Pergunta: houve plágio em «Equador»? Resposta: é evidente que não!

E porque é isso assim tão evidente, afinal?

Porque as “provas” apresentadas não provam coisa alguma, já que são totalmente falsas. Não passam de grosseiras falsificações. As supostas transcrições do romance «Equador», da autoria de Miguel Sousa Tavares, eram apenas supostas, não correspondendo a nenhuma edição daquele romance.

Mas não existe qualquer margem para dúvida?

Não. Nenhuma. Se assumíssemos que as supostas transcrições de «Equador» correspondiam à realidade, isto é, constassem daquela obra, estas teriam de estar algures, numa página qualquer da edição em papel; se é citação, o original há-de por força ser igual. Ora, acontece que não existe um único trecho, uma construção frásica, no romance, igual àquilo que foi apresentado como citação desse mesmo romance.

E como se pode comprovar isso?

Tomemos apenas um exemplo ou, vá lá, dois; se qualquer deles ou ambos não tiverem – como não têm – qualquer correspondência na obra impressa, podemos concluir com toda a segurança que o resto afina pela mesma bitola, isto é, vale zero.
1º exemplo, a parte de expressão “uma carruagem de 1ª Classe, recosta-se” (na suposta transcrição, apresentada como constando do parágrafo de abertura do romance) não consta do livro «Equador», como se pode ver na página respectiva do original(*). Aliás, uma simples pesquisa na Internet revela que esse trecho apenas aparece como citação da suposta transcrição (transcrição da suposta transcrição), em diversos blogs, e nunca a partir do verdadeiro original.
2º exemplo: uma outra parte de frase, se pesquisada integralmente – e entre aspas – num motor de busca, retorna apenas resultados que não têm nada a ver com o texto original da obra: ““onde será convidado a assumir uma”“. Esta expressão taxativa também não aparece, evidentemente, no romance «Equador». Logo, aquilo que o blog FreedomToCopy alegava ser uma simples tradução de outra obra literária nunca foi escrito pelo autor Miguel Sousa Tavares.
Aquilo que se pode ler na suposta transcrição é o seguinte:
Luís Bernardo Valença, instalado confortavelmente num assento de uma carruagem de 1ª Classe, recosta-se e observa a paisagem alentejana ao mesmo tempo que vai rememorando as circunstâncias desta sua inesperada viagem. Estava em Lisboa e foi chamado a Vila Viçosa, ao palácio real, onde será convidado a assumir uma função absolutamente inesperada: a de Governador de S. Tomé.
E o que está no romance «Equador» é como segue:
Mas agora, recostado na confortável poltrona de veludo carmim da 1ª classe, Luís Bernardo via desfilar tranquilamente a paisagem através da janela, observando como aos poucos se instalava o terreno plano, semeado de sobreiros e azinheiras, tão característico do Alentejo, e como o céu de chuva que deixara em Lisboa ia timidamente abrindo clareiras pelas quais espreitava já um reconfortante sol de Inverno.

Mas porquê, então, tanta polémica em volta do caso?

Ninguém (ou muito pouca gente) se preocupou em comparar o original com a suposta transcrição. Isto apesar de esse procedimento óbvio ter sido inicialmente referido por diversos bloggers portugueses. Quem produziu a acusação limitou-se a traduzir e a adaptar alguns trechos de uma obra de autores estrangeiros, declarando que essas simples traduções constavam do «Equador» e acusando, assim, MST de ter cometido plágio. Alguns espíritos mais ingénuos apressaram-se a tomar como boa a acusação, sem sequer conferir se o texto da obra continha ou não os parágrafos em causa; presumiram alguns que uma acusação de tal gravidade, e para mais atentatória da dignidade de um autor que é também figura pública, a ser produzida de forma tão assertiva e tendo tido tão espectaculares repercussões, não poderia portanto ser senão a mais pura das verdades e a mais transparente das acusações. Quer dizer, quanto mais pessoas replicavam e comentavam o caso, mais este adquiria foros de absoluta irrefutabilidade; e essas mesmas pessoas transformaram-se assim, pelo número e pela violência das suas convicções condenatórias, em veículo de propaganda de uma mentira ridícula… que rapidamente se transformou em esmagadora bola de neve que levava tudo à sua frente. Por outro lado, as reacções “a quente” do autor do romance também não ajudaram nada ao esclarecimento cabal dos factos, porque, digamos, assim, os ânimos aqueceram, quase se formaram partidos pró e contra MST e, no meio de tanto ruído, é difícil alguém ouvir alguma coisa.

E ninguém, até hoje, demonstrou que afinal não há nem nunca houve plágio algum, e que tudo aquilo era falso?

Sim, claro. Alguns blogs, como foi o caso do Aspirina B (no dia 25 de Outubro), demonstraram claramente que a acusação era não apenas infundada como absolutamente fraudulenta. No entanto, pelos vistos, o alarido criado em volta do caso praticamente cegou a chamada blogosfera, e com ela a própria comunicação social, continuando uma e outra, ou alegre ou pateticamente, a referir o assunto como se existisse de facto alguma coisa “por trás disto tudo”. E realmente, convenhamos, o facto de o blog “acusador” ter visto os seus conteúdos substituídos por outros (no mesmo endereço, note-se), mais laudatórios e benéficos em relação ao autor em causa, e de, por fim, estes terem sido completamente apagados (mantendo sempre o mesmo endereço), enfim, tudo isso e mais o surgimento de réplicas do FreedomToCopy inicial, no conjunto caímos numa situação de confusão total, sem ninguém saber exactamente o que pensar.

Então ainda falta esclarecer alguma coisa?

Parece que sim, a julgar por todas estas movimentações e pela rapidez e pela facilidade com elas se sucedem. Ultrapassada a questão da falsa acusação de plágio, restará saber quem esteve ou está por detrás de tão graves e tão infundadas acusações e ainda, ou principalmente, com que finalidades. Já não se trata de conceder crédito e “tempo de antena” a algo que realmente não merece nem uma coisa nem outra, porque, por esse lado, o caso está plenamente esclarecido; conhecido o modo como foi efectuada a trama, e sabendo-se quem foi que se tentou tramar, trata-se agora de apurar quem tramou e, sabendo-se isso, saber-se-á porquê. Para estas cândidas questões, ainda não há respostas.

(*)A página, em formato PDF, foi encontrada no site da Webboom.pt.

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