Por um punhado de sal

Roubou 13 euros em temperos

Deixou o tacho ao lume e foi furtar os temperos a um supermercado. Mas foi apanhado à saída com os bolsos cheios de caldos de galinha, piripiri e pimenta. A gerência da loja não quis saber das suas explicações e entregou-o à PSP sob detenção. Como castigo tem agora de trabalhar 60 horas a favor da comunidade.

Correio da Manhã

Assalto ao banco: família de Wellington pondera processar PSP

Os familiares do assaltante que sobreviveu ao assalto a uma dependência do banco BES, na passada quinta-feira não afastam a hipótese de processar a PSP. Segundo o jornal 24horas, a família de Wellington pode avançar com um processo contra a polícia.

IOL Diário

Nas janelas, grades em ferro. Nas portas, fechaduras de alta segurança e trancas de cima a baixo. No alto dos muros, cacos de vidro e arame farpado. A segurança privada é a única indústria nacional florescente. As armas vendem-se como pãezinhos quentes e já muito boa gente vai procurando academias e cursos… de defesa pessoal.

Como a lei protege cada vez mais o crime, imputando à sociedade no seu todo a responsabilidade pelos actos dos criminosos, os cidadãos cumpridores vêem-se na contingência de se proteger, a si mesmos e às suas famílias.

Portugal está cada vez mais parecido com um campo de concentração ao contrário: as pessoas de bem trancam-se o mais possível do lado de dentro das suas celas; os bandidos andam à solta e gozam das mais “amplas liberdades”, rondando os estabelecimentos prisionais que dantes eram lares de pessoas normais. Como sabemos, é dificílimo, hoje em dia, enviar um verdadeiro criminoso para um verdadeiro estabelecimento prisional, mas é facílimo obrigar os cidadãos a cumprir pena no seu próprio lar, com longos períodos diários de recolher obrigatório e sem direito sequer a saídas precárias logo que escurece.

O cidadão trabalhador e cumpridor apenas está autorizado a ausentar-se da sua cela privativa (e privada) se estiver munido dos competentes documentos de identificação (“Ausweis“, como se diz na gíria policial) e de pelo menos uma dezena de outros documentos (“Ihre Papieren, bitte!”, idem); para poderem circular na via pública sem grande risco de serem incomodadas, as pessoas de bem necessitam ainda de cumprir uma infinidade de regulamentos e códigos que apenas a esses se aplicam, e dos quais estão tacitamente isentos os outros, aqueles que não pagam impostos nem têm qualquer espécie de actividade lícita.

Existem pessoas, minorias étnicas inteiras ou grupos de marginais específicos, às quais e aos quais nada é exigido – além dos documentos, que obviamente não possuem, sequer que trabalhem e muito menos que façam o mais ínfimo esforço para cumprir as leis do país.

Nesta espécie de mundo às avessas, condutor que seja “apanhado” sem o cinto de segurança, por exemplo, arrisca-se a apanhar uma multa efectiva, sem apelo nem agravo, bastando para isso que um agente da autoridade esteja munido do respectivo livro de autos. Mas isto não sucede, também por exemplo, caso o condutor pertença a uma minoria étnica – cuja designação distintiva “não se pode” sequer mencionar, porque essa menção pode dar pena efectiva de prisão; sucede que, na referida etnia, é “tradição” que os seus membros não aprendam a ler nem a escrever, logo, não podem ter carta-de-condução, logo, não podem conduzir veículos automóveis, logo, não podem ser multados por coisa nenhuma, logo, muito menos por não levarem o cinto-de-segurança posto, que, logo, para eles não existe.

Um desgraçado qualquer vai fanar uns temperos para meter na panela e leva 60 dias de trabalho comunitário; eis a forma como a Justiça portuguesa se faz “pagar” dos 13 Euros que semelhante “criminoso” roubou. Teve azar, o desgraçado; se, porventura, pertencesse a um qualquer dos grupos sociais aos quais a lei não se aplica e se fosse “tradição” dessa etnia andar a gamar coisas nos supermercados, então tudo estaria nos conformes, nesse caso já a Justiça portuguesa se não incomodaria com o prejuízo; e se tivesse sido um saco cheio de notas numa agência bancária, em vez de uns pacotinhos de piri-piri num supermercado, ora isso então é que era bom, nada de mais, quer-se dizer, aquilo seria coisa para umas horitas de negociação, perguntavam-lhe o que pretendia, que dissesse de sua justiça, quais as suas necessidades, e pronto, dava-se-lhe tudo e mais alguma coisa, adeusinho, passe bem, cumprimentos à sua senhora.

Os criminosos devem ser tratados com paninhos quentes e com toda a “diplomacia”, como vítimas inocentes de um “sistema” injusto, que os crucifica à nascença e os compele a desmandos que vão contra a sua essência cândida e boazinha; as pessoas de bem, pelo contrário, sendo congenitamente culpadas pela existência de criminosos e autoras não materiais dos crimes por aqueles cometidos, merecem plenamente tudo aquilo que de mau lhes possa suceder, porque o papel do Estado não é proteger os inocentes dos delinquentes, é proteger os delinquentes de si mesmos… e dos cidadãos em geral, em especial dos racistas, dos xenófobos, dos direitistas, dos autoritaristas, em suma, daquela cambada que persiste em viver em paz com o seu vizinho e com a sua pátria.

Pode o Estado, por conseguinte, e deve até, perseguir à exaustão a “pequena criminalidade”, a “prevaricação”, ou seja, os gamanços nos supermercados, a falta de cinto, as massagens na praia, esse tipo de nojeiras, mas não deve nem pode actuar contra o verdadeiro crime, os motins, os assaltos, isto é, aquelas alucinações colectivas de que sofrem os reaccionários em geral e os mais velhotes em particular. O Estado abater a tiro um criminoso é que não, lá isso, nada feito, nunca, jamais. Se um tipo ameaça liquidar sumariamente uma fulaninha qualquer, é dar-lhe um carrinho para a fuga e umas palmadinhas nas costas, é lógico, mas o que é que isso custa, assim fica tudo na paz do Senhor, vamos todos à nossa vidinha, acabou-se.

O que se passou anteontem, numa agência bancária de Lisboa, terá sido realmente, à luz destes “ensinamentos” politicamente correctos e a avaliar pela opinião quase unânime da população virtual, uma pura e simples “execução”. O agente que disparou a matar, não deveria ter disparado – nem a matar, em cheio no coração, nem sequer a brincar, com fulminantes em vez de balas.

O assaltante era, antes de mais, um ser humano. Com família e amigos, parece que até trabalhava e tudo. O que dava aquilo, aquele assalto? Cinco anos? Dez anos? Pena suspensa? Então, que raio, vale a pena tirar a vida a uma pessoa por causa de tão pouco?

Não sei. Sinceramente, não sei.

Mas sei que a “fulaninha” que o falecido ameaçava matar afinal é uma cidadã, trabalhadora, mãe de família. E que estava ali, à hora errada e no local errado, apenas a cumprir o seu dever.

E sei também, como toda a gente sabe, por mais que muita dessa gente finja não saber, que a vítima era ela, não ele, e que essa vítima não tinha roubado nada nem feito mal a ninguém. Nem sequer foi ela quem deitou uma pitada de tempero a mais nesta história toda.

As pessoas de bem, as verdadeiras vítimas dos criminosos verdadeiros, não têm tempo nem feitio para grandes e elaborados cozinhados sociológicos, muito apuradinhos. Nomeadamente quando têm uma pistola encostada à cabeça, a sua própria cabeça, não a de qualquer outra cabecinha bem pensante.

2 comentários em “Por um punhado de sal”

  1. Bem, pelos vistos tenho de responder a isto aqui mesmo, já que os comentários do seu post estão bloqueados.

    Caro companheiro, se me não engano, esta já não é a primeira vez em que me “responde” directamente, a propósito dos meus escritos; por alguma razão que me escapa completamente, e a julgar pela forma como redige as suas “respostas”, parece que eu não faço nada mais na vida se não ler o que se escreve no Perspectivas e vir para aqui, no blog do Apdeites, “desancar” o autor daquele outro blog. Não sei por que bulas isso sucede mas, como já lhe disse antes e repito agora, trata-se exclusivamente de impressão sua e, quanto a isso, eu não posso fazer nada. Nem sabia, neste caso concreto do assalto ao BES, que a sua opinião era coincidente com muitas outras que li, por aí, de igual ou semelhante teor. Deus me livre de estar agora aqui a justificar-me seja do que for, mas espero que não tenha razões para duvidar da minha palavra: se eu lhe digo que não era consigo, é porque não era consigo; se fosse, que problema teria eu em admiti-lo? Por acaso, assim sendo, e tendo agora lido o que escreveu sobre este caso em concreto, pois sim, a sua opinião é contrária à minha… e nada mais. Não tenho quaisquer motivos para lhe dirigir, a si em particular (e antecipadamente, ainda por cima) os adjectivos que utilizo neste post, nem me parece que vc tenha razões para enfiar essas carapuças!

    Cada qual é, evidentemente, livre de interpretar o que quiser como quiser. No entanto, em abono da verdade, devo deixar aqui expresso que o sentido – e o conteúdo – deste meu post não era DE TODO aquele que derramou no seu texto de hoje, referindo-se-lhe: não menciono em lado algum, nem de forma expressa nem por subentendidos, a palavra “imigrantes” – e muito menos a necessidade de levantar qualquer espécie de barreiras à imigração. Também não me refiro em lado algum a criminosos como “Untermenschen”, nem nada que se pareça. Se era apenas com isso que até “podia estar de acordo”, quanto à “ideia” do meu post, então lamento informá-lo de que não está de acordo com coisa alguma, porque não é DE TODO, repito, essa a ideia que lá está.

    Apenas escrevi o que escrevi. Só. Agradeço que leia, se quiser, mas ainda agradeço mais que me não ponha lá coisas que eu não escrevi nem intenções que eu nunca tive nem, principalmente, destinatários que nunca o foram.

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