Medina Carreira

Caramba! E não há mais gravações de Medina Carreira na YouTube? Só estes 6 videoclips, apenas estes 44 minutos e 8 segundos de lições, no total?

Algumas frases lapidares.

  • O país não se mobiliza com conversa.
  • O país precisa de medidas que o ponham a andar, não é para a conversa fiada da legislatura
  • Conjunturalmente, não se faz nada; é tudo conversa.
  • Andamos a ser enganados todos os dias por esta gente.
  • Nós não vamos mudar este ciclo nem com este governo nem com outro.
  • Não cuidamos de nada do que está a minar os alicerces da nossa sociedade.
  • Temos andado a ser enganados dando a ideia de que o país anda a reboque do que os governos fazem, uma mentira.

E tem lá muito mais cores.

1,5% de Portugal

(…)
É bom para os países envolvidos o fato de todos escreverem o idioma oficial da mesma maneira? As opiniões divergem. Apesar de cada país continuar falando a língua da maneira que falava, a grafia unificada significa avanço para uns e desperdício para outros. Em Portugal, as mudanças serão um pouco mais acentuadas – 1,42% contra apenas 0,43% no Brasil – e lá também as opiniões se dividem. A classe intelectual, segundo a imprensa, acha que é uma decisão política, que significa ceder a interesses do Brasil, onde há a maior quantidade de pessoas falando a língua portuguesa no mundo.
(…)

Luís Carlos Amorim, A Língua Portuguesa Unificada, Liberal Online (reproduzido pelo DN)

“1,42%”? Não será antes 1,5% ou 2%? Ou mesmo 3%, como há quem diga? Afinal, de onde vieram estes números? Que estudos existem mostrando com algum módico de rigor o impacto real que viria a ter, caso fosse realmente aprovado, o Acordo Ortográfico no Português padrão?

Pelo menos que se saiba, não existe absolutamente nada disso, nem estudos nem – muito menos – rigor. Provavelmente, se bem que nada esteja à vista ou localizável, alguém se entreteve a contar automaticamente, a partir de uma base lexical, aquelas palavras que o dito A.O. prevê sejam afectadas pelas “novas regras ortográficas”. Segundo diz uma engraçadíssima página da CPLP (Perguntas Frequentes sobre o Acordo Ortográfico), seriam apenas “pouco mais de 2.000 palavras num Universo de 110.000”. Aquele “Universo” ali, com maiúscula e tudo, já nos poderia levar a suspeitar do rigor científico da coisa, mas adiante. Porquê 110.000? Porque não 200.000 ou mesmo mais do que isso? Foram apenas “contabilizados” lemas ou todos as palavras derivadas, compostas, justapostas, flexionadas?

Bem, e afinal para que é que isso interessa? Faria diferença se os resultados, vistos desta forma contabilística, fossem diferentes – para mais ou para menos?

Não, não faria diferença alguma. O que faz diferença, isso sim, é que apenas alguns mexam naquilo que é de todos. Isso sim, isso faz toda a diferença; 100% de diferença, para ser exacto. A nossa Língua é património nosso, algo que recebemos dos antepassados e que temos a obrigação de legar aos vindouros… o mais intacta possível.

Mas enfim, seja pelas alminhas, ou pelo apego ao rigor, como se queira. Deu uma trabalheira ligeiramente insana, mas aí está. Posso afirmar, com base nos resultados que eu próprio obtive, a partir de uma lógica de amostragem que me parece suficientemente sólida1, que de facto as alterações previstas pelo A.O. afectariam 1,5% das palavras escritas em Português europeu; não duas nem 3, mas uma palavra e meia em cada cem palavras; ou seja, exactamente, uma média de três palavras em cada duzentas.

Parece pouco, afinal, não parece? Pois parece.

Mas não é. É muito. É muitíssimo.

Retirar apenas 3 pedras em cada 200, dos milhares de blocos sólidos que formam o Mosteiro dos Jerónimos, por exemplo, iria certamente fazer ruir todo aquele imenso edifício e, com ele, demoliríamos assim, em alguns segundos, algo que levou décadas a construir e que representa séculos de História.
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Google Chrome: 20 valores

Google Chrome

Este é o “browser” ideal para todos, desde o “geek” mais parvinho até ao maior cromo dos cromos. Aquilo instala-se sozinho, arranca sozinho, importa tudo sozinho e só não navega sozinho porque ainda não se pode ter tudo e porque não pode adivinhar onde é que a gente quer ir.

Sem complicações ou trapalhadas técnicas, o Google Chrome é muito mais rápido do que todos os outros “browsers” e promete não empancar à mínima dificuldade, o que já não é pequena vantagem em relação à (agora obsoleta) concorrência. Tem controlo de falhas incorporado, histórico visual manuseável, desmontagem de código, registo de páginas mais visitadas, além de uma série de outras ferramentas absolutamente indispensáveis para quem anda “nisto dos blogs” ou para quem simplesmente “anda nisto”. Ainda mais importante, engloba a maior parte das características dos programas de navegação concorrentes, corrigindo os erros típicos, mais conhecidos e irritantes de qualquer deles.

Não precisa de desmontar o Internet Explorer, o Opera, o Firefox ou qualquer outro programa de navegação para instalar este, que, além do mais, é comparativamente pequeno (em tamanho físico, não em capacidades).

Vale a pena pelo menos experimentar o Google Chrome (para Windows Vista/XP), mas vai ver que ao fim de cinco minutos já não quer outra coisa.

Google Chrome

Casa ímpia

Casa Pia
Paulo Pedroso ganha acção contra o Estado

O ex-dirigente socialista Paulo Pedroso ganhou a acção interposta contra o Estado por prisão ilegal no processo da Casa Pia, anunciou hoje o seu advogado, Celso Cruzeiro

• Manuel Alegre espera que decisão a favor de Pedroso «sirva de exemplo» para o futuro
• Sócrates lembra que «viveu intensamente» processo no Partido Socialista

Semanário Sol

Se bem entendi, numa atitude absolutamente sem precedentes, o Estado português (poder judicial) acaba de condenar o Estado português (poder executivo) por “erro grosseiro” na aplicação da Justiça (poder judicial).

Parece-me um excelente precedente – já que fará com certeza jurisprudência – para que as vítimas do Processo Casa Pia processem o Estado português (poderes legislativo, executivo e judicial) por “erro grosseiro” na condenação de inocentes a longas penas de prisão e a todo o tipo de sevícias, em instituições oficiais decadentes e absolutamente inadequadas, expondo-os a toda a sorte de perigos, incluindo o das suas próprias vidas.

Aliás, esta tese do precedente já foi reconhecida por um alto dirigente socialista, acima citado, dizendo esperar que esta decisão judicial “sirva de exemplo para o futuro”. Nem mais.

Quaisquer 100.000 Euros de indemnização a cada uma dessas vítimas – incluindo as que não se queixaram até hoje – seria uma sentença bastante razoável e, pelos vistos, perfeitamente espectável.

Apenso, 03.09.08 – 14:30 h

Estatísticas de jurisprudência: 100.000 Euros (20.000 contos) em 145 dias representam € 689,66 (138 contos) por dia, ou seja, € 28,74 (5.747$00) por hora.

Estas contas à moda dos merceeiros podem servir para cálculo futuro das indemnizações por “erro judicial grosseiro”, se bem que a coisa possa não ser assim tão pacífica; existe pelo menos um outro acórdão em que as coisas não se passaram do mesmo modo nem as contas foram rigorosamente as mesmas.

NIV; habituem-se a este acrónimo

secure plate

Afinal, o que vem a ser ao certo o tal “chip” nas matrículas dos automóveis?

A tecnologia já existe há uns anos, de facto, e foi denominada como “Electronic Licence Plate“, um dispositivo destinado a combater não apenas o furto das matrículas propriamente ditas, mas também, ou principalmente, das viaturas que as ostentam. Além de incorporar um elemento electrónico (o tal “chip” de que se fala), esta chapa de matrícula – que, de chapa, já não tem nada – utiliza uma tecnologia (da inglesa Hills Numberplates) que inviabiliza na prática a sua desmontagem, troca ou utilização em veículo diferente daquele em que foi montada inicialmente.

Existe um filme1 que explica o que é a e-Plate (e-matrícula, em tradução livre), para que serve e como funciona o NIV (Número de Identificação do Veículo).

Este é um filme publicitário, que representa o ponto de vista do fabricante e da firma que comercializa o produto. Logo, quem desenhou e produziu o videoclip quase nos convence de que aquilo é realmente necessário; é para isso mesmo que existem especialistas em publicidade e em marketing, para convencer as pessoas de que os produtos são bons, são excelentes, são indispensabilíssimos, são de tal forma maravilhosos que não se percebe como diabo pudemos nós viver sem eles até hoje.

Confesso que eu cá era já, caso tivesse um carro que valesse o investimento. E acho mesmo que a coisa pode ser muitíssimo interessante para as rodoviárias, os transitários, os gestores de frotas, os “rent-a-car”, para o próprio Estado, e também para uma enormidade de proprietários individuais de automóveis valiosos ou mesmo para outros que nem tanto assim.

A questão essencial permanece: assim como se pode instalar dispositivos GPS em automóveis, este outro poderá ser um sistema anti-roubo mais barato, complementarmente ou em exclusivo; e este, em particular, com a nada desprezível característica de (até ver) inviabilizar o roubo das próprias “chapas” de matrícula; mas a decisão de instalar qualquer destes dispositivos continua a ser absolutamente individual – não há o mais leve vislumbre de obrigatoriedade, nem no Reino Unido, nem nos Estados Unidos da América, nem na China.

Já me fartei de esgravatar a Web, à procura de resposta a esta perguntinha muito simples: em que países do mundo, neste e não em qualquer outro planeta, é obrigatória a colocação de e-matrículas?

Parece que vou ter de esgravatar bastante mais; até agora não achei nada, mas talvez haja. Que diabo, não é possível que apenas em Portugal, num só iluminado Governo, alguém se tenha lembrado de tornar geral e obrigatória aquela coisa da e-matrícula!

Ou será mesmo possível?

cá está o bicho, digo, chip

Glossário
NIV – Número de Identificação do Veículo (VIN, no original em Inglês, Vehicle Id Number)
EVI – Electronic Vehicle Identification (IEV, Identificação Electrónica do Veículo)
e-Plate: “e-matrícula”, matrícula electrónica em veículos automóveis
Secure Plate: “chapa” de matrícula anti-roubo constituída por peças que se desfazem na desmontagem.
ELP, Electronic License Plate: equivalente a PME, Placa de Matrícula Electrónica

1 Este filme não está disponível para partilha, a não ser… roubando-o.
Imagens de www.e-plate.com e de Hills Numberplates

Savage…

Is McCain Throwing The Election?

McCain has thrown the election. It is clear now with his choice for Vice President that he has no desire to win in November. Why else would he chose an inexperienced woman, whose only apparent qualification is that she won a beauty pageant in the 1980s? Why else would he refuse to say Barack Hussein Obama’s middle name? Why else would he run an ad praising Obama and congratulating him for winning the nomination?

If McCain had chosen Mitt Romney, a man with real leadership ability, real charisma, and real experience, he might have stood a chance. He could have made up for his lack of energy in confronting his opponent, his useless pandering to liberals, and his refusal to expose Obama’s leftism and inexperience. Instead he trumped inexperience with more inexperience. Obama, for all his far-left socialism, picked a running mate who is perceived as giving the ticket more experience. McCain, in defiance of all logic, undermined his strong suit by selecting a political neophyte who waters down his key advantage over Obama.

Of course, I can hear the calls already. Mike, you should give her a chance, she’s a real conservative. Mike, he’s just doing this because he knows he has to pander to win. Mike, isn’t it great that he picked a woman. Wrong, wrong, wrong. Picking someone because of their sex instead of their ability is the same kind of affirmative action insanity that the Democrats have shoved down our throats. We don’t want a panderer, we want a president. If he had chosen a woman who was a real nationalist with a real resume, I would have said, “Right on, John.” But McCain has dropped the ball, thrown in the towel, and raised the white flag. And a generation of Americans will pay for his mistake.

Michael Savage

“desobediência civil”

Acordo ortográfico: pareceres ignorados, deveres do Estado e direitos dos cidadãos

Escrito por António Emiliano
01-Set-2008

No próximo dia 25 de Setembro a Comissão de Ética, Sociedade e Cultura da Assembleia da República ouvirá um grupo de signatários da petição “Em Defesa da Língua Portuguesa Contra o Acordo Ortográfico”, a qual recolheu desde 2 de Maio mais de 92 000 assinaturas. Posteriormente, o plenário do parlamento terá ocasião de, nos termos da lei, apreciar a petição.

Como coautor e signatário dessa petição, entendo que, neste momento, mais do que apontar as já conhecidas deficiências do Acordo Ortográfico de 1990 (AO) e as consequências desastrosas da sua entrada em vigor em Portugal, importa sublinhar o facto de este documento ter sido elaborado, aprovado e ratificado sem a necessária discussão pública, e denunciar o facto de pareceres idóneos terem sido desconsiderados e ignorados. Importar ainda recordar alguns deveres do Estado e direitos dos cidadãos desta república, a propósito desta questão.

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa diz nos considerandos preambulares: “[…] o texto do Acordo que ora [12 de Outubro de 1990] se aprova resulta de um aprofundado debate nos países signatários”. É falso.

O considerando contido no texto do AO, assinado por sete governantes lusófonos e aprovado pela Assembleia da República, contém uma falsidade gritante, uma mentira de Estado: o Acordo de 1990 nunca foi objecto de discussão pública, nunca foi objecto de discussão científica. Não há, de facto, qualquer registo de uma tal discussão: não há actas publicadas de encontros científicos (colóquios, congressos ou seminários) promovidos pelo Estado ou pela Academia das Ciências de Lisboa, não se conhecem quaisquer relatórios elaborados e publicados pela Academia ou por qualquer dos negociadores portugueses dos Acordos Ortográficos de 1986 e 1990. Tudo o que existe, em termos oficiais, é a “Nota Explicativa do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (1990)”, o anexo II do Acordo, um texto pejado de problemas e deficiências técnicas.

Contra o AO, existem diversos pareceres técnicos de entidades idóneas ou personalidades qualificadas (que têm sido ignorados e esquecidos) e um ‘corpus’ significativo de artigos de opinião de autores qualificados.

A reforma de 1986 foi rejeitada pela opinião pública portuguesa e o texto de 1990 é uma versão mitigada desse projecto de acordo; ora, nenhum dos acordos foi debatido em sede idónea e muitos dos fundamentos da rejeição do projecto de reforma de 1986 mantêm-se intactos no Acordo Ortográfico de 1990, a saber, a supressão de letras consonânticas ditas mudas (letras consonânticas em final de sílaba gráfica sem prolação1), a alteração das regras de hifenação, supressão de acentuação gráfica em determinadas palavras e mudanças nas capitalização de certos nomes próprios.

A Constituição Portuguesa declara que “todos os cidadãos têm o direito de ser esclarecidos objectivamente sobre actos do Estado e demais entidades públicas e de ser informados pelo Governo e outras autoridades acerca da gestão dos assuntos públicos.” (Constituição da República Portuguesa, Cap.º II, Art.º 48.º, n.º2).

Ora, um dos aspectos mais atrozes do Acordo Ortográfico de 1990, a consagração de grafias duplas (que em determinadas palavras e combinatórias resulta em multigrafias) — aspecto que põe em causa a subsistência do próprio conceito de ortografia — não foi debatido em nenhuma instância ou fórum representativo e qualificado da sociedade portuguesa.

A Constituição da República Portuguesa, no Artigo 9.º, que define as Tarefas fundamentais do Estado, protege explicitamente o património cultural do povo português, o ensino e o uso da língua portuguesa:

“São tarefas fundamentais do Estado:

[…]d) Promover o bem-estar e a qualidade de vida do povo e a igualdade real entre os portugueses, bem como a efectivação dos direitos económicos, sociais, culturais e ambientais, mediante a transformação e modernização das estruturas económicas e sociais;

e) Proteger e valorizar o património cultural do povo português, defender a natureza e o ambiente, preservar os recursos naturais e assegurar um correcto ordenamento do território;

f) Assegurar o ensino e a valorização permanente, defender o uso e promover a difusão internacional da língua portuguesa;[…]” (Constituição da República Portuguesa, Cap.º I, Art.º 9.º).

O AO, pelo simples facto de consagrar a existência de grafias duplas de forma irrestrita, constitui atentado grave contra a integridade do conceito de ortografia, logo, atentado contra a qualidade do ensino e contra o desenvolvimento. A ortografia não é apenas património cultural do povo português: sendo um sistema de codificação da língua escrita, o domínio da ortografia é a ferramenta que dá acesso a todas as áreas do saber. A estabilidade ortográfica é, portanto, um bem que importa preservar: pôr em causa a estabilidade ortográfica é atentar contra a qualidade do ensino, contra a integridade do uso da língua e contra o desenvolvimento cultural e científico do povo português.

Importantes pareceres técnicos muito críticos dos acordos de 1986 e de 1990 emitidos por instituições idóneas, como a Comissão Nacional da Língua Portuguesa (CNALP), a Direcção Geral do Ensino Básico e Secundário, o Departamento de Linguística Geral e Românica da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que apontam as gritantes deficiências técnicas dos Acordos de ’86 e de ’90, foram ignorados pelos decisores políticos em 1990 e 1991.

No parecer da Direcção-Geral do Ensino Básico e Secundário de 1991 lê-se:

“Há acordos assináveis, sem grandes problemas e há outros que são de não assinar. O acordo recentemente assinado tem pontos que merecem séria contestação e é, frequentemente, uma simples consagração de desacordos.”

Há quatro pareceres de linguistas elaborados em 2005 a pedido do Instituto Camões e emitidos pela Associação Portuguesa de Linguística (APL), Departamento de Linguística da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC) e Academia das Ciências de Lisboa.

Os três primeiros apontam problemas graves ao Acordo. Por que razão não foram divulgados antes de 2008 está ainda por esclarecer; está também por esclarecer por que razão o parecer favorável a aplicação do AO da Academia das Ciências de Lisboa foi feito por Malaca Casteleiro, um dos autores do Acordo (!).

O parecer da APL é exemplar e é peça fundamental para a apreciação adequada da actual questão ortográfica: em meia dúzia de páginas mostra de forma muito clara e concisa os diversos problemas e erros de que padece o Acordo. O parecer afirma inequivocamente no seu preâmbulo, entre outras coisas, que:

a) “não tendo o Acordo Ortográfico de 1990 […] sido objecto de análise técnica rigorosa por parte da comunidade científica, parece-nos prudente suspender quaisquer actos que tornem irreversível a sua aprovação pelo Governo Português, nomeadamente, os que conduzam à ratificação dos dois Protocolos Modificativos de 1998 e de 2004” e

b) “a adesão ao Protocolo Modificativo de 2004 criaria uma situação de não uniformização da ortografia da língua portuguesa entre Portugal e Angola e Moçambique, países cujo número de falantes do português como língua materna e como língua segunda tem crescido notavelmente, e nas relações com os quais a questão ortográfica nunca se colocou.”

Lê-se, ademais, nas conclusões do parecer:

“Em conclusão, por todas as razões acima aduzidas, a Associação Portuguesa de Linguística recomenda:

1. Que seja de imediato suspenso o processo em curso, até uma reavaliação, em termos de política geral, linguística, cultural e educativa, das vantagens e custos da entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990.

2. Que, a manter-se o texto actual do Acordo, Portugal não ratifique o Segundo Protocolo Modificativo2.”

Não seria possível ser-se mais claro, e também, mais incómodo.

De facto, este parecer inconveniente de 2005 foi ignorado e esquecido, e só em 7 de Abril de 2008, por ocasião da Audição Parlamentar sobre o Acordo Ortográfico, foi tornado público por iniciativa da própria Associação dos linguistas.

Perante uma situação destas,

– em que pareceres idóneos que alertam para as múltiplas deficiências e perniciosas consequências desta reforma que nos querem impor sem discussão, sem apelo nem agravo, são ignorados,

– em que ministros do governo português nos tentam vender o mito (para não dizer quimera, ou, simplesmente, disparate) de uma Grande Lusofonia Unificada – em vez de abordarem os enormes problemas de desenvolvimento cultural, científico e intelectual do nosso país –, usando o AO como peça dum jogo de xadrez diplomático e económico cujos contornos exactos ainda se desconhecem e escapam à população em geral (que terá no, entanto, que lidar quotidianamente com o desconchavo da nova ortografia),

– em que o silêncio dos Ministérios da Educação e da Ciência sobre esta questão é cada vez mais ensurdecedor,

– em que auto-proclamados donos da ortografia proclamam a inocuidade da reforma, o baixíssimo impacto da mesma e as enormes vantagens da “unificação” e da “expansão” da língua, numa sucessão de asneiras sem qualquer sustentação científica (e se entretêm a qualificar de “salazaristas”, “retrógrados” e “fundamendalistas” os que com base e conhecimento científico se opõem ao “monstro acordortográfico”), e

– em que o Ministro da Cultura demonstra desconhecer o teor do Acordo, proferindo na imprensa brasileira e portuguesa uma série de barbaridades sobre língua e cultura portuguesas,

entendo que a desobediência civil e a objecção de consciência, no exercício de uma cidadania plena, empenhada e esclarecida, serão inevitáveis se se chegar à situação lamentável de o crime de lesa cultura e lesa língua, que é o Acordo de ’90, vir a ser aplicado em Portugal.

Diz o Artigo 52.º da Constituição:

“É conferido a todos, pessoalmente ou através de associações de defesa dos interesses em causa, o direito de acção popular nos casos e termos previstos na lei, incluindo o direito de requerer para o lesado ou lesados a correspondente indemnização, nomeadamente para […] promover a prevenção, a cessação ou a perseguição judicial das infracções contra a saúde pública, os direitos dos consumidores, a qualidade de vida e a preservação do ambiente e do património cultural” (Constituição da República Portuguesa, Cap.º II, Art.º 52.º, n.º3).

Combater e denunciar o “monstro acordortográfico” é um imperativo nacional e cultural. É também o exercício de direitos constitucionalmente garantidos. O Acordo Ortográfico de 1990 — que não pedimos, não queremos, e de que não precisamos — é, objectivamente, um atentado contra o nosso património, contra o nosso povo e contra o nosso desenvolvimento.

Enquanto há língua, há esperança.

1 prolação, s.f. acto ou efeito de proferir; pronúncia
2 aprovação publicada D.R. 145 de 29.07.08

Destaques a “bold”, links e anotações de Apdeites.