Plagiarism in Portugal: Much Ado About Nothing

Sobre a alegação de plágio suscitada pelo Provedor dos Leitores do jornal Público, assunto do qual aqui demos conta anteriormente, acaba de “sair” a respectiva deliberação da Direcção Editorial daquele diário.

Em jeito de súmula, respiguemos uma das conclusões da referida deliberação, quiçá a que mais interessa, porque seria das consequências e não dos considerandos que poderia resultar alguma espécie de jurisprudência:
[citação]
5.2.3. A Direcção considera que, no caso vertente, a exposição pública do caso e esta censura que entendeu também tornar pública, constituem instância suficiente de consciencialização do erro, de sanção e uma forte motivação para a sua correcção – que são os seus objectivos fundamentais, em prol dos leitores.
[fim de citação]

O episódio que assim se encerra envolveu alguns aspectos inovadores, em especial porque, sendo o nosso um país que se diz de “brandos costumes”, não estamos muito habituados a ver alguém ralar-se com semelhantes minudências; nós cá é mais desenrasque-se quem puder e depois logo se vê. Regra geral, os portugueses são adestrados, desde tenra idade, desde os bancos da escola, nas artes do copianço; daí até aos anfiteatros da universidade, é um ver-se-te-avias de cábulas em tudo quanto é sítio, desde as mangas da camisa até aos entrefolhos mais recônditos, e ele são também, à falta de melhor, espreitadelas para o parceiro do lado, a catar espertamente respostas cheias de catitismo, e que de momento não ocorrem. E assim se segue alegremente pela vida fora, reciclando por sistema e muito conscienciosamente toda e qualquer produção alheia que possa convir. A nação copista protege ferozmente os seus cidadãos, e estes defendem-se uns aos outros com unhas e dentes, excretando e perseguindo com chacota sortida aqueles estranhíssimos seres que, raros e vagamente alienígenas, porventura se atrevam a não “alinhar” na bandalheira geral ou, pior ainda para eles, a contestar o sistema instituído.

Por isso, com estas coisas, a gente estranha: onde já se viu um funcionário a fazer o seu dever? Um jornalista a espremer as meninges, para quê, se já tudo foi dito e já tudo está escrito? Um provedor a prover alguma coisa? Como? Mas quem é que ele se julga?

De facto, há perplexidades, idiossincrasias que nos definem como povo. Muito barulho para nada, afinal. E como sempre, de resto. É assim que nós somos e que venha de lá o mais pintado abalar ou bulir com a nossa bela, tranquila, santa pax lusitana. Aliás, que venha o primeiro que se atreva a bulir, tout court. Mas o que é isso? Porquê? Para quê? Isto temos de ser uns para os outros, tu “picas” hoje o meu cartão e eu amanhã “pico” o teu, e toma lá esta matéria que é gira, assina e entrega, pronto, não se fala mais nisso, ninguém vai dar por nada, e também, se algum espertalhão se atrever a levantar cabelo, ninguém liga nenhuma, é para o lado que se dorme melhor. Viver não custa, o que custa é saber viver. Etc.

Etc. No pasa nada.

Anexo
Bem sei que não é lá muito curial uma pessoa citar-se a si mesma, mas enfim; como sustentação e talvez para ilustração do que anteriormente se diz, segue transcrição de um comentário que deixei no página do Provedor do Público… antes da “deliberação”.

Presumo que a exposição pública, com provas suficientes, de uma falha deontológica grave no exercício de determinada profissão, e nomeadamente quando quem cometeu essa falha reconhece o erro, fosse “punição” bastante e proporcionalmente adequada. No entanto, o que se verifica neste caso não é o reconhecimento do erro e a manifestação de algum arrependimento, por parte da jornalista em causa, mas antes uma espécie de “contra-ataque” de cariz revanchista, sem qualquer sombra de humildade ou sequer recato; para já não falarmos em educação, lisura e trato urbano.
Não vislumbro, nos textos do Procurador, qualquer insulto pessoal ou mesmo qualquer palavra mais desagradável dirigida seja a quem for; outro tanto não se pode dizer das respostas da jornalista, que se limita a contrapor insultos a factos, à mistura com desculpas esfarrapadas.
A iniciativa do jornal Público, criando a figura de um Provedor dos leitores que actua, e em especial a acção efectiva e não apenas nominal deste, parecem-me ser a todos os títulos factos notáveis, de realçar, de aplaudir, e convidando ao incentivo entusiástico por parte dos envolvidos, leitores e autores.

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