1,5% de Portugal

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É bom para os países envolvidos o fato de todos escreverem o idioma oficial da mesma maneira? As opiniões divergem. Apesar de cada país continuar falando a língua da maneira que falava, a grafia unificada significa avanço para uns e desperdício para outros. Em Portugal, as mudanças serão um pouco mais acentuadas – 1,42% contra apenas 0,43% no Brasil – e lá também as opiniões se dividem. A classe intelectual, segundo a imprensa, acha que é uma decisão política, que significa ceder a interesses do Brasil, onde há a maior quantidade de pessoas falando a língua portuguesa no mundo.
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Luís Carlos Amorim, A Língua Portuguesa Unificada, Liberal Online (reproduzido pelo DN)

“1,42%”? Não será antes 1,5% ou 2%? Ou mesmo 3%, como há quem diga? Afinal, de onde vieram estes números? Que estudos existem mostrando com algum módico de rigor o impacto real que viria a ter, caso fosse realmente aprovado, o Acordo Ortográfico no Português padrão?

Pelo menos que se saiba, não existe absolutamente nada disso, nem estudos nem – muito menos – rigor. Provavelmente, se bem que nada esteja à vista ou localizável, alguém se entreteve a contar automaticamente, a partir de uma base lexical, aquelas palavras que o dito A.O. prevê sejam afectadas pelas “novas regras ortográficas”. Segundo diz uma engraçadíssima página da CPLP (Perguntas Frequentes sobre o Acordo Ortográfico), seriam apenas “pouco mais de 2.000 palavras num Universo de 110.000”. Aquele “Universo” ali, com maiúscula e tudo, já nos poderia levar a suspeitar do rigor científico da coisa, mas adiante. Porquê 110.000? Porque não 200.000 ou mesmo mais do que isso? Foram apenas “contabilizados” lemas ou todos as palavras derivadas, compostas, justapostas, flexionadas?

Bem, e afinal para que é que isso interessa? Faria diferença se os resultados, vistos desta forma contabilística, fossem diferentes – para mais ou para menos?

Não, não faria diferença alguma. O que faz diferença, isso sim, é que apenas alguns mexam naquilo que é de todos. Isso sim, isso faz toda a diferença; 100% de diferença, para ser exacto. A nossa Língua é património nosso, algo que recebemos dos antepassados e que temos a obrigação de legar aos vindouros… o mais intacta possível.

Mas enfim, seja pelas alminhas, ou pelo apego ao rigor, como se queira. Deu uma trabalheira ligeiramente insana, mas aí está. Posso afirmar, com base nos resultados que eu próprio obtive, a partir de uma lógica de amostragem que me parece suficientemente sólida1, que de facto as alterações previstas pelo A.O. afectariam 1,5% das palavras escritas em Português europeu; não duas nem 3, mas uma palavra e meia em cada cem palavras; ou seja, exactamente, uma média de três palavras em cada duzentas.

Parece pouco, afinal, não parece? Pois parece.

Mas não é. É muito. É muitíssimo.

Retirar apenas 3 pedras em cada 200, dos milhares de blocos sólidos que formam o Mosteiro dos Jerónimos, por exemplo, iria certamente fazer ruir todo aquele imenso edifício e, com ele, demoliríamos assim, em alguns segundos, algo que levou décadas a construir e que representa séculos de História.

Não passaria pela cabeça de ninguém a peregrina ideia de alterar “apenas” 1,5% da Torre de Belém, por exemplo tirando-lhe umas ameias e pondo em vez delas umas “lindíssimas” telhas negras, tipo “maison”; um marco histórico passaria a ser um marco de risota internacional, com semelhante cosmética decorativa, e apenas por causa de uns míseros 1,5% de alvenaria.

Que alguém se lembrasse, por uma questão utilitária, de conservação ou fosse pelo que fosse, de substituir na Ponte D. Luís algumas barras de ferro (“apenas” 3 em cada 200, repita-se) por barrotes em plástico, bem, é claro que nem os portuenses em particular nem os portugueses em geral iriam gostar. Além disso, podemos presumir que muito poucos malucos se atreveriam a passar de novo naquela ponte.

E que tal, por motivos de ordem “estética”, porque é mais “modernaço”, ou porque o diabo que o carregue, mudar o aspecto da estátua de D.José, no Terreiro do Paço? Já sabemos que, à razão de “apenas” 1,5%, não se poderia alterar muita coisa, mas quem sabe, talvez colocar-lhe uma peruca muito fashion, trocar-lhe a espada por uma esplêndida colher de pau ou, sei lá eu bem, decorar o cavalo com (apenas 15% de) engraçadíssimos autocolantes do Pokemon.

Exactamente da mesma forma, a escrita é um edifício sólido, com uma estrutura, uma forma definida, uma lógica e uma estética. E do mesmo modo que os monumentos, a Língua é património, é símbolo, é História. A expressão escrita da Língua, ao contrário da expressão oral, é material e por isso perdura no tempo. E é conveniente não esquecer, nestes desgraçados tempos de colonização fotonovelística, que é a escrita que fixa o padrão da oralidade e não o contrário.

1,5% num texto de 3.000 palavras é muito por cento, é um texto coxo. Numa frase, é muito, muito errado, é uma frase estúpida, feia e bruta. Numa palavra, é medonho.

Modificar administrativamente o Português, sem outra motivação que não a ganância de alguns estrangeiros e sem outra finalidade que não satisfazer o ego de meia dúzia de traidores, representaria a rendição incondicional de todo um povo ao império dos interesses mesquinhos.

E não nos esqueçamos de que são esses interesses, de traidores esses, que não passam afinal de uma irrisória, ridícula minoria: algo como 1,5%, se não estou em erro. Os restantes 98,5% de portugueses, mesmo ou principalmente aqueles que nunca ouviram sequer falar nisso de “acordo ortográfico”, não apreciam ver meliantes a escavacar monumentos nacionais e a fingir que isso não faz mal nenhum.

1 Neste trabalho, foram seleccionados de forma aleatória 100 textos de proveniências diferentes (algumas com mais do que um texto), que foram corrigidos automaticamente – utilizando uma ferramenta online da Priberam/Flip – com os glossários de Português europeu e de Português do Brasil; os resultados de cada uma das correcções foram recolhidos e comparados através de cálculos muito simples, anotando-se a proveniência/endereço de cada um dos textos; este corrector apenas aceita um máximo de 3.000 caracteres por texto; alguns dos textos (cerca de 1/5) tinham menos de 3.000 mas mais de 2.500 caracteres; o número de palavras utilizado para base de cálculo (500 de 6 caracteres) resulta das determinações usuais nos serviços de tradução em Português europeu.

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