O que é a verdade?


MADDIE A VERDADE DA MENTIRA

1. A menor Madeleine McCann morreu no apartamento 5A do Ocean Club, da Vila da Luz, na noite de 3 de Maio de 2007;
2. Ocorreu uma simulação de rapto;
3. Kate Healy e Gerald McCann são suspeitos de envolvimento na ocultação do cadáver da sua filha;
4. A morte poderá ter sobrevindo em resultado de um trágico acidente;
5. Existem indícios de negligência na guarda e segurança dos filhos.

O sol começa a pôr-se sobre a bela paisagem desta ria. Crianças inglesas brincam no calçadão, sob o olhar atento dos seus pais. Olho para o Tavares, vejo-lhe nos olhos o brilho e a alegria com que naquele dia de Novembro de 1981 nos encontrámos na Escola de Polícia Judiciária para iniciarmos o curso de agentes de investigação criminal. O passado parece estar longe, mas não esquecido, e o futuro é já amanhã.
Temos consciência de ter dado o nosso melhor para a resolução do caso. As nossas convicções assentam na experiência profissional, em factos e indícios recolhidos e da sua interpretação à luz do direito. O nosso trabalho desenvolveu-se com o objectivo da realização da justiça através da busca da verdade material, a única que deve prevalecer face a um universo que torna vulgar a verdade da mentira.

Olhão, Julho de 2008

Esta é a última página (214) do ensaio A Verdade da Mentira, da autoria de Gonçalo Amaral, hoje mesmo posto à venda.

“Ensaio” será talvez, se tivermos de escolher um género, o único enquadramento possível para este livro. Ou então, um pouco mais arrojadamente, quem sabe mesmo um novo género livresco acaba de nascer: chamemos-lhe tiro no escuro, pedrada no charco ou, mais simplesmente ainda, apenas… coragem.

Não é seguramente, muito longe disso, uma obra literária; nem pretende ser; nem tinha nada que ser; mas mostra bem que o autor se está positivamente nas tintas para os poderes instituídos que agora tentam e que já antes tentaram amedrontá-lo, silenciá-lo, apoucá-lo. E isso é coragem.

Nestas 214 páginas não há propriamente grandes novidades; nem se esperava que houvesse; nem é preciso que haja. No fundo, o que elas representam é aquilo que toda a gente já sabia ou de que pelo menos suspeitava. Mas agora as coisas são ditas por um profissional, por alguém que sabe do que fala. E isso, saber de saber e não de ouvir dizer, mesmo que toda a tese seja apenas uma pedrada no charco, provocará certamente ondas de choque – e não apenas à superfície – que se estenderão muito para além do pântano infecto em que todos estamos atolados.

E, por fim, ainda que isto seja apenas um tiro no escuro, com um alvo obscuro e uma probabilidade mínima de lhe acertar, ou que isso possa fazer mossa em alguém, há que louvar o espírito combativo e, porque não dizê-lo, altivo, de um homem que se recusa a ser ele próprio um alvo fácil.

Porque, no fundo, o que interessa é que uma criança desapareceu, sem deixar rasto e sem se saber como ou porquê. Gonçalo Amaral tenta agora, com este livro, apenas deixar pistas para que alguém possa terminar o trabalho que o não deixaram a ele fazer. Tão simples (e tão complicado) quanto isso.

Maddie – A Verdade da Mentira
Gonçalo Amaral
Ed. Guerra E Paz
ISBN 978-989-8174-12-3
Lisboa, Julho 2008

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2 comentários em “O que é a verdade?”

  1. Fora do contexto deste seu postal, apenas respondendo ao seu comentário lá pelo meu sítio a propósito da ratificação do Acordo Ortográfico pelo PR, a Constituição prevê uma coisa que designa por “acção popular”, embora remeta o enquadramento legal da actuação para “a lei”: Qual lei é que não sei?

    Artigo 52.º
    (Direito de petição e direito de acção popular)

    1. …
    2. …
    3. É conferido a todos, pessoalmente ou através de associações de defesa dos interesses em causa, o direito de acção popular nos casos e termos previstos na lei, incluindo o direito de requerer para o lesado ou lesados a correspondente indemnização, nomeadamente para:
    * a) Promover a prevenção, a cessação ou a perseguição judicial das infracções contra a saúde pública, os direitos dos consumidores, a qualidade de vida, a preservação do ambiente e do património cultural;
    * b) Assegurar a defesa dos bens do Estado, das regiões autónomas e das autarquias locais.

    Este governo está em guerra com a sociedade civil. Só que os portugueses não estão habituados a juntar-se para levarem o poder político a tribunal e, por outro lado, a justiça em Portugal é o que a gente sabe… Mas a malta vai aprender, ó se vai! Quando houver uma 1ª condenação dos poderes públicos face a um grupo qualquer de cidadãos, assim com uma indemnização choruda, o portuga não vai querer outra coisa. Na Dinamarca, por exemplo, isto passa-se com os poderes autárquicos: os presidentes das câmaras têm verdadeiro pavor das associações cívicas.

  2. Pois é, mas isto é Portugal, ninguém leva (nada) a mal… a não ser aquele brinquedo que agora está na moda, o da “calúnia e difamação”.

    Fora isso, “no pasa nada”. Porém, digo eu, não seria muito difícil espalhar a petição fora da Internet. Não percebo, de resto, porque é que VGM ainda não se lembrou disso…

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