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Costa faz dieta

Vai uma sopinha de letras? Olhe que são portuguesas e muito nutritivas…

Antes, dava-se sopa de letras às crianças. Agora não é preciso: com a ajuda do “acordo” comem-se letras a eito na fala e na escrita.

Nuno Pacheco
“Público” 02.07.20

 

Não é segredo para ninguém: Portugal tem um primeiro-ministro que come letras. Ele próprio o reconheceu (como se fosse preciso fazê-lo) no passado domingo, no mais recente programa de Ricardo Araújo Pereira, Isto é Gozar Com Quem Trabalha, na SIC. O humorista fez um curioso exercício: mostrou-lhe dois vídeos onde António Costa dizia umas palavras imperceptíveis (aqui o “corretor” está a mandar-me escrever “impercetíveis”, o que me fez mandá-lo, ao dito, a um lugar que não recomendo). Sorridente, não se atrevendo sequer a descodificar o que tinha dito nos vídeos, tarefa impossível, o primeiro-ministro preferiu uma saída airosa, dizendo que a sua mulher lhe dava múltiplos conselhos: “Não comas de mais, não comas fritos, não comas doces e também não comas palavras.” O que faz Costa, para não lhe desagradar e para não correr riscos de saúde? Como tem de comer alguma coisa, escolhe comer palavras. E logo explicou porquê: “É do melhor que há para comer, não têm [ele disse “tem”, mas é melhor emendar, se não devorava também a concordância] glúten, não têm lactose, não têm sal, não têm açúcar.” Aí está: uma dieta palavrosa, livre de doces e fritos, nutritiva e saudável!

No Portugal de antigamente, dava-se sopa de letras às crianças para elas se irem habituando ao que teriam de aprender na escola, ou seja, a usá-las na escrita e na leitura. No Portugal de hoje, manteve-se essa tendência gastronómica, mas dispensando sopas. É que as letras, e certas palavras, são comidas inteiras mesmo na fala e na escrita. António Costa é apenas a ponta de um enorme icebergue desse repasto contínuo, que desde há uns anos tem vindo a ser incentivado por essa coisa a que teimam chamar “acordo ortográfico”. Lembram-se da “exeção”, palavra magnífica que surgiu em letras gordas num cartaz eleitoral do PS? Pois regressou, agora no endereço de uma empresa de utilidades domésticas. Assim: “Todas as lojas estão abertas com exeção da…” Como a excepção (perdão, a “exeção”) desapareceu, a bela palavra desapareceu já dos avisos da empresa. Mas fica a “recordação”, fotografada. Pormenor relevante: só as letras portuguesas é que são nutritivas, pois nas palavras inglesas também ali usadas, “Click & Collect”, nenhuma letra foi devorada. Não é bonito de ver?

Não é só aqui, claro. A pandemia, que já nestas crónicas foi pretexto para falar de palavras como “infetado”, “infeção”, “infecioso” (propriedade exclusiva de Portugal, já que em todo o espaço lusófono, Brasil incluído, se escreve “infectado”, “infecção”, “infeccioso”), entra também neste palavroso repasto, talvez por necessidade de calorias. Se tiverem a paciência de ir ao endereço electrónico da Direcção-Geral da Saúde (DGS), e seguir para as “perguntas frequentes”, lerão nos “sintomas” esta passagem: “nos casos mais graves, pneumonia grave, síndrome respiratória aguda grave, septicémia, choque sético e eventual morte.” Os sublinhados a itálico são meus e assinalam dois erros: “septicémia”, em vez de “septicemia” (como se deve escrever e dizer, apesar de muito vulgarizado o contrário) e “sético” em lugar de “séptico” (em coerência, deviam escrever “seticemia”, sempre era mais uma letra a entrar na dieta).

Ainda assim, talvez porque a fome não apertou a esse ponto, sobram muitas palavras onde o dígrafo “pt” sobreviveu. Sim, os répteis ainda não são “réteis”. Mas indo à edição portuguesa do Houaiss Atual, já com o acordo, é delicioso ler “septicemia” (sem variante com o “e” aberto) e, mais abaixo, “séptico” com esta nota: “o mesmo que sético”, sem que nenhuma das outras 42 palavras começadas por “s” e com o dígrafo “pt” ali coligidas tenha sugestão de variante. O “sético” será por causa do Brasil? Olhe que não… Vejam o Priberam brasileiro, onde “sético” tem esta nota: “Grafia no Brasil: séptico”.

Enquanto isto, a Assembleia da República discute um parecer que argumenta que uma lei (neste caso proposta por cidadãos, com vista a revogar o segundo protocolo modificativo do acordo ortográfico, o que reduz a três o número de países para entrar em vigor) não pode revogar uma resolução, o que é tanto mais ridículo quanto uma resolução não devia (e não pode) revogar uma lei, e no entanto foi isso que sucedeu com o acordo ortográfico: três resoluções para o impor em Portugal, quando a lei do acordo de 1945 se mantém em plena vigência, nunca tendo sido revogada. Deve haver aqui alguma… “exeção”.

Nuno Pacheco

[Transcrição integral (da edição em papel), incluindo “links”. Vídeo: “entrevista” de Ricardo Araújo Pereira a António Costa sobre o seu (deste) “pequeno” problema de dicção no programa “Isto É Gozar Com Quem Trabalha”, da SIC, transmitido em 28.06.20.]

 

 

[Disclaimer: Tudo o que aqui escrevo é de minha exclusiva responsabilidade e tudo o que aqui reproduzo — com a finalidade de constituição de acervo documental respeitante ao “acordo ortográfico”, em especial — é da responsabilidade dos respectivos autores, que são, sempre que possível, citados com indicação das fontes/autoria. Não existe qualquer interesse comercial neste tipo de reproduções/transcrições e não há  outra pretensão que não seja a de prestar um serviço  público: modestamente contribuir para a consolidação da memória colectiva nacional.]

 

O “corretor”


corretor | s. m.
corrector | adj. | s. m.

cor·re·tor |ô|
(provençal corratier, intermediário)
substantivo masculino

1. [Economia] Intermediário em compras e vendas, especialmente de acções na bolsa, mediante percentagem.
2. Pessoa ou empresa que promove negócios alheios (ex.: corretor de apostas, corretor de seguros, corretor imobiliário). = AGENTE
3. Inculcador.
4. Peça em que gira a roda do moinho de vento.
5. [Depreciativo] Alcoviteiro.
Confrontar: corrector.
Palavras relacionadas: corretora, corrector, correctoria, corretagem, broker, adelo, zângano

“corretor”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2020, https://dicionario.priberam.org/corretor [consultado em 02-04-2020].

Microsoft lança corretor ortográfico para Edge e Chrome; baixe agora

tecmundo, 31/03/2020

Com o anúncio da reformulação do Office 365, que agora chama-se Microsoft 365, a Microsoft revelou novos recursos para os usuários. Entre eles está a extensão Microsoft Editor, um corretor de ortografia e gramática para navegadores baseados no Chromium.

Assim como acontece no Word e outros programas do Office, a ferramenta vai auxiliar o usuário enquanto escreve na internet. Com a ajuda da inteligência artificial, ele vai indicar palavras que podem estar escritas de forma incorreta e corrigir possíveis erros gramaticais.

–Extensão Microsoft Editor já é compatível com português brasileiro

Como dito, um dos destaques do Microsoft Editor é que ele vai atuar como uma ferramenta especialmente para navegadores. Desta forma, além de estar disponível no novo Microsoft Edge, ele poderá ser instalado no Google Chrome. O download para ambos os navegadores é feito na Microsoft Store, e ele já funciona em português brasileiro.

Com isso, alguns especialistas acreditam que a nova ferramenta pode se tornar um grande rival para outras extensões como o Grammarly e o LanguageTool. Ambas possuem funções bem semelhantes ao novo corretor.

De acordo com a companhia, o Microsoft Editor vai começar a ser disponibilizado em alguns países a partir de hoje, dia 31 de março. Desta forma, a previsão é que o recurso esteja disponível globalmente para todos os usuários até o final de abril.

Confira o vídeo de apresentação da nova ferramenta:

Dona Philomena e a prima Thereza

Imagem SlidePlayer de: prof. Nailton Matos (Brasil)


Aprende-se muito, ao rever 30 anos

Nuno Pacheco
“Público”, 05.03.20

 

Passam depressa, 30 anos. Mas não passa, porque nada a apaga, a memória dos tempos que viram nascer o PÚBLICO: 1988-89, quando ele foi idealizado e teve “luz verde”; e 1990, quando finalmente chegou às bancas, no dia 5 de Março. Eram anos de optimismo, em que, por imprevisíveis circunstâncias históricas (desde logo a queda do infame muro de Berlim), o mundo parecia abrir-se auspiciosamente a realidades bem menos sombrias, despedindo-se do veneno que ainda sobrava das duas guerras mundiais. Abriam-se fronteiras, abraçavam-se antigos adversários e tudo parecia entusiasmante, naquele distante início de década. Ora 30 anos passados, sem esquecer o muito de positivo que se viu e se fez, erguem-se muros, há fronteiras que se fecham, aliados que se apartam e velhos ódios ou medos que renascem, para lá dos que aproveitam o alarmismo do novo coronavírus. Deles falaram já neste jornal, e de forma claríssima, Jorge Almeida Fernandes (“O medo é um vírus e a informação é a vacina”), Teresa de Sousa (“Há um outro vírus a infectar a Europa”) ou Vicente Jorge Silva (“Os vírus e as quarentenas do mundo”). Não perdendo um só minuto a baixar os braços perante cenários sombrios, como nos parecem, à vista deles, pueris as ilusões de 90!

É instrutivo passar em revista o que de mais relevante sucedeu nestes 30 anos e que o PÚBLICO acompanhou em milhares de edições (chega hoje à n.º 10.907). Como? Uma solução prática e acessível é a Wikipédia. Há uma súmula desses factos, para cada ano, e em português. Universal? Isso é coisa que não existe, apesar da ilusão, que também surgiu em 1990 sob a forma de um acordo ortográfico internacional, de uma “unificação”. Na verdade, tais textos estão escritos em legítimo português do Brasil e, por isso, neles lemos coisas que por cá se escrevem de outra maneira (e nada relacionado com ortografias): “metrô de Moscou”, “vai ao ar [o último episódio de Friends]”, “lançado videogame”, “[sonda] aterrissa em Titã”, “Microsoft lança o novo console de jogos”, “festividades de virada de ano”, “primeiro turno [de eleições]”, “pandas marrons”, “ônibus espacial”, “Copa do Mundo”, “Quênia decreta toque de recolher”, “[inaugurado] primeiro trem-bala chinês”, “governo de coalizão”, “vítima de parada cardíaca”, “terremoto”, “Madri”, “Copenhague”, “Irã”, “Teerã”, “Bagdá”, “tênis”, “Aids”, “usina nuclear”, “astrônomos”, “colisão entre trem, ônibus e caminhão”, “decolagem do aeroporto”, “restos mortais de 1.270 detentos”, “ministro do trabalho se demite após 1 mês de denúncias de propina”, “torcidas de times de futebol”, “Facebook atinge um bilhão de usuários cadastrados”, “Cuba concede anistia”, “fenômeno astronômico permite ver Vênus próximo da Lua”, “alunissagem”, “Ronaldo ganha o prêmio da FIFA”, “narrador esportivo”, “israelenses e palestinos”, “sofria de câncer”, “disparos contra policiais”, “no Marrocos”, “dezesseis pessoas”, “caminhoneiros [em greve]”, “caminhões-bombas”, “Donald Trump e Kim Jong-un fazem reunião de cúpula”, “Suprema Corte da Índia derruba lei colonial”, “primeira espaçonave a pousar no lado oculto da Lua”, “mortos após um vazamento de gás”, “contêiner refrigerado de um caminhão”, “1917 vence prêmio de Melhor Filme”, “Brigid Kosgei quebra recorde mundial de maratona”, “[astronauta] aterrissa na Soyuz MS-13”, etc.

Dir-se-á que português não tem tradução, mas cada cultura tem os seus códigos. Se estes textos fossem escritos em Portugal, usar-se-iam outras palavras, que por sua vez soariam estranhas no Brasil. Nenhum acordo consegue iludir isto. E a ortografia? Tomemos o exemplo do coronavírus. Aqui sim, vemos que são possíveis os almejados “textos conjuntos”. Ou não? Em Portugal, na televisão, revistas e jornais (tirando honrosas excepções) lemos: infetado, infetada, infecioso, infeção, infeções, infetou, infetar, desinfeção. No Brasil, em breves rondas pelo Globo, Folha de S.Paulo ou BBC Brasil, lemos: infectado, infectada, infectados, infecção, infecções, infecciosas, infectologista, desinfecção. Tal como se escrevia em Portugal antes da dita “unificação” ortográfica. Não só: também se lê “detectado” e “detectada”, onde aqui passou a escrever-se “detetado” e “detetada”. Custa muito perceber que, de todas as ilusões de 1990, esta foi a mais idiota e inútil?


[Transcrição integral de: Aprende-se muito, ao rever 30 anos“, da autoria de Nuno Pacheco. “Público”, 05.03.20. A reprodução de artigos e/ou conteúdos da autoria de terceiros tem por finalidade única a constituição de acervo documental sobre tudo aquilo que, segundo critérios meus, interessam ou dizem respeito ao chamado “acordo ortográfico” (e a outros detritos). Imagem SlidePlayer de: prof. Nailton Matos (Brasil). “Links” (a verde) meus.]


“Governo Sombra” – AO90 – 27.12.19

Na última emissão de 2019 do programa “Governo Sombra” na TVI, os quatro “governantes” habituais e o convidado da semana demonstram, mais uma vez, a sua quase unânime aversão ao “acordo ortográfico”.

Exceptuando as objecções de João Miguel Tavares, também elas habituais (e, como sempre, parvas), até o convidado Adolfo Mesquita Nunes, deputado do CDS-PP, a opinião geral é de que o AO90 tem de ser revertido, parado, esmagado.

A nota dissonante (a tal parvoíce) de JMT resume-se às criancinhas, coitadinhas, que já estão a “aprender” a cacografia brasileira, aiaiai, e agora, o que fazemos com essas criancinhas, coitadinhas. Ou seja, acha bem, JMT, que se continue a ensinar os alunos a escrever à toa, desde que obedeçam ao “acordo” brasileiro. E acha também JMT, por igual parvamente, que não se pode ensinar Português às criancinhas, coitadinhas, porque elas já estão habituadas a escrever segundo os ditames brasileiros e teriam de fazer um enorme esforço (coitadinhas) para reaprender a escrever correctamente.

Portanto, JMT deve estar convencido de que ainda hoje os alunos alemães continuam a estudar as diferenças entre as raças humanas, a comparar com as dos “Untermenschen” os tamanhos da caixa craniana típica do “ideal ariano” e a treinar a escrita para insultar judeus em letras garrafais, nos muros das casas, nas lojas, nas janelas. De facto, segundo a “lógica do hábito” que JMT defende, os alunos portugueses (coitadinhos) deveriam continuar a escrever com erros porque “estão habituados a isso”, só conhecem o AO90, assim como os programas curriculares alemães de 1933 a 1945 deveriam continuar ainda hoje, imutáveis, impassíveis, indiferentes, impermeáveis à própria passagem do tempo e imunes a qualquer realidade histórica.

Uma teoria demasiadamente infantil, de facto, em especial quando alguém do género JMT (há vários espécimenes), que aparenta ser uma pessoa normal (e até inteligente, quando calha), veicula semelhantes enormidades como se fossem dogmas sagrados.

Felizmente rodeado por três pessoas, incluindo o moderador do programa, capazes de usar a boca e não a testa para comer um gelado, JMT acaba invariavelmente por ficar nesta matéria a falar sozinho, tristonho, desconsolado (coitadinho) por ninguém ligar patavina aos delírios “habituais” do brincalhão.

No meu tempo, a estalada era um método pedagógico; hoje é crime. E na verdade todos nós, na minha geração, estávamos habituados a levar porrada dos professores — rotina antiquíssima que para os alunos de então, que não conheciam outro regime “pedagógico”, era coisa normal. Se o “hábito” fosse alguma espécie de critério de validação, então hoje em dia continuaria a ser habitual o castigo físico, o tabefe e o puxão de orelhas, até mesmo a “menina de cinco olhos”.

Enfim. JMT poderia bem aprender alguma coisinha nos livros. A ver se deixava de cometer erros de palmatória.

Com Carlos Vaz Marques, João Miguel Tavares, Pedro Mexia e Ricardo Araújo Pereira.

[Imagem de: Pardieiros online]

Sophia

Porque os outros se mascaram mas tu não Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não. Porque os outros são os túmulos caiados Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo. Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia, “A Menina do Mar” e as partidas dos meninos da terra

Nuno Pacheco
publico.pt 05.12.19

 

 

Está a chegar ao fim o ano em que se têm vindo a celebrar os centenários do nascimento de Jorge de Sena (1919-1978) e Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004). E se em Setembro essa celebração os juntou em pelo menos dois momentos (um colóquio no Brasil, no Rio de Janeiro, e um ciclo na Cinemateca, dedicados a ambos), agora é a vez dos Encontros Imaginários criados no grupo de teatro A Barraca darem voz a um “diálogo” entre os dois, com Maria do Céu Guerra a encarnar Sophia e José Manuel Mendes na pele de Jorge de Sena. A moderação, como sempre, cabe ao criador destes encontros, o encenador Helder Costa. Dia 16 de Dezembro, às 21h30.

Falando apenas de Sophia, este último trimestre tem sido pródigo em apontamentos sobre a sua vida e obra. Matosinhos dedicou-lhe um dia, na Biblioteca Municipal Florbela Espanca (onde agora, de 6 a 8, celebra Sophia e Sena na Festa da Poesia). E o Centro Cultural Vila Flor, de Guimarães, recebeu a adaptação para teatro e música do conto A Menina do Mar, pelo Teatro do Eléctrico, com encenação de Ricardo Neves-Neves e direcção musical de Martim Sousa Tavares (neto de Sophia). Anuncia-se ainda para 13 de Dezembro o espectáculo multimédia O Mundo de Sophia, pela Lisbon Poetry Orchestra, no Auditório Renato Araújo da Universidade de Aveiro. É o queimar dos últimos cartuchos. Oxalá não lhes suceda, depois, o silêncio.

Mas ainda falando de Sophia, foi recém-lançada uma “edição muito especial” do conto A Menina do Mar, pela Valentim de Carvalho. E o “muito especial” justifica-se por juntar àquele que foi o primeiro livro infantil de Sophia (de 1958) duas leituras dramatizadas distintas: a que dele fizeram, em 1961, os actores Eunice Muñoz, Francisca Maria, António David e Luís Horta, com direcção de Artur Ramos e música de Fernando Lopes-Graça (aqui incluída em CD); e o espectáculo estreado em Fevereiro no São Luiz, em Lisboa, interpretado por Carla Galvão e Filipe Raposo (ao piano) a partir de música de Bernardo Sassetti (1970-2012), com direcção de Paula Diogo e animações de Beatriz Bagulho, também chamada a ilustrar o livro (o espectáculo surge aqui em DVD). Para dar um ar ainda mais “especial” à edição, pensada e produzida por Rui Portulez, o texto introdutório é de Marcelo Rebelo de Sousa, que sublinha estarmos perante “diferentes leituras, diferentes gerações e diferentes métodos de revisitar um texto fundador.”

A única estranheza resulta desta pequena nota incluída na ficha técnica: “Considerando a sua possível leitura em contexto escolar, este livro respeita as regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, assumindo a Porto Editora a responsabilidade desta adaptação”. É curioso, porque nem a ficha nem o texto do Presidente da República têm essa preocupação, lendo-se, neles, palavras “proibidas” como “direcção” ou “espectáculo”. Será porque pensam que estes não serão lidos “em contexto escolar”? Vamos então conferir o trabalho de adaptação feito no texto original de Sophia. “Hei-de” passou a “hei de”; “Outono” a “outono” (3 vezes); “Verão” a “verão”; “Primavera” a “primavera” (2 vezes); “Inverno” a “inverno”; “projecto” a “projeto”; “vêem” a “veem”. E é só. Dez alterações, ao todo. Justificava o trabalho? Justificava a nota?

Aqui podem sempre brandir-se dois argumentos. Um, a favor do Acordo, que dirá: estão a ver, quase não se nota. Outro, contra, que oporá: se quase não se nota, para quê mexer? Sobretudo quando se sabe que Sophia foi declaradamente contra o Acordo Ortográfico? Teve até uma argumentação em dez pontos, em entrevista ao JL, em 1991. Recordemo-la, na íntegra:

“1. A cultura é feita de exigência e este acordo é feito de transigência. 2. Vai alterar, em muitos casos, a dicção oral. 3. Vai desfigurar o carácter emblemático e a estética da escrita. 4. Vai-nos separar da tradição grega e latina e, assim, para os estrangeiros que falam línguas românicas, o Português vai-se tornando mais difícil. 5. Vai destruir a modulação das vogais, tornando algumas delas surdas. 6. O acordo nada unifica, pois constantemente recorre a alternativas. 7. A escrita nunca pode coincidir com a fala. 8. A ortografia pertence ao número de coisas que só raríssimas vezes devem ser modificadas, pois também na forma gráfica nos reconhecemos. 9. É verdade que as línguas evoluem, mas evoluem dentro das leis que lhes são próprias e segundo o espírito criador do tempo. O mesmo é verdade para a escrita que, por isso, não pode ser modificada por comissões nem por estratégias políticas. 10. A única palavra portuguesa cuja ortografia precisa de ser mudada é dança que se deve escrever com ‘s’ como era antes, porque o ‘ç’ é uma letra sentada.”

Tirando esta última sugestão poética, que os defensores do Acordo costumam usar como caricatura, a argumentação de Sophia é clara. Corrigi-la postumamente é indefensável, pelo que o livro, para honrar a sua memória, deveria ser mantido na grafia original da autora. Porque não são as dez palavrinhas que estão em causa, mas sim uma questão de princípio. Ou sugerem atirar à fogueira as edições anteriores, não vão as crianças ter um choque ao lê-las?

Nuno Pacheco

[Transcrição integral de artigo da autoria de Nuno Pacheco publicado no jornal “Público” de 05.12.19]

 

Teolinda Gersão: “por alma de quem?!” [entrevista]

Excerto da entrevista de Teolinda Gersão no programa “Entre Tantos” da TVI24 em 03.11.19. Este excerto abarca apenas a parte da entrevista em que o assunto é o AO90.

 

Obra

Sus novelas tratan de la sociedad contemporánea, aunque transcurren en diferentes períodos. Algunos de los temas principales de sus novelas incluyen las complejidades de las relaciones humanas, la dificultad de la comunicación, el amor y muerte, la opresión, la libertad, la identidad, la resistencia y el proceso de creación. Otro tema central de su obra es el concepto de tiempo, sea el tratamiento del tiempo en la estructura narrativa o el tiempo histórico en el cual tienen lugar sus novelas. la dictadura de Salazar (Paisaje con mujer y mar al fondo); los años 1920 (O Cavalo de Sol), el siglo XIX (A Casa da Cabeça de Cavalo) y los años 1950 y 1960 en la Mozambique colonial (El árbol de las palabras).

Caracteriza a la mujer como instrumento de ruptura de los modelos tradicionales que presenta el feminismo. En su obra, existe un tiempo circular infinito, de retorno y comienzo que reproduce los ciclos de la naturaleza.

Premios literarios

Recibió el Grande Prémio de Romance e Novela de la Asociación Portuguesa de Escritores por su novela A Casa da Cabeça de Cavalo (1995) y los Premios de Ficción del PEN Club por sus libros El silencio (1981) y O Cavalo de Sol (1989). Asimismo, recibió el premio de la crítica de la Asociación Internacional de Críticos Literarios y el Premio Fernando Namora por su novela Los teclados (1999). En 2002, se le otorgó el Gran Premio Camilo Castelo Branco para cuentos por su colección de relatos, Historias de ver y andar.

[Wkipedia]
[Nota: recuso-me a utilizar a wikipédjia brasileirófona]