O que as mulheres reclamam

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(Cousas curiosas solicitadas pelas feministas)

A recente agitação de certa parte do elemento feminino da Inglaterra, que pretendia a todo o transe ter voto nas eleições de deputados, não é a unica agitação feminina que a historia contemporanea tem a registrar.

Em outros paizes, tambem as mulheres se teem unido para reclamar cousas tão curiosas e tão desnecessarias como o voto, dando com isso bastante que fazer ao sexo feio encarregado de manter a ordem.

Por exemplo, as mães da povoação franceza chamada Vignieu, levaram, ha pouco, uma petição ao Senado francez, solicitando que seja concedida a Legião d’Honra e uma pensão a toda a mulher casada que haja criado oito ou mais filhos. As autoras do pedido opinam que o decrescimento da natalidade em França constitue uma grave ameaça para a nação, e consideram vergonha para o governo do paiz o não lhe ter occorrido ainda a idéa de recompensar as mulheres que cumprem os seus deveros para com o Estado, criando família numerosa. Já outras, de differentes pontos de França, apoiam a mesma reclamação, e receia-se que, se, em tempo opportuno, o Senado não a acolher favoravelmente, haja tumultos e até mesmo não menor numero de vidros partidos do que os que tem havido em Inglaterra.

As americanas, essas não teem papas na lingua para pedirem ao governo que prohiba ou auctorise aquilo que as incommoda ou agrada. Não ha muito ainda que as damas elegantes de Boston pediram ás auctoridades a publicação de um edital obrigando as companhias de viação publica a collocarem mais baixos os estribos dos carros de passageiros, para poderem subir e descer com mais facilidade as viajantes que, segundo a moda, usavam saias mais apertadas.

A Liga das Contribuintes de Cincinnati emprehendeu uma vigorosa campanha a favor dos passageiros que vão de pé na plataforma dos tranvias (electricos, como nós lhes chamâmos). Consideram essas senhoras não ser justo que paguem o mesmo que os que vão sentados, os que vão de pé; e pede que se abata um centavo, pelo menos, a estes ultimos.

Graças ás damas de Nova Wilmington, na Pennsylvania, não é permittido, nessa cidade, a venda de cigarros. As senhoras fizeram uma activa campanha anti-cigarrista, e conseguiram impor a sua vontade, não se fumando nem a sombra de um cigarrinho em toda a povoação.

Algumas advogadas dos direitos da mulher iniciaram, ha três annos, em Berlim, um movimento a favor do serviço militar obrigatorio para as mulheres. Asseguravam as defensoras do projecto, que assim existiria a liberdade legal entre ambos os sexos, e do mesmo modo que havia na Allemanha recrutamento de homens, tambem o devia haver de mulheres. Mas, não foi possivel pôr todas de accôrdo, nos diversos pontos do reclamado, porque, ao passo que umas se contentavam com que o governo as destinasse ás ambulancias, outras não queriam nada menos do que uma espingarda e completa instrucção militar, tal qual como a dos homens. Segundo as d’este bando, a mulher devia entrar em campanha como combatente e soffrer todas as incommodidades e perigos da guerra; mas por muito militarista que a Allemanha seja, o que é facto é que não acolheu a idéa com enthusiasmo; e por isso, e por já estarmos no terceiro anno de uma grande guerra sem ella reconsiderar, é quasi certo que não tenhâmos de ver amazonas no exercito allemão, apesar de todos os argumentos adduzidos em prol das suas vantagens.»

Fernandes Costa (270, Estrada de Bemfica, Lisboa), Almanach Bertrand, 1918

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