Ali e há que tempos

  • Programa: “Aqui e Agora”
  • Tema: “os perigos da Internet”
  • Emissão: SIC, 29.05.08
  • Depoimentos: Miguel Sousa Tavares, José Pacheco Pereira
  • Comentadores: Moita Flores, José Gameiro, Rogério Alves
  • Moderador: (varreu-se-me o nome)
  • Sinopse: a Internet em geral e os blogs em particular são coisas perigosas utilizadas por gente perigosa que demonstra uma perigosa tendência para se manter no anonimato.
  • Palavras e expressões-chave: internet, blog, blogosfera, bloggers, narcisismo, solidão, perigo, devassa, intimidade, crime, calúnia, difamação, anónimo, anonimato, diário, on-line, sedução, vigarices em geral, dá-me o telemóbel já, és parvo todos os dias, és boa com’ó milho, vê lá se queres levar uma cachaporra, vai-te encher de moscas, mas afinal quem é que escreveu esta merda, et cetera e tal.

Esta deverá ter sido porventura uma estreia a nível mundial: o moderador do debate não modera coisa nenhuma, pelo contrário, colabora entusiasticamente no ensaio de pancadaria que os comentadores dão “nisto dos blogs”. Não há ali um único átomo de contraditório: é só porrada mesmo, e da grossa.

Afinal, como se vê pela gravura junta, andava tudo à procura dos males do mundo – e há que tempos, quer dizer, praticamente desde que há mundo – e no fim, vai-se a ver e a solução estava ali mesmo à mão, a coisa não tem nada que saber, o mal, todo o mal, está na Internet em geral e nos blogs em particular. Por conseguinte, para erradicar de vez o dito Mal (com maiúscula e tudo, note-se), é muito fácil, cace-se essa cambada de estupores, processem-se os cabrões, cadeia com eles e mais nada.

Mas, ai, a coisa apresenta um problemazinho chato: o anonimato. Se com os parvos que se identificam a coisa fica fácil, esses lixam-se em três tempos, já quando o anónimo é anónimo, isto é, quando o anónimo não se identifica, o lixanço torna-se problemático, dificultoso, uma maçada. Portanto, ora bem, isto basta juntar dois e dois, é muito simples: proíba-se o anonimato; torne-se, portanto, administrativa e legalmente obrigatório que todos os bloggers sejam parvos. Como, de resto, na opinião universal de todos os três comentadores do programa, eles já são… pela própria natureza da questão, que não passa, ainda na opinião daquele universal painel, de pura parvoíce.

Não são os cobardes que são cobardes nem os canalhas que são canalhas; isso não interessa para nada; o que interessa é que essa gente, esse “lixo”, como dizia não sei quem, utiliza uma malfadada ferramenta que antes não existia e que, quanto mais não seja por isso mesmo, nunca deveria ter existido e que deve ser sumamente eliminada, com urgência.

O ataque pessoal, a calúnia e a difamação, a má-língua em geral e o calão em particular nunca existiram antes, nem em conversas de café, nem em pasquins, nada de nada, foi só mesmo quando surgiram estas porcarias da net que o insulto gratuito se generalizou. E, ainda por cima, se dantes um gajo qualquer podia mandar umas bocas foleiras, por exemplo num café, numa roda de patuscos, agora é que é mau, chiça, essas bocas propagam-se à velocidade da luz, chegam instantaneamente a dezenas, centenas, milhares, milhões de pessoas.

São estas, em linhas gerais, as brilhantes conclusões, “derivadas ao” diagnóstico respectivo, a que chegaram os comentadores residentes do programa “Aqui e Agora”.

Por mera coincidência, nenhum desses “comentadores” do painel, incluindo o putativo “moderador” do dito, escreve em qualquer blog. Pelo menos que se saiba, nem um só deles alguma vez publicou fosse o que fosse por este e neste meio. Poderemos presumir até, sem grande risco de errar, que estes novos mosqueteiros (três que são quatro, como é de tradição) não fazem a mais pequena ideia de como funciona um computador; para que serve uma rede; o que é um “browser”; onde está a tecla “delete”; como se envia um sorriso; o que fazer para ajudar alguém; o que é uma causa.

Metendo tudo e todos no mesmo saco e identificando a ferramenta com o mal que dela e com ela se pode fazer, estes senhores demonstraram não apenas uma flagrante má-fé como a mais empedernida e militante ignorância. Não fazem a mais pequena ideia daquilo de que falam, mas não se coíbem de preconizar medidas de repressão pidescas para pessoas que não conhecem de lado nenhum. Pretextando a defesa da honra, a própria e a alheia, insultam quem nunca insultou, agridem quem nunca agrediu, emporcalham todos aqueles que nunca os emporcalharam nem a eles nem a ninguém.

É nestas circunstâncias que assiste a qualquer dos ofendidos o direito de resposta. Por isso, eu, um simples anónimo identificado, a todos eles e a cada um, lhes digo daqui, deste blog: meus senhores, vão à merda.

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