No pasó nada

Estas são, de acordo com o operador, as primeiras imagens dos “confrontos” no bairro da Quinta da Fonte, ou seja, são imagens anteriores àquelas que a SIC apresenta como sendo imagens dos disparos no bairro da Quinta da Fonte no início da tarde de 11 de Julho. O jornalista continua a peça e introduz um novo grupo de imagens de disparos, que identifica como tendo sido captadas no momento desse segundo “confronto” entre os moradores.

II – Análise das Imagens do “tiroteio” 2 na Quinta da Fonte (Loures)
2 Designação utilizada pelos operadores para referir os acontecimentos da tarde de 11 de Julho no bairro da Quinta da Fonte (Loures).

[excerto de deliberação da ERC

Número de ocorrências dos termos TIROTEIO e CONFRONTO, de forma isolada ou autónoma (não em citações), incluindo o plural, em todo o texto da deliberação da ERC sobre as notícias dos acontecimentos na Quinta da fonte, emitidas pelos operadores RTP, SIC e TVI.

TIROTEIO
– sem aspas: 7 ocorrências
– entre aspas: 11 ocorrências

CONFRONTO
– sem aspas: 3 ocorrências
– entre aspas: 4 ocorrências

logótipo da ERCO que é que isto significa, afinal? Bem, nada de realmente importante, é claro, mas não deixa de ser curioso que a ERC se preocupe tanto com as diferenças que existem entre um “confronto”, com aspas, e um confronto, sem aspas; ou que considere não haver qualquer tiroteio, sem aspas, quando se fala de “tiroteio”, entre aspas.

Ou seja, por causa de um suposto tratamento “tendencioso”, entre aspas, a ERC “recomenda”, também entre aspas, aos três operadores de televisão nacionais que se pronunciem, sem aspas, sobre o “direito ao contraditório” (faça-se aquele gesto com dois dedos de cada mão, para cima e para baixo) que não esteve presente – pelos vistos e na opinião da dita e douta entidade – nas emissões dos diversos canais sobre o assunto.

Ora, isto é muito aborrecido. Para já, e pelo menos, para aquelas pessoas – entre as quais me incluo – que não vislumbram a mais ínfima diferença, respectivamente, entre “tiroteio” e tiroteio e entre “confronto” e confronto. É que assim, convenhamos, não se percebe nada. Então uma arma de fogo já não é uma arma de fogo, não passando afinal de uma “arma de fogo”? Um tiro não é um tiro, mas apenas um “tiro”?

Assim sendo, vamos lá ver se a gente se entende, não tendo ocorrido confronto algum, na Quinta da Fonte, já que na deliberação apenas se menciona tal coisa por quatro vezes, antes tendo ali havido a ninharia de três “confrontos” (gesto com os dedinhos, se faz o favor), nesse caso podemos todos ficar descansados porque no fim de contas “no pasó nada” (gesto, zif, zif). Ah, bem.

Deveremos portanto deduzir, ou espremer daqui à laia de ensinamento, que os tiros afinal de contas eram foguetes (zif, zif) e que os buracos nas paredes não passam de ilusões de óptica (agora não é preciso zif) e que as pessoas baleadas (agora é, zif) se espetaram todas, por mera coincidência, com grande soma de azar, em objectos pontiagudos, ou que lhes caíram em cima (não, isso é que foi galo) uma data de caganitas perfurantes, criminosamente largadas do ar por um bando de pombos.

Ah, pois, deve ter sido isso mesmo. Os pombos. A culpa daquilo tudo foi dos pombos, essa espécie de ratazanas com asas, e a prova da sua culpa está à vista, confira-se com as campanhas de extermínio sistemático levadas a cabo actualmente pelas mais insuspeitas autarquias, de Norte a Sul do país.

Pronto, assim está bem. Perfeitamente. Agora entendo. O que se passou na Quinta da Fonte foi pombos, montes de pombos. A comunicação social não tinha nada que se pôr a agitar papões e questões sociais, lá por causa da pombaria e dos seus bombardeamentos aéreos. Questão columbófila, foi só, por extenso, sem subentendidos, asinhas a dar a dar, no ar e em terra, principalmente em terra, porque aí é mais anjos e arcanjos, é tudo boa gente, e o resto é treta, é tendenciosismo, é racismo, é mania de contrariar o princípio do contraditório, é populismo, é falta de chá. E é pena.

Se nos tivessem explicado as coisas, assim direitinho, a gente não se punha a pensar coisas estúpidas, zif, a fazer juízos precipitados, zif, a dar uma de superioridade moral, zif, zif, zif.

Não há nada como a autoridade para nos fazer ver a luz e não há nada como realmente, realmente.

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