Reviver o passado em Cabeça-de-Noiva

Uma das características fundamentais do chamado “informático”, é a sua atávica aversão ao Português.

Para ler uma coisa escrita por um “informático” (“Geek”, em versão revista e aumentada) é necessário possuir, além de uma paciência absolutamente à prova de bala, um não desprezível manancial de ferramentas linguísticas; além disto, que já não seria pouco, para que se entenda alguma coisinha do linguajar característico do “informático”, é conveniente dispor também de profundos conhecimentos de Inglês, e ter ainda algumas noções, ainda que básicas, de áreas do conhecimento tão distintas (no sentido de distintas) como a antropologia, a psicologia e, absolutamente fundamental, a “jogologia”, isto é, os jogos de computador.

Para quem sabe ler e escrever minimamente, tentar entender o palavreado do “informático” afigura-se como tarefa intelectualmente hercúlea, algo que serve para pôr à prova a mais resistente das pessoas ditas “normais”; aliás, não seria talvez má ideia incluir uma cadeira de “informática” em todos os cursos superiores de Letras; não para que os futuros licenciados nas diferentes áreas de Humanidades pudessem aprender alguma coisa sobre computadores, mas para que estudassem e interpretassem manuais de software e de hardware, para que decifrassem alguns livros deste interessante ramo e, quem sabe, para que pudessem aprender a perceber alguma coisinha daquilo que pretende dizer um “informático” sempre que se mete a escrever sobre as agruras da vida, o estado do tempo, a telenovela das 9 ou as hipóteses de o Benfica ganhar o campeonato, em suma, para quando lhes dá para “postar” umas coisas sem ser lá da área deles.

De facto, não há nada mais confrangedor do que levar com os neologismos e, em especial, os barbarismos típicos do “informático”… típico. Aquelas coisas do “salvar” um ficheiro, ou do “usuário”, por exemplo, ou ainda, meu Deus, horror dos horrores, a sacrossanta mania do “por defeito”, bem, com essa, confesso, com essa é que o mais pacífico dos betinhos se torna capaz de tudo, até de amarinhar pelas paredes. É que, vá-se lá saber porquê, para os “informáticos” tudo vem, pelo vistos, já com defeito, e vai daí é um ver se avias, “por defeito” para cá e “por defeito” para lá. Curiosamente, nunca nada para eles é por excesso, o que de resto se compreende.

Não adianta, como é evidente, sequer tentar chamar esta malta à razão, ou incutir algum módico de juízo naquelas cabecinhas duras, porque a natureza de cada qual é a natureza de cada um e, quanto a isso, nada feito, prontos, é assim mesmo. O “informático” está-se positivamente nas tintas para essas picuinhices já que, de resto, detesta os picuinhas, autores das ditas. Aliás, o “informático” despreza sumamente algumas pessoas, não muitas, digamos que apenas o resto da humanidade, e tem de si mesmo uma imagem um pouco sobrevalorizada, pelo que tende sistematicamente a obnubilar (esquecer, borrifar-se para) esse tipo de minudências (coisas pequeninas, pouco importantes). Segundo a sua peculiar maneira de ver as coisas, o que interessa é que se entenda; porém, o busílis (hum, âmago, haaaa, essência, bolas, essencial) é que raramente uma coisa escrita por um informático serve para ser lida; é uma espécie de poesia ultra-modernista escrita em prosa, isto é, cadeias intermináveis de palavras – sem qualquer nexo entre si, mas que ficam muito bem, com excelente aspecto, quando impressas.

Ora, isto explica muita coisa. Por exemplo, explica porque é que ainda existe tanta gente que não vê absolutamente um boi “disto”, dos computadores e das internetes. É claro, como poderiam ver o dito boi, mesmo que fosse um boi charolês do tamanho de um Tupolev, se os manuais estão todos escritos em informatiquês e são todos escritos por informáticos?

Não se percebe nada, e isso percebe-se perfeitamente.

Daí a enorme quantidade de “infoexcluídos”, os tais que não vêem um boi disto, e daí também o seu contrário, isto é, a enorme quantidade de “infocagões”, os gajos (e gajas) que também não vêem o mesmíssimo boi mas que sabem dizer “gigas” e “u ésse bê” e “péne draive”, pelo que – artilhados com semelhante terminologia supostamente técnica – se consideram a si mesmos como os maiores lá do bairro e arredores. Se uma conversa entre dois destes espécimes, dois cagões a armar ao cagalhão, já é algo de absolutamente insuportável, imagine-se o que sucede quando aquela malta se reúne em tertúlias, em “convívios”, em jantarinhos, em congressos, e assim. Se é bem verdade que nesses eventos especializados nenhum pai morre, também é verdade que desgraçadamente ninguém ali sequer almoça; aquilo é, invariavelmente, paleio de chacha atrás de paleio de chacha, cada qual dos convivas esgrimindo mais termos “técnicos” do que o parceiro do lado, toda a gente desesperadamente tentando impressionar os circunstantes com a sua não muito inspirada (por assim dizer, apenas para espantar pategos) “verve” tecnológica.

Também por isto, devido a esta espécie de peçonha tecnológica, infectando a informática actualmente as mais diversas áreas do conhecimento, desde a astrofísica à pastelaria fina, que se vai já tornando impossível sequer ler um livro em paz e sossego. A poluição computacional chegou à literatura, depois de alegremente ter arrasado todas as outras artes, aniliquilando qualquer esperança de fruição estética pela palavra.

É principalmente por causa das traduções, das desgraçadas traduções. A tradução automática evoluiu muitíssimo, é verdade, mas ao mesmo tempo a não automática regrediu para níveis de perfeita imbecilidade. Ou seja, ambas as coisas se aproximam inelutavelmente entre si, sendo cada vez mais dispensável a utilização de qualquer ferramenta humana para o efeito.

E não é apenas o texto que vai desaparecendo por entre as vagas de estupidificação maciça. O próprio livro, enquanto objecto e veículo de conhecimento e de prazer, está muito próximo da pura e simples extinção.

Deve ser isto o tal futuro cibernético. Já lá chegámos. Agora, para reviver o passado, seja o que for do passado, só às escondidas, de forma quase clandestina, nos velhinhos alfarrabistas, nos arquivos perdidos, nos sótãos empoeirados onde ainda guardamos algumas das velharias a que dantes se chamava livros.

A máquina do tempo avariou-se para sempre.