O clube

A Internet é um espaço de liberdade ou um tugúrio de libertinagem? Os blogs democratizaram a difusão da informação ou apenas servem para lançar a confusão? Deverão os bloggers ser responsabilizados por todos os conteúdos que publicam, incluindo os comentários de terceiros que permitem nos seus blogs?

Estas são três questões na ordem-do-dia, que dizem respeito a todos nós e de cujas respostas depende a sobrevivência deste meio de comunicação. No entanto, essas três questões poderiam facilmente ser condensadas em apenas uma, fundamental, radical e definitiva: a blogosfera tem futuro?

A resposta, infelizmente curta, é: não!

Será mera questão de tempo até que os Estados, as instituições, as diversas máquinas de terraplanagem ideológica asfixiem definitivamente os blogs: primeiro, filando os autores pelo pescoço, através da abolição por decreto de toda e qualquer espécie de anonimato ou mesmo de heteronímia; depois, apertando o pescoço filado a mãos ambas, obrigarão o blogger não apenas a identificar-se como a registar-se como “produtor de conteúdos” ou a inscrever-se como membro de um qualquer “corpo redactorial”; por fim, e quando apenas sobrarem meia-dúzia de resistentes, já esgazeados, já azulados pelo estrangulamento progressivo, ouvir-se-á o estalo fatal, a coluna cervical quebrando – apenas profissionais de comunicação social serão tolerados no clube PC.

Por conseguinte, aquilo que definia e, de resto, aquilo em que consistia, na sua essência, a chamada blogosfera, desaparecerá para sempre e (pelos vistos) a muito curto prazo. Destruindo o anonimato e a heteronímia, a pretexto dos desmandos e dos abusos que uma ou outra coisa permitem, os funcionários do clube conseguirão acabar de vez com as vozes incómodas, com a independência e com a inteligência, essas (para eles) estranhas coisas que escapam ao seu controlo. Fingindo que o dono de uma parede é o responsável pelas “pichagens” que nela são pintadas, ou seja, que os comentários a um post são da responsabilidade do autor do post e não dos autores desses comentários, o clube consegue o pleno da uniformidade: excluir o imprevisível. Logo, destruindo e fingindo, o PC acabará fatalmente por legalmente estabelecer a sua reserva de caça, a sua coutada particular onde apenas circularão reses de criação, bois, ovelhas, cabritos e outros cornos mansos.

Para melhor compreensão deste arrazoado, e no sentido de não maçar excessivamente a comunidade blogosférica, geralmente avessa a ler e sistematicamente alérgica a pensar, consulte-se a seguinte sequência lógica:

1. O vizinho FJV demonstra satisfação pelo facto de já irem surgindo algumas ameaças ao “trollismo” e ao trogloditismo, chegando ao ponto de declarar que “o insulto passa a ter um preço”. Pois passa. E que preço, para quem não insulta.
3. Alguns tipos mais “inconscientes”, segundo a terminologia oficial, denunciam a tentação totalitária e a obsessão securitária que vão desde já ameaçando a liberdade de expressão em geral e aquilo que “é” uma vergonha em particular. Um desses “tipos” é um tal Miguel, co-autor do blog O Insurgente. Um nome de blog altamente suspeito, por sinal.
2. Depois de o actual PGR português ter declarado, muito convictamente, que os blogs “é” uma vergonha, aparece agora o Governo italiano (nada mais, nada menos) a propor uma lei que obrigará qualquer blogger a possuir carteira profissional de “editor de conteúdos”, a pagar impostos pelos “lucros” que o seu blog gera, a ter ficha na polícia de costumes e a estar necessariamente filiado no PC.

Glossário
PC: politicamente correcto/a

Leituras sobre a “lei” Levy-Prodi
Beppe Grillo
Editoria Online
dvdba

5 comentários em “O clube”

  1. Ponto 1 – Gosto de si.

    Ponto 2 – Creio ainda que, ao nível do controle daquilo que se diz, em Portugal a coisa passa por um nível infinitamente mais sofisticado: o saneamento vai sendo feito através dos blogues “de referência”, e o resto é um bando de seguidistas – ainda que não o seja, sê-lo-á sempre. E os seguidistas, como todos sabem, não têm voz.

    O meu caro JPG não se lembra, mas já trocámos impressões sobre este assunto, num outro tempo. E penso agora: se tentarem legislar a blogosfera, que me parece cada vez mais inócua, – à excepção do caso Portugal Profundo, que redundou nas consequências que sabemos – quem irá impôr-se? O Paulo Querido? O Vital Moreira? O Pacheco Pereira, que nem comentários admite?

    Os que usam a blogosfera como uma via de comunicação uni-lateral coincidem, se reparar, com os “bloguers” de referência, aqueles que são “dignos” de ser reconhecidos enquanto bloggers. Todos os demais bloggers “de referência”, estão ligados ao facto de serem figuras públicas, que gozam de notoriedade política, ou promiscuidade com os meios de comunicação “legítimos”, ou humoristas/psicólogos/palhaços de televisão.

    Estabelecendo esses a agenda blogosférica, não há perigos a exconjurar. “Eres lo que lees”. O episódio do cão fez-me algo que ainda não percebi bem.

  2. Dos três nomes que refere, dois não são bloggers; são figuras públicas que têm um blog; o restante também não é (nem uma coisa nem outra), mas “impôs-se” por causa e à conta dos blogs.
    Não esqueçamos apenas alguns exemplos significativos de blogs que são verdadeiros media: Bloguítica, 31 da Armada, Atlântico, Médico Explica Medicina a Intelectuais, Origem das Espécies, Perspectivas, Tomar Partido, Causa Nossa, etc., etc. Mesmo o Arrastão, o nosso comuna residente, pode ser incluído no naipe. E acredito sinceramente que o “saneamento”, como diz, virá precisamente da esquerda política, dos blogs e bloggers que se dizem muito amiguinhos das “amplas liberdades” e. nomeadamente, da “liberdade de expressão”.
    Como sabemos de ginjeira, a esquerda das amplas rege-se pela seguinte norma: podes pensar, dizer e escrever tudo aquilo que quiseres, desde que escrevas, digas e penses exactamente como “nós”, os eleitos.
    A máxima em Castelhano deveria ser revista e aumentada: “eres lo que lees, eres en lo que escribes”. O que só faria sentido em Português: és o que lês, estás no que escreves.

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