Em defesa do Twitter, contra o autismo

Twitter tirou autismo da AR
Ontem

A decisão dos deputados à Assembleia da República de deixarem de chamar autistas aos seus pares foi a primeira decisão tomada no Parlamento português suscitada pelo Twitter, uma espécie de mini-blogue cuja utilização tem crescido avassaladoramente no mundo nos últimos meses.

A questão foi colocada pela mãe de um autista numa conversa através daquela chamada “ferramenta” social com o deputado Jorge Seguro a 25 de Março. Ana Martins, 45 anos, autora de livros e textos vários sobre autismo, pediu ao parlamentar socialista se “os senhores deputados quando se estão a mimosear entre pares seria possível não se denominarem AUTISTAS”.
(…)

Jornal de Notícias

O título desta notícia está errado; evidentemente, não foi o Twitter que “tirou autismo da AR”. Foi, quando muito, uma qualquer senhora que usou o Twitter para enviar uma mensagem a um deputado qualquer. Portanto, o Twitter, pobre Twitter, não é culpado de coisa nenhuma – quanto a isso podemos ficar descansados.

Outro tanto já não se poderá dizer quanto à tal “autora de livros” e quanto ao tal “parlamentar socialista”. São ambos irmãmente culpados – quanto mais não seja – pela calúnia que irresponsavelmente lançaram sobre aquela tão modesta quanto inocente ferramenta de comunicação.

Não cabe aqui sugerir que poderá ter havido qualquer espécie de combinação prévia entre os caluniadores, ou mesmo que foi a pretexto e a coberto daquela ferramenta que ambos “resolveram” (mais) um problema que nunca existiu. Ficaremos por conseguinte na dúvida, de certa forma inquietante, é certo, mas ainda assim um bocadinho estúpida: para que diabo (ou porque raio) fizeram eles questão de enxovalhar o Twitter?

Bem, as teorias não são como as palavras, ou seja, é bem melhor cada qual com a sua. E eu, cá na minha, parece-me ter havido nisto uma conjugação de esforços, por assim dizer: a autora-de-livros e o parlamentar-socialista acharam que a “mensagem” teria maior projecção e que o impacto da “ideia” seria exponencialmente aumentado se cavalgassem uma onda tecnologicamente avançada. Por isso, e assim, pegaram numa perfeita idiotice e transformaram-na em algo de tecnicamente aceitável (ou exequível).

E fica por conseguinte explicada a bovina passividade com que a Assembleia da República portuguesa votou favoravelmente a abolição administrativa de um étimo e suas formas decorrentes. Funcionaram aqui, de forma extremamente oleada, o deslumbramento pacóvio dos deputados e, depois desse, o terror que inspiram na população em geral as chamadas “novas tecnologias de informação e comunicação”.

A “abolição” (ou chame-se-lhe proibição, o que é ainda pior) dos termos “autismo” e “autista” na Assembleia nacional constitui a mais espectacular demonstração de cabotinismo da nossa História parlamentar – e a aprovação maciça dos deputados ilustra bem a forma como a imbecilidade se tornou algo elegível no nosso país.

Redundante será, presumo, ou quiçá inútil, explicar as inúmeras diferenças que existem e as diferentes formas que tomam as palavras em função do contexto em que são proferidas. Não valerá portanto sequer a pena enumerar todos os casos paradigmáticos de como a linguagem politicamente correcta já tomou inexoravelmente conta do nosso quotidiano; bastam alguns.

Todos conhecemos esse tipo de léxico “expurgado” e penitente, desde o “deficiente” que se transformou por força em “cidadão portador de deficiência” ao “ladrão” que passou a categorizadamente designar-se por “alegado autor de furto ou roubo”, passando por “deficiente visual” para “cego”, “subtracção não autorizada de valores” por “desfalque”, “itens contrafeitos” por “material marado”, e assim por diante. Aguarda-se a oportunidade (e a disponibilidade) para o lançamento de um novíssimo Dicionário do Politicamente Correcto, utilíssimo manual para todos aqueles que pretenderem singrar na carreira política em geral e na modorra dos Passos Perdidos em particular. Já existe, aliás, semelhante calhamaço, mas em Castelhano. Por exemplo, e esta ainda não atravessou felizmente a fronteira, em Espanha é proibido dizer “anão” (enano); a designação correctíssima é “pessoa com altura inferior à média”.

Quando se chama “palhaço” ou “saloio” a alguém, por exemplo, e isto para nos ficarmos apenas pelos insultos correntes mais neutros e educados, por assim dizer, isso não significa, absolutamente, que aquela profissão circense ou que a região a Noroeste de Lisboa sejam algo de negativo ou ofensivo. E não será, isso de certeza, através de iniciativa política ou por decreto que as palavras deixarão de ser usadas para aquilo que servem, a eficácia da comunicação. Igualmente, não será por deixar de se dizer ou escrever as palavras “autista” e “autismo” que desaparecerá da face da Terra a tragédia que elas representam, na sua acepção básica de terminologia médica. É absurdo arguir que esses termos, quando utilizados em contexto de polémica partidária, são depreciativos ou humilhantes (ou que fazem uma qualquer espécie de propaganda negativa) para os seres-humanos que sofrem directamente as consequências de determinada patologia ou condição. Toda esta argumentação, além de descabida, não resolve ou sequer melhora absolutamente nada, a não ser talvez que se considere o ego como uma entidade concreta e passível de melhoria pelo inchaço.

Ou seja. Assim como, não por mera coincidência, muitas das referências deste “post” provieram de diálogos via Twitter e como alguns adjectivos e substantivos nele utilizados se enraízam em patologias (imbecilidade, idiotia, cretinismo, etc.), também a curiosa invenção da autora-de-livros e do parlamentar-socialista se serviu da evolução tecnológica para medrar e, por fim, vingar: já que é um bocadinho difícil eliminar a patologia, o autismo em si, remove-se este cirurgicamente da linguagem – e pronto, assunto resolvido.

Paranóico, não é? Como pode semelhante coisa ter pernas para andar se resulta de um raciocínio absolutamente coxo? O que irão ainda inventar, de mais vesgo e pitosga, estes especímenes retorcidos? Mas será que não se enxergam? Não vêem que a Língua é um organismo vivo e que a vida não se regula por decreto? Serão mesmo ceguinhos de todo? Ou só autistas mesmo?

Autismo s.m. polarização privilegiada do mundo dos pensamentos, das representações e sentimentos pessoais, com perda, em maior ou menor grau, da relação com os dados e exigências do mundo circundante.

Dic. Houaïss, ed. Temas&Debates, Lisboa, 2005 (pg. 999).

2 comentários em “Em defesa do Twitter, contra o autismo”

  1. Pois foi assim, mesmo.
    E eu fiquei engasgado. Porque não param então o coro de doenças mentais entoadas pelos nossos representantes em dedicação aos nossos pares. Isso é inconstitucional. Deviam aboli-las todas.
    Abrçaço

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