Mais uma corrida, mais uma viagem

1. Um dos autores do blog Blasfémias publicou um post no qual “cita” – referindo claramente que não se tratava de citação alguma mas de pura “gozação” – o relatório de certo jogo de futebol, na parte que incidia sobre um lance mais polémico.
2. Alguém transcreveu aquela “citação” em outro blog; não é possível determinar se, no post em que foi feita esta transcrição, no todo ou em parte, era referido ou não o carácter por assim dizer lúdico do trecho citado.
3. Um ou mais visitantes deste segundo blog, ou porque acharam graça à forma ou porque não viram piada nenhuma no conteúdo, achou ou acharam por bem transcrever a mesma “citação” no(s) seu(s) próprio(s) blog(s).
4. Alguns visitantes deste(s) blog(s), ou pelos mesmo motivos ou por quaisquer outros, acabaram por fazer o mesmo, ou seja, transcreveram também a mesmíssima “citação”.
5. Claro que os visitantes destes últimos blogs fizeram o mesmo, copiando cada qual para o seu próprio blog, na íntegra ou citando partes, o texto que tão interessante lhes parecia.
6. Evidentemente, em algum ponto do processo, desapareceu não apenas a referência ao blog onde aquele texto tinha sido publicado originalmente, como se perdeu completamente o rasto ao seu carácter declaradamente apócrifo.
7. Menos de um mês após a publicação do post contendo o texto original, o seu autor constata – com alguma estupefacção e com muita graça – que a sua “citação”, que o não era de forma alguma, havia sido replicada em inúmeros blogs.

Curioso fenómeno, sem dúvida, cuja dinâmica se poderá atribuir sem grandes rebuscamentos a uma relação de causa e efeito muito simples: a velocidade característica da circulação de informação no meio cibernético, e em especial naquilo que diz respeito aos blogs, implica uma espécie de voracidade (para não dizer ferocidade) e de competição pela sua posse; como consequência, quem procura informação detém a sua atenção mais na forma do que no conteúdo, eliminando no processo aquilo que à primeira (e apressada) vista não parece ser importante, como a origem, a genuinidade, a fidedignidade dessa informação.

Na chamada blogosfera, principalmente, e sendo esta um espelho das sociedades urbanas modernas, do nosso ritmo de vida quase alucinante, frenético, lê-se por definição “na diagonal”, superficial e levianamente; como se costuma dizer, é “só para ler as gordas”, quando não, ainda mais vulgarmente, “ver os bonecos, porque ler dá trabalho”. O mesmo espírito competitivo que nos obriga a andar permanentemente em passo de corrida, implica também que passemos uma simples “vista d’olhos” sobre qualquer notícia, em vez de a ler, e que cheguemos rapidamente a uma conclusão, ou que tomemos uma de empréstimo, em vez de reflectir antes de a tomar por certa. Vivemos numa espécie de carrossel (ou montanha-russa) do conhecimento, sofrendo cada vez mais da vertigem que a velocidade ocasiona e da força centrífuga que a aceleração provoca; quem anda às voltas neste carrocel, cada vez mais depressa e cada vez mais sem sair do mesmo sítio, acaba fatalmente por ficar com a visão desfocada e os outros sentidos embotados.

Vale tudo, desde que seja ou pareça interessante, ou intrigante, ou suspeito, ou engraçado, ou simplesmente “giro”. Aquilo que reúna mais do que uma das “qualidades” intrínsecas da novidade, por mais comezinha ou irrelevante que esta seja, adquire de imediato um magnetismo irresistível, uma espécie de atracção universal – por vezes fatal, já que é apenas um logro. E assim, alegre e levemente citando citações de citações, copiando cópias de cópias de cópias, o que era ab initio uma simples brincadeira adquire foros de absoluta veracidade, o que surgiu como mero exercício de estilo ganha forma e consistência de facto indesmentível e, ainda por cima, amplamente atestado por dezenas, centenas, milhares de reproduções. O número de “fontes” confere agora, facilmente, uma credibilidade absolutamente paradoxal – e espantosa – à mentira mais descabelada, sustentabilidade factual ao exercício lúdico mais inocente, plausibilidade ao boato mais rasteiro e canalha.

Trata-se de uma espécie de milagre da multiplicação dos pães, mas um estranho milagre: reparte-se infinitamente uma coisa que parece pão mas não é pão, e de cada um dos pedaços surge aquilo que parece ser um pão inteiro e que, portanto, se parece pão e está inteiro… é porque é pão.

Metáforas à parte, talvez tenha chegado a altura – e o episódio serve de ilustração e de indício – de parar para pensar: afinal, em que diabo se está a transformar isto dos blogs? Fonte de informação real ou fonte de mera confusão? Maior do que a antiga biblioteca de Alexandria ou do que a igualmente clássica torre de Babel? Estaremos de facto a fazer algo de positivo, produzindo, ajudando, contribuindo, esclarecendo e informando, ou não passaremos nós de trapezistas, malabaristas, domadores e palhaços de um gigantesco circo mundial, um imenso, confuso e barulhento arraial? Estamos em plena era da informação ou em Carnaval permanente?

Para que servem, ao certo e em concreto, as réplicas absolutamente acéfalas e desmemoriadas, os “conteúdos” integral e literalmente copiados, sem qualquer préstimo ou finalidade? De quantas partes se compõe a comunicação, emissor, meio e receptor, ou emissor, meio e emissor? Fará, em suma, algum sentido que milhões apenas reproduzam (e mal) aquilo que apenas alguns produzem (e bem)?

Talvez ainda não seja grave, mas é bem capaz de se aproximar a hora de a gente se apear do carrossel. Mesmo em andamento. E seguir em frente.

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