Doutoramento em Blogologia pela Blogspot University

Sobre as Novas Oportunidades, essa extraordinária invenção socialista, já muito se disse e escreveu, mas pouco se sabe… em concreto.

O que raio é aquilo, afinal? É verdade que existe, por exemplo, um Curso de Futebol que dá equivalência ao 9.º Ano de Escolaridade?

Bem, a respeito do que raio é aquilo, afinal, e dada a complexidade da questão, o melhor será talvez não se meter a gente por tão ínvios e delicados caminhos, até porque parece que nem no próprio Governo, nem mesmo no Ministério da Educação, existe alguém capaz de responder a essa pergunta sem meter os pés pelas mãos.

Numa arriscadíssima tentativa de síntese, tentando condensar em poucas e claras palavras algo que é absolutamente incompreensível, digamos que o programa Novas Oportunidades é uma forma de o Estado português conferir administrativamente habilitações literárias a cidadãos que as não possuem, com o objectivo único de elevar drasticamente os índices de escolaridade que o país apresenta junto das instituições europeias: como os diversos “planos de convergência” da União Europeia, ou seja, dinheiro que entra, implicam a demonstração da sua aplicação conveniente, apresentando resultados positivos, o Governo português consegue com este plano de diplomas a granel fingir que ao menos na área do Ensino existe de facto convergência, cumprimento dos planos, em suma, alguma réstia de progresso. A finalidade única do programa consiste, portanto, e utilizemos nisto uma linguagem que toda a gente possa entender, em evitar que a dita União Europeia se chateie – porque, afinal, Portugal é um sorvedouro de recursos comunitários e tem um Governo que nem na Educação acerta – e deixe de enviar o cacau do qual depende a sobrevivência do próprio Estado. Que deixe de enviar o cacau* ou que, pior ainda, exerça sanções sobre o Estado português por incumprimento de objectivos, sendo que essas sanções – verificada a completa inutilidade de que Portugal seja um dos 27 e a sua total inviabilidade no contexto da União – poderão chegar no limite à pura e simples expulsão de Portugal do clube europeu. Limite este que, sendo meramente teórico, releva de uma pergunta singela que perpassa sistematicamente pela cabeça dos dirigentes europeus: mas o que diabo é que aquela gente anda a fazer com a nossa massa?

E pronto, foi assim, está mais ou menos explicado porque surgiu o tal programa Novas Oportunidades: ah, lá nisso, em habilitações, em taxas de analfabetismo e essas coisas, vocês vão ver – em dois ou três anos estamos ao nível da Dinamarca!

Eis a política pimba em todo o seu esplendor. Num país a abarrotar de desempregados e biscateiros, ou seja, empregados de mesa, vigilantes, vendedores, porteiros e entregadores de pizza ao domicílio, criem-se uns planos teóricos a fingir que são curriculares, e aí está a solução milagrosa: os “alunos” à pressão apresentam um “dossier pedagógico”, no qual terão de demonstrar que sabem fazer o que fazem, e o Estado concede-lhes o diploma do 9.º Ano de Escolaridade… no mínimo.

Muita gente se fartou de rir, há uns dias, quando o Ministério da Educação deu o seu aval e mandou publicar em Diário da República o plano curricular do Mestrado em Gestão e Manutenção de Campos de Golfe. Pois não há nada que estranhar e tampouco o assunto é para a gente se escangalhar numa risota.

Os exemplos são inúmeros, é só escolher no Catálogo Nacional de Qualificações, e dependem apenas da imaginação do Governo central ou mesmo das próprias escolas, que podem (e devem, pelos vistos) inventar os cursos que lhes der na real gana. Trata-se de “perfis profissionais” que, só por si, conferem uma habilitação académica (9.º ou 12.º Ano de Escolaridade), sem qualquer necessidade de prestação de provas (não há testes nem exames), obrigatoriedade de frequência de componentes teóricas (não há faltas, na prática) ou mesmo verificação de competências ou sequer comprovativos de experiência profissional.

Seguem-se amostras desses casos de estudo (em sentido literal), extraídos do referido CNQ, referindo-se para cada um deles alguns dos respectivos “saberes” e inerentes “competências”.

Bombeiro:
21. Guardas de honra e desfiles.
16. Aplicar as regras relativas à integração em formaturas e guardas de honra.
17. Utilizar técnicas de simulação de acidentes em acções de prevenção.
1. Interagir com os outros no trabalho em equipa.
2. Adoptar comportamentos de estabilidade emocional e de resistência ao “stress”.

Florista:
16. Técnicas de atendimento de clientes.
8. Identificar as necessidades e motivações do cliente para a compra.
9. Aplicar as operações de cálculo comercial no processamento da venda de produtos.
20. Utilizar os métodos e as técnicas de limpeza do espaço, utensílios e ferramentas de
trabalho.
3. Tomar iniciativa no sentido de encontrar soluções adequadas na resolução de situações
concretas.

Empregado/a de Bar / Barman/Barmaid:
14. Técnicas de comunicação e de atendimento adequadas ao serviço de bar.
5. Interpretar receituários e utilizar os diferentes processos de transformação/composição de
produtos alimentares com vista à confecção de bebidas e de pequenas refeições.
7. Aplicar as operações básicas de cálculo numérico na determinação do montante da despesa a
cobrar.
8. Exprimir-se oralmente de forma a facilitar a comunicação com clientes nacionais e estrangeiros.
1. Facilitar o relacionamento interpessoal com os clientes do bar, com vista à criação de um clima de empatia.

Tratador/a / Desbastador/a de Equinos:
20. Equitação: equilíbrio, volteio e iniciação à sela.
21. Desbaste de equinos.
22. Transporte de Equinos.
24. Condução de veículos de transporte de animais dentro da exploração.
9. Utilizar as técnicas de embarque e desembarque de animais no transporte.
2. Decidir sobre as soluções mais adequadas na resolução de problemas de menor complexidade
decorrentes do exercício da actividade.

Isto é sério, portanto fazem o favor de parar de rir. Bem sei que custa a crer, mas pronto, sejamos homenzinhos ou ao menos façamos um ar minimamente circunspecto e sisudo. O que está aqui em causa é o futuro da Pátria, chiça. Haja respeito.

Ultimamente, e com isto se responde à 2ª pergunta (aquela que está lá em cima, no 2º parágrafo, e que já ia esquecendo), tem-se falado muito de um “curso para futebolistas”, no âmbito destas “Novas Oportunidades”. Dizem as más-línguas, porque eu cá não acredito, que agora qualquer gajo que dê uns chutos numa bola pode tirar o 9.º Ano exclusivamente à conta disso. Pois eu já disse, mas redigo e repito: não acredito. Pode lá ser!

Isto, este país, já é uma fantochada abominável – mas ainda não chegámos a tanto, caramba!

* O facto de Portugal ter passado a ser um contribuinte líquido não obsta absolutamente em nada a esta lógica de sanções por incumprimento de metas.

O leão de Rio Maior

como é que o gajo aguenta o peso?Em tempos não muito distantes, sempre que o Verão espreitava, lá surgiam em todos os jornais (e até na TV) umas notícias bombásticas sobre um “leão” que aterrorizava o povo de Rio Maior e arredores. Depois, esse “leão” caiu em desuso – ou estará, quem sabe, simplesmente a ferrar uma bela de uma soneca há mais de 20 anos – e agora a coisa é mais para Norte, com um temível “tigre” arranhando umas árvores e uns fardos de palha, lá para as bandas da Maia.

No mundo virtual, ainda mais imaginativo do que o real, não há cá nem tigres nem leões mas é com cada tanga que nem vos digo nem vos conto.
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Ai os “jovens”, ai, ai

«Discussão entre jovens levou à intervenção da brigada de intervenção rápida da PSP
Polícia ferido durante confrontos de jovens na praia de Santo Amaro de Oeiras
21.06.2008 – 20h57 Lusa, PÚBLICO
Imagens de um vídeo amador divulgadas pela SIC mostram um grupo de cerca de 30 jovens, alguns deles envolvidos em confrontos. As mesmas imagens mostram os jovens a lançar paus e garrafas aos agentes. Terá sido nesta altura que o agente ficou ferido.»


https://www.youtube.com/watch?v=KoFj12-Mf9g

https://www.youtube.com/watch?v=0iFhkPTM88s

«Violência na Praia
Confrontos em Oeiras obrigam à intervenção da PSP
Confrontos na praia de Santo Amaro de Oeiras obrigaram hoje à intervenção de três equipas da brigada de intervenção rápida da PSP, não havendo registo de feridos, nem de detenções, de acordo com a polícia.»
SIC online

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Boche é mau

euro 2008
Portugal, 2 – Alemanha, 3

Deu galo. Não torno a oferecer Paredes aos moços, a menos de uma hora do encontro decisivo. Na próxima, se houver próxima, atiro-lhes com o Roberto Leal logo de véspera, a ver se dá mais sorte.

Pois, caríssimos, ainda práquistou meio ressacado, depois de uma overdose de frustração; já passaram quase quarenta e oito horas desde aquela desgraça (brrr) e estou triste, tão estragado como um puto que acabou de levar um estalo nas fuças. Três, para ser exacto, três estalos nas fuças.

Malditos boches. Deus me perdoe pela blasfémia, esses boches de um raio deviam mas é ir todos bater com os costados no quinto dos infernos e que o maligno os grelhasse em fogo lento, para toda a eternidade.

Principalmente aquele sacana que não falha uma, Herr Levantador de Porcos, muito apropriadamente de sua graça. Aquilo assim, aquele futebolzinho científico, sem qualquer rebuço académico o declaro, até mete nojo. A bem dizer, o jogo típico do boche é ainda mais irritante, se tal é possível, mais asqueroso, mais filhadaputa do que o dos italianos, esses morcões especializados na ciência da retranca, a do passezinho para trás e para os lados, com vitórias por meio golo a zero. Os boches é mais zás-trás-pás, já está, com pouca ou nenhuma mixórdia e engonhanço pelo meio, mas se calhar por isso mesmo, e principalmente por sabermos que o portuga se dá pessimamente com a eficácia e ainda pior com a objectividade, é que a coisa custa tanto a engolir.
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JPC, 6 – Portugal, 3

João Pereira Coutinho, antecipando-se à entrada em vigor do Acordo Ortográfico, escreve agora no jornal Folha de S. Paulo em… “Língua Brasileira”.

Num texto do passado dia 9, o prestigiado cronista, que terá rompido unilateralmente o seu contrato com o Lusitânia e assinado pelo Vera-Cruz, acertou algumas na trave, marcou, sofreu, mas lá acabou por vencer a partida.

Eis a marcha do marcador.

1-0: “E com a Eurocopa em andamento, Scolari acredita que Ronaldo será coroado rei.”
2-0: “Longe de mim contestar a sabedoria dos fatos.”
3-0: “Meu problema com Ronaldo é outro.”
3-1: “(…) uma proeza que confere à cabeça um desagradável aspecto pontiagudo.”
3-2: “Foi em contacto com eles que, tapando o nariz (…)”
4-2: “Subitamente, e com o gol à sua frente, (…)”
4-3: “Acordo com suores frios e ouço o galo do vizinho a cantar as cinco da madrugada.”
5-3: “Antigamente, minha vontade era matar o bicho.”
6-3: “recusando a tentação do terno e da gravata.”

Tendo-lhe sido perguntado, no final do texto, se tinha sido um encontro difícil, JPC declarou: «É, cara, êssi tróço daí é meio djifíciu, viu? Pôrtuguéis é fudjido mêzmu!»

Um milagre de Lurdes

Ministra da Educação nega “facilitismo” nos exames nacionais

A Ministra da Educação nega que as provas de aferição tenham sido fáceis. Em entrevista ao Primeiro Jornal, Maria de Lurdes Rodrigues garantiu que os exames são ajustados ao nível de exigência dos programas.

Os resultados das provas de aferição do 4º e 6º anos de escolaridade foram hoje divulgados: as positivas rondam os 90% a Português e a Matemática .

Num comentário a algumas críticas de “facilitismo” dos exames, Maria de Lurdes Rodrigues garantiu, na SIC, o rigor e a transparência das provas.

“O nível de complexidade de uma prova não se avalia por opiniões (…), tem técnicas para ser avaliado (…) usam-se técnicas estatísticas para avaliar a complexidade e uma das medidas mais simples é a curva de distribuição dos resultados. E quando apenas 5% dos alunos conseguem completar a totalidade da prova com êxito, isso diz tudo, ou alguma coisa, sobre a complexidade de uma prova. As provas são calibradas e ajustadas àquilo que é o nível de exigência dos programas”, disse a ministra da Educação, que falou num clima de “pessimismo”.
SIC

Mas alguém será capaz de engolir tamanha patranha? Assim como assim, pretende dizer a Ministro, sucedeu que num ano apenas, os nossos estudantes ficaram subitamente espertíssimos, sapientíssimos, carregadinhos de sabedoria? Em suma, deixaram definitivamente – e sem qualquer (outra) intervenção divina – de ser os perfeitos, totais, absolutos ignorantes que eram no ano transacto?

Já só temos menos de 10% de completos burrinhos, no Básico? Ah, que giro. Mas que bem.

No entanto, se me é permitido, gostaria de colocar duas ou três questões. Não maçando, espero.

Diz a Senhora Ministro: “O nível de complexidade de uma prova não se avalia por opiniões.”

Pergunto eu: sim, e a prova, propriamente dita, essa é que se avalia por opiniões?

Diz a Senhora Ministro: “As provas são calibradas e ajustadas àquilo que é o nível de exigência dos programas.”

Pergunto eu: e o nível de exigência dos programas é calibrado e ajustado em relação a quê, ao certo?

Não diz a Senhora Ministro, mas digo eu: este salto espectacular nos resultados é, sem réstia de “pessimismo”, altamente suspeito.

Ou, como disse Evan Esar, “Statistics is the science of producing unreliable facts from reliable figures.”

10 razões para não gramar a selecção nacional

1. Porque sou ecologista.

Se a selecção nacional de futebol ganhar o próximo jogo e o das meias-finais e ainda, Deus nos salve e guarde de semelhante catástrofe, o da final, vamos ter milhões de automóveis nas ruas, com gajos a buzinar que nem umas bestas e a fazer macacadas absolutamente ilegais ao volante. Isto significa algo como 4 milhões de automóveis, vezes 3 (jogos), vezes uma média de 10 quilómetros (umas quantas voltinhas ao quarteirão e arredores), em viaturas que gastam, em média, 8 litros aos 100 km (incluindo camiões e grandes “bombas”): no total, esta calamidade pública e ecológica implicará um consumo de 9.600.000 litros de combustível!

Um disparate, uma brutalidade, como se vê, é realmente muito melhor que a gente continue na senda antiga de não ganhar porra nenhuma no mundo da bola.

2. Porque sou o mais ecologista da minha rua.

Se a equipa, por fatalidade, continuasse a ganhar jogos, na volta o povo inteiro iria desatar a comprar mais bandeirinhas e cachecóis e barretes e chapéus com a pala para trás e boinas com a pala para a frente e “crachats” e colecções de cromos e edições especiais d’A Bola, do Record, do 24 Horas, do DN, do JN, do Público, e “pins” e bolas autografadas e camisolas autografadas e canecas autografadas e emissões especiais de todos os canais, generalistas e especializados, nacionais, regionais e locais, de rádio, de TV, por cabo e sem cabo e até na Internet.

Haja tino, haja sentido, haja consciência ecológica, imagine-se o que fabricar aquela tralha toda implica, o que significa toda aquela gente a trabalhar, as máquinas todas ligadas e a dar o máximo, horas a fio, dias a fio, milhares de árvores abatidas para o papel, outro tanto de ovelhinhas tosquiadas à má-fila, para fazer as camisolas, e assim, montes de novilhos e de porcinos abatidos, pois que o pessoal adora bifanas, sandes de coiratos, para já não falar nas obscenas quantidades de cerveja, pois há que alimentar quem trabalha e muito mais quem festeja.

Uma merda, por conseguinte. Cada derrota dos nossos onze poupa a vida a milhares de animaizinhos e a outro tanto de arvorezinhas.

3. Porque sou ecologista até dizer chega.

Em calhando a gente ganhar, a porcaria dos festejos subsequentes, que, certamente e como é de tradição, implicarão foguetório, arraiais espontâneos, cerimónias de entrega de medalhas em S. Bento, em Belém, enfim, até o Rio do Porto há-de querer molhar a sopa na glória, tudo isso vai acarretar despesas sumptuosas e de todo desnecessárias ao Estado e, de novo, lá teremos mais danos ambientais, ai isso é certinho: pois que onde há foguetes, há incêndios, também faz parte da maneira tão portuguesa de festejar, nada como um belo pinhal a arder, vê-se a quilómetros de distância e sempre dá um ambiente mais colorido, por assim dizer.

Portanto, devemos poupar nas canas, guardar os efeitos pirotécnicos lá mais para o Verão, caramba, até porque a época parva do ano ainda agora começou. E não esqueçamos também que, por maioria de razões, tanto os arraiais populares como os arraiais de Estado custam uma pipa de massa, lá voltamos à mesma, ele é salgadinhos à tonelada, ele é frango na brasa, sardinha na brasa, febras na brasa, mais as brasas que é preciso obviamente para grelhar os petiscos, enfim, tudo isto junto é mais do mesmo, algo que se aproxima de um verdadeiro cataclismo natural.

4. Porque sou um intelectual que se dá geralmente ao respeito.

Bem vejo, por aí, nos blogs com pinta – isto é, naqueles que são escritos por intelectuais que se abespinham à brava quando alguém diz que eles são intelectuais – e também em alguns outros um pouquinho mais manhosos, que esta coisa de gostar de futebol é pecadilho a merecer, se não a forca, pelo menos o mais profundo, rotundo, definitivo e algo peneirento desprezo.

Ora bem, assim sendo, também por isto me conviria que a selecção levasse um enxerto já amanhã, quinta-feira e que, por isso, regressasse de imediato a penates. Devo confessar que, para alguém que gosta tanto de futebol quanto eu, não é nada fácil fingir – para dar uma de fino – que detesto aquela merda. Também não sendo, por assim dizer, especial ou particularmente cagão, por formação e por feitio, confesso que muito me custa por vezes atirar uns perdigotos para cima dos adeptos da bola, se bem que o mesmo já não suceda com os artistas da dita, porque a esses bem vou eu dando minhas porradinhas, de vez em quando.

Ao fim e ao cabo, o que interessa é que o fiasco da selecção será um tremendo alívio para quem anda aqui, penosamente, a disfarçar a sua admiração embevecida por tão ruim e proletária coisinha como é o futebol.

5. Porque sou mais patriota do que o Roberto Leal, e isso deve querer dizer alguma coisa.

Nada de confusões. Patriota é o gajo que grama à brava a sua Pátria. Logo, como eu não admito que me digam que gostam mais da minha Pátria do que eu, está bem de ver que, enfim, estamos esclarecidos. Agora, sabendo isto, vocês vejam lá bem: se a gente ganhar a taça, logo irão aparecer uns tipos mal intencionados, estrangeiros e tudo, a dizer que ganhámos mas foi à conta do Scolari, do Deco, do Pepe, do Murtosa e do Schneider – todos brasileiros, nem de propósito. Na volta, ainda há lá mais brasileiros, na selecção, a gente é que não sabe, deve ser segredo de estado. Depois há aquele outro, o Bosingwa, que veio lá do Congo, ou do pinóquio mais velho, enfim, outro estrangeiro, e sabe-se lá quem mais, por exemplo, o Cristiano Ronaldo, diz que já é meio Espanhol, mas não exageremos, se calhar isso é tanga para nos desmoralizar a nós e para chatear o Alberto João.

Seja como for, o mal já está feito e, assim sendo, estamos todos bem tramados, com F grande. Que se lixe a taça, como se costuma dizer. Os brasileiros que a levem e o diabo que os carregue a eles.

6. Porque eu cá sou mesmo, como dizia o outro, mas mesmo, mesmo, mesmo, eh pá, mesmo patriota.

Afinal, vamos cá a saber: quem é que eles pensam que enganam? Hmmm? Quero, dizer, mas que merda vem a ser aquela das bandeirinhas à janela? Aquilo é que é ser patriota? Ai é?

Então, quer-se dizer, por exemplo uma gaja podre de boa vestida com a bandeira nacional é, por inerência, além de boa, patriota até ao tutano e para além de qualquer dúvida? Como dizem os brasileiros, essa não. Tenham lá paciência, jovens. Não é um pano que faz a Pátria nem aquilo que o embrulha o que faz um patriota. Tomai e embrulhai, se fazeis o favor e a condizer.

Acho esta associação mental esférico-selecção-bandeira-pátria uma pinderiquice inqualificável, algo que apenas poderia ter sido espremida da cabecinha frenética de um qualquer estrangeiro mais brincalhão, ou coisa que o valha.

Acho bem que a gente goste de gajas boas, acho até que esse número da bandeira não é nada mal pensado, mas enfim, haja respeito, isto aqui não é propriamente o da Joana, gaja boa é gaja boa, bandeira é bandeira e, acima de tudo (como dizem os futebolistas), Pátria é Pátria.

E pimbolim é matraquilho, mas isso agora não interessa nada. O que interessa é que uma derrotazita, urgente e limpinha, retire das varandas toda essa tralha desrespeitosa e decrépita com que os portugueses adoram enxovalhar o país.

7. Porque aqui ao “je” ninguém come por lorpa.

Quando alguém diz que é “do Benfica” (ou “de” outro clube qualquer), isso não significa essencialmente coisa nenhuma. Olha, por exemplo, aqui eu; sou “do” Benfica, mas não sou “do Benfica”. Isso é que era bom.

Do mesmo modo, quando – se nos referirmos à selecção nacional – dizemos “nós ganhámos”, isso é uma calinada ainda maior do que dizer que se é “de” um clube qualquer. As aspas, bom povo; há que entender as aspas; aquele gestozinho que se faz com dois dedos de cada mão, quando oralmente, ou os dois risquinhos paralelos, em sendo na escrita, são coisas muitíssimo importantes.

Na selecção como, de resto, nos clubes, quem ganha alguma coisa com as vitórias – e quem perde com as derrotas – são os jogadores, os técnicos e os dirigentes. Nós não ganhámos, ganhamos ou ganharemos nunca, jamais, em tempo algum, porra nenhuma.

E é de certa forma reconfortante saber que, por outro lado, também não perdemos. Nesta perspectiva, toda a carreira da selecção no presente campeonato é a bem dizer a feijões. Pelo que o seu regresso sem mais delongas (até por falta de comparência) poderia ser bem mais compensatório do que esperar pelo jogo seguinte; se não for amanhã, há-de ser uns dias depois, e quanto mais tarde for pior será, porque maior a desilusão.

8. Porque já não suporto mais ouvir os futebolistas a falar sobre futebol.

Que diabo, esta razão não carece de grandes explicações e muito menos de considerandos. Aquilo é a desgraça total, pronto.

Sempre as mesmas perguntas, sempre dos mesmos jornalistas, e sempre as mesmas respostas, ad infinitum, ad nauseam, os mesmos lugares-comuns, as mesmíssimas observações inócuas, desconchavadas, por vezes ridículas, outras vezes confrangedoramente estúpidas.

Verdadeira tortura. Socorrendo-se por sistema dos tiques mais estranhos, desde coçar a orelhinha até tirar macacos do nariz, qualquer jogador nacional (ou nem por isso) persiste em massacrar os ouvintes com as suas “profundas reflexões” sobre as incidências de uma coisa a que chamam “os noventa minutos”.

Esta razão é uma excelente razão. Por mera economia de sanidade mental, só esta bastaria para qualquer mortal desejar ardentemente, digo mais, a exigir veementemente, que os “Viriatos” se estendam ao comprido com a Alemanha.

9. Porque já não suporto mais ouvir o povo a falar sobre futebol.

Bem, esta então é para escachar. Ora façamos um exercício muito simples. Fechemos os olhos por um momento. Imaginemos que tinham acabado as entrevistas de rua, os directos da Suíça, os gritinhos histéricos do gajame e as bojardas inacreditáveis do populacho, mai-las suas “opiniões” por igual eivadas de profundo patriotismo e de ainda mais profunda ignorância.

Pronto. Já podemos abrir os olhos. Hei. Psst. Pá. Toca a abrir os olhos. Alô? Pázinho? Bem, este adormeceu.

Ok. Adiante. Dizia eu. Hem? Não seria tão bom? Termos de volta algum sossego, alguma paz, sem pessoal aos gritos de “biba portugále”, podermos ir ao café tomar café, tornar a ver televisão enquanto se ferra uma valente soneca, voltar a ver filmes e telejornais e touradas e o Canal 2 outra vez como era! Hã? Não seria mesmo uma pequena maravilha?

Seria, claro que seria. Andem lá mas é com isso.

10. Porque já não suporto mais ouvir-me a mim a falar sobre futebol.

Herr. Harhum. Cof cof. Pois.

Epístola aos pósteros

Existirão razões, ainda hoje, para que se continue a publicar seja o que for “nisto dos blogs”? E, por maioria de razões, por que cargas de água há-de alguem vir agora cá meter-se também “nisto”?

A avaliar pelo cerco a que vamos sendo sujeitos, todos nós os que andamos “nisto”, parece que, respectivamente, não e muito menos. A chamada “blogosfera” não tem realmente qualquer futuro, pelo menos no fundamental e nos moldes em que a conhecemos: como era facilmente previsível, não apenas as altas instâncias se preparam para liquidar de vez o anonimato (isto é, a heteronímia no espaço virtual) como se adensam as nuvens da repressão, por cima das nossas cabeças; repressão institucional, coisa que já cá se sabia ir suceder a qualquer momento, e repressão auto-imposta, o que, não sendo igualmente novidade, não deixa de ainda assim surpreender.

E cada vez mais.

Por repressão auto-imposta refiro-me, em concreto, à progressiva, inexorável, sistemática, quase canina vigilância que meia dúzia de bloggers, acolitados por não desprezível soma de lacaios, exerce sobre os demais. Como vigilância implica, por definição e como objectivo, pelo menos alguma espécie de repressão, temos por adquirido que actualmente vivemos todos – se bem que de forma virtual – num local altamente vigiado.

A “blogosfera” estruturou-se à imagem e semelhança de qualquer sociedade humana; ou seja, além de estratos sociais demarcados (os três estados medievais, clero, nobreza e povo), o país dos blogs conta hoje com todo o género de polícias – além da judiciária propriamente dita, temos por aqui também as brigadas de costumes e de estrangeiros e fronteiras -, incluindo a mais perigosa de todas, a polícia mental; já não bastava a censura que, de forma mais ou menos consciente, cada qual vai impondo a si próprio, por causa das conveniências e por causa das moscas, e ainda por cima agora temos de levar também com as varejeiras em geral, quero dizer, a fidalguia blogosférica, o jet-set da pantalha, a canzoada a ressumar pedigree, em suma, os “blogalgos”.

Estes tipos, que por circunstâncias várias (facilmente enumeráveis) conseguiram alguma coisa parecida com aquilo que julgam ser “notoriedade” ou, pior ainda, “importância” (tradução, umas centenas de visitantes por dia), tendem a comportar-se neste milieu com a subtileza de um paquiderme em loja de porcelanas: geralmente por interpostos emissários, mandam recadinhos semelhantes a ordens, com o intuito de meter na ordem esta ou aquela ovelhinha que, por exemplo, cometa o pecado de em momento algum lhes não prestar qualquer espécie de vassalagem. São uns cómicos, se bem que algo perigosos – em deixando a gente a coisa descambar para o chinelo, para a peixeirada.

É a esta espécie de “eleitos” que pelos vistos cabe a tarefa de espalhar, com parcimónia, umas migalhas de atenção por este e por aquele, por um lado, e de distribuir cachaporra rija nas carolas mais rebeldes ou naqueles que, no seu elevadíssimo ponto de vista, representam alguma espécie de ameaça para a ordem (por eles mesmos) estabelecida.

Note-se que já todos conhecem perfeitamente, por assim dizer, o regulamento, o catecismo, a cartilha de procedimentos: por exemplo, não é qualquer um que pode comentar; não, não é bem assim, mesmo em sistemas de comentários “sem moderação”. Primeiro, antes de decidir se apagam ou se simplesmente ignoram, há que ver qual é a pinta do animal. Depois, dependendo em absoluto da referida pinta, do dito animal, levará uma respostazinha ou não, consoante a sua categoria na escala social: povo (não chega a 100), clero (não vai aos 500, mas anda lá perto) e nobreza (mais de 1.000 “unique visitors” por dia). E aquilo que vale para a respostazinha da ordem (ou não), vale também para a referência, o sacrossanto “link”, o sinal da cruz com que se reconhecem os membros da congregação, e, finalmente, a distinção máxima, a citação – essa espécie de água benta virtual com que abençoam os poucos escolhidos, de entre os muitos chamados a dar-lhes palmadinhas nas costas e a lamber-lhes as partes vergonhosas.

Repare-se como os gajos, que não passarão dos 20 ou 30, por junto, se dão ao desplante de escrever apenas entre si, unicamente inter pares, fazendo questão de ostensivamente ignorar qualquer comentário, referência ou citação que não provenha de um membro da sua própria “estirpe”. Note-se que, ainda há não muitos anos, eu arrumava a questão, com imensa elegância e com a agudeza de espírito que a juventude confere, tratando esse tipo de gente simplesmente por “cambada de cagões”; e pronto, não lhes passava mais cartucho, assunto arrumado.

Mas agora feneceu-se-me a pachorra, por um lado, e ensinou-me a experiência, por outro, que a maior parte dos recém-chegados não faz a mais pequena ideia daquilo em que se está a meter, quando por sua fatalidade aterra neste imenso antro de emiratos… virtuais e por vezes surrealistas. Não há aqui mais espaço algum, nem para mais emires nem para mais súbditos. Não existe mais qualquer margem para a originalidade, nem para a criatividade, nem sequer para qualquer espécie de talento. Não há mais margem de progressão nem lugar ao mérito. Tudo se resume a jogos de interesses, a estratégias de conveniência, a troca de bajulações e a alianças pontuais, calculadas e carregadas de cinismo.

Há que alertar os que agora chegam, nitidamente ao engano, que se procuravam um espaço aberto e livre, ele desde há muito se finou; que se porventura queriam um meio de expressão fácil e gratuito, pois bem podem começar a contar os tostões; que se pretendiam fazer parte de uma comunidade solidária, aberta, democrática, então o melhor é tirarem o cavalinho da chuva ou darem a volta ao dito cavalo; que se queriam mesmo que fosse apenas uma ínfima parte de atenção, uma pequeníssima ração de leitores, amigos, conhecidos, que eles vos dessem uma simples colher de chá, pois nem isso, nada feito – acabaram-se as rações, agora nem de feno, está tudo reservado para as excelentíssimas cavalgaduras.

Disto releva, portanto, a filantrópica intenção de ao menos avisar a malta, de deixar umas palavrinhas de conforto para todos aqueles iniciados que, almejando porventura que alguém lhes dê um pouco de valor, ou, se calhar, quem sabe, que lhes toque um módico de “glória” literária, ou lá que porra é que almejam hoje em dias os bloggers imberbes. E essas palavrinhas singelas, pois que a mais não sou obrigado, seriam talvez, por conseguinte, completamente grátis e não carecendo de troco, as que se seguem.

Rapaziada, vós que agora estais a fim de começar a publicar umas coisas nisto dos blogs, olhai, moços e moças do meu país digital, parai um pouco e reflecti, atentai nesta verdade insofismável, se bem que um bocadinho chata: em verdade vos digo, esta merda já deu o que tinha a dar.

Les misérables

Atenção: este post não é para ser lido por ninguém. Dada a sua absurda extensão e o rompimento absoluto que manifesta com as mais elementares regras “bloguísticas”, toda a gente que por acaso aqui passe deve abster-se de sequer arriscar meter-se a ler semelhante coisa. Pela presente chamada de atenção, o autor declara – e vai avisando, para que depois o não chateiem – que, à uma, cada qual é livre de escrever qualquer merda que lhe vier à cabeça e, às duas, que simplesmente (desta vez) não lhe apeteceu guardar o escrito em outro suporte qualquer. Fica feito o aviso. Click aqui para jogar sudoku.

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