Política de resultados (1)

O capitalismo selvagem

The richest 1,000 people in Britain have seen their wealth quadruple under Labour, according to The Sunday Times Rich List published today. Even under Gordon Brown’s brief premiership their fortunes have soared by 15%, just as the financial squeeze and faltering house prices have hit ordinary people.

The collective wealth of the 1,000 richest has jumped to £412 billion, up from £99 billion in 1997. Total net wealth during the same period has slightly more than doubled.

“The 11 years of Labour have been absolutely fantastic for the super-rich,” said Philip Beresford, compiler of the list. “Having a friendly Labour government has almost been better than having a Tory one; it has neutered politicians on the left.”

Richard Woods, The Sunday Times, 27.04.08.

THE Justice Secretary Jack Straw has admitted that Labour’s disastrous election results this week could force Gordon Brown to wait until the latest possible date in 2010 to call a general election.

In an interview this morning, Straw also suggested, before hurriedly correcting himself, that voters were punishing the prime minister in the party’s crushing defeat, in which it lost more than 300 council seats.

The Conservatives gained 12 local authorities across the country, from Southampton in the south to Bury in the northwest, and the Vale of Glamorgan in Wales. Overall, Labour, with an estimated 24% of the vote, was beaten into third place by the Liberal Democrats.

Holly Watt, Times Online, 03.05.08.

«As mil pessoas mais ricas da Grã-Bretanha quadruplicaram as suas fortunas durante os últimos anos em que os “trabalhistas” estiveram à frente do Governo.»
«Grosso modo, o Partido Trabalhista, com 24% dos votos (estimativa), passa para terceira força política, perdendo o segundo lugar para o Partido Liberal Democrata

Um episódio da nossa História (mais ou menos) recente ilustra na perfeição esta reacção de choque e pavor que invariavelmente ocorre quando se confrontam ideologia e realidade. Nos idos de 75 do século passado, durante uma visita ao nosso país de uma alta individualidade sueca (Olof Palme?), Otelo Saraiva de Carvalho ter-lhe-á dito algo como “nós, aqui em Portugal, o que queremos é acabar com os ricos!” A esta esquisitíssima argolada política respondeu o fleumático estadista nórdico com uma frase que ficou nos anais: “pois nós, lá na Suécia, o que queremos é acabar com os pobres!”

Claro que não deverá existir a mais pequena intersecção entre a social-democracia sueca (ou nórdica, por extensão) e aqueles Partidos que se reivindicam como sendo dessa mesma área política, por exemplo, na Inglaterra ou em Portugal. Tanto os lusos P.S. e P.S.D. como o britânico Labour seguem uma extremamente inventiva espécie de terceira via, nem tão à esquerda como a dos exaltados nem tão à direita como a dos fleumáticos: assim, o que o centrão pretende, o seu objectivo principal, não é nem acabar com os ricos nem acabar com os pobres, é acabar com a classe média – por coincidência, ou não, precisamente a sua base eleitoral. Na prática, aquilo que sucede invariavelmente quando um destes Partidos alcança o poder é que os ricos ficam cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres; nesse aspecto, é evidente que o objectivo político primordial do centrão acaba, por vias travessas, por ser alcançado; porém, segundo e seguindo o elementaríssimo princípio dos vasos comunicantes, estes governos centristas acabam por ser derrubados pela sua própria vacuidade, isto é, quando a asfixia sistemática das classes médias se reflecte nas urnas. E assim o ciclo recomeça, inexoravelmente: mais um governo à direita, que será deitado abaixo o mais depressa possível, seja pela sua idiossincrática autofagia – característica de Partidos que se baseiam em caciquismos e capelinhas – seja pelo assédio politicamente correcto das esquerdas, que se unem instintivamente quando fora da área do poder.

Aquilo a que se costuma chamar “alternância democrática”, nos países que desgraçadamente não são nem civilizados em geral nem nórdicos em particular, consiste numa espécie de dança das cadeiras durante a qual meia dúzia de políticos profissionais – ou seja, inúteis por vocação – disputam afanosamente os lugares disponíveis para não fazer coisa nenhuma a não ser ficar lá sentado por uns tempos. A nenhum desses infantes, entretidos com o seu joguinho interminável, ocorre jamais cuidar do mais ínfimo problema social e ocorre ainda menos sequer tentar fazer cumprir a função primordial do Estado, a qual é regular as relações entre os cidadãos: as instituições funcionam, tanto assim como se não existisse Governo algum, em total roda livre e, por conseguinte, não havendo espécie nenhuma de interferência do Estado nos mecanismos sociais, quem mais pode acaba fatalmente por poder ainda mais e quem mais tem irá inevitavelmente aproveitar ao máximo a oportunidade para explorar o mais possível a selvajaria vigente. Do que resulta, como relação de causa e efeito directa do vazio governativo, a concentração dos meios de produção e da riqueza em cada vez menos pessoas, por um lado, e a generalização da pobreza, por outro. Esporádica e ciclicamente, quando este statu quo atinge paroxismos de convulsão social, uma de duas coisas pode suceder, como variante esporádica da alternância: ou a esquerda toma o poder por via eleitoral, ou a esquerda toma o poder nas ruas. Mais tiro, menos tiro, com mais ou com menos baixas de ambos os lados, também mais tarde ou mais cedo a esquerda será derrubada e… o ciclo “normal” recomeça. Andamos nisto há décadas, já lá vai quase um século, mas parece que ainda assim a coisa custa a entender, de tal forma são evidentes os resultados (desastrosos) e a (estúpida) persistência no erro que a eles conduz, pois assistimos impávidos e serenos a mais do mesmo sem sequer pestanejar.

A luta política do centrão esgota-se na luta política entre centristas. Os Partidos políticos servem exclusivamente os interesses – de classe, de estrato, mas essencialmente pessoais – de quem os integra. No “jogo democrático”, o que está em causa não é a democracia, mas o próprio jogo: são as cadeiras e quem as ocupa, não aquilo e aqueles que elas e eles representam.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *