O sol e a peneira


A caça do plágio aplica-se geralmente num lugar ao sol.

O jornal Público de hoje traz um suplemento com a sugestiva designação de “ípsilon”, que inclui um artigo com chamada de primeira página: Plágio literário – a nova caça às bruxas?

Assinado por Alexandra Lucas Coelho, esta espécie de estudo do fenómeno plagiário, se bem que formalmente correcto, revela – pela frivolidade do tratamento e pela pretensa piada do estilo – uma das facetas mais irritantes do jornalismo português: o tendenciosismo. Tratar-se-á, em suma, na cabecinha de tão engraçada autora, de tentar derrotar sumariamente aquilo que, sendo obviamente um crime em qualquer parte civilizada do mundo, é apresentado como algo de despiciendo, irrelevante, mesmo cómico e, pior ainda, como se fosse uma coisa inevitável, inerente, normalíssima; uma fatalidade sem qualquer importância. Ou seja, a tese – e daí o tendenciosismo, inadmissível em qualquer peça jornalística minimamente credível, é que o plágio sempre existiu e, pelos vistos, sempre existirá. Grande novidade, como se vê.

Existe, porém, um pequeno detalhe que terá talvez passado despercebido: aquilo de que a autora do artigo fala, com uns pretensos exemplos, não é nem tem nada a ver com plágio; fala de cópia e de copiadores, diverte-se pelos vistos imenso com o assunto, mas limita-se a andar às voltas, num verdadeiro, estranhíssimo exercício de chicane intelectual, como se andasse a brincar “à rabia” com o fulcro da questão; nunca o aborda plenamente, ou com um mínimo de coerência, preferindo exercitar os seus dotes humorísticos em tão pouco “piadético” assunto. Presume-se, por conseguinte, que esta jornalista achará imensa piada a si própria, mas pouco mais se poderá presumir de tão pobrezinha abordagem.

Entremeada com a conversa fiada e engraçadinha que parece ter virado moda, entalada entre cada dois achincalhos, lá vem a rapsódia do costume sobre os blogs e o respectivo (putativo) anonimato. Alexandra Coelho fala obviamente – das duas uma – ou daquilo que desconhece em absoluto ou, a pior das hipóteses, daquilo que conhece perfeitamente, conhece de ginjeira, como se costuma dizer; será, talvez, uma confissão pública dos seus próprios hábitos profissionais, o que lhe não ficaria nada bem, a ser o caso, mas o mais provável é que se trate de mais um manifesto anti-autoral ou contra o património intelectual, de forma abrangente. É a mais pura apologia da “bandalheira total” que, pelos vistos, não apenas não incomoda minimamente a autora, como a deve – ainda por cima – manifestamente fazer rir. Exercício do contraditório, zero; pelos vistos, não é preciso, tal é a “unanimidade” em coisa tão chatinha; pois se até Camões, para não falar de Shakespeare e outros conhecidíssimos parasitas, se toda a gente copia toda a gente desde o princípio dos tempos, ora, para que se há-de estar a gente a ralar com tais minudências; eis, em suma, a não muito sólida lógica da Srª D. Alexandra Coelho.

Vale a pena, realmente, ler aquele documento… e aprender umas coisinhas. Na opinião de Alexandra Coelho, parece que existe uma coisa chamada “caça às bruxas”, nisto do plágio; ela “acha”, citando de entre outras pérolas de rigor jornalístico, referindo-se a autores e a plágios do século XIX, que “só os mais timoratos recorriam ao expediente do pseudónimo”. Ora, cá está, eis uma aprendizagem possível que resulta do documento: Fernando Pessoa, esse evidente patego, era timorato, até à medula, digamos, timorato vezes cinco, ou timorato à quinta. Na mesma lógica(?), refere a dita jornalista algo totalmente inovador e inaudito: a figura do “caça-plágios”; à qual atribui, ainda por cima, um defeito terrível que é o “zelo”, supõe-se que a menor de entre outras abomináveis características.

Em Portugal, copiar e assinar por baixo é a técnica pedagógica mais difundida, em todos os níveis de Ensino, e a actividade lectiva mais praticada pelos intervenientes no chamado processo educativo. A canibalização do trabalho alheio, de forma absolutamente transversal em todo o tecido intelectual português, é prática corrente, corriqueira, trivial.

É natural, por isso, que o jornalismo e os jornalistas portugueses – fruto e produto do sistema instituído – se entretenham, de vez em quando, a brincar com as palavras, a fazer malabarismos verborreicos a propósito daquilo que, em última análise, seria para eles mesmos doloroso reconhecer: o problema existe, o plágio existe; a apropriação do trabalho alheio em proveito próprio não é, nunca foi, uma ficção, uma “mania” de meia-dúzia de maluquinhos.

Este artigo, desta jornalista, é (mais) um exemplo paradigmático de como se pode fingir que algum problema não existe simplesmente contando umas anedotas e dizendo umas larachas a respeito. Isso, e umas frasezinhas que ninguém poderá alguma vez entender, mas que soam bem e ficam facilmente no ouvido. Como aquela da caça aplicada a um lugar ao sol. Não quer dizer nada, mas deve ser gira.

Nota: as páginas do artigo do Público aqui referido, guardadas em Apdeites, foram copiadas a partir da versão em “.pdf” disponibilizada por aquele jornal.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *