A cor das medalhas

SiouxUm dos efeitos mais insidiosos da ditadura politicamente correcta em que vivemos é a censura que todos nos impomos na linguagem. Há coisas absolutamente “proibidas”, que ninguém se pode sequer atrever a pronunciar; dessas coisas, a mais pecaminosa de todas – e também a mais perseguida – é “raça”. Toda a gente sabe que um galgo pode ganhar em corrida, mesmo coxo de uma pata e amputado de outra, ao mais veloz dos rafeiros; ou que é melhor usar um puro-sangue lusitano para a lide a cavalo e um puro-sangue árabe para a velocidade pura, do que experimentar a estupidez de fazer a coisa ao contrário; ou que um gato siamês se pode tornar num animal de companhia muito mais dócil do que um gato, por exemplo, selvagem.

Admite-se e reconhece-se, sem qualquer dificuldade de entendimento ou quaisquer engulhos linguísticos, a especificidade e as diferenças por vezes radicais entre as raças de uma qualquer espécie animal.

Com uma curiosa excepção, porém: na nossa própria espécie animal não existem, apenas porque não podem nem devem existir, raças nenhumas.

Segundo a terminologia vigente, na espécie humana existe, sempre existiu e existirá sempre uma e uma só raça: a humana, precisamente e por mera coincidência semântica. Em suma: todos nós, homens e mulheres, somos da espécie humana e pertencemos à raça humana. Nada mais. Não há cá brancos, nem pretos, nem amarelos ou castanhos; nem caucasianos, nem asiáticos, nem africanos; nem índios, nem indianos, nem esquimós ou bosquímanos.

Aquilo que era admirável na diferença, na variedade, já não é passível de admiração – porque a diferença foi administrativamente abolida e a variedade oficialmente extinta.

Não há, porque não pode, porque seria errado que houvesse, porque não é possível sequer conceber a mais ínfima distinção entre um índio da Amazónia e um outro índio que tenha nascido nas planícies da América do Norte; como não há também, até muito menos, se calhar, entre os diferentes indivíduos das diversas tribos dessas duas imensas vastidões; nem mesmo entre esses indivíduos, enquanto membros de grupos identitários, é possível encontrar qualquer particularidade única, é tudo igual, novos e velhos, homens e mulheres, fortes e fracos.

Segundo esta doutrina, comummente e universalmente aceite pelas elites dominantes nos países industrializados, o racismo não consiste no exercício de um poder arbitrário de uma raça sobre outra raça, o que, de resto, já não existe; “racismo” é, isso sim, como proclama o catecismo “progressista”, ver ou dizer que existe alguma diferença – de qualquer ordem, ou grau – entre um grupo de seres humanos, com determinadas características, e um outro grupo com outras características. Ou seja, não há cá características de coisa nenhuma em lado algum, isso é racismo.

Negar, por pensamentos, palavras e obras, estas “evidências” politicamente correctas, acarretará de imediato para quem tal ousar uma série de consequências, a começar pelo labéu de “racista” que lhe será gravado na testa, para sempre. Ora, como todos sabemos, ser apelidado de “racista” é uma coisa hoje em dia muito pior do que, por exemplo, ser conhecido como “cabrão” ou mesmo, não abusando, como “filho da puta”. Enfim, é o pior dos insultos e, ainda por cima e ao contrário de qualquer outro enxovalho público, quem levar com semelhante rótulo arrisca-se a malhar com os ossos na cadeia ou, no mínimo, a levar com uma série de maçadas pela proa; não brinquemos, que o assunto é sério, para quem porventura não saiba, existe legislação específica para condenar em tribunal um cidadão que reconheça a existência de raças humanas, que enumere ou sequer refira diferenças entre elas ou que, mais grave ainda, discorra com juízos valorativos sobre as especificidades de uma raça em relação a outra ou outras.

Por exemplo, se alguém disser (se diz, é porque o pensa) que nenhuma mulher branca dança tão bem, tão elegantemente, tão maravilhosamente como qualquer mulher negra, isso pode ser legalmente levado à conta de crime público. Logicamente, outro tanto poderia ser, e nesse caso por maioria de razões, se alguém se lembrasse de estabelecer uma relação de causa e efeito entre – de novo, por exemplo – as medalhas olímpicas e a raça de quem as conquista; que os etíopes, os quenianos, os jamaicanos ganham qualquer corrida apenas com a força dos seus genes e não com o esforço de treinos e de técnicas que, para o efeito, seriam totalmente irrelevantes; que, ainda de forma mais simplista, caso não fosse uma questão de apuramento de raças, como nos cavalos ou nos cães, então haveria corredores brancos nos oito primeiros lugares… o que nunca sucede, pelo menos desde que foi promovida esta estranha “igualdade” a verdade absoluta.

E o que vale para actividades tão frívolas quanto a dança e a corrida vale para qualquer outro acto humano, individual ou colectivo. Curiosamente, esta espécie de jurisprudência igualitária funciona apenas para um dos lados, já que não consta que alguma vez, em alguma parte do mundo, alguma pessoa não caucasiana tenha sido condenada por actos ou difusão de ideias “racistas”. Note-se que não estamos aqui a falar de crimes cometidos sob ou por motivos “racistas ou xenófobos”, como a violência ou o assassinato, porque esses crimes estão, e muito bem, previstos na lei enquanto tal; do que se fala é do próprio conceito de raça, das considerações e opiniões que cada qual possa hipoteticamente tecer a respeito do tema e que podem, só assim mesmo, constituir motivo suficiente para uma acusação de “difusão de ideias racistas ou xenófobas“.

A Constituição portuguesa excluiu a licitude de discriminação com base na raça, nomeadamente, o que só por si equivale a um reconhecimento de que realmente existem diferenças entre as raças, mas a prática jurídica neste país e a jurisprudência atinente comprovam este absurdo paradoxo: pressupondo que a discriminação por motivos rácicos é um exclusivo da raça branca, exercida por esta sobre as demais, a nossa lei fundamental reconhece tacitamente a supremacia de apenas uma raça sobre as restantes. Nesta acepção, a Constituição da República Portuguesa manifesta no seu articulado um carácter profundamente… racista; logo, e aí reside o paradoxo, anti-constitucional!

Do mesmo modo, a lei penal, que decorre da lei fundamental, prevê especificamente a punição das “práticas discriminatórias” com base na raça, mas “esquece-se” de explicitar em que sentido: a determinada “etnia” é reconhecido o direito a manter os seus usos e costumes como, por exemplo, excluir todo e qualquer contacto ou interacção com todas as outras “etnias”, mas aos membros dessas outras não é reconhecido o mesmo direito em relação àquela? E então porquê? Será essa “etnia”, de um ponto de vista jurídico, racialmente superior às demais? E deveremos, nesse caso, considerar estas como inferiores, em termos étnicos, isto é, rácicos?

Não fica lá muito claro se é legítimo discorrer sobre as diferenças ou até as semelhanças entre, sempre no campo das hipóteses e sempre por exemplo, um Obikwelu e um Arnaldo Abrantes – ambos corredores, se bem que em especialidades diferentes; em resumo, nem há comparação! Mas… e se houvesse? Caso a comparação, se fosse possível, resultasse favorável a uma das partes (qual?), então já se poderia fazer, já seria política e legalmente aceitável?

Será uma perspectiva racista dizer que se aquele atleta que nasceu em Portugal tivesse nascido num país africano, a sua “performance” não teria sido muito melhor? Posso dizer que Obikwelu se comportou como um cidadão responsável e como um patriota – e posso também dizer que uma parte dos atletas portugueses que estiveram nos recentes Jogos Olímpicos não fizeram outro tanto – mas não poderia abrir a boca se as coisas se tivessem passado ao contrário? E então porque raio? Porque Obikwelu é negro e dizer isso deixaria de ser uma simples opinião e passaria taxativamente à categoria de “racismo”?

Pois não é um dado objectivo que os filhos dos imigrantes do Leste europeu são por regra muito melhores estudantes do que os naturais? Que hoje em dia temos, devido à imigração em geral, e especificamente à brasileira, uma série de serviços com índices de qualidade impensáveis há apenas alguns anos? Que é incomparavelmente mais fiável um relógio suíço do que uma cebola chinesa? Que, mesmo não sendo muito esquisito na matéria, prefiro as loiras às morenas? Que não aprecio em particular quem não me grama nem um bocadinho? Isso posso, não posso?

E se, porventura, algum juízo ou apreciação genérica resultar em desfavor de um qualquer indivíduo ou grupo? Pode-se dizer, se esse indivíduo pertencer à “etnia” de quem julga ou aprecia, mas já não se pode caso não pertença?

Por detestar epidermicamente os mastigadores de pastilha elástica ou os arrumadores de automóveis, isso faz de mim automaticamente um racista? Ai é? Vou preso, e tal?

Então e os outros, os racistas como eu? Os gajos que não podem com velhos nem à lei da bala? Aquela cambada (pode-se dizer “cambada”?) que odeia visceralmente o Benfica ou literalmente seja o que for de cor vermelha? Os bandidotes das claques de futebol? A turba que passa a vida à porta dos tribunais a chamar “axaxinos” aos “arguidos”? Os securitários que ligam para a TV, aos gritos de “matem-nos a todos”? Os emplastros, os melgas, os chatos, enfim, todos aqueles que desprezam profundamente toda a gente menos a si mesmos?

Todos somos, de uma forma ou de outra, profundamente racistas. É uma coisa genética…

Mas os perigosos são apenas aqueles que andam por aí a fingir que não são racistas. São os arraçados, o cruzamento de vazio e sombra.

Artigo 13.º
(Princípio da igualdade)

1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.
2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.

Imagem de Legends of America.

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