O telegotchi

Por alguma razão é Portugal um dos tristes recordistas mundiais em TPC (telemóveis per capita); existem mais aparelhos desses na Tugalândia do que portugueses, talvez mesmo o dobro de 10 milhões, sendo certo que há por aí muito boa gente que vai comprando cada novo modelo a um ritmo verdadeiramente frenético.

Porquê o afã e, no fim de contas, para que serve ao certo semelhante engenhoca, eis um verdadeiro mistério ainda por decifrar. O que levará milhares e milhares de pessoas a gastar verdadeiras fortunas em “chamadas”, na maior parte dos casos sem necessidade alguma e sem a mínima urgência? O que sucedeu para que adultos responsáveis se comportem como verdadeiros garotos, torrando por sistema largas fatias do orçamento familiar com algo totalmente supérfluo e irrelevante?

Parece existir um misterioso pacto de silêncio sobre este assunto. Sob o beneplácito bonacheirão de um Governo tão transitório e irresponsável como qualquer outro, três “operadores” licenciados fingem disputar o mercado emergente mais rentável das últimas décadas – a insegurança, irmã gémea da solidão -, enquanto intoxicam sistematicamente a opinião pública, paralisando-a pelo embotamento dos sentidos e da inteligência, à força de publicidade enganosa, com tão ridículas quanto vãs promessas de prestígio e poder, beleza e saúde, juventude e prosperidade.

Muito esporadicamente, lá aparece um ou outro maluquinho apregoando os malefícios dos telefones móveis, argumentando com invectivas tão atractivas para os consumidores fanáticos como, sem ofensa, um pontapé nas miudezas. Agora, até os pastores levam o seu telemóvel para os campos e as colinas, à laia da antiga flauta de cana, ligando a desoras para toda a gente enquanto o gado pasta, ainda e até ver inocente de tudo. A bem dizer, já não há cão nem gato que não esteja artilhado com seu artefacto de telecomunicações, do qual se socorre sistematicamente para ligar, ligar, ligar, ligar seja para quem for, por tudo e por nada, nem que seja apenas para escutar gravações do lado de lá ou para gravar mensagens que muito dificilmente alguém alguma vez irá ouvir.

Em resultado das campanhas publicitárias e da correlativa histeria colectiva alegremente partilhada (e altamente contagiosa), a população em massa anda alardeando a mesma sofreguidão e o mesmo ar ansioso das crianças de antanho em relação às guloseimas.

Trata-se, evidentemente, de apetite sugerido, vontade condicionada, necessidade subtilmente imposta… porque, de facto, de todo inexistente.

Como viviam as pessoas há apenas uns poucos anos, quando não havia telemóveis? Para a maioria, aliás, esta questão está mal formulada; aquilo que não compreendem é como era possível as pessoas conseguirem viver sem telemóvel, nesses nada longínquos tempos.

Há quem diga, paradoxalmente sem qualquer pudor, sentir-se “completamente nua” quando por acidente se esquece do aparelho em casa; isto numa versão condizentemente feminina, está bom de ver, porque nos homens a sensação mais comummente confessada, quando outro tanto sucede com eles, é a de sentirem que lhes “falta alguma coisa”. Até nos terrores mais íntimos (e, mesmo, sexualmente destrinçáveis) a publicidade estupidificante resultou em pleno: em níveis diferentes, aquilo que se explora é o sentimento de insegurança e a necessidade de protecção – simbolizados pela roupa, mais nas mulheres, e pelas armas de defesa, mais nos homens. De certa forma, e sem necessidade de grande especulação argumentativa, o telemóvel representa hoje a moca dos nossos antepassados primevos ou, saltando em frente uns milhares de anos, a espada que usavam ainda os avós de nossos trisavós.

Diluídas pela corrosão do número as relações pessoais, abolidas as distâncias pela tecnologia e tendo sido totalmente satisfeitas as necessidades individuais básicas nas sociedades industrializadas, aquilo que sobra é um mundo novo com os mesmos problemas de sempre – mas agora automatizado, virtual, o mais desumanizado e cruel de todos os tempos, um deserto povoado por milhares de milhões de solitários.

A expressão idiomática “ninguém me liga” tem agora um significado com outro e muito mais patético vigor. E “não ligar a ninguém”, idem, aspas. Os eleitos e os proscritos “ganharam” uma verdadeira matrícula de identidade, cuja modernidade e número de “capacidades” (qual delas a mais inútil) estabelece uma hierarquia social tacitamente aceite; em simultâneo, esse artefacto pode funcionar também como biombo, pretexto, escape; ou ainda como arma de arremesso, perfeita para o insulto, a agressão, o assédio, a perseguição.

De tudo aquilo que se pode fazer com um telemóvel, o que menos se faz realmente é comunicar. A absurda finalidade não é de resto essa mas antes “estar contactável”… seja lá isso o que for.

Faz-se passar uma mensagem subliminar totalmente divorciada da realidade mas que se entranhou já – e, pelos vistos, de vez – na consciência individual; tornando-se universal, esta “verdade” absoluta rapidamente se transformou em inconsciência colectiva. Precisamente o estado de perfeita bovinidade de que precisava a máquina publicitária para continuar a inventar mais e mais necessidades onde elas menos e menos existem; um campo ideal de completos imbecis que acreditam com fé ancestral na terra prometida, na vida eterna e na chegada do Messias, tudo isso dentro de uma caixinha com uns botões, enviada para cada um deles pelo próprio Deus, em carne e osso, juntamente com uma bênção e o respectivo manual de instruções.

Talvez um dia, algures, alguém descubra que foi enganado, roubado, tratado como uma besta. E Deus queira que nesse dia ainda exista alguém com quem falar de viva voz: mesmo que seja só um dos vigaristas, ladrões e mentirosos.

Imagem do site Protect Your Cell Phone

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