Branca de Neve

já perdeu?

No próximo dia 4, o mundo ficará a saber quem será o próximo Imperador Terráqueo: John McCain ou Barack Obama.

Todas as sondagens apontam para uma vitória do candidato “Democrata”, pelo que, ao menos aparentemente, nem vale a pena estar a gente a ralar-se com isso. Se os eleitores fossem os súbditos do Império de fora dos Estados Unidos da América do Norte, ou seja, se os americanos não pudessem votar no seu próprio Presidente e a votação fosse um exclusivo dos europeus, por exemplo, a coisa já estaria mais do que saldada: era Obama e pronto, não se falava mais nisso.

Mas poderá não ser bem assim, afinal. A questão reside essencialmente no eleitorado feminino. Ganhará o candidato que as mulheres americanas considerem, com o seu infalível instinto de sobrevivência, aquele que mais garantias lhes dá nesse aspecto.

Ora, como um candidato é jovem e o outro é velho, na perspectiva feminina também já se sabe, sem grande esforço premonitório, qual deles ganhará. Um é elegante no falar e no vestir, o outro arvora um aspecto estranhíssimo e assimétrico. Para agravar o panorama, e esse será porventura o facto político mais relevante destas presidenciais americanas, McCain demonstra uma bizarra tendência para amiúde deitar a língua de fora, sem mais aquelas, o que não deixará certamente de ter enormes custos na contagem final. As mulheres não papam esse tipo de merdas num gajo qualquer, quanto mais no futuro Presidente do seu país.

Além disso, o próprio McCain cometeu um erro absolutamente primário, que só o prejudica, ao escolher uma mulher gira (podre de boa, há mesmo quem diga) para seu número 2, isto é, para a Vice-Presidência; isto quer dizer, por inerência do cargo, que, se por acaso ao próprio McCain – se fosse eleito – desse uma travadinha algures durante o mandato de quatro anos, seria a Senhora Dona Palin quem tomaria o lugar na Casa Branca.

Foi uma argolada tremenda, esta escolha de McCain, e veremos se não se tornará absolutamente decisiva quando abrirem as urnas. O mulherio ianqui, à semelhança do mulherio em geral, não apenas não grama lá muito tipos já entradotes como não suporta de forma alguma – e isso é que é grave, do ponto de vista do Partido Republicano – que uma gaja boa (e gira, ainda por cima) chegue à cadeira do Poder. Isso nunca sucedeu, ao menos por aquelas bandas – confira-se o caso de Hillary Clinton, absolutamente paradigmático quanto à tese – e não sucederá certamente tão cedo, nas próximas muitas gerações ou ao menos enquanto o eleitorado feminino se impuser pelo número e pela força do seu já referido instinto infalível.

Qualquer votante num qualquer Partido imprime às suas “ideias políticas” a mesma convicção, em grau de certeza, em intensidade de militância e em conteúdo argumentativo, que o seu homólogo num clube de futebol, por exemplo. Ou seja, digamos que um votante “Democrata”, no caso americano, empenha-se tanto nos assuntos do Estado como o mais indefectível adepto dos Houston Texans ou dos Tennesse Titans se interessa pelo evoluir da tabela classificativa. À escala portuguesa, isto equivale a dizer, vá lá, que um bacano socialista é igualzinho, escarradamente, a um “doente” do Benfica. É tudo uma questão de manias e idiossincrasias, a gente nasce benfiquista e acabou-se como a gente vota CDS e pronto, nem vale a pena discutir porque ninguém vai trocar de clube a meio do campeonato ou, melhor, nunca na vida.

Bem, isto é, por assim dizer, regra geral, com o maralhal quase todo. Depois, tirando o maralhal, existe (na política como no desporto) os chamados “indecisos”. E é precisamente aqui que entra o tal factor decisivo: as mulheres. Para o belo sexo, as escolhas (políticas, clubísticas ou outras) dependem em exclusivo da inspiração do momento e do “palpite” que melhor soe a cada uma delas; cá está, é isto o instinto de sobrevivência, o sexto sentido com o qual elas nascem e nós não. A Natureza deu-lhes esse apêndice, sorte delas, e a nós, homens, deu um outro, igualmente necessário mas muito diferente, sem tanto préstimo ou utilidade, nem coisa que se pareça.

Bem sabemos que nas democracias ocidentais é muito raro encontrar quem tenha convicções políticas ou que, já agora e a propósito, sequer tenha uma vaga ideia daquilo que se está a passar, politicamente falando. O chamado “eleitorado” é constituído por 99,9% de pessoas que tentam sobreviver a um quotidiano cada vez mais difícil e que são chamadas, de quatro em quatro anos, a “eleger” os 0,01% dos seus concidadãos que se afivelarão nos negócios da coisa pública – ou seja, por regra, nos seus próprios negócios.

Porém, mesmo conhecendo todos nós os princípios basilares do sistema (integralmente contidos no parágrafo anterior), deveríamos reconhecer do mesmo passo a subtileza da mecânica eleitoral em que o dito sistema se fundamenta e que a isso se dá muito menos ou nenhuma atenção. De facto, a essência no caso resume-se a uma palavra, e essa palavra é: mulheres. No fundo, salvo seja e em suma, são elas quem decide tudo, a começar pelo sistema eleitoral. Mal sabiam as sufragistas de finais do Século XIX e inícios do Século XX que estavam a reivindicar não apenas o direito ao voto mas antes a garantir para o seu sexo o poder total e absoluto, já que desse voto passou daí em diante a depender o futuro das nações.

É que as mulheres não só adquiriram o direito a votar como, com ele, passaram a exercer o seu magistério de influência em toda a plenitude. Trocado isto por miúdos, quer dizer que – se antes eram elas quem soprava aos consortes em quem votar – agora juntam o seu próprio voto a esses, dobrando com simplicidade a parada do dito magistério.

Não será definitivamente a raça dos candidatos o factor decisivo, no próximo dia 4. Em grande parte, será a idade de cada um deles. O seu aspecto. O seu estado de saúde. Mas, muito mais importante do que isso, a escolha dos americanos recairá naquele que, segundo o testemunho inatacável das respectivas esposas, tem mais potencial fisiológico, maior viabilidade e esperança de vida.

Exacto. Aquele que não deita a língua de fora como se lhe fosse dar uma coisinha má a qualquer momento.

Mas isto, é claro, se uma particularidade física do outro candidato não irritar as americanas ainda mais do que um tique esquisito e uma cabeça cheia de cãs.

Foto de Jim Bourg, alojada em Reuters.com.

5 comentários em “Branca de Neve”

  1. Como mulher, não posso deixar de comentar. Se por um lado é verdade que o aspecto dos candidatos é importante para esta votação, e o JPG está consciente do que esse aspecto significa a nível de instinto, ou seja, de sobrevivência da espécie, o que irrita em Palin não é que seja gira (ou não, depende dos gostos) mas sim que seja ignorante e limitada, como se não se pudesse encontrar em todo o partido republicano uma mulher agradável à vista, culta e inteligente. Isto, para mim, é profundamente ofensivo.

  2. Escapa-me aquilo que acha, ao certo, “ofensivo”: se todo o post, se apenas as referências à “gireza” da vice-candidata, se o facto de Palin ser, na sua opinião, burra como um cepo. Caso seja esta última hipótese que acha profundamente ofensiva, lamento mas não tenho nada a ver com isso.

    Se me permite, o que acho “ofensivo” (não enquanto homem, apenas enquanto ser-humano) é que seja necessário uma mulher ser “agradável à vista”, como a Gi diz, além de “culta e inteligente”, para poder ser candidata. Aliás, acho profundamente triste que isso mesmo seja “necessário” seja para o que for, a não ser para aquilo que a gente sabe.

  3. Só mais uma coisa, a respeito da “gireza”. Melhor, em vez de “coisa”, alguns nomes.

    Golda Meir.
    Angela Merkel.
    Margareth Thatcher.
    Maria de Lurdes Pintassilgo.

    (Got it?)

  4. Peço desculpa por não me ter explicado melhor: não foi o seu post que achei ofensivo mas sim a escolha feita por McCain.

    Por isso não “got it”, não senhor: é que mais uma vez parece que as mulheres se distinguem em “burras giras” e “feias inteligentes”, e isso não é verdade. Mas também não era com certeza isso que o JPG queria dizer com esses exemplos.

    BTW, eu não digo que Palin seja “burra como um cepo”, mas sim “ignorante e limitada”, o que não é bem o mesmo.

  5. E é que não era mesmo. O que pretendia ilustrar com os exemplos de “coiros” na Presidência, é que, de facto, (vá lá, por favor, desminta-me) as mulheres não suportam ver mulheres bonitas em cargos de Poder. No fundo, e a isto se resume a minha teoria, as mulheres são a coisa mais machista que existe.

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