alinhavam do lado de uma língua (padrão) portuguesa e a formação discursiva jurídica, que, professando a lei, decidia pela língua legitimada, a língua portuguesa. Embora no início do século XIX muito se tenha falado da língua brasileira, como a Constituição não foi votada, mas outorgada por D. Pedro, em 1823, decidiu-se que a língua que falamos é a língua portuguesa. E os efeitos desse jogo político, que nos acompanha desde a aurora do Brasil, nos faz oscilar sempre entre uma língua outorgada, legado de Portugal, intocável, e uma língua nossa, que falamos em nosso dia-a-dia, a língua brasileira. É assim que distingo entre língua fluida (o brasileiro) e a língua imaginária (o português), cuja tensão não pára de produzir os seus efeitos.

Assim é que, em 1826, o projeto apresentado ao parlamento brasileiro pelo deputado José Clemente propõe que os diplomas dos médicos seja redigido em “linguagem brasileira”. Em 1827 temos a aprovação de lei que estabelece que os professores deveriam ensinar a gramática da língua nacional. Nem português, nem brasileiro, estrategicamente, nomeamos de língua nacional. Em 1870, procurando argumentar sobre a língua que falamos, temos a polêmica entre o romancista brasileiro José de Alencar e o português Pinheiro Chagas, um falando de nossas diferenças e autonomia, o outro, sobre o legado que recebemos de Portugal, a língua portuguesa. Essas referências podem ser encontradas em um quadro apresentado no início do livro História da semântica (2004) de Eduardo Guimarães, entre outros. Já no século XX, na década de 1930 há uma discussão na Câmara do Distrito Federal sobre o nome da língua do Brasil: língua portuguesa ou brasileira? Novamente se decide pelo indefinido: falamos a língua nacional. Sobre essa discussão pode-se consultar o livro (tese) de Luis Francisco Dias (1996), que conclui que, na perspectiva daqueles que se posicionaram contrários aos projetos de mudança do nome da língua falada no Brasil, o nome língua brasileira é percebido como algo que viria desestabilizar um eixo social que tem nos percursos da escrita, sob os auspícios da língua portuguesa, o seu suporte, a sua referência, e, na perspectiva daqueles que defendem os projetos de mudança do nome de nosso idioma, língua brasileira tem a sua referência constituída a partir de uma imagem romântica do país, imagem fundada no positivismo e no ufanismo que, ao longo da segunda metade do século XIX e da primeira metade do século XX marcaram nossa história. Finalmente, assim como D. Pedro outorgou uma Constituição em 1823, também em 1946, a comissão encarregada pelo governo brasileiro, em atendimento ao estabelecido pela Constituição de 1946, decide que o nome da língua falada no Brasil é língua portuguesa (2).

Esta questão, no entanto, não deixa de nos importunar, e há sempre alguma razão, um pretexto, ou alguém que a levanta em momentos diferentes de nossa história. Isso quer dizer que até hoje não decidimos se falamos português ou brasileiro. Embora a cultura escolar se queira, muitas vezes, esclarecedora em sua racionalidade e moderna em sua abertura, acaba sempre se curvando à legitimidade da língua portuguesa que herdamos e, segundo dizem, adaptamos às nossas conveniências, mas que permanece em sua forma dominante inalterada, intocada: a língua portuguesa. E quem não a fala, ainda que esteja no Brasil, que seja brasileiro, erra, é um mal falante, um marginal da língua.

É, pois, impressionante como a ideologia da língua pura, a verdadeira, faz manter o imaginário da língua portuguesa.
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Desordem de Camões

Artigo 3.º
Finalidade geral das Ordens Honoríficas Portuguesas

1 – As Ordens Honoríficas Portuguesas destinam-se a galardoar ou a distinguir, em vida ou a título póstumo, os cidadãos nacionais que se notabilizem por méritos pessoais, por feitos militares ou cívicos, por actos excepcionais ou por serviços relevantes prestados ao País.
2 – Quando a condecoração se destine a galardoar feitos heróicos em campanha é concedida com palma.
3 – De harmonia com os usos internacionais, as Ordens Honoríficas Portuguesas podem ser atribuídas a cidadãos estrangeiros, como membros honorários de qualquer grau, não se lhes aplicando as condições da sua concessão a cidadãos nacionais.
4 – Os corpos militarizados e as unidades ou estabelecimentos militares podem ser declarados membros honorários de qualquer das Ordens Honoríficas Portuguesas, sem indicação de grau.
5 – As localidades, assim como colectividades e instituições que sejam pessoas colectivas de direito público ou de utilidade pública há, pelo menos, 25 anos podem também ser declaradas membros honorários de qualquer das Ordens Honoríficas Portuguesas, sem indicação de grau.
6 – Em todos os casos previstos nos números anteriores, respeitam-se sempre as finalidades específicas de cada Ordem, conforme resultam da presente lei.

Ordem de Camões
Artigo 30.º-A
Finalidade específica

A Ordem de Camões destina-se a distinguir quem tiver prestado:

a) Serviços relevantes à língua portuguesa e à sua projecção no mundo e à intensificação das relações culturais entre os povos e as comunidades que se exprimem em português;

Conteúdos noticiosos que “falam” por si mesmos, sem necessidade de comentários extensos.

Sinopse: o Presidente da República português foi ao Brasil, a pretexto da reinauguração do Museu da Língua brasileira, e levou debaixo do braço, para oferecer aos seus confrades brasileiros, uma Ordem honorífica expressamente criada para o efeito.

Do medalhão deste moderníssimo penduricalho, a “Ordem de Camões”, ainda não existe sequer uma imagem a cores, à excepção daquela em que o exemplar n.º 1 aparece nas mãos de um “cara” qualquer (o Presidente brasileiro não quis saber da palhaçada para nada e nem pôs os pés na “cerimónia”).

Em artigo de opinião publicado no jornal “Sol”, um tal Dinis de Abreu escreve (em brasileiro) uma diatribe exclusivamente partidária, fingindo-se zangado (ou “indignado”, como agora é de bom tom dizer-se) com o “acinte” dos brasileiros e logo aproveitando o embalo para atacar partidariamente o Presidente tuga. Paleio (de) político, portanto, o qual vale o que vale, isto é, zero.

Mais uma vez fica exposta, vergonhosamente escarrapachada em alguns media “do regime”, a canina e salivante bajulação do filho de Baltasar Rebelo de Sousa ao “gigante” brasileiro, a sua inamovível dedicação à causa neo-imperialista sob a “liderança do Brasil”. Com a dedicação característica dos sonsos e na senda de Cavaco, Sócrates e Costa, aquilo a que manifestamente aspira — e que pretende promover a alto desígnio nacional — é entregar a Língua de Camões, simbolicamente representada numa medalha de lata, a uma ex-colónia terceiro-mundista.

Não merecia o nosso poeta maior, símbolo de Portugal, semelhante enxovalho.

 

O ‘anjo da guarda’ do Governo

Dinis de Abreu
“Jornal Sol”, sol.sapo.pt, 07.08.21
opiniao@newsplex.pt

 

Com a desenvoltura que o caracteriza, Marcelo Rebelo de Sousa deslocou-se ao Brasil, a pretexto da reinauguração do Museu da Língua Portuguesa, em S. Paulo, que um incêndio quase consumiu há cinco anos. Fez bem. Mas o clima pré-eleitoral que já se vive no país não o poupou.

Apesar de convidado, Jair Bolsonaro não compareceu ao evento, sem aviso prévio, trocando-o por uma concentração de motoqueiros, que decorria no estado paulistano. Uma descortesia.

É certo que Marcelo soube, com ironia, furtar-se ao embaraço, ao citar um provérbio popular – «Só dança quem está na roda»…

Mas ficou o revés, tanto mais que o Presidente era portador da primeira medalha Camões, uma nova condecoração atribuída ao museu recuperado.

Poderá conjecturar-se que o facto de Bolsonaro ter ignorado a homenagem, se deveu ao actual governador de S. Paulo, anfitrião da cerimónia, ser um dos seus activos críticos, ou ’sinal de desagrado’ por Marcelo se ter avistado com Lula da Silva, um seu declarado adversário, ainda a contas com a Justiça.

Mas nada disso absolve o gesto, que não diminuiu Marcelo, mas que foi uma nota dissonante numa celebração da Língua Portuguesa, com mais de 250 milhões de falantes, cabendo ao Brasil o contributo principal.
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Pedro Tamen [1934 – 2021]


Um Fado: Palavras Minhas

Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido…

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
— que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.

in “Tábua das Matérias” – Poesia 1956-1991

 

«Pedro Tamen nasceu em Lisboa, em 1934 e estudou Direito na Universidade de Lisboa.»

«Entre 1958 e 1975 foi director da Editora Moraes e depois, até 2000 (data em que se retirou da actividade profissional), administrador da Fundação Calouste Gulbenkian.»

«Foi também dirigente cine-clubista, professor do ensino secundário e director-adjunto de uma revista de actualidades.»

«Fez crítica literária no semanário Expresso.»

«Foi presidente do P.E.N. Clube Português (1987-90).»

«Foi membro da Direcção e presidente da Assembleia Geral da Associação Portuguesa de Escritores.»

«Tem poemas traduzidos e publicados em francês, inglês, espanhol, italiano, alemão, neerlandês, sueco, húngaro, romeno, checo, eslovaco, búlgaro e letão.»

«Foi duas vezes finalista do Prémio Europeu de Tradução.»

«Traduziu recentemente À la Recherche du temps perdu, de Marcel Proust.»

«A sua obra poética, iniciada em 1956 com Poema para Todos os Dias (Ed. do Autor, Lisboa) encontra-se reunida em Retábulo das Matérias (Gótica, Lisboa, 2001). Posteriormente,publicou os livros Analogia e Dedos (2006) O Livro do Sapateiro (2010) e Um Teatro às Escuras (2011). Em 1999 foi publicado um disco-antologia intitulado Escrita Redita (poemas ditos por Luís Lucas; Ed. Presença / Casa Fernando Pessoa).»

«À sua poesia foram atribuídos o Prémio D. Dinis (1981), o Prémio da Crítica (1991), o Grande Prémio Inapa de Poesia (1991), o Prémio Nicola (1997), o Prémio Bordalo da Imprensa (2000), o Prémio do PEN Clube (2000), o Prémio Luís Miguel Nava (2007) e o Prémio Inês de Castro (2007).»

 


Priberam: em Português

Daquela que é, na minha opinião, a melhor ferramenta do género, absolutamente indispensável para quem trabalha com a Língua Portuguesa, ou seja, toda a gente que sabe ler e escrever em Português, apenas há a esperar que a equipa da Priberam não tenha estragado nada com esta nova versão, nem no corrector ortográfico e sintáctico FLIP (programa e utilitário) nem no dicionário online.

Parece que não. Corrector e dicionário continuam intactos e, portanto, imunes à brasileirização compulsiva que já vai infectando os programas e as plataformas da concorrência, nesta incluindo um “serviço” financiado pelo Governo que está convictamente assimilado, ao serviço da terraplanagem brasileira: refiro-me ao tremendo barrete que dá pelo nome de “ciberdúvidas”. Ora, a Priberam também disponibiliza, além do corrector, do dicionário e de diversos outros auxiliares da escrita, um verdadeiro serviço de “Dúvidas Linguísticas”.

Enfim. Por uma vez sem exemplo, aqui fica a sugestão — inteiramente grátis, é claro, que ninguém me encomendou frete algum — já não apenas de uma ferramenta única mas de uma caixa de ferramentas inteira, daquelas à moda antiga, sólida, em chapa e com pegas de ferro, pronta para resistir sem amolgadelas ou sequer riscos a quaisquer pancadas, marteladas e pontapés na gramática. Estamos todos fartos de porcarias tipo “loja do chinês” e de plástico moldável em tretas infantis enjorcadas por cabecinhas cheias de… enfim, digamos, borracha.

Este é todo um trabalho sério, escorreito, limpo e transparente, obra de portugueses competentes, e por isso não será exagero algum saudar ambos, os trabalhadores do cérebro e a empresa que os seleccionou e emprega: parabéns, mas que luxo!

 

Dicionário Priberam da Língua Portuguesa

O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa (DPLP) é um dicionário online de português. Compreende o vocabulário geral e os termos das principais áreas científicas e técnicas. O DPLP contém informação sobre as diferenças ortográficas e de uso entre o português europeu e o português do Brasil. O dicionário online apresenta funções avançadas de consulta e pesquisa assentes na plataforma lexicográfica da Priberam. Inclui ainda ligação para os auxiliares de tradução do FLiP (espanhol, francês e inglês).

O DPLP é um dicionário online de consulta gratuita. O seu conteúdo é assegurado por uma equipa de linguistas, estando em constante actualização e melhoramento.

A Priberam agradece desde já todos os comentários e sugestões dos utilizadores do dicionário online. A informação será tida em conta pela equipa de linguistas. Todos os comentários devem ser enviados para dicionario@priberam.pt.

O DPLP e o novo Acordo Ortográfico

O DPLP apresenta-se em duas versões. Por um lado, uma redigida na norma europeia do português, sem e com as alterações gráficas previstas pelo Acordo Ortográfico de 1990. Por outro, uma versão redigida na norma brasileira do português, com e sem as alterações previstas pelo novo Acordo Ortográfico.

Na secção Como consultar, cada uma destas opções de pesquisa no dicionário online é descrita pormenorizadamente.

Para mais informações sobre o Acordo Ortográfico, consulte a secção Acordo Ortográfico no site do FLiP.

[…]

[“site” da Priberam]

Flip 11: nova versão do corrector ortográfico da Priberam para quem leva o Português a sério

TekGenius
Marco Trigo

Depois de alguns anos de espera, a Priberam lançou o FLiP 11, a nova versão do seu conceituado corrector ortográfico, e que chega com algumas novidades. Acima de tudo, chega com um foco muito forte na exactidão e nos glossários científicos, para se distinguir dos dicionários generalistas.

A questão que se coloca à Priberam é que, nos últimos anos, generalizaram-se os dicionários generalistas que encontramos nos telemóveis, nos browsers e, principalmente no Microsoft Office, que continua a ser uma ferramenta fundamental em muitas empresas. Mas, como a Priberam destaca, embora estes dicionários generalistas sejam suficientes para o cidadão comum, a Microsoft optou por um caminho peculiar com revisão pré ou pós acordo ortográfico, e também uma mista. O resultado é que muitas grafias erradas acabam por ficar nos nossos textos.

Não foi sempre assim. A partir de 2001 e até ao Office 2016, a Priberam e as diversas versões do FLiP foram os parceiros da correcção ortográfica do Microsoft Word.

A apresentação à imprensa, que contou com Carlos Amaral, CEO da Priberam, e com a linguista Helena Figueira, focou este ponto, mostrando amplos exemplos de grafias incorrectas aceites pela Microsoft e não pelo FLiP.

Um ponto forte do FLiP 11 é também a integração de dicionários temáticos, com uma grande riqueza de termos específicos das áreas científicas, uma lacuna ainda gritante no Office. Graças a estes dicionários temáticos, o FLiP é um facilitador da escrita científica, reconhecendo termos que para o Office (e outros) serão apenas erros ortográficos. O exemplo citado é bastante claro: para o FLiP, “cometário” refere-se a um cometa, mas para o Office é apenas um erro ortográfico em “comentário”.

Para o académico, o FLiP 11 tem então uma dupla vantagem: não só não lhe enche o ecrã de palavras sublinhadas, como também não o induz em erro, corrigindo falsos positivos.

O FLiP 11 tem também uma melhor compartimentalização das ortografias pré e pós Acordo Ortográfico e uma capacidade melhorada de correcção contextual da ortografia. Conta, além do mais, com dicionários para todos os países Lusófonos e é compatível não só com o Microsoft Office, mas ferramentas da Adobe ou Open Office e ainda é possível utilizá-lo como plugin para o WordPress. Estas aplicações tiram todas proveito não só das ferramentas correctivas (tanto ortográficas, quanto sintácticas e estilísticas), mas também dos dicionários Priberam e do conjugador de verbos.

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Priberam anuncia o FLiP 11 com foco na universalidade

noticiasetecnologia.com

A Priberam anunciou o novo FLiP 11, a décima primeira versão do pacote de ferramentas de revisão e auxílio à escrita da empresa portuguesa, conhecida pelo seu Dicionário. Disponível apenas para Windows, é totalmente compatível com o Microsoft Office 2019 e, a partir desta versão, e deixa de haver um produto diferente para o mercado brasileiro – ou seja, este é um FLiP universal.
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