“Não ser útil a ninguém equivale a não valer nada” (René Descartes)

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Com que espectáculo nos deparamos?
Com um desfile de banalidades, com uma despudorada exibição de estupidez em 99% dos blogs que encontramos. Também é assim nos outros meios de comunicação, na televisão, nos jornais, nos livros que são editados.
Ainda assim, é uma evolução. Eu, por exemplo, sou lida regularmente por meia-dúzia de pessoas que não conheço, coisa que me parece a mim espantosa. Vou ao “sitemeter” e vejo uma média diária de 50 visitantes. Claro, a maioria cai aqui por acaso e logo se vai embora, quando vê que isto não interessa nem ao menino jesus.
Mas, quais são os blogs de sucesso?
Recentemente, um tipo de um blog onde só se escrevem banalidades, e que foi criado com o único propósito de o seu mentor obter notoriedade, e assim, conseguir entrar num certo circulo, cujo acesso lhe estaria de outra forma vedado, lançou uma iniciativa chamada blog do ano.
Considero que se trata de uma excelente iniciativa.
Não estou a ironizar. Penso mesmo isso. A razão e simples.
A maior vantagem da blogosfera, para mim, e a possibilidade que me dá de observar de mais perto a estupidez humana. De ver como as ideias superficiais são aplaudidas, e como a banalidade é premiada.
Na blogosfera, a estupidez é exposta pelos próprios estúpidos com um despudor que eu desconhecia. E isso é bom, porque desmonta o mito de que se as pessoas tiverem a possibilidade de discutir livremente, a democracia será reforçada. A estupidez não reforça a democracia. Apenas reforça o poder de quem consegue controlar os estúpidos. E É BOM QUE AS PESSOAS QUE NAO SÃO ESTÚPIDAS TENHAM A POSSIBILDADE DE PERCEBER ISSO DE FORMA TÃO CLARA.
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Transcrição do blog Armadilha Para Ursos Conformistas, parte do conteúdo do post com o título ALGUMAS NOTAS DE ARROGÂNCIA (minha) SOBRE A BLOGOSFERA, de 24.11.06; conforme o original.

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O Apdeites fez eco da iniciativa “Melhores Blogues 2006”, promovida por um dos cerca de 5.000 blogs activos nacionais. Exactamente da mesma forma que, por exemplo, publicamos referências a estudos sobre a blogosfera nacional, ou enunciamos o “Blog da semana” da Rádio Comercial, ou destacamos quaisquer outras iniciativas, ou ainda projectos, estudos, ferramentas, “dicas”, produtos, programas, páginas, serviços, enfim, tudo aquilo que possa ter ou vir a ter alguma utilidade ou interesse para a comunidade de bloggers portugueses.

De vez em quando, e deveremos encarar isso como absolutamente natural, surgem ataques à blogosfera e aos blogs, ataques esses que surgem de dentro da própria blogosfera e que têm por destinatários objectivos outros blogs, quando não todos os outros, ou “quase” todos os outros. Neste espaço que se pretende de liberdade, absoluta, sem limites, é perfeitamente aceitável que alguém se sirva dele mesmo para o atacar a ele próprio, ainda que genérica e radicalmente; absolutamente e sem limites, realcemos, o que implica a aceitação de qualquer opinião que um blogger emita sobre seja que assunto for e, portanto, se essa opinião se referir à própria blogosfera, ou seja, a todos os blogs no seu conjunto, haverá que respeitar tanto essa como outra opinião qualquer – igual, diferente ou inversa.

No entanto, uma coisa é respeitar uma opinião, lê-la ou ouvi-la, outra bem diferente é aceitá-la, tragá-la simplesmente, de forma acéfala ou militantemente neutral. Ora, quando alguém – seja figura pública ou seja cromo privado, seja anónimo ou assine com nickname, identifique-se ou não no que diz – utiliza o insulto para emitir uma opinião, quando mete tudo no mesmo saco (90 ou 99% é o mesmo, em substância), arrisca-se a que, pelo menos, alguém responda. Quando alguém insulta os outros e os integra numa maioria esmagadora, está evidentemente a colocar-se a si próprio de fora desse grupo, dessa maioria, está a pôr-se em bicos de pés, está a atribuir a si mesmo o título de (extraordinária) excepção, está por inerência a reservar-se o estatuto de “brilhante”, ou “excepcional”, está a promover-se à categoria do mais inteligente, o mais fino, o mais irónico e o mais espertinho cá desta paróquia virtual.

Já aqui disse o mesmo em relação às “contas” de José Pacheco Pereira, que atira com 90% dos blogs portugueses para um caixote do lixo virtual. Neste caso, deixa de ser “lixo” que se chama a 90%, agora é “estúpido” a 99%, muda ligeiramente a álgebra, mas o radical mantém-se. A blogosfera portuguesa já se vai, de certa forma, acostumando a ser genericamente insultada. Curiosamente, estes insultos são atirados à cara dos autores de blogs por autores, eles próprios, também de blogs. Mais curiosamente ainda, poucas pessoas se dão à maçada de responder aos enxovalhos, porventura presumindo a maioria, por instinto de conservação, que pertencem às camadas de excepção, às castas superiores, à nata percentual . Mesmo que exista alguma dose de razão ou alguma razoabilidade em certas argumentações, tudo isso cai pela base e passa a valer nada quando o que sobressai é a mais pura vaidade… mormente se não se vislumbra qualquer motivo para tal. Este tipo de afirmações generalistas, vendo apenas “estupidez” para além do próprio umbigo, é (na minha opinião, evidentemente) o exemplo acabado daquilo que se designa vulgarmente por “cuspir para o ar”. Ou então, mais complacente e benevolamente, é daquelas “bocas foleiras” que se aviam quando acorda a gente mal disposta, quando as coisas correm mal, um pneu furado, o nervo exposto num queixal, alguma indisposição momentânea, esse tipo de maçadas; também para isso servem os blogs, para despejar acessos de raiva e frustrações, para aliviar a pressão do quotidiano, e nesse particular possuem um papel insubstituível de regulação, quiçá metabólico, quem sabe se verdadeiramente social.

Concluindo, e a propósito da votação “Os Melhores Blogues”: se tal fosse necessário, aqui está um bom pretexto para explicar porque é que o Apdeites não participa em qualquer votação, não responde a solicitações do género e sequer agradece quando é “nomeado” para qualquer dessas votações. Precisamente porque tenta ser um serviço público para TODA a blogosfera nacional, sem quaisquer preferências, sem descriminações de qualquer tipo, sem índexes, sem categorizações, sem classes ou nomenclaturas. É um trabalho que pretende servir 100% dos blogs e dos bloggers nacionais, não 90, 50, 10% ou qualquer outra percentagem. Não sabemos quais são os “melhores” nem quais poderão ser os “piores” nem, por exclusão de partes, quais serão os “assim-assim”. Mas sabemos, sem qualquer margem para dúvida, que todos os blogs são importantes: sem eles, todos, não existiria blogosfera – um mar de diversidade, de correntes fortes e mansidão, de vagas alterosas e de fundos misteriosos – mas apenas génios falando sozinhos, de si para si, ascetas do monólogo peregrinando num deserto cheio de ideias.

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