0,45% de traição à Pátria

Não chóro por nada que a vida traga ou leve. Há porém paginas de prosa me teem feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noute em que, ainda creança, li pela primeira vez numa selecta, o passo celebre de Vieira sobre o Rei Salomão, “Fabricou Salomão um palacio…” E fui lendo, até ao fim, tremulo, confuso; depois rompi em lagrimas felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquelle movimento hieratico da nossa clara lingua majestosa, aquelle exprimir das idéas nas palavras inevitaveis, correr de agua porque ha declive, aquelle assombro vocalico em que os sons são cores ideaes – tudo isso me toldou de instincto como uma grande emoção politica. E, disse, chorei; hoje, relembrando, ainda chóro. Não é – não – a saudade da infancia, de que não tenho saudades: é a saudade da emoção d’aquelle momento, a magua de não poder já ler pela primeira vez aquella grande certeza symphonica.

Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

Sim, porque a orthographia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-m’a do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.

«Texto publicado originariamente em “Descobrimento”, revista de Cultura n.º 3, 1931, pp. 409-410, transcrito do “Livro do Desassossego”, por Bernardo Soares (heterónimo de Fernando Pessoa), numa recolha de Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha; ed. de Jacinto do Prado Coelho, Lisboa, Ática, 1982 vol. I, p. 16-17. Respeitou-se a ortografia da época de Fernando Pessoa.»

Conteúdo integralmente transcrito de Wikipedia

Conservador? Sim. Reaccionário? Sim, com certeza. Purista? Pois sim, obrigado. A minha pátria não é a língua brasileira, não será nunca. Aquilo de que se trata e aquilo que se pretende, com mais este acordo ortográfico, dito de uma forma clara e transparente, é promover o Brasil como potência global e liquidar do mesmo passo a matriz portuguesa da lusofonia. O resto é pura treta (ou “trote”, como se diz no Brasil).

A conversa fiada sobre os 0,45% de palavras não passa disso mesmo, converseta, blá-blá-blá, paleio de chacha, tergiversação de desistentes, desertores, cobardes, vendidos, renegados, traidores.

Português? Sim, 100%. Nunca à percentagem ou à comissão.

Declaração Universal dos Direitos Linguísticos dos Brasileiros

ARTIGO 1:
Todos os brasileiros nascem iguais perante a Língua, e têm todo o direito a dar cabo dela, desde que seja na sua terra, com as suas próprias literatura e Cultura em geral.
ARTIGO 2:
a) Cada brasileiro tem direito ao respeito pela sua própria Língua, por mais esquisita que ela possa parecer aos outros falantes da lusofonia.
b) O brasileiro, enquanto espécie falante, não pode atribuir a si próprio o direito de exterminar os outros falares lusófonos, ou explorá-los, violando esse direito. Ele tem o dever de colocar a sua consciência ao serviço daquilo que lhe der na real gana, mas sem chatear os portugueses e os outros povos lusófonos.
c) Cada brasileiro tem direito à consideração, ao cuidado e à protecção das suas próprias instituições culturais nacionais.
ARTIGO 3:
a) Nenhum brasileiro será submetido a maus tratos e a actos cruéis, desde que não se atreva a mexer no léxico e na ortografia do Português europeu.
b) Se a reforma de um brasileiro linguista é necessária, ela deve ser instantânea, sem dor ou angústia.
ARTIGO 4:
a) Cada brasileiro que pertence a uma espécie diferente da norma tem o direito de viver livre no seu ambiente natural terrestre, aéreo ou aquático, e tem o direito de reproduzir-se, falando e escrevendo rigorosamente como lhe der na bolha.
b) A privação da liberdade, ainda que para fins educativos, é contrária a este direito.
ARTIGO 5:
a) Cada brasileiro pertencente a uma espécie que vive habitualmente no ambiente lusófono mas que se encontra fora do Brasil, tem o direito de viver e crescer segundo o ritmo e as condições de vida e de liberdade que são próprias da sua espécie, na condição de não interferir com a Cultura do país que o acolhe.
b) Qualquer modificação que o brasileiro tente impor, na Língua ou na Cultura do país de acolhimento, para fins mercantis ou quaisquer outros, é contrária a esse direito.
ARTIGO 6:
a) Cada brasileiro que os cidadãos de outros países aceitarem como imigrante tem o direito a uma duração de vida conforme a sua longevidade natural.
b) O abandono de um brasileiro, por simples embirração com o seu modo de falar, é um acto cruel e degradante.
ARTIGO 7:
Cada brasileiro que trabalha tem o direito a uma razoável limitação de tempo e intensidade de trabalho, e a uma alimentação adequada e ao repouso.
ARTIGO 8:
a) A experimentação linguística, que implica sofrimento físico e intelectual, é incompatível com os direitos de todos os povos lusófonos, à excepção do povo brasileiro, quer aquela seja uma experiência médica, científica, comercial ou qualquer outra.
b) Técnicas substitutivas ou reformadoras da Língua portuguesa devem ser utilizadas e desenvolvidas, mas apenas dentro das fronteiras brasileiras.
ARTIGO 9:
Nenhum brasileiro deve ser criado para servir de cobaia linguística, porque não é preciso chegar a tanto, e deve ser nutrido, alojado, transportado e se calhar despedido, sem que para ele exista ansiedade ou dor.
ARTIGO 10:
Nenhum brasileiro deve ser usado para divertimento, lá por falar aquela coisa que fala. A exibição do linguajar brasileiro e os espectáculos cómicos que utilizem brasileiros são incompatíveis com a dignidade do referido falar brasileiro.
ARTIGO 11:
O acto que leva à conversão linguística de um brasileiro sem necessidade é um lexicocídio, ou seja, um crime contra a Gramática.
ARTIGO 12:
a) Cada acto que force ao cânone linguístico um grande número de brasileiros é um genocídio, ou seja, um delito contra a espécie.
b) O aniquilamento e a destruição do meio linguístico natural levam ao genocídio.
ARTIGO 13:
a) O brasileiro em geral deve ser tratado com respeito.
b) As cenas de violência de que os brasileiros são vítimas devem ser proibidas no cinema e na televisão, a menos que tenham como fim mostrar um atentado aos direitos dos linguistas e dos falantes do Português padrão.
ARTIGO 14:
a) As associações de protecção e de salvaguarda dos brasileiros devem ser representadas a nível de governo (brasileiro).
b) Os direitos dos brasileiros devem ser defendidos por leis, como os direitos dos outros povos lusófonos. Cada qual com as suas, portanto.

Diga NÃO ao genocídio linguístico

Assine e Divulgue a Petição Contra a Implementação da Experiência Pedagógica TLEBS em http://www.ipetitions.com/petition/contratlebs/tlebs.html

Depois de nos termos associado a uma causa justa, assinando e divulgando um manifesto internacional contra a condenação à morte de uma jovem iraniana, associamo-nos agora a outra petição, visando esta salvar a vida da Gramática portuguesa.

E se, quanto à primeira iniciativa, a mobilização dos cidadãos parece já ter dado resultados satisfatórios, quanto a esta outra também não deveremos fazer a coisa por menos, até porque se trata não apenas de resgatar a nossa Gramática a um futuro funesto, como ainda de impedir que venha a ocorrer um verdadeiro genocídio linguístico, à escala mundial; é necessário que se impeça o extermínio selectivo de todos os dicionários, enciclopédias, prontuários e restantes auxiliares técnicos que existem nos países lusófonos e em todos os países onde se estuda, se escreve ou simplesmente se conversa em Português.

Além disso, e como se diz, muito clara e adequadamente, nas alegações finais desta petição, exigimos do Estado português o fim das experiências pedagógicas não autorizadas em crianças (alínea c).

Nós somos declarada e inequivocamente contra qualquer espécie de violência, em especial quando esta é absolutamente gratuita e arrogantemente imposta a inocentes, menores de idade ou, de uma forma abrangente, aos mais fracos e indefesos.

Assim, se ainda o não fez, click aqui e assine a petição. Contribua com o seu nome para impedir a proliferação desta verdadeira arma de destruição maciça, vulgarmente conhecida por TLEBS, que por aí paira ameaçadoramente sobre a inteligência e a cultura de 200 milhões de seres-humanos.

(A imagem do início deste post foi copiada, “label” incluído, do blog Revista Atlântico, que publicou também um artigo sobre o assunto.)