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Francisco (nome fictício) foi detido ontem, na Rua Morais Soares, em Lisboa, quando tentava fugir de uma loja daquela artéria lisboeta com dois pacotes de fraldas para bebé que, alegadamente, teria acabado de furtar.

Depois de tratado no hospital de Santa Maria, já que apresentava escoriações e equimoses diversas, foi presente pela autoridade a um juiz de turno, que lhe decretou prisão preventiva. Por não dispor de verba suficiente para luxos, foi-lhe designado um advogado oficioso.

O Apdeites envidou todos os esforços para chegar à fala com o detido, mas este recusou-se terminantemente, já que, segundo mandou dizer, não se lembra de “porra nenhuma”.

Conseguimos, no entanto, entrevistar o tal advogado de Francisco, Dr. João Corda, e foi por seu intermédio que finalmente ficámos a saber com algum pormenor como tudo se terá passado.

[Apd] _ O seu constituinte está bem?
[JC] _ Um bocado amnésico. Digamos que a polícia não foi lá muito condescendente com ele. Umas cacetadas e uns pontapés, nada de mais.
[Apd] _ Mas ele explicou o que se passou?
[JC] _ Só até certo ponto. A partir daí, diz que não se lembra de nada. Amnésia total.
[Apd] _ Pode revelar-nos o teor da conversa, isto é, o que aconteceu até ele deixar de se lembrar?
[JC] _ Com certeza. Eu perguntei-lhe assim “atão, chefe, o que é que se passou?” e ele disse assim “eu sei lá bem, aquilo foi uma confusão, de repente vou a subir ali a Morais Soares e há uma gaja que se deita no chão, mesmo à minha frente, aos gritos, ai, ai, é agora, ai jesus, e tal, e começa a chegar pessoal de todos os lados, aquilo era mesmo a sério, a gaja ia parir ali mesmo no meio da rua, tá a ver, doutor”; sim, e depois, disse eu, e vai ele e diz assim “bem, toda a gente aqui na zona conhece a chavala, é a Micas, ataca no Conde Redondo, boa rapariga, simpática, enfim, tá a ver, aquilo toda a gente queria ajudar, uns foram buscar bolachinhas e água para lhe dar, outros trouxeram almofadas e cobertores, até não estava a correr nada mal, tá a ver, faz de conta que era um parto comunitário, ou isso, a criança até já tinha saído e tudo, não custou nada, o estupor do puto parecia uma rolha, pop e já está, mas o problema era o sangue e essas coisas todas, tá a ver, não havia como limpar aquilo tudo e o chavalito também, tá a ver, não se ia deixar o miúdo vir assim ao mundo, todo cagado, não é, de modos que lá fui a uma loja ali perto e prontos, saquei uns quantos pacotes de fraldas e voltei para trás”; sim, e depois, e depois, disse eu, e ele disse assim “depois, assim de repente aparece-me um bófia pela frente e pergunta-me é pá, ó caramelo, mas onde é que você vai com essas fraldas, e eu disse prá puta que pariu, e pronto, a partir daí já não me lembro de mais nada.

Repórter Apdeites, sem Lusa.

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