Os ridículos

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Por mais estranho que isso possa parecer, hoje em dia, houve um tempo em que os manuais escolares eram únicos e passavam do irmão mais velho para o seguinte, e deste para o seguinte, e assim sucessivamente até chegar ao “caçula” da família. E esses mesmos manuais únicos, já gastos e todos rabiscados, podiam ainda servir para algum primo mais novo ou até para um qualquer vizinho de mais fracas posses. Sei do que falo, neste particular, porque apenas me tocaram livros novinhos em folha já muito depois do 25 de Abril de ’74; fiz toda a escola primária, o Ciclo Preparatório e uma parte do Curso Geral dos Liceus com livros que recebi, directamente e não muito estragados, dos meus cinco irmãos, por azar e capricho da natureza todos eles mais velhos do que eu.

Esta coisa natural, naquela altura, seria agora absolutamente inconcebível, em especial na cabeça dos jovens que hoje “andam na escola”; nestes tempos de ideias modernas e problemas antigos, não apenas os livros escolares mudam todos os anos, como “estudante” algum jamais admitiria outra coisa que não a colecção nova, completa, reluzente, acabadinha de sair da livraria mais próxima. Não que das intenções desses estudantes conste a mais leve intenção de alguma vez folhear os ditos livros, mas apenas porque aqueles objectos com folhas servem de distintivo social, no microcosmos escolar, tanto como os “ténis” de marca ou as roupas com a etiqueta por fora.

As sucessivas “reformas” do Ensino, cuja finalidade consiste basicamente em liquidar a “reforma” anterior, constituem uma benesse do Estado para as editoras do ramo e, evidentemente, para todas as profissões que orbitam o planeta educacional ou, dito de outra forma, que se penduram na teta pedagógica: a começar pelos autores e a acabar na mais modesta papelaria, toda a gente ganha verdadeiros balúrdios à conta da obsessão pela novidade e, em resumo, da promoção do consumismo como método único de aprendizagem.

Curiosamente, é a mesma ideologia, é o mesmo pensamento dominante que alega promover a escola “geral, universal e gratuita”, aquela e aquele que geram e aprovam uma indústria de redundância e que criam uma novíssima (e estranhíssima) mecânica de exclusão: afinal, nem os manuais são gerais, muito menos gratuitos, nem é por conseguinte universal o acesso ao Ensino das famílias que não forem capazes de suportar os custos respectivos; afinal, esses custos exorbitantes, de novas edições a cada ano que passa, excluem do sistema de Ensino (são actualmente, aliás, o único factor de exclusão) todos os estudantes que não os puderem pagar.

Ou seja, afinal era tudo uma treta pegada. Não interessam para nada os conteúdos, mas apenas vender papel.

Olha a novidade.

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1-VIII-1963»

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