O país do quase

vitral do mosteiro dos JerónimosDeus nos proteja e se condoa de nós. No nada improvável caso de a nossa selecção de futebol ganhar o próximo campeonato europeu, tempos ainda mais difíceis se adivinham para este pobre país.

É absolutamente necessário que a tradição se mantenha e que, como de costume, fiquemos às portas da glória. Caso contrário, em por fatalidade sucedendo que os nossos jogadores vençam mesmo aquilo e aterrem na Portela com a taça e o título de campeões da Europa, bem poderemos contar com mais uma longa noite – mas, desta vez, a sério.

Já sucedeu, em 1966 e em 1984, quase termos passado à final; em 2004, quase empolgámos o Europeu – nem de propósito, realizado “em casa”. No Mundial de 2006, quase passámos à final, de novo, e foi na altura convicção geral de que, se isso tivesse sucedido, ganharíamos o título máximo e nunca alcançado; isto é, seríamos campeões do mundo… quase de certeza. Para além destas mais relevantes datas, outras houve em que estivemos quase a ganhar isto ou aquilo; quase-qualificações para fases finais, foram aí umas 20, em mais de 60 anos; quase-passagens da 1.ª fase (de fases finais), foram duas (México ’86 e Coreia 2002); e houve mais umas quantas, aqui e acolá, e essas foram, ainda por cima, não apenas quase, mas quase-quase ou, pior ainda, daquelas quase-quase-quase-só-faltou-um-bocadinho-assim.

Será bom, será excelente, que a tradição se mantenha. Quando não, lá teremos de sofrer inevitavelmente as consequências: a vaidade patológica do primeiro-ministro português, sufragada pelo voto da maioria relativa do povo português, irá por consequência chamar a si a responsabilidade primeira, segunda e última de um feito com o qual não teve nada a ver, mas faz de conta. Munido com um caneco de metal nobre que muito representa, ficará por inerência de prestígio mandatado para continuar, ao menos por mais uns anos, a arrasar Portugal com a sua arrogância trituradora e a distribuir a Pátria pela colecção de cromos que lhe afagam o ego.

É assim, também por tradição, que se comportam os governantes portugueses: tanto em relação ao que de bom como ao que de mau sucede, ao povo e à Pátria, por regra e por definição o que essa elite dirigente faz é atribuir a si mesma o mérito integral pelas vitórias e a outrem ou a outra coisa qualquer a responsabilidade pelas derrotas.

Se há incêndios, a culpa é do tempo, que vai de canícula excepcional; se não há incêndios, não é porque o tempo vai excepcionalmente chuvoso, é exclusivamente pela inteligência, pela sagacidade, pelo trabalho incansável do responsável pela pasta do Interior e, evidentemente, pelo seu chefe.

Se há inundações, nem o vazio, nem a irresponsabilidade nem o laxismo dos responsáveis tem nada a ver com o assunto, nesses casos de água a mais a culpa cabe inteirinha ao próprio S. Pedro, pois não se está mesmo a ver. Porém, se o ano hidrológico porventura e por mero acaso correr bem, então já se sabe, há que enaltecer os méritos deste e daquele, principalmente os daquele, o chefe que tudo vê, que tudo prevê, e antevê, e resolve, mesmo antes de acontecer, aquele que sabe mais a dormir do que nós todos acordados.

Se há seca, se os campos fervilham de palhas secas e os animais passeiam tristemente as suas carcaças esquálidas, então, por uma vez sem exemplo, cace-se meia dúzia de burocratas para “dar uma” de isenção, ponha-se essa matula no olho da rua, pronto, está resolvido o problema, acabou-se a crise, isto volta a chover não tarda nada. Porque, bem entendido, se temos sol na eira e chuva no nabal, ou seja, caso tudo corra normalmente e como se quer, então há que dar o mérito a quem o tem, e pois quem havia de ser, ora, está visto, o nosso bem-amado líder, o chefe, o chefinho, o nosso verdadeiro, único, glorioso manda-chuva.

Se a inflação dispara, se o desemprego explode, se a indústria implode e se toda a economia estagna, a culpa é da conjuntura internacional; se a conjuntura internacional é favorável e, por conseguinte, os preços baixam, os rendimentos aumentam, a economia dispara, então isso deixa de ter seja o que for a ver com a conjuntura internacional, é claro, tudo isso se deve à competência do elenco governativo em geral, ao ministro da Economia em particular e ao seu chefe em especial, pois que a ele tudo se deve, entenda-se, tudo o que de bom sucede, e por aí nos ficamos.

Eis, por conseguinte, o dilema que se coloca aos nossos atletas: vencer todos os encontros até ao dia 29 e ganhar também o jogo da final – e com isso desgraçar o futuro imediato de milhões de compatriotas – ou perder essa derradeira partida, patrioticamente, democraticamente, altruisticamente? Quererão eles, os nossos bravos jogadores de futebol, ser campeões da Europa e entregar a taça ao regime ou perder a taça na final e salvar o povo português de males maiores? Ganhar a bem do Governo ou perder a bem da Nação?

Aceitam-se apostas sobre o que irá naquelas cabecinhas.

Imagem do blog MMUX

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