Não, o burro é ele

E o burro sou eu?

1 – … E se um dia o Chelsea me convidasse, quem me apoiaria? Naturalmente, a minha família de sempre. Os meus amigos de sempre. O Murtosa de sempre. E, também, os meus empresários de sempre e a minha Federação de sempre. Por 30 milhões de euros, à razão de 7,5 milhões ao ano, quem me apoiaria? O meu banco de sempre e a D. Olga de sempre. Cada vez que os jornalistas ingleses lhe querem fazer uma pergunta na língua de Shakespeare, Big Phil tenta tirar um coelho da cartola como uma gargalhada respondona e a coisa passa. Passa? A ver vamos. Porque a maior “arma” que Scolari exibiu, desde que chegou a Portugal em 2002, foi o seu poder de comunicação e, mais do que isso, a capacidade de fazer crer que esta Pátria abandonada precisava de um líder. Com amor à camisola. Que cantasse, sentidamente, o hino nacional, pelo menos de uma forma tão sentida como o canta a Dulce Pontes. Não vêem todos aqueles que se acham incapazes de amar, de se dedicarem à Pátria e beijar a bandeira das quinas, a identidade da alma? As quinas não são patrocinadas, é tudo afecto, é tudo espontâneo, é tudo coração e por que não os empresários entrarem na blindada Selecção, não apenas para tratar dos assuntos “impossíveis” do Cristiano Ronaldo mas também do indefectível seleccionador, sangue do nosso sangue, cálice do nosso cálice, debaixo do nariz dos súbditos de Sua Majestade?

2 – Em Inglaterra não será assim – e isso é uma profunda desvantagem. Estão a ver Scolari a “enrolar” os ingleses e a cantar “God Save the Queen” com fervor britânico? Yes, yes, yes!

3 – A data concertada para anunciar o vínculo de Scolari ao Chelsea, ao cabo de duas jornadas do Euro, mais do que um escândalo, é uma provocação. Com efeitos reduzidos presumivelmente a zero, porque alguns dos atletas da Selecção serão seus pupilos em Stamford Bridge; porque Scolari adoptou uma postura extremamente liberal e compreensiva em relação aos problemas profissionais dos jogadores (ainda ontem Deco foi autorizado a deslocar-se a Barcelona para tratar de “assuntos pessoais”!!!); e porque Gilberto Madaíl, apesar de tudo, chora. Quer dizer: Scolari coloca os interesses da Selecção em causa e a Federação, em vez de tomar uma decisão, capitula. Como sempre. A Federação trata agora, curiosamente, dos interesses do Chelsea.

… E o burro sou eu?!

* Como diriam no “Pátio das Cantigas”, tem aqui uma “casa às suas ordens”
(se por mero acaso não se entender com o russo do Abramovich)
Autor: RUI SANTOS
Data: Sexta-feira, 13 Junho de 2008 – 18:00

Jornal Record

Dado o evidente interesse público desta crónica de Rui Santos (um dos pouquíssimos tipos que sabem escrever, em Portugal), publica-se a dita na íntegra, apenas com uma pequena sugestão acessória, que terá por certo escapado ao cronista ou, quem sabe, o homem não quis chatear-se mais com tão ruim personagem.

A sugestão, a quem de direito ou nem por isso, era que Luís Felipe Scolari fosse imediatamente despedido, com justa (justíssima) causa, tendo esse despedimento por base jurídica a quebra insanável de confiança entre as partes e a absoluta impossibilidade da continuação de qualquer espécie de vínculo entre as ditas partes (ele e quem o contratou, não confundamos).

Quanto a substituto para o lugar de seleccionar nacional interino, pelo menos até ao fim do corrente campeonato europeu, nada mais simples: o roupeiro da selecção. Além de ser Português, já provou que percebe alguma coisinha de futebol, por um lado, e que não anda ali a fingir coisíssima nenhuma, muito menos que entende seja lá do que for, por mais paradoxal que tal pareça. Se o roupeiro, por algum motivo da sua vida pessoal, não puder, então que seja o motorista do autocarro da selecção – está mais do que provado que o lugar de seleccionador português, até aqui ocupado por um estrangeiro espertíssimo, dotadíssimo para a gestão dos seus próprios interesses e dos daqueles que lhe interessam, pode com vantagem ser ocupado por qualquer um dos 15 milhões de portugueses, os do Continente e ilhas, mais os cinco milhões da chamada “diáspora”; o facto inabalável, como toda a gente sabe, é ser impossível, com aqueles jogadores, qualquer um não ganhar qualquer coisa que se veja. Até uma tia de Cascais, sentada no banco de suplentes, seria capaz de conduzir aquela equipa à vitória neste europeu, como o teria sido, mesmo cheia de achaques e caturra até dizer chega, a velhinha, no europeu de 2004 ou no mundial de 2006. Coisa que LFS, viste-lo; népia, aquilo era mas é gasganete e uma tremenda carga de peneiras e uma lata daqui até ao Brasil, a sua pátria, de onde nunca deveria ter saído.

Uma palavrinha de despedida para este dito ex-seleccionador nacional. Ou, melhor, duas: boa viagem.

Se isso lhe fizer lembrar alguma coisa mais desagradável, paciência. É a vida!

Umas aulinhas ou umas explicaçõezinhas de Inglês (sem ser técnico), é só dizer. Ora bem, cruzes, eu não, Deus me livre, mas conheço uma data de vendidos – a condizer – capazes até de ensinar a qualquer bronco o God Save The Queen na perfeição, com lagrimazinhas ao canto do olho e tudo.

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