Geração de 75

Será talvez um assunto lateral, mas nem por isso deixou de causar danos colaterais e muita tinta ainda escorrerá – e quem sabe se suor e lágrimas também – sobre o assunto.

A polémica em volta do certificado de habilitações de um alto magistrado da nação, originalmente suscitada por um blog nacional e depois aproveitada pelos outros órgãos de comunicação social, arrisca-se seriamente a constituir algo de inédito e sem precedentes, pelo menos no nosso universo político: a opinião individual que se transforma em informação geral, influenciando esta, por sua vez, toda a opinião pública.

Este terá sido porventura o caso mais flagrante da emancipação da blogosfera portuguesa, enquanto órgão de informação de massas. É assim outorgada aos bloggers nacionais, a propósito deste incidente marcadamente político, uma verdadeira carta de alforria identitária que irá, consequentemente, demarcar um espaço de cidadania e intervenção com características inovadoras, anulando, do mesmo passo, quaisquer distinções entre este espaço virtual e os homólogos informativos em suportes papel, áudio ou vídeo.

De facto, de agora em diante, comprovado que está o poder informativo (e formativo) dos blogs, a blogosfera adquire no seu conjunto a relevância e a credibilidade que desde o início lhe foram tacitamente negadas, e cujos ecos depreciativos se vão agora inexoravelmente extinguindo.

Foi esta recente polémica o factor decisivo da mudança, mas poderia ter sido outra, incidindo sobre qualquer área social que não a política. O poder de influência dos blogs é um dado adquirido, desde há anos, na maior parte dos países industrializados e mesmo, de forma ainda mais incisiva, nos países sujeitos a restrições da liberdade de expressão. Em Portugal, porém, e se exceptuarmos uma ou outra querela esporádica entre os poucos bloggers que também são figuras públicas, foi este caso que adquiriu maior e decisiva relevância e projecção públicas, dada a importância do seu objecto.

Não sejamos, porém, ingénuos ao ponto de julgar que o autor do blog onde a polémica teve início o fez estritamente por amor à verdade ou por simples apego à lisura de processos. Nem é, de resto, esse teórico e putativo puritanismo cívico aquilo que está em causa ou que sequer se torna relevante. O facto é que foi esta iniciativa em concreto, deste blogger específico, a pedra de toque, o empurrão definitivo de um processo agora imparável: nenhuma figura pública, nenhum órgão do Estado, nenhuma instituição ou serviço pode reivindicar o mais ínfimo vestígio de imunidade em relação ao escrutínio sistemático, à análise partilhada e à investigação exaustiva dos bloggers – mesmo que estes sejam simples anónimos, no sentido comum do termo.

Seguir-se-á no imediato, muito provavelmente, uma qualquer forma de contra-ataque das forças políticas questionadas e incomodadas pela investigação sobre o título académico que foi posto em causa. E esse contra-ataque utilizará por certo as mesmas vias, uma intensidade equivalente e nunca menor assertividade. Portanto, saberemos em breve quais os ministros, ex-ministros, políticos em geral e outras figuras públicas em sentido lato, terão obtido graus ou designações académicas de forma menos curial, ou canónica, ou formalmente suspeitas. Veremos, quem sabe, por exemplo, quantos diplomados em 1974 e 1975 são ou foram membros de órgãos do Estado, gestores de empresas públicas, autarcas, quadros de nomeação política, enfim, todos aqueles que utilizaram qualificações académicas “estranhas” na sua vida pública; pessoas que, muito provavelmente, não teriam alcançado os cargos que ocupam ou ocuparam se não fossem nem “doutores” nem “engenheiros”. Não esqueçamos que, pelo menos naqueles dois conturbados anos, logo a seguir ao 25 de Abril de 1974, sucederam-se as chamadas “passagens administrativas”; ora, não constando que alguém tenha – ao menos por sua iniciativa e por descargo de consciência – realizado os exames que não fez e que, em condições normais, deveria ter feito, todos esses quadros superiores singraram na vida política (e empresarial) muito por causa e à custa de habilitações que não foram legitimamente obtidas.

É, realmente, de um conflito de gerações que se trata, e também isso explica a aversão, a espécie de alergia que alguns elementos da mais antiga dessas gerações manifestam em relação às inovações tecnológicas em geral, às tecnologias da informação em particular, e a “isso dos blogs” em especial. “Isso dos blogs” que é, de resto, algo encarado por alguns como menor, desprezível ou, “numa” palavra, “uma vergonha”.

Mas não adianta nada “achar” tais nada agradáveis coisas, como já se viu e pela gravura junta mais ainda: a geração blog parece verdadeiramente “perigosa”, porque é muito grande, porque nada lhe escapa e porque, enfim e por fim, não se intimida perante os velhos poderes, sejam eles políticos, económicos, religiosos ou quaisquer outros. A geração blog não se encolhe perante a geração de 75, que está agora no poder, nem se identifica com os seus valores. A geração blog sabe agora que valores mais altos se alevantam, como disse Camões, e sabe também que o verdadeiro poder está na informação, ou seja, nela mesma.

16.04.07: começou
Diário de Notícias
Blog Kontratempos
Blog Grande Loja do Queijo Limiano
Blog Sagreschool
Expresso

Um comentário em “Geração de 75”

  1. A geração blog não se encolhe perante nada e isso já está mais que provado. Acho inacreditável que todos os que têm sido “apanhados” pelos bloggers, defendem-se, na maior parte dos casos, menosprezando a blogosfera, como se esta não fosse a livre forma de fornecer informação mas sim um dispensador de boatos e maledicência. Esquecem-se que o histórico tem provado que estão errados e não têm a inteligência de se calar.

    Bom post JP e muito bem visto essa das passagens administrativas! Já me tinha esquecido.

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