O aborto ortográfico: pontas soltas e roubos de catedral

Uma das consequências do A.O. (Acordo Ortográfico) que ainda não vi referida em lado algum é este objeto.

Googlar passará, caso o dito aborto se torne obrigatório, a devolver à cabeça apenas resultados em “brasileiro” – isto é, de sites e de blogs brasileiros -, relegando para o fim da lista todos aqueles conteúdos que não respeitarem a “norma” brasileira. “Objeto” é apenas um exemplo e não vale a pena avançar agora com trocadilhos foleiros a respeito disto; fiquemo-nos pela evidência de que o truque é, só por si, perfeitamente abjecto… conforme se comprova: sendo os brasileiros 180 milhões, enquanto que o resto dos falantes de Português não chega aos 40 milhões, é perfeitamente natural que aqueles tenham muito mais páginas (escritas e na “web”) do que os demais. Ora, esta norma imperialista irá implicar, por conseguinte, a imediata despromoção dos sites e dos blogs que mantiverem a matriz ortográfica do Português europeu – em função dos algoritmos dos motores de busca – para os confins da lista dos resultados da pesquisa.

Note-se: não apenas os sites brasileiros surgirão inevitavelmente nos primeiros lugares, em todas as googlizações que incluam um único termo grafado “à brasileira”, como a enorme quantidade desses resultados (em termos de “keyword weight” e em termos absolutos) empurrará os outros para o fim de uma interminável lista de páginas. de… resultados Todas as buscas por critério empresarial, (“extração+minério“, por exemplo), retirará assim, de forma automática e por algoritmo fixo, qualquer hipótese (de sobre si mesmas recair a escolha de quem procura) a todas as indústrias de exploração mineira de Portugal e dos PALOP. E quem diz indústria mineira, diz indústria aeronáutica (jato e jacto) ou a indústria eléctrica (basta a própria designação para comparar), apenas para citar alguns exemplos ilustrativos e significativos.

Como é evidente, o impacto deste desastre estender-se-á a todas as áreas de actividade; para além das diversas indústrias, propriamente ditas, todos sabemos que o mesmo sucederá, de forma ainda mais aguda, com o sector dos serviços, e nomeadamente em tudo aquilo que se relacione com a própria Língua: os tradutores independentes nacionais e as empresas de tradução não brasileiras têm apenas um futuro imediato, e esse futuro é a falência. Nenhum tradutor português poderá jamais competir no mercado internacional com preços 50% inferiores (ou mais); se a ortografia passar a ser uma só, nenhum cliente estrangeiro sequer hesitará entre o “fornecedor” de traduções brasileiro e o tradutor português, angolano ou mesmo moçambicano; o custo de vida em cada um dos países é completamente diferente, mas isso não interessa evidentemente para nada, do ponto de vista do cliente.

O acordo ortográfico representa de facto uma revolução por via administrativa. A primeira da História, por sinal. Parafraseando Churchill, e salvaguardando do mesmo passo as devidas distâncias, nunca tantos foram tão roubados por tão poucos.

No caso de restar ainda alguma dúvida nos espíritos mais distraídos, frívolos ou porventura simplesmente estúpidos, bastar-lhes-á talvez (ao menos tentar) questionar os seus botões sobre o seguinte: o que têm a ganhar com isto os defensores do NÃO ao acordo? E os outros, os tipos do SIM, o que ganharão eles se o acordo for avante?

Uma resposta implica a outra, não é? E a coisa assim fica mais simples, não fica?

Pois é, pois fica. Eu cá não sei ao certo o quê ou quanto abichará cada um deles, mas sei perfeitamente quanto esta gigantesca vigarice me custa.

A Língua Portuguesa não é um objecto que se possa trocar, comprar ou vender. Os portugueses que a usam como ferramenta de trabalho, ao menos esses, não estão em saldo. Nem apreciam particularmente que alguns salteadores e traficantes lhes tentem roubar a enxada, essa alfaia singular com que revolvem o chão da pátria que lhes deu o ser e lhes dá o pão. E que também serve, como qualquer sachola honrada, para dar com ela na cabeça dos meliantes.

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