Os apocalipsistas

Mais uma terrível teoria da conspiração recentemente surgida: existe um plano mundial, obviamente e como de costume liderado pelos malvados dos americanos, para o extermínio sistemático da maior parte dos seres humanos; uma coisa em larguíssima escala, ao pé da qual os campos de extermínio nazis passariam por alegres colónias de férias. A prova: já existem, neste preciso momento, milhões de “caixões” – principalmente no Alaska – à espera de receber os cadáveres.

Circulam a todo o momento diversos comboios, de costa a costa, transportando mais e mais desses caixões, em quantidades absolutamente impressionantes. Ao que parece, uma misteriosa e sinistra organização, FEMA de sua graça, prepara-se para instalar campos de concentração, um pouco por todo o lado, onde será num futuro muito próximo levada a cabo a campanha de extermínio. Mais provas? Mais caixões!

Está visto, a coisa é séria.

Mas, no entanto, porém, contudo, há nisto tudo alguma coisa de estranho: onde estão as tampas dos caixões? Um dos muitos filmes sobre o assunto mostra uma fotografia em que certo bacano segura uma tampa, mas enfim, já se sabe, não devemos acreditar em tudo o que vemos…

Aquela tampa é tanga, por conseguinte. Os brilhantes e heróicos descobridores da conspiração, que referem inclusivamente ser possível meter dois ou três defuntos em cada caixão, esqueceram-se desse pequeno pormenor. Então aquilo vai assim, com o pessoal falecido a descoberto, à mercê dos elementos, ou arriscando-se a tombar desoladamente para o chão, com algum solavanco mais brusco?

E, já agora, é da minha vista ou aqueles horripilantes caixotes são feitos em matéria plástica? Ai ai ai. Então e o ambiente? Além de assassinos em massa, os exterminadores implacáveis da FEMA, ainda por cima, estão-se perfeitamente nas tintas para o planeta? Hem? Acaso não saberão que o plástico é uma coisa lixadíssima de eliminar? Quer-se dizer, lá os cadáveres ainda é como o outro, pronto, num ano ou dois nem os ossinhos se lhes aproveitam, mas já com o plástico dos caixões o assunto é diferente, há quem diga que aquilo nem em dois ou três séculos se desfaz. Brincamos, ou quê?

Enfim, abreviando e recapitulando, ora deixa cá ver: caixas plásticas encaixadas umas nas outras, sem tampa nenhuma (ou com ela, é indiferente para o caso), com umas nervuras e uns feitios nos flancos. Mas o que diabo é que aquilo me lembra?

Cofragens, será? Bem, não exactamente. Mas anda lá perto. A designação técnica é moldes para lajes fungiformes (nervuradas ou não).

Ora bolas. Qual extermínio em massa qual quê! Aquilo é mas é para fazer os pisos dos prédios. Até existem empresas em Portugal que fazem os moldes (tipo 600, em Polipropileno, um termoplástico); e há outras, evidentemente de construção civil, que as usam na betonagem. Diz que estas coisas proporcionam isolamento acústico e térmico de um andar para o outro, o que até acho perfeitamente

E pronto. Lá se foi à viola mais uma bela teoria da conspiração. Caramba. Isto assim é uma chatice dos diabos.


[abrir em écrã maior]

Mas quem são os maluquinhos que inventam estas tretas todas, perguntareis. E alguém acredita neles, perguntareis ainda. Bem, por quem sois, quem sou eu, não sei responder ao certo. Ele há gente para tudo. Talvez seja dos comprimidos: uns porque se esquecem de tomar, outros porque tomam de mais.

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