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RTP1, 05.05.21 – “É Ou Não É”

É Ou Não É? – O Grande Debate

Géneros: Informação – Entrevista e Debate

A opinião de quem sabe. O debate entre quem pensa diferente

Em “É Ou Não É? – O Grande Debate” é um espaço de debate onde se pretende promover a discussão e dissipar dúvidas, mas acima de tudo acrescentar conhecimento sobre os principais assuntos da actualidade, desde a Saúde, à Educação, à Justiça, mas também dos desafios com que o futuro nos interpela diariamente, designadamente ao nível tecnológico e ambiental.
Carlos Daniel é o moderador deste espaço de debate que contará com a presença de personalidades da vida pública e especialistas para uma reflexão tão interessante quanto profunda sobre os tempos de mudança onde a investigação, a inovação e os problemas do mundo global são fatores decisivos e presentes nas nossas vidas.
[“site” RTP, página do programa]

Em Português nos Entendemos?

Episódio 14 de 43 Duração: 130 min

Na semana em que lhe dedicam um dia mundial, vamos debater a nossa pátria maior, que é a língua portuguesa, a quinta mais falada no mundo, a primeira no hemisfério Sul. Que importância tem hoje no mundo o idioma de Camões, que valor económico tem de facto e qual é a estratégia para crescer e se afirmar num mundo dominado pelo inglês, espanhol e mandarim? “É ou Não É”… ainda em português que nos entendemos? [“site” RTP, página do episódio]

No “post” anterior sobre o mais recente “episódio” deste mesmo programa vimos, a traço grosso, em grandes pinceladas, o que foi e em que consistiu a acção de propaganda governamental genericamente designada como “Dia Mundial da Língua” brasileira: foi uma palhaçada feérica e consistiu num concurso que bem poderia chamar-se, por exemplo, “Quem Quer Ser Otário”.

Dirigidos às massas ignaras, à sua avassaladora ignorância e contando com que o  embrutecimento da população (a política de Estado vigente) tenha já provocado a paralisia total e uma geral, bovina anestesia, os “festejos” do dia da língua brasileira contaram com umas “sessões solenes” insuportavelmente soporíferas e ainda, fazendo de cereja no topo do bolo do caco, o tal programinha no canal principal da televisão estatal.

São dessa ressonante sessão filmada as gravações parcelares que se seguem. Recomenda-se a visualização de toda a fantochada, na íntegra, pelo menos a todos aqueles que sofrem de insónias, mas ao menos para efeitos de arquivo morto (e bem morto) aí ficam uns excertos da acordista, esquisitíssima, por vezes hilariante sessão.1.º excerto: Intervenção inicial de Nuno Pacheco, o único anti-acordista presente na tertúlia armadilhada. Nota-se-lhe a irritação, compreensível, e há que reconhecer-lhe o mérito de provocar rugas na testa ao apresentador, aos “convidados” e à “Excelência”, mais uns sorrisinhos condescendentes a armar ao superior nos diversos vendedores de livros, discos e cassettes pirata, entre os outros artistas que por igual “abrilhantaram” a emissão.

2.º excerto: ASS puxa dos galões e faz outros números a ver se impressiona a pategada; anuncia oficialmente quando e como Portugal se tornará na “porta dos fundos” para que os brasileiros, à conta da “língua universáu”, entrem à vontade na União Europeia, contornando o Acordo de Schengen.

3.º excerto: Outra intervenção de Nuno Pacheco. Vale, como “etiqueta”, a máxima de Mark Twain, em tradução livre: «nunca tentes argumentar com idiotas; eles vão arrastar-te para o nível deles e então tornam-se imbatíveis com a sua imensa experiência em  estupidez.»

4.º excerto: Um indivíduo que não sabe sequer que o “acordo” de 1990 não é de 1994 (porque 1990 foi em 1990, chavalo, 1990 não foi em 1994, bacano, topas?) debita umas coisinhas e (felizmente) cala-se.
Sob as rugas profundas na testa do bacano Carlos Daniel, lixado da vida com os “chatos” anti-acordistas, Nuno Pacheco fala dos dois sistemas vocálicos. Deve ter-se-lhe varrido no momento a patranha da “pronúncia culta”, entre outras enormidades acordistas habituais.

5.º excerto: Para o fim estava guardada a “discussão” do AO90 em sentido mais lato (digamos). Curiosamente, logo no início, ouve-se alguém da “régie” do programa a largar umas postas que parecem ser sobre o AO90; se calhar foi o encenador de serviço mas também pode ser ilusão ótica (não confundir “ótica”, de ouvido, com, nos termos do AO90, a “ótica” dos zarolhos).
A tal “escritora” desfia um chorrilho de idiotices (e mentiras), ASS puxa de novo dos galões e dá, em estreia mundial, desvenda ao bom povo que lavas no rio a sua profundidade intelectual (meio metro, mal medido): diz que, apesar de não ser linguista e, portanto, abster-se desse tipo de questões “mais técnicas”, acha sobre o AO90 uma data de coisas “mais técnicas” e discursa pormenorizadamente como se fosse um linguista (manhoso, mas pronto, vá, faz de conta).
https://youtu.be/PcaE7g1PWFgE ósdespois, como aliás é habitual, não morreram nem as vacas nem os bois, ou seja, tudo como dantes, quartel-general em Abrantes, a Oeste (e nos outros pontos cardeais) nada de novo, etc., basta escolher ao acaso uma das inúmeras expressões idiomáticas e trivialidades palavrosas para qualificar genericamente mais esta fantochada a propósito do “Dia Mundial da Língua” brasileira.

A táctica acordista mais uma vez funcionou, até porque está bem afinada e  generosamente untada, servindo uns quantos lacaios o arroz com feijão (e fubá) aos alegres convivas que, em amena cavaqueira e muito mal disfarçada galhofa, vão queimando com velinhas de aniversário as sobras da Língua Portuguesa.

Não é

«A data de 5 de Maio foi oficialmente estabelecida em 2009 pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) – uma organização intergovernamental, parceira oficial da UNESCO desde 2000, que reúne os povos que têm a língua portuguesa como um dos fundamentos da sua identidade específica – para celebrar a língua portuguesa e as culturas lusófonas. Em 2019, a 40ª sessão da Conferência Geral da UNESCO decidiu proclamar o dia 5 de Maio de cada ano como “Dia Mundial da Língua Portuguesa”» [“site” da UNESCO]

«Aproximou-se e veio reto na minha direção. “Desculpe, mas não concordo!”, disse ele. Perguntei com o que não concordava e ele então declamou duas ou três estrofes de “Os Lusíadas”. E declamou bem. Muito bem. Depois de uma pausa bem pensada, declamou um poema, que não identifiquei. Também declamou muito bem, olhando o tempo todo na minha direção, como quem demonstra uma tese ou dá uma aula. Quanto terminou, ficou em silêncio, aguardando. Eu não sabia o que dizer da demonstração, então agradeci e lhe perguntei de quem era o segundo poema. Ele respondeu que era dele. E completou: “Não é a mesma língua! Por isso, discordo”. E fez menção de ir embora.» [Paulo Franchetti]

«Na perspectiva dos acordistas, tudo se resume a seguir a táctica preconizada por Goebbels, a qual consubstancia na prática o “pensamento” teórico do seu alucinado chefe: uns quantos agentes  papagueiam, sistematicamente e à vez, como servindo-se num rodízio com patranhas em vez de acepipes, sempre as mesmas aldrabices básicas. A táctica é de facto viável: basta repetir infinita e invariavelmente as mesmas tretas. E a técnica parece ser mesmo infalível: quanto maior e mais simples é a mentira, mais gente acredita nela — até porque ninguém concebe que “outros possam distorcer a verdade tão abominavelmente“. Neste caso concreto, quanto ao AO90, prato principal do alucinado repasto, com CPLP e “lusofonia” por acompanhamento e decoração, sequer existe “distorção da verdade” — isto ele é só mentiras mesmo.» [“Post” As Variações da Mentira]

Ontem, dia 4 de Maio, lá tivemos de levar com mais uma sessão de propaganda oficial (e oficiosa) do AO90. Na RTP, a cadeia televisiva do Estado, isto é, paga pelos nossos impostos, como o próprio Estado, foi montada mais uma encenação da fantochada a pretexto do tal dia mundial da língua brasileira, uma “comemoração” inventada por uns quantos indefectíveis do “gigante brasileiro”, a começar pelo actual Secretário-Geral da ONU, o alfacinha António Guterres.

E se o pretexto existe há dois anos (ena!, dois anos!, que farturinha!, e que coincidência!), então toca a reunir as tropas, o pessoal dos negócios, uns bacanos da CPLP a ver se a ideia de língua “universáu” cola, talvez um ou outro “do” Camões e do IILP, dá-se uma apitadela ao anti-receção que estiver para aí virado e pronto. Siga.

O truque é sempre o mesmo ou, esmiuçando a coisa à vol d’oiseau, pois que de contradições e paradoxos se trata, a armadilha é sempre igual: junta-se uma comandita de acorditas para fingir que estão a discutir o AO90 “democraticamente” com um qualquer anti-acordita (por regra, também eles sempre os mesmos) que no alegre evento os acorditas estraçalham à dentada; assim, sozinho, encolhido entre os mastins e tentando manter a compostura perante os seus rosnados, ao resistente apenas cabe o papel de bizarria esquisitóide; algo parecido com o que sentiam os cristãos de antanho quando atirados às feras nas arenas romanas, se bem que no caso seja bem pior, o povo nos anfiteatros ainda goza com o supliciado escarmentando dele e atirando-lhe à careca pedras pontiagudas (e acepipes já mastigados e sandálias rotas, lixos assim).

É de facto um triste, deprimente espectáculo este, e ainda por cima quando sinais e avisos não faltam, à primeira qualquer cai, à segunda cai quem quer. De mais a mais se a questão central é a de haver um “dicionário comum”, por exemplo, bem, então dir-se-ia que satisfeita tal “exigência” o assunto ficaria arrumado, problema nenhum, viva o Malaca, viva o Bechara, três hurra pelo Lula e outras tantas pelo Sócrates. Como se andasse tudo por aí, em Portugal e nos PALOP sobraçando dicionários, um timorense de Maubara tropeçando num guineense de Bafatá ou moçambicanos apanhando o autocarro para Cabo Verde e toda a gente a abrir seus calhamaços para consultar “desculpe” e “olá, como vai” e “cumprimentos à esposa” nas línguas das outras ex-colónias.

Claro que o tipo de eventos promovidos pela RTP (e pela SIC, outra agência governamental) é reservado até ao fundo da sanita, povo e mal vestidos em geral nem a 100 metros, essa escumalha que fique atrás dos cordões policiais agitando freneticamente suas bandeirinhas grátis.

Portanto, devidamente guardadas as distâncias higiénicas, a surrealista tertúlia televisiva pôde contar, além do referido anti-acordita, com a  inolvidável presença (inolvidável para ela, é claro) de uma se calhar conhecidíssima escritora portuguesa de livros à venda no Brasil  (talvez de culinária, desconheço a especialidade “literária” da senhora), um fulano de Moçambique, se bem me lembro, que toca viola ou canta yélélélélé ou lá o que é, um outro “notável” igualmente virtual a dizer não sei o quê sobre o que presumo nem ele mesmo saiba; e acho que havia ainda outro, mas confesso que também não me recordo ao certo (e não vou perder tempo a recuar até à gravação na “box”, não sou masoquista) e pouco ou nada interessa, outros da mesma safra que lá pusesse o realizador daquela pepineira diriam as mesmas ou quejandas baboseiras: em qualquer sessão de propaganda política ou de intoxicação de  massas ou em massa — e este programa “É Ou Não É” deu na perfeição para ambas as serventias — não importa absolutamente para nada o que se diz; apenas interessa quem diz, como diz e, principalmente, onde diz; o fascínio das lantejoulas, das luzinhas a piscar, os olhos carrancudos e gravíssimos das câmeras, em tão finérrimo ambiente qualquer bojarda é tolerada e elogiada, por entre “ah” e “oh” e “tch”, toda e qualquer mentira, por mais descarada e arrogante que seja, é aplaudida, e a soirée é tida pelo “honorável público”, “mininos e mininas”, emulando o Circo, como uma excelente série de números da contorcionista, do ilusionista, do trapezista e de toda a trupe, em suma, “qui méréci apiláusos, vá lá, palminhas, palminhas”.

Não esqueçamos, porém, a performance daqueloutro verdadeiro artista, da sua presença grave e circunspecta, uma variante do palhaço rico, prestidigitador e malabarista em simultâneo, o tipo que arvora “Excelência” como seu nome artístico.

Deste ligeiramente jovem patriarca e de seus rotativos comparsas nas artes circenses, feras amestradas, troca-tintas ortográficos, vigaristas da corda bamba cursiva, aldrabões das pilhas humanas, patinadores de gelo seco, enfim, dessa cambada já largamente se falou, que enjoo, e, palpita-me, pelo menos eu cá terei ainda de voltar ao dito quando de novo, ainda que ad infinitum, tiver de ser.

A vigarice, por maldição do destino, é nesse aspecto parente próximo da Língua Portuguesa: não prescreve.

 

Treta, Patranhas & Paleio de Chacha – Comércio de Tangas, SARL

Sociedades secretas, negócios discretos

Não hostilizemos quem acredita piamente em que um dia, algures no futuro, o Sacavenense ganhará a Taça dos Campeões Europeus. E ainda, sobretudo, mantenhamos a compostura, admitamos que num outro dia um OVNI azul às riscas aterrará no aeroporto internacional de Portalegre e dele sairão, como turistas, uma data de Conguitos verdes paridos em Melmac.

Acreditar em tão profanos milagres é o mesmo que negar a existência de uma sociedade secreta (ou discreta), sem dúvida a mais perigosa de todas, perante cujo poderio é virtualmente impossível fazer seja o que for.

Esta terceira mas primordial seita, estranha simbiose das duas sociedades secretas oficiais (por assim dizer), é constituída por homens de negócios e por políticos (há diferença?), por regra membros de uma das outras duas confissões (ou de ambas, que também há disso), não têm aparentemente qualquer ligação entre si e não praticam rituais próprios de espécie alguma, ocupando-se exclusivamente da congeminação (entre os membros) de grandes negócios, desfalques faraónicos, tráfico de influências (e toda a sorte de outros tráficos), extorsão, lobbying, corrupção, especulação e manipulação de mercados. Etc. Absolutamente nada fica de fora ou está ao abrigo deste tipo de ganância, daquela patológica obsessão pela acumulação de riqueza.

A Maçonaria, cujos membros dizem de si mesmos ser “Pedreiros Livres” — que de pedreiros nada têm e de livres muito menos — e a Opus Dei (ou “Obra de Deus”, uma entidade abstracta que se rege pela lei da letra morta), constituem, pela junção das partes, um imenso grupo de pressão (política, de regime, autárquica, diplomática, empresarial) e constituem, cumulativamente, um conglomerado de interesses não apenas políticos como, ou principalmente, económicos. O aparente laicismo de uns e a religiosidade fingida de outros consistem basicamente (e comummente) na propagação de uma fé inabalável no dinheiro e na prossecução da sua crença no enriquecimento pelo enriquecimento. Para tal desiderato, no qual crêem cegamente, uns e outros socorrem-se de lacaios especializados para as tarefas mais sujas e plebeias, como lavar vestígios ou “abrir portas”, com tudo o que implicam os trabalhos de tais criados pagos à peça ou à ordem, em espécie ou numerário, por grasso ou por atacado.

É com incontornável solicitude que os sabujos, a mando de membros da seita de seitas. envergando a “libré” de “facilitadores” especializados, avançam amiúde com questões aparentemente menores. As trupes de auxiliares servem (na perfeição) os interesses da selecta alcateia de gananciosos patológicos e foi assim que, por exemplo, surgiu e medrou a chamada “questão ortográfica”, ou seja, o AO90.

Ignoremos, ao invés do habitual, as já muito badaladas teorias da conspiração que envolvem as duas sociedades secretas. No entanto, bem entendido, não apenas existem bastos sinais do envolvimento de qualquer delas (ou de ambas) em questões relacionadas com o idioma em particular e com o Ensino em geral, assim como parece evidente que ambas tiveram tudo a ver com a “adoção” da cacografia brasileira; os “irmãos” de ambas as famílias estiveram envolvidos e na dita questão continuam enterrados até ao pescoço; sabemos que assim terá sido e é, sim, mas também podemos estar certos de que jamais viremos a saber ao certo em que medida ocorreu tal envolvimento, quais dos “manos” (de toga ou de batina) estiveram envolvidos e o quê ou quanto, ao certo, isso implicou: não existe nas seitas, por definição e inerência, qualquer tipo de registo; não prestam contas de nada a ninguém, nem ao Fisco nem a quaisquer outras entidades do Estado (é óbvio, eles “são” o Estado); os membros gozam de total imunidade e outorgam a si mesmos o estatuto de total e absoluta impunidade.

À míngua de provas documentais de qualquer espécie, de muito pouco ou nada servirá especular sobre algum ascendente ou assacar-lhes a mais ínfima responsabilidade (claro, nunca foram eles, nunca fizeram nada, são só apreciadores de missinhas, mais nada). Não será, por conseguinte, com vãs (e ocas) polémicas sobre qual das seitas se superioriza moralmente à outra que será possível concluir, por exemplo, pobre analogia, que em Melmac não existe só o Alf. O conceito de moral (ou imoral) está a priori  fora de cogitação, no caso vertente, pelo que a frivolidade da comparação é inútil.

Porém, sem teorias da conspiração ou sequer a mais subtil das conjecturas, ainda que, porque não há provas, não saibamos ao certo o que é a “fé” ou o que ali é feito, todos sabemos perfeitamente… o que é uma sociedade secreta, o que ali é feito, quem, quando, como e para quê. E sabemos isso de ciência exacta precisamente pelo mesmíssimo secretismo que define qualquer das irmandades: se são secretas, então  têm algo a esconder. 

São coisas que se explicam a si próprias e por si mesmas.

Desta premissa podemos nós ter a certeza. Uma certeza clara e limpa e luminosa — o oposto diametral da permanente obscuridade, a escuridão sepulcral da criminalidade ritual.

Frutas, legumes e sociedades secretas

Observador – observador.pt, 28.03.21

António Pedro Barreiro

Imagine-se que o Parlamento decidia aprovar uma nova regulação acerca da produção de legumes – não de frutas, mas apenas de legumes. Certamente, muito haveria a debater sobre uma proposta desta natureza. Seria pertinente? Que efeitos teria na produção agrícola? E que consequências produziria na dieta dos portugueses? Discussões fascinantes e necessárias. Mas, antes de todos esses debates, há uma questão prévia, que é a de perceber que coisa é essa que o legislador entende por legumes. O caso torna-se agudo quando chegamos, por exemplo, ao tomate, que muita gente acredita ser um legume, mas que a ciência sabe, para além de qualquer dúvida, tratar-se de uma fruta.

Eu posso ser o maior defensor da nova regulação sobre a produção de legumes. Mas não posso aceitar que, à boleia de uma lei sobre legumes, o legislador se sinta no direito de legislar sobre o tomate, porque o tomate não é um legume. Seria, aliás, especialmente perigoso que o legislador andasse a brincar com os equívocos e os preconceitos do senso comum, para convencer os portugueses de que o tomate é afinal um legume e deve, por isso, caber no objecto da nova legislação. A política é uma arte nobre de serviço público. Ou se faz com base na verdade – e a verdade, bem o sabemos, é a adequação das ideias à realidade das coisas – ou faz-se mal. E, quando se faz mal, faz mal ao povo.

Em Dezembro de 2019, o PAN propôs que os deputados pudessem, ao preencher o seu registo de interesses, declarar se pertencem a sociedades secretas – ou, como se tem dito, discretasDizia então o deputado André Silva que é “inconcebível que os titulares destes cargos continuem a não declarar a sua filiação em organizações marcadas por uma forte opacidade, por um grande secretismo e que apelam a fortes laços de hierarquia”. A proposta tem o seu cabimento, até porque existe o risco real de que algumas pessoas se sirvam das relações travadas no contexto da sociedade secreta para subir na vida à custa do tráfico de influências. Mas o problema, como sempre, está nos pormenores. É que, além da Maçonaria – que é, de facto, uma sociedade secreta, que se caracteriza pela opacidade, que se estrutura segundo relações hierárquicas muito fortes e que constitui, com efeito, um espaço onde o tráfico de influências é possível –, o PAN quis incluir no estatuto de sociedade secreta o Opus Dei, que não obedece a nenhuma dessas características.
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Roteiro da Engenharia Linguística

Roteiro da Engenharia Linguística
1. O totalitarismo obscurantista manipula os cidadãos através da Novilíngua, a única versão da língua consentida pela classe dirigente (o “Grande Irmão”).
2. Esta língua, inventada pelo Partido único, que é omnisciente e omnipresente, assemelha-se ao grasnar, ou seja, reproduz sons repetitivos que lembram o quá-quá-quá dos patos, sem qualquer significado inteligível e implicando que o falante/escrevente não raciocine de forma alguma.
3. Excluído o raciocínio, isso implica a anulação completa da inteligência na comunicação (inexistente) e permitindo em simultâneo que a maior imbecilidade ou a mais inacreditável das vacuidades soem como ideias “geniais” ou “brilhantes”.
4. Sistematicamente bombardeados por esta verborreia embrutecedora, os cidadãos acreditarão com fervor religioso — de forma acrítica, passiva e acéfala — em qualquer fábula, mentira ou invenção, sem jamais se questionar e sempre desprezando violentamente os factos que, por regra, não interessam ao Partido e ao Grande Irmão.
5. Escapar ou sequer tentar escapar à Novilíngua é Crimepensar, ou seja, é um delito gravíssimo, algo interdito e violentamente perseguido no “Novo Normal”; conduz inevitavelmente à ostracização — a nova forma de prisão, sem muros nem carcereiros mas com muito maior isolamento: implica despedimento sumário e exclusão total de qualquer dos tipos de  interacção social (incluindo a familiar).
6. A Novilíngua serve para tornar conforme os ditames infalíveis do Grande Irmão e para adaptar a versão dos acontecimentos ou factos consoante mais convier ou der jeito ao Partido. A História, por exemplo, está em permanente revisão, pelo que nem um nem outro alguma vez se enganaram, no passado, ou cometem erros no presente. Se porventura houver ou tiver havido algo a corrigir, pois bem, é muito simples, corrige-se, basta reescrever a História, apagar o que não interessa, destacar ou eliminar previsões consoante o que vier a suceder na realidade.
7. A conformidade terminológica implica a adaptação dos factos, os quais, recauchutados segundo os ditames do Partido e utilizando a Novilíngua como mecanismo de sintetização, servirão para conferir uma absoluta conformidade ideológica ao todo —  uniforme mas tripartido — que subtilmente cria uma nova Trindade: Grande Irmão, Partido, Novilíngua.

 
O AO90, reduzindo isto à nossa minúscula mas grandiosa dimensão (linguística, histórica, patrimonial), é a Novilíngua que a classe dirigente (a dos “homens de negócios”) nos quer impingir. Comparativamente falando, em termos de dimensão o MPC (Manual Politicamente Correcto) seria uma brincadeira de crianças.

Mas, salvas as devidas distâncias, também não é brincadeira nenhuma.

Politicamente correcto ou fascismo linguístico?

“Sol” 21.03.21

Neutralizar os substantivos, alargar a lista de géneros, substituir ‘a’ e ‘o’ por ‘@’, ‘*’ ou ‘X’. O caminho do debate sobre a questão da língua inclusiva já é longo. Mas onde nos vai levar? Atualmente, assistimos a várias propostas e mesmo alterações linguísticas com o objectivo de aumentar a inclusividade e a neutralidade nos discursos, tanto em Portugal como no resto do mundo.

 

Na Universidade de Manchester pretende-se abolir todas as definições binárias. ‘Mulher/homem’ é substituído por ‘pessoa’; ‘senhoras/senhores’ por ‘toda a gente’; e, o mais polémico, ‘mãe/pai’ por ‘progenitor’ ou ‘guardião’ (que em português têm os dois géneros, mas em inglês são palavras neutras). Em Nova Iorque existe uma lista de 31 géneros e é possível o registo civil com terceiro género. O_caminho vem sendo percorrido há mais de uma década. Já em 2008 o Parlamento Europeu adoptava directrizes multilingues sobre a linguagem neutra em termos de género. Actualmente, em Portugal ouve-se falar de Acordo Queerográfico e de um novo manual linguístico de inclusão por parte do Conselho Económico e Social (CES).

Mas será a utilização de um género neutro uma forma de promover a inclusão e de afastar percepções desactualizadas sobre homens, mulheres, pessoas com deficiências e grupos minoritários ou estaremos diante um conjunto de artifícios do politicamente correcto que complicam a comunicação e a linguagem?

Daniel Cardoso, investigador nas áreas não-monogâmicas consensuais, BDSM, género e sexualidade considera que só é possível, verdadeiramente e partindo de uma posição democrática, ser a favor deste tipo de directrizes linguísticas.

«O que estamos nós no fundo a dizer se formos contra a inclusividade no discurso e contra a inclusividade na linguagem? Estamos a dizer que há pessoas que devem ficar de fora da nossa definição de comunicação? Estamos a dizer que há pessoas que devem ficar de fora da nossa definição de democracia?», questiona. Para o investigador, a única posição «politicamente responsável» é a favor da inclusividade como um dos grandes princípios básicos da democracia.

Universidade de Manchester: ‘Já não era sem tempo!’

Daniel Cardoso encontra-se no Reino Unido, na Manchester Metropolitan University, a poucos quilómetros da sua concorrente Universidade de Manchester. As directrizes da segunda universidade que baniu algumas palavras do vocabulário dos funcionários sempre que tenham de falar em nome da instituição, com o objectivo de neutralizar géneros e contribuir para a inclusão, não são uma realidade invulgar naquele país. De resto, a mudança há muito que está em curso – e não só no Reino Unido. Já em 2008, o Parlamento Europeu adoptava directrizes multilingues sobre linguagem neutra em termos de género que fornecessem conselhos práticos em todas as línguas oficiais. Objectivo: adoptar uma linguagem justa e inclusiva de género.

Daniel Cardoso defende que estas alterações nas universidades e instituições europeias têm sido, na esmagadora maioria dos casos, recebidas com uma certa naturalidade, já que o inglês tem muito menos marcas de género linguístico na ortografia e gramática do que o português. «O português marca de forma generalizada substantivos, adjectivos, mas o inglês não funciona assim. Tem uma forma pronominal neutra embutida no funcionamento da linguagem e portanto, todas estas questões que às vezes parecem muito contenciosas, na verdade são simplesmente mais um detalhe, mais um pormenor a afinar», afirma.

E não esconde a sua satisfação: «Já não era sem tempo. Que bom que estas instituições estão finalmente a rever os seus processos!», congratula-se.

Mas aquilo que o investigador da Manchester Metropolitan University considera ser linguagem inclusiva, para Helena Matos, professora, jornalista, escritora e colunista do Observador, é «o dialecto dos novos bárbaros». «As palavras geram actos e nós usamo-las para nos relacionarmos, mas não para construirmos realidades», comentou na TVI24, «Seria inconcebível que cada um dos diversos conselhos e órgãos do Estado tecesse manuais sobre como devemos comunicar», rematou. Em artigo no Observador manifestou o seu profundo desacordo com as alterações que têm sido propostas: «Não sou progenitora. Sou mãe. Não sou companheira. Sou mulher de», escreveu na crónica ‘Obviamente desincluída’, publicada no dia 14 de março.

CES: Novo manual de linguagem inclusiva

O Conselho Económico e Social apresentou um novo manual de linguagem para tornar a comunicação interna e externa mais neutra e inclusiva. No documento encontram-se vários exemplos que passam por evitar o género masculino, ou utilizar os dois géneros promovendo a igualdade entre homens e mulheres.

Sara Falcão Casaca, socióloga, vice-presidente da CES e uma das contribuidoras da proposta para uma linguagem neutra e inclusiva, defende que «a linguagem reflecte as concepções dominantes de cada contexto sóciocultural, de cada tempo histórico e ainda uma visão assimétrica das mulheres e dos homens, uma valoração desigual que se expressa na invisibilidade das mulheres». A socióloga confia que se colectivamente nos empenharmos em conferir igual visibilidade a mulheres e a homens na linguagem, do ponto de vista simbólico estaremos também «a veicular novas representações sociais – representações igualitárias sobre o seu valor e estatuto social».

Daniel Cardoso acrescenta que não só se assiste a uma invisibilidade feminina, como também uma invisibilidade de outros géneros não binários. E a linguagem tem o poder de alterar isso: «A linguagem é, foi e será algo vivo, algo que se adapta às mudanças que existem na sociedade e, por outro lado, fez, faz e fará parte de um conjunto de ferramentas e abordagens, para provocar mudanças no mundo», declara.
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Sine qua non

Vitral Mercado Municipal São PauloMercado Municipal de São Paulo

Existem duas teses: uma que em teoria postula a “correcção” (ou a “revisão“, segundo a terminologia de alguns anti-acordistas) e a outra que na prática visa a anulação pura e simples do AO90. Ou seja, há quem pretenda justificar o injustificável socorrendo-se de fábulas mirabolantes e há quem apenas pretenda a oposição determinada, primeiro, a recusa liminar, segundo, e a destruição, por fim, de qualquer veleidade neo-colonialista do Brasil e dos seus capangas portugueses.

A língua nacional do Brasil, o brasileiro, resultou primeiramente da colonização portuguesa e subsequentemente de um (relativamente) rápido processo de miscigenação linguística, compreendendo esta a  incorporação das línguas indígenas e em simultâneo as dos contingentes migratórios. Tal processo natural de progressiva autonomização, que perdurou por mais de quatro séculos, terminou na constituição de um “corpus” linguístico próprio e distinto sob todos os pontos de vista: lexical, semântico, prosódico (pronúncia, ortoépia) e ortográfico. Essa progressiva mas terminante (e determinante) autonomização terminou, pela simples ordem natural das coisas, em inexorável e irrevogável independência, ou seja, conduziu a uma nova língua em tudo diversa da original: hoje em dia, a língua que se fala e escreve no Brasil — veicular, por acréscimo, dada a enorme dimensão do país — já pouco ou nada tem a ver com o Português-padrão, a Língua-matriz que exportámos para todo o mundo ao longo dos séculos XV e XVI e que aterrou no Brasil no ano da graça de 1500.

Não é nada fácil, convenhamos, explicar de forma simples e essencial a lógica ou demonstrar as evidências de um fenómeno comum, mas de facto é muito, é demasiado e é por vezes irritante o que se diz e se lê sobre as patranhas acordistas — a “língua universal“, a “expansão e difusão do Português“, a “língua de trabalho da ONU“, o “valor económico da Língua“, a “facilidade na aprendizagem“. Tudo tretas absurdas, é claro, tudo a ver se algum patego cai na esparrela, ou, havendo vários animais de bossa, então que deles se faça uma cáfila (nem de propósito, o substantivo colectivo que designa os grupos de camelos), os quadrúpedes marchando a compasso; o objectivo é enganar o gado, em suma, e assim facilitar os negócios estrangeiros. O que significa, literal e passivamente, a promoção do expansionismo brasileiro, o consentimento cavalar do neo-colonialismo brasileiro e até o aplauso entusiasta da nacional-corrupção atávica e congenitamente brasileira (e portuguesa, ou pela ordem inversa).

Demonstrar a pessoas normais, essa sub-espécie em vias de extinção, algo tão comezinho e trivial como o golpe de Estado que Portugal e Brasil “adotaram”, temos de reconhecer essa triste realidade, não é pequeno exercício de humildade e reveste-se de roupagens com seu quê de oriental, uma espécie robe tipo “paciência de Chinês”. Isto à falta de mais gente com um pouco de tino, que ainda há-de haver disso, porque há, com certeza, imagino, mas que vai primando pelo mutismo ou pelas mais inconsequentes e inúteis sessões de malabarismos ortográficos (listas irrelevantes que apenas servem para vulgarizar as calinadas) ou longas e bocejantes exposições de um suposto brilhantismo pessoal (eventos famosíssimos na Buraca, por exemplo). Maníaca e sistematicamente, o que se tem escrito por aí sobre o AO90 é pura palha, cereal para espessar rações.

Seria por conseguinte necessário — ou condição sine qua non, pelo menos desde 2008 — que mais alguém dissesse e fundamentasse (muito melhor do que o arquivista do Apartado 53, decerto) que a independência linguística é um fenómeno comum… como sucedeu com todas as Línguas de raiz latina, o Francês, o Castelhano, o Italiano, o Romeno, o Catalão, o Galego, o Português.

Nós herdámos dos romanos a linhagem civilizacional, as estradas, as pontes, os aquedutos e as bases da Língua Portuguesa. O Brasil herdou de nós, por amostra, as igrejas de Ouro Preto, a imensidão das fronteiras e as bases da sua língua nacional.

Tentar estabelecer alguma espécie de paralelismo com as Línguas de outras potências colonizadoras é algo deslocado: usando, sem afinal alterar o embate violento com a realidade, o caso do Português-padrão no Brasil em comparação com o Inglês da Inglaterra e o da América, ou o Francês de França e o do Québec ou o Espanhol da Espanha e o do México… não tem ponta por onde se lhe pegue, lamento; rebaixar, diminuir, amesquinhar a bitola da comparação é, no mínimo, ridículo. As diferenças assinaladas em tais analogias, que afinal o não são, não têm absolutamente nada a ver com a questão: nos USA (ou na África do Sul, na Índia, no Quénia e em toda a Commonwealth) não existe a menor diferença estrutural e gramatical; o mesmo vale para o Francês e todas as nações, territórios e países que integram a Francophonie; e o mesmo sucede, evidentemente, com o Castelhano e os 23 países de língua oficial espanhola.

Sotaques diferentes e pontuais entradas lexicais são factores comuns nos países anglófonos, francófonos ou da hispanofonia, mas esses factores são irrelevantes em qualquer das três “irmandades” linguísticas. As respectivas matrizes são sólidas, são invariáveis e estão fixadas.

Ora, o do AO90 difere em tudo, não há analogias possíveis se compararmos o brasileiro com o Português: não há comparação. Não tem nada a ver. A língua brasileira seguiu o seu próprio caminho e este, ao contrário do que sucede com todos os caminhos, não tem retorno. Não há regresso. Pelo contrário, aliás: este caminho continua a afastar-se cada vez mais, infinitamente, do ponto de partida — a Língua Portuguesa.

Face a isto, que é uma realidade, verificável e verificada, comprovável e comprovada, somente restam duas alternativas: ou se aceita a realidade ou se nega a realidade. Não há terceira via. Nem outra hipótese além de lutar contra a realidade inventada que pretendem impor-nos e, com igual tenacidade, pela realidade como ela é.

Vamos falar a sério, então? Lutar, sim, mas sem malabarismos inconsequentes? Enfrentar os negacionistas e inventores de realidades alternativas?

É que torna-se a cada dia mais urgente que mais gente se junte à luta. Com a sua palavra, dita ou escrita mas pronta. Com a sua vontade, intacta e férrea mas transparente e honesta. Com a certeza, enfim, de que estamos do lado certo desta luta e que este é também o lado real da História.

Isso é muito importante. É vital. É condição sine qua non.

Até o Spotify passou a “falar” português europeu

Nuno Pacheco
www.publico.pt, 18.03.21

 

Nem de propósito. No mesmo dia em que era publicada a minha crónica anterior, dando conta da edição em Portugal de uma colecção do ‘Snoopy’ em português do Brasil, sem qualquer aviso a explicar tal opção, chegava a notícia de que a plataforma de distribuição de música Spotify ia ter 36 novos idiomas, incluindo “oficialmente o Português Europeu”. Note-se que entre os 25 antes disponíveis o Spotify incluía o “Português do Brasil (Brazilian Portuguese)” mas também duas variantes do espanhol (“Spanish” e “International Spanish”) e duas do francês (“French” e “Canadian French”), acrescentando agora ao chinês nova variante, o “Simplified Chinese”. E assim somam quatro línguas com duas variantes cada, incluindo o “Portuguese for Portugal”!

Nada disto é estranho. Estranho é que se continue a insistir numa uniformização ortográfica do português, ignorando que, mesmo que tal fosse possível (e não é), de nada adiantaria face ao resto, ou seja, às diferenças naturais que cada cultura imprimiu ao uso, oral e escrito, do idioma comum. É curioso, por exemplo, que na citada edição do ‘Snoopy’ (com as tiras traduzidas em português do Brasil), os textos introdutórios tenham um lote de palavras que, mesmo aplicando o malfadado Acordo Ortográfico de 1990, continuam diferentes cá e lá. Comecemos pelas que passaram a ser iguais na escrita: ‘diretor’, ‘ótimo’ ou ‘trajetória’. E agora as outras: ‘fato’, ‘contato’ (‘facto’ e ‘contacto ‘em Portugal), ‘tênis’, ‘bebê’, ‘polêmica’, ‘platônica’, ‘fenômeno’, ‘icônicos’ (aqui diferentes na acentuação), ‘dezesseis’ (‘dezasseis’, na grafia portuguesa) ou ‘características’, ‘aspecto’, ‘perspectiva’ e ‘acepção’, que eram iguais nos dois países mas que o AO90 obrigou Portugal a alterar para ‘caraterísticas’, ‘aspeto’, ‘perspetiva’ e ‘aceção’. Que belo serviço à unidade do idioma!

O cinema é outro exemplo de que, mesmo com reformas ortográficas, a distinção entre o uso do idioma em Portugal e no Brasil se mantém e manterá, saudavelmente, já que só assim ganham identidade em cada um dos países as dobragens ou legendagens de filmes estrangeiros. Já aqui se falou disto, no passado, com vários exemplos. Mas podemos fazer um outro exercício, usando dois vídeos de filmes com uma característica rara: dobragem (dublagem, no Brasil) em português brasileiro e legendas no português europeu pré-AO90.

Um deles é o DVD de ‘6 Dias, 7 Noites’, de Ivan Reitman, comédia com Harrison Ford e Anna Heche. Ainda no genérico, na cena do jantar entre Frank e Robin, ouve-se este diálogo entre ambos: Ela: ‘Será que dá pra dizer o que está tramando?’ Ele: ‘É somente parte da surpresa.’ Ela: ‘Não vai terminar tudo, vai?’ Ele: ‘Nós não vamos terminar. ‘Ela:’ Tá legal.’ Ele: ‘Sabe o que é que eu quero? O que eu quero mesmo é incrementar o romance’. E nas legendas lemos isto: Ela: ‘O que andas a tramar?’ Ele: ‘Faz tudo parte da surpresa.’ Ela: ‘Queres acabar comigo?’ Ele: ‘Nós não estamos a acabar’. ‘Pelo contrário, eu pretendo aumentar o romantismo das nossas vidas’.”

Já com a edição francesa em UHD-4K de ‘Dracula’, de Francis Ford Coppola, podemos fazer idêntico exercício. A dada altura, Renfield (Tom Waits) diz, na dobragem: ‘Eu fiz tudo o que me pediu, Mestre. Mestre, eu estou aqui! Eu idolatro o Senhor!’ E nas legendas lemos: ‘Fiz tudo o que pediste, Amo. Amo, estou aqui! Tenho-te venerado!’ Quando Jonathan (Keanu Reeves) e Mina (Winona Ryder) se encontram no jardim, trocam estas palavras: Ela’: Jonathan, eu amo você’. Ele: ‘Eu amo você, Mina’. E nas legendas: Ela: ‘Jonathan, amo-te’. Ele: ‘E eu a ti, Mina’.
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Diz que coiso e tal

Lari e Hugo – 135K subscribers
Larissa, como é que você aprendeu a falar português de Portugal? É muito difícil? É muito diferente? Você demorou quanto tempo pra entender tudo? haha Recebo várias mensagem assim diariamente!! E no vídeo de hoje resolvi ser professora por um dia e vim “vos ensinar” a “FALAR PORTUGUÊS DE PORTUGAL” de uma maneira rápida, prática e fácil!! Quem aí tá animado? Vamos lá comigo que tenho a certeza que vai ser divertido!!

Uma das bacoradas favoritas de acordistas (e outras não menores mas de aparente sinal contrário) é esta coisinha intocável: «o falar influencia a ortografia mas no sentido inverso ‘no pasa nada’». Estabelecido na sua mirrada cabecinha tão grosseiro quanto idiota axioma, estendem-no como se fosse um tapete a outras “verdades” de igual ou semelhante calibre: por exemplo, diz que «a ortografia não passa de um código arbitrário para simples transcrição da fala», assim como diz que, ainda por exemplo, que «o AO90 não altera o modo de falar, só “afeta” a escrita».

Ora, evidentemente — e neste ponto dá imenso jeito aos acordistas a metáfora do tapete, para debaixo do qual varrem os argumentos contra os seus ditames –, qualquer aluno da 4.ª Classe (do 5.º Ano, vá) sabe e já percebeu que a via é bi-unívoca, dá para os dois lados, salvo seja, a fala afecta a escrita assim como a escrita influencia o modo de falar. Veja-se (e oiça-se) o que já se vai passando por aí, o emudecimento (por via da caça à consoante dita muda) daquelas coisinhas que antes eram sílabas tónicas (em Portugal e PALOP) e que agora até locutores de TV ou rádio fazem soar conforme lêem textos estropiadas pelo AO90 segundo a “lógica” fonética brasileira (em que todas as vogais são mais tónicas do que o Gin); a peçonha acordista já chegou ao inimaginável ponto de alguns não apenas tentarem ler o brasileiro com sotaque português (ou seja, sem sotaque algum) como, ainda por cima, os mais expeditos a engraxar brasileiros desataram já a “imitar” o próprio léxico brasileiro: os advérbios de modo foram abolidos (é tudo “fácil”, nada é feito facilmente, o que antes se fazia rapidamente agora faz-se “rápido”, e assim por diante), já não há pessoas, o que há é “oi, minha gente” (ou algo do género, igualmente asqueroso), volta-e-meia ouve-se tugas a balbuciar “registro” em vez de registo, o verbo “dizer” foi também administrativamente abolido, agora é “falar”, ele “falou” que ou, pior ainda, “ele me falou que”.

São aberrações destas (sim, isto é que são aberrações, fora o resto) que levam um ser-humano a interrogar-se “mas onde raio guardei eu a pistola”.

De semelhante cambada, de tais e tão estranhos fenómenos, temos aqui dois exemplos (também eles) contrastantes; lá em baixo, como o tiroliroliro, temos uma espécie de exposição do “mundo das línguas”; lá em cima, como se fosse o tiroliroló da loucura, temos a demonstração prática do processo de colonização linguística em curso.

Ao mundo dos conceitos básicos na matéria, traduzido sem calão da árvore em imagem, junte-se o vídeo com efeitos especiais de uma rapariga brasileira ensinando a seus patrícios como comunicar com os selvagens que habitam nesta sua nova província.

Que horror.

Viagem ao extraordinário mundo das línguas – Opinião

Marco Neves
24.sapo.pt
24.01.21

 

Fechado em casa, apetece-me fazer uma viagem pelo mundo das línguas. Vou escrever um facto sobre uma língua de cada vez. A língua seguinte terá de estar ligada à anterior pela geografia ou de outra maneira. No fim, regresso ao nosso país.

 

GALEGO | Será uma surpresa em Portugal, mas há galegos que consideram o galego e o português a mesma língua. As opiniões dividem-se, mas uma coisa é certa: se não forem a mesma língua, dificilmente encontraremos duas línguas mais próximas do que estas.

CASTELHANO | A língua aqui ao lado tem 5 vogais. Por cá, usamos umas 14 da boca para fora. É uma das razões pelas quais é tão difícil aos vizinhos perceber o que dizemos. Para compensar, na escrita, têm uma letra vogal adicional: o <y>.

BASCO | É a única língua não indo-europeia da Península. Na Europa, há mais umas quantas: o maltês, o turco e as línguas urálicas como o húngaro, o finlandês e o estónio (sem esquecer outras da família, como o lapão). O basco é a única sem familiares.

CATALÃO | Na Idade Média, foi uma importante língua do Mediterrâneo. Os primeiros textos conhecidos em catalão são mais antigos do que os primeiros textos escritos em galego ou português.

OCCITANO | A língua tradicional do Sul de França é hoje falada por poucos, mas recebeu um Prémio Nobel da Literatura antes do inglês ou do italiano. O laureado foi Frédéric Mistral, em 1904.

FRANCÊS | A ortografia francesa está particularmente distante da fonética da língua. Uma palavra como «août» é lida por muitos franceses simplesmente como [u]. A conjugação verbal é também muito mais simples na oralidade do que na escrita.

NEERLANDÊS | Apesar de, em Bruxelas, ser mais fácil encontrar quem fale francês, o neerlandês é a língua mais falada na Bélgica, onde era tradicionalmente chamada de «flamengo». Por cá, também usamos o termo «holandês» para designar a língua.

FRÍSIO | Esta é a língua mais próxima do inglês. Mesmo assim, são muito diferentes, porque o inglês sofreu profundas alterações (e o frísio também não deve ter ficado parado). Aqui fica uma frase em frísio: Myn namme is Marco en ik kom út Portegal.

INGLÊS | É uma língua germânica apaixonada pelo léxico de origem latina. Vindas do francês, do latim ou de outras línguas românicas, há tantas palavras latinas no inglês que é quase um membro honorário do nosso clube. Note-se: no inglês, as palavras latinas tendem a ser mais formais.

SCOTS | Ane leid is ne’er eneuch!* Na Escócia, fala-se gaélico (nas Terras Altas), inglês (à escocesa) e ainda Scots, considerado por uns dialecto do inglês e por outros língua separada. Uma coisa é certa: tem uma antiga tradição literária. [*Uma língua nunca é suficiente!]

NORUEGUÊS | Tem duas normas oficiais, ambas ensinadas nas escolas, cada uma com variedade interna considerável: o nynorks («novo norueguês») e o bokmål («língua dos livros»). Esta última é a mais usada e também a mais próxima do dinamarquês.

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